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sábado, 20 de agosto de 2022

 


“Como é que a novidade chega ao mundo? Como é que nasce?
De que fusões, translações, conjunções é feita?
Como sobrevive, sendo extrema e perigosa como é? 
(…)
Será o nascimento sempre uma queda?”
Salman Rushdie, Versículos Satânicos (nunca tinha lido, e acho que estava na altura, ainda que me tenha relembrado pelas piores razões….)

Nascemos todos com o ar a ferir-nos as entranhas? A queimar-nos uma existência anterior? Cada nascimento é um choro novo, é um novo ar a queimar a comodidade dum passado que já não respira. Cada nascimento é uma queda, normalmente livre. Nem sempre se sobrevive à queda.



sábado, 9 de abril de 2022


 Este ano ainda não tinha tirado a foto da praxe. Vergonha, talvez. O ano passado só aviámos 9 livros, sendo que o do Afonso Cruz nem conta bem, de tão levezinho que é. Acabei o Quarteto da Alexandria, e gostei, gostei do MST, a sério que gostei e aprendi umas coisas... ainda que seja um formato diferente, mas deu-me uma fome imensa de fazer o que fez e descreve ao principio, ir para uma vila de pescadores no fim do mundo deixar que a paisagem que vê lhe ponha as palavras por ordem de escrita. Fiquei com uma vontade imensa duma licença sabática dessas, para mim, para as palavras, para as paisagens. Uma especie de retiro alentejano dos meus, mas prolongado e afastado - ainda mais. O Julio Machado Vaz é já quase um hábito, gosto de o o ouvir e de o ler, aprendo sempre. Há frases daquele livro que muita gente devia ler, muita gente devia reflectir. A louca da casa foi uma surpresa ao reconhecer muito do que se diz ali, por as vezes parecer que há ali coisas e sensações que conheço bem. As frases que acordam connosco e não nos largam, palavras com que sonhamos e a que nos agarramos para não esquecer não sabemos o quê... gostei do livro. O livro seguinte, do sentido da dor, li porque me recomendaram, não me fez pensar, não consegui ver o que acho que deviam querer que eu visse. Não é por a dor ter um sentido que faz mais sentido senti-la, não consigo ver ou sentir isso assim. O Perez-Reverte, autor do livro que mais recomendo e o livro com a personagem feminina que mais me marcou, não me impressionou com os seus cães assassinos de profissão. Lê-se bem, está certo, mas não há muito mais ali que dizer além dumas ilações básicas de como o instinto de sobrevivência é rei e senhor de todas as criaturas. As desoras do Cortazar, como em muitas coisas do Cortazar, umas são geniais outras parecem mas ficam longe... não poderei dizer muito mais deste livr porque já não me lembro... e isso quererá dizer alguma coisa, né?
Este ano acho que ainda não acabei nenhum, e já vamos em Abril. Ando miseravelmente a mastigar o Kundera que li na minha adolescência e agora parece empastelar-se nos dias, e eu, sem vontade de coisa nenhuma, vou-o deixando empastelar e ganhar pó. Não pode ser, eu sei, mas algo me anda a faltar, e sono ando a ter de sobra. Não sei se o vírus afinal não era do sono... hoje dormi mais de doze horas. Fora de brincadeiras, há anos que não dormia tanto. Qualquer dia pareço um bebé :))
Hoje já tenho carta de alforria... e está sol, pasme-se. ;)

sexta-feira, 8 de outubro de 2021

 

[ Julio Cortázar, in Desoras]

Porque escrever fica as coisas no tempo no seu tempo, no nosso tempo, que revisitamos depois, quando deixa de ser tempo, ou o nosso tempo. Assim, ali, está sempre presente, somos sempre o que fomos, sentimos agora o que já não sentimos, como essa terceira dimensão onde tudo cabe, e não cabe em mundo nenhum. Coisas que não aprendemos a esquecer, mas escrevemos para aprendermos a respirar o tempo e o deixarmos ficar nas palavras e não nos ombros.

domingo, 30 de maio de 2021

 

[in A louca da casa, Rosa Montero]

Talvez o envelhecimento também chegue às leituras, talvez. A capacidade de acreditar noutros mundos, outras irrealidades, sonhos fabricados por medida e desilusões à la carte espalhadas em histórias alheias que fazemos nossas com cada vez mais dificuldade. Grandes amores em que deixamos de acreditar ou queremos acreditar que só cabem em livros e na imaginação de alguém. Talvez porque chegue a hora de acomodar a realidade e chamar à gravidade os sonhos como o corpo obedientemente ao tempo. Torna-se a leitura um utilitário, uma ferramenta do dia a dia para compreender a realidade do mundo, e não mais. Sim, talvez seja isso, deixar crescer a criança que sonha dentro de nós, decrescendo a capacidade de acreditar em algo mais que o quotidiano. Leio isto e dou comigo a pensar que percebo agora se outra forma por que há alturas em que os livros me puxam menos. O mundo real pesa tanto por vezes que esquecemos o nosso mundo, aquele onde certas irrealidades fazem a nossa realidade por momentos.

domingo, 23 de maio de 2021


[ in "O Vício dos Livros", Afonso Cruz]

 ... afoga dias inteiros em sonhos, também.
(sei eu e acrescento sem dar conta, e depois aqui)

Por vezes quero só esquecer-me da vida, suspendê-la, pendurá-la num prego onde o meu tempo não passa. Nas últimas semanas começa sexta feira, a sair do Porto, começo a desligar. Não me quero lembrar da vida, vou respirando como quem não pede tempo emprestado, como se o tempo não medisse nada e nada me fosse. Como se não me visse, ou eu a ele - mas eu vejo-o, e bem, quando olho a minha filha e o espelho, onde não sorrio e os olhos não me aparecem. Não pego no computador da empresa a não ser que haja uma emergência, ou algum trabalho demasiado urgente - e tenho classificado cada vez menos coisas como urgentes. O fim de semana passou a ser o meu tempo suspenso - que passa, bem sei -, mas onde o mundo é uma coisa qualquer lá fora que quero pouco. Resume-se às idas ao supermercado e a casa dos meus pais. Já nem café tenho ido tomar como sempre foi meu ritual de fim de semana, para ver gente, para respirar um tico de mundo, para ler numa esplanada ou só olhar o que imagino estar lá. Desde que me separei que o fazia sozinha, ao início ia com a miúda, que adormecia no carrinho ou ao meu colo enquanto tomava café e observava o mundo. Observava o mundo que não era meu, e na altura acho que o pressentia, mas ainda não o sentia. Agora não sei se é a preguiça que me vence, se foi o confinamento que me ganhou e se entranhou, não sei, não tem apetecido. Tomo café em casa, às vezes com um livro, às vezes na varanda, quase sempre com um canídeo por perto, muitas vezes com todos. Desta vez, a pequena "ninja" parece querer saber de livros, ou de poesia, e espreita-me, com o pai esticado um pouco atrás, a mãe aconchegada perto dela, e eu num mundo meu, que cada vez mais me custa deixar segunda de manhã, onde pareço largada e abandonada à minha sorte (que é pouca, digamos), cercada por gente que não é minha, armadilhada em teias que não teci. Nunca fui boa a separar as áreas pessoal e trabalho, aliás como tantas outras áreas que as pessoas conseguem separar, e eu não, tenho muita dificuldade, sou só uma, e acho estranho que consigam tão bem dividir as águas. Se eu sou o que sou, sou-o sempre em todos os lados, não tenho botões que me desligam partes, se gosto de alguém gosto, se não gosto não consigo gostar, posso trabalhar com ela, reconhecer-lhe até competências, mas não gostar., e isso é tratá-la de modo diferente de se gostasse. Não consigo separar as águas e é por isso que prefiro esquecer a existência dos dias da semana, desse outro mundo onde eu inteira tenho de morar mas onde me recuso viver. O pior de tudo isto é que o recomeço, o reabrir a porta, custa mais. É o preço que se paga por suspender momentaneamente a realidade por não saber recortá-la à medida das minhas necessidades.

domingo, 4 de abril de 2021




 Trouxe-os para aqui com um propósito, rever as páginas dobradas e escolher algumas passagens para deixar o registo histórico que tantas vezes gosto de rever... mas acho que não estou com pachorra. Do primeiro, o que me ficou essencialmente foi uma cena relatada ao inicio de que senti vontade até aos ossos... descobrir um lugar qualquer, num fim de mundo improvável, sítio pequeno a contrapor a beleza e tranquilidade do lugar, tirar três meses ao quotidiano para os acrescentar à vida, alugar uma casa com vistas e uma varanda generosa, e levar na bagagem só tempo, música, livros e um computador para escrever. Assentou-me tão bem a ideia que se me gravou na alma como uma memória futura. De resto, é de leitura cómoda e leve, exactamente o que eu estava a precisar e queria ler nesta altura. O título - Não se encontra o que se procura - arrastou-me logo ali na livraria quando lhe bati o olhar, porque é uma frase cujo sentido eu repito há muito, e sinto-o muito como o meu sentido. Este livro do Sousa Tavares, curiosamente remeteu-me para o que comecei a ler há dias - A Louca da Casa, da Rosa Montero - ele refere o livro e a autora, assim como inúmeros livros e autores. Como que em conversa com o leitor, vai partilhando ideias e livros, faz também uma leitura à direita de alguma história do nosso país. E é um tipo de diálogo que gosto, não impõe, mas apresenta, comenta, talvez por isso tenha gostado do livro, como uma espécie de tira-gosto, algo para limpar o paladar entre livros de outra estirpe. Não sabia que tipo de livro seria, comprei, não pela capa, mas pelo título :) e não me arrependi. Seguiu-se o do Machado Vaz. Gosto de o ouvir e gostei razoavelmente do seu romance "Muros", que li há anos. Também não sabia o que esperar deste livro - à Escuta dos Amantes -, soava-me à partilha da vasta experiência que tem em ouvir pessoas e as suas histórias no seu consultório: as relações, o amor, a desilusão, a vida afinal. E ainda que num formato completamente desformatado cativa, porque é isso tudo, é mais que isso, mas não chega a ser isso... ou seja, é uma amálgama de tudo. Aqui não o descreveria como diálogo, mas como monólogo sobre várias facetas da vida partilhado com o leitor, e sei de muita gente que fazia bem em lê-lo e pensá-lo em várias vertentes, também me fez pensar nalgumas coisas e tem várias páginas marcadas. Gosto de algumas coisas neste homem, uma delas é chamar amantes a quem ama, quem pratica o amor, quem o sente, quem o dá, quem o sabe receber. Não, amantes aqui não são relações paralelas, ainda que possam ser, porque pode tomar muitos formatos, desde que a essência seja essa, até podem ser casados (vejam lá o escândalo ;) ), assim como classifica a Amizade como uma forma de amor, uma das suas facetas. Os amantes têm de ser amigos, mas os amigos não precisam ser amantes, são coisas diferentes mas que se tocam em muitos pontos.

[agora não me apetece escolher e transcrever aqui um ou dois trechos, daqui a bocado pode ser que a vontade assente, gosto de fazer esse exercício de deixar aqui partes que gostei, ou que me fizeram pensar, dos livros que vou lendo... há que vencer a maldita preguiça bahhhh]

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

 

Acabei o Quarteto (O Quarteto de Alexandria, de Lawrence Durrell). Deixo aqui, para mais tarde recordar e reler, os dois últimos trechos que me mereceram dobrar o canto superior da página. Este último “Clea” tem várias páginas com o mesmo tratamento.

Gostei daquela ideia de se ir mudando o penso à ferida até ela sarar. Talvez haja coisas realmente assim, e têm o seu tempo. Não se encurta, nem se prolonga além da cicatriz. Já a ideia que o futuro arranja maneira de modelar-se, nascer do vazio, acredito nisso, ou talvez não seja tanto crença, mas instinto de sobrevivência. E experiência empírica, até. E a pergunta... será que se pode gostar mais do pensamento de alguém, do que a sua presença física? Será? Que as palavras são mísera consolação, já sabemos, e acrescento outra frase, tão boa, doutra página assinalada, também deste último livro:

“As palavras são apenas os espelhos dos desenganos; 
contém em embrião todos os desgostos do mundo.” 

E eu, que gosto tanto de palavras, da sua dança, das suas imagens, das tantas mensagens que podem descoser as suas linhas, e da beleza disso tudo - de como pode ser sublime essa comunicação, esse código -, serei talvez um alvo privilegiado, facilitado. E, no entanto, curiosamente, hoje dei por mim a olhar para os bichos cá de casa, e a pensar exactamente isso. Sem palavras temos de aprender a conhecer o outro pelos gestos, pelas atitudes, pelas teacções, e através dos silêncios. A observar o outro, a comunicar com menos enganos e ruídos, duma forma mais genuína, mais verdadeira - mais reduzida ao essencial, e o essencial é o mais difícil de verbalizar, mas não de comunicar, não? Mas então à distância... não se pratica, né? O resto são ruídos... ou podem não passar disso.

Gostei mais dos últimos dois quartos do quarteto, sem dúvida nenhuma. Foi em crescendo esta leitura. Venha o próximo! Já me apetece e já sei qual ;)

sábado, 2 de janeiro de 2021


Gosto deste resumo de ano - em livros. Ando muito preguiçosa para passar algumas das passagens que leio, e onde me fico uns tempos, para aqui. Isso e também, ou estou mais exigente, ou este ano não foi dos mais rentáveis, digamos.
Este foi o 2020 em livros, sugestões para 2021? Para compor com aqueles que já estão na calha?

Já não tenho a certeza da ordem de alguns, mas não terá sido muito diferente da que vai formando a pilha da fotografia. Do primeiro, do Houellebecq (de que adorei a "Submissão") pouco ou nada tenho a dizer, não gostei, não me ficou, nem me prendeu. Pego-lhe, abro-o para ver as páginas dobradas no canto: três em todo o livro. É um indicador. Releio essas páginas, esta definitivamente é muito boa:

[Michel Houellebecq, in Extensão do domínio da luta]

"o amor como inocência e como capacidade de ilusão" - realmente nem todos temos a mesma capacidade de amar, de nos entregarmos sem pensar nem calcular, com a inocência e a pureza que se precisa, para se descobrir uma grande ilusão, que se calhar se adivinhava que se acreditava poder não ser assim...
O livro seguinte, que me lembro li num instante, gostei, a escrita é leve e corrida, a história mistura a doçura dum velho que se deliciava com romances de amor (de cordel, vá) a contrastar a brutalidade da humanidade com que vivia na selva.

Dos outros fui aqui publicando algumas coisas, não do Siddhartha, que sendo curto me custou mais ler, embora no fim tenha gostado, não seria livro que relesse (também é certo que não costumo reler, mas de alguns livros fico com essa vontade, doutros nem me passa pela cabeça tal). As mil e uma noites foi uma desilusão, ou eu talvez esperasse algo diferente. Percebe-se a importância que pode ter tido na história da literatura, mas disse-me quase nada. Matou-me a curiosidade e pronto. Da Odisseia gostei, e muito. Aquele curso online que deveria ter sido para me ocupar numa quarentena e num confinamento que nunca existiu para mim, teve essa vantagem de me dar um roteiro de obras que marcaram a humanidade e a literatura. Esse roteiro ainda não o terminei, está guardado. Não sobrevivi ao segundo volume do romance de Genji (ainda está por acabar, coisa que é raro fazer...gosto de acabar o que começo), e assim como quem não quer a coisa, fiz um desvio ao roteiro e perdi-me - propositadamente no mapa. 
Passei por Florença (cidade que adorei e a que sim, vou voltar, Itália é uma paixão só por si) na companhia dum autor que gosto muito, e gostei do que li, também uma escrita fácil e corrida, que se lê duma penada. Tem uma única página com o canto dobrado, e refere-se a toda essa página e a seguinte, mas se tiver de escolher uma parte:

"- Tenho de lhe dizer, Rowley.
-Porquê? - gritou ele, estupefacto.
- Não conseguiria casar com ele com esta coisa a pairar sobre mim. Estaria na minha consciência. Nunca teria um minuto de paz.
-A sua paz? E então a paz dele? Acha que ele lhe vai agradecer por lhe contar? Estou a dizer-lhe que está tudo bem. Agora nada a relacionará alguma vez com a morte daquele desgraçado.
- Tenho de ser honesta.
Ele franziu o sobrolho.
-Está a cometer um erro terrível. Conheço estes construtores do Império. A alma da integridade e tudo isso. O que é que eles percebem de indulgência? Eles próprios nunca tiveram necessidade disso. É loucura destruir a confiança que ele tem em si. Ele ama-a deveras. Pensa que você é perfeita.
- E o que é que isso vale se eu não sou?
(...)
- Se ele me ama o suficiente, compreenderá." 
[Somerset Maugham, in  Paixão em Florença]

E este trecho diz tudo, tudo o que tanta gente não entende. Há coisas com que algumas pessoas não conseguem conviver, fazer, enganar, manipular, o diabo a sete, não conseguem por muito que todos digam que é o melhor. Mas não, têm a ilusão de que se fizerem a coisa correcta, essa será a coisa certa para fazer. Não querer enganar os outros, por entender até que isso é magoá-los mesmo que não saibam, querer mostrar como e o que são, para que o outro não se arrependa depois. Para ter a certeza que são amados pelo que são, e não pelo que parecem ao outro. Pessoas que não manipulam, que se afastam e põem na mão dos outros voltar ou não, compreender ou não, "se amarem o suficiente"... mas nunca se ama o suficiente. Ou se ama ou não se ama, não há graus de suficiência. Isso também aprendi, mas não foi no livro. :) O diálogo com o dito cujo também é bom, o modo como se desenrola, e como ele apenas mantém a intenção de casamento para não sair beliscada a própria ideia que tem dele mesmo, não por amor a ela. Que não tem, obviamente (ainda que pensasse que sim). Gostei do livro e claro, do fim. Gostei do doido do Rowley desde que apareceu, tendências, pois.... ;)

Do Afonso Cruz - Flores -  também gostei, mas estava à espera de mais, para ser franca. O que me fez comprar o livro há já uns tempos largos foi o trecho da contracapa, "o beijo terá sempre de manter a densidade da primeiro, a história de uma vida, todos os pores-do-sol, todas as palavras murmuradas no escuro, toda a certeza do amor.". Terei de ler outro dele, este não me encantou por aí além.
Já o meu Lunário, lido no meu Alentejo. Lembro-me da noite em que o acabei de ler, no alpendre, com a lua por cima de mim e o silêncio à minha volta. Lembro-me de ficar a mastigar aquela sensação que as coisas do Al Berto me dão, de entrar noutro mundo, doutras realidades, doutras maneiras de sentir, de maneiras mais certas, mais intensas, mais onde me sinto realmente. Lembro-me bem dessa noite :)
Agora estou no terceiro do Quarteto. O primeiro foi uma sensação estranha, não me apaixonou e foi quase como uma pequena dor inflingida com retroactivos. Realmente chega a ser curioso como há pessoas que nos conseguem magoar até através do tempo e do espaço, ao percebermos como nunca nos conheceram, perceberam. Mas ao menos conseguimos, nem que levemente, perceber que nunca nos viram, realmente. Ou o que mais viram, ou procuraram... Não que não goste de ouvir que a intensidade da sensualidade, do ambiente em que o desejo quase se cheira, faz recordar-me, pensar-me, identificar-me, querer-me - gosto, gostei, mas não gostei da personagem, nem mesmo nessa parte. Não me identifico com aquela perspectiva de pele e sexualidade - como troca por algo, como meio dum fim qualquer, como fuga de alguma coisa, e de si mesmo. Não sou assim, nunca fui, até agora pelo menos. Estranho que não tenham percebido, menos estranho (agora) é perceber que era a isso que estavam habituados. Já do feitiço que me falavam, só encontrei o mistério que se associa a omissões e manipulações, e tantas vezes real falta de conteúdo, quase como aquelas criaturas que parece que não vão além dos títulos das notícias, que repetem. Da profundidade de alma só vi alguns traumas que se tornaram ferramentas. Sem sombra de dúvida, gostei mais do segundo - Balthazar - e estou a gostar do Mountolive. Pode ser que no fim de tudo desgoste menos da personagem, pode ser. A seguir já tenho uma série deles na calha, e estou com vontade acabar o Quarteto e mudar de agulha. 

E agora que parece que o sol quer aparecer e pôr-se na minha varanda, quentinho e luminoso, vou ver se o apanho enquanto bebo um café e me entretenho com o Mountolive.


 

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020



 [Lawrence Durrell, in Quarteto de Alexandria - Balthazar]

“cheio de um alívio que era quase insuportável” 

Há realmente sensações assim, momentos assim que nos fazem inteiros, que só se sentem se andarmos feitos de fragmentos há demasiado tempo. É de tal forma avassalador que só pode querer confirmar que é falso. Como se sentir um tal alívio, uma tal plenitude e satisfação, só confirmasse o quanto ainda  se sofre terrivelmente daquilo que nos queremos livrar, esvaziar, acabar. Como apenas servisse de prova do seu contrário. Alívio devia traduzir um vazio onde antes algo nos ocupava e pesava, “cheio de alívio” não é um vazio que nos tranquilize, é um momento falso. Que às vezes tanto precisamos - como algumas mentiras - mas de que não restará nada. 

domingo, 8 de novembro de 2020

[ Lawrence Durrell, in O Quarteto de Alexandria - Balthazar ]
 
Será? ... as coisas não ficam incólumes ao tempo, às intempéries da vida, à ausência demarcada e à solidão, ainda que escolhida. As coisas não ficam simplesmente com as  extraordinárias melodias guardadas até ao dia em que, face à visão do piano abandonado, se queiram de novo ouvir, tocar, viver. As coisas por mais maravilhosas que sejam, ou essas ainda mais - sim essas ainda mais -,  são sensíveis à dor, ao abandono, à traição que toda a falta de lealdade, e de verdade, revela. E se não forem, bom se não forem, são maravilhosamente superficiais e supérfluas, são cantiguinhas que se trauteiam para preencher o silêncio, sem o ofuscar. Não se guardam em pianos destinados a grandes partituras, e que nos lembram experiências maravilhosas e, às vezes, as dores rigorosas que se seguiram. E depois disso, ainda que o piano seja o mesmo, nada soará igual.

quarta-feira, 26 de agosto de 2020



[sacado no primeiro do Quarteto de Alexandria - Justine, Lawrence Durrell]

Estive para começar a lê-los no início do ano passado, depois achei que ainda era cedo, devia deixar passar mais luas sobre tudo, mas fiquei curiosa com algumas coisas que me disseram acerca da personagem, da sua intensidade, sensualidade, profundidade de alma e alguma coisa de feitiço, coisas vagas mas vastas, coisas que guardei e me intrigraram. Este ano, achei que era tempo, já não sinto que o tempo precise de mais tempo - o que o tempo tinha a fazer já fez, e estava há demasiado na calha dos livros a ler.
Já com cem páginas volvidas, sem saber bem porquê, volto atrás para reler “Para Eva estas memórias da sua cidade natal”, a que sorri da primeira vez que por ali passei, e é aí que atento na página exactamente anterior, uma das primeiras, e leio isto... Acontece que, sem estar a contar, solto uma gargalhada. Valeu-me não estar vivalma à vista... Se calhar não devia, pois, se calhar não é bonito, mas não foi gargalhada teatral, pensada ou premeditada...aconteceu e não fez mal a ninguém, e quando assim é, e solta por vontade genuína raramente dá tempo a freios, nada a fazer. Como, relendo pensei, nada haverá a fazer aos espíritos fracos, com as argumentações fáceis e rápidas, cómodas e tantas vezes emprestadas - conforme der mais jeito na altura. Assim como há gente que, por muito que até se esforce, nunca conhecerá certa estirpe de “crimes” como os de alma que atravessam o corpo em cumplicidades e profundidades múltiplas. Que vão até às raízes do ser e não só do estar. Que têm a vileza de deixar transpirar felicidade em demasiados momentos fugazes, eternamente fugazes. Crimes, sim, parece-me talvez uma boa denominação, não aspirantes a grandes crimes que não passam de pequenas fraudes, breves, superficiais e incapazes de qualquer grandeza... coisa de pequenos burlões, ganhos mesquinhos e inconsequentes. Talvez a única consequência seja impedi-los de ser completamente infelizes, de os entreter, à imaginação e aos dias, de lhes garantir a mediocridade assegurada, o assim-assim, o comodamente seguro, o assim é que deve ser - de serem o que a minha mãe chamaria de ”desinfelizes”. Ou seja, uma garantia de que não serão felizes. Mas não há nada como uma garantia... talvez um dia destes também me renda aos encantos das garantias, quem sabe? Ou talvez eu guarde para sempre uma alma criminosa... em quem, qualquer coisa, a ser, que valha a pena, até porque, se calhar, mais tarde ou mais cedo, tudo se paga (dizem, mas disto não  há certezas nem provas empíricas... mas, pelo sim pelo não...)


quinta-feira, 6 de agosto de 2020

in Lunário, Al Berto

“Não consegue encontrar resposta .” Perde-se a resposta e depois a pergunta, e cristaliza-se eternizada a sensação de fim inacabado, mas resolvido. Fechado. Um fim que nos sobrevive e a que sobrevivemos não vivos - o que era para ser já foi. E agora? Não consegue encontrar resposta.

quarta-feira, 10 de junho de 2020

[Murasaki Shikibu, in O Romance do Genji]

Gostei deste.
Falavam em poemas entre si, em recados que mandavam, cifrados e com referências a elementos naturais. Gosto da ideia das mensagens ocultas, das palavras disfarçadas, das coisas que só o destinatário perceberia. A estrutura era rígida (waka, ou tanka, poemas de 31 sílabas, origem dos haiku, parece) e o remetente era avaliado pela qualidade do poema, tanto na elaboração das alusões como na sensibilidade de expressão. E eram frescos, muito frescos, tinham um grande tráfego na correspondência e imensos destinatários. Assim eram os tempos.... eram?
Um romance de referência, muito recomendado ao que parece (a minha ignorância desconhecia-o), vou a meio e ainda não me encantou. Pelo que li acerca, o melhor, o intrincado nível psicológico do romance virá na parte final. A ver vamos.

sábado, 16 de maio de 2020


Entre outras coisas, estes meus registos nesta plataforma, servem-me para anotar coisas que leio e que por alguma razão me ficaram ou fizeram pensar quando as li. Várias vezes acontece que para as recordar as pesquiso nestes diários, porque a memória é de galinha, e se ficam as ideias a forma invariavelmente dissipa-se no tempo. Tenho andado muito preguiçosa nestas lides, e hoje o tempo, e uma ideia que já não conseguia reproduzir-se na forma original, convidou-me a recuperar as últimas leituras. À conta do bendito curso online, para o qual afinal não tive o tempo esperado - alteraram-me o plano e a minha quarentena não chegou verdadeiramente a acontecer - li algumas coisas que a bendita preguiça impediu que ficassem registadas. 
Uma das coisas que dou por mim a pensar é que há obras que marcaram os tempos de alguma forma, e que a mim não me marcaram muito, pouco havendo para mim a registar, a não ser confrontar-me com a ignorância -  ou da sua existência, nalguns casos, ou com o contexto que as tornaram marcantes na história da literatura. 
Nunca tinha ouvido falar no Épico de Gilgamesh, o curso, fraquinho que possa ser, sempre reduz a minha vasta ignorância :)  Foi escrito em placas  de argila mais de dois milénios a.c. e a sua referência ao dilúvio foi a razão porque inicialmente lhe dedicaram tanta atenção, e terá sido a mais antiga  história escrita que chegou aos tempos de hoje. As histórias contavam-se, espalhavam-se e passavam os tempos sendo contadas, não escritas. Com deuses e mortais, como os tempos assim usavam, com características tão permeáveis entre entre eles, os deuses com defeitos tão humanos e alguns mortais considerados quase deuses e deles próximos.
O texto ficou para a história por muitas razões, para mim ficou principalmente uma passagem que aqui deixo (afinal foi para isso que me decidi a dobrar a preguiça...) para futuros regressos:


"Se teu coração está tomado de medo, joga fora esse medo; se há terror nele, joga fora esse terror. Toma o machado em tua mão e lança-te ao ataque. Aquele que abandona a luta não fica em paz." - quem abandona a luta, ao contrário do que poderia pensar não fica em paz, bem verdade.

Por agora já chega... daqui a bocado logo verei o nível de preguiça :))

domingo, 23 de fevereiro de 2020

[Harper Lee, in Não matem a cotovia]

Li o livro em dois fins de semana. Fiquei curiosa acerca do filme, fui procurar na net, encontrei, vi-o e desiludiu, há tantas coisas no livro eliminadas no filme... empobreceu tanto tudo. Gostei muito do livro, daí te-lo lido em tão pouco tempo. Prende-nos a história, e o ter muito sobre que pensar, principalmente sobre o decurso do tempo, sobre aquela época, sobre o carácter e as alturas da história em que o carácter é um fardo que apenas alguns assumem sem escamotear. Coisas para se aprender e reflectir... e se fosse eu? Como pensaria (n)aqueles tempos? Penso tanto nisso sobre tantas coisas e épocas... e gostava de ter mais certezas sobre o não abdicar de ir contra a corrente, pensar pela própria cabeça e confiar nela. E como pensaria a minha cabeça nestas alturas sobre tanta coisa? Gostava de ter mais certezas, de me tranquilizar mais, acerca de mim. Mas tenho sempre perguntas, até sobre mim, sobre o que sou e quanto o sou. O que não duvidei foi que esta (que aqui deixei em cima) era uma grande frase. Coragem; para mim coragem é não haver certezas, haver medo e ainda assim enfrentar, seguir em frente apesar de tudo isso por sentirmos que é o certo. Esta definição é mais contundente, ainda mais pesada e definidora de carácter: é estar vencido antes de começar, ainda assim começar e ir até ao fim. Aliás como faz Atticus em relação ao julgamento do negro inocente. Percebemos depois que ele sempre soube que perderia, como outros no processo de decisão envolto na história. É uma história sobre as pessoas que têm convicções e carregam, aos poucos e na sua medida (im)possível, as mudanças do mundo às costas.

domingo, 9 de fevereiro de 2020


[Mia Couto, in Venenos de deus, remédios do diabo]

Os registos guardados do último fim de semana. Registos que mais me disseram, que mais gostei. Um dos excertos já tinha sido publicado num outro blog que tive, mas na altura tinha-o apanhado pela net, não tinha lido o livro nem tinha ideia de que livro era o excerto de ter medo de não haver regresso de algumas pessoas. Encontrá-lo fez-me sorrir, e a frase que depois disso me ficou vem depois: “amar é estar sempre chegando”. Talvez seja, desde que nunca se tenha, de facto, partido. Quem parte e chega será cheio de suficiências: razões suficientes para partir e para chegar, afecto bastante para suportar o suficiente. Mas não se ama o suficiente ou é insuficiente o descaso, o suficiente não é medida para o amor. Ou é ou não é, e quando é, é desmedido: infinito. Para o bem e para o mal, o amor é feito e desfeito de infinitos.
Ainda tenho outro livro do Mia Couto na calha, por ler, vou deixá-lo serenar, é um autor que tem um tempo próprio para ler, ou melhor, um espírito para se ler inteiro. Agora vou ler dois ou três constantes do plano não planeado de leitora para este ano... o ano passado foi pobre em leituras. Andei mais a tentar ler-me por dentro, é por certo uma leitura que devíamos fazer mais vezes... 

sábado, 1 de fevereiro de 2020

“Parecia uma coisa passageira. Que o amor acontece para a gente desacontecer. Mas depois se viu que era mais que uma lembrança teimosa. E fizeram durar correspondência, deixaram crescer juras e promessas. Até que, subitamente, Deolinda deixou de responder às cartas. Desde então, o médico avaliou desejos, pesou saudades. E percebeu que sofria pela medida incerta. Meteu a existência numa mala, tratou dos papéis e dinheiros e rumou para a terra da sua amada.”

Mia Couto, in Venenos de deus, remédios do diabo

... parece que a medida incerta é em certa medida a medida exacta, contrapeso das saudades, motor desejoso de (con)ceder ao desejo de matar saudades. A vida acontece a quem se arrisca desacontecer, assim é o amor - acontece ser muito mais que uma teimosia que teima em não desacontecer, tantas vezes sem acontecer... ahhh mas quando acontece...não tem medida.
Depois de acabar o Siddhartha, começo o fim de semana com Mia Couto, que me dá sempre uma sensação doce de ser, de estar, de ler-me. Livro curtinho, que apetece devorar desde as primeiras páginas.  Pensamentos escritos em sotaques quentes e sonoridades em tons de terra, coisas que se misturam e me soam familiares, ainda que não sejam. Só os pensamentos os reconheço, alguns como se os soubesse já, outros como já os tenha sentido por baixo da pele dos dias, entranhados na minha. Venenos de deus, remédios do diabo - a prescrição de fim de semana para esquecer o resto do mundo, pensando-o. É só uma espécie  de olvido  :)))

domingo, 26 de janeiro de 2020


A dar um mimo extra para minorar os ciúmes da mais pequenita. Os bichos são como nos em tanta coisa... nunca a deixo subir para os sofás ou para a cama, mas ela devagarinho e com jeito, vai pondo uma pata, depois outra, sorrateiramente em pouco tempo está toda empoleirada no fofinho. Hoje deixei, precisa de mimo e eu também :) 
Quase com o livro seguinte a acabar e sem marcas nas páginas, estive a passar pelo que deixei marcado neste do “em tudo havia beleza” que acabei há umas duas semanas, mas ainda pára aqui na minha mesinha de cabeceira... fiquei a pensar numa passagem que marquei, e reli agora, que me faz pensar na culpa e no que eu já tinha pensado sobre a culpa, as suas várias facetas e ferramentas. De como é usada como instrumento tantas vezes - de manipulação, fazendo sentir culpa para levar ao fim que alguém procura; outras vezes como desculpa, para se fazer ou não fazer algo, porque depois a culpa nos consome, ou antes, não sei, é coisa a que normalmente não me dedico... Mas para mim uma novidade, que me apercebi há algum tempo... é usar a culpa como escudo, como prova de boa formação do espírito, naquela lógica de: se eu sinto culpa é porque não sou má pessoa, senão ser-me-ia indiferente, mas como não é, e sinto culpa por isto ou aquilo que magoou ou fez mal a alguém, portanto não posso ser má pessoa. É cómodo, é até lógico se usado só uma vez, já repetidamente não serve; nem mesmo alegar que não foi vontade própria, que se foi arrastado para esta ou aquela situação, que não queria e não faria, mas não conseguiu evitar, impor, contrariar.... mas até por isso se sente culpa, esgrimindo-a mais uma vez. A culpa é pau para toda a obra, e uma moeda de troca - sinto culpa recebo imunidade contra acusação de maldade pura, ou indiferença, ou o que for que na altura der jeito... Mas a culpa que é verdadeira, e não um instrumento, muda os comportamentos, não se cai no mesmo, talvez porque a culpa leve ao arrependimento e esse - mais uma vez - só existe genuinamente se levar a mudança de comportamentos, ou a, pelo menos, não se repetirem esses. 
Este livro trouxe-me uma nova perspectiva da culpa, que eu nunca tinha pensado: quando nos defendem, quando alguém nos defende e protege livra-nos da culpa, está a dizer-nos que a culpa não é nossa, que o problema não somos nós, que não devemos sentir culpa, que não temos por que sentir essa culpa, que estamos sim, do lado da razão. E é verdade, e eu nunca tinha pensado nisto. Nos últimos anos habituei-me por um lado, a encarar a culpa, irónica e paradoxalmente, como desculpa, e por outro a percebê-la como instrumento de manipulação. Muitas vezes defendi que nem em tudo haveria culpa, mas como a culpa não era real, não surtiu qualquer efeito, e de todas as vezes que a culpa era justificada por conscientemente se magoar alguém, nunca isso também mudou... também aí não era culpa. Acho que a culpa mais pesada e mais vincada é aquela de que não se fala, não se pronuncia quase por respeito, a que se carrega, mas não lhe sabemos o nome ou o rosto. A verdadeira culpa, penso muitas vezes que é a que só se torna nítida e consciente postumamente aos assuntos que a geraram.






domingo, 10 de novembro de 2019



...espírito de Domingo melancólico... 
...dos fins de semana de Outono que valem quanto vale o prazer da nossa companhia, 
dos pensamentos que nos agarram enquanto vagueiam pelas frases que lemos,
 e da música que nos envolve neste compasso lânguido e lento, 
acolhendo este cinzento que entra pela janela como um aconchego.

["O escritor galardoado (...). Nota-se-lhe um certo incómodo, uma certa aspereza. Talvez poucos dos presentes o tenham lido. E, mesmo que tivesse sido muito lido, na realidade de pouco lhe pode servir, pois ninguém o ama, e desse ponto de vista é como se ninguém o tivesse lido. Não há amor aqui, não há amor em lado nenhum. E talvez ele saiba e aceite isso. Todos sabemos e aceitamos, pois a literatura é já algo irrelevante na medida em que não há nela amor. Não há nela amor, pensa o homem de gravata amarela, e devia haver, pois só o amor tem sentido, e onde estará o seu amor, e o que está a fazer neste sítio se não encontrar aqui amor, e lembra-se do seu pai então, cuja vida aconteceu segundo esta ordem que aquela mulher com tacões severos simboliza.
O seu pai teria ficado contente ao vê-lo ali, junto dos reis. Teria gostado que ele lhe contasse alguma anedota, talvez por isso tenha ido, por amor ao pai."

Manuel Vilas, in Em tudo havia beleza [Ordesa]

Quando se sabe amar leva-se amor a todo lado, connosco, em gestos que os corações alheios não vêem. São gestos fruto de fazer o que se sente, só. Apenas quando se questionam, quando olham para dentro dos próprios gestos que vivem, vêem. Vêem onde os outros nem olham. Há corações que raramente se questionam, que não vêem para dentro e nem sequer olham para fora, que nunca chegam a ver ninguém, apenas batem e nem sabem por quê. 
Para quem sabe amar há amor em tudo, tal como há beleza em tudo. Beleza é amor.]