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segunda-feira, 15 de julho de 2024

Será sensato
descobrir o momento
em que se deve
deixar de escrever
e apenas
passar a limpo?


José Alberto Oliveira


Deixei de escrever há muito, sem quase dar por ela. Um adiar constante de algo que antes não conseguia adiar, saía-me dos dedos para não asfixiar alma, era uma necessidade quase básica, extravasar-me para me equilibrar. Deixei de escrever mas nada passou a limpo, nem tenho nada para passar a limpo, o que foi escrito na imperfeição do momento é o mais perfeito que consigo fazer, viver ou escrever. Sempre fui pela espontaneidade, pelo momento, pela vontade do momento que grita e não se quer calar e que eu não gosto, ou quero, calar. Como o silêncio que foi entrando e instalando-se nos dias. Foi acontecendo. Um silêncio diferente em mim,  um que não fala, que serve de fundo ao correr dos dias corridos, com o tempo contado, que não tem nada para contar. Que não nos deixa sequer querer parar para olhar para dentro do tempo. As voltas pela cidade, os cigarros fumados nas ultimas cores do dia, tudo agora perdeu lugar porque o tempo ocupou tudo com coisa nenhuma, ou às vezes assim me parece. As mesmas vezes em que chego a sentir falta de mim, de me encontrar, de me sentir. Ou talvez tenha andado a fugir de tudo isso, e de mim também.  Escrever sempre foi um encontro diário comigo, e talvez eu devesse ver-me mais vezes, conversar-me, sobre tudo e nada. Quanto menos se conversa menos se tem para conversar, de repente não temos interesse em falar, em pensar, em fechar os olhos e ver. Mas a essência é uma coisa meio selvagem, e mal nos distraímos abraça-nos e aí percebemos que há abraços que nos fazem falta. Aqueles em que nos encontramos.

sexta-feira, 12 de abril de 2024

 O discurso não muda, a conversa é a mesma. O mesmo fim de dia repete-se a cada vez. O futuro não chega ao passado, e até o presente se ausenta, como quem não existe e não se dá pela falta de comparência. Ainda deve chegar para o jantar, mesmo tendo morrido há mais de um ano.  Mas hoje, ao sair, o sol pôs-se de outra maneira, a luz deitou-se mais devagar, e dei por mim a vaguear pela cidade presa ao que não muda. E está tudo diferente. E não sei se mudei, se estou na mesma, nem sei se importa. Nem sei se posso dizer que me sinto diferente, que sinto diferente. Porque parece que não sinto nada. Só o vazio parece pesar mais, e os dias iguais com pores do sol que caem diferentes. Vem-me à memória uma frase “ só sei trabalhar, não sei fazer mais nada” e tem-se repetido este ecoar na minha cabeça, saltita em momentos dos dias, à superfície das horas, sem me deixar mergulhar em nada além do que tiver entre mãos. As mãos, as mãos sempre a fazer, e de repente sei que não devia ser só esse o verbo das mãos... Não quero pensar que me tornei no que nunca entendi. Não quero pensar. Queria uma sensação qualquer que me agarrasse, que me cravasse as unhas na pele até à alma. Queria o que eu fui para quem não quis viver além dos vazios, e da sensação da vida a cravar-se na pele nos interstícios dos dias, mas sem o perigo de agarrar a alma pelos colarinhos. Sem mudar os dias além da sensação deles, uma espécie de droga que se toma em horários mais ou menos certos, mas que não nos muda as horas. Queria ser para mim o que fui para outros, e não serviu a ninguém. Vagueio pela cidade, e vou fazendo curvas e mudanças de direcção, como quem muda de assunto numa conversa de tema inexistente, nunca sabemos onde nos leva, onde iremos chegar noite adentro. Vagueio pela cidade e pelas palavras que me navegam, que me mareiam das sensações ondulantes dos barcos parados. Vagueio, mas paro à minha porta, não entro. Não me encontro, e esse tem sido o meu descanso. Agradeço-o várias vezes ao dia, sem querer ter a consciência que o faço. Há mergulhos que se fazem de coragem e de olhos abertos, eu fechei os meus para dentro. Por dentro. De dentro. Não há o que ver, não há o que dizer. Só as palavras dançam, sem saberem onde a música as levará. Querem chegar ao silêncio pleno, mas esbarram no vazio. Nos dias. No trabalho que berra. E nas portas fechadas. Desta vez parece que fecharam a porta por fora. Se calhar fui eu. Só sei trabalhar, não sei fazer mais nada. Se calhar ainda bem. Mas não sabe bem. Também não sabe mal, quando os pores do sol não caem diferentes. O que é diferente muda tudo, sempre quis ser igual. E fui.

domingo, 31 de dezembro de 2023

 311223

Hoje. É um número curioso: dois uns, dois dois e dois três. É só isso, curioso, nada mais. É também o último dia do ano, deste ano. Este ano que não me deixa saudades, mas deixa marcas profundas, e bastantes. Este ano que vai sempre fazer parte dos anos que não esquecerei. Ano de grandes perdas, de decisões pesadas, ano de riscos e de medos. Ano de assumir uma maturidade que me caiu pelos ombros e me mostrou pilares de que a vida é feita, e desfeita. Ano de me virar para dentro de outra forma, de explorar lados que nunca procurei... encontrei na meditação, e no yoga que já me acompanha há algum tempo, uma paz e uma liberdade que me ajuda.

Tenho algumas vezes tentado escolher uma frase para o ano que começa, um mote, um mantra talvez. Mas cruzei-me com esta frase há pouco e fez-me tanto sentido para resumir este ano, que em vez de escolher um começo, vou escolher um fim... que trará um qualquer começo que nem sequer quero ou consigo imaginar. Mas todo o fim é um começo, isso eu sei. " O sucesso não é definitivo,  e o fracasso não é fatal, é a coragem de continuar que conta." A coragem é uma palavra espinhosa para mim.  Não acredito em coragem não havendo alternativa, não havendo escolha, aí não penso que se trate de coragem. Coragem é ter escolha e escolher o menos fácil, escolher de acordo com o que está certo, o que é digno,  com a verdade, independentemente do caminho a percorrer para o conseguir, não pensar no que é mais cómodo ou fácil, pelo contrário ter consciência da dificuldade, mas ainda assim escolher essa via. Ter apenas um caminho: continuar...não é coragem, é sobrevivência, é falta de qualquer alternativa. E não me digam... ah e tal mas continua, não desistiu!... não? uma coisa não implica a outra, há tanta, mas tanta gente, que continua o caminho mas já desistiu... eu muitas vezes sou essa pessoa, acho. Não gosto de pensar isso, de dar a mão à palmatória, de pensar que houve pessoas que me estragaram irremediavelmente para sempre, que a vida me foi roubando de mim, aos poucos. Mas esta frase lembra-me essa ideia, nada é definitivo, nem o que é bom e foi procurado, nem as penas que nos vão encontrando pelo caminho... nada é para sempre. Já diz o ditado (e eu adoro ditados, pois) "não há bem que sempre dure, nem mal que nunca acabe". É isto que temos de nos lembrar, não desesperar mesmo quando o desespero se nos entranha no sangue que corre o corpo todo. Há que fechar os olhos respirar fundo e nesse silêncio encontrar essa certeza, tudo faz parte, tudo é parte do tempo, da vida. Há um amanhã diferente, algures. Certo é que o futuro me deixa muito apreensiva, os próximos anos, e este 2024 que segue já a seguir, pode ser um ano de grandes mudanças, de desafios mais que incertos. Em tudo, e com reflexos na economia mundial, que chega até aqueles que acham que com o resto não têm nada a ver... Veremos, mas nada do que se avizinha será fácil, nem numa perspectiva macro, nem na minha micro perspectiva caseira, da minha vidinha dos dias. Da mãe, da filha, do irmão, do trabalho e do tempo para o resto arrancado sempre a alguma coisa. Há que agarrar os pequenos momentos plenos, há que sorrir nos interstícios dos dias, das coisas, do "tem que ser". Olhar para a minha filha, quase quase grande, que grande nunca será, será sempre uma pequenitates para mim, orgulhar-me dela em muitas coisas, desesperar-me com outras, mas sentir nela um coração no sítio certo, os princípios num lugar seguro, dá-me um sorriso de alma inteira. Olhar as minhas duas patudas, já sem o meu grisalho de quatro patas que há dias se despediu de mim de manhã quando me preparava para sair para trabalhar- mais uma perda que fica neste ano que hoje acaba, o meu grisalho teimoso e resiliente. Olhar para elas e ver a alegria, ver a brincadeira e o amor incondicional que nos têm, a vontade imensa de atenção e carinho, e os gestos ternos que se percebem, os olhares que nos querem falar sem ter palavras.  Tantas, tantas vezes como nós, demais. Tudo isso tem uma beleza que toca se nos deixarmos tocar. Se nos deixarmos tocar, como em tudo. E nestas coisas deixo, e gosto, remetem-me para a minha essência, despertam-na, e fazem alguns instantes plenos, momentos meus.

Revejo alguns posts de ultimo ano que já escrevi, aqui e noutras paragens, e tenho saudades. Saudades da esperança, da vontade, do sentimento de começar de novo de alguma forma. Duma folha em branco. Concluo que já não tenho folhas em branco. Talvez seja uma coisa boa, normalmente servem de rascunho para algo. Talvez agora comece a ser altura do "algo".

Bom ano! 

Que o próximo ano vos traga tudo o que precisam para serem felizes!!


domingo, 17 de dezembro de 2023

[desconheço a autoria]

 46. É um numero, sempre disse que são apenas números, e são. Vão somando, ou subtraindo conforme queiramos perspectivar. Certo é que o que vivemos já ninguém nos tira, para o bem e para o mal. Há males que serão sempre males e bens que serão sempre bens. Com sorte e alguma inteligência tornamos os males em aprendizagens, em crescimento, em conhecimento da dor, até. Em conhecimento das nossas fronteiras e limites, o que nos leva a impô-los e onde afinal estão - às vezes estão muito para além de onde achávamos que estavam, outras precipitam-se muito antes de o desconfiar, e na verdade nunca sabemos até os testarmos.  De alguma forma a vida, e tantas vezes a dor, vai-nos preparando para o que vier e nalguns casos até o evita. Infelizmente, às vezes, os males evitam futuras felicidades, fazem-nos descrentes, cépticos, demasiado realistas na boca de alguns, e pessimistas na boca de muitos. Seja o que seja somos a soma de tudo isso, do que nos aconteceu e de como vivemos o que nos aconteceu. Como o sentimos, como o sofremos, com que dignidade soubemos responder e aceitar, e como fomos felizes na felicidade que às vezes encontrámos, ou espreitámos, vá. Somos as gargalhadas no meio disso tudo, o saber rir do que nos magoa, das figuras que fazemos, do que somos em caricatura que sabemos esboçar nós mesmos. Rir, rir com quem gostamos será sempre uma das melhores coisas da vida. Eu do alto dos meus 46 aninhos, feitos agora, é o que sinto, o resto teremos sempre: responsabilidades, obrigações, culpas, há até quem tenha arrependimentos (eu curiosamente não sofro desse mal), mas enquanto tivermos com quem rir, quem nos abrace, quem se desvie um tico do seu caminho para nos entregar um beijo a quatro braços, então vale a pena continuar a aprender com a vida a valorizar, cada vez mais, quem o faz. Quem se lembra de nós, hoje e sempre que os dias da vidinha nos permitem parar um bocadinho para nos lembrarmos de viver, de estar, de ser simplesmente. Se fazemos parte desses momentos para alguém e se temos companhia para os nossos, caramba ainda há coisas que fazem sentido. Tanto como estarmos bem sozinhos, de olhos fechados com o sol a bater-nos na cara, como eu estive até há minutos atrás, sentada no chão em frente à janela duma divisão que já foi escritório, onde pensei e cheguei a dizer que poderia ser um quarto, e onde hoje tenho estendido o tapete de ioga (sem uso há duas semanas mas que vou recomeçar assim as dores que me chatearam estes dias me deixem), um caderno rabiscado, blocos e uma manta. O sítio onde a minha pintarolas de quatro patas se aninha ao meu lado enquanto trabalho sorrisos que afinal nem sempre são solitários. Não sei quantos virão mais nem o que se seguirá, já deixei há muito de esperar o que quer que seja. Agora só peço paz, e peço como quem sabe que não pede pouco. Mas se é para pedir... só quem for parvo é que pede pouco, e eu ando a tentar aprender a não ser parva, está visto. 

Fui procurar uma imagem que coubesse aqui e neste dia, bati os olhos nestas linhas, e sim faz-me todo o sentido, mesmo que possa parecer pouco clara a relação entre o texto e o poema (guardei a imagem mas não tenho a autoria do poema, se alguém souber por favor avise-me, não gosto de não dar os devidos créditos). O texto sussurra intimidade, a que me forra momentos, e uma urgência de vida, de começos, de beleza, que se poderia assemelhar à urgência do desabrochar dum botão de rosa, que em nada parece ter pressa para a perfeição. Faz-me sentido, e isso basta.

sábado, 28 de outubro de 2023

 

[trabalho @virgola_]

As costuras já não esgaçam assim, já nada transborda, a força das coisas antigas começa a ser, sinto-a  conscientemente antiga, quase suave, quase. Dou por mim dentro do carro, a acabar um telefonema, e a lembrar-me que à porta desta padaria ou pastelaria ou o que for, anos atrás estava eu naquela mesa, que parece estar na montra, prefere-se aquela porque lá dentro tem a luz toda e vista para fora. De fora, parece que se está na mesa da montra, mas de dentro não há montra, há rua. São perspectivas, é bom que haja muitas e diferentes. Eu estava lá, numa tarde de sábado ou domingo, não sei precisar, e ainda bem, quando poisam as duas tostas que encomendámos, mas  chegam quando já só eu estava sentada naquela mesa. E olhava para fora, para a cena que se passava lá fora enquanto uma das tostas arrefecia, ali deixada e ignorada. Pedida, mas largada. Comi a minha quente, matou a fome. A outra, já fria e intocada, deixada na mesa matou muitas outras coisas. A cena lá fora acabou, sairam vários carros. As vozes deixaram de se ouvir. Eu tomei o café já com o espaço la fora apenas a ser outono e luz e nuvens. Era outono, acho. Para mim era outono. Com esta luz que parece meio adormecida, mas que acorda coisas em nós para adormecer outras que às vezes gritam. Paguei o que se consumiu e o que ficou por consumir. Peguei no carro para voltar a uma casa que nunca encontrei. Chamaram-me casa algumas vezes, nunca chamei casa a ninguém, que me lembre. Casa é o sítio onde podemos sempre regressar e despirmos o mundo à porta, onde nos sentimos seguros e livres ao mesmo tempo. Nunca senti ter a segurança dessa morada em ninguém. Mas cheguei onde moro, depois de muitas voltas à cidade e telefonemas e desculpas. Hoje estou aqui à porta e recordo. Mas já não me transborda a dor e a raiva, a incompreensão de tudo, as costuras da ferida já não rebentam, nem sequer esgaçam. As costuras já não esgaçam assim. 

Vou comprar pão e vou para casa. Agora vou para casa. Fechar a porta por dentro é tão bom. 

sábado, 29 de abril de 2023

 Dia 15 deste mês, há mais de uma década, quando tinha a idade que eu tenho hoje, pôs-me a mão no pescoço e roubou-me o que, descobri depois, lhe queria dar. Sempre e todos os dias a partir daí durante muito tempo. Passado duas semanas fez anos. 

Hoje entra numa nova década. 

Ontem fechei parte duma etapa da minha vida, ou sinto isso, uma que me foi particularmente difícil atravessar, mais uma. Mas sinto-me livre, aliviada, e cheia de medo, mas com aquela a sensação de que fechei uma porta a um passado. Que se virou mais uma página. E ontem lembrei-me que hoje viraria uma década. Espero que a próxima década lhe traga o que quer, que seja feliz. Esta é a minha prenda, quero que seja feliz. Nunca o consegui dizer sem me sentir injustiçada, sem sentir que isso seria construído, vivido, em cima de toda a mágoa que me deixou, todo o sofrimento, desconsideração e desrespeito que sempre me dedicou, e até algum desprezo conveniente. Nunca o consegui dizer, e nunca o disse. Hoje quero que seja feliz, só. E que recupere todo o vocabulário que perdeu, se algum dia perdeu alguma coisa de facto.

Beijo

Escrevo-o aqui da mesma forma que sempre lhe dei todo o amor, todo o carinho, toda a ternura, toda a consideração e respeito, tudo o que de melhor encontrei em mim para lhe dar. É uma coisa de dentro para fora, de mim para o outro, é uma coisa que escrevo porque precisa de sair, que entrego porque preciso e porque quero. Tem só a ver comigo e nada com o outro. Com o outro receber ou não, ouvir ou não, ver ou não, perceber ou não. Merecer ou não. Retribuir ou não. É uma coisa minha, dos meus botões, das minhas contas interiores. É uma coisa de mim para mim, que precisa respirar e libertar-se, voar.

 

Fez precisamente ontem uma semana que mandei esta música às minhas pessoas mais chegadas, aquelas que me têm aturado e ouvido no último ano de martírio. Finalmente parecia que sim, que estava livre da situação. Ao fim de tanto tempo a aguentar tanta coisa e farta de tudo, consegui sair a bem e com tudo a que teria direito se não fosse eu a querer sair. Aguentei o inferno, mas fui guardando factos, e coleccionando argumentos que poderiam um dia fundamentar precisamente sair assim - pelo meu pé, mas como se não fosse. Verdade que acenei com algumas dessas coisas, verdade que apesar de dizer que me queriam a trabalhar lá, que eu era uma mais valia, eu se calhar dava muitos problemas e faziam-mo sentir, e não que seria uma mais valia. Dias antes da morte do meu pai, no dia seguinte a ter sido internado, cheguei a casa ao almoço e decidi, é agora, vou sair, chega. Queria chorar tudo duma vez e não conseguia, queria gritar e a voz desaparecia, estava toda eu um nó que não conseguia, ou sabia, desatar. Não consigo lidar com tudo, já não sinto chão de baixo dos pés, tudo parece areias movediças, e a minha sanidade mental começa a fazer-se sentir uma miragem. Lembrava-me insistentemente de me dizerem tantas vezes lúcida, consciente, analítica, e sentia que essa lucidez já não estava ao meu alcance, fugia-me por entre todas as merd@s que os dias, o quotidiano infernal me servia, dia após dia. Decidi isto,  acabou, vou sair.
Dias depois abriu-se um buraco no chão do meu caminho, onde parecia caber toda a minha vida, onde tinha caído toda a minha vida sem quaisquer notícias do seu paradeiro. Como se de repente tudo tivesse desaparecido, tudo tivesse sido sugado por uma escuridão que não se consegue combater, ou alumiar. "Parece que te passou um autocarro por cima", disseram-me na manhã que seguiu a pior noite da minha vida, e eu ri-me, deve ter sido um tractor, um TIR carregadinho, e estás a ser simpático, pensei. 
Duas semanas e pouco depois, arranjei forças e coragem para ter "a conversa". Disse tudo o que queria, não deixei que me levassem a conversa para onde eu não queria ir, deixei claro que não queria criar problemas, mas certa que se os houvesse eu tinha defesas, até trunfos. Deixei claro que a minha postura tinha sido sempre não criar problemas e não disputar o lugar que era meu, para que me chamaram e escolheram. Só me quero onde me queiram. Se não me querem não faço questão de estar, não vou disputar algo que só faz sentido se me quiserem lá, e foi essa sempre a minha postura. A próxima que vier poderá não pensar, ou ser, assim, e pode dar-se o caso de não se importar de se prestar a esse guerrear publico perante uma equipa que devia ser liderada de forma consistente e alinhada. 
Disse o que queria dizer, deixei nas entrelinhas o que queria deixar no ar - passei a mensagem, penso que da melhor maneira. Saí de lá aliviada e orgulhosa de mim, como há muito não sentia. Tinha sido capaz, tinha feito o que queria fazer, como queria fazer. Não sei onde fui buscar forças, ou onde fui buscar cara para parecer que as tinha, mas de alguma forma, consegui, e estava feito. 
Finalmente, e depois de demasiado tempo, envio esta música. Às minhas pessoas. Estou livre, disto, desta gente, desta forma de trabalhar e pensar, de muito sofrimento que me fui infligindo por ser assim, e não de outra maneira. Aprendi muito, também porque doeu muito e fundo, e é isso que levo daqui, uma imagem mais aproximada da raça humana. Aprendi muito,  mas muito pouco da actividade, do trabalho, aprendi que as pessoas só trazem a ambição e os fins para o trabalho, o resto, o ser humano, a espinha e o carácter, quero acreditar que deixam em casa de manhã quando saem. Ainda quero acreditar que não lhes falta completamente essa humanidade, essa réstia de decência e espinha. Nem todos são assim, e se chego ao ponto de destacar do conjunto pessoas que simplesmente são educadas e mostram respeito pelos outros, o que diz muito do nível da amostra que é a massa de trabalho desta multinacional (como sempre enchem a boca para dizer), o que não direi das pessoas que me ficam desta travessia do deserto humano. Há pessoas em todo lado que valem a pena, e depois de nos cruzarmos com elas, vão connosco para sempre. Levo uma mão de gente deste sítio, que gosto, que admiro, que respeito. Vou mais pesada do que cheguei, levo mais gente do que trouxe. Agradeço as perdas e os acréscimos, porque neste caso tudo me acrescentou. Estou livre. E desempregada. Agora quero um, no máximo dois, vá, meses de sabática, depois terei de pensar o que quero fazer, como e onde. 

Don't be afraid of your freedom
Freedom
I'm free to do what I want any old time
I said I'm free to do what I want any old time
I say love me, hold me
Love me, hold me
'Cause I'm free to do what I want any old time
And I'm free to be who I choose any old time

(mas sim, estou cheia de medo. de tudo.)

terça-feira, 25 de abril de 2023


 Não se nota, não se nota muito, eu sei. Mas hoje voltei a pintar as unhas desde há mais de dois meses. Mas não as consegui pintar de outra cor que não esta. Não me peçam para explicar, para explicar-me. São coisas que são assim como poderiam ser de outra maneira, porque não há razão. Há um sentir que é assim, que tem de ser assim, só porque sim. Ou porque não, que é das melhores razões para tudo que não é racional. Senão a melhor de todas. Porque gostas de mim? Porque sim. Não sei porquê, não sei explicar, não tem explicação, é assim e pronto. Tudo o que tem uma razão pode perdê-la por argumentação, por demonstração. O que não tem razão não pode ser provado errado, nem certo. É o que é, enquanto for. Essa incerteza, esse medo, não é para todos, não. Não há uma tábua a que nos agarrarmos enquanto tentamos nadar para a nossa costa. Não há nada. Só a vontade de chegar e de acreditar que estamos certos, que conseguimos. A razão é a melhor rede com que viver, mas há coisas que sem deixar a razão, sem tirar a rede, não se vivem. Não acontecem, não nos acontecem. Há anos neste dia, alguém me mandava uma mensagem enquanto vagueava pelas ruas enevoadas da cidade (o dia estava o contrário de hoje, cinzento, triste, fechado, nublado) “hoje é dia para uma revolução”. Não foi, nunca foi dia. Ou noite, e houve tantas madrugada dentro. O dia seguinte a uma revolução é dia de sermos adultos, de fazermos e assumirmos escolhas, de aguentarmos as consequências. Tudo o que, enquanto povo e nação, não estamos a fazer. Parecemos crianças a apontar dedos e a culpar o vizinho, o outro, o contexto, o tempo. Há pessoas assim, como há povos assim. Há pessoas que não sabem assumir revoluções, não sabem levantar a cabeça e esticar a espinha às consequências, até às mudanças que já aconteceram, já se instalaram, mesmo sem autorização. Preferem varrer para debaixo do tapete, fazer de conta que nada mudou, assobiar para o lado e rezar aos céus que tudo corra bem, e nada tenha mudado. Eu tive algumas pequenas revoluções para lidar, todos temos: decidir casar, ter filhos, decidir separar quando já não se está verdadeiramente junto. Depois há as que nos acontecem, que não são provocadas por nós, mas que temos de lidar, assumir, tratar e resolver, viver com elas.  As perdas, os cortes, as escolhas alheias, ou só a vida que se impõe sem que tenhamos uma palavra a dizer. Para a semana, se tudo correr como esperado, a minha vida estará diferente, e é uma pequena revolução, sim talvez, mas é minha, foi escolha minha. A partir daqui não sei, veremos, mas temos de assumir. As escolhas, as vontades, as nossas fraquezas, o que é maior do que nós, o que nos subjuga e nos obriga a reagir, ou não. Dependerá de cada um, suponho. Como é diferente para cada um o que não se sabe explicar, só sentir. E é assim porque sim. Um dia qualquer as minhas unhas vão voltar a ter cor, os dedos aneis, os brincos vão voltar a pendurar-se nas orelhas de haverá mais e outros colares. Ninguém notará nada, e eu não saberei explicar o que mudou, só saberei que é hora, porque sim. 

domingo, 19 de março de 2023

[foto @snake72]

Hoje é dia do pai. Há dias, a caminho de ir tratar de umas coisas passei por um sitio que tinha cá fora um quadro preto, onde a giz se lia "Dia do pai 19 de Março" e por baixo o desenho de um daqueles bigodes antigos e revirados. Era uma loja de vinhos. E o dia era de sol, pelo menos naquele momento, que os dias andam demasiado bipolares no que também ao tempo diz respeito, mas para mim, de repente o dia fechou-se e eu fechei-me nele. Eu que dizia que todos devíamos aprender a chorar, eu acho que não aprendi, e choro agora sem saber, e às vezes sem dar conta que vou chorar, e as lágrimas nasceram-me não sei de onde, daquele quadro preto se calhar, de todos os dias seguintes ao para sempre, que é também o nunca que nos afunda numa eternidade imposta. Muitas coisas me passaram pela cabeça enquanto tentava saber porque as lágrimas silenciosamente me caíam, sem saber pará-las, lembrei-me de como gostava de beber, quase orgulhoso (era a única que bebia com ele), uma garrafa de vinho comigo ao jantar, lembrei-me de uma coisa que lhe dei há muitos anos, e que era tão, mas tão, perfeitamente certo e feito quase à medida da maneira de pensar do meu pai, da maneira como via as coisas, os dias, as prendas, tudo... que o tinha pendurado no seu quarto, à vista de todos os dias e todos os acordares, e dizia o qualquer coisa como "o dia do pai não é especial, o meu pai é que é especial". E era isto, o meu pai nunca ligou muito a datas, menos ainda a prendas, entendia que as coisas que são diferentes, que são diferentes porque algo as torna diferentes, e essa transformação não vem de imposição de datas ou obrigações, eram assim e pronto. Era uma alquimia do coração. Se as fizéssemos assim, ou se algo as tornasse momentos que ficam, memoráveis. E era isso que aquilo dizia, e que ele gostava, mas sim, foi oferecido num dia do pai. Como terá sido num dia de aniversário que deu o fio que trago ao pescoço desde que o perdi. Foi das poucas coisas que me deu, e digo isto porque sei que este fio foi escolhe-lo, não foi a minha mãe que foi tratar da prenda como sempre fazia, daquela vez, por alguma razão macaca, foi ele que foi escolher e mo deu, e é a cara dele. Porque via beleza na simplicidade. É a única coisa do género que uso desde aquele dia. Acontece-me sempre isto, deixo de conseguir pôr brincos, aneis, colares. Deixa de me fazer sentido durante uns tempos, não sei quantos. Aconteceu com o meu tio, com o meu irmão, e agora. Dispo-me das pequenas coisas que servem para enfeitar, para compor, para dar graça, mesmo que discreta, mesmo que simples, que como o meu pai também prefiro quase sempre coisas simples. As que não se notam a olho nu, as que se vêem de outras formas, as que se sentem de alguma forma. A única prenda que o meu pai verdadeiramente recordava e falava com um sorriso largo, foi a que recebeu atrasada, no dia seguinte e que era a alegria dele desde então, a neta. O que ele gostava dessa coincidência, como que a reforçar o laço com aquele sapito que adorava dormir de fralda em cima da barriga dele. Poucas vezes o terei visto tão feliz como quando chegava a casa e estavam os dois naqueles preparos. Hoje é dia do pai, acabei de dizer à minha filha que devia ir jantar com o pai dela. Mas é só uma data, é só uma instituição, ter um pai que nos ensinou a essência das coisas em gestos silenciosos, e reconhecê-las e chorá-las, mesmo quando não nos ensinou a chorar, é outra coisa. 

domingo, 5 de março de 2023

Ler, ler ,ler. 
Música, música, música. 
Voltar ao yoga de manhã, que há meses deixei. 
Passear as bichas ao fim do dia, quer seja de sol ou de chuva. Ao fim de semana sem falhas e em modo prolongado.
Estar com as minhas pessoas, e não fazer fretes a perder tempo com quem não corresponde. 
Cuidar do meu irmão, zelar que a minha filha continua a crescer bem, por dentro e por fora. 
Comer paisagens com aquela respiração funda e lenta que chega à alma, apreciar a solidão como uma prece interior.
Escrever mais, escrever-me de dentro para fora, escrever como quem se lê mergulhada para dentro.
Coisas que deixei, que fui deixando, coisas que me foram levando num processo de anos, coisas minhas, que eu gostava, que me faziam bem, que me faziam pelo menos sentir bem. 
Nos últimos anos tenho lido cada vez menos, não tenho conseguido matar o mundo de fora vivendo o mundo por dentro dos livros. Deixei de ter esse escape, essa capacidade, a cabeça não deixava este mundo, esta realidade, e para me evitar deixei de abrir livros e passei a papar séries, das que não deixam neurónios disponíveis enquanto os olhos estiverem entretidos com aquilo. Li poucos livros no ultimo ano, uma miséria. Para minha vergonha ainda tenho aqui que deixar esse balanço. Que será mais difícil de fazer porque também deixei de comentar aqui as frases que me apanhavam no que lia e permitiam fazer essa cronologia facilmente... que é talvez um sintoma, ou uma consequência, ou as duas coisas em pescadinha-de-rabo-na-boca. Já menos coisas me prendem, me surpreendem, me arrebatam. Estou a tentar voltar a ter sonhos, mas não é tão fácil sonhar como se pensa. Quando os pés são pesados, o corpo parece acumular tempo medido em desilusões, em dores em mágoas, há um olhar que se perde, há vontades que morrem à sede, há um brilho que morre. E é esse brilho que alimenta os sonhos, a capacidade de acreditar a vontade de ir atrás. E o acreditar que conseguimos, acreditar em nós. Talvez esta seja a parte mais difícil, acreditar em mim quando olho as mãos e estão vazias, de tudo o que mexeram e fizeram até hoje, estão vazias. Com se nada tivesse feito, como se tudo se esvaísse por entre os dedos.
É dificil, tem sido duríssimo, olho para trás e não me lembro de tréguas. Vou-me lembrando, sim, de sorrisos por entre as batalhas, durante as guerras, sempre e em qualquer situação, como as risadas que ainda hoje me saem, quando por dentro guardo lágrimas a mais, mas risos ainda deixo que me invadam e não os afasto por medo que me possam confundir por bem. Não, essas contas são minhas e só eu as faço. 
Quero voltar a ler, quero voltar a precisar de música como se o corpo pedisse. Voltei ontem ao yoga e espero conseguir manter, porque me faz bem e me faz sentir bem, pelo menos faz-me sentir menos empenada e perra... e velha vá. E quero-me rodeada das pessoas lindas que consegui ir fazendo minhas, e que são extraordinárias sim, não sei como me aturam, mas isso também é melhor nem querer saber. Há coisas que não se explicam. O amor não se explica, e a amizade é amor sem desejo, sem tesão, de resto tem poucas diferenças. E agora vou passear a bicha que ontem não foi ao passeio. Estou sozinha, tenho de revezar-me :) 
Vou tentar, vou tentar recuperar-me o que houver para recuperar, vou começar pelo que sempre me fez sorrir por dentro, depois veremos. A minha vida vai mudar. Já mudou em tanta coisa que não escolhi, agora vou mudá-la eu e não lhe vou pedir licença, não hei-de morrer, e se for esse o caso ao menos foi a tentar encontrar quem já fui, quem quero ser, quem espero ainda ser. Mesmo que diferente.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

 Não nos ensinam a chorar, e talvez devessem. Alguém, algures na nossa infância, devia ensinar-nos. Talvez assim crescêssemos e houvesse menos afogamentos em seco, menos asfixia pelo lado de dentro do silêncio. Talvez nos conseguíssemos livrar de algum peso, ou alguma mágoa, ou aquelas coisas que doem caladas, tanto, que nos habituamos a isso, como uma respiração interna que nos acompanha a outra e já nem distinguimos. Nunca fui muito de chorar. Choro de choque, ou pela impotência prolongada, suponho. De dor física, também, as outras eu acomodo, assobio para o lado enquanto as arrumo, ou tento. Fecho janelas com vista para essa realidade, mergulho num casulo de dormências e finjo que vivo onde os outros me vêem. Nunca usei o choro como adereço de cena, ou alavanca de negociação, nunca. A última vez que chorei foi um eco de outro choro que não consegui amparar, ou evitar, ainda não consigo, e se calhar é por isso que choro. A impotência perante a dor de quem amamos é uma dor que ressoa em vagas próprias e demolidoras. Não devíamos ver os nossos pais chorar, é como arrasar todas as defesas que ainda sentimos que nos protegem. A última vez que chorei foi assim, a última vez acordada, porque acordo muitas vezes de sonhos a chorar. Acordo a soluçar, como se acordada esse modo me estivesse vedado, inacessível. Acordo e paro de chorar. Como se o mundo não o permitisse. Hoje se fosse dessa tribo amiga das lágrimas acho que tinha chorado, tinha-me desabado um pouco para se segurar inteira de alguma parte. Mas não. E agora aqui, sentada a ver chover lá fora, com a cabeça a estalar como refracção do dia, gostava de poder chorar o que me angustia, o que me chateia, aliviar o que dói e não sei anestesiar, só entreter para dissipar com o começo de um qualquer novo dia, que de novo não concebe nada. 
Haverá curas de choro?... se calhar preciso duma dessas, chorar uma semana inteira, por tudo o que me quis convencer que não valeria as lágrimas que se vertessem, mas que guardadas dão de beber a tristezas que nunca morrem à sede. E outra semana por tudo o que me convenço que aguento em pé, enxuta de fraquezas de que me faço forte. Quando os que são fortes não se fazem de nada, apenas são. 

domingo, 11 de setembro de 2022

[foto de Marc Riboud, Japão, 1958]

 Agora que não tenho nada que dizer, que me dizem vazia e que transparece, que não estou eu, que não sou eu... agora que não tenho nada que me apeteça dizer, sonhei que conversava com a minha mãe. E que alegria parva aquilo estava a ser, conseguir ter uma conversa com a minha mãe, como tive tantas ao longo de toda a vida. Falávamos tanto, conversávamos, desconversávamos e ríamos muito também. Chegava a casa e ecoava aquele Mãããã??... e ia ter com ela a seguir às aulas contar as pequenas grandes histórias, fazê-las grandes, fazê-las grandes porque eram minhas e me tocavam, me doíam, ou me alegravam. Quantas vezes à noite à beira da cama dela quando chegava à casa, ou enquanto ela fazia o jantar, e eu ficava ali, mais a falar que a ajudar. Lembra-me tanto a minha filha e eu agora. Ela conta-me as coisas dela, os amores e desamores, as amigas e as suas histórias, os conselhos ajuizados que dá e os que ouve. Tanta coisa parecida me leva a tempos que já não trago. A minha mãe não conversa, não consegue, está ali mas não está, ou é como quem chega a cada minuto e o último já se apagou. Revolta-me isto, há qualquer coisa que nisto me revolve as entranhas e as memórias e o futuro que me vai chegar,  e não sei lidar. Ultimamente parece que não sei lidar com nada da vida, então fecho-me e resmungo sozinha as minhas neuras, fecho as luzes, fico em casa e vejo o mundo pela janela ou pendurada no parapeito da minha varanda, como quem olha o abismo em segurança, mas não lhe sabe medir o pulso. E agora que não tenho nada para dizer, que não me apetece dizer nada, converso em sonhos com a minha mãe. Falo e rio-me e ela responde, e fala e ri-se com a presença inteira, com a alma por quebrar, com o tempo ainda todo por passar e trespassá-la. Que saudades de conversar com a minha mãe. E hoje, que não tenho nada para dizer, talvez conseguíssemos conversar no tempo dela, sempre perdido no meio dum começo sem fim. Não tenho nada para dizer, estou vazia até de palavras, já não escrevo como quem transborda, já não sinto como dantes; e hoje só me apetecia conseguir conversar com a minha mãe. Sentir a minha mãe. A minha mãe como era, antes de nela se esvaziar o tempo e todas as conversas. Talvez hoje eu precisasse de ser filha, mas até esse lugar está vazio de mim.

domingo, 14 de agosto de 2022



 Ontem as meninas foram às vacinas. Para fim‑de‑semana até me levantei cedo… entrei de férias às nove e dezanove de sexta-feira - mandei duas mensagens a dizer que tinha entrado de férias (Iupiii!!) naquele minuto por isso sei o momento ao minuto - vim para casa e saí ontem para levar as meninas às vacinas. Pensei voltar para casa, comer alguma coisa a fazer de almoço e ir a uma esplanada beber um café. Não fui. Não saí mais de casa. Fiz umas poucas coisas por casa, sentei-me no sofá a queimar neurónios com tretas e a comer tempo sem encher a barriga. Tenho andado assim. Há agora coisas em mim que não entendo, costumo conseguir chegar à raiz das coisas, e com isso deslindar-me. Mesmo que com isso perceba que tanto do que fiz foi estupidez, mas foi sempre estupidez pura. Nunca houve deste lado manipulação, estratégia ou mentiras. Agora deparo-me com reacções que não consigo perceber em mim. Até isto de não sair de casa, de não querer nada, de me deixar ao sabor do tempo que não voltará. Tive um café marcado ontem à noite, bem acompanhado por um jazz numa noite de verão. Meia hora antes disse que não ia, já não ia sair de casa. Não me apetecia, não me apetece. Sempre soube que tinha de contrariar certas inércias, muitas faltas de vontade, e de uma forma ou de outra, sempre fui conseguindo. Havia sempre isso, ao fim‑de‑semana um café numa esplanada com um livro por companhia, ou a observar a paisagem humana. Obrigava-me a sair, a arranjar-me, a apanhar ar e a ler mais. Outro hábito que me devolve, que me traz a mim, que me faz sorrir ou gargalhar sozinha. Agora não sei para onde foi isso tudo. Será que já não estou nesses rituais tão meus? Onde será que eu fui parar? Alguém me repesque e me devolva se faz favor!... Parece que pairo no tempo parado e nada me move, nada capta a atenção ou a vontade. E acima de tudo o que noto, e talvez seja essa a raiz por confirmar, não tenho qualquer noção de futuro presente. Nada. Uma completa ausência da ideia de futuro. Não é só não fazer planos, é não me recuperar não sei do quê para ter como os fazer. Dantes tinha formas de me contrariar a disposição e a inércia, e depois no futuro isto ou aquilo. Agora não há isto ou aquilo. Há agora, e agora não me apetece pevide… cumpro as obrigações, não me sinto mal, não estou triste nem contente, e custa-me a justificar-me que tenha de mudar isto… Porque é estranho, é muito estranho, efectivamente não estou triste nem contente, não me sinto nada mal, acho que nem sinto sequer!!... talvez seja apenas uma fase de transição de quem aceitou que não querer nada, não querer lutar por nada, não esperar nada, é a melhor forma de viver. Ou a mais cómoda, ou a mais segura e recomendável para a saúde duma criatura. E é isto tudo que não entendo em mim. Nunca fui assim. Sempre tive ganas debaixo das unhas para esgravatar, para lutar contra, para querer mudar o que acho que não está bem... Agora fico bem se me deixarem no meu canto, com os cães aos pés e tempo para a cabeça não pensar em nada… 

Realmente há qualquer coisa de terapêutico para mim no escrever… não era nada disto que tinha pensado dizer quando pus a foto das meninas a chegar das vacina (e sim eu sei que o carro está sujo mas está como está, por isso a foto é o que é, mas não atrapalhou o olhar delas…que é a piada toda da coisa). É que a minha pequenitates vem hoje e as saudades são muitas e as novidades e cusquices serão quase tantas, e amanhã vamos para o nosso Alentejo e era de lá que eu não devia sair. Coser o meu olhar àquele horizonte, o meu coração àquele silêncio tranquilo, e a alma, a alma àquele céu imenso meu deus…  E que hoje, hoje vou pegar num livro e nuns óculos de sol e juro que vou lá fora. Juro. Pelo menos até a varanda está confirmadissimo!!  :)))

quinta-feira, 16 de junho de 2022

[foto @moniblanco]

Hoje é noite de dormir com as janelas abertas, é dia de beber esta escuridão com as estrelas a tilintar nos olhos fechados, como pedras de gelo num copo de fim de tarde a derreter o calor sem cerimónias enquanto nos despedimos do sol, e sem saber, de toda a vida até aquele momento. Da praça sobe um murmúrio de vozes que me chega como uma especiaria de silêncio, apimenta a imaginação por outras vidas, tantas conversas, risos espontâneos e vivos, que não se contam, e onde nada se desconta. Como se a vida fosse inteira, sem gomos nem dias, só agora. Só agoras. A brisa de seda que me escorre pela pele lembra o despertar do verão e o calor que as noites devem ter, onde as almas se abrem de par em par, como as janelas fechadas da minha varanda. Às vezes o verão tem de entrar devagarinho e tomar conta da casa, ainda com os agasalhos espalhados pelo chão. Ainda com o pó de Outonos pelos cantos. Gosto quando o verão entra pelo lado da noite. Hoje é noite de abrir as janelas, mas a escuridão não dorme. Talvez eu também não, só a vida parece ter adormecido por meros instantes.

sábado, 26 de março de 2022

 


[Alejandra Pizarnik, Antologia Poética]
Descobri a cadeira que vou comprar para a minha varanda... é espectacular!! Adoro!.. o balançar, o conforto, tudo. Sentei-me ali depois do ioga, hoje no deck aqui mesmo em frente, do outro lado do vidro, ao som dos passarinhos. Um concerto in locco, sem ser gravado para o efeito de acompanhamento zen :) Estava um bocadinho fresquinho lá fora, mas fui deixando de o sentir. O que senti mesmo é que estou muito empenada e tenho de deixar de ser preguiçosa, senão qualquer dia mal me mexo. Depois sentei-me cá dentro, ali naquele balançar que embala, e deixei-me ficar, a olhar a paisagem, a ouvir o espotifas, e acabei por ir buscar a Alejandra para companhia. Gosto muito de alguns dos poemas dela. Se eu escrevesse assim, não precisava de falar mais. Há frases dela que guardo sem esforço de memória "partiu de mim um barco levando-me" "tão longe pedir, tão perto saber que não há". E há coisas que sei que não há, duvido que alguma vez haja, ou até que tenha havido. Estou descrente, ou só lúcida - ainda mais lúcida. Viajo já com o copo vazio, provavelmente... Já não sei onde a descobri, a Alejandra, mas sei que foi por acaso, na net. Deparei-me com coisas assim, destas, que me leram por dentro de alto a baixo, e fui atrás de mais. Tristeza só ter encontrado em português esta pequena antologia dela. Curioso pensar que muitos dos poetas que mais me arrebataram suicidaram-se, viveram todos para além das fronteiras que o ser aguenta, e nem as palavras lhes serviram de válvula de escape... mas serve-me a mim muitas vezes a intensidade deles tão impressa por dentro dos sentidos das palavras, serve-me para sair de mim e encontrar-me. E aqui me vou lendo nos poemas que ela escreveu. Acho que a poesia serve para isso: para nos lermos. Talvez por isso ao longo da vida vamos lendo as mesmas coisas de forma diferente. Porque nós somos sempre os mesmos, mas o olhar, o nosso olhar sobre o mundo, vai mudando. As formas talvez sejam as mesmas, os contornos tornam-se menos definidos, mas as cores... ahhh as cores, as cores nós fabricamos por dentro, só nossas, e sim essas vão variando, tenho a certeza. Quem poderá dizer que o branco dos nossos quinze anos é o mesmo de agora? O nosso olhar, como a nossa compreensão e incompreensão das coisas, vai aprendendo, vai-se moldando, vai-se construindo e desconstruindo em cima dos pilares da nossa essência. A maneira como vemos as coisas vai mudando. Oxalá assim seja com muita coisa. Que tudo passe a ser sombra da sombra que pensávamos não ser. E cuidado, muito cuidado, com quem percebe que nada é o que é agora, que só a sede não tem dias, e que há coisas que não há... e pedir está sempre fora do alcance. Por orgulho, ou melhor, muito melhor, por lucidez.

domingo, 9 de janeiro de 2022


 - Por que é que o fazes?

Foi a pergunta que há dias me surgiu, enquanto  encerrava o dia e deixava os monólogos invadirem o tempo de um cigarro - como agora com a chuva pequenina a molhar os vidros, e o cigarro a queimar-se em fumo. Tal como a pergunta, também a resposta não tardou. Já a sei há muito, e não mudou. A razão não mudou, nada mudou nas coisas que não entendia. Talvez só agora a veja, nítida e plena, como uma resposta real duma conversa verdadeira que nunca existiu. Para me perguntar. Para pensar na pergunta, na resposta, no como, no para quê, na razão... para pensar, só. E enquanto se pensa, o tempo entretém os monólogos, suspende momentos, invade as noites, entorpece-se e paira. Tropeça-se. E não terá outro propósito, mas tem um fim: a resposta.

Tem esse fim, mas não termina nada senão o raciocínio.

sábado, 1 de janeiro de 2022


Não te rendas, ainda estás a tempo
De alcançar e começar de novo,
Aceitar as tuas sombras,
Enterrar os teus medos,
Libertar o lastro,
Retomar o voo.

Não te rendas que a vida é isso,
Continuar a viagem
Perseguir os teus sonhos,
Destravar o tempo,
Remover os escombros,
e destapar o céu.

[...]

Não te rendas, por favor não cedas,
Mesmo que o frio queime,
Mesmo que o medo morda,
Mesmo que o sol se ponha e se cale o vento,
Ainda há fogo na tua alma,
Ainda há vida nos teus sonhos
Porque cada dia é um começo novo,
Porque esta é a hora e o melhor momento.
Porque não estás só, porque eu te amo.

Mario Benedetti, traduzido por Inês Pedrosa

É um dos autores que gosto muito, passei por este poema e achei-o perfeito para ontem, ou para hoje, porque não? Costumo sempre escrever no último dia do ano, e deixar aqui meia dúzia de pensamentos, ou desejos, ou sentires, ontem não me apeteceu. Não, não foi bem não me apetecer, foi ir adiando porque havia isto e aquilo,  e sempre o isto e aquilo me pareceram mais importantes, ou me apeteceram mais (sim, talvez) do que vir aqui escrever. E  a questão é que  fiquei a pensar nisso. Por várias razões. Uma é que reconheci a sensação que tantas vezes me relataram "ahh não deu, pensei nisso, lembrei-me,  mas adiei, e fui adiando, adiando, até que depois não fiz, não deu, desculpe"... não qualquer coisa, basicamente. E eu reconheci o estado de espirito, a desculpa, o até querer, até pensar, mas não ser prioritário. Reconheci como um sussurro do fundo da alma que não sabe se se quer fazer ouvir, ou não; mas ouvi-o e aqui o reconheço e lhe dou voz. Para quê calá-lo se o ouvi?...  A outra razão, é porque parece-me que não há mais como negar que algo mudou em mim, não sei o quê, nem como, nem para o quê, mas mudou. Continuo a gostar de escrever e a fazê-lo, mas menos, preciso-o menos. Penso nisso enquanto vejo o último por-do-sol do ano na minha varanda e olho para memórias no telemóvel. E vêm-me à boca palavras, não sei de onde, que me dizem que dantes o que escrevia eram pontes entre mim e alguém, agora o que escrevo é só uma janela de mim, ou para mim. Uma varanda onde precisa, de tempos a tempos, de dar o sol, de respirar a brisa, de sentir a poesia das coisas, de ser.  

Dantes era supersticiosa com a passagem de ano (penso que já aqui o disse, que é das poucas coisas com que o era) agora não, mais uma vez me dei conta que não pedi desejo algum, que não me lembrei disso, que não precisei, não quis, ou talvez já não acredite em desejos, ou em pedi-los, sei lá. Mas uma coisa vos digo, não sou optimista - nunca fui - e não é das características com que mais simpatize, mas algum optimista inteligente teve esta ideia sublime de dividir o tempo em fatias iguais para parecer que hoje é novo, que hoje se estreia um tempo novo, um ano novo cheio de possibilidades e oportunidades e boas intenções. De esperança. A questão é que dividir o tempo não é alterá-lo, não é fazer hoje melhor que ontem, nem amanhã uma folha em branco e agora uma folha onde não podes escrever. Não, o tempo é igual, é o mesmo e sempre diferente, conforme o que fazemos dele - o que fazemos com ele. A fatia pode ser do mesmo bolo (não vale a pena pensar que a próxima fatia é de um bolo diferente), mas nada nos impede de uma vez lhe acrescentar chantilly, na outra uma bola de gelado de amendoim (adoro!!), outra vez qualquer a fruta preferida em pedaços, noutra uma compota que nos derrete, depois talvez iogurte, finalmente queremos variar e comemos a fatia simples... é assim com tudo na vida, nós é que fazemos a diferença :) 

Também dou por mim a pensar que hoje em dia dizemos sempre que não temos tempo, que o tempo é precioso, mas que voa e não nos damos conta, nem o aproveitamos - que não há tempo. Basicamente, que não há tempo para o que queremos. Eu que o diga, porque também o sinto... mas pensando bem, na verdade, tempo é a única coisa que temos, desde que nascemos. Nascemos, e a única coisa que temos é tempo, e isso continua o resto da vida, sendo que o tempo que ainda temos é cada vez menor. E sabemo-lo cada vez melhor.
Tempo é a única coisa que temos, o que somos é o que fazemos com ele e com quem escolhemos partilhá-lo. Somos as escolhas que fazemos no tempo que nos deram desde que começámos a respirar. É a única coisa que nos é dada com a vida, ou é a vida em si mesma, e ainda assim alguns têm de lutar para que possam ter um pouco mais de tempo, para esticar o seu tempo, para viver um pouco mais, esgravatar a vida para ganhar mais tempo de vida. Sim, também há isso, e é duro. Tão duro.

Lembrem-se: a única coisa que temos, é tempo. 
O que somos é o que fazemos dele, e com quem escolhemos fazê-lo.
Em Janeiro, ou em Dezembro. 
Hoje, ou amanhã, ontem é arquivo.
Não te rendas, ainda estás a tempo.

sexta-feira, 5 de novembro de 2021

 É assim tão difícil amar? O que será preciso? Ter filhos, irmãos, pais, ser? Um coração maior onde caiba mais, onde caiba tudo? Ou um mais pequeno onde só caiba o que é tudo? Amar é ter um horizonte além do próprio umbigo? Ou encontrar o nosso umbigo em cada horizonte? É ver realmente o outro, ou olhá-lo e vermo-nos, voltarmos a nós? É conhecer o outro, ou reconhecermo-nos? É gostarmos do outro em nós, ou de nós no outro? É sentir felicidade por fazermos alguém feliz, ou por nos estar agradecido? E para amar, será bastante apenas existir, respirar? Ter nascido? Será que todos somos capazes de amar? Ou é preciso ter sido acarinhado protegido e amado? Ou temos de acreditar, acreditar na humanidade, no bem, no outro? Será que é coisa que morre com quem sabe amar? ou morre antes de morrermos? Será que se perde, que nos roubam, que nos podem matar essa capacidade, quando nos amputam dos sonhos em troca desilusões? O que é um sonho, senão o acreditar na possibilidade de algo que nos faria feliz? Amar é acreditar? Mas acreditar não é já assumir que não há razão, ou saberíamos ao invés de acreditar? Então Amar é ter fé? Em quê? Em quem? 


E não, não perguntem porque só me pergunto, não sabem que toda a resposta é apenas uma pergunta adormecida?

sábado, 16 de outubro de 2021

 Acordo e penso que passou. Levanto-me enfio-me na cama da miúda, abraço-a sinto-lhe o cheiro dos cabelos. Discretamente, quase para não se dar conta, a cadela sorrateira sobe para os pés da cama. Não passou. Não sei sequer o quê, mas sei que não passou quando sinto lágrimas silenciosas que não autorizei caírem de terreno seco e árido, aos olhos secos de tanta gente. Há em mim vários lutos mudos e calmas revoluções que não controlo, e nem sei se conheço. Não passou, só me falta descobrir o quê.

quinta-feira, 7 de outubro de 2021

Pequeno-almoço. Cães à volta, sossegados. 
Planos para passeio, tempo de Outono: de dia, verão, já a noite quer-se agasalhada. 
E isto. 
"Bem que se quis 
depois de tudo 
ainda ser feliz".

... como não? como poderia ser de outra maneira? mesmo sem caminhos para voltar (ou principalmente), tanto faz, o desejo de alguém ser  nosso maior prazer é o mundo inteiro num instante teimoso, que se espera que nos volte a surpreender nalgum virar de esquina da vida e nos dê a volta de volta à vida.
Entretanto, toma-se o pequeno almoço devagar, tira-se um café, voltamos a ouvir a música, e pensa-se o que raio fez a vida da nossa vida - que pessoas nos passaram pela vida e como, o que nos deixaram, e o que nos levaram  - e o que nos pode fazer ainda, mas o destino  de alguns é querer sempre mais, melhor, tudo o que valha a pena, como o nosso desejo ser o melhor prazer de alguém, numa manhã de férias, ou qualquer uma. E eu serei um desses alguns, suponho.

[sempre adorei esta música, esta letra, e há alturas em que faz ainda mais sentido, ou eu quero que faça, se calhar]