O tempo que passa leva o silêncio. À medida que envelhecemos o mundo tem cada vez menos silêncios, cada coisa ganha voz, ocupa as possibilidades, preenche-as, fecha-as, tornam-se espaços fechados onde dentro estão sempre pedaços de nós. Hoje de manhã abri a janela enquanto o ar se enchia de café, queria respirar o dia novo, e com isso renovar o tempo em mim, inspirar silêncios ainda por escrever. Abri a janela e fechei os olhos para sentir o frio do ar por dentro do quente do corpo. Abri os olhos com o sinal do café servido e vi a laranjeira despida em frente, e o muro que lhe serve de guarda enrugado pelo tempo molhado das chuvas, sempre húmido, e ouvi - claro como o bater do meu coração - a conversa entre o meu pai e o meu irmão “estes terrenos têm muita água, corre muita água por aqui que não vemos”. Aquele muro, que no inverno tantas vezes jorra água das entranhas, nunca mais foi silêncio. A cada vez fala-me, traz-me aquela conversa, a água que não se vê mas que corre por dentro das coisas. Há anos atrás ele não falava, ainda era silêncio. À medida que envelhecemos o Mundo tem cada vez menos silêncios porque as memórias falam alto quando respiramos lento o suficiente para as ouvirmos... Afinal... acho que é o tempo que não passa que leva o silêncio.
quinta-feira, 5 de janeiro de 2023
Com o luar da noite
Agasalho as palavras
Lanço os olhos às estrelas
E peço aos deuses em que não acredito
Esperanças por estrear
E um tempo por que esperar
quinta-feira, 16 de junho de 2022
Hoje é noite de dormir com as janelas abertas, é dia de beber esta escuridão com as estrelas a tilintar nos olhos fechados, como pedras de gelo num copo de fim de tarde a derreter o calor sem cerimónias enquanto nos despedimos do sol, e sem saber, de toda a vida até aquele momento. Da praça sobe um murmúrio de vozes que me chega como uma especiaria de silêncio, apimenta a imaginação por outras vidas, tantas conversas, risos espontâneos e vivos, que não se contam, e onde nada se desconta. Como se a vida fosse inteira, sem gomos nem dias, só agora. Só agoras. A brisa de seda que me escorre pela pele lembra o despertar do verão e o calor que as noites devem ter, onde as almas se abrem de par em par, como as janelas fechadas da minha varanda. Às vezes o verão tem de entrar devagarinho e tomar conta da casa, ainda com os agasalhos espalhados pelo chão. Ainda com o pó de Outonos pelos cantos. Gosto quando o verão entra pelo lado da noite. Hoje é noite de abrir as janelas, mas a escuridão não dorme. Talvez eu também não, só a vida parece ter adormecido por meros instantes.
domingo, 14 de novembro de 2021
Ontem acordei para uma nova realidade com o choro do minha filha no quarto, do outro lado do corredor. Levantei-me e fui ter com ela: o primeiro desgosto de amor, ou qualquer coisa que lhe cheira a isso mas lhe sabe mal, pelo menos na manhã de ontem. Muitas mais virão, a história é sempre assim. Como virão outras tantas de coração a transbordar e o brilho dos olhos a ofuscar o sol mais límpido. É assim, resta perceber que é, e tentar equilíbrios, gerir desgostos, prolongar os sorrisos. Um choro pegado, contínuo, uma dor que rasga por dentro, a mágoa do engano, o punhal de mentiras frescas. Não importa a idade, é tudo o mesmo, só que quando desfloram essa ignorância, essa primeira vez dói mais. A alma ainda estava intacta nessas dores. As primeiras feridas, como o primeiro amor, marcam mais, sentem-se mais, até demais. Dei-lhe o mimo que sei que não cura, como sei que nada cura estas dores nestes momentos, mas dei-lhe amparo em abraços, e aconchego como colo. Dei-lhe o que gostaria tantas vezes de ter tido, quando as manhãs me acordavam assim, ou parecido. Não importa a idade, é tudo o mesmo, só varia o numero de cicatrizes que cada um conta, e o que isso altera na alma, que é pouco, ou devia ser. Arranjei-lhe programa com as amigas à tarde para sair de casa e tentar distrai-se e poder dizer tudo o que a mim não sentia poder dizer. No fim do dia vieram para cá, fiz o jantar para todas e ela voltava a rir-se e eu a saber quanto duram esses risos e o que às vezes custam. Foi dormir, eu bebi uns copos de vinho no sofá, vi uns episódios duma vida que me arranca da minha e que procuro cada vez mais, adormeci, acordei, fui para a cama às cinco da matina. De manhã acordo antes dela, sei (desconfio) que vai acordar na mesma, ou parecido, espero pelo sinal. Não tarda. Entra-me no quarto a chorar, com o telemóvel na mão: Olha mãe, olha isto... Não importa a idade, é tudo o mesmo, e talvez seja bom sinal (será mesmo?) quando é assim, enquanto puderes manter os sentimentos e as emoções sem idade talvez a alma tenha menos rugas, mesmo que riscada de cicatrizes. É um equilíbrio difícil, talvez seja preciso que a alma seja grande(ou que não tenha tamanho, talvez), seja forte, resistente à dor e muito teimosa de sonhos... serão todas o mesmo? Acho que não. Oiço a minha filha, aninhada nos meus braços, entre soluços destroçados e risos roubados, e rezo para que a alma dela não seja como a minha. Não estarei para sempre do outro lado do corredor, e custa tanto quando não está ninguém. Tanto. A minha filha ainda não sabe. Não importa a idade, é tudo o mesmo.
sexta-feira, 5 de novembro de 2021
É assim tão difícil amar? O que será preciso? Ter filhos, irmãos, pais, ser? Um coração maior onde caiba mais, onde caiba tudo? Ou um mais pequeno onde só caiba o que é tudo? Amar é ter um horizonte além do próprio umbigo? Ou encontrar o nosso umbigo em cada horizonte? É ver realmente o outro, ou olhá-lo e vermo-nos, voltarmos a nós? É conhecer o outro, ou reconhecermo-nos? É gostarmos do outro em nós, ou de nós no outro? É sentir felicidade por fazermos alguém feliz, ou por nos estar agradecido? E para amar, será bastante apenas existir, respirar? Ter nascido? Será que todos somos capazes de amar? Ou é preciso ter sido acarinhado protegido e amado? Ou temos de acreditar, acreditar na humanidade, no bem, no outro? Será que é coisa que morre com quem sabe amar? ou morre antes de morrermos? Será que se perde, que nos roubam, que nos podem matar essa capacidade, quando nos amputam dos sonhos em troca desilusões? O que é um sonho, senão o acreditar na possibilidade de algo que nos faria feliz? Amar é acreditar? Mas acreditar não é já assumir que não há razão, ou saberíamos ao invés de acreditar? Então Amar é ter fé? Em quê? Em quem?
E não, não perguntem porque só me pergunto, não sabem que toda a resposta é apenas uma pergunta adormecida?
sábado, 24 de julho de 2021
quarta-feira, 17 de março de 2021
Ela enrola-se nele por toda a pele que consegue, abraça-o com o corpo todo, até não haver fronteiras, nem vazios, um corpo começa onde o outro não acaba, tudo se mistura, se confunde, se funde, mas não se baralha. Se ele se levantasse ela iria com ele colada na pele, nos cheiros de tudo em nada, em todos os sorrisos, na alma que teimava em estar presente, mesmo no esquecimento, sem fronteiras nem misericórdia. Se ele fosse, ela não ficaria. Mas ele não se levanta, respira devagar e com prazer a eternidade que soube desde o primeiro beijo, que sentiu. E a eternidade nunca larga a sua presa. Quem brinca com a eternidade ganha o resto da vida toda para se arrepender.
sábado, 6 de fevereiro de 2021
sábado, 16 de janeiro de 2021
No fim, fechamos todas as luzes e reunimos o braseiro que ficou, restos de fogo que aqueceu o olhar e a pele - a casa que somos e a que habitamos. Há uma intimidade repleta de ternura nos restos do fogo, no calor que ainda dão, na luz quente e deliciosa que emanam. Combinam com o fim do dia, com o silêncio da penumbra, com a suspensão do mundo, com o desligar de qualquer movimento. Com a companhia do último cigarro nos dedos. E ajeitam-se as brasas de novo, para manter o calor, para libertar a luz delicada que ainda guardam. E o calor sobrevive, e às vezes incendeia-se de novo. Como agora.
sábado, 19 de dezembro de 2020
segunda-feira, 7 de dezembro de 2020
domingo, 8 de novembro de 2020
sexta-feira, 6 de novembro de 2020
Esta sensação que me falta, que sempre me faltou, ausência tão sentida há tanto tempo. Este amparo, esta segurança que aconchega a vida aos dias, isto de que sinto sempre ter sido órfã. E depois esta sensação que me come lentamente alguns dias, de saudades não sei de quem, de falta não sei de quê, como? Porquê?... se sempre faltou o essencial? Se todas as vezes que a vida me abanou, de todas as vezes que me abala, são os meus próprios braços que me envolvem, os meus medos que me amparam, as minhas faltas que me aconchegam as noites? Como é que se anseia por algo que nunca se teve? Que não se conhece? É como amar alguém que não existe, mas que conhecemos. De alguma forma conhecemos. Só nos falta encontrá-lo. O que só é possível se não procurarmos.
domingo, 19 de abril de 2020
Talvez não baste existir, a não ser que se exista em alguém - e aí somos. Às vezes, inteiramente.
Existo e tenho nome (tantos), mas sem que me chames, será que sou?
sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020
terça-feira, 14 de janeiro de 2020
quinta-feira, 14 de novembro de 2019
quarta-feira, 13 de novembro de 2019
sábado, 9 de novembro de 2019
Lembrei-me agora disso, agora que me sento no sofá e o fim do dia me abraça de anoitecer pela janela.












