sexta-feira, 4 de novembro de 2016

[foto @txabe_ss]

"De vez em quando deus me tira a poesia.
 Olho pedra, vejo pedra mesmo."
Adélia Prado

De vez em quando abro os olhos 
 e não acordo
De vez em quando olho
e não vejo
De vez em quando falo
e as palavras são só letras mudas
De vez em quando respiro
e não inspiro
De vez em quando o dia nasce
e não amanhece
De vez em quando a margarida fecha por falta de luz, 
mesmo que esteja cheia de cor aos olhos dos outros. 

Há dias em que a cor me foge do olhar para dentro do negro dos meus olhos. Fica por lá, navega, reduz-se, paira, chega a afogar-se sem se dar conta dela. Por isso, dentro dos meus olhos negros, de vez em quando, vejo a vida a duas dimensões: sem profundidade. Sem poesia. Como quando a vida fica em vácuo.
Hoje uma pedra é uma pedra, mesmo que amanhã não possa ser outra coisa que não a certeza - absolutissima e mais que definitiva- de ser um coração à espera de acordar, de ver, de inspirar, de amanhecer.
Hoje a pedra enterrou a poesia. Ninguém sabe porquê.




Às vezes dizemos que estamos a fazer tempo, que fazemos tempo, como se o tempo fosse produto de vontade, força ou engenho. 
O tempo é coisa escassa, mas que nasce a cada momento. E morre também, ainda que seja feito de infinito. O tempo é coisa invisível, maleável e por de mais relativa, mas de medidas absolutamente rígidas. E só cabe onde quer, mesmo que alguns gostem de o chamar elástico.
O tempo cai quando não estamos a olhar e desliza quando estamos à espera. Se olharmos de frente para ele, não se mexe, e se não damos por ele é porque fugiu. É coisa que se agarra tanto como o vento... podemos enfunar velas e aproveitar, ou podemos levar com os despojos, que arrasta com violência, se não tivermos cuidado.
O tempo é o que dizem que cura tudo. Eu só vejo que esbate a cor nas fotografias.
O tempo é aquele segundo por que perdemos a corrida, e aquele segundo que deslizando teima em não cair. Nem que o abanemos.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016


Gosto quando damos pela vida noutras mãos
e não é aflição que mata, nem paz que morre.
Gosto quando dessas mãos
deslizam palavras em gestos com gosto de alma.
Paladar de pele pelo avesso e direito da alma,
por direito.
Gosto quando o desejo passa do olhar
para as mãos famintas,
Gosto quando a vontade lambe a pele.
Gosto quando os beijos sabem a música
e os sussurros mordiscam prazeres
escondidos num sorriso aberto,
guardado numas mãos que nos entregam.
Gosto.
Não gosto quando as mãos nos fugirem
foge às nossas mãos.
Não gosto.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016


[foto @onyximtimates]

É o defeito dos dias bons, vir contente e vaidoso no meio dos desgraçados, dos desgrenhados e dos apenas desengraçados - dos que não são bons nem maus, são ressacas dos dias bons. Aparentados só por proximidade, deixam um certo amargo de boca e cinzenta a disposição póstuma. É o ar que não enche o pulmão, é o sol que não passa o vidro, é o sorriso que teima em não rasgar e ficar pelo esgaçar do momento que não chega a chegar inteiro. É ter tudo à disposição mas nada servir ao coração. É fazer contas à vida e faltar sempre a prova dos nove, dos noves-fora-nada. E não foi nada. Não foi. Nada.
[foto: @cuddleupnow]

"Uma voz de homem disse: «O Senhor Santomé? Oiça está a falar com o tio de Laura. Uma má noticia, senhor. Uma noticia verdadeiramente má. A Laura faleceu esta manhã.».
No primeiro momento, não quis entender. Laura não era ninguém, não era Avellaneda. «Faleceu», algo tão insuportavelmente fácil como isso. Estaria certamente a encolher os ombros. E isso também era um nojo. Foi por isso que cometi um acto tão horrível. (...) «Porque é que não vai à merda?». Nessa altura, tiraram-me o telefone e falaram com o tio.
(...)
Não se preocupe menina, o seu papá está perfeitamente. Sabe o que aconteceu? Faleceu uma colega e ele impressionou-se muito. E com razão, porque era uma rapariga extraordinária». Também ele disse: «Faleceu». Bom, talvez o tio, o Muñoz, e os outros façam bem ao dizer «faleceu», porque isso soa tão ridiculo, tão frio, tão distante de Avelleneda, que não a pode ferir, não a pode destruir.
(...) mexi os lábios para dizer: «Morreu, a Avellaneda morreu», porque a palavra é morreu, morreu é a derrocada da vida, morreu vem de dentro, traz a verdadeira respiração da dor, morreu é o desespero, o nada frígido e total, o simples abismo, o abismo. "

"Então, quando mexi os lábios para dizer: «Morreu», então vi a minha imunda solidão, aquilo que havia ficado em mim, que era bem pouco. (...) Ela começara a entrar em mim, a transformar-se em mim, como um rio que se mistura demasiado com o mar e por fim se torna salgado como o mar. Por isso, quando mexia os lábios e dizia «Morreu», sentia-me atravessado, despojado, vazio, sem mérito. Agora alguém chegara e decretara: «Despojem este tipo de quatro quintos do seu ser». E haviam-me despojado. O pior de tudo é que esse saldo que agora sou, essa quinta parte de mim mesmo em que me converti, continua, no entanto, a ter consciência da sua exiguidade, da sua insignificância. Comigo ficou uma quinta parte dos meus bons propósitos, dos meus bons projectos,, das minhas boas intenções, mas a quinta parte da minha lucidez que ficou comigo chega para me dar conta de que isso não serve. A coisa acabou, simplesmente."

Mario Benedetti, in A Trégua 


Sempre pensei assim sobre a notícia da morte, nunca o tinha visto escrito, mas li e disse para mim: finalmente alguém me entende! Alguém ouve o que eu oiço.
A mim as pessoas não me falecem, as pessoas morrem-me. Falecer soa-me a um amenizar diplomático para a morte, um suavizar para não ferir, um termo mais domesticado, menos agreste, menos duro. Eufemismos. Como se a morte pudesse não ser dura, como se pudesse não ferir, como se pudesse aparecer sem nos arrancar uma parte, sem cerimónias, à dentada de carne quente. As mortes, as nossas mortes, aquelas que nos gritam e nos roubam por dentro, que desarrumam tudo, que deitam tudo abaixo, são duras, são violentas, fazem nascer outras tantas mortes a seguir de que não desconfiávamos, com que nunca contámos. A vida tem ligações tão estranhamente diversas, intrincadas e delicadamente discretas, que algumas só se notam quando acabam, quando são rompidas, e então percebemos que as havia e o que as sustentava - o que nos sustentava. Falecimento não é morte que nos morra, é morte de que tomamos ou damos conhecimento. É morte que não nos toca, não está tão próximo que apunhale, que fira, que mate, que morra. É um tiro limpo, rápido, duma vida acabada hermeticamente. Morrer, morrer-nos alguém, dura para sempre, entranha-se o vazio por baixo da pele, habita-nos o olhar tempos sem fim: o tempo que a morte dura. Dura sempre e é sempre dura. Morrer-nos alguém que gostamos, que nos faz, é arrancarem-nos um bocado que não sabíamos que não era nosso, mas o vazio que fica torna-se nosso para sempre. Enchemo-lo de saudades e de passado que queremos presente, sempre, e não deixa - nunca - de ser vazio.

[porque li agora uma coisa que me fez lembrar este post antigo, de outras vidas...]

Dum ramo inteiro
 num pé minúsculo
Das intenções grandes 
nas coisas pequeninas
Dos pequenos mimos 
que fazem tudo de nada
Das flores com vida guardada, 
mesmo depois murchas
Dos dias que ficam
no que ficou dos dias.
Dos instantes suspensos,
pendurados em minúsculas eternidades,
 nos cheiros, olhares e sorrisos
 que se colam à pele.
Dos dias que passam
e se entranham inteiros entre os segundos
de todos os que se seguirão.
Uma praga ou uma bênção.
Das respostas que se pedem 
ao vento que deixa o tempo passar.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Translating:
Be stupid enough to 
accept being broken before breaking

Sentou-se à espera do que não se espera,
do que não se espera alguma vez esperar.
Sentou-se e procurou o que não se procura,
o que se procura nunca procurar.

Porque os encontros não se procuram
e os desencontros não se esperam.

Um dia, sem estar à espera,
quando já não procurava,
deu por si a esperar 
não ter encontrado o que procurava.
Porque só sabia esperar o que não se espera
Só sabia procurar o que não se procura

Ninguém lhe ensinou
 o encontro inesperado.
Aquele que nunca se aprende

domingo, 30 de outubro de 2016


Parei em frente ao portão fechado, oiço por trás de mim uma voz meiga a dizer: "fechou às cinco, amor". Virei-me, "..,às cinco? Não sabia, obrigada." Sorri por trás dos óculos escuros, dum sítio qualquer, a que respondeu "fala com o segurança, pode ser que ainda deixe entrar um bocadinho." Foi o que fiz, de flores na mão, margaridas rosa e aquelas flores brancas pequeninas de que, segundo a minha mãe, herdei da minha avó o gosto. Prometi serem só quinze minutos, que era rápido, como se naquele sítio a pressa não fosse um absurdo mais absoluto que a morte. Entrei pelos caminhos sossegados, dos lugares com flores novas, frescas, e dos outros, com a morte desabitada, quase abandonada, como se certas partidas não fossem o derradeiro abandono. Não critico quem não vela a morte pela visita. Os nossos mortos velam-se apenas pela presença diária duma ausência para a eternidade. Não são os que lá são desabitados que têm a alma esquecida, vivem enquanto nos estiverem nos dias, nas memórias, na repetição do que nos deixaram em momentos, em palavras, em pequenas eternidades embrulhadas em certos instantes que não se desvanecem.
Gosto de lá ir em dias de datas desassinaladas, ou das que eu assinalo, gosto de ir sozinha e sem ver gente, de estar sozinha com quem me deixou mais sozinha. Não consegui, não tive tempo de me sentar naquele banco, onde vejo o rio e o céu e o tempo de quem já não o vê. Não tive tempo para ter tempo com quem já esgotou o seu nesta terra feita chão onde outros caminham. Deixei as flores, mal arranjadas mas bonitas, as que gosto. Aquelas, que estas mãos arranjaram, mesmo que mal, num ramo que mistura o que sou, o que me fizeram, o que fiz do que me deixaram nas veias a correr. Parei cinco minutos a olhar pelo vidro, voltei a pôr os óculos quando o céu já não sabia do sol, fiz o caminho de regresso que para alguns já não é caminho, porque não há regresso. Há ausências de que não se regressa que nos acompanham para sempre o caminhar.

Essa coisa de acharem foleiro uma mulher chamar a pessoa que escolheu para a vida de "meu homem". Essa coisa de a mesma palavra designar género e relacionamento: nascida mulher e mulher de um marido. Essa coisa de o homem poder ser homem e marido, ou só homem ou só marido. Essa coisa de separarem umas coisas e não outras. Essa coisa de acharem que as éguas são cobertas e isso ser coisa inferior, como se ser fêmea fosse estrato mais rente ao chão do que macho. Como se o que decorre da natureza fosse humilhante, como se ser coberta por macho, que a fêmea aceite e escolha, desse primazia ao macho porque cobre, ainda que depois de ser aceite. A mulher é fêmea, eu sou fêmea, e não acho que dizê-lo seja diminuir-me, como não acho que dizer macho superioriza alguém. Ou diminui. Embirro com as feministas que diminuem a fêmea, ser fêmea, quando a sua maior força é essa, e isso ser diferente - tão diferente e a beleza de tudo estar precisamente aí - de ser macho, mas de só assim as coisas fazerem sentido, encaixarem, serem o seu papel. A Marilyn tinha frases estupendas, duma inteligência a que poucos chegavam perdidos no caminho do loiro platinado. Como esta, ou como quando dizia que uma mulher querer ser igual ao homem era falta de ambição, porque, na verdade, este não lhe é superior na sua diferença. É apenas diferente. A cada um o seu papel, mesmo que um seja cobrir e o outro seja escolher querer ser coberta, ou não, por aquele macho. Acho bonito - acho mesmo lindo, daquela beleza natural que volta ao intocado e irracionalizado e deseducado - alguém dizer de quem escolheu para a vida ser o seu homem, ser a sua mulher, independente dos rótulos, das relações, do estrato social, educação ou ponto geográfico. Porque ser o meu homem é ser a minha escolha para tudo, dentro de todo o género masculino, independente de qualquer relação, laço ou designação. Nunca resignação. É a ligação pura, essencial, crua. Coberta de razão do que é natural, descoberta de rótulos e preconceitos.



[foto @lovepaperplane]

Passava lá maior parte do tempo. Diziam, com toda a razão, que não jogava com o baralho todo. Nem percebiam sequer ao que jogava ou que cartas precisava ou quais lhe faltavam. Não conheciam os seus jogos, ela jogava com o baralho que tinha. Diziam que não era todo, que não estava completo. Tinham regras para tudo, até para o número certo de cartas, sem perceberem que depende do que se quer jogar. Ou se se quer jogar.
Quando não sabiam onde parava iam encontrá-la invariavelmente na estrebaria. Ultimamente passava lá dias quase inteiros, ou melhor, em todos os momentos inteiros do dia. Estranhamente saía de lá sempre com um sorriso de alma inteira e uma margarida a desenhar-lhe os jeitos do cabelo. 
Ela agora parecia dedicar-se a escovar um enorme animal, de porte majestoso, de pelo brilhante, de temperamento indomável, musculatura de campeão, altura de rei, mas que parecia gostar de ser escovado por ela enquanto ela falava, contava histórias, ria-se, gargalhava até. Andava para cá e para lá, alimentava-o, brincava, tinha medo dele, de cair, de ele fugir, de ele não sossegar para ela o escovar. De ele desembestar mundo fora, para longe da estrebaria onde ela se sentia segura - onde guardava as suas coisas, onde fazia casa -, de tão inquieto sentir ser o bicho. 
Ninguém percebia o que fazia ela tanto tempo naquela estrebaria vazia, sem vivalma, a falar sozinha como se não estivesse, a viver como se sonhasse outros mundos, a viver noutros mundos como se este não fosse sequer sonhado. Diziam que não jogava com o baralho todo, procuravam cartas onde ela via histórias, procuravam animais onde ela cuidava dos seus sonhos.

[sim, não jogo com o baralho todo, não é novidade e não foi por falta de aviso essa surpresa...]
(foto @oxy.to.cin)

Caminhava despreocupada entre o formigueiro de gente que se movimentava como quem tinha um sítio marcado onde chegar. Parecia que só ela observava, só ela, andando, estava parada naquela engrenagem infernal. Viu um rosto que lhe lembrou alguém. Procurou nas memórias sem sucesso, não se lembrava quem aquela cara lhe lembrava, ou quem sabe, até seria. Sentaram-se numa esplanada, ele ao lado dela a olhar para algum lado que ela não via, que ela nunca via, e ele parecia nunca a ver, ou procurar ver para onde ela olhava, senão talvez se encontrassem. De repente lembrou-se: era a cara dum familiar afastado que não via há muito tempo, há muito que não sabia nada dele. Pegou no telefone ligou à irmã, descreveu-o, perguntou-lhe o nome. Desligou o telefone perplexa. Tinha morrido há vários anos, não podia ser ele, ou sendo, só o seu fantasma. Chegaram os cafés, ela aqueceu as mãos na chávena e por instantes fechou os olhos para aquecer o olhar. Quantos dos que se vêem serão fantasmas? Se não soubermos se morreram ou não, são gente como nós... pensou com um sorriso cego que lhe morreu nos lábios e que nunca ninguém viu. Quantos de nós já estarão mortos? Quantos saberão disso? Abre os olhos e, pela primeira vez naquele dia e não sabe há quantos dias, olhou-o nos olhos, disse-lhe: "era um fantasma". E ele, atónito, repete em pergunta: um fantasma? E ela sente um arrepio que vem da terra, que lhe sobe pelos pés, que chega à boca para lhe responder, respondendo-se a si mesma tantas perguntas por fazer que agora ali se respondiam, quase antes de feitas. 
-sim, morreu há anos mas não para mim porque não sabia... se calhar, se não soubermos, as pessoas não morrem, até as vemos noutras pessoas, ou então são fantasmas. As ruas podem estar povoadas de gente que já morreu e não se sabe, e, para quem não sabe, estão vivas ou é como se estivessem. Parecem vivos, mas são fantasmas. - semicerra os olhos, metade em desafio, metade com cara de miúda traquina, e acrescenta - "percebes?"
-que disparate... fantasmas?... só dizes disparates.
-disparate? Estás a olhar para um... morri para ti há anos e tu não sabes, nunca quiseste saber, talvez tenha morrido por causa disso. Morri para ti, mas o mundo nasceu-me, outra vez, agora.
Levanta-se e mistura-se na engrenagem do mundo. Deixa para trás aquela máscara, aquela armadura, aquela pele endurecida naquele tempo de vida que serviu apenas para chegar àquele momento, àquele arrepio, em que volta à sua pele, ao que é, ao que sempre foi. Desistiu de desistir de si mesma. Naquele momento regressa-se e reconhece-se. Por baixo daquele tempo e daquela pele sempre fora assim, ela, apenas andou anos a tentar esquecer-se porque ninguém se (a) lembrava dela.
Pergunta-se, enquanto se levanta, se saberão que agora ela está viva para o mundo?... que deixou naquela mesa os despojos duma pele e duma vida que não era sua, que já não queria, que não era ela, nem dela. Soltou-se para agarrar a essência. Não era um fantasma.

sábado, 29 de outubro de 2016


Um tempo maravilhoso, o sol quente, as nuvens de transparência fina, um sábado sossegado, para mim... Sorrisos que vão aparecendo, mágoas que se querem desaparecidas. Um pequeno almoço que segue um banho lento, dos que podiam lavar a alma se a água chegasse tão fundo... A preguiça estendida em cima da cama, enrolada molhada numa toalha cada vez menos seca. A luz a entrar pela janela, de esguelha, à procura do ângulo para se estender na parede, à minha frente, cheia de circunstância e nenhuma pompa. Cá em casa não entra pompa e há circunstâncias que saem a correr.  Mas não a circunstância de tirar a toalha e enfiar um roupão leve em cima da pele, essa circunstância prolonga-se num pequeno almoço grande, que faz de almoço sem enganar ninguém. O sol quente mergulha na pele, dá umas braçadas na alma, onde nada mas não há pé. 
Olho para a mesa, no tabuleiro a circunstância do café com leite ser ainda leite e café, em camadas. Sobreposto, não envolvido, não misturado. Só de olhar não sabemos se se misturam, se se podem misturar de tal forma que depois já não se saiba dividir um do outro. Distingui-los sequer. Às vezes só de olhar não se vê. É preciso saber do que se é feito para fazer o que não pode ser desfeito. E para isso, muitas vezes, tem de se desfazer muita coisa.
E agora comer e vestir para tomar um café... Gosto destes sábados devagar, com o vagar de domingo que lhes quisermos dar.




Um beijo que se manda
Mas nunca chega

Um beijo dado
Que nunca adoça a pele 

Um beijo com sobrenome de vontade
Beija-nos por dentro da pele, 
a cada viagem que promete fazer

Um beijo que ficou por dar
Sentindo-se essa ausência 
É um beijo devolvido
Daquele que nunca chegou.
É a viagem de volta do que nunca partiu.

Bom diaaaaa ronhaaa....

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Havia um canteiro de papoilas em casa do meu avô, e eu gostava de passar por ele, sempre que ia e vinha de casa dele - de brincar com ele e com as papoilas. Papoilas: vermelhas, e sempre tão estranhas, não sei se bonitas, mas têm aquele aspecto selvagem, de quem não precisa de muitos cuidados, porque o seu maior cuidado é ter ganas de sobreviver, e sobrevivem. Sozinhas vão-se sustentando dia a dia, têm a sua força nessa vontade selvagem de ser, de nascer e aguentar-se de pé. Nem bonitas nem feias, mas com uma graça frágil, simples, natural e ao mesmo tempo cheia duma força quase sobrenatural. 
(publicação original de Março, 2012)

....volta e meia volto às papoilas da minha infância, e à mão que procurava para agarrar a minha, uma mão forte, quente em ternura e protecção. Não eram mãos bonitas - de tão esquisita que sou com as mãos -, mas eram umas mãos que me faziam sentir bem. Mãos que tantas vezes espreitei, de soslaio, noutras que me faziam lembrar essas, que me levavam no tempo e no sangue até elas. Também essas já não me amparam, não me seguram, não me protegem, levaram com elas a protecção, o sentir que há mãos que se podem procurar para nos agarrar, para não nos deixar cair - ou melhor ainda, não precisar de as procurar... tudo isso acabou. Alguém me devia ter avisado que eu devia ter crescido antes disto. Procuro nessas mãos da memória a memória duma segurança que não tenho, mas que tento agarrar no vazio das mãos que perdi. E colo, esse colo que me ampara e repara de todos os males, que os faz desaparecer como num passe de magia para crianças que crêem, enquanto me semeia dentro, um sorriso que já não sei sorrir, mas em que creio.
Tenho saudades, saudades de tudo, de tanta coisa que é o meu tudo, de tantas pessoas que me são e que me faltam... tenho saudades de estender a mão e procurar uma mão, como a minha filha procura a minha quando caminhamos lado a lado, e mesmo sem qualquer perigo aparente, encontra-a, e segura-a. Seguro-a. 
Seguro-a sempre, será que ela sabe?
Alguém me devia ter avisado que eu devia ter crescido quando as papoilas morreram naquele canteiro.

Saramágica - chama-me ele porque me falta a pontuação, porque não sei pôr as virgulas, os pontos, os travessões, esses cruzamentos bastardos que são os ponto e vírgula... mas os pontos nos i´s não me falham. Sei que tem razão, que a cabeça se esquece de pontuar, que às vezes até se esquece de dizer como escrever o que passa a uma velocidade desnorteada, capaz de cruzar a mesma esquina duma ideia, em sentidos opostos, ao mesmo tempo. Tem vezes que até a mim me dá um nó cego nos sentidos, oriento-me pelos sentires - sempre - e tento deslaçar as palavras sem perder o laço, enquanto deixo, descuidada, cair as regras da pontuação, como quase todas as regras da vida nesta vida. Como hei-se agarrar a pontuação se estou afogueada a tentar não deixar escapar a essência, a ideia, a imagem, o que me aparece em monólogos internos e inteiros e inquietos. E tontos tantas - quase todas - vezes. Quero que me ensine, que me abrande sem me travar, que me ponha as vírgulas nas pontas dos pensamentos e nos momentos certos, que em dois pontos me declare o impossível, que me puxe as orelhas entre parênteses, que me perceba sem qualquer ponto e vírgula, que me sussurre sem travessões e me queira sem pontos finais. Não gosto de pontos finais, prefiro a magia dos ritmos que não sucumbem a pontos finais. posso gostar de pequenas pausas em que os recomeços não são fardados de maiúsculas de pompa e - principalmente - circunstância, (tão à moda, que gosto, do Hugo Mãe). Os parágrafos são-me difíceis, como todas as mudanças de tema, de história, de personagem, de mudança imposta que não cai no ritmo. No meu ritmo despontuado, desregrado e intensamente desregulado. Só os tolero se forem desculpa para descanso merecido depois de maratona ofegante, de história dentro da história, que nos prende o fôlego e faz correr galopante o sangue ao coração. Daquelas histórias que Saramago escreveria num parágrafo mágico, enorme, a que não faltaria ritmo, ainda que às vezes nos faça faltar o ar ( e tenho para mim que é quando nos falta o ar que melhor nos respiramos). Esses recomeços bons são continuações apaziguadas que adiam fins sem fim, sem perder o fio à meada, só o ar de vez em quando: como quando nos fazem exclamar de surpresa boa e nos fazem interrogar se a vida tem, ainda e sempre, nalgumas pessoas, luz dentro da escuridão. Dessa luz das searas que faz a vida acontecer nas suas mãos. Magia sem vírgulas.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016







Impor, obrigar, não toca: empurra.
A alma não pode ser empurrada.
A alma vive da vontade, dos nossos quereres mais fundos, que não controlamos, que somos, antes de tudo o resto à volta existir em consciência. É o que mais nos faz.
Nem a razão controla a vontade.
Não entram imposições nem controlos onde a terra é dos sentires. A alma só é tocada se sentir, e não se sente por imposição, apenas, eventualmente, é-se empurrado para a mentira.
A alma é livre - é, talvez, a dimensão única da liberdade pura.

[por isso nunca quis ninguém obrigado. sem alma, nem o corpo é presente... nem a pele prenda.]



Suster alguém numa qualquer paragem que o tempo parou de sustentar. 
Suster alguém num instante sem assustar o tempo que galopa no coração dum puro sangue.
Viajar num beijo por uma vida inteira por acontecer
Que não pára de acontecer a cada encontro por agarrar, 
a cada desencontro de vida que se quer falhar,
sustendo no tempo, no espaço, no impossível, 
um encontro inevitável.
de sustentável imobilidade.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016


Há uma ternura avassaladora que a alma desprende
que enjaula, doido, o desejo debaixo da pele

Há um desejo ardente a queimar a pele
Que arde na alma sem se consumir

Há um desejo selvagem
que só se solta quando a alma chega a casa.
Yet.
Socorroooooo!!
Enfiem-me numa casa de doidos que hoje nem dou pela diferença
 e sempre me chateava menos.
E dormia mais.



Primeiro foram as mãos que me disseram
que ali havia gente de verdade
depois fugi-te pelo corpo acima
medi-te na boca a intensidade
senti que ali dentro havia um tigre
naquele repouso havia movimento
olhei-te e no sol havia pedras
parámos ambos como se parasse o tempo
parámos ambos como se parasse o tempo

é tão dificil encontrar pessoas assim bonitas
é tão dificil encontrar pessoas assim bonitas

atrevi-me a mergulhar nos teus cabelos
respirando o espanto que me deras
ali havia força havia fogo
havia a memória que aprenderas
senti no corpo todo um arrepio
senti nas veias um fogo esquecido

percebemos num minuto a vida toda
sem nada te dizer ficaste ali comigo
sem nada te dizer ficaste ali comigo

é tão dificil encontrar pessoas assim bonitas
é tão dificil encontrar pessoas assim bonitas
(...)

Pedro Barroso

Há coisas que leio que me deixam tão pouco por dizer, que roubam as palavras por devolverem o sentido dos sentidos, do sentido querer. Do querer tão sentido. Do desejo que se bebe na pele, duma sede que nasce por baixo da pele. Nasce e morde-te, acorda-te, emaranha-te numa revolução sem mote. As mãos agitam-se de vida errante, mas de verdade, quando, das verdades certas perderam o sentido do Norte que se esquece de sentir. Mãos que se querem boca e pele e sol. E beijo, um só, que se faz sede e dá de beber. Sobram palavras quando os olhares gritam, soçobram os sentidos quando a pele sente por dentro o que toca por fora, desperdiça-se silêncio quando nele não cabe um beijo dado de corpo inteiro, entregue numa palavra que não precisa ser dita. 
"É tão dificil encontrar pessoas assim bonitas", mas se encontramos é inevitável que o tempo perca o seu papel, que um minuto possa ser uma eternidade inteira, que um beijo tenha corpo e asas e sonhos. Que se poise esse beijo nuns lábios como se a vida fosse um breve instante à espera de voar.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Cura tudo que se pode curar e adoece-nos de vontade de beber a vida num trago 
quando se ri a pessoa certa, com a piada certa.
Ou a piada acerta-se porque a pessoa é certa. Nunca acerto com isto...
Bom Dia

sexta-feira, 21 de outubro de 2016


A luz brinca, entra por todos os recantos, ri-se em sombras. Abraça, agarra o tronco como quem puxa uma cintura, passa as mãos por ramos e galhos como quem passeia levemente por braços e pernas, passa e abana as folhas como se passasse os dedos sedosos pelos cabelos de luz. Faz tudo como se não fizesse nada. Brinca como se não fosse o sol a emaranhar-se nas árvores, brinca como se brinca à vida que não fica por viver. E às vezes fica. Tantas vezes fica.

[escrito no caminho de regresso do Alentejo, descoberto agora nas notas do telefone porque faltava a foto. E hoje apetecia-me Alentejo, estradas sem norte, curvas sem esquinas, dourados que afagam. apetecia-me esquecer-me, deixar de ser-me, ter-me como uma sombra se fecha numa mão. Em vez disso fecho-me num escritório e sonho num dia em que me abra numa seara.]

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Sim, como quando se sabe que é aquela pessoa que queremos. 
Não é porque nos conseguimos imaginar o resto da vida com ela... 
é porque não nos conseguimos imaginar sem ela dia nenhum da nossa vida. Nem queremos.
Era bom poder sentir uma coisa dessas, acreditar, e depois poder ficar com essa pessoa, não só imaginá-la, não apenas sonhá-la, vivê-la -  sabê-la certa. 
Confiar.

terça-feira, 18 de outubro de 2016



Talvez se eu aumentar a minha latitude não dê pela tua longitude. Talvez o medo não seja instinto seja pele que veste a pele para não sentir a alma que guarda nos limites vertiginosos do equador do ser. Talvez não acreditar seja acreditar que é melhor não crer, que querer não basta e que nunca sabemos do querer do outro lado da fronteira. Somos sempre estrangeiros quando saímos de nós, somos sempre refugiados quando o sentir nos expulsa as fronteiras do mapa que nos segura, e nos vemos espalhados por mundos que não governamos, que não são para ser entendidos, mapeados ou pacíficos. Talvez não sabermos a Terra que pisamos nos faça sonhar céus onde as nuvens não são nossas, mas onde a chuva nos refresca a vida e nos lava os dias como nossos. Céus onde o azul nos aquece o olhar e o sol nos tinge a pele sem licença, queimando o medo que o sol despreza. Talvez o medo se amedronte quando o sol abre os braços mas é tudo o que resta quando o abraço anoitece. Talvez se eu diminuir a minha latitude acredite que a tua longitude não se mova do impossível e todas as coordenadas estejam condenadas.

terça-feira, 11 de outubro de 2016


... E ela apanhou o cabelo enfeitou-o com uma flor de sonho, 
sorriu como quem veste a pele de sol e a alma dum dia por nascer.  
Sabendo que o ocaso é um acaso que se pode esquecer, por querer ou só por acaso.
[recebi esta foto e diziam-me para a pôr no cabelo, que ficava giro... Saiu-me isto.]

sexta-feira, 7 de outubro de 2016



A aproveitar os últimos cartuchos. Daqui a nada banho e estrada até à vida de todos os dias. Ainda não pensei no caminho, mas não o quero direito nem directo, quero saborear o tempo, lamber com os olhos as vistas que dão de comer. Quero parar e guardar momentos, quero música o tempo todo, quero vidro aberto e o vento a passar. Quero o sorriso a vestir a alma e quero gargalhadas que dispam tudo. Mesmo sozinha quero tudo inteiro e completo. Quero o azul no longe da linha do horizonte e até lá o dourado que será fogo ao entardecer. Quero arder nesses tons. Quero não pensar e ter tudo pensado. Quero mais que tudo, não querer nada. E tê-lo.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016


(...)
mas já me doem as veias quando te chamo
o coração oxidado enjaulou a vontade de te amar
os dedos largaram profundas ausências sobre o rosto
e os dias são pequenas manchas de cor sem ninguém
(...)

Al Berto

Quando será que a poesia volta à minha vida?
Quando será que a poesia me volta a dar vida?
Quando será que volto a dar vida à poesia?
Quando será que a minha vida volta em poesia?
Ler não é viver, e a poesia vive-se, respira-se, sente-se por dentro do verso, como sinto estes, assim tão rasgados nos dias que apodrecem e me devolvem uma dor que quero espantar, que não quero viver, mas vivo, dentro e fora dos versos. O inverso da poesia ainda é verso e ainda é poesia. Quero outra poesia, outra vida. Passo a vida a ler de tanta coisa que queria viver, ou que ainda não esqueci que vivi, ou que já não espero viver e prefiro esperar esquecer, mas a poesia acorda o que nunca adormece, o verso que a língua prende num beijo que ficou por dar, mas entregue em todos os gestos e em todos os olhares que falaram o que nunca se pronunciou, e que nunca será ouvido. Jamais.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016



...há dias em que é muito difícil. Tudo...
Chatear-me com a miúda, ficar neura, tentar afastar a neura com um café com o N. e uma troca de brincadeiras com um primo maluco, a neura não abandonar o barco, a meio da tarde saber que tiveram de ir para o hospital de urgência porque são teimosos e não ouvem o que se lhes diz, apetecer-me dar palmadas como às crianças, lidar com o pânico e o medo de quem fica do lado de fora do hospital, aguentar as pontas quando não há ponta por onde se pegue, tentar trancar a neura para animar outros, fazer o jantar para todos e desejar só chegar ao sofá, sozinha, ligar a televisão para estupidificar o cérebro e esquecer-me que a minha vida existe e que amanhã começa mais uma semana... E para quê? Sim, para quê? Irra que estou farta disto, de tudo. Desta vida estúpida, da estúpida da minha vida, de mim, de estar amarga e não sei porquê, de me deixar estragar por quem me estragou sem já sequer se lembrar que eu existo, estragada ou não, por não conseguir dar-me a volta quando não há volta a dar, a não ser continuar e fazer de conta que nada foi. Quando já foi tudo o que havia para ser e não sei o que me resta para ser, para eu ser. Evaporei-me e já nem a intensidade me condensa. Preciso de me chover de novo, de começar um ciclo, de renascer, e amanhã começa outra semana e eu continuo sem saber porquê ou para quê. 

[escrito ontem à noite mas não sei porquê não foi publicado]

quinta-feira, 22 de setembro de 2016


... O meu deve estar cravejado de buracos negros, só pode...
Nos últimos anos tem sido um atrás do outro, onde tudo parece desaparecer, ir pelo ralo, sem apelo nem agravo. Sem eu conseguir evitar. Às vezes leio coisas antigas e pergunto-me como tinha sempre coisas para escrever, para dizer, para tentar explicar. O amor apaixonado é uma fonte inesgotável de coisas boas, de poesia por dentro do olhar que se deita sobre o mundo. Tinha sempre vontade de encontrar coisas giras ou que dissessem o que eu sentia, poemas que diziam quase o que eu queria dizer e eu tentava dizer o resto do meu sentir, ou que lendo me despertassem sentires que eu reconhecia. E as brincadeiras, o sentido de humor, a ironia o meu característico sarcasmo... Às vezes pergunto-me para onde foi tudo isso... E parece que descubro mais um buraco negro que engoliu tudo. Isso tudo e a vontade disso tudo. Ainda que eu ache que ainda está tudo cá dentro só que adormeceu. Será que se dormir tempo demais desaparece? Eu gostava tanto dessas coisas, das brincadeiras, dos sentimentos doces, do sentir enorme, da intensidade que pesava mais que tudo fazendo-me ao mesmo tempo sentir a leveza de só ser, só sentir. Ter momentos de quase flutuar. Não quero ficar amarga, sempre o disse, não quero deixar que os últimos largos anos da minha vida me tirem o que gostei de sentir em mim. Mas a verdade é que estou céptica, não acredito nas pessoas e ainda menos em mim, enganei-me demais acreditando nas sensações que tinha, no que sentia sentirem. Já nem acredito que haja a sorte de certas coisas serem recíprocas, de haver dois gostares parecidos que se encontrem, se tropecem na vida, se vejam e não mais se larguem. Acho que isso é coisa que só se sente de um lado, e se tivermos a sorte de o poder sentir e viver. O resto é coisa de filmes e livros escritos por gente que o sentiu e passou para o papel uma realidade a dois, o sonho,  que na vida real foi de um só. 
Leio coisas minhas antigas e surpreendo-me com o que escrevia, de como as coisas me saíam, de como ainda sei exactamente o que é aquele sentir, mas agora subtraído do acreditar, ou da esperança de poder ser vivido, seja com quem for. Também leio coisas de há um ano, ou dois, e percebo que estou diferente, já não luto comigo e com tantos dos meus porquês, falo do passado como passado, como realidade acabada, como aceitação talvez. Ter aceite e aceitar não entender. Li algures uma coisa sobre a sabedoria e fiquei a pensar naquilo, dizia qualquer coisa como a sabedoria era não querer saber o que não se podia saber, eu andei a pensar naquilo e acho que sim, a verdadeira sabedoria é saber distinguir entre o que é possível saber e entender e o que é apenas perda de tempo e murros em pontas de faca. 
Acho que já não consigo ver as coisas como via, e tantas perguntas que eu tinha, tanta coisa que queria perceber, são todas em última análise, e de alguma forma, respondidas agora pela mesma resposta, como uma chave mestra que fecha todas essas portas a respostas abertas, a respostas por explicar: eu não era amada. Isso no fundo dispensa quaisquer outras explicações. Explica tudo. Eu não era amada e ponto final. Já alguém dizia alguma coisa deste género, que também acabava assim - "ou é amor ou não é, e ponto final" -, e eu já não me lembrar exactamente da frase, mas que sei que não era esta, prova que realmente algo em mim está diferente.  Resta saber o que mais se perdeu em mim de mim. Que parte esta história toda me arrancou que eu não consiga recuperar. E se essa não era a minha melhor parte - o melhor de mim, o melhor que eu podia ser, e o que afinal era mais eu. E desapareceu da face da vida. E se desapareceu fico-me a perguntar se essa parte era realmente minha, ou só emprestada.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

[livro: Um rio chamado tempo uma casa chamada terra, Mia Couto]

... Acho que eu também. As ideias gastaram-se por excesso de uso, se calhar. As lembranças, quanto mais se usam, menos se gastam, mais duram.

"Não, ela fala é o nada" - porque ela fala o silêncio, o silêncio também comunica, tem significado, diz coisas: fala. Só nunca se sabe o que entenderam, o que foi entendido ou não entendido. No silêncio cabe tudo, é uma prova por provar, um amor por viver, uma palavra que se nega, ou um facto que nada prova, um amor que nunca existiu, uma palavra que nunca chegou a ser pensada. Pode ser tudo, mas é sempre alguma coisa.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016



"O amor a castigara, a vida não lhe oferecera presentes. 
O amor nos pune de modo tão brando que acreditamos estar a ser acariciados."
"Doença tem começo? Ou sendo como o amor: 
essas coisas que só existem depois de serem lembradas?"
Mia Couto, in um rio chamado tempo, uma casa chamada terra

O amor é tanto pior para nós quanto melhor foi. Quanto mais nos sentimos bem e acariciados pela sorte de amar de certa maneira que sentimos certa, mais sofremos depois o castigo desse amor já não poder ser amado. Ou nunca o ter sido como pensávamos. E sim, só se sabe que já nos habita quando algum sintoma nos surpreende com a certeza de que já fomos infectados. O nascimento é anterior à consciência da sua existência - quando já é tarde demais, quando já nada se pode fazer, ou travar, ou tratar. Desconfio que alguns tipos nem têm cura, nem do tempo, que dizem ser curandeiro de mão cheia, infalível. Mas ainda estou para comprovar...
Doenças incuráveis lembra-me o espanto que disfarcei hoje, por as cores na pele se terem desvanecido, diluído, perdido. É a doença a comer a saúde, o sangue novo. Amanhã faz uma semana que levou sangue novo, duas doses, e está a perde-las a uma velocidade acelerada. O medo instala-se por trás do que se mostra, mas cresce. Não estou preparada para perdê-lo. Não estou. Tenho medo e não tenho nada com que lutar, as minhas mãos estão vazias e a guerra não a posso fazer minha para enfrentá-la eu. Nada está nas minhas mãos. Há coisas demais, importantes demais, que não estão nas minhas mãos, ao alcance das minhas acções ou decisões. Nem agora nem dantes... Pareço uma espectadora, a ver na tela passar a minha própria vida, escrita por alguém com requintes de malvadez e um sentido de ironia bem aprumado.

sábado, 10 de setembro de 2016


Os fins de dia sentem falta de alguma coisa e algumas noites são vazias até de pensamentos. Não de todos, dos que acalentam a alma, e tudo parece deserto. Os minutos como grãos de areia. E o horizonte é ao fundo de um lençol imenso de areia - um mar com ondas petrificadas. E foge, a cada passo que damos ele recua um passo, e a vontade de caminhar a areia vai morrendo lentamente. A vontade, cada vez mais magra, deixa de ter fome e o sol aumenta a sede que morre no sangue que não parece correr. Havia alturas em que o deserto era caminhado com gosto de sal na pele e de mar na boca, o sangue tinha sede de sol e não se cansava de correr para o coração. As noites floriam das recordações que se viam por trás dos olhos fechados e nos acalentavam a solidão pela doce ilusão de verdade bebida no calor dos momentos.
Hoje o coração é este deserto de que vos falo, não sei se é ele que me habita ou eu o habito a ele, tão desabitado, tão árido. Um dia destes acordo toda feita de areia, petrificada por uma qualquer onda que se esqueceu de chegar à costa.
Há noites tão vazias que o vazio vai a meças com o horizonte. E o desiludido cansaço é tanto que o corpo não sente, a alma não sonha e a vida se esquece de acontecer.

terça-feira, 6 de setembro de 2016



"Acordar não é de dentro.
Acordar é ter saída." - João Cabral de Melo Neto
[livro: um rio chamado tempo, uma casa chamada terra, de Mia Couto]

Cheguei ao terceiro capítulo, de que me agrada o título, e fico parada em frente a estas duas linhas - que em vez de me acordarem me fazem sonhar significados que nunca pensei - "Acordar é ter saída", "não é de dentro". Talvez seja verdade, talvez acordar não seja uma coisa de dentro, talvez seja uma coisa provocada, filha dum gatilho qualquer.. Talvez uma saída. Talvez. Mas há o acordar por ser acordado e há o acordar sem chamamento de fora, o abrir os olhos porque o sono se esvaiu.
Mas numa coisa parece haver razão. Quando vemos saída, de repente vemos tudo de forma diferente... Como se acordássemos dum sono dormente, indolente, e quase doente às vezes.
Mas, antes de chegar ao fim do segundo capítulo, tropecei nestas:

 " em África os mortos não morrem nunca. Excepto os que morrem mal. A esses chamamos de 'abortos'. Sim, o mesmo nome que se dá aos desnascidos. Afinal, a morte é outro nascimento."

A morte é outro nascimento - talvez, mas nem sempre -, como a cada não corresponde um sim - mas sempre e em todas as vezes neste caso. É como o seu reverso, já a morte nem sempre tem reverso correspondente. A uma morte não corresponde sempre uma vida ou um (re)nascimento. Infelizmente.
...Depois uma palavra inteira, completa, que não existe e ainda assim me faz sorrir. Há palavras que nos fazem sentir o que dizem, mesmo que não existam. Sensação tão familiar para mim... Palavras que fazem sentir e sorrir, mesmo que em verdade não existam, nunca tenham existido, no que descrevem ou falam...

"Vamos rompendo entre a enchente, espremidos um contra o outro como duas pahamas, essas árvores que se estrangulam, num abraço de raízes e troncos. De encontro ao peito, sinto os seus seios provocantes. Provoquentes, diria meu avô Mariano."

Há certo tipo de provocações, conscientes ou não, que são sempre quentes. E eu gosto dessas. Não gosto das provocações para sentimentos frios, para esfriar o outro, rebaixar o outro, humilhar o outro. E estou farta dessas. Gosto das provocações quentes, mesmo longe, que aquecem, que acendem, que provocam o que de bom se pode ter só de pensar em alguém. Físico ou não, de pele ou de alma. 'Provoquente' é uma palavra inteira, completa de significado, para mim. Só que não existe. Como a palavra "amorar", tão bem inventada, tão nada sentida. Como tanta coisa, como abortos que nunca nasceram, nem sabem morrer. Que não encontram reverso.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

"- Eu volto, Avô. Esta é a nossa casa.
- Quando voltares, a casa já não te reconhecerá - respondeu o Avô.
O velho Mariano sabia: quem parte dum lugar tão pequeno, mesmo que volte, nunca retorna."

Mia Couto, in 'um rio chamado tempo, uma casa chamada terra'


Será que é assim com toda e qualquer pequenez? Quando se volta já não se cabe lá? Nunca mais se retorna, deixamos de reconhecer o lugar que era nosso?
E se for, não duma pequenez que se sai, mas duma grandeza? Será que todos os outros lugares nos vão parecer apertados? Curtos? Pobres? Pequenos para um regresso que não volta?
Onde será que vou caber agora?


"Em silêncio, olho em volta. Cercado pelo sossego da pequena igreja me apetecia, naquele momento, deixar de ser filho, neto, sobrinho. Deixar de ser gente. Suspender o coração como quem pendura um casaco velho."

Mia Couto, in um rio chamado tempo, uma casa chamada terra

Era o que me apetecia também, entrar numa igreja, que ha tantos anos não entro sozinha, só para me ouvir pensar e tentar acreditar no que acredita quem lá vai rezar. Para ficar assim, só filha de Deus, sem me sentir neta, sobrinha, irmã, filha e mãe. Sem sentir raízes que prendem ainda que sejam o que nos alimenta e nos forma o corpo para enfrentar o tempo. Deixar-me só ficar, sem ser o abraço das lágrimas daquela que me pôs no mundo, sem ser os minutos ligeiros de quem traz o cansaço no sangue, sem ser a sombra que acompanha quem comanda o barco contra a tempestade para esconder lágrimas que não controla, sem ser ninguém. Pendurar o coração num prego que alguém pregou à força dum martelo cruel na nossa vida. Talvez deus.

terça-feira, 30 de agosto de 2016


Deixei o Flaubert, ao fim de trinta páginas não me prendeu a alma nem o tempo, abri o Mia Couto e achei que combinava com este sossego que chama a preguiça, com este silêncio que me adoça a solidão. 
Olho o céu para ver se há vestígios de fumo, e vejo que ainda há, mas fumo de fogo que já ardeu, baixo os olhos e reparo na chávena que reza baixinho, quase não a ouvia: 

"curação por curação/ Amor num troques o meu/ Olha que o meu curação sempre foi lial ó teu". 

E ponho-me a pensar na quantidade de erros... Não, não os ortográficos, os de vida, os de coração. Não se pede, nem diz, a ninguém que não nos troque, não por orgulho - embora se deva sempre ter uma medida onde caiba a dignidade - mas apenas porque não vale a pena, o amor não se pede, tal como não se exige. Depois porque ninguém fica com ninguém por lealdade - ou por agradecimento, ou por pena, ou por qualquer sentimento que queiram impingir como altruísta - até porque, geralmente, ou não é reconhecida, ou não é valorizada. E ainda bem neste caso. Ao lado do nosso coração devemos querer outro coração que nos queira, um que queira bater por nós e por estar ao nosso lado.
Do Mia já me pararam duas frases (pelo menos):

"A cicatriz tão longe duma ferida tão dentro: a ausente permanência de quem morreu." - não importa quanto tempo, não importa a distância do dia, do último dia, importa como nos está entranhada, bem dentro, essa ferida permanente duma ausência. De tantas ausências. De tantas e variadas mortes.

"Seu olhar parece mais um modo de escutar." - eu acho que sou assim escuto com os olhos também, como também falo com os olhos. Há conversas inteiras dentro dos meus olhos, dentro de cada olhar diferente que se tem com quem se olha, com quem vemos e ouvimos pelo olhar. O nosso e aquele que escutamos, e que talvez nos escute.
Tenho conversas inteiras no olhar que teimam em desabitar-me, em desabituar-me o olhar daquele vocabulário.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016


... Encontrado por acaso e que me fez muito sentido. Se calhar só se consegue recomeçar mesmo quando não há qualquer esperança de continuar, quando está tudo quebrado, tudo fodido... quando nada resta senão recomeçar - não do zero mas do vazio.

terça-feira, 16 de agosto de 2016


Última noite, última meia garrafa. Quatro noites, duas garrafas, bebidas aos poucos entre pensamentos, cigarras e a lua. Sem horas mas com o meu tempo. Como agora, acabada de jantar quase à meia noite. Não sei o que me reserva o futuro mas estou cada vez melhor sozinha. Se algum dia encontrar alguém terá que ser alguém com quem eu possa estar sozinha ainda que a dois, assim, sem horários sem stresses. Estar como se estivesse sozinha sem estar, alguém que saiba estar sozinho comigo, sem me alterar os ritmos, sem me impor um compasso que me faça ansiar, que me faça exigir de mim comportamentos para eu evitar sentir que ele não está bem. Porque senão não fico bem, não estou solta, à vontade, eu. Que entenda, que goste do tempo sem horas, que saiba estar aqui sentado nos degraus do alpendre a ouvir a brisa a mexer as folhas, as cigarras a cantar o luar brilhante e uma vela a arder que dança à superfície dos corpos. Só isto. E um copo de vinho, ou os que forem, e beijos bebidos à sede do momento, a cada momento, no silêncio que não perturba, antes embala uma paz tranquila. Quase sábia. É tão bom estar à vontade das vontades.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016


Está-se tão maravilhosamente bem aqui... A esta hora, por baixo dos pés descalços a tijoleira ainda está quente. Torna o caminhar confortável e aconchegante depois dum sol abrasador. A rua está sossegada, o cão já está aninhado, as estrelas hoje enrolaram-se no edredon de nuvens, não as vejo ainda que as saiba, como, afinal, em tantas coisas na vida, e eu estou aqui, assim, de vestido fino de verão, já sem cinto, sem nada, descalça, cheia de sonhos no corpo e vontades no coração. O verão tem destas coisas, convida a noite a entrar-nos no corpo, os olhos a beberem estrelas e o sossego da escuridão a embalar-nos o virar dos dias. Hoje, o corpo e a cabeça estão exaustos mas já só pensam na liberdade de tempo e de afazeres daqui a uns dias. Aqui estou sozinha, aqui, hoje, quero e gosto - apetece-me estar sozinha. Daqui a dias vou fazer caminhos para outras paragens onde o ar é diferente, as estrelas se juntam ao redor dum céu imenso, onde se vêem estrelas cadentes e manda a tradição - ou só um amor descosido - se faz um desejo... E eu, agora, cada vez que vejo uma estrela cair sem ninguém a tentar agarrá-la e levá-la no bolso do olhar,  penso que é só um amor que deixaram cair e morrer, enquanto outros apaixonados desejam que nasça o amor eterno naqueles que amam... Uns caem para outros os desejarem. Talvez seja isso a vida, ou então são só as minhas estrelas cadentes particulares. Quem sabe?... A noite se souber não diz, guarda. Como se guarda um amor que se sente sem se ter.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Sopra um vento quente, oiço as folhas secas no passeio a rolarem com a brisa e penso que há coisas em mim que não quero ouvir mais que não quero falar, raivas que me mordem minutos demais, revoltas que me cerram os dentes e ferram o silêncio que lhes quero dar. Não quero pensar em quem não me pensa, não quero sentir por quem nada sente. Quero dar silêncio ao silêncio que me doam e tanto me dói. Quero doar insignificância para quem sou insignificante. E quero fazê-lo como se não o fizesse, como se não me doesse. Levanto a cabeça e tento cheirar o aroma do calor, da brisa que me afaga os minutos aqui sentada. Aqui alapada neste silêncio que é prazer ao contrário do outro. Quero pensar que a noite foi boa, que o passeio foi simpático, que a conversa foi corrida, que quero sentir-me bem. Que quero gostar da vida assim, aqui, neste silêncio que as folhas que dançam lá em baixo me sussurram cá em cima. A vida tem de ser vivida com quem a quer viver connosco.
E daqui, donde parece que vejo a minha vida, há uma sensação de apaziguamento que vem de saber que dei tudo, que ninguém gostou ou gostará mais dele do que eu, e que qualquer um, com quem esbarre na rua, poderá gostar mais de mim do que ele. Que poderá vir a gostar.  Eu não perco amor nenhum por não o ter, apenas deixo de ter onde desperdiçar o meu.

sábado, 6 de agosto de 2016

Despedi-me dele como se não me soubesse despedir, entre um sorriso doce e a sensação que nunca saberei cuidar dele, ou parecer que sei, por muito que o ame e lhe queira o melhor. Por muito que fizesse tudo o que fosse possível fazer por isso. Ele à minha frente, com um calor que nos escorria pelas costas, mais vulnerável que os dias corridos o fazem conhecer, mas que eu reconheço no olhar solitário, tão apegado ao amor por quem gosta e de quem sempre cuida. Não se sente confortável na vulnerabilidade que esconde num olhar meigo. E eu apetecia-me abraçá-lo, mas não aprendi a abraçar o abraço que precisei  naquela altura, alguém tão grande, tão acima, tão pai sendo irmão. Tenho medo por ele, mas sei, sinto, que os meus braços são de bebé para o ajudar, para o proteger, para que a sua força os possa salvar de alguma coisa. Mas estendo neles, em qualquer abraço que lhe dou, todo o amor puro que conheço. E tenho.
Fiquei à espera que o comboio partisse, tinha-me dito que fosse embora, estava muito calor, mas queria-me lá, queria saber-me lá. E eu soube disso quando tentava descobri-lo dentro duma das carruagens com o comboio já em movimento e de repente vejo alguém a acenar-me um adeus alegre, eu não tinha ido embora, estava à espera de lhe entregar o meu. Entreguei, levou-o, há-de trazê-lo de volta.

terça-feira, 19 de julho de 2016


Não te chamo para te conhecer
Eu quero abrir os braços e sentir-te
Como a vela de um barco sente o vento

Não te chamo para te conhecer
Conheço tudo à força de não ser

Peço-te que venhas e me dês
Um pouco de ti mesmo onde eu habite

Sophia de Mello Breyner Andresen


[tens algum sítio em ti onde eu habite?
Onde tenha lugar?
Onde seja o meu sítio de ti?
Tens?
Sabes se tens?
E visita-lo? Vê-lo?
Asfixia-lo na sombra dos dias
ou guardá-lo na gaveta da vida por respirar?
Ou das memórias por sentir?
Tu não me habitas
Como as paredes, o tecto
o chão e o telhado, não habitam casas
Não tenho um sítio que habites em mim,
o meu lugar és tu,
onde estiver, tu és.
Onde eu for, tu estás.
Há um olhar teu
Em cada pensamento meu.
O mundo são só janelas.]

(Saiu-me agora, quando me cruzei com este poema...há que tempos não escrevia assim...)

terça-feira, 5 de julho de 2016

Último cigarro do dia. Duas luzes na mesa outras tantas na rua. Não está feio e apetece-me deixar-me ficar, nunca me apetece acabar o dia, não porque tenha sido bom, mas porque começar outro não é ideia que me anime... E aqui estou bem, enrolada no cadeirão redondo a ouvir vozes ao fundo. Falam espanhol e riem. Rir não tem língua, é linguagem universal. Como outras que não se servem de palavras mas que dizem mais que muitas palavras eloquentes juntas. Dantes acreditava muito nessa linguagem que não se falando se exprime, que se sente mesmo que não se entenda. Escrevo isto e penso que volto sempre à essência, à ideia de essência. O que é essencial percebe-se mesmo que não se entenda, sente-se mesmo que não se fale. É um perceber que se sente sem razão. As palavras só são precisas para as razões com que procuramos entender. E desentendemo-nos muitas vezes com o que procuramos entender, muitas vezes num entendido desentendimento a que procuramos fugir. A essência apenas é, é-nos independente de tudo, selvagem não domesticável à razão.
E eu já não sei da essência dos dias, da vida, mas ainda sinto a minha. Sinto-a desbotada, apagada, mas não mudou, não entendo como, mas sinto-o. 
A essência não muda e não tem rótulos, os rótulos precisam de palavras. Não são universais, são língua, mas nem sempre linguagem. Quase nunca a minha.
E no entanto aqui estou eu, a escrever na minha língua a minha linguagem. Não é universal, nem todos entenderiam, alguns apenas se ririam. Talvez com razão. 

segunda-feira, 4 de julho de 2016



Encontrei esta conta com frases lindas. Fiquei a ver não sei quanto tempo, guardei umas tantas... Mas esta, esta eu gostava que fosse possível, que fosse possível alguém ler e poder achar que eu podia ter alguma coisa destas, e sentir principalmente a última. Acho que é o amor que faz isso, não especialmente a última, há muitas coisas por que as pessoas podem nunca ser esquecidas, mas todas as outras é o amor que faz, que desenha, que brinca com a realidade às vezes... ver isto em alguém depende de ver com amor, fechar os olhos e ver assim a pessoa que gostamos. Só a vemos assim porque gostamos, porque é o amor a ver, não os olhos, não a cabeça, mas o amor que lhe temos e o que nos faz sentir. Cada uma destas frases eu senti tantas vezes a pensar naquela criatura, a maneira como falava com as pessoas, aquele sorriso malandro com que toda a gente simpatiza, que muda o ambiente, o contexto, muda tudo, a mim derretia-me, e o riso... o que eu adorava ouvi-lo rir, curava-me de qualquer coisa, qualquer mal virava sorriso, e eu virava-me do avesso se preciso fosse para o fazer rir, principalmente se não estivesse para aí virado, com o sorriso trancado nalgum recanto escuro de si mesmo, nalgum recanto frio da vida. O sítio onde tinha de chegar para o arrancar. E sim, quando entrou na minha vida, quando me apertou o pescoço e me roubou um beijo que eu entreguei colado à alma, mudou tudo. Tudo. E é disso que tenho medo, que aquela última frase seja eterna. Muito medo. Porque não há nada a fazer. Não há nada que eu possa fazer, senão deixar os dias ganhar pó, amarelecerem, ir tentando matá-los aos poucos na medida que eu conseguir... Mas acredito que há pessoas que nos ficam dentro, coladas aos ossos. Mesmo que com a vontade de as fazer desaparecer as reduzamos a pedaços, como memórias partidas, essas agarram-se aos ossos e não largam, passam a fazer parte, deixamos de conseguir separar o osso da vida que viveu e que o partiu para sempre. Há fracturas que ficarão sempre, mesmo que o esqueleto continue a mexer, a viver, a ser. Já não é o que era antes e já não será o que poderia ter sido, coberto com uma camada protectora de vida, de sorrisos, de amor. Foi-se tudo ficou o esqueleto de ossos partidos.