sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

 Hoje sonhei que estava a ficar com o cabelo branco. Estava ao espelho e constatava que aquela meia dúzia que me acompanha há uns anos se tinha multiplicado, que começava realmente a notar-se, isso de estar a ficar com o cabelo branco. E olhava e olhava e não sabia bem o que pensar ou sentir, mas na verdade quando acordei o que achei curioso foi que não punha a questão de o pintar. No sonho, isto é. E depois, acordada. Devo ter pintado o cabelo, até hoje, umas três vezes e sempre por curiosidade de como ficaria, e sempre temporário, com produtos que vão saindo com a lavagem. E fiquei a pensar, será que daqui a, sei lá, um ano vou ter de começar a pintar o cabelo? Então e se não pintar? Tenho pouco e fino e se ele desiste de mim com essa ofensa? Humm...? E depois? E agora, enquanto o almoço faz plantei-me à frente do espelho, e a verdade é que já tenho uns quantos, e vários compridos, do tamanho dos outros, dos que não são ovelhas brancas... acho que ainda não se nota, mas eu já noto qualquer coisa... uma relutância em negar o tempo, mas o tempo o dirá. Negar o óbvio torna-se muitas vezes apenas ridículo, outras revela-se uma necessidade. Às vezes acumulam-se as duas... Por enquanto acho que olho para o facto - e ele para mim - com um olho aberto e outro fechado, entre o espanto e a naturalidade, a incredulidade e a aceitação.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021



COMÉDIA

Vazio. Queixa-se
de vazio.
E nisto esvazia o outro
tão cheio
disto tudo.

Daniel Jonas


Vazio é um sítio onde deviam estar coisas, ou que já estiveram. O mais difícil é esvaziá-lo, reduzi-lo a nada, à ausência das ausências, das faltas, das falhas. Ao pré-vazio. 
O verdadeiro vazio está cheio de coisas a lembrarem de o lembrar.  E não sem o sentir todo - tudo o que nos desgasta, nos esmaga, nos enche e falta -, atravessa-nos a alma até aos ossos, despojada de tudo menos do que a queríamos esvaziada. 
Uma gota de água no vazio pode transbordar. E é a ironia que faz o riso.

domingo, 7 de fevereiro de 2021

[não sei de quem é a foto, mas apaixonei-me por ela, e sei dum sítio onde ficava bem, assim a preto e branco e em dimensões generosas, pendurada na parede ]


Domingo. A amálgama de ternura que a paixão deixa nos corpos, esparramados e estarrecidos. Embrulhados e envolvidos em silêncios como hinos ao amor, diálogos inconfessáveis e inexplicáveis, orações de pele a um deus só nosso. 

Há dias - ou momentos até, que são como dias inteiros -, que não se explicam, onde cabe o tempo de gostar e desejar, pleno, inesgotável, que correm a vida toda, imóveis, completos. Como se amanhã fosse outra vez domingo, por momentos, e sem ninguém saber. Ou daqui a pouco, entre ir deitar o lixo e ir buscar lenha. Ou entre uma linha que se lê e outra que nos perdeu. 

sábado, 6 de fevereiro de 2021

Uma esperança disfarçada de lobo.
Não será a vida toda isso?
Querermos ser o que sendo, nunca somos,
a não ser quando alguém nos mostra, nos sente, nos prova, nos é.
E é tão difícil e assusta, o sermos melhores, o sermos o melhor que poderemos ser, mas sê-lo apenas na entrega. Mas parece a única esperança, se dobrarmos o lobo. 
[foto @ezgipolat]

Quando lês a palavra amor em quem é que pensas, sem saber que pensas?  Quando te falam de colo, onde vais parar sem dar conta?  Quando ouves a palavra riso, quem é que aparece, na tua cabeça, a rir ?  Quando vês um beijo, que boca sentes na tua?  Quando, à noite, fechas os olhos com quem dormes?

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

[foto @wieselblitz]

 Aiiiiii que sono...

Esta coisa de estar metade em layoff mas trabalhar o mesmo não é bonito, é só parvo. Acordo com a sensação que não, nunca aprendo. Bem ou mal, as pessoas mudam muito pouco. E o meu sono não muda nada.... porque é que só gosto mesmo de dormir de manhã? ... que raio! Ontem à noite podia ter ido para a cama cedo, não era?...mas não, não apetece. Apetece é ir agora...

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

 ... porque temos de ter qualquer coisa que anime, e dizem que uma imagem vale mais que 1000 palavras (mas eu acho que é mentira, é o gesto que vale isso tudo e mais)

... porque há coisas em que vale a pena arregalar as vistas, e fechar os olhos.

... porque adoro mãos, mas gosto de pescoços assim, e dum peito para descansar dos dias e percorrer com a ponta dos dedos todas as noites.

... porque o moço tem partes fotogénicas, e nota-se. 

... e porque ficaram-me os olhos aqui e a alma bateu asas, perdida em imagens e em sítios que vejo daqui.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021



 Hummmm...

Há dias em que realmente não sei responder a isto ...

... e apetece não desperdiçar gentileza, e deixar o martelo fazer a gentileza de expressar o nosso apreço...

domingo, 31 de janeiro de 2021

 

E então? Era isso?

Só quando se tem o que se queria ter é que sabemos se realmente o queremos, ou melhor, se é o que precisamos para sermos felizes. 
Normalmente, quando desejo a alguém que seja feliz, quando acho que realmente o merecem, não lhes desejo o que querem ou pedem, mas o que precisam. Outras vezes há, em que desejo que as pessoas tenham exactamente aquilo que escolheram... que é como quem diz que tenham o que mereçam, seja lá isso o que for, como quem lava disso as suas mãos, até no que se lhes deseja diz respeito. Mas é raro fazê-lo, normalmente nestes casos não digo nada, penso e calo. Mas já aconteceu dizê-lo. 
Já eu, não tenho esse problema, raramente tenho o que quero, o que desejo, logo é difícil saber se o que quero me faria mais feliz, ou não. Ainda assim, tudo são escolhas, mesmo que escolhas limitadas ao que  está ao alcance das nossas opções, as alternativas que podemos escolher. Nem tudo está nas nossas mãos, às vezes nem o que desejamos.

(não sei se era suposto ser uma pergunta, mas quando li, foi assim que li, como questão. mas pode bem ser uma afirmação: lembra-te quando querias o que agora tens, dá-lhe valor. Também pode ser assim, mas eu talvez continue afinal uma moça de perguntas, apenas diferentes. E habituada durante tanto tempo a não ter respostas, em vez de as esperar, procuro-as na própria origem da pergunta, em mim. Quantos de nós saberão realmente do que precisam para ser feliz? Conseguimos ir além da educação que nos deram, das normas que a sociedade impõe, e que nos restringe? Do que pensamos poder escolher ou estar ao nosso alcance? Quanto do que precisamos queremos, e quanto do que queremos, realmente precisamos? Quanto do que tens, quiseste? E quanto do que queres, realmente precisas? Quem és realmente? Quantos sabem responder?)

sábado, 30 de janeiro de 2021

 "Sou jovem e tenho a vida toda pela frente. Eu sei disso. 

Não vou dar graxa à felicidade. 

Se aparecer, óptimo. Se não, quero lá saber. 

Nós os dois não somos compatíveis."

[no fim do filme (Uma vida à sua frente) em delicioso italiano, tive de voltar atrás por este bocadinho, esta meia dúzia de frases que me acompanharam num recanto do silêncio que se guarda enquanto se ouvem, e vêem, outras coisas. "Não vou dar graxa à felicidade": foi aqui que me agarrou, que se instalou pelo avesso. Parece-me uma grande verdade, quanto mais (e apenas) se quer, menos se consegue, menos nos encontra, menos interesse tem em nos encontrar. Surge quando não se procura, quando até se acha que já a trazemos. Se depois esbarramos nela, é como esta meia dúzia de frases: fica-nos por dentro, como um silêncio que se ouve sempre, até quando não há silêncio. 
a música fecha o filme, mas não o encerra. parte-lhe a casca, escancara-o. estamos sempre aqui para as pessoas que gostamos,  é talvez isso gostar delas - talvez só isso, e sempre - mesmo quando aqui não é um sítio, mesmo quando não estamos... como aquele silêncio debaixo de todos os sons, de tudo. daquela felicidade a que se dá graxa.]


quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

 Fumo um cigarro à varanda e do outro lado da rua, um moço, dum lado para o outro, fala ao telefone, muito interessado e compenetrado. Não triste, não alegre, só com muito assunto, que isto já dura há um bocado... só me ocorre que o assunto seja de coração, que haverá do outro lado, alguém que pelo telefone, lhe agarra o coração. Já ele não aparenta o descanso ou a felicidade de saber que toca o coração de quem lhe fala, mas não posso deixar de pensar que disso tem vontade. Ainda assim, a conversa deve ser quente porque o moço, com este frio, tem só uma t-shirt em cima do pelo... ou tem o termóstato avariado ou é moço de muita quentura...

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

 

[@ondejazzmeucoracao]

Este tempo fechado há tantos dias abre a melancolia, uma certa doçura triste, uma certa disposição para cair para dentro de tudo. De nós, do tempo que passa, do cinzento que os olhos comem quando olham pela janela. Se posso estar à lareira com um livro e tempo meu, espreguiça-me a alma, e entre páginas sorrio em memórias que não tenho, imagino passados diferentes como os futuros que não viverei. O tempo que não existe, não corre, não é vivo, torna irrelevante olhar para trás ou para a frente. Há sítios em nós que nunca terão bússola, ou sentido, ou tempo. Aí, há rios que sobem montanhas e chuva que cai do chão. É o que quisermos, é o que virmos, até um céu azul na manhã de hoje, enquanto bebo o café à janela da varanda com vista para o computador. E tudo é uma certa calma e sossego.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

 


Ahahahah 

...as coisas de que se lembram, valhamedeus...

No primeiro confinamento lembrei-me do contrário, como um confinamento poderia ser um paraíso na terra para os recém-juntos, recém-(e)namorados, daquele início de paixão, ou na maturidade daquela paixão que não se gasta, mas se queixa de falta de tempo a dois, longe do mundo. Foi o que me lembrei. Tive pena de não ser essa a minha realidade... tive mais tempo para a minha pequenitates, mas pouco, porque nunca parei de trabalhar, e não mo deixavam fazer em casa...
Quando recebo isto desato a rir - ainda que este confinamento seja muito diferente do primeiro em muita coisa, e principalmente no estado em que isto está - parece que ando sempre enganada, sempre ao contrário, afinal estes tempos são difíceis para muitos casais, gente que não está realmente com quem gosta, e nota-se mais quando se fecham do mundo. Faz sentido. Há menos distracções, dá menos para esquecer que realmente o que querem não é estar ali com aquela pessoa. Mas acredito que também haja muitos, que tendo normalmente pouco tempo para estar juntos, agora aproveitem bem... devo ser uma romântica, né? 

(e temos de nos rir, vá...)

domingo, 24 de janeiro de 2021

[foto @victoria_klimenkova]

 Os dias perfeitos para gostar de estar em casa. Ontem foi dia de séries, hoje de acabar o livro que nos últimos fins de semana andou esquecido. Falta outro para acabar o quarteto. Acender a lareira, uma chávena de chá por perto, o livro nas mãos e a janela ao meu lado, eis o projecto para hoje. E o termómetro. Não, não vou votar, mas acho bem que todos que podem o façam. Eu não posso. E este ano iria, houve eleições em que não fui, recusei-me, por não me identificar com nenhuma possibilidade de voto, por achar que algumas decisões desrespeitaram o voto, por o voto em branco não ter outra consequência prevista que não análise estatística, por muitas razões. Hoje não vou porque não posso, e assim como quem pode deverá ir votar, quem não pode não deverá ir. Logo este ano, que quer exercer o seu direito, não pode ser a qualquer custo. Sejamos conscientes, sim? Já que quem nos governa não parece que sofra gravemente desse mal... com a quantidade de gente infectada, ou com a probabilidade de estar, outras - muitas - remetidas a isolamento, não terem atempadamente recalendarizado, parece-me pouco consciente. Ou acharam que aumentava a abstenção e isso não era mau (para quem decidiu, pois). Esqueceram-se que na hipótese de haver maior mobilização, o risco de contágio subiria e era previsível que nesta altura não devesse ser um risco a assumir... digo eu que estou febril e não percebo nada de nada... o que me faz, talvez, sã...

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

 Já não me lembrava desta sensação. Levar a miuda e voltar a casa. Fiquei até à última na cama, estava-se tão bem... já não tive tempo de tomar pequeno almoço, que é o que estou a fazer agora na mesa da cozinha. Olhando para trás - e não sei por que me deu para isso - percebo que sempre tomei por tarefa minha levar a miúda. O pai levava-a uma vez por semana, agora duas porque não estou cá duas noites, mas até aqui sempre fui eu a levar a miúda. Não foram os avós, nem o pai, que a caminho podia passar e levá-la. Não, sempre fui eu para mal dos pecados dela, porque ando sempre atrasada... o meu pai levantava-se cedo e ofereceu-se para levá-la de manhã e assim eu podia dormir mais um tico, mas nunca o aceitei. Sempre achei que era coisa de mãe (ou pai, dos pais se o puderem fazer, claro) levar os miúdos à escola. Depois com esta coisa do io-io, começou a ir, nos dias que saio muito cedo, a pé... porque “Oh mãe já tenho idade! Achasempre que sou um bebé”... e é, mas grande com’ócaraças... e lá tem ido, quando não eu não posso. Hoje em dia, nestes tempos esquisitos, já a posso levar, e acho que foi isso que me trouxe isto tudo... apesar de gostar de dormir de manhã com’ócaraças gosto que seja a mãe a levá-la... e aparentemente essa sou eu! E ultimamente tenho sido menos... porque tenho podido menos e porque ela precisa menos...

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

 Acabar o último cigarro do dia e do maço, sentada no degrau da minha varanda, a sentir o frio na ponta do nariz e do lado de fora da manta.  E estava a apetecer-me o ar frio da noite, em que se sente mais, se gosta mais do calor da manta que nos abriga, nos protege. Não vejo a lua, não lhe sinto o olhar poisado nas sombras, que se transformam em prata, em que deixam de ser sombra e ainda assim não deixam de ser penumbra. Há muitas coisas assim, suponho. Amanhã começa outra semana, ainda que diferente das outras, o dia não começará tão cedo e não acabará com uma caminhada fria junto ao rio. Acabará aqui provavelmente, onde estou, a pensar no amanhã que não me apetece particularmente... apetecia-me estar confinada, debaixo do vasto céu alentejano, sem ter de pensar em trabalho e em tudo que nos espera depois destes tempos. Não é pessimismo é só fruto daquele defeito que não raras vezez me apontam da fria lucidez. E para isso falta-me uma manta.  

domingo, 17 de janeiro de 2021



Então mas não sabiam ter-me mandado isto ontem???... esta informação de primeira água? Ainda indagava qual faria melhor corte, recolhia referências e fazia marcação, ali entre um Yorkshire e  um schnauzer... Ontem ainda ia a tempo, hoje já não!!... timing é tudo na vida, assim se vê!!!

(a tempo só mesmo a gargalhada :D que me acordou logo pela manhã ... quer dizer há bocado, pronto, para rir o timing é sempre certo)

sábado, 16 de janeiro de 2021

 


A minha primeira baixa deste confinamento: o corte de cabelo. Deixou de existir. Está mais curto, é certo, as pontas que me andavam a chatear de estarem a ficar secas e estragadas, também estarão reduzidas. O que não sobreviveu foi o corte de cabelo. Agora é só uma coisa assim... esquisita, é um escadeado ligeiramente esquizofrênico, mas pronto. Foi o melhor que consegui (também não me esforcei muito foi meio por instinto em frente ao espelho de cabelo seco) depois de tentar desde há duas semanas cortar o cabelo ao fim de semana, e nunca ter vaga, vai de cortar eu. Isto de andar entre cá e lá e nos dias que chego cá chegar sempre depois das oito, e nos que fico por cá só querer aproveitar o pouco tempo que tenho para mim ao fim do dia, a minha hora de paixão, dá nisto. Não dar tempo para cortar cabelo entre confinamentos. Vai daí cortei eu, prontosssss. 

Cuidem-se e não cortem o cabelo em casa se lhe tiverem algum amor ;))) ....

 


No fim, fechamos todas as luzes e reunimos o braseiro que ficou, restos de fogo que aqueceu o olhar e a pele - a casa que somos e a que habitamos. Há uma intimidade repleta de ternura nos restos do fogo, no calor que ainda dão, na luz quente e deliciosa que emanam. Combinam com o fim do dia, com o silêncio da penumbra, com a suspensão do mundo, com o desligar de qualquer movimento. Com a companhia do último cigarro nos dedos. E ajeitam-se as brasas de novo, para manter o calor, para libertar a luz delicada que ainda guardam. E o calor sobrevive, e às vezes incendeia-se de novo. Como agora.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2021


[foto @joshjack]



Como é o teu (amor), pergunta o xilre? Não é, 
mas queria que o meu fosse aditivo: 
mais força , mais intensidade, mais vida 

E subtrativo da distância,
porque mesmo que as mãos não alcancem, nunca se está longe. 

Multiplicativo do tempo, 
agora é ao mesmo tempo passado, presente e futuro. 

E divisivo, 
divide-nos num antes deste amor e um depois.

[...bem sei que é uma grande operação ter todas as operações - é A operação -, mas de outra maneira não me serve, que fazer? amor, para mim, é assim... senão é outra coisa qualquer, e haverá muito por onde escolher, que eu sei. Só não quero (já vos disse que sou um tico teimosa?).]

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021



 Caminhada ao frio, que quem passa por mim não parece sentir, em corrida ou em passo de canídeo com fome de distâncias. As luzes a entrarem pela água até aos pés, até onde os meus olhos caminham sem sair do lugar. Outra maneira de fazer a ponte entre o dia que acaba e a minha noite começa, já instalada no céu há muito. O mesmo ritual, outros cenários. Quase um vício de alma que o frio aquece.

domingo, 10 de janeiro de 2021

 


Café ao sol, bebericar umas crónicas para espairecer 
e para nos lembrarmos destas coisas - “como é linda a puta da vida”.  
Gosto tanto das crónicas do MEC.
Há coisas que fazemos sem saber porquê, outras sabemos exactamente por que as fazemos, outras só descobrimos realmente por que as fizemos depois, quando olhamos para trás. Temos de tudo. Eu sei de todas as razões que a razão tinha para fazer algumas coisas, e sei que fiz outras sem razões nenhumas da razão. Todas me fizeram sentido, mas doem mais as razões da razão que as outras. Não doi menos saber da razão, pelo contrário. Às vezes o que não queremos sobrepõe-se ao que queremos, ou gostaríamos, e por isso somos obrigados a fazer de tudo para afastar o que queremos, o que queríamos e nos apetecia sem quaisquer razões da razão, e fazemo-lo com todas as forças que encontrámos - a força da razão, que nos protege, ou deveria. E ainda que se saiba, de plena consciência, que é o que tinha de ser feito, a razão não consola a distância que assegurámos do que realmente queríamos. Só a distância nos protege do medo de ela não existir, mesmo que por momentos. Então fazemos, dizemos e magoamos, como e o que for preciso, para termos garantia que não chegamos sequer perto da tentação de esquecer a razão, mesmo que por momentos. Mantemos a distância que não queremos para afastar o medo dum querer sem razão. E quanto mais medo de querer, mais a alimentamos, num paradoxo que não dá paz nem sustento. Nem ausência, vezes demais.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

 A minha mesa junto ao vidro, o meu chorão do outro lado da rua com os primeiros raios de luz a dourarem as folhas, os meus croissants, este meu tempo só meu, de coisas minhas como as palavras que meço comigo. O autocarro na paragem à hora certa em que eu penso na vida - esta hora nestes dias. Este tempo tão cheio de coisas minhas, tão minhas e que são de toda a gente. Toda a gente as vê? Ou cada um vê à sua maneira e às vezes isso é não ver nada? Como tantas outras vezes, noutros lados, noutras horas, eu não vejo nada, pior, às vezes não me vejo na correnteza louca dos dias e muitas vezes não acho isso pior... já é janeiro, já mudei de ano, (sem me dar conta que o fazia) já balanceei em meia dúzia de parágrafos dez anos de vida - ou de morte, às vezes parece de morte - o meu mês também já acabou, já não espero mais dele. Agora a loucura começa e eu vejo-me menos, e talvez não seja pior a loucura estar nos dias e não em mim. O autocarro parte, é a hora dele, e a minha. 

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021



 Tudo branquinho gelado, e eu quentinho (ou a caminho disso, que o carro estava gelado) dentro do carro a olhar para isto, e a sentir o aconchego de não estar lá fora. E faz-me sorrir este calorzinho por dentro. Depois penso que há certas pessoas que nos fazem sentir assim, aconchegadas no calor de um mundo próprio, defendidos do frio, protegidos de gelar o corpo do corpo frágil, sujeito à enormidade do mundo.

terça-feira, 5 de janeiro de 2021



 -1... todo o pára-brisas é uma pele de gelo de efeitos abstractamente interessantes, mas frios com’ócaraças!!

Bom dia!



Impressionante como a roupa dentro da mala, dentro da bagageira, dentro do carro, todo o dia lá fora ao frio, ficou gelada.  A pele arrepiou-se quando a sentiu vesti-la. E eu com a pele arrepiada só penso como será possível certas partes de mim ainda não terem ainda congelado ou morrido, dentro de mim, dentro da pele dos dias, debaixo dum rigoroso inverno infernal lá fora, cá dentro. Em todo o lado. Frio, ventania, chuva; calor há séculos que não conhecem, luz nunca dura o suficiente para lhes chegar, e não morreram, não sei de quê, não sei porquê . É um enigma - ou teimosia -, diriam alguns, que não sabem explicar não saber explicá-lo. 

domingo, 3 de janeiro de 2021

 


Vir para a varanda com este frio embrulhado num nevoeiro que desenha a contraluz os braços despidos das árvores, de corpo ainda quente da lareira, é estranho. Talvez estivesse a precisar do choque, dum choque, de acordar de algum sonho mau, de tão bom. Ou só de fugir de alguma coisa que o frio possa expulsar, a neblina ofuscar. Qualquer coisa, não sei. O silêncio duma respiração que se vê é mais vazio, talvez fosse isso que eu procurasse, ou o frio para adormecer os sentidos da pele, ou a cegueira desta luz esbatida, vertida no ar e quase palpável, como borrões de cor, parceira da nitidez que nunca tivemos no olhar. o silêncio corta-se com o acender do cigarro, enquanto os dedos se sentem ao centímetro... e eu que agora só queria não sentir.

sábado, 2 de janeiro de 2021


Gosto deste resumo de ano - em livros. Ando muito preguiçosa para passar algumas das passagens que leio, e onde me fico uns tempos, para aqui. Isso e também, ou estou mais exigente, ou este ano não foi dos mais rentáveis, digamos.
Este foi o 2020 em livros, sugestões para 2021? Para compor com aqueles que já estão na calha?

Já não tenho a certeza da ordem de alguns, mas não terá sido muito diferente da que vai formando a pilha da fotografia. Do primeiro, do Houellebecq (de que adorei a "Submissão") pouco ou nada tenho a dizer, não gostei, não me ficou, nem me prendeu. Pego-lhe, abro-o para ver as páginas dobradas no canto: três em todo o livro. É um indicador. Releio essas páginas, esta definitivamente é muito boa:

[Michel Houellebecq, in Extensão do domínio da luta]

"o amor como inocência e como capacidade de ilusão" - realmente nem todos temos a mesma capacidade de amar, de nos entregarmos sem pensar nem calcular, com a inocência e a pureza que se precisa, para se descobrir uma grande ilusão, que se calhar se adivinhava que se acreditava poder não ser assim...
O livro seguinte, que me lembro li num instante, gostei, a escrita é leve e corrida, a história mistura a doçura dum velho que se deliciava com romances de amor (de cordel, vá) a contrastar a brutalidade da humanidade com que vivia na selva.

Dos outros fui aqui publicando algumas coisas, não do Siddhartha, que sendo curto me custou mais ler, embora no fim tenha gostado, não seria livro que relesse (também é certo que não costumo reler, mas de alguns livros fico com essa vontade, doutros nem me passa pela cabeça tal). As mil e uma noites foi uma desilusão, ou eu talvez esperasse algo diferente. Percebe-se a importância que pode ter tido na história da literatura, mas disse-me quase nada. Matou-me a curiosidade e pronto. Da Odisseia gostei, e muito. Aquele curso online que deveria ter sido para me ocupar numa quarentena e num confinamento que nunca existiu para mim, teve essa vantagem de me dar um roteiro de obras que marcaram a humanidade e a literatura. Esse roteiro ainda não o terminei, está guardado. Não sobrevivi ao segundo volume do romance de Genji (ainda está por acabar, coisa que é raro fazer...gosto de acabar o que começo), e assim como quem não quer a coisa, fiz um desvio ao roteiro e perdi-me - propositadamente no mapa. 
Passei por Florença (cidade que adorei e a que sim, vou voltar, Itália é uma paixão só por si) na companhia dum autor que gosto muito, e gostei do que li, também uma escrita fácil e corrida, que se lê duma penada. Tem uma única página com o canto dobrado, e refere-se a toda essa página e a seguinte, mas se tiver de escolher uma parte:

"- Tenho de lhe dizer, Rowley.
-Porquê? - gritou ele, estupefacto.
- Não conseguiria casar com ele com esta coisa a pairar sobre mim. Estaria na minha consciência. Nunca teria um minuto de paz.
-A sua paz? E então a paz dele? Acha que ele lhe vai agradecer por lhe contar? Estou a dizer-lhe que está tudo bem. Agora nada a relacionará alguma vez com a morte daquele desgraçado.
- Tenho de ser honesta.
Ele franziu o sobrolho.
-Está a cometer um erro terrível. Conheço estes construtores do Império. A alma da integridade e tudo isso. O que é que eles percebem de indulgência? Eles próprios nunca tiveram necessidade disso. É loucura destruir a confiança que ele tem em si. Ele ama-a deveras. Pensa que você é perfeita.
- E o que é que isso vale se eu não sou?
(...)
- Se ele me ama o suficiente, compreenderá." 
[Somerset Maugham, in  Paixão em Florença]

E este trecho diz tudo, tudo o que tanta gente não entende. Há coisas com que algumas pessoas não conseguem conviver, fazer, enganar, manipular, o diabo a sete, não conseguem por muito que todos digam que é o melhor. Mas não, têm a ilusão de que se fizerem a coisa correcta, essa será a coisa certa para fazer. Não querer enganar os outros, por entender até que isso é magoá-los mesmo que não saibam, querer mostrar como e o que são, para que o outro não se arrependa depois. Para ter a certeza que são amados pelo que são, e não pelo que parecem ao outro. Pessoas que não manipulam, que se afastam e põem na mão dos outros voltar ou não, compreender ou não, "se amarem o suficiente"... mas nunca se ama o suficiente. Ou se ama ou não se ama, não há graus de suficiência. Isso também aprendi, mas não foi no livro. :) O diálogo com o dito cujo também é bom, o modo como se desenrola, e como ele apenas mantém a intenção de casamento para não sair beliscada a própria ideia que tem dele mesmo, não por amor a ela. Que não tem, obviamente (ainda que pensasse que sim). Gostei do livro e claro, do fim. Gostei do doido do Rowley desde que apareceu, tendências, pois.... ;)

Do Afonso Cruz - Flores -  também gostei, mas estava à espera de mais, para ser franca. O que me fez comprar o livro há já uns tempos largos foi o trecho da contracapa, "o beijo terá sempre de manter a densidade da primeiro, a história de uma vida, todos os pores-do-sol, todas as palavras murmuradas no escuro, toda a certeza do amor.". Terei de ler outro dele, este não me encantou por aí além.
Já o meu Lunário, lido no meu Alentejo. Lembro-me da noite em que o acabei de ler, no alpendre, com a lua por cima de mim e o silêncio à minha volta. Lembro-me de ficar a mastigar aquela sensação que as coisas do Al Berto me dão, de entrar noutro mundo, doutras realidades, doutras maneiras de sentir, de maneiras mais certas, mais intensas, mais onde me sinto realmente. Lembro-me bem dessa noite :)
Agora estou no terceiro do Quarteto. O primeiro foi uma sensação estranha, não me apaixonou e foi quase como uma pequena dor inflingida com retroactivos. Realmente chega a ser curioso como há pessoas que nos conseguem magoar até através do tempo e do espaço, ao percebermos como nunca nos conheceram, perceberam. Mas ao menos conseguimos, nem que levemente, perceber que nunca nos viram, realmente. Ou o que mais viram, ou procuraram... Não que não goste de ouvir que a intensidade da sensualidade, do ambiente em que o desejo quase se cheira, faz recordar-me, pensar-me, identificar-me, querer-me - gosto, gostei, mas não gostei da personagem, nem mesmo nessa parte. Não me identifico com aquela perspectiva de pele e sexualidade - como troca por algo, como meio dum fim qualquer, como fuga de alguma coisa, e de si mesmo. Não sou assim, nunca fui, até agora pelo menos. Estranho que não tenham percebido, menos estranho (agora) é perceber que era a isso que estavam habituados. Já do feitiço que me falavam, só encontrei o mistério que se associa a omissões e manipulações, e tantas vezes real falta de conteúdo, quase como aquelas criaturas que parece que não vão além dos títulos das notícias, que repetem. Da profundidade de alma só vi alguns traumas que se tornaram ferramentas. Sem sombra de dúvida, gostei mais do segundo - Balthazar - e estou a gostar do Mountolive. Pode ser que no fim de tudo desgoste menos da personagem, pode ser. A seguir já tenho uma série deles na calha, e estou com vontade acabar o Quarteto e mudar de agulha. 

E agora que parece que o sol quer aparecer e pôr-se na minha varanda, quentinho e luminoso, vou ver se o apanho enquanto bebo um café e me entretenho com o Mountolive.


 

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

Ihihihihih

 Conselho valioso para um ano que começa!!

Escusam de agradecer... ;)

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020



 ... não resisti...

Sorry...

(Mas eu ri-me :D e enquanto nos rirmos há esperança!)



A todos os que aqui passam espero que o 2021 seja um bom ano, que o vivam melhor e o saboreiem mais, com mais intensidade e vontade, depois de tudo o que devíamos ter aprendido neste que hoje se enterra, sem saudade ( e no entanto, talvez aquele que mais nos poderia ter ensinado, curioso, não?)

Hoje é o dia de começar a dizer que a partir de amanhã seremos diferentes, que vamos querer coisas, ter objectivos e mudarmos em nome deles ou do que raio nos lembrarmos. Neste ano, além de tudo isso, é o dia de acreditarmos que tudo vai mudar para melhor, que todos vamos ficar bem - agora sim (e a ver vamos), e não quando por estupidez de um optimismo sem quê (que me irrita até à raiz dos cabelos), ao início tantos diziam... e eu nunca percebi. Não tenho facilidade em entender querer-se deturpar a realidade porque não gostamos dela... negar o óbvio (que sabemos mas negamos), para ter uma ideia que aconchegue. Nunca entendi. 
Hoje, mais do que se calhar em todos os outro anos, vamos querer encerrar este ano e enterrar com ele tudo o que vivemos sob esta chancela, quase como esquecer que existiu. Para mim é talvez a primeira vez que não tenho vontade de um novo ano. Não porque goste deste, não, mas porque tenho muito pouca esperança no seguinte, no que se avizinha. E isso para mim é novidade. Sempre tive uma certa superstição com a passagem de ano, sempre quis passá-la bem, com quem gosto e com alegria, risos e brincadeiras, e rodeada de carinho, porque seria assim que gostaria que o ano se desenrolasse - como um prelúdio do que viria. Este ano a sensação que tenho é que o próximo será muito duro em termos pessoais, adivinho um tempo que não quero e que não sei viver. Este ano, o dividirem o tempo em fatias para dar um cheiro de recomeço, de começar de novo, de oportunidade, não me entusiasma, não o consigo ver assim, não o sinto assim. A única coisa que hoje em dia me entusiasma um pouco é o trabalho, também a única coisa que neste ano que hoje termina, se aproveitou em termos de mudanças. Há dias li uma entrevista em que se dizia que o cérebro percepciona o tempo através das mudanças a um certo nível e através do movimento, noutro - o que me fez completo sentido, no fundo, é sempre através da mudança: movimento é mudança, já o disse aqui uma vez qualquer. Mas isto fez-me pensar que nos últimos 10 anos todas as mudanças que o meu cérebro percebeu, portanto todo o tempo que sentiu passar, foi para me tirar afectos, companhia, carinho, protecção, segurança, querer-bem. Primeiro, e a abrir as hostilidades, um divórcio que me feriu em todo o processo (mas continuar casada sei-o, sem dúvida, ter-me-ia feito pior), depois perdi o meu tio ao fim de tanto sofrimento, depois um primo, depois um irmão, no meio uma doença grave e incurável para o meu pai, a lucidez e presença inteira da minha mãe com a perda do meu irmão. Entretanto vender a empresa, entrar num turbilhão de medos e emoções, e sei lá mais o quê, com todas essas mudanças. E no meio de tudo isto, abrir os olhos em muita coisa, fazer opções e cortes com enganos e mentiras, render-me ao desamor, aceitá-lo, vê-lo, perceber que passei por tudo sozinha e servida com pequenos requintes de malvadez em coisas que não merecia, algumas apelidadas de condescendências - palavra que passei a detestar - outras só indiferenças ou faltas de consideração, de justiça até e lealdade também... amor nenhum, torna-se óbvio quando todas as mudanças que colecciono nestes dez anos são estas. Quando o que percebo de tudo é isto. E caramba custou-me tanto, em cima de tudo, também isso, olhar para trás e começar a ver que o refúgio, o abrigo que eu tinha era apenas uma espécie de escape para o outro, que lhe equilibrou o mundo durante muito tempo, que o ajudou até a mantê-lo, enquanto para mim era o meu mundo, onde estava inteira - ou me sentia -, que me permitia suportar o mundo que não era meu, que não queria, tudo o que acontecia sem eu pedir, e o que eu queria que acontecesse, nunca acontecia. Há uma luz, uma doçura, que não posso esquecer no meio de tudo isto, a minha pequenitates, que foi crescendo, e foi crescendo bem, mesmo tantas vezes - ou quase sempre, infelizmente - não me ter inteira, e nunca completamente bem, feliz, com esperança... mas foi crescendo e foi-se tornando uma pessoa (que me dá cabo da cabeça, é certo) que às vezes me surpreende. Não sei o que fiz bem no meio disto tudo, ou se não fiz nada bem e ela deu a volta a tudo isso (capaz disso é ela), mas é saudável em todos os aspectos que me lembro, por dentro e por fora (tem um bocado a mania das dietas, do exercício e da comida saudável e essas coisas... mas pronto, até faz o jantar às vezes, por isso compensa :) ), um bocado arisca de beijos e abraços e mimo, por vezes muito diferente de mim, outras caramba até irrita de ser tão parecida (o que me deixa apreensiva..), e agora quase da minha altura... 
... o que levo de tudo, para onde for, é isto que senti quando bati os olhos na foto, um molho de flores apanhadas no momento, plenas de vida na espontaneidade da vontade, que guardo no bolso de trás das calças, enquanto continuo o caminho, à procura de mais cores, mais flores que me dêem vontade de apanhar e levar, que façam parte do resto do caminho. 
Não estou com vontade nenhuma de 2021, mas isso - aliás como todas as mudanças nos meus últimos dez anos - não impede nada, ele virá na mesma, e as mudanças também, porque o tempo passa e a vida move-se, altera-se, muda sobre um eixo que somos nós, e que tem de suportar todas as mudanças, algumas provocá-las, mas vivê-las todas. E é disso, sim, é disso que tenho medo. Mas talvez isso não seja diferente, tenho tantos medos há tanto tempo que talvez já não o conte em anos, mas em vidas. Guardo-os no bolso de trás das calças de ganga, aconchego-os às margaridas ou bem-me-queres, às papoilas que não arranco do chão porque não são de levar para casa, e continuo. Os cães gostam da caminhada.



 

domingo, 27 de dezembro de 2020

[imagem @gregbionde]


São mil e umas
as noites em que não bato à tua porta
e vens abrir-me

Ana Hatherly, in “Um Calculador de Improbabilidades”

E no entanto a porta continua fechada, contigo do outro lado. Comigo noutro lado. A porta que nos separa é a única coisa nossa. O que não fomos, o que não somos, do que desistimos. Só aí nos encontramos. 
E entre nós... uma porta fechada. Em que eu não bato, e onde vens abrir-me. 
Só que, sabes, não há nenhuma porta. E eu esqueço-me, porque está fechada, porque vens abrir-me sem eu bater.

sábado, 26 de dezembro de 2020

... aquela hora... em que agradeço esta vista e poder estar aqui e deliciar-me com este tríptico de cores, depois de um dia cheio de sol de dezembro. Não saí de casa, não me apetece, a minha esplanada privativa, e o sol que lá mora à tarde, guardou-me em casa. Tomei lá o meu café, fumei lá o primeiro cigarro a seguir ao café, com silêncio só por fora. O sol e o café souberam-me muito bem... mas esta altura é sempre difícil para mim. Por muito que goste do dezembro - ou talvez precisamente por isso, sim por isso - nos últimos anos tem sido difícil. Era sempre um tempo tão bom, tão meu, tão eu. 

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020



 Hummm ... já vos cheira a Natal?

Pois! Agora vem em frasquinhos...



 [Lawrence Durrell, in Quarteto de Alexandria - Balthazar]

“cheio de um alívio que era quase insuportável” 

Há realmente sensações assim, momentos assim que nos fazem inteiros, que só se sentem se andarmos feitos de fragmentos há demasiado tempo. É de tal forma avassalador que só pode querer confirmar que é falso. Como se sentir um tal alívio, uma tal plenitude e satisfação, só confirmasse o quanto ainda  se sofre terrivelmente daquilo que nos queremos livrar, esvaziar, acabar. Como apenas servisse de prova do seu contrário. Alívio devia traduzir um vazio onde antes algo nos ocupava e pesava, “cheio de alívio” não é um vazio que nos tranquilize, é um momento falso. Que às vezes tanto precisamos - como algumas mentiras - mas de que não restará nada. 

domingo, 20 de dezembro de 2020



Acende uma pessoa a lareira, mune-se dum livro com intenções de o terminar de ler e é isto: vem uma moça de quatro patas, frita-miolos e tapa-lareiras, usufruir do calorzinho, tapar-mo a mim sem dó ou vergonha, e virar-me as costas. ‘tá certo. Bahhhh 

sábado, 19 de dezembro de 2020



 Há prendas que chegam espontâneas, dias depois mas combinam com lareira e um copo de vinho. E vontade de pôr outras caras nas memórias do futuro. Há sonhos que apagamos com a vontade de outros dias. Com a certeza de que baixamos a fasquia e ainda assim estará sempre tão acima do que tivemos. já só queremos alguém que nos ame, e saber que um décimo do que demos já faria tanta felicidade a quem o quiser... 

Há uns tempos alguém do trabalho me dizia para escrever uma carta a mim mesma, onde dissesse da esperança do futuro e dos medos do presente, que dissesse de mim e do que quero, ou pelo menos, do que sei não querer. Para escrever e fechar, só voltar a ler daqui a anos, e que quando o fizesse ia perceber o efeito do tempo e da vida, onde acertei e onde errei. Onde me enganei ou onde me enganaram o engano. Gostei da ideia. Vou escrever-me e guardar nos rascunhos para o meu dia de anos de aqui a dois anos. Deliciava-me saber como estou errada em quase tudo. É estranho quando torcemos pelo nosso próprio engano. Agora vou comer chocolate e apreciar o silêncio. E escrever-me.

 

enrolei as minhas pernas nas dele, ainda de olhos fechados e com um sorriso a acordar-me no corpo. Enrolo as pernas para que não me fuja e para o saber ali, depois da noite inteira, para dias inteiros. abro os olhos e pergunta-me então, estou muito velho? o cabelo já quase branco e muito curto, a barba curta e com o mesmo tempo, e os olhos a olharem para mim, iguais por dentro, ou eu não sabia de diferença nenhuma. abracei-lhe o rosto com as mãos e dei-lhe um beijo. estava na mesma, o beijo não mudou, era um beijo sem tempo. e dei um e outro e mais outro até já não contar tempo, mas risos e pele e calor. afasto-me um pouco para voltar a olhar-lhe os olhos entre as minhas mãos e mergulhar-lhe no olhar, e percebo que não sei o que vê, se vê o mesmo que eu vejo, ou que eu não vejo quando o olho... penso o que verá? e é isso que me acorda: a minha idade nos seus olhos, sou eu que estou velha. escrevi algures, ou pensei, - às vezes não sei da diferença -  que o amor é o único antídoto da idade. Não cura, mas não deixa que nos seja uma doença. talvez só como alguns os amores, não parecem sofrer de tempo ou espaço, sobrevivem desde que se respire. e às vezes sonham-nos, invadem-nos a mente enquanto dormimos, indefesos, de muros baixados e  sem tino no que (nos) faz a cabeça. acordei. não havia pernas onde enrolar as minhas. desenrolo palavras sobre mim mesma para não enrolar o dia, para libertar as pernas para o caminho. o meu caminho.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

 José Tolentino de Mendonça

Talvez. A noite é o silêncio que melhor nos guarda, nos esconde e nos revela, mas agora procuro a madrugada, aquele fiozinho de tempo que separa a noite de um novo dia. Aquela luz que quebra a noite, que rompe o dia, que traz ainda a noite dentro, como uma memória que vai esmaecendo no espreguiçar do dia, no abrir dos olhos para fora.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2020



 “I Will remember the kisses 
Our lips raw with love and how 
You gave me everything 
You had and I offered 
You what as left of me.”

Charles Bukowski

E pergunto-me o que de mim restou que agora possa oferecer... se quando dei tudo o que nem sabia ter, não chegou,  o que me restou chegará a alguém? E o curioso é que, agora, quando leio estas linhas do Bukowski, os sapatos onde me ponho,  não são os de quem deu tudo a quem estava quebrado, mas quanto do que me quebraram poderá ter restado para dar a alguém. E isso, pode não parecer, mas é uma grande diferença. Para mim é uma enorme diferença, começar a calçar sapatos que querem mudar de tempo. 

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020



Tudo o que muda,
para se manter fiel a si mesmo. 
Tudo o que sabe mudar,
 para manter a essência. 
Tudo o que é essencial. 

Tudo muda menos a essência,
 a essência é o que permanece.
Qual é a tua?
Sabes?

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020



[imagem @sarvesh_chaudhari] 

Almoço a olhar para o mar, a imensidão que se estende pelo olhar, para lá do horizonte e do desconhecido. Agita-se o vento, sacodem-se vontades e ajeitam-se as estrelas, ainda encobertas pela luz que não deixa ver caminho. Distraio-me com a janela do vizinho, que me faz respirar terra firme. Este mar por navegar que me afoga, trago-o nos meus olhos por descobrir, e só o trago porque naveguei mares proibidos, céus por mapear e sorrisos por regressar... ensinada que estou de descaminhos, só me resta caminhar por este mar adentro, que me engole incerto do seu tamanho e do meu caminho. Não me lancem amarras, deixem-me enfunar as velas do sonho e afogar no que ainda não vivi.





 My thoughts, exactly.

Sem tirar, nem pôr. Sempre me regi pelo que aqui encontrei tão bem resumido. Não me faz sentido correr atrás, pedir, suplicar, dizer que não sou capaz de viver sem ele, de pôr entre a espada e a parede alguém que deseje que goste de mim, que me queira - porque se me quiser não será nunca preciso nada disso. E eu, gostando muito da pessoa, ou até demais, só a quero se me quiser, se me gostar, ou não será a pessoa certa para mim. Quem se humilha, ou precisa de alguma espécie de chantagem para obrigar, para forçar qualquer coisa que devia ser uma vontade natural, não sei como, depois, se conseguir o que quer, não duvida sempre se o resultado teria sido o mesmo caso não o tivesse feito - se não tivesse manipulado todos os factores que podia - se não duvida a todo o instante que o resultado não é fruto da vontade e do gostar de alguém, mas apenas de alguma inércia, facilidade, receios vários e alguma espécie de indiferença que cede a pressões. Eu duvidaria sempre, talvez também por isso, nunca fui capaz de o fazer.

domingo, 6 de dezembro de 2020



 Ontem não saímos de casa. Quando íamos para esticar as pernas, a chuva chegava triunfante como um encontro para o desencontro. Desistimos duas ou três vezes, nem mesmo a quatro patas parecia com muita vontade de apanhar com chuva no lombo em troca duma esticadela de pernas... a modos que trocou a chuva pelo meu colo e estivemos a ver séries, a ler, sempre com uma chávena de chá por perto, e até me deu vontades de doces e fui fazer uns queques (expresso, daqueles quase tudo pré-feito) com pepitas de chocolate... ontem foi assim. Hoje não pode ser, há que vencer a preguiça. Ontem lembrei-me que sempre tive por hábito ao fim de semana sair para pelo menos tomar um café com o nariz ao frio, ou fora de casa, vá. Hoje há que passar nos meus pais, esticar as pernas e as vistas, tomar um café quente encasacado, trabalhar um tico porque ontem apontei no tecto... e ouvir a chuva cair ao longo do dia, presente como uma memória teimosa que nos acompanha como uma sombra. Mas desta gostamos, sorrimos-lhe e até lançamos as mãos abertas ao céu, para sentirmos na pele a simplicidade dessa beleza... Que me traz de enxurrada as saudades dum bom beijo debaixo de chuva fria, da pele quente despida de frio. Mas hoje vamos arrumar a preguiça num canto sem deixarmos de viver devagar, e com tempo - ou sem, se calhar sem - o que nos faz levantar do sofá, mas não nos obriga.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020



Já não é dor, é a constatação de ter sido, 
sem ser ainda a de já ter deixado de ser.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020



 Ahahahah 

Bendito bom humor, do inteligente, do irónico, daquela pitada de sarcasmo que me prende e torna dependente deste riso, desta (boa) disposição. Estar com alguém com um humor assim é uma benção. 

Tenho saudades de me rir assim (e de fazer rir também, muito) em conversas de horas a fio. 

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

 


Dezembro, o meu mês. Um mês do frio e do fim, onde o sol quando brilha se sente mais, e onde o fim anuncia um novo livro em branco. O mês da lareira, das mantas como segunda pele, até do natal, a que já não ligo, francamente. E dantes gostava, das luzes, dos enfeites, dos cheiros, agora não ligo, acho tudo meio postiço... Já não enfeito a casa maior parte da vezes, o que dantes me dava algum gozo, mas agora nem por isso. Mais um dezembro, e este definitivamente diferente em demasiadas coisas, menos numa, é o meu mês, ainda, e o meu preferido.

segunda-feira, 30 de novembro de 2020

 Ora cá está uma estreia... não, não levei com a frigideira, nem sequer com o rolo da massa... mas sim, é o meu primeiro dia em teletrabalho. Gostei de poder acordar mais tarde e chegar cedo, da vista da janela ter árvores, de se tiver fome nao ter de comer bolachas ou esoerar pelo almoço, e de poder tomar o café do almoço na varanda... podem repetir (só está previsto mais um dia, de resto nem na cidade posso ficar, bahhhh... quanto mais na doçura do lar...) que assim sempre faço menos de io-io, durmo mais um tico (tipo hora e meia...) e trabalha-se na mesma. Não precisa de ser sempre, falta-me o “cumbibio” com algumas pessoas, e parecendo que não, a viagem ao fim do dia, nos dias de regresso, apesar de cansativa, relaxa-me. 

domingo, 29 de novembro de 2020

 


E é este o mote dos fins de semana cá em casa. Esta disputa de mimo e atenção. Porque se a filha pede, a mãe não pode deixar de pedir, pois... mesmo sendo mais arisca, e ser muito menos de mimos que a filha... há que marcar, e não perder, território!! A modos que é isto, estas caras, perdão, focinhos de fim de semana. Isso e a música ambiente que mais se ouve ser: “sai” “está quieta” “não se corre dentro de casa” “ não sejas chata, deixa-me” “Oh mãe tira-a(s) daqui” e risos das parvoeiras, a que acabamos por não conseguir resistir, e desmanchamo-nos fatalmente, ou só o derradeiro “ lá para fora, já chega!”. Até termos saudades deste circo, e abrirmos a porta outra vez...

sábado, 28 de novembro de 2020





 Sábado de manhã, depois da ronha e do primeiro café em casa - que agora serve também de aspirina, porque antes dele as dores de cabeça não me largam, mas só aparecem ao fim de semana, curiosamente. Saímos de casa, que não tem jardim, só uma varanda que adoramos, e vamos ao pão. E ao jardim, este, a uns metros de casa. Temos a sorte de a poucos metros termos dois jardins diderentes onde esticar as pernas e mergulhar no verde. No caminho deixo-a correr, vingar-se dos dias em casa, no quente mas numa quietude que não lhe cabe nas pernas. Depois, uns metros à frente, vamos abastecer-nos de pão para a semana. Senta-se a guardar o poste para ele não fugir, claro, atrelo o poste a ela e entro, atenta de ouvido para ver se reclama com alguém. Tudo tranquilo, na volta mais uns sprints no jardim, já libertas da trela do tempo. E de pés e olhos presos neste tapete, vejo esta imagem. E guardo-a.

quinta-feira, 26 de novembro de 2020



 Se eu tivesse um escritório que chamasse meu,  onde estivesse todos os dias, ou quase, em vez de andar cada dia num sítio, sem poiso fixo e com muito stress e irritação, punha isto pendurado na parede. Bati os olhos nisto e ficaram lá, mesmo depois de já olharem para outro lado - e há tanta coisa assim, não é? ... olhamos para outras coisas, mas os nossos olhos estão postos onde teimaram poisar e fazer sítio... mas adiante, esta frase é brilhante, como tantas coisas desta senhora. E neste momento é um lema de vida, de combate, de postura... E eu não sei se estou à altura. E a frase lembra-me isso, mas que tentar e falhar é sempre menos cobarde que nos pouparmos à derrota, porque essa não derrota, não é uma vitória, é apenas uma máscara para o definhar sem oposição, para uma paz podre com demasiadas baixas por falta de combate. É apenas outro nome para a morte por agonia.

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

[foto @in_somnia_]

 Dizem que o imitar, o copiar, é o maior dos elogios. Eu concordo. Nos últimos anos apercebi-me algumas vezes de coisas desse género, desde expressões roubadas daqui e doutros sítios, até formas de apreciar a vida em câmara lenta, a alguns gostos e coisas que alguém me confirmou dizendo que realmente tinham ido beber muita coisa a mim, comprovadamente. E deve tê-lo dito feliz, ainda que fosse uma cópia, não tendo o original era melhor do que aquilo que tinha... ainda que no dia que faltasse a fonte onde ir beber, ou copiar, bom, voltava tudo ao mesmo, mas, claro, nos entretantos a cópia nunca chega ao original... E hoje, chego ao escritório, ao meu antigo escritório, aquele que ninguém ao início queria, que era filho dum Deus menor, e que me deram a mim, sem que disso me tenham ouvido reclamar. Tinha desvantagens, mas também tinha algumas vantagens, que eu via mas eram percebidas por outras pessoas como não o sendo, e agora, mal me mudei para outras guerras, depressa alguém se mudou para ali... que afinal ali era melhor. Agora, o dia em que trabalho aqui arranjo-me em qualquer lado, não há crise e também tem vantagens... Acontece, que com isto tudo, ponho-me a pensar, que também esta criatura parece querer-me seguir as pisadas, pisar onde eu pisei, replicar o meu caminho. As pessoas esquecem-se que ao fazer o caminho temos de decidir por onde ir, que passos maiores e que passos mais pequenos dar, que direcção tomar e como, e que as coisas têm, ou ficam, com a nossa forma de ser. Quem imita, quem copia, quem quer absorver o lugar por osmose e replicação, esquece-se disso. A relação de proximidade que criei com esta gente, o que consegui fazer com eles e deles, não tem que ver com o sítio onde estava a trabalhar, e que até era visto como desvantagem por quem não o quis na altura, tem sim com a empatia criada, com a forma de trabalhar, e às vezes brincar. É a forma como somos, não como copiamos...  ou quem copiamos. Pode ser um elogio, mas às vezes irrita um bocadinho... e o que faz certamente é passarmos a olhar as pessoas com alguma pena, o que é uma pena. Porque francamente não precisam disso... bom, algumas.

domingo, 15 de novembro de 2020



 ... Outras é uma forma de sentir, de nos deixarmos sentir, de sentirmos - normalmente com alguém. É sentirmo-nos nós, encontrarmo-nos numa voz como um eco da alma que trazemos, e que parece que reconhecemos pelo eco... pensamos que não, mas demora muito a encontrarmos a nossa própria voz, o que somos debaixo de tudo que fazem de nós, de tudo que nos fizemos e o mundo construiu, dia após dia. Conhecermos os cantos escondidos de nós mesmos é uma descoberta que custa muita vida, e talvez só isso, e pouco mais, se deveria chamar realmente viver. O outro não é a nossa casa, mas é a porta para entrarmos em nós. Ainda assim, a ideia mais bonita é essa: de alguém ser a nossa casa, de o habitarmos, de deixar que vivamos nele, protegidos, guardados. Alguém que nos traga dentro sempre, um peito para o nosso coração viver. Alguém que encontramos e nos faz regressar a nós, à nossa forma mais bonita, melhor, que mais gostamos. Amar o outro é talvez amarmo-nos com os olhos dele. Como se ele fosse a nossa casa, onde chegamos para, confortavelmente, fechar, por dentro, a porta ao resto do mundo.