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segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

 


Uns dias longe de tudo, para mim, são um bálsamo. A chuva do lado de lá da janela, o calor da lareira do lado de cá. Entre chuvas damos os nossos passeios pelo sítio, já descemos até junto ao rio e subimos duas vezes hoje. A última já foi sem trela porque parece que agora estamos cá sozinhas… depois voltámos à base. Há tempo para meditar, para pensar, para deambular entre pensamentos e monólogos interiores. Acabei por ordenar ideias e vontades do que pretendo fazer este ano. Depois fui para junto da luz para ler, coisa que fiz pouco o ano passado, e deixei alguns livros que não acabei…é coisa que não gosto de fazer, gosto de começar e ir até ao fim…mas também já me dei a pensar: se o livro não te está a puxar, e o tempo dos livros arrancas a outras coisas, muda de livro, porque a intenção é dar prazer, absorver-te e mergulhar-te noutros mundos. Levar-te deste para outro onde se sinta a vida por outro lado. Se não faz isso, passa ao próximo… afinal não é isso que fazemos, e devemos fazer, em tantas outras coisas na vida? Se não te apaixona, se não te toca a essência, procura o que faça, o que faça o tempo valer a pena. Como estes dias doces, de silêncio e distâncias, que te fazem querer mais tempo deste tempo.

sábado, 4 de janeiro de 2025



Sim, o Verão, o calor, o céu azul claro, claro... mas e estas cores? Estas folhas debaixo dos pés, este tapete de cores, e o frio a fazer saber bem a lareira... e sim, bem sei, mas eu gosto da lareira sem capota, de ver a dança das chamas e o silêncio salpicado deste arder. Há calores e cores e sons que não se querem contidos e reciclados, recuperados, não se os pudermos aproveitar inteiros. Há muito que não fugia sozinha para o meu tempo, o meu silêncio, para mim. E sabe-me bem. A mim e à tracção às  quatro, que hoje teve muita terra debaixo das patas e muitos cheiros para explorar. Havia que aproveitar o céu cinzento, mas seco, de hoje, amanhã não sabemos como vai estar... se bom para andar de nariz lá fora, ou dentro de livros, ou a queimar as orelhas na lareira enquanto frita os miolos. Por pouco não se enfia no recuperador, se uma pessoa se distrai. Lá fora a noite instalou-se, nós instalámo-nos nela, de chávena de chá numa mão, a outra nas palavras que fazem este silêncio confortável e os olhos nesta luz quente que alimenta a alma e nos parece salpicar de vida a alma. Sim, o Sol, a praia, o calor na pele... mas e este? o por dentro da pele? o meu acho que tem estas cores, nada a fazer a não ser aproveitar, isto e depois o resto :)
 

domingo, 21 de maio de 2023

 


Há realmente alguma coisa reparadora no silêncio da natureza. Um silêncio que não é oco, não é vazio, é cheio de uma vida que nos enche, que nos repara, que nos recupera. Foram três noites e não deu para tudo o que queria, ou como queria. Ficar doente sabe deus com quê não ajudou, mas deu-me sono e dormi, fiz yoga quando me apeteceu com os olhos a alongarem também até ao horizonte. Ouvi musica enquanto cozinhei, li enquanto os olhos não se quiseram fechar. Tudo num ritmo muito próprio, muito meu, muito sem horas. As noites na serra são frias e o céu tirita de estrelas que não conseguimos contar, nem queremos.  O calor da cama conforta e aninha, enquanto os olhos se distraem pelas janelas abertas à paisagem, com as luzes da vila ao fundo, qual presépio fora de época. E a cabeça vagueia não se sabe por onde, mas volta a nós e devolve-nos, porque não há ali mais ninguém, só nós e quem trazemos dentro. Só nós e as recordações. Só nós e os sonhos. Só nós e o que nos faz, e nos fez. E a Pintarolas, claro, que atrevida elegeu um sofá de baloiço para cama mesmo em frente à janela. 
O que custou foi o regresso, e pensar no que se aproxima, no tempo que afinal não vou ter como pensava, que tudo se acelerou, que o tempo encurtou. Que a dondoquice está em perigo de extinção desde o telefonema com uma proposta, que a consciência manda aceitar porque é aliciante, e porque dondoquice não é opção de vida, por muito que me apetecesse (e precisasse) mais tempo de descanso, de reorganização, de ordenar ideias e interiores remexidos demais. Vamos ter menos tempo para fazer o que pensávamos fazer em mais, vamos ter de esticar tempo e dias para fazer tudo o que queríamos, projectos novos, facetas de nós que queremos descobrir se são nossas mesmo. Para explorarmos caminhos em nós que não sabemos ainda onde vão dar. E escrever, obrigar-me a sentar e vencer a preguiça de me desenovelar, de me desenterrar dos escombros dos últimos tempos. E aprender, aprender mais coisas, porque aprender também alimenta. E pensar em voltar. Em voltar a nós, não aqui, mas a qualquer lugar onde consigamos estar presentes, onde a alma tem um corpo perfeitamente seu, que habitamos verdadeiramente, numa plenitude que só certo silêncio compreende, e explica.

quinta-feira, 18 de maio de 2023



 Dias que enchem a alma e nos libertam a cabeça, com terra calcorreada debaixo dos pés e sol alto no olhar. Passeios e caminhos, estradas que acariciam as curvas da terra e fazem a alma dançar ao som das músicas que se vão sucedendo em sorrisos que não sabem cantar. Locais de silêncio e águas que vão correndo calmamente para onde têm de ir, numa frescura descomprometida e livre, que fazemos por beber. Pausas que fazem o tempo ter um sentido que não precisa de razão, como se a vida só se vivesse nesta suspensão do quotidiano, nos intervalos dos dias. 

Eu conseguia habituar-me a esta vida de dondoca sem esforço, a sério… anda-me a saber como a água fresca aos sedentos. Sede de vida também se sente, parece-me.

sábado, 22 de abril de 2023

 

Leva-me a dançar.

Leva-me a dançar num sítio cheio de gente onde ninguém me veja, onde a música seja só minha quando fechar os olhos e me esquecer do mundo com a tua mão na minha. Deixa-me gritar para dentro a liberdade que me custou tanto, tão fundo, e sorrir para fora como se nada tivesse custado e o tempo levasse tudo lavado num sorriso. Leva-me daqui para onde eu ainda estiver, resgata-me das garras dum tempo que nunca foi meu, duma criatura que nunca consegui ser. Que nunca quis ser. Leva-me ao cimo de todos os sonhos, onde as vistas se espreguiçam para lá de todos os horizontes, onde o sol se encosta, aninha, e espera a lua de pestaninha aberta. Amam-se na eternidade de mal se verem, mas esperarem-se a toda a hora, numa poesia sem palavras. Leva-me ao cimo dessa montanha, de todas as montanhas, vamos respirar fundo e encher de pureza a alma, senti-la de novo toda, inteira, como se nunca tivesse sido beliscada, esgaçada, rasgada e apunhalada. Como se estivesse inteira para confiar. Como se sítios sagrados a regenerassem, e acreditássemos de novo. Vamos sentir a poesia outra vez pela primeira vez. Vamos onde há um altar à vida, um lugar filho do luar,  pai de todos os pontos cardeais, com o mundo lá em baixo a rodear-nos por todos os lados, sem nos tocar.  Um alpendre que fala ao peso de cada passo nosso, para nos lembrar que há terra e raízes, e debaixo de todas as estrelas vamos banhar de luar a pele inteira. Vamos despir as noites do frio e vestir-nos de silêncio que fala de dentro. Anda, vamos fechar os olhos e respirar tudo em suspiros quentes, brincadeiras, sorrisos e gargalhadas frescas. Tudo o que sejamos nós e queiramos que o tempo seja. E vamos fingir que a vida é isto e que o resto são só pequenas pausas. Vamos brincar ao faz-de-conta que nada conta, senão o que queremos ver no meio da escuridão.

Leva-me como quem me resgata. Os sítios sagrados são sempre pessoas. Dança comigo.

sábado, 29 de outubro de 2022







Tenho tido sorte com os sítios que escolho. Este foi outra boa escolha. Confortável atento aos pormenores, tudo de acordo com o contexto e a função. Conforto e simplicidade, bom gosto e estar com pinheiros à volta e com o mar a ouvir-se a fundo,  faz apetecer voltar, mas até hoje não repeti nenhum sítio. Curiosamente eu que em quase tudo quando encontro algo que me encante e encha as medidas não gosto de arriscar ou de mudar para uma coisa que poderá vir a ser uma porcaria qualquer, nestes  sítios que escolho para fugir do mundo, não o faço, gosto de descobrir outros lugares para ficar. E talvez também sirva para tirar ideias para um dia... se calhar é isso... 
Apesar de mal termos saído de casa com a chuva permanente, a praia fica a 10 minutos a andar... e que praia, dunas maravilhosas, um areal extenso, e melhor que tudo, a única caminhada que fizemos não vimos vivalma, tivemos o areal todo para nós, a Pintarolas andava louca a correr para trás e para a frente à volta de sei lá o quê, a contornar as dunas e os dias de cidade. Quando começou a pingar começámos logo o nosso regresso, mas os ultimos cinco minutos, ainda que a correr, encharcaram-nos até ao ossos, as calças de ganga torci-as quando as despi... depois não voltámos a sair de casa, só chuva da pouco meiga, e depois trovoada. Ficámos sem luz a partir das cinco e tal. Pus-me à janela a ler, a pintarolas a vigiar a porta, e a certa altura... a treinar estoicamente o auto controlo :DD enquanto o sacana do gato parecia que lhe gozava o focinho... enxotei-o em nome das boas relações de vizinhança e porque não gosto de snobs armados ao pingarelho... depois caiu-lhe a pose toda, mais unhas e dentes houvesse... mas isso foi mesmo há bocado e há registo... e a Pintarolas ainda ouviu, não pode andar assim atrás dos vizinhos... mas por dentro sorri-me, e ela sabe.