Hoje sonhei que estava a ficar com o cabelo branco. Estava ao espelho e constatava que aquela meia dúzia que me acompanha há uns anos se tinha multiplicado, que começava realmente a notar-se, isso de estar a ficar com o cabelo branco. E olhava e olhava e não sabia bem o que pensar ou sentir, mas na verdade quando acordei o que achei curioso foi que não punha a questão de o pintar. No sonho, isto é. E depois, acordada. Devo ter pintado o cabelo, até hoje, umas três vezes e sempre por curiosidade de como ficaria, e sempre temporário, com produtos que vão saindo com a lavagem. E fiquei a pensar, será que daqui a, sei lá, um ano vou ter de começar a pintar o cabelo? Então e se não pintar? Tenho pouco e fino e se ele desiste de mim com essa ofensa? Humm...? E depois? E agora, enquanto o almoço faz plantei-me à frente do espelho, e a verdade é que já tenho uns quantos, e vários compridos, do tamanho dos outros, dos que não são ovelhas brancas... acho que ainda não se nota, mas eu já noto qualquer coisa... uma relutância em negar o tempo, mas o tempo o dirá. Negar o óbvio torna-se muitas vezes apenas ridículo, outras revela-se uma necessidade. Às vezes acumulam-se as duas... Por enquanto acho que olho para o facto - e ele para mim - com um olho aberto e outro fechado, entre o espanto e a naturalidade, a incredulidade e a aceitação.
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021
COMÉDIA
Vazio. Queixa-se
de vazio.
E nisto esvazia o outro
tão cheio
disto tudo.
Daniel Jonas
domingo, 7 de fevereiro de 2021
Domingo. A amálgama de ternura que a paixão deixa nos corpos, esparramados e estarrecidos. Embrulhados e envolvidos em silêncios como hinos ao amor, diálogos inconfessáveis e inexplicáveis, orações de pele a um deus só nosso.
Há dias - ou momentos até, que são como dias inteiros -, que não se explicam, onde cabe o tempo de gostar e desejar, pleno, inesgotável, que correm a vida toda, imóveis, completos. Como se amanhã fosse outra vez domingo, por momentos, e sem ninguém saber. Ou daqui a pouco, entre ir deitar o lixo e ir buscar lenha. Ou entre uma linha que se lê e outra que nos perdeu.
sábado, 6 de fevereiro de 2021

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021
[foto @wieselblitz]
Aiiiiii que sono...
Esta coisa de estar metade em layoff mas trabalhar o mesmo não é bonito, é só parvo. Acordo com a sensação que não, nunca aprendo. Bem ou mal, as pessoas mudam muito pouco. E o meu sono não muda nada.... porque é que só gosto mesmo de dormir de manhã? ... que raio! Ontem à noite podia ter ido para a cama cedo, não era?...mas não, não apetece. Apetece é ir agora...
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021
... porque temos de ter qualquer coisa que anime, e dizem que uma imagem vale mais que 1000 palavras (mas eu acho que é mentira, é o gesto que vale isso tudo e mais)
... porque há coisas em que vale a pena arregalar as vistas, e fechar os olhos.
... porque adoro mãos, mas gosto de pescoços assim, e dum peito para descansar dos dias e percorrer com a ponta dos dedos todas as noites.
... porque o moço tem partes fotogénicas, e nota-se.
... e porque ficaram-me os olhos aqui e a alma bateu asas, perdida em imagens e em sítios que vejo daqui.
terça-feira, 2 de fevereiro de 2021
domingo, 31 de janeiro de 2021
E então? Era isso?
Normalmente, quando desejo a alguém que seja feliz, quando acho que realmente o merecem, não lhes desejo o que querem ou pedem, mas o que precisam. Outras vezes há, em que desejo que as pessoas tenham exactamente aquilo que escolheram... que é como quem diz que tenham o que mereçam, seja lá isso o que for, como quem lava disso as suas mãos, até no que se lhes deseja diz respeito. Mas é raro fazê-lo, normalmente nestes casos não digo nada, penso e calo. Mas já aconteceu dizê-lo.
Já eu, não tenho esse problema, raramente tenho o que quero, o que desejo, logo é difícil saber se o que quero me faria mais feliz, ou não. Ainda assim, tudo são escolhas, mesmo que escolhas limitadas ao que está ao alcance das nossas opções, as alternativas que podemos escolher. Nem tudo está nas nossas mãos, às vezes nem o que desejamos.
sábado, 30 de janeiro de 2021
"Sou jovem e tenho a vida toda pela frente. Eu sei disso.
Não vou dar graxa à felicidade.
Se aparecer, óptimo. Se não, quero lá saber.
Nós os dois não somos compatíveis."
a música fecha o filme, mas não o encerra. parte-lhe a casca, escancara-o. estamos sempre aqui para as pessoas que gostamos, é talvez isso gostar delas - talvez só isso, e sempre - mesmo quando aqui não é um sítio, mesmo quando não estamos... como aquele silêncio debaixo de todos os sons, de tudo. daquela felicidade a que se dá graxa.]
quinta-feira, 28 de janeiro de 2021
Fumo um cigarro à varanda e do outro lado da rua, um moço, dum lado para o outro, fala ao telefone, muito interessado e compenetrado. Não triste, não alegre, só com muito assunto, que isto já dura há um bocado... só me ocorre que o assunto seja de coração, que haverá do outro lado, alguém que pelo telefone, lhe agarra o coração. Já ele não aparenta o descanso ou a felicidade de saber que toca o coração de quem lhe fala, mas não posso deixar de pensar que disso tem vontade. Ainda assim, a conversa deve ser quente porque o moço, com este frio, tem só uma t-shirt em cima do pelo... ou tem o termóstato avariado ou é moço de muita quentura...
terça-feira, 26 de janeiro de 2021
segunda-feira, 25 de janeiro de 2021
Ahahahah
...as coisas de que se lembram, valhamedeus...
Quando recebo isto desato a rir - ainda que este confinamento seja muito diferente do primeiro em muita coisa, e principalmente no estado em que isto está - parece que ando sempre enganada, sempre ao contrário, afinal estes tempos são difíceis para muitos casais, gente que não está realmente com quem gosta, e nota-se mais quando se fecham do mundo. Faz sentido. Há menos distracções, dá menos para esquecer que realmente o que querem não é estar ali com aquela pessoa. Mas acredito que também haja muitos, que tendo normalmente pouco tempo para estar juntos, agora aproveitem bem... devo ser uma romântica, né?
(e temos de nos rir, vá...)
domingo, 24 de janeiro de 2021
[foto @victoria_klimenkova]
Os dias perfeitos para gostar de estar em casa. Ontem foi dia de séries, hoje de acabar o livro que nos últimos fins de semana andou esquecido. Falta outro para acabar o quarteto. Acender a lareira, uma chávena de chá por perto, o livro nas mãos e a janela ao meu lado, eis o projecto para hoje. E o termómetro. Não, não vou votar, mas acho bem que todos que podem o façam. Eu não posso. E este ano iria, houve eleições em que não fui, recusei-me, por não me identificar com nenhuma possibilidade de voto, por achar que algumas decisões desrespeitaram o voto, por o voto em branco não ter outra consequência prevista que não análise estatística, por muitas razões. Hoje não vou porque não posso, e assim como quem pode deverá ir votar, quem não pode não deverá ir. Logo este ano, que quer exercer o seu direito, não pode ser a qualquer custo. Sejamos conscientes, sim? Já que quem nos governa não parece que sofra gravemente desse mal... com a quantidade de gente infectada, ou com a probabilidade de estar, outras - muitas - remetidas a isolamento, não terem atempadamente recalendarizado, parece-me pouco consciente. Ou acharam que aumentava a abstenção e isso não era mau (para quem decidiu, pois). Esqueceram-se que na hipótese de haver maior mobilização, o risco de contágio subiria e era previsível que nesta altura não devesse ser um risco a assumir... digo eu que estou febril e não percebo nada de nada... o que me faz, talvez, sã...
quarta-feira, 20 de janeiro de 2021
Já não me lembrava desta sensação. Levar a miuda e voltar a casa. Fiquei até à última na cama, estava-se tão bem... já não tive tempo de tomar pequeno almoço, que é o que estou a fazer agora na mesa da cozinha. Olhando para trás - e não sei por que me deu para isso - percebo que sempre tomei por tarefa minha levar a miúda. O pai levava-a uma vez por semana, agora duas porque não estou cá duas noites, mas até aqui sempre fui eu a levar a miúda. Não foram os avós, nem o pai, que a caminho podia passar e levá-la. Não, sempre fui eu para mal dos pecados dela, porque ando sempre atrasada... o meu pai levantava-se cedo e ofereceu-se para levá-la de manhã e assim eu podia dormir mais um tico, mas nunca o aceitei. Sempre achei que era coisa de mãe (ou pai, dos pais se o puderem fazer, claro) levar os miúdos à escola. Depois com esta coisa do io-io, começou a ir, nos dias que saio muito cedo, a pé... porque “Oh mãe já tenho idade! Achasempre que sou um bebé”... e é, mas grande com’ócaraças... e lá tem ido, quando não eu não posso. Hoje em dia, nestes tempos esquisitos, já a posso levar, e acho que foi isso que me trouxe isto tudo... apesar de gostar de dormir de manhã com’ócaraças gosto que seja a mãe a levá-la... e aparentemente essa sou eu! E ultimamente tenho sido menos... porque tenho podido menos e porque ela precisa menos...
segunda-feira, 18 de janeiro de 2021
Acabar o último cigarro do dia e do maço, sentada no degrau da minha varanda, a sentir o frio na ponta do nariz e do lado de fora da manta. E estava a apetecer-me o ar frio da noite, em que se sente mais, se gosta mais do calor da manta que nos abriga, nos protege. Não vejo a lua, não lhe sinto o olhar poisado nas sombras, que se transformam em prata, em que deixam de ser sombra e ainda assim não deixam de ser penumbra. Há muitas coisas assim, suponho. Amanhã começa outra semana, ainda que diferente das outras, o dia não começará tão cedo e não acabará com uma caminhada fria junto ao rio. Acabará aqui provavelmente, onde estou, a pensar no amanhã que não me apetece particularmente... apetecia-me estar confinada, debaixo do vasto céu alentejano, sem ter de pensar em trabalho e em tudo que nos espera depois destes tempos. Não é pessimismo é só fruto daquele defeito que não raras vezez me apontam da fria lucidez. E para isso falta-me uma manta.
domingo, 17 de janeiro de 2021
Então mas não sabiam ter-me mandado isto ontem???... esta informação de primeira água? Ainda indagava qual faria melhor corte, recolhia referências e fazia marcação, ali entre um Yorkshire e um schnauzer... Ontem ainda ia a tempo, hoje já não!!... timing é tudo na vida, assim se vê!!!
(a tempo só mesmo a gargalhada :D que me acordou logo pela manhã ... quer dizer há bocado, pronto, para rir o timing é sempre certo)
sábado, 16 de janeiro de 2021
A minha primeira baixa deste confinamento: o corte de cabelo. Deixou de existir. Está mais curto, é certo, as pontas que me andavam a chatear de estarem a ficar secas e estragadas, também estarão reduzidas. O que não sobreviveu foi o corte de cabelo. Agora é só uma coisa assim... esquisita, é um escadeado ligeiramente esquizofrênico, mas pronto. Foi o melhor que consegui (também não me esforcei muito foi meio por instinto em frente ao espelho de cabelo seco) depois de tentar desde há duas semanas cortar o cabelo ao fim de semana, e nunca ter vaga, vai de cortar eu. Isto de andar entre cá e lá e nos dias que chego cá chegar sempre depois das oito, e nos que fico por cá só querer aproveitar o pouco tempo que tenho para mim ao fim do dia, a minha hora de paixão, dá nisto. Não dar tempo para cortar cabelo entre confinamentos. Vai daí cortei eu, prontosssss.
Cuidem-se e não cortem o cabelo em casa se lhe tiverem algum amor ;))) ....
No fim, fechamos todas as luzes e reunimos o braseiro que ficou, restos de fogo que aqueceu o olhar e a pele - a casa que somos e a que habitamos. Há uma intimidade repleta de ternura nos restos do fogo, no calor que ainda dão, na luz quente e deliciosa que emanam. Combinam com o fim do dia, com o silêncio da penumbra, com a suspensão do mundo, com o desligar de qualquer movimento. Com a companhia do último cigarro nos dedos. E ajeitam-se as brasas de novo, para manter o calor, para libertar a luz delicada que ainda guardam. E o calor sobrevive, e às vezes incendeia-se de novo. Como agora.
quarta-feira, 13 de janeiro de 2021
segunda-feira, 11 de janeiro de 2021
Caminhada ao frio, que quem passa por mim não parece sentir, em corrida ou em passo de canídeo com fome de distâncias. As luzes a entrarem pela água até aos pés, até onde os meus olhos caminham sem sair do lugar. Outra maneira de fazer a ponte entre o dia que acaba e a minha noite começa, já instalada no céu há muito. O mesmo ritual, outros cenários. Quase um vício de alma que o frio aquece.
domingo, 10 de janeiro de 2021
sexta-feira, 8 de janeiro de 2021
A minha mesa junto ao vidro, o meu chorão do outro lado da rua com os primeiros raios de luz a dourarem as folhas, os meus croissants, este meu tempo só meu, de coisas minhas como as palavras que meço comigo. O autocarro na paragem à hora certa em que eu penso na vida - esta hora nestes dias. Este tempo tão cheio de coisas minhas, tão minhas e que são de toda a gente. Toda a gente as vê? Ou cada um vê à sua maneira e às vezes isso é não ver nada? Como tantas outras vezes, noutros lados, noutras horas, eu não vejo nada, pior, às vezes não me vejo na correnteza louca dos dias e muitas vezes não acho isso pior... já é janeiro, já mudei de ano, (sem me dar conta que o fazia) já balanceei em meia dúzia de parágrafos dez anos de vida - ou de morte, às vezes parece de morte - o meu mês também já acabou, já não espero mais dele. Agora a loucura começa e eu vejo-me menos, e talvez não seja pior a loucura estar nos dias e não em mim. O autocarro parte, é a hora dele, e a minha.
quarta-feira, 6 de janeiro de 2021
Tudo branquinho gelado, e eu quentinho (ou a caminho disso, que o carro estava gelado) dentro do carro a olhar para isto, e a sentir o aconchego de não estar lá fora. E faz-me sorrir este calorzinho por dentro. Depois penso que há certas pessoas que nos fazem sentir assim, aconchegadas no calor de um mundo próprio, defendidos do frio, protegidos de gelar o corpo do corpo frágil, sujeito à enormidade do mundo.
terça-feira, 5 de janeiro de 2021
Impressionante como a roupa dentro da mala, dentro da bagageira, dentro do carro, todo o dia lá fora ao frio, ficou gelada. A pele arrepiou-se quando a sentiu vesti-la. E eu com a pele arrepiada só penso como será possível certas partes de mim ainda não terem ainda congelado ou morrido, dentro de mim, dentro da pele dos dias, debaixo dum rigoroso inverno infernal lá fora, cá dentro. Em todo o lado. Frio, ventania, chuva; calor há séculos que não conhecem, luz nunca dura o suficiente para lhes chegar, e não morreram, não sei de quê, não sei porquê . É um enigma - ou teimosia -, diriam alguns, que não sabem explicar não saber explicá-lo.
domingo, 3 de janeiro de 2021
Vir para a varanda com este frio embrulhado num nevoeiro que desenha a contraluz os braços despidos das árvores, de corpo ainda quente da lareira, é estranho. Talvez estivesse a precisar do choque, dum choque, de acordar de algum sonho mau, de tão bom. Ou só de fugir de alguma coisa que o frio possa expulsar, a neblina ofuscar. Qualquer coisa, não sei. O silêncio duma respiração que se vê é mais vazio, talvez fosse isso que eu procurasse, ou o frio para adormecer os sentidos da pele, ou a cegueira desta luz esbatida, vertida no ar e quase palpável, como borrões de cor, parceira da nitidez que nunca tivemos no olhar. o silêncio corta-se com o acender do cigarro, enquanto os dedos se sentem ao centímetro... e eu que agora só queria não sentir.
sábado, 2 de janeiro de 2021
quinta-feira, 31 de dezembro de 2020
domingo, 27 de dezembro de 2020
as noites em que não bato à tua porta
e vens abrir-me
Ana Hatherly, in “Um Calculador de Improbabilidades”
sábado, 26 de dezembro de 2020
quarta-feira, 23 de dezembro de 2020
[Lawrence Durrell, in Quarteto de Alexandria - Balthazar]
“cheio de um alívio que era quase insuportável”
Há realmente sensações assim, momentos assim que nos fazem inteiros, que só se sentem se andarmos feitos de fragmentos há demasiado tempo. É de tal forma avassalador que só pode querer confirmar que é falso. Como se sentir um tal alívio, uma tal plenitude e satisfação, só confirmasse o quanto ainda se sofre terrivelmente daquilo que nos queremos livrar, esvaziar, acabar. Como apenas servisse de prova do seu contrário. Alívio devia traduzir um vazio onde antes algo nos ocupava e pesava, “cheio de alívio” não é um vazio que nos tranquilize, é um momento falso. Que às vezes tanto precisamos - como algumas mentiras - mas de que não restará nada.
domingo, 20 de dezembro de 2020
sábado, 19 de dezembro de 2020
Há prendas que chegam espontâneas, dias depois mas combinam com lareira e um copo de vinho. E vontade de pôr outras caras nas memórias do futuro. Há sonhos que apagamos com a vontade de outros dias. Com a certeza de que baixamos a fasquia e ainda assim estará sempre tão acima do que tivemos. já só queremos alguém que nos ame, e saber que um décimo do que demos já faria tanta felicidade a quem o quiser...
Há uns tempos alguém do trabalho me dizia para escrever uma carta a mim mesma, onde dissesse da esperança do futuro e dos medos do presente, que dissesse de mim e do que quero, ou pelo menos, do que sei não querer. Para escrever e fechar, só voltar a ler daqui a anos, e que quando o fizesse ia perceber o efeito do tempo e da vida, onde acertei e onde errei. Onde me enganei ou onde me enganaram o engano. Gostei da ideia. Vou escrever-me e guardar nos rascunhos para o meu dia de anos de aqui a dois anos. Deliciava-me saber como estou errada em quase tudo. É estranho quando torcemos pelo nosso próprio engano. Agora vou comer chocolate e apreciar o silêncio. E escrever-me.
quarta-feira, 16 de dezembro de 2020
José Tolentino de Mendonça
Talvez. A noite é o silêncio que melhor nos guarda, nos esconde e nos revela, mas agora procuro a madrugada, aquele fiozinho de tempo que separa a noite de um novo dia. Aquela luz que quebra a noite, que rompe o dia, que traz ainda a noite dentro, como uma memória que vai esmaecendo no espreguiçar do dia, no abrir dos olhos para fora.
segunda-feira, 14 de dezembro de 2020
E pergunto-me o que de mim restou que agora possa oferecer... se quando dei tudo o que nem sabia ter, não chegou, o que me restou chegará a alguém? E o curioso é que, agora, quando leio estas linhas do Bukowski, os sapatos onde me ponho, não são os de quem deu tudo a quem estava quebrado, mas quanto do que me quebraram poderá ter restado para dar a alguém. E isso, pode não parecer, mas é uma grande diferença. Para mim é uma enorme diferença, começar a calçar sapatos que querem mudar de tempo.
quinta-feira, 10 de dezembro de 2020
segunda-feira, 7 de dezembro de 2020
My thoughts, exactly.
Sem tirar, nem pôr. Sempre me regi pelo que aqui encontrei tão bem resumido. Não me faz sentido correr atrás, pedir, suplicar, dizer que não sou capaz de viver sem ele, de pôr entre a espada e a parede alguém que deseje que goste de mim, que me queira - porque se me quiser não será nunca preciso nada disso. E eu, gostando muito da pessoa, ou até demais, só a quero se me quiser, se me gostar, ou não será a pessoa certa para mim. Quem se humilha, ou precisa de alguma espécie de chantagem para obrigar, para forçar qualquer coisa que devia ser uma vontade natural, não sei como, depois, se conseguir o que quer, não duvida sempre se o resultado teria sido o mesmo caso não o tivesse feito - se não tivesse manipulado todos os factores que podia - se não duvida a todo o instante que o resultado não é fruto da vontade e do gostar de alguém, mas apenas de alguma inércia, facilidade, receios vários e alguma espécie de indiferença que cede a pressões. Eu duvidaria sempre, talvez também por isso, nunca fui capaz de o fazer.
domingo, 6 de dezembro de 2020
Ontem não saímos de casa. Quando íamos para esticar as pernas, a chuva chegava triunfante como um encontro para o desencontro. Desistimos duas ou três vezes, nem mesmo a quatro patas parecia com muita vontade de apanhar com chuva no lombo em troca duma esticadela de pernas... a modos que trocou a chuva pelo meu colo e estivemos a ver séries, a ler, sempre com uma chávena de chá por perto, e até me deu vontades de doces e fui fazer uns queques (expresso, daqueles quase tudo pré-feito) com pepitas de chocolate... ontem foi assim. Hoje não pode ser, há que vencer a preguiça. Ontem lembrei-me que sempre tive por hábito ao fim de semana sair para pelo menos tomar um café com o nariz ao frio, ou fora de casa, vá. Hoje há que passar nos meus pais, esticar as pernas e as vistas, tomar um café quente encasacado, trabalhar um tico porque ontem apontei no tecto... e ouvir a chuva cair ao longo do dia, presente como uma memória teimosa que nos acompanha como uma sombra. Mas desta gostamos, sorrimos-lhe e até lançamos as mãos abertas ao céu, para sentirmos na pele a simplicidade dessa beleza... Que me traz de enxurrada as saudades dum bom beijo debaixo de chuva fria, da pele quente despida de frio. Mas hoje vamos arrumar a preguiça num canto sem deixarmos de viver devagar, e com tempo - ou sem, se calhar sem - o que nos faz levantar do sofá, mas não nos obriga.
quarta-feira, 2 de dezembro de 2020
terça-feira, 1 de dezembro de 2020
Dezembro, o meu mês. Um mês do frio e do fim, onde o sol quando brilha se sente mais, e onde o fim anuncia um novo livro em branco. O mês da lareira, das mantas como segunda pele, até do natal, a que já não ligo, francamente. E dantes gostava, das luzes, dos enfeites, dos cheiros, agora não ligo, acho tudo meio postiço... Já não enfeito a casa maior parte da vezes, o que dantes me dava algum gozo, mas agora nem por isso. Mais um dezembro, e este definitivamente diferente em demasiadas coisas, menos numa, é o meu mês, ainda, e o meu preferido.
segunda-feira, 30 de novembro de 2020
Ora cá está uma estreia... não, não levei com a frigideira, nem sequer com o rolo da massa... mas sim, é o meu primeiro dia em teletrabalho. Gostei de poder acordar mais tarde e chegar cedo, da vista da janela ter árvores, de se tiver fome nao ter de comer bolachas ou esoerar pelo almoço, e de poder tomar o café do almoço na varanda... podem repetir (só está previsto mais um dia, de resto nem na cidade posso ficar, bahhhh... quanto mais na doçura do lar...) que assim sempre faço menos de io-io, durmo mais um tico (tipo hora e meia...) e trabalha-se na mesma. Não precisa de ser sempre, falta-me o “cumbibio” com algumas pessoas, e parecendo que não, a viagem ao fim do dia, nos dias de regresso, apesar de cansativa, relaxa-me.
domingo, 29 de novembro de 2020
E é este o mote dos fins de semana cá em casa. Esta disputa de mimo e atenção. Porque se a filha pede, a mãe não pode deixar de pedir, pois... mesmo sendo mais arisca, e ser muito menos de mimos que a filha... há que marcar, e não perder, território!! A modos que é isto, estas caras, perdão, focinhos de fim de semana. Isso e a música ambiente que mais se ouve ser: “sai” “está quieta” “não se corre dentro de casa” “ não sejas chata, deixa-me” “Oh mãe tira-a(s) daqui” e risos das parvoeiras, a que acabamos por não conseguir resistir, e desmanchamo-nos fatalmente, ou só o derradeiro “ lá para fora, já chega!”. Até termos saudades deste circo, e abrirmos a porta outra vez...
sábado, 28 de novembro de 2020
Sábado de manhã, depois da ronha e do primeiro café em casa - que agora serve também de aspirina, porque antes dele as dores de cabeça não me largam, mas só aparecem ao fim de semana, curiosamente. Saímos de casa, que não tem jardim, só uma varanda que adoramos, e vamos ao pão. E ao jardim, este, a uns metros de casa. Temos a sorte de a poucos metros termos dois jardins diderentes onde esticar as pernas e mergulhar no verde. No caminho deixo-a correr, vingar-se dos dias em casa, no quente mas numa quietude que não lhe cabe nas pernas. Depois, uns metros à frente, vamos abastecer-nos de pão para a semana. Senta-se a guardar o poste para ele não fugir, claro, atrelo o poste a ela e entro, atenta de ouvido para ver se reclama com alguém. Tudo tranquilo, na volta mais uns sprints no jardim, já libertas da trela do tempo. E de pés e olhos presos neste tapete, vejo esta imagem. E guardo-a.
quinta-feira, 26 de novembro de 2020
Se eu tivesse um escritório que chamasse meu, onde estivesse todos os dias, ou quase, em vez de andar cada dia num sítio, sem poiso fixo e com muito stress e irritação, punha isto pendurado na parede. Bati os olhos nisto e ficaram lá, mesmo depois de já olharem para outro lado - e há tanta coisa assim, não é? ... olhamos para outras coisas, mas os nossos olhos estão postos onde teimaram poisar e fazer sítio... mas adiante, esta frase é brilhante, como tantas coisas desta senhora. E neste momento é um lema de vida, de combate, de postura... E eu não sei se estou à altura. E a frase lembra-me isso, mas que tentar e falhar é sempre menos cobarde que nos pouparmos à derrota, porque essa não derrota, não é uma vitória, é apenas uma máscara para o definhar sem oposição, para uma paz podre com demasiadas baixas por falta de combate. É apenas outro nome para a morte por agonia.
quarta-feira, 18 de novembro de 2020
Dizem que o imitar, o copiar, é o maior dos elogios. Eu concordo. Nos últimos anos apercebi-me algumas vezes de coisas desse género, desde expressões roubadas daqui e doutros sítios, até formas de apreciar a vida em câmara lenta, a alguns gostos e coisas que alguém me confirmou dizendo que realmente tinham ido beber muita coisa a mim, comprovadamente. E deve tê-lo dito feliz, ainda que fosse uma cópia, não tendo o original era melhor do que aquilo que tinha... ainda que no dia que faltasse a fonte onde ir beber, ou copiar, bom, voltava tudo ao mesmo, mas, claro, nos entretantos a cópia nunca chega ao original... E hoje, chego ao escritório, ao meu antigo escritório, aquele que ninguém ao início queria, que era filho dum Deus menor, e que me deram a mim, sem que disso me tenham ouvido reclamar. Tinha desvantagens, mas também tinha algumas vantagens, que eu via mas eram percebidas por outras pessoas como não o sendo, e agora, mal me mudei para outras guerras, depressa alguém se mudou para ali... que afinal ali era melhor. Agora, o dia em que trabalho aqui arranjo-me em qualquer lado, não há crise e também tem vantagens... Acontece, que com isto tudo, ponho-me a pensar, que também esta criatura parece querer-me seguir as pisadas, pisar onde eu pisei, replicar o meu caminho. As pessoas esquecem-se que ao fazer o caminho temos de decidir por onde ir, que passos maiores e que passos mais pequenos dar, que direcção tomar e como, e que as coisas têm, ou ficam, com a nossa forma de ser. Quem imita, quem copia, quem quer absorver o lugar por osmose e replicação, esquece-se disso. A relação de proximidade que criei com esta gente, o que consegui fazer com eles e deles, não tem que ver com o sítio onde estava a trabalhar, e que até era visto como desvantagem por quem não o quis na altura, tem sim com a empatia criada, com a forma de trabalhar, e às vezes brincar. É a forma como somos, não como copiamos... ou quem copiamos. Pode ser um elogio, mas às vezes irrita um bocadinho... e o que faz certamente é passarmos a olhar as pessoas com alguma pena, o que é uma pena. Porque francamente não precisam disso... bom, algumas.
domingo, 15 de novembro de 2020
... Outras é uma forma de sentir, de nos deixarmos sentir, de sentirmos - normalmente com alguém. É sentirmo-nos nós, encontrarmo-nos numa voz como um eco da alma que trazemos, e que parece que reconhecemos pelo eco... pensamos que não, mas demora muito a encontrarmos a nossa própria voz, o que somos debaixo de tudo que fazem de nós, de tudo que nos fizemos e o mundo construiu, dia após dia. Conhecermos os cantos escondidos de nós mesmos é uma descoberta que custa muita vida, e talvez só isso, e pouco mais, se deveria chamar realmente viver. O outro não é a nossa casa, mas é a porta para entrarmos em nós. Ainda assim, a ideia mais bonita é essa: de alguém ser a nossa casa, de o habitarmos, de deixar que vivamos nele, protegidos, guardados. Alguém que nos traga dentro sempre, um peito para o nosso coração viver. Alguém que encontramos e nos faz regressar a nós, à nossa forma mais bonita, melhor, que mais gostamos. Amar o outro é talvez amarmo-nos com os olhos dele. Como se ele fosse a nossa casa, onde chegamos para, confortavelmente, fechar, por dentro, a porta ao resto do mundo.














































