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terça-feira, 10 de janeiro de 2023

[foto @bird.ee]

Tenho folhas a caírem-me dos braços
a todas as horas de verão dos dias

Tenho flores desabrochadas
a abotoarem-me de inverno o peito

Tenho arco-íris nos olhos
sem nenhum tesouro ao fundo

Tenho a boca fechada
sedenta de primaveras desconhecidas




quinta-feira, 5 de janeiro de 2023


Visto a nudez do silêncio 
Com o luar da noite
Agasalho as palavras 
Com sorrisos que deixei no passado
Lanço os olhos às estrelas 
E peço aos deuses em que não acredito 
Esperanças por estrear
E um tempo por que esperar
Entretanto, escrevo noites
Para me desagasalhar do frio dos dias 

E ponho o nariz de fora,
Como quem não tem frio

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022



[foto @gregbionde]

Há um sítio onde as almas se sentem confortáveis. 
Não é um sítio. 
São outras almas 
como casas com o nosso cheiro.
Que não é o nosso.

quinta-feira, 25 de novembro de 2021


do fundo do armário:
as botas, há muito oferecidas
por quem me roubou caminho,
mas não me encolheu o passo,
nem me tolheu horizontes.
esgravatadas do profundo do tempo
voltaram a pisar o chão
e a levantar-me do frio descalço
dos dias que passaram
sem memória do tempo, do frio ou do chão
ainda sabem andar, de memória,
mas já ando melhor descalça
Não são as botas que andam,
são os meus pés

domingo, 21 de novembro de 2021




Por que me descobriste no abandono?
Com que tortura me arrancaste um beijo?
Por que me incendiaste de desejo
Quando eu estava bem, morta de sono?

Com que mentira abriste meu segredo?
De que romance antigo me roubaste?
Com que raio de luz me iluminaste
Quando eu estava bem, morta de medo?

Por que não me deixaste adormecida?
E me indicaste o mar, com que navio?
E me deixaste só, com que saída?

Por que desceste ao meu porão sombrio?
Com que direito me ensinaste a vida?
Quando eu estava bem, morta de frio

Chico Buarque

E eu, aqui, morta de sono, 
pergunto-me porque beijo todos os dias 
o beijo que não dou. 
Pergunto-me porque me falam tanto tantas linhas 
se já emudeci, 
E aqui, quase morta de medo,
Pergunto-me como ainda há tantas perguntas 
do que não tem resposta, 
Pergunto-me porque há muito deixei de questionar-me, 
e continuo feita de perguntas e de densos silêncios,
 de noites sem estrelas e sem sono, mansas mas duras. 
De desejos bravios, mas sossego na pele
Pergunto-me porque estou bem e não estou, 
porque nada me falta e tudo me falta - ou quase. 
Porque não quero e quero. 
Porque sou e tu não és.
Porque és, e apenas foste.
E eu aqui, morta de frio.
Porquê?

quinta-feira, 21 de outubro de 2021



[ foto @tk.photo_ ]

Que me encostes à parede
Que te coles a mim 
Que te sinta crescer em desejo e urgência 
Que as tuas mãos sejam  remédio e a tua vontade cura
Que a febre seja nossa e intransigente 
Que o teu arfar quente seja música com fundo
Que não me deixes solução
E que o problema sejas tu
Que te deixe sem saída 
E o teu sítio 
Seja sempre
Eu
O que eu queria?
Sabes lá tu…
O que eu queria?
… Que tu existisses

quarta-feira, 22 de setembro de 2021

[@davidbenolielphotography]

Quando bruscamente, nas trevas da noite,
Ouvires passar o tropel invisível das vozes puras,
O coro celeste das sublimes harmonias,
Abandonado definitivamente pela fortuna,
Desfeitas em pó as últimas esperanças,
Esvaída em fumo uma vida de desejo.
Ah! não sucumbas lastimando um passado
Que te traiu, mas como um homem
Que se prepara há muito tempo,
Despede-te corajosamente
De Alexandria que te abandona.
Não te deixes iludir e não digas
Que foi sonho ou um logro dos teus sentidos,
Deixa as súplicas e os lamentos para os poltrões,
Abandona vãs esperanças.
E como um homem que se prepara há muito tempo,
Resignado, altivo, como te compete
E a uma cidade como esta,
Abre a janela e olha para a rua
E bebe a taça inteira da amargura
E a derradeira embriaguez da multidão mística
E despede-te de Alexandria que te abandona.

Konstandinos Kavafis
[justine, lawrence durrell]


não é Alexandria que te abandona
as noites, os cheiros, o desejo,
os sonhos em vão
és tu que deixas que te abandonem
que o pedes, que o provocas
foste, sem saber, há muito,
quem a abandonou
quando já não a distinguias de ti
se ela estava em ti, ou tu nela
se te inebriava, ou se te querias inebriar dela
se ela te envolvia, ou se te envolvias com ela
se a amavas, ou amavas como a amavas
tão única como o amor que lhe tinhas,
que tinhas

envolvente de tão intensa
embriagas de desejo
não abandonas
preparas-te para que Alexandria 
te abandone
e fiques nela onde fores
o que Alexandria tinha de ti
era teu
sempre foi 
só teu
o sonho, o cheiro, o desejo
as noite que agora te não cegam,
e vês o tempo 
e tão longe já Alexandria,
um amor como os outros

não abandonas,,
nunca abandonaste
nunca se abandona onde já não se está.

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

[foto @therealdanaleigh]

As ondas cansadas,
cada vez mais cansadas, 
Fazem marés menos cheias,
cada vez menos cheias.
O momento esvazia-se mais depressa,
cada vez mais depressa.
E a porta para aquela outra dimensão, 
onde tudo é possível,
e impossível de conter em nós,
cada vez mais estreita, menos iluminada.
Mais fechada.
A idade entorpece-nos 
mas engrandece-nos, 
e fechamos melhor a porta,
conscientemente.
Não é de entrada,

mais vale não sair.

sexta-feira, 30 de julho de 2021



bebi todas as palavras,
embriago-me
na ternura que não digo,
petrifico
no gesto que prendo
e me tem presa, 
embriagada e muda.
Ausente de mim
líquida duma doçura salgada  
tenho domicílio entre uns lábios sem morada.

[roubado ao baú, deambulações que têm (des)caminhos próprios]

segunda-feira, 12 de julho de 2021


Tira-o do bolso de dentro,
Do avesso da luz,
E lê para mim.
Diz-me coisas 
que ainda não sei.
Conta-me histórias 
Que ainda não revivi mil vezes.
Destece o tempo
Que ainda não passou.
Ateia-me desejos
Que ainda não arderam.
Lê para mim
O que ainda não foi escrito,
Palavras que ainda não existem, 
Idiomas que só eu,
E tu,
Ainda guardamos
Por ler


sexta-feira, 25 de junho de 2021


 [André Domingues]

As maiores emergências são ferozes, íntimas, 
resguardadas do mundo que não as guarda, 
olha-as com desdém e meio dedo de loucura por reconhecer. 
 E cada emergência que não emerge, 
que não queima nem explode,
 que apenas agoniza até ao desespero,
 deixa de ser um desastre para ser uma convicção.
É um milagre.

terça-feira, 22 de junho de 2021

Talvez sim,
Talvez seja isso
Talvez queira
Ou talvez seja
querer confirmar o contrário 
no sentido inverso
Porque aqui está vazio
E eu talvez não 
Ou talvez não
O que será o contrário de vazio?
Não o sentir?
Ou o inverso?

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021


(...)
És a carne dos deuses,
O sorriso das pedras,
E a candura do instinto.
És aquele alimento
De quem, farto de pão, anda faminto.
(...)

Miguel Torga

és tudo o que não existe,
a não ser quando estás,
quando estás, tudo é possível
impossível, só não estares
e não estando tu, tudo é impossível
as pedras riem como tu,
a pele roga a deus
que lhe mate os instintos
e a fome, de que se quer faminto
contenta-se com pão
como alimento de um sonho
que não existe.
como tu.



sábado, 14 de novembro de 2020

 
O teu nome ainda me enrola a língua
Ainda se embrulha na minha pele
Ainda me baralha o sono com sonhos
Ainda faz soar músicas  
nas músicas que já não oiço
Ainda me cai com este semáforo
que me arranca ao tempo 
que já não sou
E caio em mim, sem ti
Como sempre
é tarde
Não há outro nome


domingo, 9 de agosto de 2020

À distância,
penso aquelas mãos
Perfeitas para minhas mãos próximas
Para me conhecerem a pele perto,
Talvez não por dentro, talvez...

quero crer que há coisas
que podem florescer de fora para dentro.
E sempre me encantei por mãos.
E sempre gostei daquelas 
E sempre que as tenho ao alcance da mão
Ponho a minha pele à distância...

onde estará a perfeição dumas mãos
a que a pele é indiferente, surda e muda?
como se fosse um sentido sem sentidos?
por que as penso sempre perfeitas?
Porquê?
se a cada vez a minha pele as ignora e foge.
E assim insisto no que nunca foi, 
Pensando sempre que poderá ser
E continuo sem saber porquê
Parece perfeito
Mas não me sabe a perfeito
Senão à distância duma ideia.
E a pele tem ideias próprias,
E vêm de dentro, por dentro 
Tocam-nos para nos deixarmos tocar

E no fim de tudo
Chego a casa e não chego a saber
Se quero saber o sentido 
Da perfeição duma ideia 
Sem sentidos


[adoro a foto... sempre  gostei - tanto - de emoldurar o rosto com as mãos em ternura, para mais aconchegar o beijo... também não sei porquê, mas faz-me todo o sentido aos sentidos, todos]

quarta-feira, 8 de julho de 2020



Por muitas pontes que faça
Por muitas pontes que atravesse
Por muitas que queime
Todos os rios que passem
Que tenham passado
Que hão-de passar
Estarei sempre nesta margem
a que cheguei,
e na que deixei,
sem ter partido

Por muitas pontes que queime
Por muita água que passe
Serei sempre esta margem
E a outra

terça-feira, 26 de maio de 2020

[imagem @_baccc]

Peregrina do amor sem caminhos
Percorro a tua pele
Sedenta de luz
Subo ao cimo de ti
A cada crepúsculo
Entontecida de devoção
Faço do teu corpo templo
Cada beijo um milagre
Cada gemido uma oração
Cada êxtase o céu
E no latejar de um suspiro
Peço guarida no teu peito
Sinto-te a vida pulsar 
Comigo dentro
Sinto-me dentro de ti
Contigo dentro


quarta-feira, 20 de maio de 2020




[foto @krejir]

Sonhei-te,
Estavas cada vez mais
Vestido de tempo,
Soterrado debaixo de camadas
E camadas de pó e de lama.
Quase irreconhecível,
Ou talvez completamente.
Cada vez que abrias a boca
Era só vazio que gritavas,
E nem um gemido se ouvia,
Nada.
Cheio de pó que ninguém limpa,
Lama que água nenhuma lava,
Sombras que luz nenhuma vê.
E eu, ali, 
A tactear o caminho da minha própria pele,
Cercada de grades 
que tocam o céu como árvores,
sem saber por que caminho voltar.
Não sei se eras tu, se era eu,
Mas eu acordei.


terça-feira, 19 de maio de 2020

mesmo com frio, 
continua a olhar as estrelas 
para não cair nas malhas do vazio, 
e para o seu olhar não perder lonjuras.
Continua a coser a alma com fios de desejo, 
como um vício que não quer largar.
E conta pelos dedos as estrelas em que não caiu.

terça-feira, 10 de março de 2020



[Eugenio de Andrade ]


Amor estéril, 
ou filhos dele,
Já tive além da conta.

O tempo passou, 
estão maduros
Agora, de porta aberta,
é deixá-los seguir.
Já caíram todas as vezes 
que precisei de os levantar,
de lhes limpar as lágrimas 
e dizer que tudo ficará bem.
Estenderam,
a cada vez, 
as mãos abertas, 
à espera do que eu tinha 
e não guardava.

Já passou o tempo 
Posso deixá-los seguir 
o caminho da lonjura.
Fechar a porta,
fazer amor e filhos 
que amadureçam
que encontrem sempre 
a minha mão, 
como eu a deles,
até quando choro e caio. 
Daqueles que seguem
mas nunca vão,
voltam sempre 
de portas abertas para mim,
com poesia no olhar
Brilhante
do que não se esquece,
sequer precisa ser lembrado.