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sexta-feira, 10 de julho de 2020


"ela fez tudo o que poderia ter feito 

e se calhar fez tudo errado: 

amar não foi o suficiente."


Ando com estas palavras na algibeira desde que, há dias, as li escritas pela mão sublime da menina-musica-de-luz [já não é só do violino :) ]. Porque li-as e pareceu-me claro, mas ainda assim, como uma memória em que se cai sem tropeçar, voltava-me à cabeça o paradoxo: amar só não é suficiente quando se ama demais.
E eu nunca acreditei nisso: não se ama demais, ama-se com tudo o que se tem, não pode ser de outra maneira - ou não devia - e essa desmedida é a medida certa. Só se ouve que se ama demais quando há de menos da outra parte. Mas também não acredito nisto, não há de menos, ou se ama ou não se ama. E ponto final.
Amar pelos dois nunca é suficiente. É um erro, ainda que sem escolha. Primeiro para quem é amado, porque nunca chega, a outra pessoa nunca é suficiente; depois, para quem ama, porque ser amado é uma parte grande de amar e continuar a amar. Porque um amor inteiro é um amor dividido pelos dois.
É tudo um erro. É um erro amar sem retorno, como é exigir retorno, exigir o que seja do outro que ele não dê por vontade, e com vontade. É um erro. Amar tem de ser sem medida, sem troca, sem deve e haver - dos dois lados. Para não ser um engano de que não se retorna.
É sempre um erro amar demais. Amar pelos dois nunca é suficiente.
Amar só não é suficiente quando se ama pelos dois.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019






" (...) Mas para mim, à altura da tua morte nada releva mais quando olhas para trás do que saber da qualidade da tua intimidade com quem amaste. Conseguiste criar, desenvolver, manter, cultivar, acarinhar e aproveitar o máximo de momentos da tua intimidade com quem amaste, ou não? Deitaste-te e acordaste com quem gostavas? Tentaste chegar a uma pessoa improvável (para os outros) mas que dentro de ti sabias que tinhas que tentar?"

Roubado ao (romântico do) Bom Sacana

"Foder é essencial mas dormir com quem se gosta é decisivo, sem isso não há felicidade. Claro que para lá chegar é preciso introduzir um conjunto de variáveis na nossa vida - como sorte, experiências anteriores, estarmos nós próprios preparados para fazer alguém feliz (e vice-versa), paciência, persistência, todas essas cartadas incertas - mas dá para ser feliz nesta vida com mais alguém, não acreditem no contrário. Apenas não esperem Walt Disney. Um amor sacana é muito melhor aposta, docemente viciado por conspirações, desencontros, sentido de humor negro e corrosivo, bitch para aqui e para ali, mas em todas as circunstâncias um amor muito pegajoso, solidário, trancadas contra as paredes, broches de fazer esquecer o ano em que se está, ou pelo menos boa companhia, com arte e gosto, e sinceridade. Mais vale ser verdadeiro do que perfeito."


Talvez, realmente o que levamos sejam as memórias de intimidade, os amores sacanas, todos os momentos onde fomos verdadeiros - e isso se tornou perfeito, porque assumir que se gosta do que é imperfeito, sabendo-o imperfeito mas onde nos sentimos bem, é talvez a melhor versão do que pode ser perfeito para nós - onde fomos mais transparentes, onde nos entregámos  mais indefesos mas confiantes que não nos magoaríamos ( e nem sempre assim é), quem e como amámos, quem e com que vontade os encostámos à parede,  com quem rimos cheios de cumplicidade e como nos sentimos amados. Sim , isso deve ser o que fica, o que permanece tudo o resto o peso do tempo esmaga. E ainda bem.

sexta-feira, 2 de novembro de 2018


[apaixonei-me por esta foto há tempos, nem vos digo quanto, estive para pô-la aqui no header, optei por não a pôr aqui, mas adoro tudo na foto, tudo - e de certa forma, agora depois de ler o post, acho que encaixa bem aqui]


" quando nos juntávamos o tema era sempre o mesmo. mas muitas vezes discutiam-se outros, e até ideias como a imortalidade ou não da alma: e fumar tornava-se mais pertinente. as conclusões ficavam sempre com cada um, ou então deixadas em cima da mesa, à espera que alguém as limpasse. eram longos e luminosos os dias, apesar do preto que predominava nas nossas roupas e em alguns poetas que líamos, de quem decorávamos sempre alguns versos. como por exemplo estes: «Par délicatesse j’ai perdu ma vie». "
Manuel A. Domingos


às vezes perde-se a vida por delicadeza para com outros, ou por medo de confrontos, ou até por vergonha de lutar  (de uma forma que poderá ser entendida como egoísta) por aquilo que queremos,
como se estivéssemos com isso a ferir alguém, a roubar algo nosso de alguém.
... e essa perda de vida - da nossa própria vida, ainda que às vezes tão pouco nossa e própria - da única que temos, ainda que seja uma perda muitíssimo delicada, nunca é delicadamente perdida,
...é brutal, brutal como quem arranha as paredes com as unhas, como quem esgaça a própria pele com os dentes, exibindo um sorriso rasgado que esconde uma dor de que não se regressa. 
A vida que se perdeu não volta nem se recupera, talvez apenas se recupere do medo de a perder depois de estar perdida e passada. Talvez aí se possa viver delicadamente, mas não por delicadeza.
Não esperemos que alguém venha limpar as nossas conclusões, ou apagá-las como quem nos apaga um cigarro que fumámos até à exaustão, porque a alma não esquece, mesmo que emudeça.

quarta-feira, 3 de outubro de 2018


[foto @cela65]

“Quero fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão.
Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado.
Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido... Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.
Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem.
A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.
Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje.
Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá tudo bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?
O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto.
O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. 
dá para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem.
Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir.
A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira.
E valê-la também.”

Elogio ao Amor, por Miguel Esteves Cardoso

Este é um texto que deve ser lido e relido, para nos lembrar do fundamental, para nos apontar o óbvio, que fica soterrado no lixo dos dias, nas acomodações, nos afectos pequeninos e convenientes, na falta de gestos carregados de emoção e intenção, vontade. Para nos lembrar que é possível, ainda que raro. E que há quem valorize, quem não aceite menos que um sentir sentido, mesmo que difícil, e quem ache que qualquer coisa serve desde que pareça ser uma relação onde há afecto, mesmo que só pareça para quem vir de fora.
Convém elogiar o amor puro, aquele que não é alinhadinho e penteadinho, todo organizado, planeado e mais-que-justificado, que quase podia ter a imagem cotada em bolsa. O amor puro é despenteado, é louco às vezes, destravado, não se sabe justificar nem por que leva a fazer coisas autenticamente e perigosamente estúpidas, é aquele que enche o peito de coragem sem sabermos como ou porquê, que nos faz ir sem perguntar como, ou por onde. Que nos faz fazer e pensar depois. É aquele que consegue arrancar cabelos a um careca. Porque é capaz disso. Não perguntem como. E se sabem do que o MEC fala, não perguntam, lêem e sorriem, o sorriso dos que sabem. Alguns nunca saberão. O amor assim não é para todos. Talvez bem. 

[às vezes temos de (re)ler coisas assim para remetermos os números e a vida ao seu lugar, para nos recentrarmos, para saber quem não somos e o que não queremos, para distinguirmos a vida dos dias e para percebermos também porque, ainda assim, nos sabe tão bem estar sozinhos - “viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra.” .]

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

[foto @hier_ist_oben]

“E um dia as coisas param de mudar, porque a casa está comprada, o carro ainda anda, o emprego não é mau, os miúdos já crescem mais devagar, e percebes que a tua vida está igual ao ano anterior, e a pessoa com quem vives está igual ou que era no ano anterior. E tens de perceber que isso é normal, que não é isso que realmente importa, que a mudança é pouco mais que uma máscara, uma distracção. As coisas não têm de ficar melhores, só têm é de ser boas.A verdadeira pergunta é: “se tudo fosse continuar exactamente como é, serias feliz?”E outra, diferente mas importante: “se todos os dias da tua vida fossem ser exactamente como hoje, que terias feito hoje de diferente?” – pensa nisto, e faz isso amanhã.”

... as perguntas certas. As respostas todas erradas. As minhas. Se todos os dias fossem como hoje morreria a saber que vivi um dia e que a vida tinha acabado muito antes de ter podido realmente começar. Só não sei onde estão os botões para mudar as coisas certas. Só temos de mudar o que não é bom, o que não chega para ser bom. Quando se tem algo bom, não é preciso mudar, não é imprescindível melhorar. Basta que continuem a ser boas, que gostemos de como são. Que as queiramos (continuar a) viver. Quando não, então temos de mudar. Alguma coisa. Ou tudo... Mas como?

quinta-feira, 21 de junho de 2018

[foto via @cuddleupnow]

De cada beijo regressamos diferentes
ou não regressamos.

Maria Gabriela Rosas
(rapinado no sítio do xilre, não deu para resistir...)

Duvido que haja algum momento vívido
De que se tenha caminho de regresso depois de vivido.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017


"Apaixone-se por alguém que você possa mandar à merda"

(...)
"Não se trata de uma agressão — desde que ambos saibam lidar com essa deselegância. Quando não há mais nada de construtivo para dizer, mas ainda há uma certa raiva, é melhor mandar à merda e pronto. O outro costuma dizer “vai você”. A briga acaba ali. A raiva é canalizada. Cada um vai para um canto. Liga-se a TV, abre-se um livro, toma-se um banho. Depois de 15 minutos já dá pra dizer “quer uma batatinha?”. E não há forma melhor de fazer as pazes do que com batatinha. Melhor assim.

Não acredito em amores perfeitos. Nem acredito nos amores que se afundam no pântano das discussões intermináveis ou das palavras não ditas. Acredito nos amores honestos. E, com honestidade, frequentemente queremos mandar quem amamos à merda. Depois passa. A raiva vai embora e só sobra a batatinha. Ainda bem. Vida que segue."

Artigo aqui

Concordo. Não acho, na maior parte das vezes, agressivo, é um desabafo umas vezes, uma brincadeira outras, muitas as duas coisas. Agressivo é dizer coisas do outro que magoam com o objectivo de magoar, apontar defeitos para rebaixar e não para tentar melhorar algo, falar com ressentimento que pretende magoar mais do que o expor para se poder conversar e resolver, ou simplesmente estar-se indiferente ao outro, desinteressado do que possa dizer ou sentir. Quando se manda à merd@ só porque se está farto de ouvir o outro e não se tem já sequer pachorra para o ouvir ou resolver o que quer que seja... aí sim, é mau. Quando é só para acabar a conversa que já os dois concluíram que é parva e sem jeito e não vai a lado nenhum... manda-se e pronto (outras vezes é mesmo só um desabafo e vira-se costas até assentar poeira, há muitas versões), há muitas maneiras, eu gosto desta, quando a coisa é ligeira e as pessoas sabem brincar  "olha, vai à merda, cala-te e dá-me um beijo".

E diga-se também que "Nunca fui muito com a cara dos amores impecáveis.", os que não discutem, não querem saber, não têm ponta de ciumes, são tão tolerantes com tudo que é plena indiferença mútua, desinteresse entranhado... não, para isso não dou, nem sirvo.

Bom dia!

quinta-feira, 21 de setembro de 2017



« ‘Li e achei que gostarias’, 
‘visita, se alguma vez lá fores’, 
‘se fosses tu, como farias?’, 
‘contigo, não tenho medo de ser ridículo’, 
que cor é esta que só tu e eu vemos?’ 

Afinidades: linhas paralelas que se cruzam antes do infinito. »

(como sempre, mas este, para mim, particularmente delicioso )

quarta-feira, 20 de setembro de 2017


[foto @projetoamoramora]

"O sexo de bom tom, 
aquele em que amor e foda são tão sincronizados que mal se nota a diferença,
aceita o impropério e bebe dele."

... a lembrar-me conversas bem dadas.


sexta-feira, 14 de julho de 2017

[Foto @projetoamoramora]

(coisa mai'linda de se ler... do Eros)

[...dois corações: 
um era teu inteiro e perdeste-o;
o outro era teu mas nunca o tiveste no sítio,
 (como tanta coisa...)]

quinta-feira, 1 de junho de 2017


[foto @deinha_natali]

"O mundo há-de ser aquilo que se vê daquela janela para fora."

Tenho o péssimo hábito de anotar no telemóvel as palavras que o movimento do carro, das paisagens, das pessoas nos carros por que passamos, da música que nos vai brincando nos ouvidos e no corpo, me traz. É péssimo porque é perigoso, claro está, e é péssimo porque muitas vezes com o corrector automático em acção, chego ao fim da viagem e quando vou tentar ler o que escrevi, perdi metade, porque a atenção estava obrigatoriamente mais no caminho que no andar escrito das palavras. 
Li o post do Impontual antes de arrancar mas aquela ultima frase ficou-me a fazer cócegas ( ou qualquer coisa do género, cócegas não, senão não dava para conduzir ou o que fosse, não me podem fazer cócegas que me desarticulo completamente). Quando cheguei aqui o que consegui recuperar, ou o que resta dos gatafunhos do corrector foi :

O mundo é o que está da janela para fora, visto pelo que temos da janela para dentro. Por isso há tantas realidades para os mesmos factos e tantas janelas para o mesmo mundo, que nunca é o mesmo para cada um. Talvez gostemos, ou não, das pessoas pelo mundo que vêem, que nos apresentam, que nos mostram, visto da sua janela. 
Talvez nos apaixonemos por paisagens.

sexta-feira, 26 de maio de 2017


[foto @bird.ee]


"ela encontrou-o à beira de se afogar
e ensinou-o a respirar debaixo de água"

Explicou-lhe que estava a tentar sobreviver ao contrário.
Ele entendeu-a.
...das possibilidades mágicas das vidas comuns, 
ainda que esta magia seja tão rara quanto sublime.

As improbabilidades têm algo de divino, ou de caótico.


terça-feira, 9 de maio de 2017

sexta-feira, 5 de maio de 2017


roubado à ana 

...roubado há vários dias e guardado até hoje nos rascunhos... não, não sei porquê hoje, mas foi hoje que em deambulações vim parar à distância pela mão da ana.
Lembro-me de a dada altura na minha vida chegar à conclusão que a distância não se mede em Kms, mas em saudades. Agora dou por mim a pensar que dizer isto não diz tudo. À primeira vista, depois de dizer-se isto, parece entender-se que quanto maior a distância, maiores as saudades.
E é agora, é este o ponto da minha vida, em que acho que isso não só não diz tudo, como pode dar uma explicação torta. Este é o ponto onde eu me debato sozinha com as minhas próprias definições e maluquices solitárias, onde vejo as ideias tão emaranhadas como uma meada de lã por endireitar redondinha num novelo com ponta por onde se pegue.
Dou por mim a pensar que na verdade saudades sentem-se quando duas coisas não se conjugam na mesma distância. Sendo essas duas coisinhas o estar perto do coração e da pele. Se estiver perto do coração e da pele não há saudades nem distância. Se não estiver perto do coração nem da pele, também nem nos lembramos de ter saudades, e se não lembramos, então não existem. Só nos lembramos, só emerge do nada o que nos existe por dentro. Quando os dois estão perto não há saudades, quando os dois estão longe, não há por que ter saudades... estão de acordo... Depois temos as dissonâncias, os desatinos, as desafinações de vida, e isso dá-se quando estando perto do coração, a pele não se consegue tocar senão em pensamento, ou quando a pele está ao alcance fácil do toque, mas no coração nada toca aquando esse toque. Aqui há lugar a saudades, saudades de alguém, ou saudades de sentir alguém que nos faça sentir.
Isto tudo porque o título que precede a frase da ana é "distância" e isso fez-me navegar entre as minhas distâncias e as minhas saudades e todos os caminhos entre elas.
Quando a distância é um caminho que se pode percorrer então é de espaço entre corpos que se fala, mas não de almas; quando a distância são caminhos de alma sem volta, é de espaço entre almas que se trata, e este não se consegue percorrer encurtando o espaço entre corpos.

...fiquei a pensar que distância seria aquela da frase da ana... mas sei que eu queria aquela. 

quinta-feira, 27 de abril de 2017

[foto @kat_in_nyc]

"É que o carinho entre os casais não são jantares fora nem fins de semana na praia – isso são banalidades da classe média, são agradáveis, mas não são carinho.
E a intimidade não é ver séries juntos – isso é amizade, proximidade, cumplicidade até, mas intimidade é outra coisa.
Carinho e intimidade é encostar a cabeça no ombro, é deixar pôr a mão dentro da roupa, é cheirar a pele, é apalpar a mama só porque é bom, tocar com o dedo aqui ou ali porque sabe bem, sentir a tesão do outro, mesmo que seja só para ter tesão.
Depois disso pode ser que haja mais coisas, ou então não. E não importa: já se deu a essencial."

A intimidade pela mão  do Menino como se fosse pela minha, mas muito melhor.

Não, a intimidade não é viagens ou jantares fora, é acima de tudo jantar juntos, rir juntos, sentir o silêncio juntos se sem dar pelo silêncio, é a pele não ser estranha ao diálogo, à brincadeira, é saber que juntos não é medido pelo espaço entre os dois ou pela falta dele, é uma comunicação que não se cala, é uma presença que é e não que está - é um ser juntos em vez de, apenas, estar juntos.
É um "juntos" que não é estar perto, é ser de dentro, é essência.
É ser parte do nosso essencial.
É sublimar-nos.
A essência é sempre sublime, como a intimidade.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Jean-Luc Godard (une femme mariee)


"Sabes, ainda vejo.
Aquele indicador esticado, a enrolar e a desenrolar, o cabelo negro, enquanto lês O. Wilde no sofá, a mostrares as pernas, dobradas, com a minha camisa vestida.

Sabes, ainda vejo.
Aquele olhar, verde, penetrante, cortante, as pupilas dilatadas, as pestanas ainda maiores, que só acabava no quarto, com um suspiro.

Sabes, ainda vejo.
O morder do lábio, em gesto nervoso, sedutor, de quem me quer falar, confidenciar, um pensamento ou um desejo.

Sabes, ainda vejo.
O sorriso, maroto, terno, em busca da minha indignação porque não sabes comer esparguete.

Sabes, ainda vejo.
A pasta dos dentes aberta, porque tu nunca, mas mesmo nunca, a fechavas.

Sabes, ainda vejo.
E sinto. As tuas mãos no meu rosto, quando eu definhava, e tu, fria e assertiva, me gritavas "viver é a coisa mais rara do mundo, a maioria das pessoas apenas existe.", do teu querido O. Wilde.

Sabes, ainda vejo.
Os dias que eu nada dizia, ou quando por tudo, ou por nada, tu vias-me, tu sabias adivinhar o meu pensar, e fazias gala nisso.

Sabes, quando o teu cabelo passou a negro brilhante, o verde dos olhos ficou maior. Sabes, só de olhar-te, a dormir, como dormem os deuses, eu tinha tudo.

Sabes, é claro de sabes. Afinal dei-te tudo.

Sabes como sei? Porque não esqueço, que o que escrevi, disseste-me tu ao ouvido sobre mim, no dia que partiste.

É curioso. Sabemos que estamos perante uma das mulheres da nossa vida, como amiga, ou amante, quando lhe reconhecemos as pequenas coisas do dia-a-dia, e gostamos dos seus pequenos gestos e trejeitos.
Sabemos da importância de alguém, quando esse alguém, nos olha, e sabe, sem nada dizermos, o que se passa cá dentro, o que nos corre no íntimo, sem ser água ou sangue."

conta corrente (aqui), in como olho e as vejo
(lá saiu dos rascunhos, CC)


" só de olhar-te, a dormir, como dormem os deuses, eu tinha tudo"...
...mas sabes, nunca tive nada. Nada de ti, nada teu, nada que me quisesses dar, a não ser o lugar de alguém que tinha tudo só de olhar-te dormir, não tendo nada, não querendo mais nada.

Sabes, estou forrada de memórias de pequenas coisas, em que cada uma é maior que eu, cada uma dessas pequenas coisas, mal me cabe se as recordo,
...mas sabes, nenhuma és tu, nenhuma é tua, nenhuma é sequer pedaço de ti, são todas minhas, em que te imaginei do tamanho dessas pequenas memórias que me forram e transbordam, em que a mais pequena mal me cabe de tão inteira - ou de tão inteira me fazer.

Sabes, eu sempre te disse que fui tua, que desde que tu és tu para mim, sempre fui tua,
...mas sabes, não fui, eu fui de quem me entreguei sem saber, quem me foi tomando o olhar e a pele sem licença, e sem dar conta de não ser precisa licença para me invadires - porque de tão meu, deixei-te entrar como se fosses. Meu. Como eu.

Sabes, o tamanho das coisas que vemos está no nosso olhar, e os meus olhos a ti viram as tuas pequenas coisas com a imaginação do que nunca foste, nem fizeste, nem quiseste fazer,
... mas sabes, fizeste-me sentir - o avesso escondido dos teus pequenos gestos, das tuas pequenas  doces sombras, foram-me sempre enormes, avassaladoras de vida. Foram-me tudo o que tu me eras. Agora já não sinto que sinto.

Sabes, às vezes, ainda sou dessa imaginação, ainda sou uma das mulheres da tua vida, aquela de quem notavas os pequenos jeitos e trejeitos, como eu ainda vejo aqueles que em ti imaginei,
...mas sabes, disseste-me que podia ter sido a mulher da tua vida, podia... se podia, falhaste em imaginar o mesmo que eu, não me sentiste como te senti, como se tu  já fosses parte de mim antes de nós, e sempre continuasses a ser, porque não havia depois. Não havia depois de nós. Não havia, mas houve, mas há.

Sabes ainda me pergunto o que imaginavas tu, quando, no silêncio, eu imaginava que te adivinhava  e me adivinhavas só por nos olharmos,
...mas sabes, o que vemos é do tamanho do nosso olhar e tu nunca me chegaste a ver. 


terça-feira, 24 de janeiro de 2017



"Casa-te com quem não te sirva para nada, ou não te cases.

Junta-te só com quem não tenha utilidade prática nenhuma, ou não te juntes.

Ama quem não precises; se precisares nunca saberás se amas.

Os outros não servem para pregar pregos; ir às compras; lavar louça; tratar do carro; carregar coisas pesadas; lavar roupa; passar; cozinhar. Nem sequer para dividir a renda ou o trabalho ou para ter companhia.

Entende que o amor é diferente da utilidade; não esperes utilidade de quem amas, como não esperas amor da mulher a dias.

(...)

Amar é querer estar juntos, ter projectos, partilhar coisas e segredos. É querer mãos dadas, e sexo, e ficar calados um ao pé do outro. É partilhar entusiasmos e agruras. É compreender e querer compreender. Também é dar e receber, e saber dar, saber aceitar. Quem ama também faz coisas que são só para o bem do outro, mas isso não chega, não há amar sem partilha, de actos e de emoções.

Não estejas com ninguém para foder de borla. Há soluções melhores para isso.

As pessoas não servem para nada; não é suposto servirem para nada. E é quando não servem para nada mas as queres por perto que sabes que amas."


Do Menino, aqui na íntegra, a dizer o que penso há tanto, mas tanto, tempo. Amar não é precisar, não é dar-nos jeito, não é ser-nos útil. Não é não conseguir viver sem alguém, é menos ainda dizê-lo para uma qualquer chantagem emocional, manipulação barata de gente sem espinha, para gente poucochinha se deixar levar. Amar é só querer o outro perto para tudo, e isso fazer-nos sentir melhor e ser melhor, ou querer sê-lo. Mais nada.
Quem escolhe ficar com quem não precisa é porque ama, e ponto final.
E depois lembro-me das vezes que ouvi, quase como recriminação, que não precisava de certas pessoas para nada. Pois não. Mas há pessoas que não sabem amar, e, talvez por isso, não sabem reconhecer o amor. Nunca lhe disse que não era capaz de viver sem ele. Não disse porque sou, só não queria, o que é diferente. Muito diferente.
Amar não é depender.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017


Lê-se no Menino (sim, voltou a escrever mais, outra vez, e ainda bem) sobre Rayuela (não gosto da tradução para português, lamento) de Córtazar, livro que comecei a ler e depois, a meio (sendo que o meio aqui é difícil de definir porque não nem o livro nem a leitura é linear), por alguma razão, deixei -o e nunca cheguei a saber o final, ou experimentar outras ordens para lê-lo. Agora, depois de ler isto e de me voltar a lembrar de Maga e de Horácio, fiquei cheia de vontade de lhe pegar de novo e de reler alguns parágrafos do já lido. Assim que acabe o que estou a ler, que me faz pensar mas não sentir, que me abre os olhos mas não o coração, voltarei a ele, talvez me abra a porta para uma profundidade para que deixei de ter pé. 

"Não é invulgar estarmos convictos de algo até termos termos de comparação, a igreja da nossa aldeia é sempre a mais alta que vimos até termos visto outra qualquer. E, depois de termos visto, tudo muda. Para Horácio, já se sabe, isso foi a Maga. A Maga não sabe tudo, embora saiba muitas coisas, mas faz coisas, faz acontecer coisas, participa em coisas, fala com pessoas, é o foco de muita gente. A Maga, acima de tudo, acredita de uma forma tão límpida na vida e nas pessoas que isso o desarma. Não é ingénua, embora chegue a parecê-lo. A Maga vê é as coisas a direito, até ao fundo. Para a Maga tudo é transparente, parece transparente, ela sabe o que fazer, e fá-lo. E isso, para Horácio Oliveira, é fascinante.

Horácio nunca recuperará deste encontro, da presença da Maga na sua vida. Apaixona-se de uma forma tão plena e tão intensa que desafia descrição e compreensão. Depois da Maga, nada mais será como antes. E, ao perdê-la, Oliveira perde-se a si mesmo, para nunca mais se reencontrar. Passará a vida a ver a Maga em cada rosto, em cada esquina, até isso se lhe tornar impossível. Depois de se encontrar e se perder o que não se sabia que nos faltava, não é possível voltarmos a sentir-nos completos.
(...)
A Rayuela* é a história de uma vida e é a história de um amor, de como um amor se torna o centro de um homem, se torna a sua própria vida. É, ao mesmo tempo, um ensaio sobre o presente, sobre os diferentes rumos que as vidas tomam, sobre a redundância das coisas, sobre os múltiplos caminhos que os passos tomam se os olhares no presente, no agora, e não como coisas passadas.
Mas, mais que isso, a Rayuela é a história de mulheres como estas, mulheres que destroem ou que salvam, que mudam os homens, que nunca mais são os mesmos depois de as terem. Depois delas, mulher alguma bastará, todas serão, mesmo que ninguém o saiba, tentativas de reencontrar a Maga.

A Rayuela é, mais que um romance, uma obra experimental cujos capítulos, como a a vida, podem ser lidos por uma ordem não estritamente sequencial. Cortázar convida-nos a ler a mesma história de outra forma, por outra ordem, mantendo-lhe o final e o sentido.

Para Cortázar, Rayuela significava a experiência de uma vida e a tentativa de a levar à escrita. Para quem lê, a Rayuela é um aviso sobre os amores que só acontecem uma vez na vida, e só na vida de alguns, sobre os amores mais intensos e perigosos e, ao mesmo tempo, os que mais valem a pena. Rayuela é um convite escrito à tentativa de os viver, pela ordem que quisermos, com o final que conseguirmos.

Porque, no final de contas, cada homem só percebe que é Horácio depois de encontrar a Maga – a sua Maga."

*Rayuela, de Júlio Cortázar, publicado em Espanha em 1963; Em português, O Jogo do Mundo, tradução de Álvaro Simões, ed. 2008, Cavalo de Ferro