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quarta-feira, 27 de abril de 2022

 
Chegar foi uma aventura, chovia a potes e já de noite... ela dormia, e a cadela olhava para mim como que a perguntar para onde raio estávamos a ir que nunca mais chegávamos... finalmente, e depois dum caminho que me pareceu demasiado comprido e dificil, já céptica das indicações e do gps, chegámos. Íamos experimentar o chamado glamour duma tenda no meio da natureza... a parte da natureza confere, a do glamour... bom, depende do conceito de cada um. Uma coisa era indiscutivel, ali, no meio de coisa nenhuma, o silêncio e a escuridão eram os donos daqueles primeiros momentos. Dormimos. Nunca tinha dormido num sítio onde a escuridão tinha mesma exacta medida de olhos abertos ou fechados, era incrível, eu abria e fechava os olhos e o negro era o mesmo, sem réstia de luz, claridade ou sombras. Onde não há luz não há sombras, só nós. No dia seguinte o frio e a "casinha" ao lado da tenda era de tal forma arejada que não arriscámos uma pneumonia em troca dum banho, adiámos para quando o sol estivesse mais alto e quentinho. O pequeno almoço animou-nos e a simpatia de quem nos recebeu também. A quatro patas sempre animada com tanto para cheirar e explorar foi quem desde logo se notou que iria curtir mais o fim de semana e a aventura, ainda que apesar de todos os esforços não tenha conseguido afinfar nenhuma lagartixa, por muito que se tenha esforçado no seu estilo de caçadora não praticante. À noite o céu era de cortar a respiração, duma imensidão e nitidez como não me lembro de ver -  vantagem de não se avistar civilização, ou luzes que o denunciassem. Dava vontade de inspirar aquilo tudo, de respirar fundo, de mergulhar naquele silêncio, fazer arte dele e do céu que nos faz tão, mas tão insignificantes. O brilho das estrelas naquele fundo tão negro deixou-me de nariz no ar ao frio bastante tempo.  O suficiente para lembrar outros céus onde perdi a conta às vezes que fechei os olhos para formular desejos, até deixar de ter desejos e continuar a ver estrelas a rasgarem o céu até desaparecerem nalgum sitio onde deixaram os meus desejos, perdidos à sua sorte, ou à minha (e bom... já se sabe, né?). E lembrei-me disto e sorri, pensei que se alguma me caísse ali, naquele momento, no regaço do olhar não teria desejo para lhe entregar... e depois passado instantes voltei a sorrir quando uma estrela rasga o céu para se perder algures escondida do meu olhar, e eu sem desejo que iluminasse a ironia... mas acabei por desejar alguma coisa, agora de olhos abertos. Agora sempre de olhos abertos - postos no céu, é certo, mas abertos. Escrevi qualquer coisa nessa noite, mas perdi tudo, rede era coisa rara e talvez isso seja bom algumas vezes. Mas as palavras raras, e saídas debaixo daquela malha negra e brilhante de estrelas, perderam-se... talvez tenham encontrado outros caminhos, ou não chegaram a ser caminho.

Os dias seguintes foram de passeio e de lamber com os olhos as paisagens que me encantam a cada vez que me perco pelos encontros com o Alentejo. Passeios de carro, alguns a pé, revisitar algumas praias, voltar ao Sacas, aos croissants deliciosos em Milfontes, música sempre pelo caminho e vários dedos de conversa. 

 Depois o regresso, cada vez mais com olhos postos numa volta que se quer breve e prolongada (e em placas "vende-se"). Mas não, acho que não me voltam a apanhar no glamour duma tenda... agora o resto das férias, já em casa, têm sido dedicadas à bricolage e a um sem numero de coisas para fazer que até me apetecem fazer, ou então é esquecer o regresso ao trabalho que me apetece... isso e não me lembrar que tenho de aturar gente doida...

domingo, 27 de março de 2022

 



Está na hora de me pirar. Bebo um café cá fora, a olhar a vista e a pinha que não me caiu na pinha, apesar do vento estar com um certo feitiozinho hoje. Oiço no espotifas música destes meninos, que foi quase sempre a banda sonora deste lugar. Porque me apetecia a sonoridade ou talvez porque acho que combina com o sítio além do espírito (esta não é a minha preferida deles, mas essa já a pus aqui e noutros lados algumas vezes, não a vou repetir aqui repeti-a e respirei-a várias vezes nestes três dias).
Acho sempre pouco este tempo que me permito. Demoro a vir, a conceder-me, mas quando venho sabe sempre a pouco. A muito pouco, e dividido ainda com o portátil do trabalho, que aqui até parece que custa menos... E não é que não tenha para o que voltar, tenho a minha miúda cada vez mais minha, cada vez com mais piada e alma, cada vez mais uma companhia que me falta, não só por ser mãe dela e me faltar também cuidá-la, e dar mimo, mas a pessoa que se está a tornar. E digo-vos com um sentido de humor que não só me escangalha a rir, como me enche de orgulho, pela inteligência pela espontaneidade, pela perspicácia :) sim sim também sou mãe babada, pois claro. 
Bem mas agora, preparar tudo e rumar a casa, devagarinho, que este tempo de regresso também é tempo.

sábado, 26 de março de 2022


 ... e quando se deixa o resto para trás, às vezes reencontram-se sítios bons, gargalhadas novas ou renovadas, longas conversas em baloiços velhos (e um que mal se segurava mas não deixou cair ninguém...), praias desertas com a banda sonora original depois de esplanadas à pinha com música além dos decibéis aconselhados (ou que eu aconselharia) numa paragem para café e observações da fauna local, ou emprestada de Lisboa como era o caso... O sol nunca queimou mas também nunca nos deu frio. Às vezes vimos para estar sozinhos e estamos com pessoas que nos fazem tão bem e nos entendem tão bem como estarmos só connosco. É talvez paradoxal, estranho mesmo até certamente, mas as pessoas que mais gosto são aquelas com quem estou como se estivesse sozinha, estar com essas pessoas é estar comigo inteira, e são as únicas que são capazes de me arrancar da solidão, se e quando a sinto. A solidão, aquela verdadeira, que mais não é que saudades de alguma parte de nós a que não chegamos sozinhos, estados de alma que precisam de alguém que nos leve pela mão até aquele ponto de nós. Talvez porque a certo ponto já são parte de nós, e é lá que às vezes nos encontramos de novo. Não trocava a minha solidão por nenhuma companhia que só faça número, mas me deixe mais só que sozinha. Porque há essa grande diferença. E continuaria aqui, sozinha ou com quem não se estranha partilhar o silêncio das ondas sem ter de se dizer qualquer coisa, porque é suposto para alguém. Mas não para mim. E agora fazer o jantar. Para mim :)

 


[Alejandra Pizarnik, Antologia Poética]
Descobri a cadeira que vou comprar para a minha varanda... é espectacular!! Adoro!.. o balançar, o conforto, tudo. Sentei-me ali depois do ioga, hoje no deck aqui mesmo em frente, do outro lado do vidro, ao som dos passarinhos. Um concerto in locco, sem ser gravado para o efeito de acompanhamento zen :) Estava um bocadinho fresquinho lá fora, mas fui deixando de o sentir. O que senti mesmo é que estou muito empenada e tenho de deixar de ser preguiçosa, senão qualquer dia mal me mexo. Depois sentei-me cá dentro, ali naquele balançar que embala, e deixei-me ficar, a olhar a paisagem, a ouvir o espotifas, e acabei por ir buscar a Alejandra para companhia. Gosto muito de alguns dos poemas dela. Se eu escrevesse assim, não precisava de falar mais. Há frases dela que guardo sem esforço de memória "partiu de mim um barco levando-me" "tão longe pedir, tão perto saber que não há". E há coisas que sei que não há, duvido que alguma vez haja, ou até que tenha havido. Estou descrente, ou só lúcida - ainda mais lúcida. Viajo já com o copo vazio, provavelmente... Já não sei onde a descobri, a Alejandra, mas sei que foi por acaso, na net. Deparei-me com coisas assim, destas, que me leram por dentro de alto a baixo, e fui atrás de mais. Tristeza só ter encontrado em português esta pequena antologia dela. Curioso pensar que muitos dos poetas que mais me arrebataram suicidaram-se, viveram todos para além das fronteiras que o ser aguenta, e nem as palavras lhes serviram de válvula de escape... mas serve-me a mim muitas vezes a intensidade deles tão impressa por dentro dos sentidos das palavras, serve-me para sair de mim e encontrar-me. E aqui me vou lendo nos poemas que ela escreveu. Acho que a poesia serve para isso: para nos lermos. Talvez por isso ao longo da vida vamos lendo as mesmas coisas de forma diferente. Porque nós somos sempre os mesmos, mas o olhar, o nosso olhar sobre o mundo, vai mudando. As formas talvez sejam as mesmas, os contornos tornam-se menos definidos, mas as cores... ahhh as cores, as cores nós fabricamos por dentro, só nossas, e sim essas vão variando, tenho a certeza. Quem poderá dizer que o branco dos nossos quinze anos é o mesmo de agora? O nosso olhar, como a nossa compreensão e incompreensão das coisas, vai aprendendo, vai-se moldando, vai-se construindo e desconstruindo em cima dos pilares da nossa essência. A maneira como vemos as coisas vai mudando. Oxalá assim seja com muita coisa. Que tudo passe a ser sombra da sombra que pensávamos não ser. E cuidado, muito cuidado, com quem percebe que nada é o que é agora, que só a sede não tem dias, e que há coisas que não há... e pedir está sempre fora do alcance. Por orgulho, ou melhor, muito melhor, por lucidez.

sexta-feira, 25 de março de 2022

 Cá fora, enrolada numa manta, olho para cima, acima de mim está uma pinha que não tarda me cai na pinha venha o vento de feição e intenção. Ao longe oiço cães a ladrar enquanto carros passam a rasgar os barulhos da noite, que são silêncio. Este silêncio dos sítios de sossego, de lonjura, de tranquilidade doce. Daqui a uma hora as luzes daqui de fora desligam, vão dormir, os carros também. Os cães provavelmente continuarão a ladrar. Eu provavelmente aqui estarei outra vez, o olhar de soslaio a pinha que me quer acertar na pinha. Ao longe a tocha enorme continuará a queimar e a iluminar o horizonte, ainda que escondida por trás dum manso pinheiro. Assim são as coisas. E as metáforas que tão bem lhes assentam.

 

Acordo com a dor de cabeça da praxe. Sinto a cabeça pesada como o cinzento que cobre o céu e o puxa para os ombros da terra. Tem sido assim nos últimos dias, passa depois de tomar o café e o tempo assentar no dia que começa. Hoje, além do dia de ontem ter acabado só depois das oito da noite no trabalho, ainda sonhei com trabalho. Têm razão. Eu agora é só trabalho. E casa, e pouco mais. Mas tem de ser mais. Hoje vou tentar recomeçar esse mais, esse pouco mais. Cortar no trabalho (prometo-me tentar a partir de agora... e já me lembrei que à tarde vou ter de ligar o computador e fazer coisas...) e voltar a querer tempo para mim. Para me aproveitar, a minha companhia, falar com o meu por dentro outra vez. Não viver a correr, sem sequer fazer planos, e não fazer só planos, vivê-los. Voltar a passear por aí no sossego das paisagens, às vezes com a miúda, outras com a tracção às quatro patas, outras sozinha, como hoje. Não sei explicar porquê, mas andei a adiar voltar a passear sozinha. Talvez a pandemia me tenha habituado a ficar em casa, e achar isso confortável. Dizem-me que sou das pessoas que melhor deverá ter lidado com o confinamento, e eu tendo a concordar... não me fez grande mossa, fiz o que já fazia e gosto de fazer, só que em casa: ler, ouvir música, escrever (cada vez menos), devorar séries, apanhar sol quando o há, aproveitar o sossego, e na pandemia as ruas andavam tão sossegadas. Quando passeava a cadela à noite era um sossego e uma tranquilidade, só às vezes ensombrado por alguma sensação de eventual insegurança tal chegou a ser o deserto das ruas. Só as razões para tudo isto eram más, e a paisagem e os caminhos não se comparam com os que aproveito quando vou sozinha uns dias por aí. O serpentear das estradas nacionais para qualquer lado, o mar que espreita tantas vezes, descobrir alguns sítios quase vazios (e hoje não saber voltar se quiser), parar onde quiser se quiser e quando quiser. Comer um peixinho grelhado numa esplanada vizinha do mar, se o sol convidar. Sentar-me a olhar o horizonte que parece infinito para me sentir pequenina. Sei lá, tanta coisa que já fiz e tenho saudades. Tenho às vezes saudades de mim. Mas algo me andava a prender os passos, o primeiro passo talvez. É sempre o que custa mais, o começar, o arrancar, um principio de qualquer coisa. E hoje vou, à tarde, depois de almoçar com a minha miúda, já estar de olhos postos no meu olhar a sul, como quem deixa o resto e ruma a si. Levo três livros: poesia da Pizarnik, Al Berto para petiscar e o Kundera que comecei e não continuei. Olho para isto e penso que esta escolha é um jogo de espelhos comigo, talvez para me lembrar que eu sou várias coisas, e que me fazem falta, por muito que as tente enterrar debaixo de horas de trabalho, e de outros eus também meus. 
Vou, levo música, três livros, um olhar cheio de vazios, e só levo quem me está dentro. E levo gente a mais, ainda assim me confesso. Raio de penduras :))

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

A fumar o último cigarro do dia, lá fora, enquanto tentava apanhar os restos do dia, da vida, em pensamentos soltos, fugidios, ao mesmo tempo pensava como raio me esqueci do vinho e hoje quando fui tentar comprar...tudo fechado por aqui, pois. Há coisas imperdoáveis, que combinam tão perfeitamente que uma sem a outra ficam mancas... Assim que acabei de apagar o cigarro, as luzes exteriores apagaram-se... e todo o céu cresceu. Não consegui evitar rir-me... tinha pensado nisso: a que raio de horas fecharão as luzes? Não sabem que assim tiram palco ao céu? Às estrelas? 1:24 era quanto marcava no meu relógio, e deixei-me estar, como a quem acabaram de abrir a cortina para o segundo acto. Estico mais o pescoço, empino ainda mais o nariz ao céu, e sem me dar tempo de acomodar a posição, cai uma estrela no meio do céu, mesmo por cima do meu nariz, senti-me invadida por uma alegria estranha, fechei os olhos depressa para pedir um desejo, que na verdade era um dois-em-um, e pensava eu estas matemáticas estelares, quando apanho outra a cair, mesmo onde o céu acaba para os meus olhos. Estamos saldados, deves-me dois desejos :) agora vou dormir. Até amanhã, agora já sei a hora, e com um copo de vinho, espero ;)

domingo, 23 de agosto de 2020

“Amor a metro” :)))

-então, e quanto vai ser??
-hummm ... uma altura das minhas, apenas o suficiente para um lençol para a vida.  ;)

[Se não puder ser, e tiver de ficar com os pés, ou a cabeça, de fora, também me parece justo: temos de fazer opções e saber as prioridades. Ou será um desperdício.]

sexta-feira, 7 de agosto de 2020



Tudo tem de acabar, e acaba, e este é o último amanhecer aqui. E o dia claro, límpido, novo, desponta. Não como queremos, mas como é. Aceitar isso talvez seja maturidade. E pesa. Só podemos escolher entre o que temos e o que achamos que poderemos ter. As duas têm um custo. Maturidade é talvez sabê-lo e escolher o custo que conseguiremos suportar. Como é maturidade aceitar o que não queremos de todo, que revolta, que magoa, mas que não está nas nossas mãos mudar. 

Mas o dia nasce sempre limpo, novo, virgem. 
Quase inocente. E claro, tão claro. 

[As coisas que eu perderia se a pintarolas não quisesse vir cá fora as seis da matina, mais coisa, menos coisa. Acho que anda a sonhar com gatos. Percebo-a. Eu hoje também sonhei, mas não era o gato que estava ao meu colo, nem eu corria atrás dele, nunca o fiz, mas tinha um calor bom, brando, doce, cheio de ternura. Aquela ternura que é cruel ao acordar para o mundo. Acabei o livro, e mexeu comigo aquele lunário.]


quarta-feira, 5 de agosto de 2020


Há distâncias que se procuram, que se querem sentir, e sentem: como um sentimento futuro, como a vista que sabemos que vamos ter ao chegar ao cimo, onde as vistas são largas e a perspectiva inteira. E subimos, continuamos a subir, com a sensação da distância desejada a mover-nos, a empurrar-nos, queremos chegar ali, ao ponto de não ser sensação futura, não aquela que se antecipa, mas sim já realidade que as mãos agarram e o olhar carrega. Por vezes parece-nos até que já chegámos, e não, não chegámos, mas sentimo-la ao alcance da mão, quase como se já a pudéssemos chamar nossa, quase como se conseguíssemos. Como se conseguíssemos sentir a distância que queremos sentir, que sabemos certa e segura: real... até quando há inexplicáveis sensações de proximidade, de telepatia, de estar perto do que não se toca, do que não está, do que nunca realmente esteve, mas são só isso: sensações, como aquelas que nos trouxeram até aqui, à procura de distâncias.  Coisas de mundos imaginados e cruéis.
E depois partimos, pomos, entre sensações estranhas e a certeza de querer distância, muitos quilómetros, e é aí que fugimos de nós, que tentamos, nessa distância, que por nos isolar e nos devolver, ao trazer-nos tanto a nós, nos traz o que queremos distanciar, aqueles que nos têm. Mesmo que nunca os tenhamos.

A lua está sublime, meio escondida por trás das oliveiras. O céu deixa a um canto os melhores espectáculos. E o vinho, branco e fresco, deixa-a tão ternurenta que dói. E é tão bonito ao mesmo tempo. A ternura tem de doer sempre?

terça-feira, 4 de agosto de 2020




Melhor que um banho de lua destes, mergulhado em silêncio, que apaga quase todas as estrelas do céu, e nos deixa ver tudo tingido duma luz de prata vários palmos à nossa frente... só isto, mas com uma companhia de duas patas e menos pêlo que não estragasse o silêncio. Tem de haver comunicação, mas sem destruir o silêncio. Sem silêncio o luar perde a magia, pode continuar belo, mas deixa de ser mágico. Como algumas conversas, as melhores.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

... há dias em que o Alentejo me faz mais falta. Enquanto arrefeço o café e olho pela janela lembro-me que sonhei hoje com o meu monte alentejano. Tem um alpendre de pores-de-sol gloriosos, e cadeirões com mantas, e uma mesa com livros que se vão debicando. E uma série de cães à volta dos pés. Todos os quatro, guardava todos ao pé de mim, mesmo que me tenham posto os nervos em franja e façam maldizer a vida várias vezes, talvez naquela paz a guerra fosse diferente.
O café já está bom para beber, e o escritório já não está vazio. Vamos ao dia, que o fim-de-semana está à porta, não o deixemos à espera :))

quarta-feira, 14 de agosto de 2019


... impressionante como chamamos casa a um sítio onde dormimos durante meia dúzia de noites. Dizemos "vamos para casa"... e há uma certa estranheza neste hábito. Não é "casa", casa é mais do que um tecto onde guardamos as nossas coisas e dormimos durante uns dias. Ou devia ser, mas parece que não distinguimos. É tudo a mesma coisa. E quando regressamos deste sítio a que chamamos "casa" também dizemos que "vamos para casa". Então, tudo é casa...? há não só estranheza, mas promiscuidade neste pensamento. E não é verdade, nem tudo é casa. Casa é onde estamos, onde vamos descansar, onde procuramos refúgio, protecção, e para onde queremos voltar - é o nosso regresso, isso é verdade. Mas é mais do que isso, é onde somos nós, onde nos sentimos parte, onde as coisas nos espelham, onde o ambiente tem tudo a ver connosco, onde tudo é familiar, até o cheiro, único, nosso... A questão é se levamos isso connosco para onde vamos, e fazemos casa de cada sítio onde ficamos, mesmo que só enquanto lá estamos? Então o que é ser "casa" realmente? É de onde não temos vontade de sair (a não ser para, temporariamente, chamar casa a outro tecto) ou o sítio para onde temos sempre a certeza de poder voltar? 

Depois há quem diga que há pessoas que são "casa"... lembro-me, sem saber porquê. Os pensamentos são como as cerejas, e piores que as conversas. Há coisas que pensamos e conseguimos não dizer, só não conseguimos é impedir de nos lembrar, ainda que percebamos que lembramos, com o tempo, de formas diferentes. Suponho que isso é aprender, ganhar perspectiva, amadurecer - crescer. Só não sei se as lembranças através dos pensamentos, se nós. Ou se há, sequer, diferença.

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

As paredes cheias de amor e as ruas sem alguém que ame. 
Nos muros da cidade faltam sombras de gente.
Faltam conversas mornas e lentas, como as horas daqui.
Talvez a Marta tenha partido, ou talvez o amor se tenha partido,
talvez dos cacos nasça o vazio das ruas.
Talvez o vazio profundo escorra das paredes escritas à superfície.
Só as palavras continuam a vestir os muros frios.
As palavras não aquecem.
Talvez a Marta saiba.

[faz-me perguntar o que aconteceu à Marta e a quem escreveu há nove anos este achado que foi um encontro do que queria. E queria mesmo? Nove anos pode ser tempo demais ou pode saber a muito pouco, umá coisa é certa, é tempo suficiente para não se repintar paredes...]

sábado, 10 de agosto de 2019



Aqui deitada na rede, com um copo de vinho branco no chão, sinto o vento calmo arrepiar-me a pele e eriçar as estrelas. Deixo-me aqui ficar e dou por mim a pensar em Penélope - à noite desfaz o que à luz do dia alimenta. Penso se dou por mim a deflagrar o próprio inconsciente, não sei quanto tempo depois. Muito, talvez. Quão longa vai a mortalha? O que a noite me traz, eu devolvo com repúdio à luz racional do dia, à clareza da mente, à verdade do tempo. Quanto mais sentir a noite, mais a luz da razão queima o dia, mais afasto o que sei que não quero. E sei-o bem... Ainda assim, quando a escuridão se derrama no céu e as estrelas fazem a lua abrir-se, a cabeça fecha-se, adormece, ou esquece, ou sonha, ou nada disto e tudo o resto que nem sei imaginar. Não sei dizer de certa magia que me embala e enfeitiça, que me leva pela mão e me cala, que solta o que de mim não sei prender. Espírito noctívago este que se nega a ser-me fiel, ou talvez infiel. Sei que a manhã, o raiar pleno do dia, fecha os olhos às estrelas, desce as pálpebras da lua que tudo vê, e desfaz o feitiço, enquanto eu desfaço tudo o que a noite me desfez: faço - afasto de mim tudo, o que não me estando próximo nem distante, trago em mim como se conseguisse repudiar. E consigo. Tenho números como norte e falta de tempo como ponte. Só o Alentejo me atraiçoa por se negar a trair-me. Não haverá noites mais puras... mas o dia traz com força tudo outra vez, eu sei. Até logo.
Gosto de sítios onde posso deixar as portas abertas, para onde o olhar pode  fugir. Em que a luz entra, os sons passeiam-se pelos cantos do silêncio, onde estamos dentro sem deixar de estar fora,  em que há uma sensação de parte de nós estar na brisa que passa. E que nada mais passa que não seja dali. Tudo pertence, nós pertencemos. Não há gente, não há vozes que nos sejam estranhas. Há uma vida só nossa, ou parece, onde o tempo nos brinca nos dedos, ora os paralisa ora desenham coisas indizíveis no ar, ou na pele, ou só em sonhos. 
As portas só se fecham à noite por causa das melgas assassinas, ou quando não há alma em casa. 

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Habituava-me a isto...
Sossego, sol, pequeno almoço ao ar livre (podiam era levar as abelhas que são ligeiramente chatas) e com coisinhas boas, é só desembrulhar e tirar do cesto: compotas, sumo, croissants dos bons, dos que comprei durante muito tempo lá para casa (lembro-me agora que há muito não compro, e penso isto sem mais, não há dores reflexas aqui e percebo isso...)... 
... mas o que eu precisava durante muito tempo era disto... ahhhh precisava.
Ontem até encontrei o monte perfeito para comprar... num ponto mais alto, perto e com vista para a água, e com ruínas para reconstruir, longe da estrada o problema seriam acessos, electricidade e saneamento, mas nada impossível... a não ser o seu grande defeito.... já estava comprado por quem não vende... enfim as vezes as coisas são perfeitas mas só à primeira (ou segunda, vá) vista...

Bom dia!

quarta-feira, 7 de agosto de 2019



Um chapéu fechado 
guarda o sol que abrirá amanhã

Uma cama com lençóis de clara brisa 
onde me deito com a escuridão 
e acendo todos os segredos que apaguei

Uma rede onde o olhar se balança  
nas estrelas que não caem, que ficam.
as que caem soltam-me sonhos no regaço 
que não caem, nem ficam.

A lua escuta a noite comigo 
e manda calar-me os gritos de silêncio

terça-feira, 6 de agosto de 2019

... das decisões difíceis...
Aiiii que a vida é tão difícil 
quando se tem de tomar decisões... 

Bom dia!

quinta-feira, 25 de julho de 2019


Uma pessoa que gosto muito deu-me isto há uns dias.
Disse que era para eu trazer para o meu escritório novo.
Para saber para onde quero ir, para me dar alento.
O meu monte no Alentejo, diz-me.

...e agora parece que começa a ser de muita gente, 
deu para estar na moda aparecer em todas as capas de revista...
 não há direito... 

mas eu olho para o quadro que me deram
 e apetece-me. ainda. a paz, 
a tranquilidade em tons de dourado sobre a terra. 
Disse-o, e quando me questionaram sobre esse gosto, face à presença de tal quadro no escritório:
“ e consegue? Com essa dinâmica toda?? Que lhe faz?  Nahhh não acredito”...
 (eu devo enganar muito à primeira vista, esta gente não sabe o que diz) 
... danadinha para isso ando eu. nem sabem...só mais uns anos. 
só mais uns anos, e penduro-o no meu futuro novo escritório: 
um alpendre :)) com vistas sem telhados até ao horizonte.

Alguns sonhos ainda tenho. :)