sábado, 20 de junho de 2020

[foto @nihan.tezer]

Há qualquer coisa de ternurento na beleza dum campo de papoilas. Sempre tive uma coisa por papoilas, já aqui escrevi (ou então foi noutro sítio, já não sei). Lembra-me a infância em que ainda tinha o meu avô, e que no canteiro do prédio da casa dele, agora minha, havia muitas papoilas. À desgarrada, sem pedido ou licença, como todas as melhores coisas. E eu gostava, e fiquei sempre a gostar. Talvez por isso imagens de campos pintados de papoilas me dêem alguma sensação de tranquilidade, de paz doce. Daquilo que hoje, quando me levantei, me apeteceu vestir a alma, demasiado nua há tempo demais. Demasiado muda há luas demais. Será que a alma, se não a usarmos para o que realmente serve, também caduca? Estraga-se? Desaprende? Esquece? Olvido para a alma também pode ser bom, às vezes o melhor... Ontem à noite dei por mim a pensar - até por tudo que temos passado nos últimos meses - que a privação cura-nos de muitas vontades. E que a privação, desde sempre, de amor, cura toda a vontade de amar, por desconhecimento, por medo, por tão longe estar da zona de (des)conforto em que crescemos e a vida ensinou alguns a viver.  A grande fatalidade é tropeçar nele, e depois fugir-lhe e a toda a vontade, mas tê-la, como uma segunda pele, uma de que temos consciência tempo demais, porque grita no silêncio do ruído dos dias. Ou como uma memória afundada no tempo que às vezes acorda connosco, acorda-nos, com uma sensação tão presente como um desejo de anos que o tempo não levou, não apagou. Não estragou, guardou incólume. Como a sensação que tenho quando vejo imagens de papoilas, tão frágeis, tão selvagens, tão vivas, tão fortes, tão ternurentas... e tão minhas, da minha infância e do meu avô, perdidos que estão os dois e ainda tão dentro. Talvez a privação nos cure da vontade, nos ensine o que não podemos ter, mas não cura a dor de ter tido.

quarta-feira, 17 de junho de 2020

Oh yeah....
A melhor terapia para todos os tempos e disposições 
Melhor se for ao fim da tarde, com a luz dourada a dançar-nos nos olhos,
a aquecer as deambulações da alma.

domingo, 14 de junho de 2020

Ontem saio do trabalho, para que fui sem vontade diga-se, à pressa para comer qualquer coisa e seguir para o dentista, donde a miúda saiu com a boca a parecer uma trincheira de guerra, mas muito feliz com isso - quando eu pus aparelho não fiquei nada feliz, mas os tempos parece que são outros, e ela é muito diferente de mim... o que sendo uma coisa (muito, e eu sei) boa não há dia que não me faça maldizer o facto. Hoje dormi até mais tarde, coisa boa, mas sem ronha; levantei-me e levei a cadela ao veterinário... andava esquisita, e eu estava a ficar preocupada. Ao que parece está grávida, outra vez, mas desta só na cabeça dela - graças a Deus porque eu não seria capaz de passar outra vez por aquilo tudo, e ela é que teve dez filhos, mas eu é que dei biberon a todos, vezes sem conta, muitas de madrugada, lavei a cozinha dez vezes ao dia, e eu (nós, que não o fiz sozinha) é que enterrei seis deles, e não quero voltar a passar por nada parecido, fiquei exausta em todos os aspectos... então, agora, está com uma gravidez psicológica, e anda triste e ansiosa e esquisita, mas felizmente será só isso, e passa. No caminho pede e tem mais mimo, o que é não é mau. Voltei para casa, peguei no livro, tentei ler, larguei o livro, apanhei sol na varanda,  queimei neuronios na televisão ainda à luz do dia, coisa que já não me lembro de fazer... e nisto tudo, muitas vezes durante o dia dei por mim a perguntar-me que raio ando eu aqui a fazer? Às vezes parece que os dias passam como quem queima fósforos, assim, uns atrás dos outros, sem acender o cigarro que se traz nos dedos, ficando só a olhar para os restos mortais, inertes e queimados do anterior enquanto se risca o próximo. Há dias em que lucidamente vejo o abismo a abeirar-se de mim, quase a envolver-me... e olho para o lado - não paro, só olho para o lado. Alguma coisa terei aprendido com certas criaturas...acho que se o ignorar ele não me vê. E todos sabemos que o perigo não é vermos o abismo, é ele olhar de volta para nós, porque vê-nos. E isso é uma chatice. Sempre que alguém, ou alguma coisa, nos vê realmente, é uma chatice. Nada de bom costuma vir daí. Pelo menos que eu saiba, que eu conheça. E várias vezes durante o dia me perguntei: o que raio andas tu aqui a fazer? E eu, que dizem ter resposta pronta para quase tudo, não sei responder. Não sei. Mas agora, aqui sentada no cadeirão da varanda, abraçada a uma manta amarrotada de tempos e memórias, que me aquece e me lembra do frio, rodeada deste silêncio nocturno, acho que não preciso de saber o que raio ando aqui a fazer, desde que ao menos goste de alguma coisa, alguma coisa faça sentido. Como este cigarro entre os dedos que queima o silêncio da noite que me embala em palavras mudas. E isso faz sentido em mim, pelo menos agora, já.  Mesmo que não tenha sentido nenhum, e a pergunta continue sem resposta.

quarta-feira, 10 de junho de 2020

[Murasaki Shikibu, in O Romance do Genji]

Gostei deste.
Falavam em poemas entre si, em recados que mandavam, cifrados e com referências a elementos naturais. Gosto da ideia das mensagens ocultas, das palavras disfarçadas, das coisas que só o destinatário perceberia. A estrutura era rígida (waka, ou tanka, poemas de 31 sílabas, origem dos haiku, parece) e o remetente era avaliado pela qualidade do poema, tanto na elaboração das alusões como na sensibilidade de expressão. E eram frescos, muito frescos, tinham um grande tráfego na correspondência e imensos destinatários. Assim eram os tempos.... eram?
Um romance de referência, muito recomendado ao que parece (a minha ignorância desconhecia-o), vou a meio e ainda não me encantou. Pelo que li acerca, o melhor, o intrincado nível psicológico do romance virá na parte final. A ver vamos.

terça-feira, 9 de junho de 2020

... há dias em que apetece isto 
em vez de dizer, a certas pessoas, “bom dia”...

domingo, 7 de junho de 2020

[Pablo Neruda]

Há noites em que não faz sentido apagar o dia sem lhe sentirmos a luz. Nestas noites percebo, relembro, por que quase todos os meus livros de cabeceira, que se amontoam ao meu lado debaixo do candeeiro, são de poesia. Há noites em que o dia falta mais, e é talvez nessas que me procuro entre as resmas de folhas poisadas, fechadas, cheias por dentro. Folheio ao acaso, ou persigo marcas antigas, que outras noites deixaram. E é tão bom... gostar do que se encontra... encontrar o que não se espera e  gostar, ou recordar o que se gostou, porque se volta a gostar, outra vez. Como um passado que é agora, porque ainda somos nós. Para as noites vindouras de fome insaciável de qualquer coisa inominável, esta ficará marcada. Como as cinzas, que silenciosamente vão caindo, no trilho para novas maçãs. Marcam o caminho, mostram-nos quem somos... e o que tanto de nós dirá, como o que nos falta?


sexta-feira, 5 de junho de 2020


Nosso amor é impuro 
como impura é a luz e a água
e tudo quanto nasce
e vive além do tempo.

Minhas pernas são água,
as tuas são luz
e dão a volta ao universo
quando se enlaçam
até se tornarem deserto e escuro.
E eu sofro de te abraçar
depois de te abraçar para não sofrer.

E toco-te
para deixares de ter corpo
e o meu corpo nasce
quando se extingue no teu.

E respiro em ti
para me sufocar
e espreito em tua claridade
para me cegar,
meu Sol vertido em Lua,
minha noite alvorecida.

Tu me bebes
e eu me converto na tua sede.
Meus lábios mordem,
meus dentes beijam, 

minha pele te veste
e ficas ainda mais despida.

Pudesse eu ser tu
E em tua saudade ser a minha própria espera.

Mas eu deito-me em teu leito
Quando apenas queria dormir em ti.

E sonho-te
Quando ansiava ser um sonho teu.

E levito, voo de semente,
para em mim mesmo te plantar
menos que flor: simples perfume,
lembrança de pétala sem chão onde tombar.

Teus olhos inundando os meus
e a minha vida, já sem leito,
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há depois do mar.

Mia Couto, in "idades cidades divindades"

[leio e releio e está tudo dito, ficando tanto por dizer. Tudo. Há coisas que por mais que se digam nunca ficam ditas. Tal como amar, quando o amor é impuro assim, de tão real. Come todas as margens, não conhece caminhos traçados, solve-se em todos os mares como um só, que é tudo. E nada.]

quarta-feira, 3 de junho de 2020

Ahahahah...
...sim senhor, isto é que é uma resposta cheia de estilo!!...
[e que pode ser usada nestes tempos em que tantas conversas começam por aquelas frases costumeiras “há tanto tempo que não te vejo...” vou experimentar...]
:)))))

Bom dia!!

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Há dias em que tentas. Há dias em que pensas que o tempo já lavou da alma as marcas e a memória da pele, em que pensas que já esbateu aquela sensação tão viva do comodamente íntimo, para depois descobrirés que cortante é a sensação do intimamente incómodo que sentes a rasgar os momentos.  Essa sensação que a superfície disfarça, mas a alma reconhece num contorcer-se que nos muda a posição do corpo, sem mudar a situação. E quanto mais se procura disfarçar, ou contrariar, ou insistir a cada esforço de naturalidade, só nos sublinha a existência de tudo o que falta - e então parece faltar ainda mais... o que pensávamos que o tempo tinha esmaecido. E então percebe-se que as cópias, boas ou más, são sempre uma lembrança, uma veneração até, do original. Há dias em que mais valia não tentares. Se calhar todos. Curiosamente, já o sabias.


terça-feira, 26 de maio de 2020

Mais um passeio, hoje com a russa da casa, a terrível pequenota, 
mas não em tamanho.,.
 Já descemos, já subimos e agora sentamo-nos um tico na frescura da sombra, 
antes da derradeira subida até casa, ela de língua de fora e eu quase...
 Devíamos fazer isto todos os dias, eu só devia trabalhar meio-tempo, sempre, 
para sobrar tempo inteiro, assim.


[imagem @_baccc]

Peregrina do amor sem caminhos
Percorro a tua pele
Sedenta de luz
Subo ao cimo de ti
A cada crepúsculo
Entontecida de devoção
Faço do teu corpo templo
Cada beijo um milagre
Cada gemido uma oração
Cada êxtase o céu
E no latejar de um suspiro
Peço guarida no teu peito
Sinto-te a vida pulsar 
Comigo dentro
Sinto-me dentro de ti
Contigo dentro


segunda-feira, 25 de maio de 2020

Hoje por exemplo, a esta hora, já houve dois candidatos ao título...
... que mereceram, mas não, não disse, bom... só em pensamento. 
Ainda que, com o que efectivamente disse, suponho que eles desenvolveram a excepcional capacidade de ler pensamentos... com alguma clareza, diria eu.... o que, convenhamos, dá sempre jeito. A mim, pelo menos, deu. :))))

domingo, 24 de maio de 2020

Bom dia!!
Vamos cuscar o dia lá fora?? Abrir os olhos e aproveitar o Domingo... amanhã começa o carrossel dos malucos (onde acontece eu trabalhar) ... mais uma moedinha, mais uma voltinha... mas enquanto não, não deixemos o Domingo passar por um canudo ;))
[foto @markeastmenphotography]

“Estou mudo porque todas as palavras te escutam.”
Vasco Gato

... e assim, dizes tudo.

sábado, 23 de maio de 2020

[Emanuel Jorge Botelho]

Longe, dás-me bom dia, lembras-me a pele que acorda... o que tantas vezes não fazes com as mãos, fazes com palavras. Às vezes uma mensagem basta. De bom dia, do que for, desde que nosso, e o dia só poderia ser bom.
Bem sei que é tarde, e que poderiam dizer que já não é hora para bom dia, mas nunca vens tarde à minha pele, porque o que se sente não conhece relógios e tantas vezes não sabe o que é isso do tempo, porque não parece mudar. E o tempo, quando existe, é mudança.

quinta-feira, 21 de maio de 2020

...acautelem-se!!! 
:DDDD
Não há nada como uma paixão para nos injectar de vida, 
bem sei, e sou a primeira a concordar, 
 ... mas... 
cuidado com as máscaras (de todos os tipos, aliás)... 
...ou livrarem-se do vírus não será a vossa maior preocupação  ;)))




Gosto. Muito.
Lembro-me de muitas vezes fazer o caminho de manhã e esta fazer parte da banda sonora. Cantei-a muitas vezes sozinha a olhar a paisagem que ia fugindo pelo caminho. 
Sinto-a como paradoxo, 
como tanta coisa que nos fica, por isso mesmo, mas gosto.
 A sonoridade doce embala, se não atentarmos ao resto.
 Mas não deixa de ser bonito, de dar prazer ouvir.

Damage the dream
The magic is broken

quarta-feira, 20 de maio de 2020




[foto @krejir]

Sonhei-te,
Estavas cada vez mais
Vestido de tempo,
Soterrado debaixo de camadas
E camadas de pó e de lama.
Quase irreconhecível,
Ou talvez completamente.
Cada vez que abrias a boca
Era só vazio que gritavas,
E nem um gemido se ouvia,
Nada.
Cheio de pó que ninguém limpa,
Lama que água nenhuma lava,
Sombras que luz nenhuma vê.
E eu, ali, 
A tactear o caminho da minha própria pele,
Cercada de grades 
que tocam o céu como árvores,
sem saber por que caminho voltar.
Não sei se eras tu, se era eu,
Mas eu acordei.


terça-feira, 19 de maio de 2020

mesmo com frio, 
continua a olhar as estrelas 
para não cair nas malhas do vazio, 
e para o seu olhar não perder lonjuras.
Continua a coser a alma com fios de desejo, 
como um vício que não quer largar.
E conta pelos dedos as estrelas em que não caiu.

domingo, 17 de maio de 2020


Sento-me aqui, queria sentir o fresco da noite. Aqui sentada, de cigarro aceso, parece-me a noite apagada, profundamente adormecida, deitada numa paz silenciosa entre a escuridão do céu e as luzes da cidade. Eu aqui, calada, e tão desperta, com a vida toda adormecida. Como se tudo estivesse ao contrário, o negro da noite debaixo dos pés, e o mundo lá em cima, onde só o olhar chega. Tudo num avesso sem costuras.

[e, aqui sentada, lembrei-me desta música, não sei porquê  
... talvez haja muitas maneiras de estar presa, drink up baby]

sábado, 16 de maio de 2020


Entre outras coisas, estes meus registos nesta plataforma, servem-me para anotar coisas que leio e que por alguma razão me ficaram ou fizeram pensar quando as li. Várias vezes acontece que para as recordar as pesquiso nestes diários, porque a memória é de galinha, e se ficam as ideias a forma invariavelmente dissipa-se no tempo. Tenho andado muito preguiçosa nestas lides, e hoje o tempo, e uma ideia que já não conseguia reproduzir-se na forma original, convidou-me a recuperar as últimas leituras. À conta do bendito curso online, para o qual afinal não tive o tempo esperado - alteraram-me o plano e a minha quarentena não chegou verdadeiramente a acontecer - li algumas coisas que a bendita preguiça impediu que ficassem registadas. 
Uma das coisas que dou por mim a pensar é que há obras que marcaram os tempos de alguma forma, e que a mim não me marcaram muito, pouco havendo para mim a registar, a não ser confrontar-me com a ignorância -  ou da sua existência, nalguns casos, ou com o contexto que as tornaram marcantes na história da literatura. 
Nunca tinha ouvido falar no Épico de Gilgamesh, o curso, fraquinho que possa ser, sempre reduz a minha vasta ignorância :)  Foi escrito em placas  de argila mais de dois milénios a.c. e a sua referência ao dilúvio foi a razão porque inicialmente lhe dedicaram tanta atenção, e terá sido a mais antiga  história escrita que chegou aos tempos de hoje. As histórias contavam-se, espalhavam-se e passavam os tempos sendo contadas, não escritas. Com deuses e mortais, como os tempos assim usavam, com características tão permeáveis entre entre eles, os deuses com defeitos tão humanos e alguns mortais considerados quase deuses e deles próximos.
O texto ficou para a história por muitas razões, para mim ficou principalmente uma passagem que aqui deixo (afinal foi para isso que me decidi a dobrar a preguiça...) para futuros regressos:


"Se teu coração está tomado de medo, joga fora esse medo; se há terror nele, joga fora esse terror. Toma o machado em tua mão e lança-te ao ataque. Aquele que abandona a luta não fica em paz." - quem abandona a luta, ao contrário do que poderia pensar não fica em paz, bem verdade.

Por agora já chega... daqui a bocado logo verei o nível de preguiça :))

quinta-feira, 14 de maio de 2020

E o meu dia começou assim... a rir-me de diatribes de alguém com
aparente sentido de humor :))
E fez-me lembrar...”Oh amor... vai p’ro diabo!! “
Ao que respondem: “... mas... com quem achas que estive todo este tempo??” 
;)))

Apanhei isto algures, mas podia bem ser uma conversa minha ....

segunda-feira, 11 de maio de 2020



Outlander - comecei a ver porque ouvi vários comentários que valia a pena. Não fora isso e a temática não me puxaria, viagens no tempo e séries de época não são a minha predileção. Claro que quando entra em cena este moço o interesse sobe seja qual for o contexto, e não costumo ser muito susceptível a estes moços bonitinhos, com um fisico que não fere os olhos ( e o dele vai muito para além disso... jazuzzz há ali qualquer coisa no conjunto que impressiona) e uma carinha de meio meninos ainda ( e este, da pesquisa que fiz, ao natural parece muito imberbe.. mas vá, acho que talvez  lhe perdoasse isso...). O certo é que realmente desde que comecei a ver, a partir do quinto ou  sexto episódio, tornou-se um tira-sono... era só mais um episódio... e de manhã o despertador não queria cá saber de coisas... mas deixou-me algumas vezes a pensar. O que me cativou (além do moço, pois) foram pequenos pormenores da relação deles. Não vale a pena tentar explicar, nem eu o farei, mas fez-me pensar... coisas simples, pequenos (grandes) pormenores que se reconhecem, que me fizeram pensar que, se por um lado há certas coisas que se vêem, ou lêem, e dizemos ah e tal, estas coisas só em livros ou filmes; por outro, quando as vivemos dizemos que são únicas, parece que nunca ninguém as viveu, ou sentiu, assim. No entanto, depois, quando somos confrontados com certas cenas sorrimos, porque se foram escritas alguém as sentiu assim, ou muito parecido... e afinal aquilo que chamamos único, parecerá único para toda a gente... ou seja, não só não é único, como  não é só de livros, ou filmes. A vantagem é que quando é escrito tem o fim que quem escreve quer, e talvez seja essa a razão de algumas pessoas escreverem, para lhes dar o fim que querem ou para expurgar o seu. 
Nesta série há muitos pormenores de cenas entre eles que me fizeram pensar isto, e sorrir algumas (muitas) vezes mesmo sem querer, outras consciente, pois se nada disto é único, haverá mais e até melhor. O sentido de humor partilhado, o brincarem em momentos estranhos a outros, a "taradice" entendida em conjunto como saudável, boa e nunca como ordinarice, os olhares que falam, as brincadeiras privadas, o vocabulário íntimo, as coisas que se dizem. Tanta coisa comum se calhar a tanta gente - sim, haverá mais quem veja as relações assim,  e a mim (re)lembra-me que existe, que é possível, e que se poderá viver, sem viagens no tempo e sempre a fugir de algo ou alguém.
Há coisas que podem ser, nem todas, mas algumas poderão ser, e podem ser muito boas, ainda que não o sejam sempre e a todo o tempo - mas não são só de livros, afinal, cada vez mais nos apercebemos que a realidade em tudo ultrapassa a ficção a seu tempo... a alguns essa realidade chega tarde demais, para outros nunca chegará. Uma coisa parece certa para quem a conhece, não a consegue desconhecer, mesmo que queira.... e depois há memorandos assim, na tela. E isso é bom. Há coisas que não mudam, e coisas que têm de mudar para que nos mantenhamos fieis ao que acreditamos, ou queremos.


 [Fiquei para sempre fã do sotaque escocês, e gostei da série, sim senhor, acabei agora o último episódio da quarta temporada. Acho que já há outra, mas ainda não está disponível... não fui muito a favor de oferecerem a assinatura da Netflix à minha filha... mas... :))) ]

sábado, 9 de maio de 2020

Já o disse e é verdade, fazer-me ir para a cozinha, espontaneamente, por livre vontade e com vontade, só mesmo um grande amor. Dos que dão vontade de um gesto que chegue ao outro, que o toque, que o entenda.  Fazemos coisas raras pela raridade do que se sente e se quer que sintam. Infelizmente - ou talvez não, aliás, certamente que não - poucos o saberão entender, ver, deixarem-se tocar, talvez. Se calhar é nas alturas em que as coisas não são como gostaríamos, e queríamos, que fossem, que o coração impele as mãos a fazerem gestos que guardam coisas que não dizemos, como verdades encriptadas, mas sem qualquer enigma se nos conhecerem, e se não escolherem olhar para o lado para dizerem que não viram, que não perceberam, que não se aperceberam. 
Quando não temos nada para oferecer, damos o que somos, sem embrulhos. Só o recebe quem quer e aprendeu a amar e a ver, ou verá apenas a mão, o bolo, os biscoitos, o embrulho e não o gesto, a doçura... todo o amor que não traz papel de embrulho, mas às vezes é tímido no saber dizer-se. Ou no fazer-se entender. Hoje perceberam perfeitamente... "tens razão, as melhores prendas não vêm embrulhadas", e não foi preciso dizer mais nada.

[... a noite está maravilhosamente fresca, como se um gesto deste silêncio quente que se sente]

terça-feira, 5 de maio de 2020


Um passeio a duas, há muito que não tínhamos, e tão bem que me estava a saber... resolvemos dar uma volta maior porque o jardim ao fundo da rua estava cheio de gente e o no outro a seguir só conseguimos uns cinco minutos para ela correr um bocado, até aparecerem mais canídeos... a modos que resolvi continuar, apetecia-me andar e a luz de fim de dia tem sempre um efeito qualquer meio mágico no tempo, que apetece estica-lo sempre mais um tico. Descemos à praça, subimos à Sé, descemos ao longo dos Arcos, e o panorama era este, a rua assim, só nossa. Pedi-lhe a sua melhor pose... e foi isto... acho que ainda não quer fotos... deve ser dos quilos a mais que ganhou da ninhada e ainda não recuperou a forma nem perdeu a fome... continuamos e já quase em casa, do lado da rua oposto ao nosso, vejo uma senhora, velhota, cair.  E foi quando enfim a estupidez me assentou, quando não a vi levantar, ou sem o conseguir fazer, já ia a meio de atravessar a rua. Vi que a cadela não ladrou, o que é raro quando as pessoas levam sacos - não sei, não me perguntem, deve ser um qualquer trauma que desconheço ou ouviu alguém contar a história do homem do saco quando era pequenina... vá-se lá saber - mas não ladrou, passei a trela para a outra mão e com a mão direita tento ajudar a senhora a levantar-se... o que me fez de repente lembrar que os badalados dois metros já eram, e só agora me lembrava disso, e que nenhuma de nós levava máscara e que a senhora com aquela idade, era um perigo. Afastei a cara o mais possível da senhora e lá consegui ajudá-la a levantar. Afastei-me, perguntei se estava bem e se conseguia ir bem para casa, se era longe, se precisava de mais alguma ajuda... disse que não, e tinha fome de conversa coitada da senhora, e eu só a pensar se lhe teria pegado alguma coisa, mesmo pensando que não tenho nada, nunca se sabe, ou só se sabe mais tarde... e o passeio que me estava a saber tão deixou esta sensação estranha, de poder ter feito mal a alguém sem querer. Foi uma estupidez, por um lado, mas ia deixar a senhora estatelada no chão, à beira do passeio? 

domingo, 3 de maio de 2020

Noite limpa, rasgada por um trapo de névoa que sublinha a lua. O sossego da rua, um dia que se acaba e se resume enquanto, aqui sentada, meço luzes e sombras. Há coisas que se tornam límpidas na boca dos outros, como o céu de hoje, quando as ouvimos calçados de nós mesmos. Coisas simples, que sempre estariam ao alcance do nosso olhar, se não nos enevoassem maravilhas que por dentro dos olhos nos cegam. Oásis  em desertos que se atravessaram a seco, devagar e em delírio. Muitas vezes ouvi que depois de abertos os olhos, não seria possível voltar a viver de olhos fechados. Não é verdade, podemos voltar a fechá-los, mas nunca deixaremos de ver. Por muito que cerremos os olhos. Como uma maldição, vestida de benção. Resta-nos evitar morrer à sede, por tudo tomarmos por oásis. 

sábado, 2 de maio de 2020

Quando vou passear as tracção as quatro apercebo-me da quantidade de bichos que estão a dar graças a Deus pela quarentena... sim, como se para eles o COVID fosse o salvador... cães supostamente das redondezas a quem eu nunca tinha visto o focinho... nunca devem ter saído de casa, qual refém em confinamento.  Mas recebem os seus adoptantes o mesmo destino de reclusão, e não gostam, lembram-se agora de passear os cães, que coitados precisam, sei lá, de apanhar ar... uns chamam-lhes passeios higiénicos, mas de higiénicos têm pouco porque os passeios estão minados de presentes das criaturas que não estão habituadas a sair de casa, ou quem os traz pela trela, de os passear... 
Eu sei que sou preguiçosa para passear os bichos, muitas vezes acontece não os passear todos os dias, mas não deixo passar dias e dias sem os levar à rua a esticar as pernas e correr um bocado, nem com isto de supostamente estar mais tempo em casa (que acabou por ser verdade muito poucos dias) fiz deles livre passe para ir à rua, eles, coitados, é que agora quase não conseguem correr, os jardins onde vamos para, soltos, poderem correr, estão cheios de gente a conhecer o espaço... este confinamento está a acabar, temos de encontrar um equilíbrio para conseguir viver com isto - confinar e proteger mesmo o grupo de risco, a sério e sem facilitismos, mas os restantes têm de retornar a uma vida (mais) normal, tanto quanto estar longe dos mais velhos que lhe são próximos permitir... mas este negócio aqui sugerido, de cães passearem confinados,  dava uma boa maquia cá em casa... :))))

quarta-feira, 29 de abril de 2020

[foto @sergoisrael]


"Nada há de mais íntimo do que a compreensão.
Quem não te compreender não vai saber como te amar 


— não saberá quem és."


Alfredo Serras, «Inéditos e apócrifos»

(intimidade rapinada descaradamente ao xilre)

Não saberá, amará apenas uma ideia ou um sonho, não a realidade do que somos -  as sombras, os medos, as ternura mais frágeis, as doçuras mais inocentes. Só quem sabe o que de mais íntimo guardamos, de escuridão e de luz, pode compreender, saber por dentro, nas sombras, o que há para amar, e então, sabendo-nos reais, amar-nos ou não. Qualquer coisa menos que isso é ficar aquém de destino nenhum. É não chegar a sair de si.

terça-feira, 28 de abril de 2020

Mandam-me, assim, só...

-... lembrei-me de ti.
-gosto!...bem me queres
-sim
-e eu a ti.

Não é preciso muito. Lembrarem-se de nós assim, é bem querer. E podemos mais querer?
Gosto de receber estas coisas, e de as enviar também. Lembrar-me de alguém e mandar uma mensagem que diz apenas que me lembrei desse alguém e porquê, porque as pessoas que queremos bem andam sempre connosco, estas mensagens são prova - vemos um sítio, uma expressão que se ouve, ou certas cores, ou músicas, sons que despertam algo, cheiros... meu deus cheiros... ou umas flores, e então materializam-nos o nome, só isso.
De mim lembram os bem-me-queres, ou as margaridas, às vezes qualquer coisa que seja “a minha cara”... e então eu vejo como me vêem, e esta fotografia é “a minha cara” e eu gosto, afinal.

[Roger Wolfe, via @opoemaensinaacair]

Não funciona, nem tem conserto. 
Não é avaria, mas não sei o que é. 
Não é nada...E é tudo assim. 
Até não ser.
Até ser tudo ao contrário, e nada ser assim. 
Isso sim, é uma grande avaria, que não se quer consertada.    
É a imperfeição do molde, a peça rara, o defeito único, as quatro folhas do trevo.
Uma anormalidade que não cede a rusgas, mas em que podemos esbarrar sem procurar.
E só encontra quem vê.
Normalmente não funciona.


sexta-feira, 24 de abril de 2020

Percebo quem já não distinga os dias, quem esteja farto de estar em casa... percebo, mas eu não me queixo disso, só estou farta de ouvir na rádio para ficar em casa, quando o oiço a caminho do trabalho, todos os dias nas duas últimas semanas. Menos hoje, pelo menos. Depois não sei. E podiam ser dias de trabalho como mais pacíficos e calmos, mas não, pelo contrário. Depois desta quarentena quem vai precisar duma quarentena do mundo sou eu... e não sei se me fartaria...

segunda-feira, 20 de abril de 2020

... estava capaz de dormir aqui, aninhada no cadeirão da varanda, com a manta enrolada para espantar o frio... está-se bem aqui, s tranquilidade envolve-nos com a noite, e oiço isto, que se cruzou comigo hoje não sei por que artes, e em todo este cenário, é impossível que algo em nós não sorria. Nem que seja com a ideia de que, aqui e agora, dançava isto, aninhada também, mas noutro cadeirão :)

domingo, 19 de abril de 2020


Será que há existência sem constatação? Será que se é, inteiramente, sem que alguém nos conheça? Será que a pedra que vejo, e a que chamo pedra, seria uma pedra se não lhe chamasse pedra? Se não a visse?
Eu existo sem que seja vista, mas para ser não será preciso alguém que nos veja, nos conheça, nos diga até o que vêem, como somos entendidos, que nos desvende até para nós?
Será que sou inteiramente sem que ninguém saiba o que a pele encerra dentro de si? De mim? É preciso outro para sabermos que somos?
Talvez haja existência sem constatação, mas e para ser?
Talvez não baste existir, a não ser que se exista em alguém - e aí somos. Às vezes, inteiramente.

Existo e tenho nome (tantos), mas sem que me chames, será que sou?

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Se calhar sou, pois sou... gosto da correspondência, das cartas, das palavras como veículos de sorrisos, de pensamentos e outras coisas essenciais: a reciprocidade, a intimidade chegada, mesmo que longe. O saber o que acolhe a outra ponta da mensagem, o sorriso, a malandrice, ou só a troca de parvoíces que fazem rir e chorar por mais. Mas mais do que palavras, o que importa é a correspondência. Em tanta coisa que já não se usa, e falta. E nunca se pede.

domingo, 12 de abril de 2020

Sento-me à varanda para apanhar os últimos raios de sol, trago livro e cigarros. Poiso-o quando vou para o abrir, há música no ar. Um saxofone enche o ar com a sua voz solitária, que acompanha todos os que estejam a apanhar os últimos suspiros desta luz quente. Pássaros anónimos juntam-se a ele, e não estragam. Todos solitários, e solidão, agora, nenhuma. Só música, sol e um livro fechado em cima da mesa, a aplaudir este fim de dia. Sabe-me bem, decerto não só a mim.
Chegam as nuvens, espanta-se o sol e a música esconde-se. Não se sabe até quando.
Há demasiadas nuvens na vida dum dia de sol incerto, mas enquanto o sol nos souber bem, aproveitá-lo é certinho... :)

Boa Páscoa.

sábado, 11 de abril de 2020

Mais um sábado. Cinzentão e a convidar a leituras, chá, filmes e sofá.
Aninhamo-nos, umas mesmo, outras no aconchego só de olhar...
Quatro meninas em casa, todas ainda por vestir... algumas não deixarão de estar... :))
Bom sábado, com pelo menos, uma ideia aconchegante...
Algumas luzes por trás das janelas, o silêncio medido a conversas que escapam, a espaços, dos vizinhos. Uns passos apressados que os olhos não alcançam, um miar compassado que se esconde. O ritual de fechar o dia e encerrar em mim a noite. O cigarro aceso, calado no tempo que o consome. A vontade de desfazer o que não chegou a ser feito. Conversas que não tive, passeios que não dei, abraços que não se fecharam em quem deviam. Balanço-me no que sou e no que devia ter sido, no que devia ser, também. Talvez tenha sido a conversa inesperada de mais de meia hora, que tive há pouco, com quem pouco falei na vida, desde pequena. Penso naqueles com quem também devia ter falado mais, e que me faltam, e que lembro muitas vezes para dentro. Penso na injustiça da paciência que tantas vezes me falta para quem eu não devia faltar com nada. E maldigo esta ironia de, para protegermos quem gostamos, e não suportaríamos perder, os deixarmos tão entregues à solidão e ao tempo que não passa, e que a cada instante não deixa de contar prazo. Todos temos um, e o tempo de estarmos todos a decrescer,  e gastamo-lo, assim, numa conta de deve e haver, dum risco que não deveria haver assim.

quinta-feira, 9 de abril de 2020

[foto @sarvesh_chaudhari]

Chove. Mas hoje vejo chover, e ouço, com calorzinho debaixo da manta e um toque de canela que resta no ar com o cheiro do café. O primeiro de hoje. Hoje em casa. E chove, e não faz mal, ou faz porque as cadelas assim não passeiam (em compensação ressonam aqui aos meus pés...), hoje que as podia levar, à tarde, ao jardim ao fundo da avenida. Ou à noite, quando as ruas parecem tiradas dum quadro de silêncios, ainda mais que nas noites da cidade em pleno Agosto, e trucidem-me, mas eu gosto. Há sons que só se ouvem assim, no silêncio fundo, esse paradoxo de quebrar o silêncio e só no silêncio se ouvirem. E a estranheza de alguns em achar fantasmagórico e triste o que eu acho tranquilo e calmo, ainda que triste a razão subjacente.
Chove. E o céu está um opaco fundo quase branco. E eu dedico-me ao que há tempos não me passaria pela ideia: um curso online sobre algo que não é da minha área, nem profissional nem de formação, mas é uma coisa que gosto. Ainda não sei bem se gosto do curso, nem é bem o que eu estava à espera, mas até agora não está a ser mau, é verdade que o saber não ocupa lugar e há coisas que até gostamos de saber. Acho que fiquei adepta, ainda por cima gratuitos, o próximo será sobre noções básicas de psicologia... já andei a ver.  Já ouvi muita gente dizer que está farta de estar em casa, e eu até percebo, mas eu não estou e arranjava coisas para fazer... melhor para ler e para ver, para ser honesta. A parte do ah e tal é bom para arrumar coisas... é muito verdade certamente, e eu gostava de ser assim, a sério, mas geralmente gosto (muito) mais de arrumar coisas dentro de mim - nem que seja espaço para coisas novas, e vontade delas - , ainda que volta e meia tenha mesmo de arrumar algumas coisas: a despensa, por exemplo, está na minha lista de coisas para fazer... desde que isto de me fazerem ficar alguns dias em casa (sem teletrabalho, há trabalho mas é no escritório como sempre, só menos dias) começou. E o dito curso já comecei, um livro novo também, agora a despensa... não. Mas está a chover e não me apetece. Mas não é da chuva ;)

quarta-feira, 8 de abril de 2020

É.
Ou que nos queira perceber.
Despir-nos a pele e querer ver, perceber. 
Gostar da pele nua, e de a despir. 
De conversar e de tocar. De ser tocado. Mesmo à distância. 
Numa intimidade que não deixa espaços, nem cria vazios. Deixa respirar melhor. 
Num perceber que é mais conhecer, e querer. É nunca saber tudo, e sabê-lo, a cada descoberta. Perceberem o que nos move não é saber onde vamos. Ou como. 
E ir ao lado nem sempre é ir junto. E ir junto nem sempre é chegar - e às vezes não chega.
Como perceber não é saber tudo: há uma distância, onde cabe a surpresa do que vamos querer perceber. Ou vamos perder, sem querer, ou saber porquê.

[quando vi esta foto, vi só as primeiras quatro linhas. Não sei donde veio o resto, mas estava lá. De certeza, eu só não soube logo. É, talvez em tudo, o não saber que nos prende e se gosta, tanto como o gostar de perceber o que se sabe, ou mais.]

sexta-feira, 3 de abril de 2020

[Adília Lopes]

Como se não houvesse nada a dizer, as palavras fogem-me. Escoam-se por entre os dedos, como a luz que cai pelos ombros do horizonte. Talvez haja palavras a mais no mundo, ou talvez tenha feito por esgotar as minhas. Como se não lhes dando corpo elas não (sobre)vivam, ainda que existam. As palavras que ficam por dizer não são silêncio, são silêncios interiores adiados, afiados pelo tempo. Tempo que agora sobra, de resto nenhum. 
Acontece-me muitas vezes partilhar palavras por dizer com cigarros que não ficam por fumar, à noite, na minha varanda, onde o tempo parece parar e o mundo seguir. Mas se não as escrevo, são só pensamentos, coisas que fogem ou de que fugimos, indo tantas vezes ao seu encontro. Como encontros que mais não são que desencontros no tempo absoluto para todos, e diferente em cada um.
Acontece-me sentir que o cansaço me chegou às palavras, como um esqueleto amolecido de diálogos impossíveis, de mim para mim. Ou só negados. Como se isso não fosse a sua própria, mais violenta, afirmação.
Acontecem-me dias em que, na minha varanda, a tarde é só uma noite desencontrada do tempo do mundo. 

segunda-feira, 23 de março de 2020

Pronto, era só isto.
É parvo, eu sei, mas tem piada.
... e temos de nos rir, né?
Senão ainda ficamos maluquinhos...
... e sei lá desatamos a açambarcar papel higiénico
 como se o nosso maior pavor fosse
 o fim do mundo apanhar-nos de calças na mão...

sábado, 21 de março de 2020

[dia mundial da poesia, hoje]
Talvez a Poesia não seja sempre em palavras. às vezes são só pensamentos que fogem ao dono, que voam - longe e alto demais. sem um porto seguro, uma superfície plana, lisa e ordenada onde poisar, onde descansar, onde morrer. restam-se apenas em sorrisos que guardam uma ternura que não tem onde ser arrumada. ou queira.
A poesia é tanta coisa, e vive de nadas para fazer sentir tudo.
E às vezes não há palavras que sobrevivam a isto.

[haverá poesia maior ou melhor que alguém nos achasse mais poesia que mulher? ainda que não o saiba dizer, ainda que não deixe escrito nos muros, mas que nos faça sentir assim? sorrir assim? haverá mais poesia que isso? que esse olhar?  não creio. mas creio que seja a poesia mais difícil de encontrar e de sentir... e de fazer sentir. ]

quinta-feira, 19 de março de 2020

[Roberto Juarroz]

Deitar-me duas horas e meia depois de chegar a casa, exausta. Quando devia e queria vir cedo para casa, nem sequer sair de preferência, é o contrário. Há coisas assim: a vida. O cansaço parece que desfaz os ossos, os olhos parece que ardem, a ansiedade, o medo, aperta-me a garganta. Não sei como serão os próximos tempos, ninguém sabe, mas muitos imaginam e fazem contas. E eu acredito, percebo. E acho algum optimismo, aquele demasiado levezinho e dourado de frases de que “tudo vai correr bem”, só meio tresloucado, pergunto-me: bem para quem? Para que umbigo? Não estou com os meus pais vai fazer duas semanas, não arrisco, estou numa actividade de risco, não posso arriscá-los, e penso se chegaremos todos ao fim destes tempos. Não é pessimismo, no caso é mesmo só lucidez. Da que dói nestes dias em que o (nosso) mundo se resume a sabermos até onde vão os nossos braços de afecto, de preocupação, de querer saber de quem nos toca, mesmo que longe da pele, tão proibida agora. São também os dias de saber que braços nos tentam alcançar, saber, confortar, sorrir pelo telefone. No meio de tudo isto é bom perceber que há preocupação e carinhos recíprocos que são só abraços adiados, mas já dados. Mais do que ouvir “vai correr tudo bem “ gosto de ouvir, ou ler, simplesmente saber, que a verdade pesa e se sente (tão) nítida nos “como estás? Lá em casa tudo ok? Estás bem?”

E vocês, dos que não sei sem ser por aqui? Está tudo bem por aí?
Espero que sim :)

terça-feira, 10 de março de 2020



[Eugenio de Andrade ]


Amor estéril, 
ou filhos dele,
Já tive além da conta.

O tempo passou, 
estão maduros
Agora, de porta aberta,
é deixá-los seguir.
Já caíram todas as vezes 
que precisei de os levantar,
de lhes limpar as lágrimas 
e dizer que tudo ficará bem.
Estenderam,
a cada vez, 
as mãos abertas, 
à espera do que eu tinha 
e não guardava.

Já passou o tempo 
Posso deixá-los seguir 
o caminho da lonjura.
Fechar a porta,
fazer amor e filhos 
que amadureçam
que encontrem sempre 
a minha mão, 
como eu a deles,
até quando choro e caio. 
Daqueles que seguem
mas nunca vão,
voltam sempre 
de portas abertas para mim,
com poesia no olhar
Brilhante
do que não se esquece,
sequer precisa ser lembrado.

sábado, 7 de março de 2020

Um belo dia para o primeiro passeio de trela, da pintarolas Júnior, 
uma russa a quem não falta pinta.. a não ser no pelo... ;))


That’s it!
Custa a aprender. Ninguém o pode fazer por nós.
Só podem ajudar-nos a vermo-nos,
e dar-nos a mão. E às vezes um novo olhar.
Mas só nós podemos abrir os olhos.

quinta-feira, 5 de março de 2020

[Alice Ruiz]

Vagamente.
Quase nada.

Há tantas vidas
numa vida.
E tão pouca 
nos entretantos

Sábios os que não esperam
e também não sentem,
sem saber.

quarta-feira, 4 de março de 2020

... e se não for, nós fazemos.
Tantas vezes de nada se faz alguma coisa.
Tantas vezes do que resta fica tudo.
Tudo o que não se pode, ou sequer consegue, perder,
a essência.
Tantas vezes o que temos é só o que precisamos, 
e nem sabemos.
Saber é talvez, tantas vezes,
o fim feliz com bons começos. Essenciais.


segunda-feira, 2 de março de 2020

... também a esta hora nada bate certo.... é muito cedo, quero dormir... buaaaaaa
E não me apetece esta semana, preciso de férias... buaaaaa
Apetece-me chorar não sei se já perceberam...
Sento-me no chão, em frente à janela e enquanto acendo um cigarro, oiço o vento e vejo-o nos braços das árvores, na chuva tombada antes de cair no chão. Há quem tenha medo das grandes chuvadas. Eu tenho medo do vento. O vento que uiva entre os espaços que invade e percorre e agarra tudo o que não tiver raízes; o vento que sopra a ira que nunca parece esgotar-se, quando parece que amaina vem uma rajada que quase nos tira os pés do chão. Arraste tudo, arrasa tudo, se para isso estiver disposto. Não parece o mesmo que nos afaga a pele e acaricia os cabelos quando respira sem ira e refresca o calor do sol. Tudo é sempre tanta coisa, de bom e de mau. Protegemo-nos do que temos medo, por trás das janelas, e procuramos  brisa fresca quando o calor aperta. Às vezes esqueço-me que a brisa também é vento, outras que o vento também é brisa. Outras quero esquecer, mesmo, mas não sei qual parte.

domingo, 1 de março de 2020

[foto @kate.simple.life]

Assim são sorrisos de bandeja :)...
...Das minhas preferidas...
...mas não gosto dos vários nomes que têm, deviam chamar-se domingos de manhã, acordares ou amanheceres... ou flocos de ternura, qualquer coisa com doçura e luz. E não precisam de ser só acompanhamento, podem ser servidos como prato principal para quem gostar da simplicidade, não para compor o ramo, mas como essência. Podem ser servidos de bandeja , ou sem, a qualquer hora do dia, sempre colherão sorrisos silvestres dos apreciadores... são doçura pura que só engorda a felicidade do momento  ;)

Sento-me aqui, à beira da noite molhada e parece que nada mudou. A mesma varanda, o mesmo cadeirão, os mesmos desenhos de sombras nas paredes, até a chuva parece dizer o mesmo que dantes dizia. Como se a noite não tivesse mudado, e no entanto tudo mudou. Já não digo à noite o que dizia, ela não me esmaga como já esmagou, já não me fala espantando o sono e chamando o mesmo exército de medos armados de angústias várias, e a luz já não me fere tão fundo. Fico aqui atenta à rua, aos sons, às sombras, e tudo por fora parece não conhecer o tempo, mas de dentro para fora tudo parece diferente. E não percebo, porque eu não mudei nada. Houve só coisas que desapareceram de onde nunca estiveram, nunca foram. Como se o mundo nunca as tivesse conhecido, sequer ouvido falar delas. O mundo está igual, lá fora, eu estou na mesma, cá dentro, mas nesse mundo imutável sinto que vejo tudo diferente. Só não sei se sinto diferente. Ou se já não sinto. Sento-me aqui, à beira da noite, como de um abismo onde sempre me deixo cair, e donde nunca caio.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Sexta feira.... finalmente!!!!....
Estou muito precisada de fim de semana ... e de fazer um daqueles meus retiros, exilar-me de tudo,aninhar-me em silêncios e desfiar o tempo em monólogos mudos, em descansos bem temperados... já não posso aguentar muito mais tempo desta vida estupida e duma rapidez que flagela o tempo de vida... tenho de me pirar daqui, tenho tenho, 
não sei é como ou quando será...o feriado fez-me mal, só pode :))

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Eheh
Coitado do moço, se fosse Carnaval não piorava muito ;))
Antídoto de dias pardos: posts parvos, claro  :DDD
[uma manta, um filme e um livro, com os cães aninhados aos pés, e ainda uma soneca bem estirada nos entretantos, também são muito indicados como 
terapia complementar à previamente indicada ;)).  ]
Com os anos, ou com a idade - que nem sempre coincidem -, vai-se apreciando cada vez mais a noite por dentro, em vez de por fora. E não é que passem mais lentamente, não, mas ficam mais tempo. Também  por dentro, onde se fazem, no fundo.
Acabo a noite s fumar um cigarro de janela aberta no escritório que era duma pessoa que há muito não mora cá, há anos que só o escritório ainda aqui habita. Não sei porquê. Penso há algum tempo fazê-lo uma espécie de pequena biblioteca com uma chaise-longue em frente à janela, um candeeiro de pé catita, umas colunas de som discretas e uma pequenina mesinha, sem mais. O resto que seja chão. Mas ainda não o fiz, e por isso o escritório, desabitado, e que já não é escritório, ainda não é outra coisa. Às vezes é preciso que algo tome o lugar daquilo que deixou de existir, para que algo volte a existir. E não seja um lugar mas um sítio com alma, outra vez.
Hoje, e pela primeira vez desde que vim viver para aqui, fumo um cigarro, o último do dia, a esta janela... talvez a alma comece a seduzir o espaço, ou a ser seduzida. Algo mudou. Até a noite. Ou eu. E no entanto nunca fui diferente.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Boémios.... dão muita música... 
com um dedo, ou dois, de malandrice :DD
Bom dia!

domingo, 23 de fevereiro de 2020

[Harper Lee, in Não matem a cotovia]

Li o livro em dois fins de semana. Fiquei curiosa acerca do filme, fui procurar na net, encontrei, vi-o e desiludiu, há tantas coisas no livro eliminadas no filme... empobreceu tanto tudo. Gostei muito do livro, daí te-lo lido em tão pouco tempo. Prende-nos a história, e o ter muito sobre que pensar, principalmente sobre o decurso do tempo, sobre aquela época, sobre o carácter e as alturas da história em que o carácter é um fardo que apenas alguns assumem sem escamotear. Coisas para se aprender e reflectir... e se fosse eu? Como pensaria (n)aqueles tempos? Penso tanto nisso sobre tantas coisas e épocas... e gostava de ter mais certezas sobre o não abdicar de ir contra a corrente, pensar pela própria cabeça e confiar nela. E como pensaria a minha cabeça nestas alturas sobre tanta coisa? Gostava de ter mais certezas, de me tranquilizar mais, acerca de mim. Mas tenho sempre perguntas, até sobre mim, sobre o que sou e quanto o sou. O que não duvidei foi que esta (que aqui deixei em cima) era uma grande frase. Coragem; para mim coragem é não haver certezas, haver medo e ainda assim enfrentar, seguir em frente apesar de tudo isso por sentirmos que é o certo. Esta definição é mais contundente, ainda mais pesada e definidora de carácter: é estar vencido antes de começar, ainda assim começar e ir até ao fim. Aliás como faz Atticus em relação ao julgamento do negro inocente. Percebemos depois que ele sempre soube que perderia, como outros no processo de decisão envolto na história. É uma história sobre as pessoas que têm convicções e carregam, aos poucos e na sua medida (im)possível, as mudanças do mundo às costas.