Mostrar mensagens com a etiqueta Indigo mood. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Indigo mood. Mostrar todas as mensagens

sábado, 22 de novembro de 2025

[foto @kat_in_nyc ]

O tempo que passa leva o silêncio. À medida que envelhecemos o mundo tem cada vez menos silêncios, cada coisa ganha voz, ocupa as possibilidades, preenche-as, fecha-as, tornam-se espaços fechados onde dentro estão sempre pedaços de nós. Hoje de manhã abri a janela enquanto o ar se enchia de café, queria respirar o dia novo, e com isso renovar o tempo em mim, inspirar silêncios ainda por escrever. Abri a janela e fechei os olhos para sentir o frio do ar por dentro do quente do corpo. Abri os olhos com o sinal do café servido e vi a laranjeira despida em frente, e o muro que lhe serve de guarda enrugado pelo tempo molhado das chuvas, sempre húmido, e ouvi - claro como o bater do meu coração - a conversa entre o meu pai e o meu irmão “estes terrenos têm muita água, corre muita água por aqui que não vemos”. Aquele muro, que no inverno tantas vezes jorra água das entranhas, nunca mais foi silêncio. A cada vez fala-me, traz-me aquela conversa, a água que não se vê mas que corre por dentro das coisas. Há anos atrás ele não falava, ainda era silêncio. À medida que envelhecemos o Mundo tem cada vez menos silêncios porque as memórias falam alto quando respiramos lento o suficiente para as ouvirmos... Afinal... acho que é o tempo que não passa que leva o silêncio.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2023


Visto a nudez do silêncio 
Com o luar da noite
Agasalho as palavras 
Com sorrisos que deixei no passado
Lanço os olhos às estrelas 
E peço aos deuses em que não acredito 
Esperanças por estrear
E um tempo por que esperar
Entretanto, escrevo noites
Para me desagasalhar do frio dos dias 

E ponho o nariz de fora,
Como quem não tem frio

quinta-feira, 16 de junho de 2022

[foto @moniblanco]

Hoje é noite de dormir com as janelas abertas, é dia de beber esta escuridão com as estrelas a tilintar nos olhos fechados, como pedras de gelo num copo de fim de tarde a derreter o calor sem cerimónias enquanto nos despedimos do sol, e sem saber, de toda a vida até aquele momento. Da praça sobe um murmúrio de vozes que me chega como uma especiaria de silêncio, apimenta a imaginação por outras vidas, tantas conversas, risos espontâneos e vivos, que não se contam, e onde nada se desconta. Como se a vida fosse inteira, sem gomos nem dias, só agora. Só agoras. A brisa de seda que me escorre pela pele lembra o despertar do verão e o calor que as noites devem ter, onde as almas se abrem de par em par, como as janelas fechadas da minha varanda. Às vezes o verão tem de entrar devagarinho e tomar conta da casa, ainda com os agasalhos espalhados pelo chão. Ainda com o pó de Outonos pelos cantos. Gosto quando o verão entra pelo lado da noite. Hoje é noite de abrir as janelas, mas a escuridão não dorme. Talvez eu também não, só a vida parece ter adormecido por meros instantes.

domingo, 14 de novembro de 2021

[foto @jordanioo]
(o baloiço o ultimo reduto de toda a meninice... que eu ainda adoro, mas tantas vezes vazio demais)
 

Ontem acordei para uma nova realidade com o choro do minha filha no quarto, do outro lado do corredor. Levantei-me e fui ter com ela: o primeiro desgosto de amor, ou qualquer coisa que lhe cheira a isso mas lhe sabe mal, pelo menos na manhã de ontem. Muitas mais virão, a história é sempre assim. Como virão outras tantas de coração a transbordar e o brilho dos olhos a ofuscar o sol mais límpido. É assim, resta perceber que é, e tentar equilíbrios, gerir desgostos, prolongar os sorrisos. Um choro pegado, contínuo, uma dor que rasga por dentro, a mágoa do engano, o punhal de mentiras frescas. Não importa a idade, é tudo o mesmo, só que quando desfloram essa ignorância, essa primeira vez dói mais. A alma ainda estava intacta nessas dores. As primeiras feridas, como o primeiro amor, marcam mais, sentem-se mais, até demais. Dei-lhe o mimo que sei que não cura, como sei que nada cura estas dores nestes momentos, mas dei-lhe amparo em abraços, e aconchego como colo. Dei-lhe o que gostaria tantas vezes de ter tido, quando as manhãs me acordavam assim, ou parecido. Não importa a idade, é tudo o mesmo, só varia o numero de cicatrizes que cada um conta, e o que isso altera na alma, que é pouco, ou devia ser. Arranjei-lhe programa com as amigas à tarde para sair de casa e tentar distrai-se e poder dizer tudo o que a mim não sentia poder dizer. No fim do dia vieram para cá, fiz o jantar para todas e ela voltava a rir-se e eu a saber quanto duram esses risos e o que às vezes custam. Foi dormir, eu bebi uns copos de vinho no sofá, vi uns episódios duma vida que me arranca da minha e que procuro cada vez mais, adormeci, acordei, fui para a cama às cinco da matina. De manhã acordo antes dela, sei (desconfio) que vai acordar na mesma, ou parecido, espero pelo sinal. Não tarda. Entra-me no quarto a chorar,  com o telemóvel na mão: Olha mãe, olha isto...  Não importa a idade, é tudo o mesmo, e talvez seja bom sinal (será mesmo?) quando é assim, enquanto puderes manter os sentimentos e as emoções sem idade talvez a alma tenha menos rugas, mesmo que riscada de cicatrizes. É um equilíbrio difícil, talvez seja preciso que a alma seja grande(ou que não tenha tamanho, talvez), seja forte, resistente à dor e muito teimosa de sonhos... serão todas o mesmo? Acho que não. Oiço a minha filha, aninhada nos meus braços, entre soluços destroçados e risos roubados, e rezo para que a alma dela não seja como a minha. Não estarei para sempre do outro lado do corredor, e custa tanto quando não está ninguém. Tanto. A minha filha ainda não sabe. Não importa a idade, é tudo o mesmo. 

sexta-feira, 5 de novembro de 2021

 É assim tão difícil amar? O que será preciso? Ter filhos, irmãos, pais, ser? Um coração maior onde caiba mais, onde caiba tudo? Ou um mais pequeno onde só caiba o que é tudo? Amar é ter um horizonte além do próprio umbigo? Ou encontrar o nosso umbigo em cada horizonte? É ver realmente o outro, ou olhá-lo e vermo-nos, voltarmos a nós? É conhecer o outro, ou reconhecermo-nos? É gostarmos do outro em nós, ou de nós no outro? É sentir felicidade por fazermos alguém feliz, ou por nos estar agradecido? E para amar, será bastante apenas existir, respirar? Ter nascido? Será que todos somos capazes de amar? Ou é preciso ter sido acarinhado protegido e amado? Ou temos de acreditar, acreditar na humanidade, no bem, no outro? Será que é coisa que morre com quem sabe amar? ou morre antes de morrermos? Será que se perde, que nos roubam, que nos podem matar essa capacidade, quando nos amputam dos sonhos em troca desilusões? O que é um sonho, senão o acreditar na possibilidade de algo que nos faria feliz? Amar é acreditar? Mas acreditar não é já assumir que não há razão, ou saberíamos ao invés de acreditar? Então Amar é ter fé? Em quê? Em quem? 


E não, não perguntem porque só me pergunto, não sabem que toda a resposta é apenas uma pergunta adormecida?

sábado, 24 de julho de 2021

 

[de Nicoleta Vacaru]

E, no meio da multidão, eu vi-te. Não te procurei, não te encontrei, saltaste-me aos olhos de repente;  com tal nitidez e clareza que percebi que não consegui deixar de ver - depois, até mesmo de olhos fechados, eu via. Via-te, vejo-te. Como se não fosse possível voltar a fechar os olhos. Onde não se distinguia nada, não se via nada, eu vi-te. Não te procurei, não te encontrei, estiveste lá sempre, mas só depois ficaste.  E, no meio da multidão, no meio do nada que é tudo, eu vi-te,  como se tivesses sido desenhado para o meu olhar. Como se só eu, no meio da multidão te tivesse visto, no meio de tudo e de nada, para sempre.

quarta-feira, 17 de março de 2021

 Ela enrola-se nele por toda a pele que consegue, abraça-o com o corpo todo, até não haver fronteiras, nem vazios, um corpo começa onde o outro não acaba, tudo se mistura, se confunde, se funde, mas não se baralha. Se ele se levantasse ela iria com ele colada na pele, nos cheiros de tudo em nada, em todos os sorrisos, na alma que teimava em estar presente, mesmo no esquecimento, sem fronteiras nem misericórdia. Se ele fosse, ela não ficaria. Mas ele não se levanta, respira devagar e com prazer a eternidade que soube desde o primeiro beijo, que sentiu. E a eternidade nunca larga a sua presa. Quem brinca com a eternidade ganha o resto da vida toda para se arrepender. 

sábado, 6 de fevereiro de 2021

[foto @ezgipolat]

Quando lês a palavra amor em quem é que pensas, sem saber que pensas?  Quando te falam de colo, onde vais parar sem dar conta?  Quando ouves a palavra riso, quem é que aparece, na tua cabeça, a rir ?  Quando vês um beijo, que boca sentes na tua?  Quando, à noite, fechas os olhos com quem dormes?

sábado, 16 de janeiro de 2021

 


No fim, fechamos todas as luzes e reunimos o braseiro que ficou, restos de fogo que aqueceu o olhar e a pele - a casa que somos e a que habitamos. Há uma intimidade repleta de ternura nos restos do fogo, no calor que ainda dão, na luz quente e deliciosa que emanam. Combinam com o fim do dia, com o silêncio da penumbra, com a suspensão do mundo, com o desligar de qualquer movimento. Com a companhia do último cigarro nos dedos. E ajeitam-se as brasas de novo, para manter o calor, para libertar a luz delicada que ainda guardam. E o calor sobrevive, e às vezes incendeia-se de novo. Como agora.

sábado, 19 de dezembro de 2020

 

enrolei as minhas pernas nas dele, ainda de olhos fechados e com um sorriso a acordar-me no corpo. Enrolo as pernas para que não me fuja e para o saber ali, depois da noite inteira, para dias inteiros. abro os olhos e pergunta-me então, estou muito velho? o cabelo já quase branco e muito curto, a barba curta e com o mesmo tempo, e os olhos a olharem para mim, iguais por dentro, ou eu não sabia de diferença nenhuma. abracei-lhe o rosto com as mãos e dei-lhe um beijo. estava na mesma, o beijo não mudou, era um beijo sem tempo. e dei um e outro e mais outro até já não contar tempo, mas risos e pele e calor. afasto-me um pouco para voltar a olhar-lhe os olhos entre as minhas mãos e mergulhar-lhe no olhar, e percebo que não sei o que vê, se vê o mesmo que eu vejo, ou que eu não vejo quando o olho... penso o que verá? e é isso que me acorda: a minha idade nos seus olhos, sou eu que estou velha. escrevi algures, ou pensei, - às vezes não sei da diferença -  que o amor é o único antídoto da idade. Não cura, mas não deixa que nos seja uma doença. talvez só como alguns os amores, não parecem sofrer de tempo ou espaço, sobrevivem desde que se respire. e às vezes sonham-nos, invadem-nos a mente enquanto dormimos, indefesos, de muros baixados e  sem tino no que (nos) faz a cabeça. acordei. não havia pernas onde enrolar as minhas. desenrolo palavras sobre mim mesma para não enrolar o dia, para libertar as pernas para o caminho. o meu caminho.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020



[imagem @sarvesh_chaudhari] 

Almoço a olhar para o mar, a imensidão que se estende pelo olhar, para lá do horizonte e do desconhecido. Agita-se o vento, sacodem-se vontades e ajeitam-se as estrelas, ainda encobertas pela luz que não deixa ver caminho. Distraio-me com a janela do vizinho, que me faz respirar terra firme. Este mar por navegar que me afoga, trago-o nos meus olhos por descobrir, e só o trago porque naveguei mares proibidos, céus por mapear e sorrisos por regressar... ensinada que estou de descaminhos, só me resta caminhar por este mar adentro, que me engole incerto do seu tamanho e do meu caminho. Não me lancem amarras, deixem-me enfunar as velas do sonho e afogar no que ainda não vivi.





domingo, 8 de novembro de 2020


[foto @sarvesh_chaudhari]

Já não escrevo para que me entendam, já não escrevo para falar. Escrevo agora para não falar o que não entendem. Já não escrevo para unir margens, para fazer pontes que só eu atravesso. As palavras já não são rios seguindo o mapa dum mar que cabia num bolso, e nunca saiu do sítio. Agora as palavras são o sítio onde a minha noite tem casa, onde os meus olhos se fecham, onde a alma se abre entre as linhas, é o sítio onde vive o silêncio do inexplicável indizível, do que me é intemporal. As palavras são o tempo onde ainda não morri, onde o futuro é pretérito imperfeito, ou só os dados por lançar, na mão de alguém que não conheço, nem sei, nem sei se quero. 
Já não escrevo para explicar aquilo que, ou se sabe, ou não se lê. Entendes? 
Eu sei que não.

sexta-feira, 6 de novembro de 2020

 Esta sensação que me falta, que sempre me faltou, ausência tão sentida há tanto tempo. Este amparo, esta segurança que aconchega a vida aos dias, isto de que sinto sempre ter sido órfã. E depois esta sensação que me come lentamente alguns dias, de saudades não sei de quem, de falta não sei de quê, como? Porquê?... se sempre faltou o essencial? Se todas as vezes que a vida me abanou, de todas as vezes que me abala, são os meus próprios braços que me envolvem, os meus medos que me amparam, as minhas faltas que me aconchegam as noites? Como é que se anseia por algo que nunca se teve? Que não se conhece? É como amar alguém que não existe, mas que conhecemos. De alguma forma conhecemos. Só nos falta encontrá-lo. O que só é possível se não procurarmos.

domingo, 19 de abril de 2020


Será que há existência sem constatação? Será que se é, inteiramente, sem que alguém nos conheça? Será que a pedra que vejo, e a que chamo pedra, seria uma pedra se não lhe chamasse pedra? Se não a visse?
Eu existo sem que seja vista, mas para ser não será preciso alguém que nos veja, nos conheça, nos diga até o que vêem, como somos entendidos, que nos desvende até para nós?
Será que sou inteiramente sem que ninguém saiba o que a pele encerra dentro de si? De mim? É preciso outro para sabermos que somos?
Talvez haja existência sem constatação, mas e para ser?
Talvez não baste existir, a não ser que se exista em alguém - e aí somos. Às vezes, inteiramente.

Existo e tenho nome (tantos), mas sem que me chames, será que sou?

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

[foto @tarasovm]

Hoje sonhei, mas nem no sonho eu acreditava no que sonhava. Como se tivesse acordado do sonho e já estivesse nele desperta. Há coisas, ou pessoas, em que deixamos de acreditar, depois, nem em sonhos. Ouvimos e sorrimos apenas um esboço complacente, talvez até em tons de felicidade, como quando uma criança nos conta todos os grandes feitos que atingirá quando for grande. O sonho não acabou com um ternurento beijo na testa, mas a sensação era a mesma. Acordei com saudades de acreditar. Há dias em que custa acordar adulta, com os feitos todos por fazer, sem acreditar no que acreditámos que nos faria felizes... ou talvez não.

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

[foto @oeysteinkarlsen]

Há lugares na cidade onde perdi partes de mim. 
Às vezes ainda as encontro nesses sítios que abandonei, 
onde ainda estou, já não estando.
Sítios onde as flores nascem sem raízes,
e morrem sem perfume.

quinta-feira, 14 de novembro de 2019


Há pessoas que nos vão ganhando aos poucos, sem darmos por isso vão passando a fazer parte do nosso dia, entram descalços como quem respeita o chão da casa que quer conhecer. Vão-se tornando casa e fazendo casa, devagar, com a consciência que cada lugar tem um tempo, mas que tudo pode ser conquistado, ou, pelo menos, acolhido. Há frases que vão ficando, sentidos que nos vão acalentando, ao ponto de se sentir a falta quando o silêncio se torna ausência. Chegamos ao ponto de desejar a presença, sem que disso haja consciência, até que há, e tentamos perceber o que aconteceu, ou porquê, e não há resposta mas há um sorriso que nalguns dias persiste. E medo, não se sabe de quê, como não sabemos explicar porque nos ausentamos do tempo quando repetem frases de outros tempos. Sem o saber, repetem frases antigas que nunca conheceram, que usavam outra voz. Gostam do olhar onde descobrem meiguice... e gostam da minha cabeça, e eu gostava de apagá-la em muitos momentos, partes dela, pelo menos. Gostam dos movimentos, do andar, das expressões que não noto serem minhas... sem saberem o que ouvi-lo move consigo. E face a um ou outro atrevimento catita, com piada, que me faz rir, eu lembro-me do que não quero responder, que já respondi, e no compasso, calo-me. Não quero repetições.
Lembram-me para olhar a lua, e eu quero esquecer que vi. E não sei mais nada, de perdida no tempo em que as palavras me diziam coisas que nunca disseram.

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Desligo as luzes como quem foi dormir, fecho a luz do dia em mim. Mando a bicha para a cama, ela vai e volta passado quase nada, enrola-se nas sombras do chão. Acendo um cigarro no cadeirão com vista para a chuva, os pés dentro das pantufas contra o vidro, e os olhos de mim para dentro. Olho  como quem dorme, inconsciente de mim, consciente em sonhos. Oiço o batuque da chuva lá fora. Há coisas que não mudam. Quantas vezes já fumei este cigarro, aqui, assim? 
Dou-me conta que continuo a perguntar-me tudo e nada, coisas demais sempre, e que cada vez mais quero que me dêem menos respostas. As nossas perguntas definem-nos e as respostas a que chegarmos também. Talvez haja, para cada um, uma resposta. Por isso não quero respostas de ninguém, ou cada vez menos. Quero as minhas perguntas até às minhas respostas, ou, talvez, aceitar apenas perguntar-me. E ir conversando com a chuva, falando-me no silêncio das palavras. E ir fumando os mesmos cigarros, nas noites que são as mesmas do que nunca foram. O tempo só existe se olharmos para trás.

sábado, 9 de novembro de 2019



É preciso um abraço, daqueles que param a rotação da terra, que suspendem tudo, que largam o dia lá fora, que aconchegam a respiração do coração. 

Há dias acordei a meio da noite, mais uma vez com os bebés patudos a fazer barulho, levantei-me e fui ver deles como quase todos os dias de há duas semanas para cá, acabei a fazer um biberon e a dar ao mais magricela, com medo que a magreza o consumisse. Voltei para a cama, e só me lembro disso: de precisar dum abraço que me parasse o tempo, me retirasse do mundo, me fizesse descansar do carrossel louco que têm sido os meus dias. Embrulhei-me em mim mesma, fiz dos meus próprios braços o abraço, e debaixo das mantas senti frio, só o cansaço o adormeceu, deixando-me abraçar o sono durante umas horas.

Lembrei-me agora disso, agora que me sento no sofá e o fim do dia me abraça de anoitecer pela janela.

quinta-feira, 7 de novembro de 2019


O cansaço apaga-me a vontade de parar o tempo para dar lugar às palavras.
Passam por mim e não as prendo, são minhas mas não as guardo, dissolvem-se, perco-as, tal como se perde tudo o que não fica. Ou quase tudo. 
Guardamos o que não permitimos deixar fugir.