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segunda-feira, 15 de julho de 2024

Será sensato
descobrir o momento
em que se deve
deixar de escrever
e apenas
passar a limpo?


José Alberto Oliveira


Deixei de escrever há muito, sem quase dar por ela. Um adiar constante de algo que antes não conseguia adiar, saía-me dos dedos para não asfixiar alma, era uma necessidade quase básica, extravasar-me para me equilibrar. Deixei de escrever mas nada passou a limpo, nem tenho nada para passar a limpo, o que foi escrito na imperfeição do momento é o mais perfeito que consigo fazer, viver ou escrever. Sempre fui pela espontaneidade, pelo momento, pela vontade do momento que grita e não se quer calar e que eu não gosto, ou quero, calar. Como o silêncio que foi entrando e instalando-se nos dias. Foi acontecendo. Um silêncio diferente em mim,  um que não fala, que serve de fundo ao correr dos dias corridos, com o tempo contado, que não tem nada para contar. Que não nos deixa sequer querer parar para olhar para dentro do tempo. As voltas pela cidade, os cigarros fumados nas ultimas cores do dia, tudo agora perdeu lugar porque o tempo ocupou tudo com coisa nenhuma, ou às vezes assim me parece. As mesmas vezes em que chego a sentir falta de mim, de me encontrar, de me sentir. Ou talvez tenha andado a fugir de tudo isso, e de mim também.  Escrever sempre foi um encontro diário comigo, e talvez eu devesse ver-me mais vezes, conversar-me, sobre tudo e nada. Quanto menos se conversa menos se tem para conversar, de repente não temos interesse em falar, em pensar, em fechar os olhos e ver. Mas a essência é uma coisa meio selvagem, e mal nos distraímos abraça-nos e aí percebemos que há abraços que nos fazem falta. Aqueles em que nos encontramos.

sábado, 6 de agosto de 2022

Hoje dói-me pensar,
dói-me a mão com que escrevo,
dói-me a palavra que ontem disse
e também a que não disse,
dói-me o mundo.

Há dias que são como espaços preparados
para que tudo doa.

Só deus não me dói hoje.
Será porque ele não existe?

Roberto Juarroz

E ele não existir dói-me. Talvez houvesse uma possibilidade de ordem nessa existência. Uma esperança de confiar. Um mal e um bem, um certo e um errado. Uma justiça velada, mas feroz. Uma mão que amparasse, uma voz que indicasse, uma presença que aconchegasse o vazio. Uma ideia que nos inundasse e nos tomasse, varresse todas as dúvidas. Uma razão para a emoção, uma emoção com razão. Uma crença em algo que dá alento, um sentido no abismo do caos, um fabricante de coincidências como migalhas para um destino.  Nós concretos na teia do abstracto. Alguma ordem onde não há nada. E esse nada dói. Esse nada é não saber, não saber quase nada. Todos os quases doem. Quase sempre. O sempre já não me dói. Será porque não existe?

sábado, 26 de março de 2022

 


[Alejandra Pizarnik, Antologia Poética]
Descobri a cadeira que vou comprar para a minha varanda... é espectacular!! Adoro!.. o balançar, o conforto, tudo. Sentei-me ali depois do ioga, hoje no deck aqui mesmo em frente, do outro lado do vidro, ao som dos passarinhos. Um concerto in locco, sem ser gravado para o efeito de acompanhamento zen :) Estava um bocadinho fresquinho lá fora, mas fui deixando de o sentir. O que senti mesmo é que estou muito empenada e tenho de deixar de ser preguiçosa, senão qualquer dia mal me mexo. Depois sentei-me cá dentro, ali naquele balançar que embala, e deixei-me ficar, a olhar a paisagem, a ouvir o espotifas, e acabei por ir buscar a Alejandra para companhia. Gosto muito de alguns dos poemas dela. Se eu escrevesse assim, não precisava de falar mais. Há frases dela que guardo sem esforço de memória "partiu de mim um barco levando-me" "tão longe pedir, tão perto saber que não há". E há coisas que sei que não há, duvido que alguma vez haja, ou até que tenha havido. Estou descrente, ou só lúcida - ainda mais lúcida. Viajo já com o copo vazio, provavelmente... Já não sei onde a descobri, a Alejandra, mas sei que foi por acaso, na net. Deparei-me com coisas assim, destas, que me leram por dentro de alto a baixo, e fui atrás de mais. Tristeza só ter encontrado em português esta pequena antologia dela. Curioso pensar que muitos dos poetas que mais me arrebataram suicidaram-se, viveram todos para além das fronteiras que o ser aguenta, e nem as palavras lhes serviram de válvula de escape... mas serve-me a mim muitas vezes a intensidade deles tão impressa por dentro dos sentidos das palavras, serve-me para sair de mim e encontrar-me. E aqui me vou lendo nos poemas que ela escreveu. Acho que a poesia serve para isso: para nos lermos. Talvez por isso ao longo da vida vamos lendo as mesmas coisas de forma diferente. Porque nós somos sempre os mesmos, mas o olhar, o nosso olhar sobre o mundo, vai mudando. As formas talvez sejam as mesmas, os contornos tornam-se menos definidos, mas as cores... ahhh as cores, as cores nós fabricamos por dentro, só nossas, e sim essas vão variando, tenho a certeza. Quem poderá dizer que o branco dos nossos quinze anos é o mesmo de agora? O nosso olhar, como a nossa compreensão e incompreensão das coisas, vai aprendendo, vai-se moldando, vai-se construindo e desconstruindo em cima dos pilares da nossa essência. A maneira como vemos as coisas vai mudando. Oxalá assim seja com muita coisa. Que tudo passe a ser sombra da sombra que pensávamos não ser. E cuidado, muito cuidado, com quem percebe que nada é o que é agora, que só a sede não tem dias, e que há coisas que não há... e pedir está sempre fora do alcance. Por orgulho, ou melhor, muito melhor, por lucidez.

domingo, 21 de novembro de 2021




Por que me descobriste no abandono?
Com que tortura me arrancaste um beijo?
Por que me incendiaste de desejo
Quando eu estava bem, morta de sono?

Com que mentira abriste meu segredo?
De que romance antigo me roubaste?
Com que raio de luz me iluminaste
Quando eu estava bem, morta de medo?

Por que não me deixaste adormecida?
E me indicaste o mar, com que navio?
E me deixaste só, com que saída?

Por que desceste ao meu porão sombrio?
Com que direito me ensinaste a vida?
Quando eu estava bem, morta de frio

Chico Buarque

E eu, aqui, morta de sono, 
pergunto-me porque beijo todos os dias 
o beijo que não dou. 
Pergunto-me porque me falam tanto tantas linhas 
se já emudeci, 
E aqui, quase morta de medo,
Pergunto-me como ainda há tantas perguntas 
do que não tem resposta, 
Pergunto-me porque há muito deixei de questionar-me, 
e continuo feita de perguntas e de densos silêncios,
 de noites sem estrelas e sem sono, mansas mas duras. 
De desejos bravios, mas sossego na pele
Pergunto-me porque estou bem e não estou, 
porque nada me falta e tudo me falta - ou quase. 
Porque não quero e quero. 
Porque sou e tu não és.
Porque és, e apenas foste.
E eu aqui, morta de frio.
Porquê?

quarta-feira, 6 de outubro de 2021

[Paul Éluard ]


O beijo à altura dos céus 

O céu à distância de um beijo

O que estará mais perto?


 

quarta-feira, 22 de setembro de 2021

[@davidbenolielphotography]

Quando bruscamente, nas trevas da noite,
Ouvires passar o tropel invisível das vozes puras,
O coro celeste das sublimes harmonias,
Abandonado definitivamente pela fortuna,
Desfeitas em pó as últimas esperanças,
Esvaída em fumo uma vida de desejo.
Ah! não sucumbas lastimando um passado
Que te traiu, mas como um homem
Que se prepara há muito tempo,
Despede-te corajosamente
De Alexandria que te abandona.
Não te deixes iludir e não digas
Que foi sonho ou um logro dos teus sentidos,
Deixa as súplicas e os lamentos para os poltrões,
Abandona vãs esperanças.
E como um homem que se prepara há muito tempo,
Resignado, altivo, como te compete
E a uma cidade como esta,
Abre a janela e olha para a rua
E bebe a taça inteira da amargura
E a derradeira embriaguez da multidão mística
E despede-te de Alexandria que te abandona.

Konstandinos Kavafis
[justine, lawrence durrell]


não é Alexandria que te abandona
as noites, os cheiros, o desejo,
os sonhos em vão
és tu que deixas que te abandonem
que o pedes, que o provocas
foste, sem saber, há muito,
quem a abandonou
quando já não a distinguias de ti
se ela estava em ti, ou tu nela
se te inebriava, ou se te querias inebriar dela
se ela te envolvia, ou se te envolvias com ela
se a amavas, ou amavas como a amavas
tão única como o amor que lhe tinhas,
que tinhas

envolvente de tão intensa
embriagas de desejo
não abandonas
preparas-te para que Alexandria 
te abandone
e fiques nela onde fores
o que Alexandria tinha de ti
era teu
sempre foi 
só teu
o sonho, o cheiro, o desejo
as noite que agora te não cegam,
e vês o tempo 
e tão longe já Alexandria,
um amor como os outros

não abandonas,,
nunca abandonaste
nunca se abandona onde já não se está.

sexta-feira, 27 de agosto de 2021



Porque te tenho e não
porque te penso
porque a noite está de olhos abertos
porque a noite passa e digo amor
porque vieste a recolher tua imagem
porque és melhor que todas tuas imagens
porque és linda desde o pé até a alma
porque és boa desde a alma a mim
porque te escondes doce no orgulho
pequena e doce
coração couraça
porque és minha
porque não és minha
porque te olho e morro
e pior que morro
se não te olho amor
se não te olho
porque tu sempre existes onde quer que seja
porém existes melhor onde te quero
porque tua boca é sangue
e tens frio
tenho que te amar amor
tenho que te amar
ainda que esta ferida doa como dois
ainda que busque e não te encontre
e ainda que
a noite pese e eu te tenha
e não.

Mario Benedetti

E não.
Porque não.
Porque não há razões
para tudo o que é.
Só porque sim
Porque não há razão
para o que não é.
Porque não há razões 
que me encham da razão que tenho. 
Que sei
E não.

sábado, 22 de maio de 2021

 

[Alejandra Pizarnik]

Porque ontem, já na cama, a navegar o cansaço entre cá e lá, o xilre trouxe-me da prateleira a visita desta Alejandra. Não resisti. Hoje continuo a folhear Pizarnik, como direito a esses pequenos prazeres que não têm tamanho nos dias, nesses pequenos nadas que me devolvem, me relembram o que ainda sou, quase já sem saber. Ou sem querer saber.
... tão longe o que sou, tão perto o que já fui, mendiga-me a voz ao som de Pizarnik...

sábado, 13 de fevereiro de 2021


contento-me com coisas
pequenas que de repente se tornam
muito grandes onde nem sei
de mim nem quero

Bénédict Houart


É tão bom não saber de nós, e mais ainda não querer... leio isto, e é o que sinto. Não saber de mim é não me pensar, não me duvidar, não me olhar ou procurar. E isso soa-me a paz, a tranquilidade, a sossego de alma. Uma calma estúpida, sim, por vir de não ver, não me confrontar,  e não de ver que gosta do que se vê - é uma diferença abissal, em tudo, perspectiva de vida, exigência própria, cobardia, carácter.
Mas esta sensação que nos toma de pequenas coisas que nos conquistam inteiros por momentos, nos abarcam e fecham num momento, em que tudo o resto se resume a nada é um oásis no deserto dos dias. E aí, nesses ínfimos momentos de infinitude, não sabemos de nós, mas sentimo-nos inteiros (talvez por isso), e então não pensamos em querer mais nada. Para quê? 
Há coisas em que mais, estraga :) 

... quem nos dera pequenos infinitos todos os dias.

(e ao escrever isto lembrei-me dos pequenos absurdos de O'Neill. é que precisamos todos, e às vezes chega para salvar).

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021



COMÉDIA

Vazio. Queixa-se
de vazio.
E nisto esvazia o outro
tão cheio
disto tudo.

Daniel Jonas


Vazio é um sítio onde deviam estar coisas, ou que já estiveram. O mais difícil é esvaziá-lo, reduzi-lo a nada, à ausência das ausências, das faltas, das falhas. Ao pré-vazio. 
O verdadeiro vazio está cheio de coisas a lembrarem de o lembrar.  E não sem o sentir todo - tudo o que nos desgasta, nos esmaga, nos enche e falta -, atravessa-nos a alma até aos ossos, despojada de tudo menos do que a queríamos esvaziada. 
Uma gota de água no vazio pode transbordar. E é a ironia que faz o riso.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

 José Tolentino de Mendonça

Talvez. A noite é o silêncio que melhor nos guarda, nos esconde e nos revela, mas agora procuro a madrugada, aquele fiozinho de tempo que separa a noite de um novo dia. Aquela luz que quebra a noite, que rompe o dia, que traz ainda a noite dentro, como uma memória que vai esmaecendo no espreguiçar do dia, no abrir dos olhos para fora.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020



Já não é dor, é a constatação de ter sido, 
sem ser ainda a de já ter deixado de ser.

sábado, 7 de novembro de 2020

[foto @manoleili]

De luas, desatino e aguaceiro

Todas as noites que não foram tuas.
Amigos e meninos de ternura

Intocado meu rosto-pensamento
Intocado meu corpo e tão mais triste
Sempre à procura do teu corpo exato.

Livra-me de ti. Que eu reconstrua
Meus pequenos amores. A ciência
De me deixar amar

Sem amargura. E que me deem

A enorme incoerência

De desamar, amando. E te lembrando

– Fazedor de desgosto –
Que eu te esqueça.

Hilda Hilst

Incoerência essa, de desamar, amando, e sem amargura, com o tempo a apagar as dúvidas e a acomodar certezas incómodas, difíceis, doridas. Mas sem amargura, com o travo de acidez que deixam na boca todos os beijos que não se deram no abismo apodrecido dos que se deram imerecidos, feridos de engano original, amando no desamor de outros. E agora é só continuar, só mais do mesmo, mas no seu inverso. Espelhos que a vida traz, um atrás do outro, sem partir.

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Amalia  Bautista 

 No fim, muito pouca coisa importa.
E esse devia ser o nosso princípio, sempre.
Mas nem sempre parecemos saber por onde começar,
 e tudo atrapalha e se agiganta, perdemo-nos dos caminhos: voltamos ao princípio.
À essência, ao amar e ser amado, ao proteger quem amamos,
mantê-los perto e dentro, ao saber tocar quem nos toca.
E por fim, não ter medo de recomeçar, com este princípio.
O nosso fim é amar.

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

E por que haverias de querer minha alma
Na tua cama?
Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas
Obscenas, porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo prazer lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando
Aquele Outro.
E te repito: por que haverias
De querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e acertos.
Ou tenta-me de novo.
Obriga-me.

Hilda Hilst 

“Meu amor carnal e obsceno... Um desejo de posse, de trazer o outro para capturá-lo.” Para prendê-lo a si,  um certo desejo de pertença, n posse. De ser de alguém e de sentir alguém nosso. Completamente, inevitavelmente. “E nessa troca de prazeres queria que soubesse q estava disposto a tudo para a fazer feliz”

domingo, 2 de agosto de 2020

[cãibra - Miguel Martins]
Isto tudo.
Isto tudo que já foi, isto que me lembra o que um dia fui,
ou senti - sim talvez seja melhor dizê-lo assim.
Isto lembra-mo, e muito.
Comungar dos corpos esfaimados como quem reza a um deus maior.
Precisar do outro para sermos mais nós, mais inteiros.
Precisar do outro para nos despir mais do que saberíamos,
ou nos atreveríamos.
Precisar dele para nos despir de toda a humanidade que os dias,
deste mundo que tanto corre, não sabem vestir.
Para aprender que, no fim, será só o que nos resta.
E nos faz sentir vivos, mesmo matando-nos.
Isto tudo relembra-me o que não foi, o que não fui,
e o que quero:
Isto tudo.

domingo, 7 de junho de 2020

[Pablo Neruda]

Há noites em que não faz sentido apagar o dia sem lhe sentirmos a luz. Nestas noites percebo, relembro, por que quase todos os meus livros de cabeceira, que se amontoam ao meu lado debaixo do candeeiro, são de poesia. Há noites em que o dia falta mais, e é talvez nessas que me procuro entre as resmas de folhas poisadas, fechadas, cheias por dentro. Folheio ao acaso, ou persigo marcas antigas, que outras noites deixaram. E é tão bom... gostar do que se encontra... encontrar o que não se espera e  gostar, ou recordar o que se gostou, porque se volta a gostar, outra vez. Como um passado que é agora, porque ainda somos nós. Para as noites vindouras de fome insaciável de qualquer coisa inominável, esta ficará marcada. Como as cinzas, que silenciosamente vão caindo, no trilho para novas maçãs. Marcam o caminho, mostram-nos quem somos... e o que tanto de nós dirá, como o que nos falta?


sexta-feira, 5 de junho de 2020


Nosso amor é impuro 
como impura é a luz e a água
e tudo quanto nasce
e vive além do tempo.

Minhas pernas são água,
as tuas são luz
e dão a volta ao universo
quando se enlaçam
até se tornarem deserto e escuro.
E eu sofro de te abraçar
depois de te abraçar para não sofrer.

E toco-te
para deixares de ter corpo
e o meu corpo nasce
quando se extingue no teu.

E respiro em ti
para me sufocar
e espreito em tua claridade
para me cegar,
meu Sol vertido em Lua,
minha noite alvorecida.

Tu me bebes
e eu me converto na tua sede.
Meus lábios mordem,
meus dentes beijam, 

minha pele te veste
e ficas ainda mais despida.

Pudesse eu ser tu
E em tua saudade ser a minha própria espera.

Mas eu deito-me em teu leito
Quando apenas queria dormir em ti.

E sonho-te
Quando ansiava ser um sonho teu.

E levito, voo de semente,
para em mim mesmo te plantar
menos que flor: simples perfume,
lembrança de pétala sem chão onde tombar.

Teus olhos inundando os meus
e a minha vida, já sem leito,
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há depois do mar.

Mia Couto, in "idades cidades divindades"

[leio e releio e está tudo dito, ficando tanto por dizer. Tudo. Há coisas que por mais que se digam nunca ficam ditas. Tal como amar, quando o amor é impuro assim, de tão real. Come todas as margens, não conhece caminhos traçados, solve-se em todos os mares como um só, que é tudo. E nada.]

sábado, 21 de dezembro de 2019

Luis Alberto Cuenca 

Adoro. Adorei.

Gosto quando estás feliz e ris-te e dizes que sou louca e que hoje estou por demais, que os meus olhos dizem tudo da malandrice diabólica do corpo. Gosto quando te ris a olhar para mim, quando fazes aqueles trejeitos ao olhar-me e não sei o que estás a pensar. Gosto que me digas para ir para o teu colo, ou para me calar que só digo tontices, quando me chamas parva, gosto que me cales com beijos e me puxes para o nosso mundo com as mãos.  Gosto quando me perguntas se tenho fome e te digo que tenho, de ti. Ou se estou danada contigo digo que não, que não quero comer nadinha. E eu não vejo, mas tu ris-te. E isso justifica o mundo rodar, e haver sol. Pena não haver futuro, e este presente ser um passado amansado e amassado em mim. E também não haver sol, chove enquanto tomo o pequeno almoço, e não me apetece comer nadinha.

sábado, 23 de novembro de 2019


[foto @projetoamoramora]


TRAPÉZIO

subir por aquele rapaz acima
e chamar deus à vontade
de subir

Raquel Nobre Guerra


[deus...
que vontade,
o rapaz, aquele,
aquele só.
a bíblia da pele
que leva a alma ao céu.
céus.
a subida ofegante
a descida em suspiro 
a vontade, a vontade, 
a vontade, tão à vontade
tudo. sempre.
deus!
deixa-me cair.]