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sábado, 8 de maio de 2021


"Porque desta vez falei-lhe com toda a franqueza; o tema casamento foi discutido até à exaustão. «Antes de virmos para aqui, para o apartamento, eu apercebi-me de que, para ti, era penoso pronunciar essa palavra. Um dia, disseste-a, à entrada de minha casa, e tens toda a minha gratidão pelo facto de a teres dito. Serviu para que eu me decidisse a acreditar em ti, no teu carinho. Mas não podia aceitá-la, porque teria sido uma base falsa para este presente, que nessa altura era futuro. Ao aceitá-la também teria tido de aceitar que tu te submetesses, que te obrigasses a uma decisão para a qual ainda não estavas preparado. Em contrapartida, submeti-me eu, mas como é lógico, posso estar mais segura das minhas reacções do que das tuas. Eu sabia que, mesmo submetendo-me, não te guardaria rancor. (...) Por isso te digo que agora não tenho a certeza de que o casamento seja a nossa melhor solução. O que é importante é que exista algo que nos una; esse algo existe, não é verdade? Ora bem, não te parece mais poderoso, mais forte, mais bonito que aquilo que nos une seja isso que existe verdadeiramente e não uma simples formalidade (...) E, finalmente há o teu medo do tempo, de envelheceres e eu olhar noutra direcção. Não sejas tão melindroso. Aquilo de que eu mais gosto em ti é algo que o tempo não será capaz de te tirar.»"

Mario Benedetti, in A Trégua


"(...) ao aceitá-la também teria tido de aceitar que tu te submetesses, que te obrigasses a uma decisão para a qual ainda não estavas preparado. Em contrapartida, submeti-me eu, (...)" - esta frase foi talvez das que mais me marcou neste livro. Li, sorri, fechei o livro, percebi a sensibilidade do homem que o escreveu e o entendeu: o gesto de amor, dos mais belos e mais imperceptíveis. Acho que este pequeno grande pormenor passa ao lado de tanta, tanta gente; e este pequeno grande pormenor é amar, amar verdadeiramente. É incrível como isso passa tão despercebido, como não entendem, como quem vê de fora não percebe, que às vezes nos submetemos ao inimaginável para não submetermos, não obrigarmos, quem amamos ao que imaginamos não estarem preparados para fazer, para que, no fundo, afinal, não se submetam. Simplesmente não se submetam. E ao fazê-lo ser opção consciente, sem mágoa, sem exigência alguma, apenas por não querer provocar, ou de alguma forma forçar, uma reacção no outro que queremos que seja livre e espontânea: verdadeira. Só assim o admitimos - verdadeira -, seja qual for o tempo que precise para que nasçam em si certezas, porque só queremos alguém com a certeza genuína, que nasce por dentro, selvagem e livre, cheia de força. Só assim terá força, a força da vida que pulsa no sangue que o coração faz correr - que faz viver realmente. Provocar uma resposta não é responderem-nos, é reproduzirem o que queremos ouvir, não nos responde a nada, é uma espécie de monólogo estéril, que só contenta a quem gosta de se ouvir: quem não ama, não sabe amar. Porque quem ama só quer amar e ser amado - sentindo que ama e que é amado -, e isso nunca pode implicar submissão, a não ser ao próprio amor ("em contrapartida, submeti-me eu"...). Não se força, não se provoca, não se faz, surge, e quando surge tem a força que dá a certeza de ninguém ser obrigado a submeter-se - a não ser ao amor que os dois sentem, ou não vale de nada, não vale nada. E isto, isto que se sente assim, é uma coisa que o tempo não pode tirar, o que pode tirar - e tira certamente - é a certeza de que o outro nos deixa sempre submeter, sem nunca chegar o tempo, dentro do nosso tempo, de querer realmente ficar junto, e que "importante é que exista algo que nos una". E isso seja vivido.

[dei por mim a reler coisas antigas. fui à procura de registos de livros já lidos e deparei-me com isto. incrível, impressionante, continuo a pensar exactamente assim. não aprendi nada, poderá dizer-se. ou ainda não mudei de ideias. continuo a achar certas as ideias, estas ideias. há coisas que não podem ser de outra forma, ou serão da forma errada, e dessa forma continuo a não as querer. há coisas que só têm valor se escolhidas, se fruto da vontade, e não forçadas, obrigadas ou obtidas por insistências, como vitórias por exaustão. se isso é amor eu nunca amei.]

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020


"Toco a tua boca.
Com um dedo, toco a borda da tua boca, desenhando-a como se saísse da minha mão, como se a tua boca se entreabrisse pela primeira vez, e basta-me fechar os olhos para tudo desfazer e começar de novo, faço nascer outra vez a boca que desejo, a boca que a minha mão define e desenha na tua cara, uma boca escolhida entre todas as bocas, escolhida por mim com soberana liberdade para desenhá-la com a minha mão na tua cara e que, por um acaso que não procuro compreender, coincide exactamente com a tua boca, que sorri por baixo da que a minha mão te desenha.(...) Então as minhas mãos tentam fundir-se no teu cabelo, acariciar lentamente as profundezas do teu cabelo enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de uma fragrância obscura. E se nos mordemos a dor é doce, e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo do fôlego, essa morte instantânea é bela. E há apenas uma saliva e apenas um sabor a fruta madura, e eu sinto-te tremer em mim como a lua na água."

Julio Cortazar, in Rayuela


[sim, há coisas que se pudéssemos imaginar antes de as sabermos as imaginaríamos exactamente como viriam a ser. Ou assim achamos. Como tentar imaginar a perfeição. Tentar agora imaginar a perfeição é reproduzir com retoques o melhor de tudo o que se conhece. Quando a vida nos surpreende a imaginação explode, conquista territórios desconhecidos que não sabíamos existir, e todo um novo mundo se abre. Novas imaginações, perfeições mais perfeitas. Novos limites e novas dimensões de felicidade. E novas dimensões de infelicidade, por perdê-las, por desperdiçá-las, o que for. Aquilo que não se conhece é aquilo que não se é, mas aquilo que passamos a conhecer passa a ser parte do que somos, e de como descodificamos a loucura do mundo. Renegar isso não é não andar para a frente é andar para trás. Nada volta ao que era. Passamos a ser pessoas diferentes quando os nossos limites de imaginação, felicidade e infelicidade se movem. O mundo altera-se, nunca mais o vemos da mesma forma mesmo que nada tenha mudado, a essência alterou-se, a essência do nosso olhar sobre as coisas. E as coisas não são coisas são a maneira como as vemos. Um parafuso pode ser um deus (esta é de outra passagem do livro, mas estou preguiçosa), tudo depende do que vemos. E eu pergunto-me vezes sem conta o que verão quando me olham? ]

(porque me cruzei com este texto e o reconheci, fui ler o que tinha escrito sobre ele há alguns anos atrás. Não acabei o livro - Rayuela-, já não sei porquê, talvez porque seja dos que se mastiga devagar  e precisa de tempo, mas de que nos fica muita coisa.  lembro-me de onde estava quando li esta parte: num dos meus exílios passados num alpendre com vistas, em que choveu grande parte do tempo, em que fiz um amigo de quatro patas enquanto, debaixo de mantas, lia e escrevia, em que o tempo não me parecia parecia passar-me nas entrelinhas. Lembro-me que cheguei num dia de incrível temporal e cheias. A primeira noite foi passada à luz das velas, por falta de luz mesmo :)...  hoje, este texto, esta descrição parece-me um bom hino, um bom presságio, um farol no caminho por navegar. UM cominho navegável. Um sorriso por sorrir que já desponta. Hoje que me lembrei que, há muitos anos neste dia, comecei a namorar com aquele que foi a minha primeira grande paixão. Roubou-me um beijo neste dia, a meio dumas escadas, sem aviso. a carteira que eu trazia ao ombro caiu (hoje apercebi-me de coincidências giras ao lembrar esta cena, beijos roubados e coisas a cair ao chão, ri-me sozinha) e a seguir caiu uma chuvada de que nos abrigámos na entrada dum prédio qualquer a caminho dum café. Nunca mais teve de me roubar nenhum beijo. Levei anos a curar as feridas dessa paixão, que anos depois se tornou uma amizade diferente, boa, gira, conversas em que falámos e ríamos, que eu mantinha com as distâncias seguras de quem não possui antídotos para certas pessoas... perdi-o numa curva que ele não fez, duma estrada qualquer. Lembrei-me hoje. E tenho saudades dele, e da paixão. E de se me destrancar tudo quando sou roubada do que descubro querer dar.)

sábado, 12 de janeiro de 2019

Costumo ir pondo numa prateleira, por ordem os livros que vou lendo durante o ano. Esta é a prateleira de 2018. Ou foi. Depois arrumo-os por outra ordem, ainda que deixá-los assim por cronologia de leitura, ocorre-me agora, seria também uma organização gira, com outro significado, onde poderia identificar a altura da vida em que os tinha lido. Talvez não fosse tão fácil para procurar depois um qualquer livro... mas era uma ideia gira que do agora me lembrei, ao escrever isto, mas de qualquer forma este foi o meu ano em livros, falta aqui o que pernoitou para 2019 em fase de leitura: Mrs Dalloway.
Tenho por hábito copiar as passagens dos livros que vou lendo e me fazer parar para pensar para os blogues que vou tendo. Gosto de, de vez em quando, procurá-los, relê-los, outras vezes lembro-me dum qualquer trecho sem quê nem para quê, e sei que escrevi alguma coisa sobre isso e vou ler. É a forma de registo do que me marcou, ou do que gostei, ou do que me fez questionar. Afinal, como tudo o que vou deixando por aqui. E percebo que este ano foram poucos os excertos que copiei para aqui, e que de todos aqueles livros, olho e vejo uns quatro... o Jorge de Sena, o Kundera, o Sándor Marai e o Casmurro. Só depois me ocorrem o Benedetti, de que tanto gosto da escrita e poesia, o diferente Cortazar em oito contos e a Clarice que fez estranhar tanto este livro, e talvez por isso me tenha também marcado mas não me ocorra entre os que mais gostei. Olho e vejo um livro que gostei de ler, escrito por médicos ( uma iniciativa privada e que um amigo do meio me ofereceu por saber que gosto de ler), cada um uma história de um transplante, uma vida que permitiu outra vida de continuar, gostei da humanidade dos relatos e de ficar a perceber mais alguma coisa do que será o processo de um transplante e o modo como as equipas e médicos vivem também estes dramas. 
 Percebo pelos bocadinhos de livros que aqui fui deixando os que gostei mais e acho que este ano gostei (realmente) se calhar de poucos. Pode ser que este ano mude... na prateleira de livros na calha para ler estão uns tantos de boas expectativas e curiosidade de ler. Por enquanto ainda não acabei o da Virgínia Wolf e sendo o primeiro dela que leio não me está a arrebatar, mas há coisas (algumas, só algumas) que vêm com a convivência, que crescem em nós, que elas mesmo crescem e nos conquistam, por isso, quem sabe pode ser o caso. Ou outros casos. Às vezes gostava que isso acontecesse mais vezes e com muito mais coisas.
Bom dia!

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Milan Kundera, in A brincadeira

... uma imagem de nós mais real que nós próprios, uma imagem que não é a nossa sombra, mas sim nós a sua sombra. 
O que será então mais real? Ou o que será real? A imagem que passamos ou o que não deixamos transparecer nessa imagem? 
Tenho sempre, e sempre tive, a ideia de que o que somos é muitas vezes - a maior parte, provavelmente - o que não mostramos, não para enganar ou para parecer ter o que não temos ou somos - porque isso seria um projectar duma imagem demasiado arquitectada -, mas para nos protegermos. 
Acho que se nos habituarmos a viver só a imagem que damos quase esquecemos o que somos, tornamo-nos uma sombra do que se quer parecer e às vezes convencemo-nos de que somos assim. Porque achamos que o devíamos ser. 
Eu achei durante muito tempo que para gostarem de mim, para não desiludir ninguém, eu tinha de tentar ser uma mulher modelo, aquela que tem uma casa impecável, que dá, ou tenta, dar tudo de si para que a pessoa que tem ao lado seja feliz e viva como gostaria, tentar ser uma boa mãe, e parecer que tudo isso me fazia, também a mim, feliz. Não fazia. Não fez. Nunca fui uma mulher modelo ou o modelo de boa mãe, mais do que ter a casa aprovisionada e arrumada, eu gostava de ler, de pensar, de conversar, de passear-me quieta. E de escrever, o que deixei de fazer uns tempos antes de casar. Porque havia coisas mais importantes, achei. Mas somos o que somos, e tudo o que sou veio ao cimo de tudo isso. Preciso de escrever, tenho fome de conversar o que me faz pensar, sou desarrumada, e terrível dona de casa. Adoro mimo e sofá e silêncio com quem me sinto una e nua - sem medos nem vergonhas. Sou desorganizada mas preciso de lógica e de entender, de percorrer o fio entre a causa e o efeito. Mas sou também o que me fez viver como se fosse a imagem do que queria ser, sou a sua causa - e sou muito, muito disso. Talvez ainda, ainda que muito menos. E agora, ao menos, sei que há coisas que não me conseguem fazer feliz. Mesmo que tente.... e agora acho que felicidade não é tentarmos, a todo o custo, moldar-nos a ela, fazê-la, é ela moldar-se a nós, colar-se a nós sem que  sequer notemos a tempo,  é uma coisa que simplesmente acontece. Talvez depois do acaso de conhecê-la, só nos caiba o caso de mantê-la.
Hoje não sei que imagem passo de mim, não faço ideia. A imagem que se passa talvez mude, eu estou igual, na essência, no fundamental. No que sou e serei. Até no que fui.

[resgatado dos rascunhos, ainda do Kundera na sua Brincadeira...apeteceu-me depois do Impontual o "Nobelizar", aliás, Impontualizar, e bem, parece-me :) ]

terça-feira, 14 de agosto de 2018


"As pessoas modificavam-se porque os acidentes as modificavam, ou apenas os acidentes permitiam que elas procedessem como realmente eram, mas antes não podiam ter sido? (...)
(...) Eu tivera a Mercedes e perdera-a. Mas perdera-a por tê-la tido, ou tivera-a porque, já antes ela estava perdida para mim? Pensara eu, alguma vez, e autenticamente em casar com ela? Desejava possui-la por amor e por sentir o seu amor por mim, ou porque a vira, com todos os preconceitos do mundo em que vivia, como acessível? E ela, entregando-se-me, amara-me de facto, ou quisera destruir em si mesma o próprio amor que me tinha e não sabia que tinha? Ou sabia?"
Jorge de Sena, in Sinais de Fogo

As pessoas revelam-se aos nossos olhos tanto quanto os portugueses descobriram o Brasil. Já lá estava tudo, nós é que não sabíamos e por isso não víamos. O mundo mudou aos nossos olhos, ganhámos terra que não conhecíamos, mas nada (na morfologia do mundo) efectivamente mudou, a não ser a nossa perspectiva, e os mapas para nos orientarmos. A vida surge-nos e descobre-nos, vai-nos revelando, faz vir à tona, o que não sendo usado, pensávamos não existir. Descobrimos quando algo em nós é despertado e reage. Umas vezes é bom, descobrimos termos coisas boas, descobrimos até como podemos e conseguimos ser felizes, como a vida pode ser maravilhosa, outras vezes descobrimos facetas nossas que estavam camufladas e preferíamos continuar a pensar não as ter. 
As pessoas não mudam, não na essência, não nos seus pilares fundamentais, nós é que demoramos para descobrir toda a extensão dessa essência e as suas pequenas grandes nuances. Há pessoas que por muito que quisessem nunca conseguiriam fazer certas coisas, e outras que perante algumas situações nem chegam a pensar fazê-las, simplesmente as fazem, saem-lhes naturalmente. Às vezes é maravilhoso, outras é uma miséria humana. 
Os acidentes, os imprevistos, as contrariedades, só permitem que as pessoas surjam como são, mas antes não tiveram razão para ser.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018


[foto @jeannoirphotography]

"Dentro de cinco minutos, acrescentou de súbito baixando o tom de voz - inclinara-se um pouco na direcção dele, com os cotovelos sobre a mesa e os dedos entrelaçados, olhando-o com desenvoltura -, quero que vamos até ao hotel, que faças amor comigo e que me chames de puta. Capisci?
(...) necessito com a máxima urgência que me abraces com uma violência razoável mas contundente e deixes em branco o conta quilômetros do meu cérebro. Ou que o partas. Tenho prazer em comunicar-te que és muito bonito, Faulques. E estou nesse ponto exacto em que uma francesa passaria a tratar-te por tu, uma suíça tentaria averiguar quantos cartões de crédito trazes na carteira e uma norte americana perguntaria se tens preservativo. De modo que- olhou para o relógio - vamos para o hotel, se não vês inconveniente.
(...) levantou-se para se aproximar da janela e, olhando para a fachada desguarnecida e escura de San Frediano in Cestello pronunciou as únicas dez palavras seguidas que Faulques ouviu naquela noite: já não há mulheres como a que eu queria ser."

Perez Reverte, in O Pintor de Batalhas


Sinto assim também - não há mulheres como a que eu queria ser, a não ser em livros ou filmes, fruto da imaginação de alguém, e também da minha. Um pouco como esta que aqui se lê - foi o que pensei quando li a frase que associa o seu estado de espírito a francesas, suíças e americanas... fez-me sorrir pela inteligência malandra, e pela maneira como francamente se diz indirectamente que se quer alguém com vontade, muita vontade sem vergonha de a ter. Quando o li pensei que gostava de ser um pouco esta mulher (ainda antes de ler a única frase completa que numa noite de amor ela proferiu), com presença de espírito, uma pitada de humor inteligente maravilhosamente encaixada, sem falsos pruridos, vergonhas hipócritas ou acanhamentos toscos, sem filtros e sem medo. Com a dose certa de segurança, independência e alguma doçura ao mesmo tempo. Doçura, ternura e meiguice, sem ter medo de ser, ou parecer, fraqueza - de pedir.
Há alturas em que chego a pensar que, por dentro, não estarei muito longe, mas falta-me um contraponto para descobrir tudo o que posso ser, para fazê-lo respirar e sentir-se. Para ser plenamente, afinal. E então percebo que estou longe. A mulher que queria ser não precisa de contraponto para saber que é - o que é-, sabe e ponto final. Falta-me também isso.