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domingo, 14 de março de 2021

 


Das regras fundamentais. Tão básica que não sei como tantas vezes nos esforçamos por fechar os olhos e fingir que não sabemos, que não vemos. É impossível não saber, mas é possível, e terrivelmente provável, que neguemos vê-lo. E negarmo-nos ver o que quer que seja, é já tê-lo visto, mas não querer sofrer. Agora que ninguém está com ninguém, será que se torna mais fácil ver? A atenção que não se tinha? Ou será isso ver que não se tinha? 

terça-feira, 9 de março de 2021

 Nope, I don’t...

Acho que cada um tem de lutar pela sua alma, pela sua felicidade, pelo que quer, e às vezes isso é lutar de todas as maneiras que consegue por estar perto da alma que nos sossega a alma, que a nutre, que a faz mais feliz. Outras não, outras é não desistir, contentando-se com menos que isso... porque o universo não faz acontecer. Vida há só uma, universos não sei, e não creio que sejam curvados, como os que dizem que devolvem o que se dá. São as pessoas que devolvem, se quiserem, e com isso fazem acontecer o que de outra forma não deixariam de ser apenas acasos... fruto do caos, da sorte, do azar, dos desígnios inconsequentes do universo.  

sábado, 30 de janeiro de 2021

 "Sou jovem e tenho a vida toda pela frente. Eu sei disso. 

Não vou dar graxa à felicidade. 

Se aparecer, óptimo. Se não, quero lá saber. 

Nós os dois não somos compatíveis."

[no fim do filme (Uma vida à sua frente) em delicioso italiano, tive de voltar atrás por este bocadinho, esta meia dúzia de frases que me acompanharam num recanto do silêncio que se guarda enquanto se ouvem, e vêem, outras coisas. "Não vou dar graxa à felicidade": foi aqui que me agarrou, que se instalou pelo avesso. Parece-me uma grande verdade, quanto mais (e apenas) se quer, menos se consegue, menos nos encontra, menos interesse tem em nos encontrar. Surge quando não se procura, quando até se acha que já a trazemos. Se depois esbarramos nela, é como esta meia dúzia de frases: fica-nos por dentro, como um silêncio que se ouve sempre, até quando não há silêncio. 
a música fecha o filme, mas não o encerra. parte-lhe a casca, escancara-o. estamos sempre aqui para as pessoas que gostamos,  é talvez isso gostar delas - talvez só isso, e sempre - mesmo quando aqui não é um sítio, mesmo quando não estamos... como aquele silêncio debaixo de todos os sons, de tudo. daquela felicidade a que se dá graxa.]


segunda-feira, 15 de abril de 2019

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Fim de semana de filmes, de passear por casa, de habitar o sofá, de chá e bicharada. E mesmo na despedida do fim‑de‑semana, este filme. Até uma certa parte havia um certo reconhecimento duma antiga perplexidade por perceber certa cobardia, uma incompreensão de certas perspectivas, da mentira até. Depois, a uma qualquer altura, instantes talvez, chegar a reduzir a intrincada (i)lógica de alguns homens (que se tropeçam em justificações injustificáveis e se estatelam em verdades que lhes doerão mais), a uma clareza tal que se resume a uma simplicidade que não se coabita, a simplicidade da solidão (e há-a sob tantas formas...) por medo de ser abandonado, que acaba por ser estupidez apenas, simplificando. Mais à frente, por outro lado - ou do outro lado -, aquilo que muitas vezes não parece óbvio, o medo de afinal nunca se ter sido amada, mas apenas à beleza e à juventude que diziam gostar de ver ( ou de certa forma possuir, como um qualquer antídoto do envelhecimento dele), o medo do desejo perdido com a perfeição do corpo. O medo de nunca ter deixado de ser invisível, da beleza que dizem ver impermeabilizar o ser, de nunca ter sido vista além, de não lhe ter chegado a ser alguém. De parecer tão facilmente poder ser substituída por outra beleza que surgisse, pois nada lhe era mais além de beleza e juventude - exactamente o que, afinal, apavorava o outro de medo. E fica-se a pensar nos medos cruzados de cada um, e no tanto que isso altera decisões e vidas, no tanto que nos marcam as saudades do que não se fez, por medo de depois, se calhar, ter de viver com perdê-lo - ter de sobrevivê-lo. Como se assim a certeza de o perder não fosse mais segura, palpável até, e o idílio de o viver algo eterno nunca vivido, mas a única realidade.
E quando uma pessoa trinta anos mais velha, subitamente, tem provavelmente mais vida pela frente, toda a perspectiva muda, e de repente o tempo que não se queria perder para a frente, ficou perdido para trás, irrecuperável. E assim, curiosamente, não é (aparentemente) tão assustador arriscar o tempo que resta, que sendo menos o torna aceitável... Só se fica, só se tenta, quando já não há nada a perder?
E acabo o filme a pensar como é estranho tudo isto, porque é que se aceita aproveitar, viver, quando se sabe que vai acabar, ou que já nada, ou quase, resta; e não se arrisca quando não há esse perigo no horizonte? 
O tempo... sempre o tempo (lembro-me agora e aqui do post que escrevi ontem, esta coisa do tempo toma-me muito tempo de pensamento...), a nossa perspectiva da vida é a nossa perspectiva do tempo, do tempo que temos, do tempo que já perdemos, do tempo que não poderemos aproveitar, e daquele que pensamos que nos resta... isto e todas as desculpas que usamos com o seu apelido, quando são apenas filhas bastardas da estupidez. Mas uma coisa parece-me verdade, há um tempo certo para agarrar a oportunidade, para ficar, para tentar.. Depois disso já não há tempo, mesmo que tempo não falte, falta o resto tudo que o tempo foi levando da altura certa.
[é por isso, ou melhor, por isto, que digo sempre não concordar com o que se costuma ouvir “mais vale tarde que nunca”. Não, quando, para algo, é tarde, já passou, já não vale a pena, que se refastele no nunca... o que às vezes é difícil é reconhecer quando se tornou tarde. ]

quarta-feira, 27 de março de 2019

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Isto é, se eu não tiver chegado demasiado tarde, mas avisar da sessão da meia-noite às 23:59 parece a desculpa perfeita para... bom, para ter uma desculpa ;))
Mas, seja como for, é filme que agora terei que ver, pois claro.

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Gostei do título, e esta frase traduz o que lhe associei.

Ainda que o estrago que procura identificar, aparentemente, venha da obsessão, não do risco de amar ( e amar não é coisa avençada :)  ).

terça-feira, 19 de março de 2019


Ontem vi um filme (é o que dá estar de molho, estou a ben-u-ron, pastilhas para a garganta, xarope, livro e filmes... tem de haver algum alado bom, né?) sobre um psicólogo que me fez lembrar algumas questões que volta e meia me põem a pensar. Milgram é o nome do psicólogo, e dedicou-se ao estudo do ser humano como ser social, ou seja a influência da sociedade - ou melhor ainda -, do grupo, no indivíduo, e nesta perspectiva o poder da autoridade e da obediência. Através duma experiência chegou à conclusão que 65% dos indivíduos aceitaram inflingir choques (supostamente, ninguém estava a ser sujeito a choques eléctricos, mas os indivíduos da experiência não sabiam) noutra pessoa porque lhes era dito que a experiência era assim, e que a responsabilidade, caso algo corresse mal, não seria deles. E com esta informação as pessoas (65% delas) continuavam a inflingir choques de voltagem crescente até atingir os 450 volts (voltagem que lhes era no início informado de que era perigosa), de forma consciente, ainda que visivelmente a contragosto, mas continuando a obedecer às regras duma experiência voluntária. Ou seja, não eram patrões, nem superiores, nem havia efectivamente nada que os obrigasse, a não ser repetirem-lhes que eram as regras da experiência e que eles não seriam responsabilizados. Só 35% das pessoas recusaram tais regras, levantaram-se e negaram-se a continuar a submeter choques a outro indivíduo, sem qualquer custo, risco ou castigo.
Quando pensamos nisto à luz do Holocausto muito é explicado - aliás Milgram é judeu e a escolha do seu tema fulcral de investigação não é alheio ao que se passou na II Guerra. Também já Hannah Arendt falava na banalidade do mal, mas ali, ali vemos gente como toda a gentes sem qualquer tipo de coerção ou risco, fazer a uma escala menor o que foi perpetrado durante a guerra a milhões. E, como se leva a concluir, basicamente com as mesmas justificações. Afinal cumpriam ordens, obedeciam a uma autoridade, até poderiam ser castigados caso não o fizessem (o que na experiência não acontecia). Na verdade nós deixamos de lado a moral e até o que pensamos e os princípios que seguimos face a algo que se apresente como autoridade, e como normalidade, como regra. E isto é tremendo. Onde fica a nossa cabeça? onde é que pensamos por nós? Onde é que deixamos de seguir os outros porque é suposto, porque é a norma vigente, ou porque representam autoridade, ou simplesmente porque "é a lei"? 
Se algumas vezes dei comigo a pensar algumas destas coisas, verdade seja dita, não tanto relativamente ao holocausto, ainda que não saiba dizer porquê, talvez porque todo o mundo, à excepção dos nazistas, concordava que era uma atrocidade. Ser contra não era ter de ir contra nada, era estar de um dos lados. Ser contra e ir contra tudo só sendo militar alemão e negar-se, opor-se, lutar contra, dizer "eu não faço". Mas recorrentemente penso, se tivesse vivido na época da escravatura, o que pensaria eu? Quando ainda não se falava ou pensava em abolir a escravatura, como veria eu a questão? Como pensaria eu, com tudo o que me rodearia na altura? Teria coragem de pensar por mim? E pensaria bem? 
Como será que eu teria reagido à experiência? tinha ido até ao fim ou tinha-me recusado a continuar a certo ponto? 
Sei que não sou cobarde ao ponto de culpar tudo e mais o que apareça por não conseguir o que quero, ou não fazer pelo que quero, não invento mil razões que me desresponsabilizem, não digo que fiz mal ou que deixei de fazer isto ou aquilo por causa do outro, ou porque a vida foi contra e eu nem tentei, isso acho que não faço, não me desresponsabilizo inventando desculpas, justificações para as minhas fraquezas. Mas quem serei eu na verdade numa questão destas? O que faria eu? O que pensaria eu? O que defenderia?
Só a mim é que inquietam estas questões?
Estaria eu nos 35%?

quarta-feira, 20 de junho de 2018


Não sei qual a conclusão a tirar, ponho-me a pensar em toda a história do filme e não consigo perceber se o erro fatal é ter alguém por garantido, se o problema é que há um ponto a partir do qual não se consegue perdoar quem se amou por ter tido outra prioridade que nos relega para segundo ou terceiro plano. Depois, nada, nunca mais, apaga o facto de alguém ter preferido arriscar perder o nosso amor por outra qualquer coisa que considerou mais importante (dinheiro, estabilidade, estatuto, carreira, o que for)- , ou se afinal a conclusão é que afinal há homens que não são adeptos da máxima "cada um luta com as armas que tem" (seja elas quais forem), porque vêem nesses comportamentos um carácter que depois não conseguem amar, pela mesquinhez, pela falta de grandeza de espírito (e são poucos estes seres - homens ou mulheres - parece-me). Quando ela percebe que ele se pode apaixonar pela rica e inocente e boa moribunda, já o arriscou, e ele já se sentiu secundário, já sentiu que era mais importante o dinheiro, o estatuto, tudo isso, do que ficarem os dois, era mais importante o dinheiro do que o risco de atirá-lo para os braços de outra mulher. Já percebeu e sentiu que a prioridade daquela mulher não era o que sentia por ele. Depois, quando ela percebe e tenta desfazer tudo, afastá-los, com as armas que tem, faz alguém, já às portas da morte, sofrer muito, e é aí que ele percebe que gosta dessa mulher que sofre e detesta o sofrimento que lhe estão a provocar e para o qual ele contribuiu (engraçado perceber que é pelo sofrimento que causa que percebe que gosta dela, parece uma conversa que tive há tempos...). E ainda que com a morte no corpo não lhe morreu a dignidade, nem a grandeza de espírito, tão diferente da mulher que ele sempre amou, afinal. Ela morre e deixa-lhes parte da sua fortuna, aos dois, fortuna que ele recusa terminantemente, e ela, tentando desfazer tudo o que fez, dispõe-se também a dispensá-la se ele ficar com ela (ainda) por amor. E ele já não consegue, de alguma forma já não a ama, ama aquela que morreu. Aquela que perdeu. Aquela para quem ele era a prioridade, para quem ele era tudo o que importava, que o amou assim, dessa forma, e que tentou que ele a amasse, simplesmente. E parece que no fim aconteceu. Apaixonou-se pela mulher que conheceu e que lutou por ele só com o amor por arma e a dignidade por escudo, que o conquistou com a sua inocência, e que morreu. 
Talvez a conclusão não seja nenhuma destas, talvez seja que há coisas que não se conseguem desfazer depois de feitas, não se conseguem reverter depois de subvertidas. Tomou-o por garantido, arriscou-o achando que não o fazia, ou achando que havia coisas mais importantes, mostrou nas atitudes o fundo do seu carácter, depois percebeu o erro, a inversão de prioridades, o risco, tentou desfazer tudo, mas há coisas que depois de mostradas, sentidas, deixam um travo no olhar que talvez não se dissipe facilmente. Já não a olhava nem via da mesma maneira. 
Ela perdeu tudo. Ele ganhou dois amores mortos.
E isto é coisa que me dá para pensar e pôr a cabeça em remoinho, tanto que tive de o escrever, para assentar o turbilhão, e por causa disso lembrei-me de alguém me dizer que devia ser das poucas pessoas que conhecia que quando lia alguma coisa era capaz de, logo a seguir, escrever sobre o que tinha lido e o que me ficava disso, ou via nisso. Em filmes parece que também, este chamava-se "Nas asas do amor" - o amor não tem gaiolas, não se controla, nem se pode ter preso, suponho que só podemos tentar sempre que queira, a cada dia, voar para nós. De resto não controlamos nada, nem temos ninguém, nunca, garantido. 

[tinha este texto escrito nos rascunhos há uns tempos, mas por causa dum comentário ontem lembrei-me dele - há coisas que depois de subvertidas não se podem reverter. quando sabemos que não fomos a prioridade de alguém, e quando o sabemos repetidamente por várias vezes sem margem para dúvidas das tantas dúvidas que têm, há um ponto em que deixamos de querer. É talvez a diferença entre sentir falta de algo, e ainda assim já não o querer. Porque sabemos que queremos mais. Queremos que não nos arrisquem e que não nos tomem por garantidos. O que tomamos por garantido não valorizamos. Há uma altura em que os desvalorizados percebem. ]

quarta-feira, 4 de outubro de 2017


"Só há duas coisas importantes na vida: aquelas que fizemos e achamos que não devíamos ter feito e as que não fizemos e concluímos que devíamos ter feito. As coisas realmente importantes, as coisas que ficam até ao fim e não nos largam, são as que nos causam arrependimento." - o filme (Reviver o passado em Montauk) começa assim, com esta frase ou uma equivalente a esta. Oiço isto e há uma torrente de pensamentos que dispara na minha cabeça... não consigo evitar, como se o ouvisse por vários ouvidos de várias cabeças, e pondo-me dentro de cada uma delas. Penso que então eu não tenho coisas importantes na vida, nada do que já vivi me vai ficar até ao fim, não tenho, até agora, arrependimentos. Não há nada que me tenha ficado como não dever ter sido feito, ou por fazer. O filme é bom (ou eu gostei muito), um melodrama à volta de três pessoas. A certa altura no filme ele conta à mulher, que se arrependeu ter deixado sem uma palavra há anos, que quando foi embora conheceu alguém sem importância, mas que engravidou e de quem teve uma filha, ela pergunta por que é que nunca lhe contou, e ele responde simplesmente " porque não te queria magoar". Ela ri-se, e tem uma frase ambivalente a que conheço todos os meandros, "uma das coisas que sempre mais gostei em ti é que nunca tens intenção de magoar ninguém", o que, não deixando de ser verdade, expõe também, veladamente, uma displicência egoista de tudo o que faz e fez, de toda a merd@ que sempre fez e estava também, naquele preciso momento, a fazer. É essa displicência e egoísmo que os torna e mantém umas eternas crianças, irresponsáveis, inconscientes e inconsequentes. Ela não quer já, naquela altura, ficar com ele, ele é uma pessoa que a marcou, que lhe definiu e moldou certamente a vida, que ela queria para pai dos filhos, antes de ele a deixar sem uma justificação como que esfumando-se no tempo - ou isso é subentendido no filme -, mas não quer mais que fiquem juntos, e conta-lhe então que teve um amor que se sobrepôs ao deles. Depois dele conseguiu amar outra vez, mas esse homem morreu e ela não quer nenhum mais - ela não é das que ultrapassam tudo, diz a certa altura no filme, ainda sem se saber sobre o que fala. Ele diz-lhe que deixa já a pessoa com quem está, que nem pensa duas vezes, que quer mudar a vida dele, ficar com ela. Fazer o que devia ter feito há anos. Mas não ficam juntos, ela já não o ama, e o amor que tem só a permite ficar sozinha. O filme ainda magica na minha cabeça, mas a surpresa dela ter amado outra vez, e mais e melhor, ficou-me. A ideia de que, possivelmente, ter sido tratada assim lhe tenha permitido depois amar ainda mais quando não o foi, quando foi amor recíproco, respeito, admiração. Talvez haja coisas que nos acontecem para que possamos futura, e irremediavelmente, ver tudo doutra forma, para o bem ou para o mal. Talvez, no caso, para apreciar coisas que dantes não víamos como tão grandes qualidades, que não valorizávamos condignamente, talvez por as considerarmos de certa forma pressupostos básicos: pessoas maduras, que sabem o que querem, que o assumem e fazem por isso, e que não têm essa displicência egoista que serve para desculpar tudo, mas que magoa toda a gente. Por muito charme que algumas dessas personalidades tenham, por muito que nos viciem e prendam, por muita felicidade plena, a pequenos tragos que nos dêem, há um ponto em que percebemos que esse charme não nos faz sentir amadas e seguras, mas negligenciadas e magoadas. E eu fiquei com esperança de também eu chegar a esse ponto, e não ser tarde demais.