quarta-feira, 2 de novembro de 2016

[foto: @cuddleupnow]

"Uma voz de homem disse: «O Senhor Santomé? Oiça está a falar com o tio de Laura. Uma má noticia, senhor. Uma noticia verdadeiramente má. A Laura faleceu esta manhã.».
No primeiro momento, não quis entender. Laura não era ninguém, não era Avellaneda. «Faleceu», algo tão insuportavelmente fácil como isso. Estaria certamente a encolher os ombros. E isso também era um nojo. Foi por isso que cometi um acto tão horrível. (...) «Porque é que não vai à merda?». Nessa altura, tiraram-me o telefone e falaram com o tio.
(...)
Não se preocupe menina, o seu papá está perfeitamente. Sabe o que aconteceu? Faleceu uma colega e ele impressionou-se muito. E com razão, porque era uma rapariga extraordinária». Também ele disse: «Faleceu». Bom, talvez o tio, o Muñoz, e os outros façam bem ao dizer «faleceu», porque isso soa tão ridiculo, tão frio, tão distante de Avelleneda, que não a pode ferir, não a pode destruir.
(...) mexi os lábios para dizer: «Morreu, a Avellaneda morreu», porque a palavra é morreu, morreu é a derrocada da vida, morreu vem de dentro, traz a verdadeira respiração da dor, morreu é o desespero, o nada frígido e total, o simples abismo, o abismo. "

"Então, quando mexi os lábios para dizer: «Morreu», então vi a minha imunda solidão, aquilo que havia ficado em mim, que era bem pouco. (...) Ela começara a entrar em mim, a transformar-se em mim, como um rio que se mistura demasiado com o mar e por fim se torna salgado como o mar. Por isso, quando mexia os lábios e dizia «Morreu», sentia-me atravessado, despojado, vazio, sem mérito. Agora alguém chegara e decretara: «Despojem este tipo de quatro quintos do seu ser». E haviam-me despojado. O pior de tudo é que esse saldo que agora sou, essa quinta parte de mim mesmo em que me converti, continua, no entanto, a ter consciência da sua exiguidade, da sua insignificância. Comigo ficou uma quinta parte dos meus bons propósitos, dos meus bons projectos,, das minhas boas intenções, mas a quinta parte da minha lucidez que ficou comigo chega para me dar conta de que isso não serve. A coisa acabou, simplesmente."

Mario Benedetti, in A Trégua 


Sempre pensei assim sobre a notícia da morte, nunca o tinha visto escrito, mas li e disse para mim: finalmente alguém me entende! Alguém ouve o que eu oiço.
A mim as pessoas não me falecem, as pessoas morrem-me. Falecer soa-me a um amenizar diplomático para a morte, um suavizar para não ferir, um termo mais domesticado, menos agreste, menos duro. Eufemismos. Como se a morte pudesse não ser dura, como se pudesse não ferir, como se pudesse aparecer sem nos arrancar uma parte, sem cerimónias, à dentada de carne quente. As mortes, as nossas mortes, aquelas que nos gritam e nos roubam por dentro, que desarrumam tudo, que deitam tudo abaixo, são duras, são violentas, fazem nascer outras tantas mortes a seguir de que não desconfiávamos, com que nunca contámos. A vida tem ligações tão estranhamente diversas, intrincadas e delicadamente discretas, que algumas só se notam quando acabam, quando são rompidas, e então percebemos que as havia e o que as sustentava - o que nos sustentava. Falecimento não é morte que nos morra, é morte de que tomamos ou damos conhecimento. É morte que não nos toca, não está tão próximo que apunhale, que fira, que mate, que morra. É um tiro limpo, rápido, duma vida acabada hermeticamente. Morrer, morrer-nos alguém, dura para sempre, entranha-se o vazio por baixo da pele, habita-nos o olhar tempos sem fim: o tempo que a morte dura. Dura sempre e é sempre dura. Morrer-nos alguém que gostamos, que nos faz, é arrancarem-nos um bocado que não sabíamos que não era nosso, mas o vazio que fica torna-se nosso para sempre. Enchemo-lo de saudades e de passado que queremos presente, sempre, e não deixa - nunca - de ser vazio.

[porque li agora uma coisa que me fez lembrar este post antigo, de outras vidas...]

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