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segunda-feira, 23 de agosto de 2021

Apanhei isto numas coisas antigas, fartei-me de rir com os comentários parvos (aqui adaptados e destacados em fundo vermelho) que acrescentei a um texto que apanhei em algum lado na altura, não sei se na altura mais alguém se riu, ma eu ri-me a escrevê-lo e a relê-lo ontem à noite. Deixo aqui como amostra de parvoíces passadas e gargalhadas futuras. Na altura escrevia algumas parvoíces destas e tenho saudades disso, talvez até estes comentários deveriam ter outra assinatura, ainda que eu seja sempre eu, foi um eu de outra fase, que hoje revisitei e voltei a ser um bocadinho, e gostei, talvez eu não tenha mudado assim tanto, afinal, só me faltará o mote, se calhar... mas a emissão retomará a (a)normalidade habitual já de seguida, não se apoquentem. :)


As mulheres e o sexo: gritonas, mandonas, ordinárias e religiosas


No que toca ao seu comportamento na cama, as mulheres dividem-se em quatro (só??? desconfio um bocado deste começo, não sei se o mocinho tem canudo na matéria... não aparenta curriculum à altura.... só pode!) grupos diferentes: as gritonas, as mandonas, as ordinárias e as religiosas.


Gritonas - são o maior grupo (pois, já ouvi dizer...), que é formado pelas mulheres que dão gritos durante o sexo. Convém esclarecer que os gritos não são neste caso frases completas, nem sequer palavras, mas apenas sons à solta, sem qualquer construção gramatical específica. São os célebres "ahn, ahn, ahn"; o sempre muito escutado "oh, oh, oh"; os "ai, ai ai" ou o mais raro "ehhhhhh..."

Normalmente, os gritos começam com uma vogal, e aqui o "o" ganha clara vantagem (ohhhhhh a sério??? isso aparenta uma certa desilusão, não?... eu a pensar que era o AAAhhhhhhhhh), seguido a curta distância pelo "a" (ahhhhhh....bom...), e ambos muitíssimo destacados do "e". Há alguns casos em que os gritos começam por "u" (uhhhh... serão vaias, mocinho?...não sei, just say'n) ou "i" ( e...e...e mais qualquer coisa... que não chega?), mas são muito marginais, e julgo que só foram escutados por uma única vez numa ilha do Pacífico.

Quanto ao volume dos gritos, há basicamente dois subgrupos: o primeiro é o das Mulheres Sensurround, cuja gritaria nos faz trepidar (pode ser bom, se calhar...); o segundo é o das Mulheres Stereo, que gritam virando a cabeça alternadamente para a esquerda e para a direita (ele é optimista, eu acho que elas estão a dizer que não... ou estão em negação, ou o gajo pensa que está no bom caminho...mas não nãããoooo), de forma a criar um efeito sonoro digno de recordação (alguém com um sorrisinho parvo de recordação?....).

É igualmente interessante examinar o ritmo dos gritos femininos. Há o ritmo Techno, um "oh-oh,oh-oh" muito acelerado; há o ritmo "Super Slowmotion", um "ahhnnnnnnnnnnnnnnn" lento e prolongado (só para quem tem boas caixas toráxicas para aguentar...devem ser gajas bem fornecidas de pulmões, claro), quase desprovido de climax (coitadinhas.... tsss tssss); e há o ritmo Fadista (este deve ser assim.... o mais erudito sei lá...) , um "óoooooh" sofrido e inesperadamente amargurado dadas as circunstâncias (inesperado... dizes tu).

Por fim, há o ritmo mais animado, que está no Top das preferências masculinas, o ritmo Classic Remix. No fundo, trata-se de uma mistura de tons antigos da música pop com as sonoridades mais modernas da house, do tipo "ahnn...ah-ah-ah, ohhhnn, oh-oh-oh, oh...ohhh, ah....ahnnn..." (hum hum... estou a ver que não faço ideia do que seja, mas devo ser a única aqui...)

 

Mandonas - Este grupo é obviamente formado pelas mulheres que dão ordens durante o sexo (alguém tem de pôr ordem na situação, ora!). É o segundo grupo mais numeroso, e tem crescido claramente nos últimos anos, talvez devido à auto-confiança elevada das mulheres (ou à necessidade de orientação dos mocinhos, quiçá).

A ordem mais escutada pelos homens é a chamada Ordem Imperativa de Localização Vaga (OILV), com o inimitável grito "Vai, Vai, Vai!" (é mais um hino à motivação, diria eu, tipo cheerleader do próprio espectáculo...mas se ele precisa de motivação desta... não sei não...). Depois, há a Ordem Confirmativa de Penetração Eficiente (OCPE), com o não menos famoso "Isso, isso, isso!"(tipo aviso à navegação... se bem que não sei como não desconcentra o gajo, mas pronto... vocês nã0 se desconcentram nestas coisas facilmente, tá visto...)

Em terceiro lugar, aparece a Ordem Imperativa Oral (OIO), com o sempre bem vindo "Quero chupar-te!" (este gajo não sabe o que é uma ordem!!! uma ordem é: chupa-me!... esta gente...pfffff... depois admiram-se de precisarem de orientações...)Segue-se a Ordem Generalista Ordinária (OGO), com o célebre "fod..-me!" (isto sim, já me parece mais uma ordem, mas se nos durantes, algo corre mal, porque a ela parece-lhe que ele ainda não está a fazer a coisa certa, ou como deve "de" ser...), que por vezes se transforma numa Ordem Perfeitamente Localizada mas Ordinária (OPLO), com o imperial "Fod...-me aí!" (parece-me plausível...  há que especificar, não vá baralhar-se....)

Por mais surpreendente que isso possa parecer, há igualmente mulheres que dão ordens a uma terceira pessoa, que neste caso é a sua própria vagina (que portanto o mocinho entende como uma terceira pessoa... hum hum... 'tá certo...). Incluem-se nesta situação a chamada Ordem Castigadora Vaginal (OCV), com o famosissímo "Dá-lhe, dá-lhe, dá-lhe!"; e também a ligeiramente aterradora Ordem Castigadora Vaginal Nazi (OCVN), com o formidável "Rebenta com ela!" (hummm sem comentários de tão parva que a coisa é já de si...)

 

Nota: devem contar-se também neste grupo as mulheres que usam a chamada Ordem de Pré-aviso de Orgasmo (OPO), que é quando elas gritam: "Está quase, está quase!" (lá está mais um aviso à navegação, tipo torre de controlo, a dar conhecimento do ETA... talvez para ninguém chegar atrasado, ou adiantado, quem sabe)

 

Ordinárias - Este terceiro grupo é formado, como o nome indica, pelas mulheres que só dizem palavrões durante o sexo. Embora ainda minoritário, também tem aumentado bastante nos últimos anos. As classes altas e as classes médias incorporaram na sua linguagem diária não só o "ó pá" e o "tchau", mas também o calão durante o sexo (deve ser uma espécie de inbbbbeja do vocabulário alargado do pobinho... ou o reconhecimento da sua utilidade empírica, sabe-se lá).

Assim, são já muito habituais as mulheres que largam vários "fod...-se" durante esses tórridos momentos, bem como aquelas que usam o termo "cara...o" a torto e a direito, seja para referenciar o dito cujo e o que desejam fazer com ele (há que chamar os bois pelos nomes, né? chamar Joãozinho, ou Zézinho, talvez aniquile qualquer esperançazita da coisa se dar... digo eu, sei lá), seja apenas para libertar a tensão acumulada desde a última vez que viram um (pois, se libertam a tensão a chamar-lhe nomes, em vez de se agarrarem à coisa, se calhar vão voltar ao mesmo... ou não...). 

Evidentemente, é expectável que estas mulheres misturem os palavrões com gritos parecidos com os do primeiro ou do segundo grupos. Por vezes, acontece mesmo que, no espaço de breves segundos, uma mulher salta do grupo Gritonas para o grupo Mandonas (é assim, somos polivalentes!!), e desse, num micro-segundo, para o grupo Ordinárias (e valentes, também...).

A situação verifica-se quando ela, ainda um pouco inibida, vai libertanto uns "ahhnss" e uns "ohhss" e de repente começa a transformar-se e, no auge da excitação, larga um convicto "ah, ah, ah, vai, vai, fod...-me!" 

Para além dos palavrões referentes ao acto, há também o uso dos palavrões referentes aos intervenientes específicos. Há mulheres que, mal um homem as aquece, começam logo a baptizá-lo de forma vernácula (chamam-lhe aquecedor, queres ver?...). "Ó meu cabr..., (ahh afinal não, mas pode acumular, certo?...) estás a gostar?" é um exemplo muito escutado.(com quem esta gente se dá... caredo!!!)

Por fim, há o Palavrão de Auto-Marketing, que é quando as mulheres começam a chamar palavrões a si próprias. "Sim, sou uma put..." ou "adoro ser a tua put..."(não será isto assim a insinuar que no fim tens de dar qualquer coisinha??? não sei, estou só a especular...) são frases que já quase se tornaram verdadeiros lugares comuns e de que convém desconfiar, pois já todos nos habituámos a auto-promoções (jezzzuzzzzz...para isso ser promoção.... antes de serem putas eram o quê???... valhamedeus) permanentes.

 

Religiosas - Este é o último grupo e é bastante raro em Portugal (a sério? como assim? cá não se ajoelha e reza o Pai nosso fervorosamente? ou essas não são, assim.... religiosas?), embora exista muito nos Estados Unidos da América, que como todos sabemos é um país religioso (hum hum pois claro, aposto que deve ser por isso) . Assim, por lá é comum ouvir-se a exclamação "Oh my God, oh my God!" (mocinho com larga carreira internacional...que até domina o inglês!) Ao que parece, as americanas lembram-se do Altíssimo (não não és tu, deixa de ser convencido... é o DEUS mesmo, o do céu...convencido) quando estão a ter prazer. 

Com Hollywood a mostrar repetidamente situações destas, a expressão foi rapidamente incorporada no vocabulário nacional, e já se ouvem algumas portuguesas que libertam um convicto "Oh, meu Deus!"(lembraram-se que deixaram o fogão aceso, ou a máquina a torcer muito tempo... deve ser isso...e ele a pensar que é para ele...)

São as Mulheres Divinas, não porque sejam melhores que as outras, mas porque para um homem é sempre bom saber que há pelo menos uma mulher no mundo que acredita que ele é um pequeno deus na caminha (pois pequeno deus, e na caminha... 'tá certo... mas vá, pronto acabou a parvoeira...que as mais discretas não têm piada que mereça tempo de antena... ou o mocinho não conhece nenhuma)."

sábado, 8 de maio de 2021


"Porque desta vez falei-lhe com toda a franqueza; o tema casamento foi discutido até à exaustão. «Antes de virmos para aqui, para o apartamento, eu apercebi-me de que, para ti, era penoso pronunciar essa palavra. Um dia, disseste-a, à entrada de minha casa, e tens toda a minha gratidão pelo facto de a teres dito. Serviu para que eu me decidisse a acreditar em ti, no teu carinho. Mas não podia aceitá-la, porque teria sido uma base falsa para este presente, que nessa altura era futuro. Ao aceitá-la também teria tido de aceitar que tu te submetesses, que te obrigasses a uma decisão para a qual ainda não estavas preparado. Em contrapartida, submeti-me eu, mas como é lógico, posso estar mais segura das minhas reacções do que das tuas. Eu sabia que, mesmo submetendo-me, não te guardaria rancor. (...) Por isso te digo que agora não tenho a certeza de que o casamento seja a nossa melhor solução. O que é importante é que exista algo que nos una; esse algo existe, não é verdade? Ora bem, não te parece mais poderoso, mais forte, mais bonito que aquilo que nos une seja isso que existe verdadeiramente e não uma simples formalidade (...) E, finalmente há o teu medo do tempo, de envelheceres e eu olhar noutra direcção. Não sejas tão melindroso. Aquilo de que eu mais gosto em ti é algo que o tempo não será capaz de te tirar.»"

Mario Benedetti, in A Trégua


"(...) ao aceitá-la também teria tido de aceitar que tu te submetesses, que te obrigasses a uma decisão para a qual ainda não estavas preparado. Em contrapartida, submeti-me eu, (...)" - esta frase foi talvez das que mais me marcou neste livro. Li, sorri, fechei o livro, percebi a sensibilidade do homem que o escreveu e o entendeu: o gesto de amor, dos mais belos e mais imperceptíveis. Acho que este pequeno grande pormenor passa ao lado de tanta, tanta gente; e este pequeno grande pormenor é amar, amar verdadeiramente. É incrível como isso passa tão despercebido, como não entendem, como quem vê de fora não percebe, que às vezes nos submetemos ao inimaginável para não submetermos, não obrigarmos, quem amamos ao que imaginamos não estarem preparados para fazer, para que, no fundo, afinal, não se submetam. Simplesmente não se submetam. E ao fazê-lo ser opção consciente, sem mágoa, sem exigência alguma, apenas por não querer provocar, ou de alguma forma forçar, uma reacção no outro que queremos que seja livre e espontânea: verdadeira. Só assim o admitimos - verdadeira -, seja qual for o tempo que precise para que nasçam em si certezas, porque só queremos alguém com a certeza genuína, que nasce por dentro, selvagem e livre, cheia de força. Só assim terá força, a força da vida que pulsa no sangue que o coração faz correr - que faz viver realmente. Provocar uma resposta não é responderem-nos, é reproduzirem o que queremos ouvir, não nos responde a nada, é uma espécie de monólogo estéril, que só contenta a quem gosta de se ouvir: quem não ama, não sabe amar. Porque quem ama só quer amar e ser amado - sentindo que ama e que é amado -, e isso nunca pode implicar submissão, a não ser ao próprio amor ("em contrapartida, submeti-me eu"...). Não se força, não se provoca, não se faz, surge, e quando surge tem a força que dá a certeza de ninguém ser obrigado a submeter-se - a não ser ao amor que os dois sentem, ou não vale de nada, não vale nada. E isto, isto que se sente assim, é uma coisa que o tempo não pode tirar, o que pode tirar - e tira certamente - é a certeza de que o outro nos deixa sempre submeter, sem nunca chegar o tempo, dentro do nosso tempo, de querer realmente ficar junto, e que "importante é que exista algo que nos una". E isso seja vivido.

[dei por mim a reler coisas antigas. fui à procura de registos de livros já lidos e deparei-me com isto. incrível, impressionante, continuo a pensar exactamente assim. não aprendi nada, poderá dizer-se. ou ainda não mudei de ideias. continuo a achar certas as ideias, estas ideias. há coisas que não podem ser de outra forma, ou serão da forma errada, e dessa forma continuo a não as querer. há coisas que só têm valor se escolhidas, se fruto da vontade, e não forçadas, obrigadas ou obtidas por insistências, como vitórias por exaustão. se isso é amor eu nunca amei.]

terça-feira, 5 de junho de 2018


eu e tu:
as bocas fazem do beijo
a palavra não dita,
que nos refaz num só proibido
silenciado.

terça-feira, 3 de abril de 2018

[foto @moniblanco]

A fumar o último cigarro...a tentar não pensar em nada, só tentar que o tempo passe sem fazer muito barulho dentro. O dia passou-se bem, só agora me chegou a noite. Amanhã vai-me custar horrores levantar, já sei, mas de nada vale ficar debaixo de cobertores que não me acobertam do dia nem me aquecem do futuro frio. Pergunto-me por quê tanta complicação se tudo é tão simples e claro, ou sim, talvez por isso. Se calhar demasiada clareza turva. Realmente o que é óbvio às vezes custa tanto ver que não se vê, turva-se, curva-se e despista-se no caminho. Estatela-se quem não vê e vai morrendo devagar quem vê. Quem já viu. Eu já morri devagar e já me estatelei também, e no entanto, ando, caminho direita, por vezes liquefeita por trás da pele. Que não se note, que a voz não trema, que o passo seja seguro, que a certeza esteja amarrada num nó cego, que não vejo, mas sei. Não há melhor saber que sentir.
Nada mudou, não há novidades aqui, a sentença é conhecida há muito, há que cumprir o caminho, mais nada. Tenho as mãos vazias de vontades, as unhas já não esgravatam porquês, os braços já nao se estendem para agarrar a brisa que a pele ainda cheira, o olhar adormeceu brilhos antigos, os pés ganharam raízes e já não desesperam, não tenho de andar, o caminho, como que já feito debaixo de mim, come-me inteira devagar, e eu não mudo nada. Deixo-me, nem me mexo. Estou só de pé, à espera do dia que me há-de calar o tempo, mais nada. Até lá respiro, sorrio futuros passados e invento voos que não sabem rastejar - fumo um cigarro antes de dormir.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

[foto @eternal_noir]

Não me digas a que vens
Deixa-me adivinhar pelo pó nos teus cabelos
que vento te mandou.

É longe a tua casa?
Dou-te a minha:
leio nos teus olhos o cansaço do dia que te venceu;
e, no teu rosto, as sombras contam-me o resto da viagem.

Anda,

vem repousar os martírios da estrada
nas curvas do meu corpo — é um
destino sem dor e sem memória. Tens

sede? Sobra da tarde apenas uma
fatia de laranja — morde-a na minha
boca sem pedires. Não, não me digas
quem és nem ao que vens.
Decido eu


Maria do Rosário Pedreira




[não me digas ao que vens, que não te creio.
Não me digas quem és, se te sei.
Sei-te e não te creio quando creio que te sei.
Não sei se te sabes se não me crês.
E não nos crês quando nos sabes.
Sabes que nos queremos.
E no entanto não queres crer.]

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018




Quando passo por ele, calcanhar no chão como dizia, e determinação dobrada pela força da mágoa de algo que tinha ouvido, agarra-me pela cintura, tocando-me num ponto estratégico na medida certa, com a força exacta, senta-me ao colo dele, tinha tomado conta da situação, de mim, e eu rendida, mas calada para que não se notasse, como se não tivesse percebido o que se passou. Foi aquele gesto, aquele gesto preciso, com aquela indubitável intenção e toque afinado, que me desmontou, que me desfez de razões. Não foi nada do que me dizia, a voz e as palavras não me desatam certos nós, talvez só as mãos, talvez só o calor da pele perto, talvez aquele toque preciso, talvez apenas a sensação da vontade dele de querer ficar bem, de saber e fazer por ficar bem comigo. Agarrou-me porque queria, porque me queria, porque nos queria bem. No mimo. Em nós. Sem nada desentendido pelo meio. Entendemo-nos sempre. Sempre.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018


"O que me trava a vida é o medo.
Acabei de ter essa certeza.
Quem me pode salvar?"
Roubado ao Dias Cães.



[O meu medo a mim não me trava,
mas não me deixa andar o medo alheio.

Trava-me as pernas
ainda que o medo de andar não seja meu.

Doença alheia, tua,
mas dor própria, minha.

E eu, a cura da doença que te tem
que só a mim me dói.

Tu não és cura para doença minha,
tu és a doença para a minha cura,
a doença tua que a mim me dói.
Se te curo não me dói.]


terça-feira, 16 de janeiro de 2018


gostar é estar junto
até quando não.

gostar é estar junto
nem que seja no passado,
o passado presente,
escondido debaixo da pele,
onde o sol não desbota
e a chuva não lava,
onde o fora não chega
e tu não sais.

gostar não é precisar,
é não precisar de gostar,
porque se gosta
sem saber precisar como
precisar é subserviente,
é utilidade.
gostar é selvagem,
serve-se a si próprio
e não serve para nada,
não é escravo de nada
senão de si mesmo

estar junto é gostar
sempre que sim.

domingo, 7 de janeiro de 2018



Acordo enrolada nos lençóis do amor que não tens, do amor que é teu, do amor que se te enroscava nas pernas enquanto o sono nos agarrava juntos, entrelaçados, da mão que deixavas poisada na minha pele, numa qualquer curva em que se aninhava o calor ou uma beleza que só tu vias, do amor que ouvias nos golfinhos em que o meu adormecer mergulhava e tu atentavas, dizias-me. acordo com a cabeça encaixada no teu peito, desencaixada do tempo que já não existe, dum amor que é teu e não tens, dum amor que se me alojou cá dentro e te desalojou a ti e aos vindouros. tu já não és o meu amor nem o meu amor és tu, mas o meu amor é teu e tu não o tens, respira mas não existe. como esse pedaço de peito que é meu, que me deste, que amo e não reclamo. esse peito que não guarda o meu amor que guardo no meu, num domingo de ronha que me acorda contigo dentro do nosso cheiro, enroscado na minha pele. e eu rio-me dentro dum sonho que não acorda.  nunca foi teu.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017



-museus e museus cheios de obras de arte, e a maior beleza está aqui mesmo, ao meu lado, no que vejo nesses olhos que me olham...
E eu penso que bonito é ouvir uma coisa destas, assim sem aviso, em resposta aquela feminina pergunta, que rompe o silêncio mútuo ainda que não mudo, sobre o que está a pensar a criatura em que encostámos a cabeça, mas calo-me respondendo:
-é isso que as obras de arte tentam reproduzir, essa beleza, que por alguma razão, nos encanta e toca... (No caso dá jeito se for cegueta e tonto, e que deus assim o conserve...amén)

terça-feira, 19 de setembro de 2017

[ foto @scrapval]

Talvez não haja receita, talvez a receita se vá fazendo. Juntando isto e aquilo que se gosta, que apetece experimentar, e que no fim se quisermos repetir não saberemos tudo o que fizemos, como o fizemos, qual foi o detalhe que resultou na delícia que não sabemos como aconteceu, ou no tremendo desastre em que se tornou a mistura de tanta coisa que se gosta, mas que não resultou bem.
Há coisas que não se repetem, ficam guardadas, imaculadas, intactas em recantos de nós que nem sempre queremos revisitar, mas queremos repovoar de coisas boas que se vivam a cada dia: as que não têm receita, as que se improvisam ao som do coração, as que vão saindo das mãos, e da alma, sem estratégia, as que nascem sem previsão. Talvez um resultado de nos lambuzarmos e lamber os dedos tenha sempre o condimento da imprevisibilidade, da surpresa, da espontaneidade que nos arranca duma rotina que parece roubar na memória do passado os desejos futuros - aqueles que um dia quisemos e acreditámos, e se foram diluindo em banho-maria num dia a seguir ao outro, sem surpresas.  É a surpresa, aquele brilho do voo que esquece o chão dos pés, o atravessar o que estava riscado, é arriscar tudo de novo de mão solta e atrevida, essa que nos dá de presente o agora - a consciência de estar presente no agora, e sermos sempre agora - que faz do tempo momentos, porque os arrancamos à linha dum dia que se afunda no marasmo de todos os outros. 
O momento que fica cria um sítio onde sabemos que estivemos, que estamos, que a partir daí somos e seremos. 
Que se cozinhe a vida sem receita, sem medida e sem tempo e que o tempo se faça assim, desfazendo-se a cada esquina da rotina, a desafiar a surpresa a rédea solta. Não, não é difícil, é só de vez em quando esquecer os planos, mandar a receita às urtigas, fechar os olhos e deixar os cheiros abrir, abrirem-nos, guiarem-nos os sentidos rumo à vontade de novos paladares que costuramos às escuras, à medida da vida que gostaríamos de ter, sem saber como resultará, mas acreditando que quando se faz algo com amor tudo acabará num sorriso, mesmo que, às vezes, de barriga vazia... mas bolas... de alma inteira, temperada com vontade de trincar e ser trincada.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017


"Lembro-me bem do filme, mas não me lembro daquele limão ali..."

 - é do carteiro não é????

 - não. esse só tocava duas vezes... Ou estava a falar do limão ser do carteiro? Isso já não sei, não conheço nenhum carteiro com limões... eheheh

- é para a limonada depois, sede sabe?

- pois deve ser... não tinha pensado nisso...

[há sentidos de humor que encaixam tão perfeitamente em nós, que às vezes tocam-nos - não como o carteiro, sempre duas vezes, seria uma sorte serem tão poucas -, à porta da existência sobrevivente, vezes sem conta. 
Volta-se sempre aos sítios onde fomos felizes, mesmo que não queiramos, mesmo que não saiamos do lugar, amarrados que estamos ao que nos falta (sem perceber que a falta é uma coisa nossa, que só temos se a aceitarmos assim).]

quinta-feira, 31 de agosto de 2017





pobres
dos que nenhuma vez olharam
ou foram olhados
assim.

gil t. sousa
falso lugar, 2004

[pobres dos que ainda não sabem que há olhares que permanecem depois de se fechar os olhos, e até que se olha melhor de olhos fechados, que se vê mais profundamente, melhor, verdadeiramente quem amamos. Que depois de se olhar de certa forma alguém, essa forma não desenforma, e sempre que poisamos os olhos, ou a ponta dos dedos, ou os lábios, ou a vida toda nesse alguém, vemos o mesmo. Mesmo de olhos fechados.]

quarta-feira, 19 de julho de 2017




[ imagem de une femme mariée, Jean-Luc Godard]


se o meu amor o pagas com indiferença,
é indiferente as saudades que sinto,
e se as sinto calo-as.

troco-as por cubos de gelo nas pálpebras,
onde poisavas os teus beijos,
portas da minha alma,
por onde entras sem pedir licença.

dizem que o frio do gelo,
faz esquecer a dor, ou a dor esquecer
que não me pagas com o teu amor o meu,

então,
amor com amor se paga
indiferença troca-se por indiferença
saudades mentem-se com saudades caladas
e o frio que me dás ofereço-to ao cubo


(Tantos anos depois de o ter escrito como se fosse ontem, encontrei-lhe o encaixe perfeito... fosse tudo assim na vida...)

terça-feira, 4 de julho de 2017

[foto @olheosmuros]

... nope.
 Foi.
 Já não é. 
Há que manter a dieta.

terça-feira, 13 de junho de 2017



[foto de Patrice Forsans]


e a minha mão
desceu o teu rosto
num movimento
de coisa que parte

e tu disseste:
porque é que as mãos
dos que amámos
nos acenam vazias?

mas não
na minha mão
havia uma lágrima enorme
e azul
que tu
já não sabias ver


gil t. sousa


[foram tantas as vezes que a minha mão desceu o teu rosto, tantas quantas as vezes que o teu rosto partiu, indiferente à minha mão que chorava, vazia.]

terça-feira, 6 de junho de 2017


não me fales mais
dessa solidão de papel

eu ainda tenho a sede das oliveiras
a paciente sede
dos rios que nunca chegam
dos rios avistados
que não se podem tocar

eu ainda tenho a dor da terra queimada
a fortíssima dor
das chuvas que não voltam
das raízes que morrem
sem poder gritar

o teu nada
é só mais um perfume!

e eu
eu tenho sangue na voz
tenho no peito o grito do lobo
a imensa tristeza de uma lua
que o céu não quis

gil t. sousa

[a minha solidão não é de papel, como eu não sou de papel, sou de pele aquecida de sangue quente, que esquenta e ferve, esse sangue que me mata e asfixia porque corre e corre por ordem do coração - esse lobo solitário que em noites de luar uíva a tristeza de que não se desprende, do sangue que esquenta, ferve, mas não estanca. quando estancar morreste. morreste-me, e não sei se me morrerei também, não sei o que de mim sobreviverá. o que restará sem ponta de sangue, de calor, de luar? Eu não serei de certeza, será alguém que te acena um cumprimento, mas não te reconhece. Um fantasma apenas. Uma lua de papel.]

(e tornou-se verdade o que escrevi numa outra vida " alguém que te acena um cumprimento, mas não te reconhece". do papel da lua não sei, parece-me apenas um papagaio da lua que me banhava corpo e alma de vida, lembra-me sempre certos fantasmas que se esqueceram de crescer)

quinta-feira, 18 de maio de 2017


Diz-me um segredo
qualquer coisa inacessível
dessa tua alma

alguma coisa
que eu possa ainda fingir
que não sei

gil t. sousa

[gostava de sentir que alguém no mundo me conhece do avesso e por dentro, e mesmo assim, mesmo assim, me sentir amada, deve ser o sentimento mais confortável do mundo. saber que alguém nos conhece os defeitos, as partes menos recomendáveis, tudo o que já fizemos, o que já fomos, e ainda assim aceitar-nos, receber-nos, sem mácula, no amor que nos têm (se tiverem). nunca ninguém me quis conhecer assim, alguém que me quisesse escavar a alma até aos segredos de que tenho medo, de tão pouco segredo que são, e de tão pouco ter que contar, afinal. esse é talvez o meu maior e único segredo, não tenho nada para contar, sou simples simplesmente, a minha vida, se a alguém importasse, contar-se-ia em dois minutos, e dois minutos sem sobressaltos, ou anseios de suspense, nada. ainda assim ninguém nunca o quer saber, e se calhar ainda bem, não quererem saber o que não tenho para dar a saber. não há nada inacessível da minha alma, e ainda assim, ninguém a sabe, ou quer saber. se calhar é isso que eu finjo que não sei.]

(com o mote da revisitação, do reler esta poesia, ficou-me o gosto insistente...)

terça-feira, 28 de março de 2017

[foto @annamcnaughty]

Quando a distância afasta nunca se chegou a chegar perto - aquele perto a que só se chega por dentro, sem se saber o caminho que nos lá levou.
 Há sítios que por muito que se saia, não saem de nós, voltamos sempre. É porque não deixámos de estar perto nunca.


Depois, há vezes, que percebemos que nunca estivemos perto, que perto é coisa de silêncio a duas vozes, que uma só, e o seu eco nas paredes vazias, não é sombra de distância, é engano que encandeia. E aquece tanto que parece por dentro de perto.

quinta-feira, 9 de março de 2017





aterrorizado outra vez
de não amar
de amar e não seres tu
de ser amado e não ser por ti
de saber e não saber e fingir

e fingir

eu e todos os outros que te hão-de amar
se te amarem

a não ser que te amem


Samuel Beckett

[e é verdade que isto é mesmo assim. aterroriza não voltar amar, aterroriza pensar em amar e não ser ele, enlouquece pensar ser amada e não ser por ele, como se o amor fosse um artigo com defeito que queremos deixar na prateleira, queremos livrar-nos dos empecilhos que nos enrodilham os dias à volta do coração. e ao livrarmo-nos dele perdermo-nos do coração que nos faz pulsar a cor na respiração dos dias. mas, depois penso, quem esteve - quem está - sempre a enfeitar a prateleira, sou eu. o defeito deve ser meu, o artigo defeituoso sou eu. então finjo que não sei que fingiu que me amou, finjo que a prateleira não é minha. que eu fui dele e serei de alguém - e não a fingir. dá-me vontade de fugir o fingir, mas se ao menos a fingir me tivesses tentado alcançar... se ao menos a fingir eu acreditasse não perder a melhor essência de mim junto com as memórias que quero despejar do coração para a vala comum dos desamores. despejar-me. depois onde me resto? de que me faço?]