Hoje a noite é de lua e vento, muito vento, salgado, como o mar a que atiramos os olhos para melhor nos vermos. Não sei se é aquela imensidão ou a consciência da nossa pequenez perante o infinito onde o olhar se perde. Somos só um grão de areia que o vento ainda não arrastou, mas com quem brinca. Pode ser bonito, dizem-nos as ondas que lambem a areia, indecisas entre o ir e o ficar. Mas é isso que são, e ainda bem. Não seriam ondas se não fossem assim.
sábado, 29 de agosto de 2020
quinta-feira, 27 de agosto de 2020
Comprar um vinho pelo nome deve equivaler a comprar um livro pela capa. Este acabou por ter um bom argumento, digamos, ou pelo menos assim me está a saber, o que não é mau. Hoje não vai haver estrelas cadentes, nem céu negro perfurado de brilhantes estrelas... a lua açambarcou o céu, fez dele o seu palco. Tem a mania das grandezas às vezes, e isso irrita-me, mas nem sempre. A noite está fresca, um ventinho que sopra frio e arrepios, enquanto o guarda rios me guarda o calor do sangue, já pouco morno, ou meio adormecido. Acho que não quero averiguar. A cadela doida com os bichos e os gatos que pululam por aí, agora sossega aos meus pés, enquanto maldigo o tempo que passou sem me lavar dos resquícios dos dias cansados e atropelados .... para que tenho de voltar, sem realmente, ter chegado a regressar ou vontade disso. Vou deixar aqui a alma refém, para ter de a vir buscar daqui a nada... pior é se não dou pela falta... e fica aqui abandonada, mais ainda... Irra que estou com uma neura que Valhamedeus... não há rio que me guarde, nem guarda rios que me salve. Atirem-me ao mar... ou deixem lá que a vida disso se encarrega com um sorriso sacana pendurado nos lábios.
É impressionante como o tempo passa quando não lhe ligamos, quando descansamos dos relógios. Como corre quando não damos por ele. É quase um choque quando depois o tempo nos atinge, nos põe no lugar que ele manda. Ficava aqui mais uma semana, precisava disso, mas o que precisamos nada mais serve do que para constatar e apontar no tecto... e assim como assim que fosse um tecto destes, sobre um chão dourado e sombras que nos alongam (a)o fim do dia... só o tempo não estica. ... a não ser o da memória, esse não tem regras, nem governo.
quarta-feira, 26 de agosto de 2020
[sacado no primeiro do Quarteto de Alexandria - Justine, Lawrence Durrell]
Estive para começar a lê-los no início do ano passado, depois achei que ainda era cedo, devia deixar passar mais luas sobre tudo, mas fiquei curiosa com algumas coisas que me disseram acerca da personagem, da sua intensidade, sensualidade, profundidade de alma e alguma coisa de feitiço, coisas vagas mas vastas, coisas que guardei e me intrigraram. Este ano, achei que era tempo, já não sinto que o tempo precise de mais tempo - o que o tempo tinha a fazer já fez, e estava há demasiado na calha dos livros a ler.
Já com cem páginas volvidas, sem saber bem porquê, volto atrás para reler “Para Eva estas memórias da sua cidade natal”, a que sorri da primeira vez que por ali passei, e é aí que atento na página exactamente anterior, uma das primeiras, e leio isto... Acontece que, sem estar a contar, solto uma gargalhada. Valeu-me não estar vivalma à vista... Se calhar não devia, pois, se calhar não é bonito, mas não foi gargalhada teatral, pensada ou premeditada...aconteceu e não fez mal a ninguém, e quando assim é, e solta por vontade genuína raramente dá tempo a freios, nada a fazer. Como, relendo pensei, nada haverá a fazer aos espíritos fracos, com as argumentações fáceis e rápidas, cómodas e tantas vezes emprestadas - conforme der mais jeito na altura. Assim como há gente que, por muito que até se esforce, nunca conhecerá certa estirpe de “crimes” como os de alma que atravessam o corpo em cumplicidades e profundidades múltiplas. Que vão até às raízes do ser e não só do estar. Que têm a vileza de deixar transpirar felicidade em demasiados momentos fugazes, eternamente fugazes. Crimes, sim, parece-me talvez uma boa denominação, não aspirantes a grandes crimes que não passam de pequenas fraudes, breves, superficiais e incapazes de qualquer grandeza... coisa de pequenos burlões, ganhos mesquinhos e inconsequentes. Talvez a única consequência seja impedi-los de ser completamente infelizes, de os entreter, à imaginação e aos dias, de lhes garantir a mediocridade assegurada, o assim-assim, o comodamente seguro, o assim é que deve ser - de serem o que a minha mãe chamaria de ”desinfelizes”. Ou seja, uma garantia de que não serão felizes. Mas não há nada como uma garantia... talvez um dia destes também me renda aos encantos das garantias, quem sabe? Ou talvez eu guarde para sempre uma alma criminosa... em quem, qualquer coisa, a ser, que valha a pena, até porque, se calhar, mais tarde ou mais cedo, tudo se paga (dizem, mas disto não há certezas nem provas empíricas... mas, pelo sim pelo não...)
terça-feira, 25 de agosto de 2020
Assim está-se muito melhor.
As luzes hoje apagaram mais cedo, os chocalhos como música de fundo não se atrasou,
tudo como devia ser... tudo no lugar...
tanto que hoje não me caem no regaço do olhar as estrelas... teimosas.
Ficam-se nos seus lugares.
Bem estico o olhar para tentar abarcar esta imensidão, e apanhar uma a fugir,
mas não há uma que queira sair deste quadro.
E é um belo quadro, a sério. Nem a mim me apetece sair daqui.
segunda-feira, 24 de agosto de 2020
A fumar o último cigarro do dia, lá fora, enquanto tentava apanhar os restos do dia, da vida, em pensamentos soltos, fugidios, ao mesmo tempo pensava como raio me esqueci do vinho e hoje quando fui tentar comprar...tudo fechado por aqui, pois. Há coisas imperdoáveis, que combinam tão perfeitamente que uma sem a outra ficam mancas... Assim que acabei de apagar o cigarro, as luzes exteriores apagaram-se... e todo o céu cresceu. Não consegui evitar rir-me... tinha pensado nisso: a que raio de horas fecharão as luzes? Não sabem que assim tiram palco ao céu? Às estrelas? 1:24 era quanto marcava no meu relógio, e deixei-me estar, como a quem acabaram de abrir a cortina para o segundo acto. Estico mais o pescoço, empino ainda mais o nariz ao céu, e sem me dar tempo de acomodar a posição, cai uma estrela no meio do céu, mesmo por cima do meu nariz, senti-me invadida por uma alegria estranha, fechei os olhos depressa para pedir um desejo, que na verdade era um dois-em-um, e pensava eu estas matemáticas estelares, quando apanho outra a cair, mesmo onde o céu acaba para os meus olhos. Estamos saldados, deves-me dois desejos :) agora vou dormir. Até amanhã, agora já sei a hora, e com um copo de vinho, espero ;)
domingo, 23 de agosto de 2020
sábado, 22 de agosto de 2020
Há pessoas que são casas inteiras a morar dentro de nós. Com muitos quartos, portas, divisões, janelas abertas à alma e ao horizonte de sonhos. Casas que percorremos que vivemos que habitamos e nos habitam. Algumas - percebemos um dia - que nos habitam, mas só nós a habitamos, de resto estão desertas. É aí, nesse momento, que começamos a fechar a casa. Divisão a divisão, porta a porta. Rodamos a chave e fechamos, e assim vamos andando e vivendo. Por vezes surge-nos, não sabemos de onde, um som, um cheiro, uma música, um arrepio doce na espinha, na pele, uma qualquer sensação que algo ficou por fechar. Voltamos atrás, voltamos a abrir portas e procuramos alguma janela aberta por trancar. Não encontramos ninguém no percurso, fechamos a janela e voltamos a trancar portas. Até estar tudo fechado, trancado, completamente desabitado, vazio - mesmo que esse lugar continue a morar dentro de nós. Guardamos a chave, e esperamos esquecer-nos dela... e há chaves tão bonitas, pena só servirem para fechar portas.
[encontrei esta hoje na minha garagem, antes de sair, achei linda. Vou ver se posso rapiná-la... adorei. Espero que tenha aberto muitas portas... ou pelo menos as certas. ]
terça-feira, 18 de agosto de 2020
my wheel of love
[há dias, a conduzir, a caminho da praia, peguei num cd mal arrumado no porta CD´s, ou melhor que não foi arrumado, foi fechado, há tempos, onde os olhos não chegassem, e não mais foi mexido. Não me lembrei, ou a música da rádio não me apetecia, já não sei, mas tirei o porta CD´s, entalado entre o banco e a porta - onde costuma estar quieto e sossegado - e pus o CD que estava fora do sítio. Verdade que antes de deixar o leitor engoli-lo vi que CD era, mas não o troquei. Deixei. O sol e o caminho apeteceram-me assim. Muitas vezes o que não tem razão de ser é a melhor razão para ser.
Oiço esta música e fala-me de afastar, de combater a morte, todas as mortes, tudo o que nos impede de viver, e como essa tarefa se assemelhará realmente a empurrar o céu.]
Oiço esta música e fala-me de afastar, de combater a morte, todas as mortes, tudo o que nos impede de viver, e como essa tarefa se assemelhará realmente a empurrar o céu.]
domingo, 16 de agosto de 2020
Domingos... lavadinhos,
com rigor e afinco em cada gesto, com o tempo à medida da vontade,
talvez a melhor maneira de nos lavar o inverno teimoso de dentro,
e começar limpinho um novo dia... com a vida de ontem, pois.
Mas começar assim... bom, para começo de qualquer coisa, até do dia,
deve estar muito bem posicionado no ranking, no meu pelo menos :)
Só não sei se um dia que comece assim terá muito sítio para onde ir...
...e isso também não me parece nada mal, um domingo de ronha :)
[pena que o meu não será assim... ]
[pena que o meu não será assim... ]
Estrear s praia este ano, patas na areia, dar-lhes sal e sol. Mas pouco tempo. No primeiro dia não podemos abusar, ou vimos para casa em tons de lagosta... vimos não, venho, que a peluda não tem direito a escaldões. Deu para ler um tico e olhar o mar. Foi uma hora bem passada, mais a viagem para lá e para cá. Conduzir descontrai-me e ando a precisar disso. Boa terapia - pudesse eu repetir muitas vezes e a gosto, para me distanciar dos problemas, das chatices, até dos medos. E não, não vale a pena dizerem-me que quem tem medo arranja um cão, que ainda há pouco tinha três aos meus pés, mas tantos mais medos por dentro da pele...
terça-feira, 11 de agosto de 2020
Aconteceu que hoje o meio dia caiu a pique - eu caio agora. Acontece. Há certos fins de dia em que só queria chegar a casa e ter colo. Alguém a quem não tivesse de explicar nada, porque olhar-me chegaria para saber-me, ou quase e esse quase chegar, mas se quisesse explicar que ouvisse, devagar, com as mãos e o olhar. E eu o sentisse. Não podendo ser assim que seja como é, a enterrar o olhar no horizonte que se afunda, em cores incolores e frias, esbatidas e mortas, de janela aberta, enquanto fumo um cigarro, que queima mas não aquece. Acontece que é assim, e nada há a fazer.
A vida não dá tréguas e esta guerra não dá colo.
segunda-feira, 10 de agosto de 2020
€&#@%...
Estou que não me posso, estava tão bem sem trabalhar no meio de gente maluca...
É que não me apetece mesmo... irra que irritação, e eu que até gosto do que faço, estou longe daqui, ou apetecia-me estar...
acho que aqueles dias em retiro no Alentejo tão lunar, me fizeram sentir mesmo que se calhar a minha vida terá de passar por algo daquele género.
Um sítio com céu sem fronteiras e olhar desafogado... Só me falta o holandês (ou outra nacionalidade qualquer, não sou esquisita, embora possa parecer) para, com charme e cabelo grisalho, ser anfitrião comigo, e à noite contar incontáveis estrelas em silêncio, navegar os céus nocturnos, embarcado comigo numa rede que baloiça silêncios; e durante o dia tomar conta de algumas coisas, rondar os bungalows e tratar da manutenção, a parte de andar sempre a meter conversa com as hóspedes é que acho que não vou gostar, nada, mesmo nada...
Mas ficou-me na ideia, cada vez mais, que uma coisa assim podia fazer parte da minha minha, e talvez mais feliz.
Olho para o meu monte encaixilhado aqui no escritório, e cada vez me faz mais sentido.
Só tenho de dar tempo ao tempo, e daqui a algum começar a procurar. O monte, o monte...o resto não se procura.
domingo, 9 de agosto de 2020
À distância,
penso aquelas mãos
Perfeitas para minhas mãos próximas
Para me conhecerem a pele perto,
Talvez não por dentro, talvez...
quero crer que há coisas
penso aquelas mãos
Perfeitas para minhas mãos próximas
Para me conhecerem a pele perto,
Talvez não por dentro, talvez...
quero crer que há coisas
que podem florescer de fora para dentro.
E sempre me encantei por mãos.
E sempre gostei daquelas
E sempre me encantei por mãos.
E sempre gostei daquelas
E sempre que as tenho ao alcance da mão
Ponho a minha pele à distância...
onde estará a perfeição dumas mãos
a que a pele é indiferente, surda e muda?
E no fim de tudo
onde estará a perfeição dumas mãos
a que a pele é indiferente, surda e muda?
como se fosse um sentido sem sentidos?
por que as penso sempre perfeitas?
por que as penso sempre perfeitas?
Porquê?
se a cada vez a minha pele as ignora e foge.
E assim insisto no que nunca foi,
se a cada vez a minha pele as ignora e foge.
E assim insisto no que nunca foi,
Pensando sempre que poderá ser
E continuo sem saber porquê
Parece perfeito
Mas não me sabe a perfeito
Senão à distância duma ideia.
E a pele tem ideias próprias,
E vêm de dentro, por dentro
Parece perfeito
Mas não me sabe a perfeito
Senão à distância duma ideia.
E a pele tem ideias próprias,
E vêm de dentro, por dentro
Tocam-nos para nos deixarmos tocar
E no fim de tudo
Chego a casa e não chego a saber
Se quero saber o sentido
Da perfeição duma ideia
Sem sentidos
[adoro a foto... sempre gostei - tanto - de emoldurar o rosto com as mãos em ternura, para mais aconchegar o beijo... também não sei porquê, mas faz-me todo o sentido aos sentidos, todos]
Será?
E se não sabe, em que escolhe acreditar?
Acreditamos sempre naquilo que queremos, e para isso, da realidade escolhemos os factos que as corroboram e de maneira a fazê-lo.
Então sabemos sempre, o que quisermos e que queremos acreditar.
A realidade, a realidade é outra coisa. Quase sempre. E quase sempre não a queremos saber.
Quando em dúvida, escolhemos saber o que nos dá jeito, o que nos convém, o que for mais cómodo.
Mas às vezes, no fundo, continuamos a duvidar se sabemos.
Porque duvidamos menos do que sentimos,
mesmo que não queiramos acreditar.
Será?
sábado, 8 de agosto de 2020
sexta-feira, 7 de agosto de 2020
Por que é que olho a tranquilidade da paisagem de tapetes dourados, que vai passando, e só oiço que os relógios andam todos desacertados? Uns adiantados, outros atrasados, mas cada um convencido da hora certa?
Até a tranquilidade tem uma certa inquietude interior, a da terra daquilo que está por vir, por rebentar, por nascer, e que ao mesmo tempo acolhe os despojos das mortes, cíclicas, mas perenes.[sou só eu que estou a detestar e desesperar com o novo blogger?? Credo...]

Tudo tem de acabar, e acaba, e este é o último amanhecer aqui. E o dia claro, límpido, novo, desponta. Não como queremos, mas como é. Aceitar isso talvez seja maturidade. E pesa. Só podemos escolher entre o que temos e o que achamos que poderemos ter. As duas têm um custo. Maturidade é talvez sabê-lo e escolher o custo que conseguiremos suportar. Como é maturidade aceitar o que não queremos de todo, que revolta, que magoa, mas que não está nas nossas mãos mudar.
Mas o dia nasce sempre limpo, novo, virgem.
Quase inocente. E claro, tão claro.
[As coisas que eu perderia se a pintarolas não quisesse vir cá fora as seis da matina, mais coisa, menos coisa. Acho que anda a sonhar com gatos. Percebo-a. Eu hoje também sonhei, mas não era o gato que estava ao meu colo, nem eu corria atrás dele, nunca o fiz, mas tinha um calor bom, brando, doce, cheio de ternura. Aquela ternura que é cruel ao acordar para o mundo. Acabei o livro, e mexeu comigo aquele lunário.]
quinta-feira, 6 de agosto de 2020
E por que haverias de querer minha alma
Na tua cama?
Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas
Obscenas, porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo prazer lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando
Aquele Outro.
E te repito: por que haverias
De querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e acertos.
Ou tenta-me de novo.
Obriga-me.
Na tua cama?
Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas
Obscenas, porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo prazer lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando
Aquele Outro.
E te repito: por que haverias
De querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e acertos.
Ou tenta-me de novo.
Obriga-me.
Hilda Hilst
“Meu amor carnal e obsceno... Um desejo de posse, de trazer o outro para capturá-lo.” Para prendê-lo a si, um certo desejo de pertença, n posse. De ser de alguém e de sentir alguém nosso. Completamente, inevitavelmente. “E nessa troca de prazeres queria que soubesse q estava disposto a tudo para a fazer feliz”
in Lunário, Al Berto
“Não consegue encontrar resposta .” Perde-se a resposta e depois a pergunta, e cristaliza-se eternizada a sensação de fim inacabado, mas resolvido. Fechado. Um fim que nos sobrevive e a que sobrevivemos não vivos - o que era para ser já foi. E agora? Não consegue encontrar resposta.
É preciso manutenção. Fecharmo-nos para nós. Para abrir os olhos às vistas bonitas e largas, para ler e pensar e deixar todas as perguntas sem resposta, mas aceitá-las assim. Talvez o seu propósito seja só esse: fazer-nos pensar, nada mais.
Trouxe dois livros, um que estava a meio e outro que me apetecia, e nem sabia porquê. Agora já sei, e acertei, era o que este lugar pedia e a minha manutenção também :)
quarta-feira, 5 de agosto de 2020
Há distâncias que se procuram, que se querem sentir, e sentem: como um sentimento futuro, como a vista que sabemos que vamos ter ao chegar ao cimo, onde as vistas são largas e a perspectiva inteira. E subimos, continuamos a subir, com a sensação da distância desejada a mover-nos, a empurrar-nos, queremos chegar ali, ao ponto de não ser sensação futura, não aquela que se antecipa, mas sim já realidade que as mãos agarram e o olhar carrega. Por vezes parece-nos até que já chegámos, e não, não chegámos, mas sentimo-la ao alcance da mão, quase como se já a pudéssemos chamar nossa, quase como se conseguíssemos. Como se conseguíssemos sentir a distância que queremos sentir, que sabemos certa e segura: real... até quando há inexplicáveis sensações de proximidade, de telepatia, de estar perto do que não se toca, do que não está, do que nunca realmente esteve, mas são só isso: sensações, como aquelas que nos trouxeram até aqui, à procura de distâncias. Coisas de mundos imaginados e cruéis.
E depois partimos, pomos, entre sensações estranhas e a certeza de querer distância, muitos quilómetros, e é aí que fugimos de nós, que tentamos, nessa distância, que por nos isolar e nos devolver, ao trazer-nos tanto a nós, nos traz o que queremos distanciar, aqueles que nos têm. Mesmo que nunca os tenhamos.
A lua está sublime, meio escondida por trás das oliveiras. O céu deixa a um canto os melhores espectáculos. E o vinho, branco e fresco, deixa-a tão ternurenta que dói. E é tão bonito ao mesmo tempo. A ternura tem de doer sempre?
Ora um mocinho destes é que combinava com a brasa que estava...
... mas não, só mesmo na imaginação, e na fotografia, pronto....
... se calhar este é só para jipes... quando comprar um pode ser que me apareça um destes :)))
Mas ainda há esperança na humanidade, enquanto esperava dois mocinhos pararam para perguntar se precisava de ajuda... nenhum como o da foto... infelizmente, podia ser que nesse caso pensasse nalguma coisa para poderem ajudar... um percalço destes é que era ;))
Eheheh
terça-feira, 4 de agosto de 2020
Melhor que um banho de lua destes, mergulhado em silêncio, que apaga quase todas as estrelas do céu, e nos deixa ver tudo tingido duma luz de prata vários palmos à nossa frente... só isto, mas com uma companhia de duas patas e menos pêlo que não estragasse o silêncio. Tem de haver comunicação, mas sem destruir o silêncio. Sem silêncio o luar perde a magia, pode continuar belo, mas deixa de ser mágico. Como algumas conversas, as melhores.
Gosto, e apetece-me. E posso, e gosto tanto de fazer o caminho, como parar onde for a meio ou depois ou antes, como gosto (espero eu) do destino. Devíamos ser assim em tudo. Desperdiçaríamos menos tempo, tudo tinha o seu encanto... e agora vou :) finalmente descanso, silêncio, ares diferentes, distância.
[so espero que não haja incêndios, agora estamos sempre com isso presente... eu pelo menos estou... ainda venho a toque de caixa, eu e a pintarolas para a segurança do lar que é um mimo...]
domingo, 2 de agosto de 2020
[cãibra - Miguel Martins]
Isto tudo.
Isto tudo que já foi, isto que me lembra o que um dia fui,
ou senti - sim talvez seja melhor dizê-lo assim.
Isto lembra-mo, e muito.
Comungar dos corpos esfaimados como quem reza a um deus maior.
Precisar do outro para sermos mais nós, mais inteiros.
Precisar do outro para nos despir mais do que saberíamos,
ou nos atreveríamos.
Precisar dele para nos despir de toda a humanidade que os dias,
deste mundo que tanto corre, não sabem vestir.
Para aprender que, no fim, será só o que nos resta.
E nos faz sentir vivos, mesmo matando-nos.
Isto tudo relembra-me o que não foi, o que não fui,
e o que quero:
Isto tudo.
ou senti - sim talvez seja melhor dizê-lo assim.
Isto lembra-mo, e muito.
Comungar dos corpos esfaimados como quem reza a um deus maior.
Precisar do outro para sermos mais nós, mais inteiros.
Precisar do outro para nos despir mais do que saberíamos,
ou nos atreveríamos.
Precisar dele para nos despir de toda a humanidade que os dias,
deste mundo que tanto corre, não sabem vestir.
Para aprender que, no fim, será só o que nos resta.
E nos faz sentir vivos, mesmo matando-nos.
Isto tudo relembra-me o que não foi, o que não fui,
e o que quero:
Isto tudo.
sexta-feira, 31 de julho de 2020
quarta-feira, 29 de julho de 2020
[ foto @erichmcvey]
A boca, muda, repete “amo-te”, palavra tão estranha. Palavra imensa que o silêncio maior come. Palavra tão rara. Tão rara na minha boca, avara de palavras vãs. Talvez tenha sido a falta de hábito de metade da garrafa de Douro, talvez seja o percurso de carro sozinha, depois, debaixo dum céu que acolhe palavras assim. Talvez seja só a estupidez que não me larga. E repete-se. Amo-te. Assim, com o soro da verdade já esbatido nas veias e o amanhã fora de qualquer relógio... e a noite, a noite perfeita pendurada no céu. E eu que a queria pendurada num beijo, nesta boca que repete palavras que não diz. Que já leu em loucura, e que escreve, mas é muda porque nada muda. E nada está igual, só esta palavra muda se repete. Às vezes. Quando a verdade me apanha. A fugir, de raspão por meia garrafa e um céu que me parece perfeito, mas apanha.
terça-feira, 28 de julho de 2020
Há muito que não começava o dia assim. Aliás há muito que não tomava um café sozinha fora de casa. E agora percebo que me dá ia falta, que me sabe bem. Que tinha saudades. Gosto deste tempo sozinha, sempre gostei, desde que me lembro. O que alguns estranhavam para mim era natural, e até necessário às vezes. Mas fico aqui a pensar, a olhar para este pacote de açúcar que não vou abrir, que me vale um doce este bocadinho. E vale. Mas se daqui a uns meses, como estou à espera que aconteça, venha a ter tempo demais para todos os cafés que queira, para demasiado tempo para pensar, para tudo, já não vai ser doce assim. A intensidade com que se vive as coisas de que se gosta deve ser inversamente proporcional ao tempo que podemos ter para as viver. E isto talvez explique muita coisa. Mas não dá grande consolo. Agora vou consolar-me com este café, depois passeata a seis patas, que daqui a poucas horas já não vou ter tempo para pensar os cafés nem para passear as patas...
segunda-feira, 27 de julho de 2020
Olha, olha, é outra semana que desponta,
sem grande ponta que se lhe pegue é certo,
mas chegou e está a começar, não há nada a fazer...
ou melhor há, muito, demais até - é fazer e reclamar só de cara alegre e orelhas compridas.
É comer palha mais uma semana e fazermo-nos de burros. Burros exaustos, no meu caso que é o que me sinto. Só que os burros são mais espertos, só fazem o que querem.
E eu esta semana não me apetecia palha... nem sequer para palitar os dentes e assobiar para o lado...
domingo, 26 de julho de 2020
A minha varanda faz-me tanta falta nesta altura... e não sei quando a terei de volta para banhos de sol e anoiteceres... pior ainda é não andar a aproveitar a privacidade “comme il faut “ da varanda engaiolada... e pronto, resta-me a janelinha que sobra para apanhar sol no trombil e ar fresco enquanto se satisfazem os vícios maus e se adoçam os dias.
sábado, 25 de julho de 2020
[foto @ erichmcvey]
“Escuta, Amor
(...)
Por isto e por mais do que isto, tu estás aí e eu, aqui, também estou aí. Existimos no mesmo sítio sem esforço. Aquilo que somos mistura-se. Os nossos corpos só podem ser vistos pelos nossos olhos. Os outros olham para os nossos corpos com a mesma falta de verdade com que os espelhos nos reflectem. Tu és aquilo que sei sobre a ternura. Tu és tudo aquilo que sei. Mesmo quando não estavas lá, mesmo quando eu não estava lá, aprendíamos o suficiente para o instante em que nos encontrámos.
(...)
Questiono os gestos mais simples, escrever este texto, tentar dizer aquilo que foge às palavras e que, no entanto, precisa delas para existir com a forma de palavras. Mas eu questiono, pergunto-me, será que são necessárias as palavras? Eu sei que entendes o que não sei dizer. Repito: eu sei que entendes o que não sei dizer. Essa certeza é feita de vento. Eu e tu somos esse vento. Não apenas um pedaço do vento dentro do vento, somos o vento todo.”
José Luís Peixoto
Acontece, como ontem à noite quando me cruzei com este texto, lermos coisas que são ecos de coisas que já soubemos, por estas ou outras palavras, sem palavras. Mas são ecos, coisas que retornam, que estavam esquecidas, ou que adormecemos à força da vontade. Ou simplesmente que estavam a fazer uma qualquer viagem, a dar-nos uma volta maior, até nos chegar, de novo, dentro. Talvez venham com o vento, ou sejam o vento que não sabemos donde vem para nos escancarar as janelas.
sexta-feira, 24 de julho de 2020
Mandem-me, assim, para confinamento.
Prometo que o limite será a varanda, ou o alpendre.
Mandem-me pelo menos quinze dias,
se for com companhia à escolha, nunca menos que um mês...
e não me deixem sair de casa, a sério que não me queixo.
Até posso pedir mais confinamento deste, assim...
[mas para já, para já, vou voltar para o escritório, pois... bahhhhh raios para isto]
quinta-feira, 23 de julho de 2020
Quando a minha mãe ainda se lembrava que eu escrevinhava umas coisas, perguntava-me de vez em quando e em jeito de barómetro, se andava a escrever muito ou pouco. É certo que se andamos mais para dentro, mais connosco, procuramos o tempo resguardado do mundo para coser os pensamentos em palavras, para os aquietar, e para os desembrulhar até. Para nos ouvirmos. Os momentos alegres não deixam tempo para os pensar, são vividos na sede de os beber até ao tutano, urgência que não os deixa poisar no silêncio, não traz palavras como âncoras. E os pensamentos não são mais que gestos nascidos na leveza e no riso. No sorriso também, naquele que se prolonga no tempo, engolindo-o. Será que as palavras, aquelas realmente sentidas e que fazem sentir, são a companhia da melancolia, duma certa tristeza calada que se grita escrevendo? Por que é que escrever é quase uma tentativa de tornar os pensamentos mais leves que o tempo, de os largar no vento, de largarmos lastro para seguir viagem? E por que é que são as que me sabem melhor ler? Não me parece justo.
quarta-feira, 22 de julho de 2020
“A poesia é oferecida a cada pessoa só uma vez e o efeito da negação é irreversível.
O amor é oferecido raramente
e aquele que o nega algumas vezes depois não o encontra mais.”
Sophia de Mello Breyner Andresen
Se já o negaste uma vez, acautela-te. Se o repetiste tenta a poesia, não fujas e não falhes.
Ou terás falhado tudo, em tudo.
Ou terás falhado tudo, em tudo.
sábado, 18 de julho de 2020
quarta-feira, 15 de julho de 2020
terça-feira, 14 de julho de 2020
Trocaram-me as voltas, ou as horas,
hoje, para mim fiquei com a manhã. Então fomos vê-la a seis patas por aí,
por aqui, o nosso passeio costumeiro, de que não me canso.
Ela corre atrás de tudo o que mexe, o que foge. Procura e cheira tudo, volta aqui, corre de novo.
Vem ver se aqui contínuo e segue, confiante que da próxima aqui me encontrará. E tem razão, também me faz sempre uma festa quando a encontro, ao chegar a casa, todos os dias.
Eu deito-me na pedra, olho para cima e procuro o que não mexe,
o que fica, o que está. O que estará.
Mas tudo muda. E não tenho o que esperar.
E talvez isso seja uma coisa boa.
sábado, 11 de julho de 2020
Hoje deixaram-nos as cortinas abertas. O que não me ajuda a fechar a imaginação, ou a ouvir o que a voz ao fundo vai dizendo... e penso que não sei por que ontem o sono demorou tanto a derrubar-me e a partir das seis da matina, voltou a não querer nada comigo... não sei se foi a maratona de filmes que vi ontem, desde o final da tarde até pouco depois da meia noite, ou tudo o resto que se passa na minha vida. A trilogia (before sunrise, before sunset e before midnight) mexeu comigo, e mexeu um bocado. O segundo, tem uma conversa, entre a saída do barco e a chegada a casa dela, em Paris, que acho que podiam ser palavras saídas da minha boca. No terceiro uma personagem diz uma coisa que me fez ir procurar as únicas duas fotografias que me lembraram de pormenores que a memória já tinha enevoado. No fim achei que não as devia ter visto, enevoado é meio esquecido, e então estava já a meio caminho de bom porto... Enfim não sei que foi, ou se foi tudo, sei que se não fosse o frio que sinto aqui já devia estar a dormir em cima da mesa....
sexta-feira, 10 de julho de 2020
"ela fez tudo o que poderia ter feito
e se calhar fez tudo errado:
amar não foi o suficiente."
Ando com estas palavras na algibeira desde que, há dias, as li escritas pela mão sublime da menina-musica-de-luz [já não é só do violino :) ]. Porque li-as e pareceu-me claro, mas ainda assim, como uma memória em que se cai sem tropeçar, voltava-me à cabeça o paradoxo: amar só não é suficiente quando se ama demais.
E eu nunca acreditei nisso: não se ama demais, ama-se com tudo o que se tem, não pode ser de outra maneira - ou não devia - e essa desmedida é a medida certa. Só se ouve que se ama demais quando há de menos da outra parte. Mas também não acredito nisto, não há de menos, ou se ama ou não se ama. E ponto final.
Amar pelos dois nunca é suficiente. É um erro, ainda que sem escolha. Primeiro para quem é amado, porque nunca chega, a outra pessoa nunca é suficiente; depois, para quem ama, porque ser amado é uma parte grande de amar e continuar a amar. Porque um amor inteiro é um amor dividido pelos dois.
É tudo um erro. É um erro amar sem retorno, como é exigir retorno, exigir o que seja do outro que ele não dê por vontade, e com vontade. É um erro. Amar tem de ser sem medida, sem troca, sem deve e haver - dos dois lados. Para não ser um engano de que não se retorna.
É sempre um erro amar demais. Amar pelos dois nunca é suficiente.
Amar só não é suficiente quando se ama pelos dois.
E eu nunca acreditei nisso: não se ama demais, ama-se com tudo o que se tem, não pode ser de outra maneira - ou não devia - e essa desmedida é a medida certa. Só se ouve que se ama demais quando há de menos da outra parte. Mas também não acredito nisto, não há de menos, ou se ama ou não se ama. E ponto final.
Amar pelos dois nunca é suficiente. É um erro, ainda que sem escolha. Primeiro para quem é amado, porque nunca chega, a outra pessoa nunca é suficiente; depois, para quem ama, porque ser amado é uma parte grande de amar e continuar a amar. Porque um amor inteiro é um amor dividido pelos dois.
É tudo um erro. É um erro amar sem retorno, como é exigir retorno, exigir o que seja do outro que ele não dê por vontade, e com vontade. É um erro. Amar tem de ser sem medida, sem troca, sem deve e haver - dos dois lados. Para não ser um engano de que não se retorna.
É sempre um erro amar demais. Amar pelos dois nunca é suficiente.
Amar só não é suficiente quando se ama pelos dois.
quarta-feira, 8 de julho de 2020
Por muitas pontes que faça
Por muitas pontes que atravesse
Por muitas que queime
Todos os rios que passem
Que tenham passado
Que hão-de passar
Estarei sempre nesta margem
a que cheguei,
e na que deixei,
sem ter partido
Que tenham passado
Que hão-de passar
Estarei sempre nesta margem
a que cheguei,
e na que deixei,
sem ter partido
Por muitas pontes que queime
Por muita água que passe
Serei sempre esta margem
E a outra
segunda-feira, 6 de julho de 2020
Fui feliz muitas vezes com a perfeita noção disso, e da fragilidade disso, sabendo que estamos sempre à beira do abismo. Não me fez menos feliz ter essa lucidez, fez-me ter vontade de a agarrar melhor. De a aproveitar até onde não coubesse mais um alfinete de felicidade, aquelas sensações raras de plenitude. Nós sabemos quando as temos, há qualquer coisa cá dentro que se inunda de luz, e se expande e nos torna leves e tão bem no mundo, seja ele qual for. A nostalgia conjuga-nos estes momentos, este tempo, no passado, o que pode ser uma felicidade triste, ou uma tristeza feliz... acho que depende do que se recorda e o que se quer desse passado, repeti-lo ou guardá-lo, e se podemos ou conseguimos fazê-lo.
Gosto da palavra nostalgia. Há palavras de que se gosta, não sei bem a razão, acho que é a conjugação da sonoridade, do significado e da estética da palavra. Nostalgia é uma palavra elegante, alta e ainda assim suave. Há mais quem tenha palavras da sua eleição? Ou só eu é que tenho estas maluquices de ver as palavras quase como personagens? A saudade, por exemplo, é muito mais rechonchuda e anafadita, mas tem um ar menos sério e solene que a nostalgia? A saudade tem por vezes um riso gaiato no olhar. Gaiato, também gosto, é uma palavra meio despenteada. E ladina, o meu pai usa essa palavra algumas vezes, e eu gosto, acho-a atrevida, viva e ao mesmo tempo com um interior tranquilo, uma paz meio inquieta de vivacidade... é estranha esta coisa de se verem as palavras. Ou melhor é uma maluquice. Mas há maluquices engraçadas e inofensivas, vamos pensar que esta é uma delas ;)
[trecho dum mail enviado e que agora reli, deixo aqui esta parte, por causa duma palavra: ladina, uma palavra que tem o cheiro do meu pai, raízes nele, que associo sempre a ele. uma palavra que gosto, e guardo, também por isso. e hoje, porque o abismo me cerca e eu sei, fui pescar estas linhas onde falei nisso. onde ele também está sem saber.]
[trecho dum mail enviado e que agora reli, deixo aqui esta parte, por causa duma palavra: ladina, uma palavra que tem o cheiro do meu pai, raízes nele, que associo sempre a ele. uma palavra que gosto, e guardo, também por isso. e hoje, porque o abismo me cerca e eu sei, fui pescar estas linhas onde falei nisso. onde ele também está sem saber.]
domingo, 5 de julho de 2020
[fotografia @riva_g_ ]
Há dias assim: com o mundo ao contrário, mas sentido de humor :) como ontem, quando me cruzei com alguém que me fez pensar se também correm a dar a mãozinha e afins quando se cruzam com a criatura... e de quem será agora a iniciativa, se de quem, após umas one night stands, nada que se confunda com uma ligação forte ou apaixonada, rápida e facilmente levou o real chuto no traseiro, mas quer fazer parecer que não, que afinal está tão bem, que o nada foi mesmo só isso: nada; ou se de quem achava natural, depois de certas coisas, querer-se mostrar que apesar de tudo a posse é de quem está, fazendo da derrota vitória não se sabe sobre quê, ou quem. E quem está, está de mãozinha dada, muito bem com tudo... e esta fotografia, agora, fez-me lembrar o cruzar-me com essa pessoa e o que me suscitou, despertou da hibernação. O destino é realmente irónico e com um sentido de humor fantástico.
Sim, muitas vezes parece que anda tudo de pernas para o ar. Mas nada como pôr um chapéu para disfarçar aos olhares de relance. :) Quem olhar mais atentamente acaba com um sorriso, quase inconsciente, nos lábios. E então está tudo bem.
Sim, muitas vezes parece que anda tudo de pernas para o ar. Mas nada como pôr um chapéu para disfarçar aos olhares de relance. :) Quem olhar mais atentamente acaba com um sorriso, quase inconsciente, nos lábios. E então está tudo bem.
sábado, 4 de julho de 2020
O rio corre a poucos metros quase o oiço passar.
Como é que a vida pode passar tão perto e não se alcançar?
Como é que tanto do que trago dentro não é meu, e não me larga?
Como é que hoje me levantei tão cedo para me trancar aqui dentro o dia todo, a aprender o que já sei, com o rio, quente sob o olhar atento do sol, a passar tão perto... tão perto que quase o oiço passar, melhor que oiço o professor enquanto aqui escrevo o que oiço.
quinta-feira, 2 de julho de 2020
[foto @kknvlz]
Tenho a casa feita em pantanas, estou cansada de obras e mais obras. Agora, para cúmulo, tiraram-me a parte da casa, que nesta altura do ano, eu mais gosto, e que aproveito tanto, mesmo com o frio a gelar-me o nariz à noite... a varanda: a minha companhia de final de dia ultimamente, o meu sol na pele enquanto leio, até quando tenho de trabalhar em casa, planto-me ao ar livre de portátil e banho o olhar das cores de fim tarde, que é o que melhor veste as paredes desta casa, com requintes de melancolia doce. Quase como as sombras nas paredes brancas, quando, na sala, o luar inunda a noite, e se brinca com a aparência das formas, ou as formas do silêncio nos aconchegam sem faltarem palavras... Agora... agora tenho as coisas da varanda na sala, e palas nas vistas da varanda. Andaimes de vestido roto que não sobem ao céu, só ao telhado, e trancam o meu fim de dia caseiro num baú sem chave. Ontem, com os esqueletos ainda nus, e com umas escadas pouco acima do meu nariz, pensei que dava uma foto engraçada. Sem a lua ainda no céu, enquanto fumava um cigarro na varanda - teimosa em deixar os hábitos, claro - olhei e pensei na legenda, mais que na foto: “quando a lua estiver a jeito, chego lá”, e ri-me para dentro. Estivesse a lua ao cimo das escadas, com o parapeito da noite ao alcance do pé, e talvez tivesse tirado a dita foto... mas não estava. E hoje, os andaimes, já não desnudos como vieram ao mundo, não me deixarão ir à lua. Mesmo que hoje ela estivesse a jeito... é a vida. E aquela coisa do esperar as melhores alturas...
[e esta foto é sublime, talvez seja uma piscina - certamente será - mas quando a vi pela primeira vez, pensei que uma casa inundada pode ter rara beleza se a apanharmos “a jeito”:)) ]
domingo, 28 de junho de 2020
[imagem @diego_cusano]
Há que manter a cabeça fria, talvez seja verdade,
tudo o que deve chegar, chega a seu tempo...
tudo o que deve chegar, chega a seu tempo...
não que seja muito adepta - porque não sou, não sou nada mesmo, chamam-me pessimista por isso, e estão sempre a repetir-me que energia positiva atrai energia positiva... coisa que não sei em que física aprenderam, mas sou eu que sou esquisita, já sei... - dessas cómodas ideias de que tudo no fim correrá bem, mas... hoje, por exemplo, parece que o verão finalmente chegou...
Só não se sabe se para ficar, mas isso também nunca se sabe, quem chega para ficar.
Normalmente vai ficando, o tempo vai-se derretendo nos dias, o resto depois vê-se.
Se for doce é de manter, senão é manter a cabeça fria... e o coração quente.
Se for doce é de manter, senão é manter a cabeça fria... e o coração quente.
(alguém me dizia no outro dia que o segredo era manter a cama quente, mas ainda sou uma romântica, parece... ainda que pessimista aos olhos dos outros, o que poderá até estar correlacionado, penso agora...)
Bom dia!
Bom dia!
sábado, 27 de junho de 2020
quinta-feira, 25 de junho de 2020
Estranha esta sensação do nunca estar cada vez mais perto, mais presente, mais adentro, que me pára os pés já a caminho. Tão pouco ainda para trás, e tanto que falta para chegar ao nunca, para o ser. Ainda que já cá esteja, já seja. Como o infinito num espelho fechado no próprio reflexo infinitamente, até nunca mais, sempre.
O nunca como sentença perene e consciente sempre me assustou. Como uma amputação, uma mudança irrevogável e irrecuperável, que pesa toda a (nossa) eternidade num vazio que tem tudo... que esperamos venha a ter tudo.
segunda-feira, 22 de junho de 2020
... estou esquisita pelo avesso. Não sei porquê... e não encontro outra forma de tentar explicar a coisa senão dizer, como há pouco escrevi a alguém, que parece que estou com bichos carpinteiros na alma...
... sabem aquela sensação que algo nos ferve por dentro e não sabemos porquê, ou de quê? É como estou, como se estivesse prestes a fazer um grande disparate, trepar esta loucura que me sobe por dentro das mãos, dos olhos, da boca, de cada fio de cabelo. E o pior é que nem sei fazendo o quê, ou como... é só uma inquietação sem nome, sem causa, mas cheia de vontade de qualquer coisa que ainda não descobri, que ainda não se descobriu a si mesma... sim, é verdade, já fui mais certa das ideias. É verdade, mas é o que temos agora... alguém sabe como tratar da saúde aos bichos carpinteiros na alma?
domingo, 21 de junho de 2020
...right!!!
...then left...
E pronto quem tem de acartar a lenha sozinha sou eu... que foi o que estive a fazer nas últimas 3 horas da minha vida. Coisa feminina e sexy hein??? Acartar lenha duma divisão para a outra em nome das malditas obras que parece que nunca têm fim... e agora tomar um banho e a seguir pôr um vestido de verão, leve e quase esvoaçante ou qualquer coisa assim :)), e passear as minhas meninas... temos de equilibrar a coisa... right?
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