sábado, 16 de abril de 2022


 Não acredito em grandes mudanças apenas em grandes embustes, mas há coisas que vão mudando sem darmos conta - essas sim, são as que mudam, lentamente e de dentro- os gostos também se alteram nalgumas coisas, devagarinho... dantes eu não gostava de vestidos compridos... agora adoro, são os meus vestidos de verão, leves, com brisas de movimentos que lhes dão vida, além de corpo. As minhas cores não mudaram, são geralmente escuras, entre pretos, terra e fogo... que não o vermelho óbvio, que nunca constou da minhas preferências: o óbvio e o vermelho, isto é. Nas unhas também nunca fui de modas, preto, castanho, vermelho escuro ou vinho em vários tons, ou então quase branco. Nunca fui dos amarelos, verdes, laranja, azul eléctrico ou cueca, ou outros chamativos do olhar. Mas hoje experimentei este azul cinza... e ainda não sei bem se gosto, mas sei que há uns anos atrás nem teria vontade de experimentar... devagarinho os gostos mudam, olhamos outras coisas e vemo-las diferentes em nós, ou percebemo-nos diferentes aí. Não sei. Entre mãos ainda tenho livros, ainda procuro outras mãos para agarrar caminhos, para me agarrar, ainda quero deixar-me mudar devagarinho para ser cada vez mais quem gostaria mais nada de ser e como. Nessa altura não sei que cores andarei a experimentar, ou se gostarei cada vez mais dos regressos reforçados de mim. 

sábado, 9 de abril de 2022


 Uma coisa ou outra. 
Mas eu apostava na outra, da maneira que isto está...  


 Este ano ainda não tinha tirado a foto da praxe. Vergonha, talvez. O ano passado só aviámos 9 livros, sendo que o do Afonso Cruz nem conta bem, de tão levezinho que é. Acabei o Quarteto da Alexandria, e gostei, gostei do MST, a sério que gostei e aprendi umas coisas... ainda que seja um formato diferente, mas deu-me uma fome imensa de fazer o que fez e descreve ao principio, ir para uma vila de pescadores no fim do mundo deixar que a paisagem que vê lhe ponha as palavras por ordem de escrita. Fiquei com uma vontade imensa duma licença sabática dessas, para mim, para as palavras, para as paisagens. Uma especie de retiro alentejano dos meus, mas prolongado e afastado - ainda mais. O Julio Machado Vaz é já quase um hábito, gosto de o o ouvir e de o ler, aprendo sempre. Há frases daquele livro que muita gente devia ler, muita gente devia reflectir. A louca da casa foi uma surpresa ao reconhecer muito do que se diz ali, por as vezes parecer que há ali coisas e sensações que conheço bem. As frases que acordam connosco e não nos largam, palavras com que sonhamos e a que nos agarramos para não esquecer não sabemos o quê... gostei do livro. O livro seguinte, do sentido da dor, li porque me recomendaram, não me fez pensar, não consegui ver o que acho que deviam querer que eu visse. Não é por a dor ter um sentido que faz mais sentido senti-la, não consigo ver ou sentir isso assim. O Perez-Reverte, autor do livro que mais recomendo e o livro com a personagem feminina que mais me marcou, não me impressionou com os seus cães assassinos de profissão. Lê-se bem, está certo, mas não há muito mais ali que dizer além dumas ilações básicas de como o instinto de sobrevivência é rei e senhor de todas as criaturas. As desoras do Cortazar, como em muitas coisas do Cortazar, umas são geniais outras parecem mas ficam longe... não poderei dizer muito mais deste livr porque já não me lembro... e isso quererá dizer alguma coisa, né?
Este ano acho que ainda não acabei nenhum, e já vamos em Abril. Ando miseravelmente a mastigar o Kundera que li na minha adolescência e agora parece empastelar-se nos dias, e eu, sem vontade de coisa nenhuma, vou-o deixando empastelar e ganhar pó. Não pode ser, eu sei, mas algo me anda a faltar, e sono ando a ter de sobra. Não sei se o vírus afinal não era do sono... hoje dormi mais de doze horas. Fora de brincadeiras, há anos que não dormia tanto. Qualquer dia pareço um bebé :))
Hoje já tenho carta de alforria... e está sol, pasme-se. ;)

domingo, 3 de abril de 2022

 
Ahhh... sermos positivos, porque coisas boas atraem coisas boas, o positivo atrai o positivo (não só desafia todas as leis que conheço da física, como os fundamentos da minha racionalidade, mas desafios, desafios é o que precisamos!!)... Ahhh precisas de pensamento positivo, vais ver, precisas de ser mais positiva...e então começas a ver Luz ao fundo do túnel ... e é a loucura a felicidade, a emoção!! Começam a acontecer coisas boas só de pensares nelas e acreditares (e a sério nem precisas pertencer a um culto e pagar o dízimo, é só dizimar toda e qualquer racionalidade e lucidez e estás pronto!). E então mando uma mensagem: querias tanto que me tornasse mais positiva que te fiz a vontade no teste covid, conta?? 

(pelo menos riu-se, para isso contou...)

sábado, 2 de abril de 2022


 Não, hoje não. Ontem também não... coitadita tem de passear mais, também acho. E eu também. Passear mais. Hoje foi dia de massagem, depois brunch fora de casa, num sítio onde ainda nao tínhamos ido. E agora café. Pela primeira vez café com a miúda pequenitates num café. Dantes vínhamos as duas mas o café era só um... desde que vinha no carrinho, passava para o meu colo e adormecia enquanto eu bebia o café e as vistas e a fauna local. O tempo passa afinal.

quinta-feira, 31 de março de 2022

 

Há coisas que só são estúpidas

 quando lhes tentamos atribuir uma razão.

quarta-feira, 30 de março de 2022

 Sai-se ainda de dia do trabalho agora, e apetece mais o hábito de fazer a ponte entre o trabalho e a noite, esticar as margens enquanto se fuma um cigarro ou dois. Então dá-se rumo a esse desejo e a um pedaço de silêncio. Olhamos as nuvens no horizonte, e do por do sol aprisionado imaginamos as cores quentes de que se gosta o céu pintado. As árvores abanam-se na sua dança do vento e a janela semi aberta deixa entrar o som dessa dança que nos dança nos ouvidos. Não é o meu Alentejo mas dá uma certa paz, e devolve-nos algum tempo. Algum não vem ser memórias, mas estão talvez apaziguadas, inofensivas quiçá.

terça-feira, 29 de março de 2022



 Jantar com esta vista alimenta tanto ou mais do que o que vem no prato... e nem o frio estava motivo de queixa... muito bom.

segunda-feira, 28 de março de 2022

... eu, hoje.

Ahhhhh vida de pobre!! Ontem eram três da matina e nada de pregar olho... voltas e voltas e nada... quatro horas depois pimba... salta lá da cama que pobre tem de ganhar a vida... cedinho cedinho .... bahhhhh quero dormir (no Alentejo de preferência, mas já estou por tudo, a sério...)
 

domingo, 27 de março de 2022

 



Está na hora de me pirar. Bebo um café cá fora, a olhar a vista e a pinha que não me caiu na pinha, apesar do vento estar com um certo feitiozinho hoje. Oiço no espotifas música destes meninos, que foi quase sempre a banda sonora deste lugar. Porque me apetecia a sonoridade ou talvez porque acho que combina com o sítio além do espírito (esta não é a minha preferida deles, mas essa já a pus aqui e noutros lados algumas vezes, não a vou repetir aqui repeti-a e respirei-a várias vezes nestes três dias).
Acho sempre pouco este tempo que me permito. Demoro a vir, a conceder-me, mas quando venho sabe sempre a pouco. A muito pouco, e dividido ainda com o portátil do trabalho, que aqui até parece que custa menos... E não é que não tenha para o que voltar, tenho a minha miúda cada vez mais minha, cada vez com mais piada e alma, cada vez mais uma companhia que me falta, não só por ser mãe dela e me faltar também cuidá-la, e dar mimo, mas a pessoa que se está a tornar. E digo-vos com um sentido de humor que não só me escangalha a rir, como me enche de orgulho, pela inteligência pela espontaneidade, pela perspicácia :) sim sim também sou mãe babada, pois claro. 
Bem mas agora, preparar tudo e rumar a casa, devagarinho, que este tempo de regresso também é tempo.

 Está um frio de rachar, nem com a manta a coisa se torna mais amena. As luzes apagadas aqui e lá em cima.  Oiço música ao longe, parece que há uma discoteca por aqui... surpreendo-me como se tal fosse surpresa. Escuto e há outros barulhos que não o sr. Javali a fuçar a poucos metros como ontem, e que não consigo identificar. Fumo um cigarro e vou para dentro. Já são horas é amanhã há regresso duma estadia demasiado curta. Ficava aqui mais uma semana assim. Dizem-me que se algum dia me mudasse mesmo para um destino destes me fartaria, me cansaria depressa, mas quanto mais venho menos acredito. Quanto mais me conheço mais aqui me quero. Assim, longe de tudo perto do que apetece e posso ter. Mesmo que assim, de fugida mas com pé no regresso. E se não o pé, a alma.

sábado, 26 de março de 2022


 ... e quando se deixa o resto para trás, às vezes reencontram-se sítios bons, gargalhadas novas ou renovadas, longas conversas em baloiços velhos (e um que mal se segurava mas não deixou cair ninguém...), praias desertas com a banda sonora original depois de esplanadas à pinha com música além dos decibéis aconselhados (ou que eu aconselharia) numa paragem para café e observações da fauna local, ou emprestada de Lisboa como era o caso... O sol nunca queimou mas também nunca nos deu frio. Às vezes vimos para estar sozinhos e estamos com pessoas que nos fazem tão bem e nos entendem tão bem como estarmos só connosco. É talvez paradoxal, estranho mesmo até certamente, mas as pessoas que mais gosto são aquelas com quem estou como se estivesse sozinha, estar com essas pessoas é estar comigo inteira, e são as únicas que são capazes de me arrancar da solidão, se e quando a sinto. A solidão, aquela verdadeira, que mais não é que saudades de alguma parte de nós a que não chegamos sozinhos, estados de alma que precisam de alguém que nos leve pela mão até aquele ponto de nós. Talvez porque a certo ponto já são parte de nós, e é lá que às vezes nos encontramos de novo. Não trocava a minha solidão por nenhuma companhia que só faça número, mas me deixe mais só que sozinha. Porque há essa grande diferença. E continuaria aqui, sozinha ou com quem não se estranha partilhar o silêncio das ondas sem ter de se dizer qualquer coisa, porque é suposto para alguém. Mas não para mim. E agora fazer o jantar. Para mim :)

 


[Alejandra Pizarnik, Antologia Poética]
Descobri a cadeira que vou comprar para a minha varanda... é espectacular!! Adoro!.. o balançar, o conforto, tudo. Sentei-me ali depois do ioga, hoje no deck aqui mesmo em frente, do outro lado do vidro, ao som dos passarinhos. Um concerto in locco, sem ser gravado para o efeito de acompanhamento zen :) Estava um bocadinho fresquinho lá fora, mas fui deixando de o sentir. O que senti mesmo é que estou muito empenada e tenho de deixar de ser preguiçosa, senão qualquer dia mal me mexo. Depois sentei-me cá dentro, ali naquele balançar que embala, e deixei-me ficar, a olhar a paisagem, a ouvir o espotifas, e acabei por ir buscar a Alejandra para companhia. Gosto muito de alguns dos poemas dela. Se eu escrevesse assim, não precisava de falar mais. Há frases dela que guardo sem esforço de memória "partiu de mim um barco levando-me" "tão longe pedir, tão perto saber que não há". E há coisas que sei que não há, duvido que alguma vez haja, ou até que tenha havido. Estou descrente, ou só lúcida - ainda mais lúcida. Viajo já com o copo vazio, provavelmente... Já não sei onde a descobri, a Alejandra, mas sei que foi por acaso, na net. Deparei-me com coisas assim, destas, que me leram por dentro de alto a baixo, e fui atrás de mais. Tristeza só ter encontrado em português esta pequena antologia dela. Curioso pensar que muitos dos poetas que mais me arrebataram suicidaram-se, viveram todos para além das fronteiras que o ser aguenta, e nem as palavras lhes serviram de válvula de escape... mas serve-me a mim muitas vezes a intensidade deles tão impressa por dentro dos sentidos das palavras, serve-me para sair de mim e encontrar-me. E aqui me vou lendo nos poemas que ela escreveu. Acho que a poesia serve para isso: para nos lermos. Talvez por isso ao longo da vida vamos lendo as mesmas coisas de forma diferente. Porque nós somos sempre os mesmos, mas o olhar, o nosso olhar sobre o mundo, vai mudando. As formas talvez sejam as mesmas, os contornos tornam-se menos definidos, mas as cores... ahhh as cores, as cores nós fabricamos por dentro, só nossas, e sim essas vão variando, tenho a certeza. Quem poderá dizer que o branco dos nossos quinze anos é o mesmo de agora? O nosso olhar, como a nossa compreensão e incompreensão das coisas, vai aprendendo, vai-se moldando, vai-se construindo e desconstruindo em cima dos pilares da nossa essência. A maneira como vemos as coisas vai mudando. Oxalá assim seja com muita coisa. Que tudo passe a ser sombra da sombra que pensávamos não ser. E cuidado, muito cuidado, com quem percebe que nada é o que é agora, que só a sede não tem dias, e que há coisas que não há... e pedir está sempre fora do alcance. Por orgulho, ou melhor, muito melhor, por lucidez.

sexta-feira, 25 de março de 2022

 Cá fora, enrolada numa manta, olho para cima, acima de mim está uma pinha que não tarda me cai na pinha venha o vento de feição e intenção. Ao longe oiço cães a ladrar enquanto carros passam a rasgar os barulhos da noite, que são silêncio. Este silêncio dos sítios de sossego, de lonjura, de tranquilidade doce. Daqui a uma hora as luzes daqui de fora desligam, vão dormir, os carros também. Os cães provavelmente continuarão a ladrar. Eu provavelmente aqui estarei outra vez, o olhar de soslaio a pinha que me quer acertar na pinha. Ao longe a tocha enorme continuará a queimar e a iluminar o horizonte, ainda que escondida por trás dum manso pinheiro. Assim são as coisas. E as metáforas que tão bem lhes assentam.

 

Acordo com a dor de cabeça da praxe. Sinto a cabeça pesada como o cinzento que cobre o céu e o puxa para os ombros da terra. Tem sido assim nos últimos dias, passa depois de tomar o café e o tempo assentar no dia que começa. Hoje, além do dia de ontem ter acabado só depois das oito da noite no trabalho, ainda sonhei com trabalho. Têm razão. Eu agora é só trabalho. E casa, e pouco mais. Mas tem de ser mais. Hoje vou tentar recomeçar esse mais, esse pouco mais. Cortar no trabalho (prometo-me tentar a partir de agora... e já me lembrei que à tarde vou ter de ligar o computador e fazer coisas...) e voltar a querer tempo para mim. Para me aproveitar, a minha companhia, falar com o meu por dentro outra vez. Não viver a correr, sem sequer fazer planos, e não fazer só planos, vivê-los. Voltar a passear por aí no sossego das paisagens, às vezes com a miúda, outras com a tracção às quatro patas, outras sozinha, como hoje. Não sei explicar porquê, mas andei a adiar voltar a passear sozinha. Talvez a pandemia me tenha habituado a ficar em casa, e achar isso confortável. Dizem-me que sou das pessoas que melhor deverá ter lidado com o confinamento, e eu tendo a concordar... não me fez grande mossa, fiz o que já fazia e gosto de fazer, só que em casa: ler, ouvir música, escrever (cada vez menos), devorar séries, apanhar sol quando o há, aproveitar o sossego, e na pandemia as ruas andavam tão sossegadas. Quando passeava a cadela à noite era um sossego e uma tranquilidade, só às vezes ensombrado por alguma sensação de eventual insegurança tal chegou a ser o deserto das ruas. Só as razões para tudo isto eram más, e a paisagem e os caminhos não se comparam com os que aproveito quando vou sozinha uns dias por aí. O serpentear das estradas nacionais para qualquer lado, o mar que espreita tantas vezes, descobrir alguns sítios quase vazios (e hoje não saber voltar se quiser), parar onde quiser se quiser e quando quiser. Comer um peixinho grelhado numa esplanada vizinha do mar, se o sol convidar. Sentar-me a olhar o horizonte que parece infinito para me sentir pequenina. Sei lá, tanta coisa que já fiz e tenho saudades. Tenho às vezes saudades de mim. Mas algo me andava a prender os passos, o primeiro passo talvez. É sempre o que custa mais, o começar, o arrancar, um principio de qualquer coisa. E hoje vou, à tarde, depois de almoçar com a minha miúda, já estar de olhos postos no meu olhar a sul, como quem deixa o resto e ruma a si. Levo três livros: poesia da Pizarnik, Al Berto para petiscar e o Kundera que comecei e não continuei. Olho para isto e penso que esta escolha é um jogo de espelhos comigo, talvez para me lembrar que eu sou várias coisas, e que me fazem falta, por muito que as tente enterrar debaixo de horas de trabalho, e de outros eus também meus. 
Vou, levo música, três livros, um olhar cheio de vazios, e só levo quem me está dentro. E levo gente a mais, ainda assim me confesso. Raio de penduras :))

domingo, 20 de março de 2022

 

Dizem que a Primavera chega hoje. Deve ser muito low profile a moça, quer chegar sem dar nas vistas, só pode. Eu aqui, de pijama ainda, não espero que me bata à porta, ou à janela. E digo-vos já me preparei para ela, até já me muni de vestidos leves de primavera esvoaçaste... mas não, nada até ver. O céu está tapado e sem sorrisos quentes. Eu ainda de pijama, depois do brunch das preguiças, no sofá a olhar a falta que a primavera começa a fazer. Não ao tempo, não ao céu, mas falta a primavera da alma, ou o outono, acho que estacionei há muito no inverno fechado, sem gorro, sem cachecol que abrace, e sem chuva que acorde ou guarde nas mãos. E palavras, palavras que aconcheguem e aqueçam a lareira a crepitar sozinha na escuridão duma noite que dura todo o dia.

quinta-feira, 17 de março de 2022

[alejandra pizarnik]
 

Estranhamente 
fui desperdiçando silêncios 
viciados em palavras. 
Até guardar silêncios 
que não suportam
palavras usadas.
Todas as palavras puras
estão silenciosamente 
por usar
Gastei-as todas
em silêncios que não vivi

terça-feira, 8 de março de 2022


 É que nem tive coragem (ou tempo) de dizer que não sou apreciadora do dia, e que nunca me lembraria sequer do dia, menos ainda de esperar flores e coisas... pimbas... toma lá e agora toma o pequeno-almoço :)))) 

sábado, 5 de março de 2022




Até agora foi isto... acordar com fome sem pão em casa. Calçar umas sapatilhas e a farda para o ioga daqui a pouco debaixo de um casaco, óculos escuros a filtrar a manhã já alta, atrelar a doida da ninja e sair de casa. Deixá-la correr como se o chão amanhã pudesse fugir, ou já daqui a pouco, na pressa de gastar o ar que o sol aquecia. Elegante de corpo e corrida, destrambelhada de maneiras e pateta por natureza dá gosto ver a criatura correr de ponta a outra do jardim enquanto os meus pés quietos se aquecem ao sol. Depois das primeiras energias esgotadas rumamos ao pão e contra todas as expectativas a doida não se portou mal... sentadinha a guardar o poste que lhe mandei enquanto fui comprar o pão e cheirar o sabor do pão quente. Regressámos, e foi direita dar a cheirar à mãe os cheiros que trazia, mas ela estava filada no cheiro do pão que o saco guardava. Não foi dia do costumeiro brunch,  hoje só fruta, chá e torradas de bolo de Ançã que a minha filha já comia antes de nascer e que adora, mas que hoje não comeu. Depois de repente atentei numa mensagem no chá... das que a mim me dizem pouco, de energias positivas e bla bla bla, quando virei a outra fez-me mais sentido, mas continuo a sentir que há mensagens que nunca poderão ser mensagens expresso, parangonas boas aos ouvidos que mais das vezes não passam disso mesmo. A banda sonora faz-me sorrir neste trecho que aqui deixo:

Do you think you can tell
And did they get you to trade your heroes for ghosts
Hot ashes for trees
Hot air for a cool breeze
Cold comfort for change

Não sei se vai ser um bom dia, acordei faladora e bem disposta cheia de preocupações por dentro dos olhos, mas este pedaço de dia soube-me bem. Agora ioga e banho!
Bom dia!

 

sexta-feira, 4 de março de 2022


 ... onde faltam vírgulas e pontos finais. onde as reticências são abusadas em divagações lentas ou imaginações urgentes. onde todos os sentidos têm sentido, sentindo-se. lê-me ao ritmo certo, onde o meu é o teu, numa dança a dois, duma música só nossa. pautas ainda por escrever, feitas de silêncios e entrelinhas, onde todos os significados significantes são entendidos sem explicação. lê-me onde não digo nada, onde muda me espero e tu me adivinhas. lê-me a pele na tua. Estou cansada desta aliteracia quotidiana. destes best-sellers de trazer no bolso de histórias take-away da carochinha que nem chegam a casa. dá-me algo que eu queira ler com a pele, e revisitar cada página todas as noites e ponto final.
parágrafo.
mudar de linha.
de livro.
de tudo.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

 

A essas pessoas a quem ajudei sempre que pude, quem defendi quando ameaçadas de alguma forma, e que agora me tentam queimar para sobressair, ou por qualquer razão que não quero conhecer, só me ocorre agradecer-lhes. Não fora isso é continuava a pensar que eram o que não são. Assim sempre se distingue melhor o trigo do joio, e em discurso directo. Custa, mas é melhor assim. E lá me lembro da frase do meu tio com que sempre embirrei por a adivinhar demasiado certa: “nunca ajudes ninguém, que o gajo nunca mais te perdoa”. Válido para todos os géneros. 

[verdade seja dita que o plural com que escrevo é neste momento uma hipérbole... mas também pode ser um resumo, porque houve mais... mas lá está, esses já os remeti para longe, não me preocupo mais com essa gente]

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

[Vasco Gato]

 Uma pessoa esquece-se de viver no rodopio das horas que viram dias que contam semanas e parece que nem respiramos. Não nos lembramos disso. Será que fazemos o que não nos lembramos de fazer, de ter feito? Certamente que sim, mas será que conta?? Se não nos lembramos de respirar sabemos que respirámos, e sabemos porque se nos faltar o ar damos conta. Mas daremos conta quando nos falta a vida? Algo em nós se sobressalta se nos falta a vida? Não. Não para quase todos. Há pessoas diferentes, com sensibilidades diferentes, necessidades diferentes, sangues mais ávidos, corações mais fortes na sua sede. A mim só me dou conta que me esqueço de viver e de sentir, se não escrevo. E quando digo não escrevo, não apenas assim, em palavras enfileiraras a caminho de algum lado a contraluz do ecrã branco... escrever por dentro, em palavras que não se dizem, mas nos valsam na cabeça, que fazem a festa no silêncio duma música própria que mais ninguém ouve, mas onde há palavras que dançam e almas que (se) compõem.  

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022


 Estava frio, mas soube bem… fazer tempo até ao jantar, debaixo da lua, cheia de si, caminhar ao longo do rio, vê-lo a, devagar, encaminhar-se para onde tem de chegar sem saber, apenas corre, ao sabor das forças que o vão levando. Não pensa, não quer, não escolhe. Há-de lá chegar, mesmo não sabendo como, ou porquê. Nem sequer é destino, é o que tem de ser. Há-de pertencer ao mar, e não mais distinguir-se dele. Será mar. Nós seremos o quê?

domingo, 13 de fevereiro de 2022


 Vejam lá, o tempo está a passar, e depressa :)) 

Este ano até me lembrei deste dia antes do dia e de ser bombardeada pelo consumismo habitué em tudo o que é loja ou publicidade, e das manifestações facebookianas de felicidade, frases de “hoje e todos os dias”, jantares e prendinhas que proliferam no dia. Já o disse aqui, acho esta e outras datas, uma óptima desculpa para se fazer uma coisa diferente, uma brincadeira, uma noite diferente a dois, sem restaurantes prendas e afins. Quanto mais não seja, se a vida corrida nos varre tanto tempo, há datas que nos dão desculpa para - se quisermos - as aproveitar. Não uma obrigação, mas mais uma (podem inventar-se mais, e à discrição...) desculpa para fazer o que se quer…sempre que se pode. Não algo para mostrar, mas para celebrar a sorte de se terem, e gostarem. De se pertencerem. Mas talvez seja (muito mais) raro…

sábado, 12 de fevereiro de 2022

Um sábado em que caí da cama. Melhor, empurraram-me. A miúda tinha um exame de manhã, e toca a levantar para a ir levar. Depois, mal feito, ronha desfeita, lençóis que esfriaram... resolvemos pegar num livro e ir cheirar outros caminhos. A tracção às quatro perdeu-se com tantos cheiros, sempre de nariz no chão... feliz da vida, qual alquimista com as suas essências :) eu atrás dela, à espreita de perigos quando a soltei para que pudesse apreciar a manhã com os caminhos soltos debaixo das patas. Depois fomos ao cafézito improvisado que por ali há, beber um e  (re)começar um livro que li devia ter uns dezasseis anos, e que há dias ofereci a alguém. Recebi na volta do correio outro igual, com uma dedicatória gira porque disse, quando lho comprei, que gostava de o reler agora com outro olhar. De modos que é uma leitura mais ou menos conjunta, tipo clube de leitura :)) mas à distância. Quem não ficou muito contente foi a Pintarolas quando começou a ver que à distância iam ficar aqueles cheiros todos, o verde, o rio, o parque de sentidos que ela tanto gosta de explorar... voltámos a casa, mas ela, triste, vem feliz. :)

 





 O antes…


E o depois…

... podia ser a história de um jantar :))

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

 E talvez assim o tempo passe melhor entre o despertar e o adormecer de conversas e desconversas, risos e silêncios, entre desvendares e pequenas descobertas, que contrabalançam o que se guarda sem esconder. Cada descoberta é um risco, cada conversa uma rede que nos ampara, mas nos vai prendendo numa segurança só aparente. Mas o tempo passa e não avisa o que muda, ou se muda alguma coisa. A vida é a mesma, mas sabe a diferente, ligeiramente diferente, mas não descobri em quê. Os fins de dia, esta ponte que teimo em fazer ritual, permanece. E eu também. Perguntam-me o que é para mim paixão, e dou por mim a pensar numa resposta com palavras, sempre curtas por mais que se estiquem. Paixão é em essência uma força motora. É o que nos faz fazer as parvoíces mais parvas carregados de razões que sabemos não existirem, mas que sentimos até aos ossos. É como uma força da gravidade que nos puxa incessantemente para o sonho onde mora a nossa felicidade - penso, e sai-me nestas palavras. Mas podiam ser outras, ou uma imagem que guardamos, um cheiro, um momento que enche todas as paletes de cores numa fotografia intemporal a preto e branco. As cores são nossas, as palavras são de toda a gente. A paixão de poucos.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022



[foto @gregbionde]

Há um sítio onde as almas se sentem confortáveis. 
Não é um sítio. 
São outras almas 
como casas com o nosso cheiro.
Que não é o nosso.


 ... pode ser ainda mais engraçado
 se de vez em quando as porcas forem às duas da tarde, 
sem que mais ninguém perceba,
 e as profundas às duas da manhã, 
sem mais ninguém por perto.
Gargalhadas com livre trânsito em todas as opções :))

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022



[foto @nicoladavisonreed]

O que me entristece é eu ter-te dado os melhores anos do meu corpo

O que me angustia  é eu ter-te dado os melhores anos da minha vida

O que me revolta é eu ter-te dado o melhor de mim

E teres feito de tudo o pior.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

 
Há maus hábitos que são bons.

Talvez não sejam muitos, mas há. Trocar umas horas de sono por alguns dedos de conversa com uma garrafa de vinho por testemunha é capaz de poder preencher os requisitos…

segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

 

O dia desponta cedo no cinzento que derramaram no céu, tão cedo que ainda está frio  para o nariz fora do gorro e as mãos fora dos lençóis quentes,  o carro avisa da possibilidade de gelo, eu aviso-o que é tarde para me avisar de gelo no meu caminho… e com estas conversas continuamos rumo ao que nos espera. Cedo, demasiado cedo. Para a minha preguiça e saudades de caminha quente, pelo menos…

sábado, 29 de janeiro de 2022


 [@zackmagiezi]

...um dia.
Isto sim, era um dia.
Um amor.
Uma vida.

Um sábado de manhã 
de segunda a domingo à noite.
Com umas virgulas pelo meio.
Sem muito, com tudo.

Bom Sábado:)

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

[imagem @annaedholm ]

"E para que serve o amor, diz-me já?
Serve para vencer o medo. 
O amor é sempre o mesmo, a vida é que é sempre diferente."

Pedro Paixão, in Muito, Meu Amor


Será, será sempre diferente? e o Amor o mesmo? é por isso que se gasta e a vida parece sobrar?
que já não sabe ao mesmo? que ao fim de algum tempo já não se acredita?
e depois deixamos de saber para que serve?
quando já nem medo temos?

quarta-feira, 26 de janeiro de 2022


 É isto. É só isto.

Uma grande diferença pelos mesmos vinte minutos. A diferença está na vontade, no querer estar, querer ver, no valer sempre a pena, porque se gosta de estar, ver, tocar, falar, tudo ou o que for… e então há vontade, imensa, real. Se não houver não vale a pena, nem vinte minutos nem vinte horas, nem vinte anos. Nada. Há momentos que valem anos.

domingo, 23 de janeiro de 2022


O ioga que não apetecia mas depois me soube bem. Depois o brunch com tudo que tínhamos direito e nos apetecia, com música antes e durante, com cães à volta, a chatearem de não pararem quietos a querer o seu quinhão do que se preparava. Depois o café, com sol e vagareza, sozinha sem estar só. Agora banho e depois talvez sofá, se calhar um tico de trabalho. Não me apetece o amanhã. Ando assim, sem vontade que as semanas comecem, mas quando começam, perco-lhes o fio, tal a velocidade que se embrulha no tempo. Quase não dá para pensar senão no trabalho e no cá e lá atrapalhado em que corremos. Só se pára ao fim do dia, uns parcos trinta ou quarenta minutos para fumar um cigarro antes de rumar a casa, e depois na sexta, aí começamos a ver o tempo, a senti-lo, e a não o querer largar da mão para entrar noutra espiral, que sendo a nossa vida mais parece que no-la rouba… mas por enquanto o sol, e os olhos fechados.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

 


Sim?
é um bom mote para o fim-de-semana...

 

Ehehehe

Aceitam-se candidatos

(seleção por entrevista. Se souberem ler, e o que ler, podem ganhar pontos logo na casa de partida. também válido para o saber apreciar o que beber…)

[bem sei que aqui agora só se leem disparates mas estou com muita vontade de disparates e parvoíces… com vontade de arranjar razões para me rir ou fazer rir. Isto passa, não há problema]

domingo, 16 de janeiro de 2022

 
Eheheh…. 

…O que me faz lembrar que tenho de saltar da cama e dedicar-me ao ioga… não que me apeteça, mas faz-me bem, e eu tenho mais de 1,65mts :))) 

[… mas convenhamos, o verdadeiro templo não será uma questão de tamanho, mas de outras dimensões, daquela dimensão que leva até si os peregrinos com vontade e fé… digo eu. E muito haveria a dizer sobre essa vontade e fé :))) ]

Bom domingo ;)

 Sento-me no degrau frio da varanda a fumar o último cigarro do dia, à minha frente a lua vaidosa e luminosa faz-me companhia. Mesmo que não levantasse o nariz para a ver no céu em todo a sua beleza estonteante, ou se estivesse escondida num canto do céu a que os meus olhos não chegassem daqui, via-a em tudo ao redor, através do seu luar pousado em todas as coisas. Há certas coisas que não precisamos olhar directamente para ver. Ou conhecer para saber. Onde há luar, há lua. Onde há sombras, há luz. Às vezes as entrelinhas sabem melhor. Afinal o luar não será apenas o sol a dobrar uma esquina que diríamos impossível? 

sábado, 15 de janeiro de 2022


Ahahahahaha….

O que eu me ri…

Se me respondessem isto, com aquele ar meio malandro meio no gozo, numa cumplicidade que abraça estas brincadeiras, acho que achava tanta piada  que ele já não ia pescar… e íamos era directos para a mesa… sem maquilhagem :D

(se bem que não me estou a ver com alguém que pesque, mas…)

Pedir alguém com um sentido de humor cúmplice não é pedir demais, pois não? É que as vezes parece, tal é a raridade da coisa…

Mas pronto, meninos, olhem boa pesca!! :))

quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

 


Às vezes lembro-me do que sou relembrando o que fui, o que escrevi, como senti. Faço por vezes esse exercício difícil de me olhar pelo retrovisor, leio coisas antigas que vivi e de mim escorri em linhas onde desejei descoser-me, libertar-me, salvar-me do silêncio que tantas vezes transborda. Transbordou. Surpreendo-me quando gosto de me ler, quase me duvido na certeza que senti tudo pelas costuras, sempre em dor, tantas vezes em esforço de vida. Uma sobrevivência sempre no limite das forças, onde o que mais doía era a felicidade incontida que alguns instantes continham e que a eternidade ainda guarda para me lembrar. Não sei de quê, não sei de quem. Talvez de mim. Mas para quê? Uma linha de luz descosida na escuridão enredada dos dias. Há uma certa luz que se apagou de mim. Nem sempre quebrar a escuridão ilumina.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2022


 Prenda de Natal (ou de aniversário, fazer anos em Dezembro dá nestas dúvidas…) tardia… e antes que se faça tarde vou já começar a comê-los, que amanhã já cá tenho mais uma gulosa para me dar cabo da prenda. E vou começar pelos meus preferidos, que não sabemos onde estaremos amanhã, ou eles quando chegar a pirralha de muito tamanho. 

Vai um chocolatinho? Mas só virtual, que os chocolates são poucos para dividir a minha gulodice … :)

domingo, 9 de janeiro de 2022


 - Por que é que o fazes?

Foi a pergunta que há dias me surgiu, enquanto  encerrava o dia e deixava os monólogos invadirem o tempo de um cigarro - como agora com a chuva pequenina a molhar os vidros, e o cigarro a queimar-se em fumo. Tal como a pergunta, também a resposta não tardou. Já a sei há muito, e não mudou. A razão não mudou, nada mudou nas coisas que não entendia. Talvez só agora a veja, nítida e plena, como uma resposta real duma conversa verdadeira que nunca existiu. Para me perguntar. Para pensar na pergunta, na resposta, no como, no para quê, na razão... para pensar, só. E enquanto se pensa, o tempo entretém os monólogos, suspende momentos, invade as noites, entorpece-se e paira. Tropeça-se. E não terá outro propósito, mas tem um fim: a resposta.

Tem esse fim, mas não termina nada senão o raciocínio.

sábado, 8 de janeiro de 2022

 Está um frio de rachar (diz aqui oito graus, mas parecem ainda menos) e eu abro mais a janela. Talvez precise sentir os ossos. Talvez precise sentir. Talvez precise desse sentido do desconforto para acordar não sei de quê, e não sei o quê. Talvez sinta calor por dentro e queira compensar com o frio do mundo do lado de fora do carro. Talvez queira ouvir melhor o silêncio e os seus ruídos apaziguadores. Talvez não me queira ouvir e o frio me obrigue a acordar o corpo do lado de fora, para ouvir o mundo, para se concentrar nele, para o sentir como um arrepio. Para abandonar o meu mundo. Talvez seja só porque quero fumar mais um cigarro antes de recolher a casa sem ter feito nada do que não me apetecia fazer, mas devia. Talvez.




 ... é mais ou menos isto.

A vontade oscila entre sair do sofá ir apanhar ar frio, ver gente, uma paisagem diferente da que me entra pelas janelas (e às vezes surpreende… ontem apanhei a lua no céu,  linda de morrer, corada ou em fogo, mas tão pouco tímida, num sorriso de derreter escuridões… assim aqui, da vista do meu sofá…) , ou ficar aqui, sentada no sofá, enrolada numa manta com a cadela aos pés e o chá ao lado enquanto passeio pela net a ler coisas, ou a ver um filme, ou, agora mais raro e não sei porquê, a ler um livro. 

Faz-me lembrar aquela coisa de ter um anjo e um diabinho em cada um dos ombros, cada um a dizer sua coisa... mas ser surda de um dos lados!... adivinha-se qual é que oiço sempre, né?

[além disto tudo, deste dilema bicudo, tenho de ir ao supermercado, e estou cá com uma vontadinha que não vos digo nada...]


quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

[foto @kat_in_nyc]
 
Talvez haja uma linguagem por descobrir onde os pensamentos do coração falam, e viajam pelo espaço onde não existe tempo, não existe passagem, não existe movimento. Onde o tempo parado não imobiliza. 
Uma linguagem que só quem sente, fala. Só quem sente falta, sente. 
Uma linguagem feita de silêncios, onde a única coisa que falta é silêncio.

[fiz uma pesquisa no blog para encontrar um post, procurei pela palavra silêncio. há 179 posts neste blog com essa palavra. encontrei o post que estava à procura, contra todas as probabilidades. lembrava-me dele, lembrei-me.]

sábado, 1 de janeiro de 2022


Não te rendas, ainda estás a tempo
De alcançar e começar de novo,
Aceitar as tuas sombras,
Enterrar os teus medos,
Libertar o lastro,
Retomar o voo.

Não te rendas que a vida é isso,
Continuar a viagem
Perseguir os teus sonhos,
Destravar o tempo,
Remover os escombros,
e destapar o céu.

[...]

Não te rendas, por favor não cedas,
Mesmo que o frio queime,
Mesmo que o medo morda,
Mesmo que o sol se ponha e se cale o vento,
Ainda há fogo na tua alma,
Ainda há vida nos teus sonhos
Porque cada dia é um começo novo,
Porque esta é a hora e o melhor momento.
Porque não estás só, porque eu te amo.

Mario Benedetti, traduzido por Inês Pedrosa

É um dos autores que gosto muito, passei por este poema e achei-o perfeito para ontem, ou para hoje, porque não? Costumo sempre escrever no último dia do ano, e deixar aqui meia dúzia de pensamentos, ou desejos, ou sentires, ontem não me apeteceu. Não, não foi bem não me apetecer, foi ir adiando porque havia isto e aquilo,  e sempre o isto e aquilo me pareceram mais importantes, ou me apeteceram mais (sim, talvez) do que vir aqui escrever. E  a questão é que  fiquei a pensar nisso. Por várias razões. Uma é que reconheci a sensação que tantas vezes me relataram "ahh não deu, pensei nisso, lembrei-me,  mas adiei, e fui adiando, adiando, até que depois não fiz, não deu, desculpe"... não qualquer coisa, basicamente. E eu reconheci o estado de espirito, a desculpa, o até querer, até pensar, mas não ser prioritário. Reconheci como um sussurro do fundo da alma que não sabe se se quer fazer ouvir, ou não; mas ouvi-o e aqui o reconheço e lhe dou voz. Para quê calá-lo se o ouvi?...  A outra razão, é porque parece-me que não há mais como negar que algo mudou em mim, não sei o quê, nem como, nem para o quê, mas mudou. Continuo a gostar de escrever e a fazê-lo, mas menos, preciso-o menos. Penso nisso enquanto vejo o último por-do-sol do ano na minha varanda e olho para memórias no telemóvel. E vêm-me à boca palavras, não sei de onde, que me dizem que dantes o que escrevia eram pontes entre mim e alguém, agora o que escrevo é só uma janela de mim, ou para mim. Uma varanda onde precisa, de tempos a tempos, de dar o sol, de respirar a brisa, de sentir a poesia das coisas, de ser.  

Dantes era supersticiosa com a passagem de ano (penso que já aqui o disse, que é das poucas coisas com que o era) agora não, mais uma vez me dei conta que não pedi desejo algum, que não me lembrei disso, que não precisei, não quis, ou talvez já não acredite em desejos, ou em pedi-los, sei lá. Mas uma coisa vos digo, não sou optimista - nunca fui - e não é das características com que mais simpatize, mas algum optimista inteligente teve esta ideia sublime de dividir o tempo em fatias iguais para parecer que hoje é novo, que hoje se estreia um tempo novo, um ano novo cheio de possibilidades e oportunidades e boas intenções. De esperança. A questão é que dividir o tempo não é alterá-lo, não é fazer hoje melhor que ontem, nem amanhã uma folha em branco e agora uma folha onde não podes escrever. Não, o tempo é igual, é o mesmo e sempre diferente, conforme o que fazemos dele - o que fazemos com ele. A fatia pode ser do mesmo bolo (não vale a pena pensar que a próxima fatia é de um bolo diferente), mas nada nos impede de uma vez lhe acrescentar chantilly, na outra uma bola de gelado de amendoim (adoro!!), outra vez qualquer a fruta preferida em pedaços, noutra uma compota que nos derrete, depois talvez iogurte, finalmente queremos variar e comemos a fatia simples... é assim com tudo na vida, nós é que fazemos a diferença :) 

Também dou por mim a pensar que hoje em dia dizemos sempre que não temos tempo, que o tempo é precioso, mas que voa e não nos damos conta, nem o aproveitamos - que não há tempo. Basicamente, que não há tempo para o que queremos. Eu que o diga, porque também o sinto... mas pensando bem, na verdade, tempo é a única coisa que temos, desde que nascemos. Nascemos, e a única coisa que temos é tempo, e isso continua o resto da vida, sendo que o tempo que ainda temos é cada vez menor. E sabemo-lo cada vez melhor.
Tempo é a única coisa que temos, o que somos é o que fazemos com ele e com quem escolhemos partilhá-lo. Somos as escolhas que fazemos no tempo que nos deram desde que começámos a respirar. É a única coisa que nos é dada com a vida, ou é a vida em si mesma, e ainda assim alguns têm de lutar para que possam ter um pouco mais de tempo, para esticar o seu tempo, para viver um pouco mais, esgravatar a vida para ganhar mais tempo de vida. Sim, também há isso, e é duro. Tão duro.

Lembrem-se: a única coisa que temos, é tempo. 
O que somos é o que fazemos dele, e com quem escolhemos fazê-lo.
Em Janeiro, ou em Dezembro. 
Hoje, ou amanhã, ontem é arquivo.
Não te rendas, ainda estás a tempo.

domingo, 26 de dezembro de 2021

"Depois do Natal vem o domingo da Família... da Sagrada Família. Será a família uma coisa sagrada? Hoje fala-se de famílias alternativas. Sociólogos e psicólogos falam-nos de famílias mono-parentais, co-parentais, sem filhos, com filhos de outros, com pais de outros... Em tudo isso onde estará o Sagrado? O Sagrado é o Amor, o que equilibra e faz crescer: é o que humaniza. O mundo precisa de espaços sagrados e de relações sagradas: deseja famílias que o sejam. O resto parece, mas disfarça mal a violência que esconde."

Vasco P. Magalhães

É nestas alturas - ou particularmente nestas alturas - que sinto como a minha família é estranhamente disfuncional,  ou seja, funciona à sua maneira, mas é uma maneira estranha de funcionar. É também nestas alturas que a sinto mais minha, que sei que só esta poderia ser a minha família, que esta disfuncionalidade faz parte de mim, e explica-me em muita coisa, talvez fosse a única que poderia combinar comigo. Feitios complicados para onde quer que nos viremos (menos para mim, claro... ), maneiras de lidar com a vida diferentes, ainda que com sensibilidades parecidas, e veladas. Silêncios que dizem o mesmo e conseguiriam conversar entre si longas horas sem faltar assunto... e talvez conversem. Pensei um dia poder amenizar esta disfuncionalidade trazendo à família pessoas mais normais, tornando-me mais normal por casamento, mas talvez eu tenha dificuldades em adaptar-me à normalidade formatada e lisa (e a casamentos que não têm o que eu quero). Estes formatos planos apenas escondem melhor as arestas das relações, as contradições, as naturais idiossincrasias de cada um , e de todos enquanto família. A disfuncionalidade começa onde a transparência, ou a falta de parcimónia assaltam os momentos. E aí, o sangue que nos junta, que nos une, que nos faz um, é curiosamente o que não é dito, é o que se sente,  porque sentimos com o mesmo ADN maluco e disforme: disfuncional, talvez.  Quanto mais lugares vazios na mesa há, menos parcimónia se senta connosco. E mais eu penso que não haveria outra família que pudesse ser mais minha, onde eu encaixasse tão bem as minhas desreguladas intensidades desperdiçadas, ainda que tantas vezes me apeteça umas férias desta. Mas ainda assim, há uma coisa que não se consegue duvidar, é o que temos de sagrado e que equilibra o desequilibrado caos. Sagrado, porque faz o impossível, nada mais o conseguiria. Só o Amor faz milagres, não há porque disfarçar o óbvio.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2021


 … do desejo para todas as quadras. :)

Como muita saúde, amor e coisas doces de todos os géneros. Aproveitem as vossas pessoas, a companhia que querem e procuram em todos os dias do ano, mesmo que nem sempre tenham a sorte da presença. 

Acendam a lareira e o coração
(quem tiver para acender, claro)

domingo, 19 de dezembro de 2021

 Levanto-me quando o sono está satisfeito e os sonhos se calam, visto a roupa do ioga que tenho falhado preguiçosa e indecentemente, abro a porta aos cães que foram dormir ao vizinho a noite passada. Dou-lhes de comer depois de algum mimo, ponho os fones e vou limpar o sitio deles. O dia tem sol, e sol na música. Nem todos os dias têm sol na música, hoje sim. Volto para a cozinha, tiro o ipod e ponho na coluna que me deram há anos e que descobriu finamente o seu lugar certo na cozinha. Arranjo uma taça de fruta que hoje não me dá preguiça de descascar e arranjar e o ipod pela boca da coluna devolve-me isto:


I'm an angel bored like hell
And you're a devil meaning well
You steal my lines and you strike me down
Come raise your flag upon me
And if you want me, I'm your country
If you win me I'm forever

A música dançou-me através da letra e pela sonoridade, que combinou bem com o meu sol, quando juntava a granola e o iogurte à taça de fruta já era o Jimmy Scott que nos fintava o ouvido na sua voz indescritível, lá do profundo azul onde canta.


Agora enquanto o café arrefece escrevo estas linhas que não dizem nada, que dão musica e falam de sol, e hoje até está sol, curiosamente.

 

Um dia cheio, uma noite num sítio que gosto. O dia encheu-se de pessoas que me fazem sentir bem, acarinhada, acolhida nas vidas de cada um, pessoas que procuraram estar comigo sem eu procurar ninguém. Ri-me, conversei, disse disparates e não disparates, vi o sol reflectido no rio, bebi vinho, à noite um Porto sob um luar mais frio a reflectir-se nas pedras. Brindei à vida, à minha e à de quem me quer bem. Não me deixaram ignorar a data, nem que tenho gente minha e carinho onde cair, se tiver de cair. Nós somos também as pessoas que nos rodeiam, e a maneira como nos rodeiam, como estão presentes, talvez também diga muito de nós. Gosto de pensar que sim, pelo menos. 

[chego ao fim destes dias e percebo que não tirei fotos. Nenhuma. Tiraram-me uma :) começa o ano da capícua. Gosto de capícuas, acho que já aqui o disse algumas vezes, mas nem sempre o que gosto é bom para mim. Veremos. ]

sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

 O ano da capícua. Deveria dar sorte, dará? Tinha pensado há tempos juntar o pessoal, jantarmos, dizermos umas parvoíces em conjunto e rirmo-nos um bocado. Mas não. Não vai ser. E o ano não sei como vai ser, nunca sabemos também, claro. Os últimos dias têm sido estranhos, penso nisso aqui sentada a ver a lua pelo vidro da frente a olhar para mim, a parecer mais o biscoito perfeito de nuvem do que a lua altiva contra um azul suave. Esta é a altura em que o tríptico do ano me começa a morder, a roer a alma e rilhar os dentes. Cada dente uma mágoa que se entranha nos ossos, mas olhamos para o lado e assobiamos para calar o silêncio e chamar o futuro. Fumo mais um cigarro e piro-me daqui, fujo dos sítios que já foram em mim mais do que lugares.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

 Trazer o carro à revisão. O mesmo de há quinze anos. E, enquanto espero a boleia, penso que me apego às coisas, que pedi para fazerem revisão e repararem uma série de coisas para por o carro não como novo, mas muito bem para a sua idade. E agora estou ao sol, aqui às voltas, a ver carros à venda em segunda mão e a pensar que enquanto não desapegamos do velho não temos espaço para receber o novo, para pensar o novo, para querer o novo. Talvez seja verdade. Mas se eu gosto do velho, ele serve-me, eu sirvo-lhe e juntos vamos onde queremos (onde eu quero, vá… como aliás tem de ser, pois ;) ) para que raio havia de querer ter um carro novo? Para mostrar? Não preciso disso nem, para já, de um carro novo. 

segunda-feira, 13 de dezembro de 2021


 Restos de um jantar. A lareira em estreia este Inverno, e eu com ela nesta arte de me deixar encantar pela beleza duma escuridão iluminada só pelo fogo que queima lenta mas persistentemente. Há muito que não o fazia, porque fazia demasiado tempo que não acendia a lareira e me deixava perder nela e no silêncio que impõe a certas horas da noite, quando o dia já está acabado e resolvido para maior parte dos mortais das redondezas. Não me canso de olhar, não me canso deste calor que conforta é parece despir tantas escuridões em mim. E acender outras. Não se brinca com o fogo, dizem. Mas alguém quer resistir a este? É preciso querer resistir… e eu não quero. E entre uma coisa e outra vai-se acabando o vinho (Plansel, óptimo, não conhecia antes de um amigo mo apresentar, e fazer parte duma oferta dele o ano passado pelos meus anos, estava em tempo de a beber convenhamos …).

domingo, 12 de dezembro de 2021

 Não é de hoje, hoje tentámos fazer em casa parecido, que é ligeiramente diferente do que costumam ser os nossos brunches. Não é hábito fazermos panquecas, mas uma vez ou outra a minha filha faz. Mas a foto tirada por ela foi para dizer que eu afinal também tiro fotos de comida… é verdade tirei, é muito raro  mas tenho um fraco por brunches, essa ideia que me arrasta para uma sensação de ronha, de uma certa lassidão, e ao mesmo tempo regalo dos sentidos. Mistura-se muito do que gosto com o tempo a mover-se connosco sem pensarmos nele, com música, com mimo, com descanso de alma. Gostei daquele brunch naquele dia, fora de casa. Foi diferente e foi saboroso também. Mas não tinha musica - ou a minha musica, melhor dizendo (hoje o shuffle quando entrei na cozinha começou com Cave e  “Into these arms “… que mais dizer?? Que mais pedir??) -, nem mimo aos cães, nem um café no fim bebido à janela com a alma virada para o mundo de dentro. Gosto mais destes.

Bom domingo :)

sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

Nestes feriados a miúda tem a explicação de manhã e então tenho de a levar. Vi uma esplanada com sol no caminho, e onde paro as vezes, e achei que era um bom sítio para tomar um café e ler um tico… coisa que eu fazia tantas vezes há algum tempo atrás e que agora parece pré-histórico, mas é só pré-pandemia. E podia te-lo feito mais, mas mudamos de hábitos, substituímos por outros, esquecemos, talvez. Mas há hábitos que são mais que isso, mais que mecanismos quase automáticos, há hábitos que são rotinas procuradas, como rituais. Isto acontece quando se gosta, quando o que nos leva à repetição não é o mero hábito, mas o prazer, o gosto, a consciência dele. Essa, que tantas vezes tanta gente perde e depois dizem… é preciso perdermos para darmos valor. Aquele clichê que tem muita verdade. O perder faz ganhar a consciência desse gostar, desse querer. Mas nem sempre é precisa a perda, nem devia. Eu hoje já saí de casa com o livro, só pensei que a esplanada seria outra, mas calhou esta. O ritual, o prazer, é este bocadinho comigo, para ler, para escrever sobre nada, para tomar um café e jogar pensamentos fora.

[Ooops… I did it again :))) ]

quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

 Neste final de dia, debaixo duma árvore despida com o frio a entrar pela janela, dou por mim a pensar que ando afastada de escrever. Ou talvez não, talvez não seja isso, talvez ande a afastar-me de me ler. Porque uma coisa leva à outra. Dou por mim nestas últimas semanas a repetir a frase “ a única coisa que sei fazer é trabalhar” para evitar o resto tudo. A vida talvez, ou o que não queríamos que ela fosse, mas perante isso só sabemos fazer uma coisa: trabalhar para gastar o tempo que não gastamos como gostaríamos. E talvez isso seja a vida, ou só uma forma de mediocridade a que nos habituamos. Mas não paramos para pensar para não o concluir. Carro parado, a respirar o frio que o isolamento não me deixava experimentar fora de casa. E de certa forma já nem sei se sentia falta. Às vezes o mundo fecha-se, ou nós fechamo-nos e dizemos que foi ele, as circunstâncias e o contexto e … e… mas parte seremos nós a fechar, a perder interesse. A passar o dia a trabalhar para não o perceber. Porque perante tudo isto, a única coisa que sabemos fazer é enfiar a cabeça no trabalho, e depois na cama. É certo que depois os sonhos tramam-nos, porque a única coisa que eles sabem fazer é trabalhar-nos, ou seja, sonhar. 

[Mas disso não vou falar agora, mesmo tendo um sonho a perseguir-me desde o fim‑de‑semana. Escrever… dá nisto, faz assentar-nos na pele, no olhar, na maldita consciência, o que anda em suspensão nas entrelinhas curtas, muito curtas dos dias.]