sábado, 13 de março de 2021

Estou perfeitamente entranhada de confinamento. Saio de casa mais ou menos duas vezes por semana nos últimos dois meses, uma para ir ao supermercado e outra para comprar cigarros, como ontem. Hoje ou amanhã será o dia de supermercado. Fora isso só para ir ao hospital quando é preciso e levar a tracção às quatro ao jardim aqui perto, que para mal dos pecados dela não tem sido muito frequente. A verdade é que sinto cada vez menos falta, e o que me falta mais é tomar café numa esplanada - que substitui pela minha varanda - e os meus retiros para ler e não fazer nada, longe daqui, onde os olhos se lavam noutras paisagens e a alma se aninha num silêncio que aconchega. É o que me faz mais falta, curiosamente. E para a semana estarei de férias e ainda que tenha que trabalhar alguma coisa durante a semana (porque sou parva, mas é defeito de fabrico, já não muda) apetecia-me ir para um daqueles sítios que descubro no meio de nada que têm tudo o que me apetece. Mas não, não vou, vou ficar pela varanda e apostar em caminhadas e leituras na varanda, e adiantar trabalho que deixei atrasar. Mas apetecia-me tanto, mas tanto. Até a viagem até lá, até isso me apetecia. É estranho não é? Quero estar sozinha quando sozinha é o que estou grande parte do tempo, só quero uma solidão que possa verdadeiramente aproveitar. Não são todas iguais, suponho que como as companhias. Nem todas oferecem o mesmo e algumas roubam-nos tanto. Tempo algumas, outras muito mais que tempo.

sexta-feira, 12 de março de 2021

 Muitas vezes é. 

Outras não é terapia, mas sabe bem. A mim sabe-me muito bem.

Umas voltas pela cidade, e um cigarro em qualquer sítio... ao tempo que não fazia isto. Tantas coisas que uma pessoa deixa de fazer nestes tempos esquisitos... e algumas não temos de deixar de fazer.

quinta-feira, 11 de março de 2021

 Asas que não se atrevem a voar

são só penas...

Lastro que não conseguimos descarregar.

E tu, atreves-te? Ou carregas-te?

quarta-feira, 10 de março de 2021

 Ando outra vez a esticar as noites, ou os dias, ou deixando-me ficar, faço as duas... mas fechar o computador já depois das oito dá nisto, precisar dumas horas para esquecer a cabeça. O dia também. Venho fumar o último cigarro à varanda, está frio e silencioso, poucas estrelas a assistir ao espectáculo da cidade adormecida. E eu já devia fazer parte dessa peça, disfarçada de noite, de olhos fechados e a sonhar o que já não consigo acordada, de olhos abertos. E dizem que depois de se abrir os olhos já ninguém os consegue fechar, mas para os sonhos ficam fechados. É preciso muita coragem (ou estupidez) para se sonhar depois de nos abrirem os olhos.

terça-feira, 9 de março de 2021

 [foto @marianovivanco]

Deparei-me com isto. Frase que a minha mente disparou antes que tivesse tempo de dizer ai Jesus: então mas a tua mãezinha não te ensinou que não se limpa aos cortinados??”... e  pronto tive de me rir da minha própria parvoeira... uma pessoa tem de ensinar tudo a estas crianças?? Ou estará ele a coçar as costas, ou assim?... se for isso sempre é melhor dar uma ajudinha que lavar cortinados... a minha filha relativamente à apresentação física do moço diria... txiii olha aquela tablete de chocolate mãe!!! (Sim, a miúda tem umas saídas que tenho de me controlar e dizer para ter mazé juizinho... uma vez acerca dum mocinho, em conversa ao telefone durante as férias de verão, até tive de escrever para me continuar a rir depois... doida como a mãe, é o que é...)

 Nope, I don’t...

Acho que cada um tem de lutar pela sua alma, pela sua felicidade, pelo que quer, e às vezes isso é lutar de todas as maneiras que consegue por estar perto da alma que nos sossega a alma, que a nutre, que a faz mais feliz. Outras não, outras é não desistir, contentando-se com menos que isso... porque o universo não faz acontecer. Vida há só uma, universos não sei, e não creio que sejam curvados, como os que dizem que devolvem o que se dá. São as pessoas que devolvem, se quiserem, e com isso fazem acontecer o que de outra forma não deixariam de ser apenas acasos... fruto do caos, da sorte, do azar, dos desígnios inconsequentes do universo.  

sábado, 6 de março de 2021

 [foto @hana_photographer11]

Fim de semana!!!.... hoje dia de limpezas... que fixe né?? Espectaculo de prograna, limpar o sítio dos cães lá atrás todos os fim‑de‑semana, varrer a casa, depois aspirador, depois esfregona... uma animação, portanto! Depois o meu ioga, depois banho... destes, às meias horas de banheira. Ficar de molho a dissolver a preguiça no tempo, pensar no futuro, no de agora e no que há-de vir, nas saudades do meu Alentejo, do monte que hei-de fazer meu, ou ele fazer-me sua... sim, gosto dessa ideia de pertencer... Agora sete dias sem miúda... a casa mais vazia, enche-se trabalhando um tico mais... hoje à tarde, entre o desejado passeio da pintarolas e acabar o livro, é ao que me vou dedicar, abençoada pelo sol, se assim se mantiver a disposição de S. Pedro... mas para já, para já, limpezas... porra!

quinta-feira, 4 de março de 2021


 nahhh.... não invejo, nem eu o quero fazer de parvo. Muito menos com uma maçã....se fosse com umas bolachas, ou chocolates ou assim, ainda vá, que até o convencia a fazer-se de parvo... agora passar uma maçã por almoço nahhh... só se fosse para trincar os apetites à tentação e servir de pré-sobremesa pouco parva.

quarta-feira, 3 de março de 2021

 

E eu desatei uma gargalhada... há gente com muitas dioptrias, mas há uns que abusam, ou então já tem o nariz tão comprido que lhe retira campo de visão, só pode. Isso e pensar que estas coisas colam... coitado do moço, com todo o respeito, claro. A minha filha ao ver-me desatar a rir veio logo querer ver... "ah pois e depois dizes nao sei o quê, está bem está... a minha mãe é uma MILF, está visto"...  Onde é que aprendeste isso? hum?... e claro começa a danadinha a gozar comigo. Pronto já eram dois a gozar comigo! Rimo-nos as duas, com todo respeito, pois. Respondi ao moço a agradecer, mas que não aceitava, por principio, pessoas que não conhecia de facto. Já recebi outras embora, verdade seja dita, menos respeitosas e alongadas, e muito menos exageradas, mas muito mais parvas.  E não aceito, a não ser que conheça de vista, de já nos termos cruzado pelos caminhos e sítios da cidade, ou de amigos comuns, mas essas nao vêm acompanhadas de mensagens deste género, obviamente... mas com isto fiquei a pensar que se a mensagem fosse gira, com piada, sentido de humor inteligente e com uma pitada de "je ne sais quoi" eu era capaz de ter respondido de outra forma... e se não tivesse fotografia, porque tiraria logo parte da piada. Não sei porquê, talvez porque se o achasse giro, interessante, ia achar que era convencido e parvo, e com a mania que todas caem, e se não fosse talvez fosse melhor descobrir só depois de o poder achar muito interessante, porque isso cria uma atracção muito mais rara e duradoura, melhor. Ou então foi só o sonho do outro dia, de que ainda me lembro com prazer, não sei. Sei que deu para rir... e isso já nao é mau, o pior agora é aturar a minha filha... :DD

segunda-feira, 1 de março de 2021

 


Bem precisava aqui dum alento, duma motivação acrescida, de qualquer coisa que me faça combater a preguiça, e a vontade de sofá... ainda na semana passada, numa reunião, estive quase duas horas a ouvir as teorias positivas e de coaching,  e nós a vermos que nos estão a lixar mas com um sorriso muito positivo no semblante... e eu sim senhor, pois claro, é tudo muito positivo e podemos, e vamos, melhorar muita coisa, mas vamos ser lúcidos e ver também o que está à nossa frente? Porque eu tento fazer isso, de outra maneira, com tanta coisa positiva e tangas e tal ... há a melhorar o quê? Hum? Pois... bom, mas estava eu aqui a pensar que em vez de coaching eu dedicava-me era ao couching com este especialista aqui... hum hum isso é que seriam sessões de couching com resultados muito melhores que horas de coaching.... ai tantas tretas e eu a assobiar para o lado... e a notar-se. Ahhh com um couching com um coucher destes eu seria muito aplicada e nada de assobiar para o lado, aliás nada ao lado, nada. Aiiii mas o que eu estava mesmo a pensar, é que olhar para estas coisas lembra-me as bolachas da semana passada, e aqueles canudinhos de chocolate que são vício e a preguiça de me dedicar aos meus vinte minutos de exercício... baldei-me tanto - aliás, completamente - raios... tenho mesmo de fazer posters de gente assim, com tudo no sítio e que dão vontade de despentear o sítio às coisas, sei lá... olha, vou ali dedicar-me vinte minutos às próximas bolachas e pensar no pessoal que me quer impingir teorias de coaching a que eu só ligarei se me arranjarem um coacher como este coucher aqui esparramado num belo couch :)) aiii que vontade... não me lembrem do sofá...  

domingo, 28 de fevereiro de 2021

 Hoje o dia, depois de dar uma nega a um convite para caminhada comprida que não me apetecia tão cedo, mas ficando a pensar nos convites reiterados a Barcelona... e depois de dormir mais um tico, porque afinal é domingo!... começou assim, com música e com o cruzar-me com uma entrevista antiga do Lobo Antunes, homem que me desconcerta sempre, pela ternura infinita a par com a brutalidade crua de reacções e palavras. Assim, nesta conjugação improvável (será improvável? mesmo?) que me deixa sempre um sorriso e a vontade de pela vigésima vez tentar começar um livro dele onde eu consiga entrar. Adoro as crónicas, como toda a gente, mas os livros, os livros são outra loiça, e nem todos acho que chegamos lá. Eu ainda não, ou talvez eu não seja das que têm essa chave diferente para aqueles livros. Fiquei com vontade de comprar as crónicas para ter dele o que mais gosto, essa ternura que tão bem se absorve nas suas crónicas. Adorei as cartas de guerra "Neste viver aqui neste papel descripto" onde se vê o ser humano, a intimidade, a alma de alguém. Era capaz de me apaixonar por aquele homem, não tenho dúvidas, e o entanto esse seu mundo fechado nos seus livros, não se abriu para mim, e talvez nunca venha a acontecer. Entretanto rebaptiza-se a música "Sometimes never" e dança-se sem saber de nomes, ou de idas ou de voltas, de nuncas ou de sempres, dança-se e pensa-se nos mundos que todos encerramos, nos que nos estão vedados e nos que queremos escancarar, e abanamos a alma mais um pouco, ao som duma música que ouvimos que ninguém garante que seja exactamente a mesma, a minha filha ouviu mas terá ouvido o mesmo? :)

sábado, 27 de fevereiro de 2021

 

Uma tarde inteira de varanda, desde o sol muito quente até agora onde o calor suave, e já distante, vem da cor derramada no céu pelos olhos dentro. Uma tarde de ler, de música, de pintar unhas, estragar e desfazer tudo. De ver cruzarem-se dois casais de gente que já foi nova há muito tempo, de se cumprimentarem e trocarem duas frases, cada casal de mão dada, os únicos que vi assim, a passear unidos pelo compasso do andar que não desfaz o abraço das mãos. Talvez já não se use (ou agora se use só para inglês ver, quem sabe). Talvez eu também esteja fora de moda, talvez também não se deva parar a leitura para ver quem passa de mãos dadas. Talvez. Ou talvez certas coisas façam parte da leitura que gosto, da música e das cores... talvez, não sei, mas também não quero saber.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

Acordei a correr, e cedo. E quase me esqueci. Lembrei-me agora, de chávena na mão a olhar lá para fora. Não sei porquê. Talvez porque tenha sido na rua, e eu não sabendo onde, todas as ruas se parecem. Ou porque na minha cabeça não me terá parecido longe de casa - e isto poderá ter um qualquer significado oculto, será? Mas, olhando para a rua em frente, que desce, lembrei-me, essa rua onde nos encontrámos não descia. Eu ia sozinha, o passo um pouco acelerado, quase com ar decidido como me dizem ter. Sentia a brisa fria na cara, ou isto já serei eu a romantizar, porque algo me faz lembrar, ou dá a sensação, que não era verão, não era um dia animado de pouca roupa. Não dei por mais ninguém na rua,  não sei de onde aparece ele, ou por que artes, não sei, caiu de pára-quedas duma nuvem, sabe Deus. Só sei que de repente aparece à minha frente e me espeta um beijo. Eu sei, é esquisito, eu também achei, mas só depois de acordar, no sonho foi só inesperado e como que surgido do vazio (curiosas as palavras que me surgem enquanto escrevo isto...). Infelizmente também não foi reconhecível, não sei quem era, nao faço ideia, não o conheceria, não sei se completo desconhecido ou nao - era um personagem sem rosto definido. Uma coisa que ele tinha bem definido era o beijo, de alta definição e bom, tanto, que se calhar demorei mais a reagir por isso mesmo... aquela fracção de segundo que o cérebro pensa... mas que é que eu estou a fazer? E afasto-o a tempo do beijo roubado não me roubar de mim, e bruta “então? mas que é isto???” Ou qualquer coisa do género. E tenho pena, tanta pena, não consigo lembrar-me o que respondeu, não sei a frase que usou... não sei se não me lembro ou se nos sonhos às vezes o que é dito é irrelevante, ou melhor, as palavras são, mas não a mensagem. E nos sonhos, independentemente das palavras a mensagem é entendida, e é aí que os sonhos falam- na maneira como nos fazem sentir no que se passa naquela pequena curta-metragem, por inacreditável ou inverosímil que nos pareça o argumento depois de despertos, porque durante os sonhos nada nos parece impossível. Por isso, talvez a frase que terá sido dita seja irrelevante ou talvez não seja possível a minha própria cabeça fabricá-la ou impediria a minha reacção... o que ele disse surpreendeu-me, e de tal forma, que me desatei numa gargalhada. Achei-lhe genuinamente piada. Tinha tido uma saída fantástica, com piada, inteligente, e eu rendi-me, gostei. E foi com esta sensação que saí a correr da cama, já atrasada. Ele não era giro, ou pelo menos isso não ficou registado, não tinha um rosto definido, não há registo que tivesse olhado para ele e tido qualquer reacção, não. A única reacção foi pelo que disse, pela maneira como o disse, pela audácia de me roubar, assim, um beijo, e aquele ar gaiato e sem idade que certos sorrisos têm, mas carregados com a força intensa de certos gestos, na certeza de alguma coisa. E este conjunto, esta coisa embrulhada num beijo ficou-me até agora, depois da reunião fechada, do pequeno almoço atrasado, e do resto da vida a correr paralela num rio qualquer que chegará ao destino. Eu, agora, estou ali, no sonho de que acordei.

E se, de repente, um desconhecido te roubar um beijo, isso é... um sonho :))

( e se realmente se parecesse com este moço aqui de cima, realmente, teria parecido (ainda) mais um sonho)

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021


(...)
És a carne dos deuses,
O sorriso das pedras,
E a candura do instinto.
És aquele alimento
De quem, farto de pão, anda faminto.
(...)

Miguel Torga

és tudo o que não existe,
a não ser quando estás,
quando estás, tudo é possível
impossível, só não estares
e não estando tu, tudo é impossível
as pedras riem como tu,
a pele roga a deus
que lhe mate os instintos
e a fome, de que se quer faminto
contenta-se com pão
como alimento de um sonho
que não existe.
como tu.



segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

 Ahahahahah

É sempre bom começar o dia com coisas parvas destas!!

(e é muito boa esta!!!...)

 

Acabei o Quarteto (O Quarteto de Alexandria, de Lawrence Durrell). Deixo aqui, para mais tarde recordar e reler, os dois últimos trechos que me mereceram dobrar o canto superior da página. Este último “Clea” tem várias páginas com o mesmo tratamento.

Gostei daquela ideia de se ir mudando o penso à ferida até ela sarar. Talvez haja coisas realmente assim, e têm o seu tempo. Não se encurta, nem se prolonga além da cicatriz. Já a ideia que o futuro arranja maneira de modelar-se, nascer do vazio, acredito nisso, ou talvez não seja tanto crença, mas instinto de sobrevivência. E experiência empírica, até. E a pergunta... será que se pode gostar mais do pensamento de alguém, do que a sua presença física? Será? Que as palavras são mísera consolação, já sabemos, e acrescento outra frase, tão boa, doutra página assinalada, também deste último livro:

“As palavras são apenas os espelhos dos desenganos; 
contém em embrião todos os desgostos do mundo.” 

E eu, que gosto tanto de palavras, da sua dança, das suas imagens, das tantas mensagens que podem descoser as suas linhas, e da beleza disso tudo - de como pode ser sublime essa comunicação, esse código -, serei talvez um alvo privilegiado, facilitado. E, no entanto, curiosamente, hoje dei por mim a olhar para os bichos cá de casa, e a pensar exactamente isso. Sem palavras temos de aprender a conhecer o outro pelos gestos, pelas atitudes, pelas teacções, e através dos silêncios. A observar o outro, a comunicar com menos enganos e ruídos, duma forma mais genuína, mais verdadeira - mais reduzida ao essencial, e o essencial é o mais difícil de verbalizar, mas não de comunicar, não? Mas então à distância... não se pratica, né? O resto são ruídos... ou podem não passar disso.

Gostei mais dos últimos dois quartos do quarteto, sem dúvida nenhuma. Foi em crescendo esta leitura. Venha o próximo! Já me apetece e já sei qual ;)

domingo, 21 de fevereiro de 2021

 E hoje o shuffle trouxe-me isto, precisamente quando o meu olhar se despedia das cores do sol no horizonte, à hora que mais gosto da minha varanda, da minha sala - quando as cores aquecem a alma, tanto quanto o olhar. E gosto da música, da sonoridade, e da envolvência de sensualidade e meio-pecado que a embrulha, nessa confusão que (só) pode ser deliciosa e fatal... tudo tem o seu preço.


 Será?

Será que hoje o sol não se desmente?

Será que hoje vamos conseguir fazer uma passeata até ao jardim? Será?

A pintarolas já está farta de estar em casa, mesmo ao meu colo, quentinha e com mimo,  já anda tristonha. Não gosta de filmes e as frases de livros que às vezes paro para pensar mesmo que lhas leia, é com aquela displicência  no focinho que acolhe as palavras. Não consigo perceber se ela já percebeu tudo há muito tempo, ou se não há nada para entender, porque as coisas não são feitas para entender, mas para viver. E isso é só sentir... e ela sente que precisa é de esticar as pernas e respirar o lá fora, o imenso, o sem portas. Com ou sem sol, mas com sol é mais quentinho e luminoso :) mas antes tomar um banho rápido (mais ou menos, vá) e trincar qualquer coisa. Sol, não desampares já o nosso pedaço, sim?

sábado, 20 de fevereiro de 2021


"And is he dark enough? Enough to see your light?"

adoro.
adoro isto.
a letra - tanto. a música.
a melancolia. 
a angústia, limada, quase desespero a desespero, 
em esperança.

"And is he bold enough to take you on? Do you feel like you belong? And does he drive you wild? Or just mildly free?"

enquanto o tempo corre 
como a chuva cai miúda, mole e fria 
por cada janela, por cada caminho, por cada dia.
cai bem com este tempo. 
fala a mesma língua.
que eu entendo fluentemente

"What about me? What about me?"

 

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

 

Acho que vou fazer um poster... assim para, sei lá, me dar alento, inspiração até. Fico aqui a olhar para isto e penso... sim senhor, era mesmo isto... mas não... olho e não, era bom pois, mas nunca vai acontecer... nunca vou ter uns abdominais destes... vá, pronto, também não era preciso tanto, eu não sou moça de exageros... mas há coisas em que é muito melhor ter mais olhos que barriga, né?

... e pronto agora vou ao meu ioga, acalmar a respiração e trabalhar para um corpinho zen. Ou sonhar, pronto, que às vezes é preciso uma ginástica do caraças para isso oh oh...

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

 De repente senti muito a falta de música. Percebi que andava a ouvir pouca música, sem as viagens já nem rádio oiço. Então nos últimos dias tenho-me desforrado no Spotify para pobres. A minha filha, na sua ironia sarcástica adolescente, até me perguntou se eu tinha descoberto a coisa com este confinamento... é tão engraçadinha a miúda... mas enfim, tenho ouvido música, e incrivelmente tenho feito todos os dias - com custo e combatendo a preguicite aguda que me assiste - uma meia hora de exercício, ou como diz a minha filha uns “Workouts” na aplicação que ela usa, e que sendo para pobres ( há quem alegue forretice), eu também passei a usar. Ora basicamente acho que estes dias de férias, ou pseudo-ditas, deram para isto. Se me distraio e continuar assim, ainda chego ao fim do confinamento, não digo que a tempo da praia, mas a tempo de empurrar muito melhor o andarilho quando isto acabar... na altura não sei se ainda terei ouvido para conseguir ouvir música (ou o que quer que seja)...

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

 As noites são tão calmas agora, sento-me aqui, enrolada na manta sem frio e sem céu, depois duma tarde acelerada e corrida. Nem tudo correu bem e há uma angústia ansiosa que se instala e teima em não me largar. Olho para a televisão mas é quase ruído de fundo e desisto. Venho fumar um cigarro e dissecar a angústia, o dia, a responsabilidade. Mas não sei tratar isto, nunca soube, talvez por isso procure tanto uma tranquilidade que me é tão cara, que me refunda no mundo. Às vezes parece tudo tão complicado, e normalmente importa tão pouco. Tenho consciência disso. E respiro fundo mas no fundo está tudo igual, ainda não domestiquei a insegurança, a ansiedade, a angústia por coisas pequenas. Ao menos isso a idade, os anos, deviam devolver-nos... uma espécie de que se lixe, fiz o melhor que pude, e uma certa inconsciência apaziguadora que anule os graus assassinos de exigência a que nos submetemos, ou melhor, que nos impomos. 

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

[Lawrence Durrell, in Clea, O Quarteto de Alexandria ]

 Começar o dia a ler a vida como devia ser pensada. E pensar que vou ter pena de acabar este quarteto, e diria que a segunda metade é a melhor. Espero que com a vida também seja assim. Por já termos mais de tudo o que se passou, por percebermos melhor que todas as verdades são perspectivas sobre factos. E que primeiro é preciso saber e “compreender inteligentemente” o que se quer da vida, e depois tentar encontrá-lo sem o procurar de facto...como os acasos que nos acontecem e que talvez estivéssemos, sem saber, à espera e desejosos que acontecessem. Mas aqui, a magia é o esperar “sem saber”, não consciente ou inteligentemebte, ao contrário do saber o que se quer. Já a sabedoria é a consciência que o maior obstáculo somos nós, como nos boicotamos tantas vezes, curiosamente, da perda de algo de que abdicamos à partida para o evitar. Irónico, não? 

Segundo dia de férias em confinamento. Semi-ferias, porque mandam-nos de férias mas pedem-nos para trabalhar, curioso não é? Inteligentemente não sabem o que querem ou sabem?

 ... Respira fundo no silêncio. 

E o que vês?

O que vês na tua escuridão?

Vês que te ilumina? O que queres, desejas, procuras? Ou o que te ensombra,  que temes, de que queres fugir, esquecer, evitar? ou as duas coisas, que pode ser só uma?

O que quer que seja que vês, é o que mais tens por dentro, e te persegue.

domingo, 14 de fevereiro de 2021

[imagem @virgola_]

 Uma pessoa não sai de casa e nem se apercebe... Depois senta-se aqui sonda as redes sociais e lá compensa o esquecimento... é dia dos namorados. Pois é, portanto aqui deixo esta imagem, que de todas as que vi por aí, foi a que chamou o meu nome por dentro... Realmente esta coisa dos cabelos brancos, dos anos que passam pelo corpo, do navegar calmo da alma que o corpo guarda num mundo diferente, onde o tempo não se mede em dias, ou em anos, mas em dores, em angústias, desilusões, e também saudades, felicidades, alegrias e risos, talvez me esteja a mudar a graduação dos óculos com que vejo o mundo. Mas curiosamente continuo a querer as mesmas coisas, e a acreditar que são as certas, que para mim são as certas. 

Também é curioso ver como as pessoas vão chegando às mesmas conclusões - é tudo tão fácil quando nunca se sentiu a alma penhorada por um sentimento que não controlamos, não é? o pior é depois... - , quando passam por coisas, que se entranham e se plantam na alma de tal forma, que depois se tornam raízes de todo o alimento dos sonhos. É curioso também ver que alguns estão a começar a percorrer um caminho que eu já pisei, descalça e sozinha, e que o reconheço, agora de fora. E sorrio uma tristeza madura, agradecida por já ter os pés cicatrizados, e angustiada por imaginar as dores que os outros de o percorrer, quanto a isso nada haverá a fazer (se for mesmo esse o caso, talvez não, talvez corra bem, às vezes corre não é? e quando corre mal nem todos sofrem no mesmo grau), mas ao menos penso que não terão de o fazer sozinhos. 

...Mas nada disto é para os namorados de hoje, para esses só o desejo de que pratiquem muito :)) namorem - e com vontade -  hoje e todos os dias, mas hoje têm (mais) uma desculpa para fazer uma coisa qualquer gira, uma surpresa, uma brincadeira, uma cumplicidade a dois, que só vocês sabem e guardam no meio das casas agora cheias de gente... vá pode ser giro, a sério. :)) brinquem muito uns com os outros, riam-se, namorem, dêem muitos beijos, aproveitem o colo e o sol, passeiem de mão dada abraçados no silêncio confortável do amor. :)

Sejam namorados felizes, em vez de querer um dia dos namorados feliz à custa de fretes.

sábado, 13 de fevereiro de 2021

 Que cores...

E o sol, meio envergonhado, a esconder-se atrás dos ombros da cidade...




contento-me com coisas
pequenas que de repente se tornam
muito grandes onde nem sei
de mim nem quero

Bénédict Houart


É tão bom não saber de nós, e mais ainda não querer... leio isto, e é o que sinto. Não saber de mim é não me pensar, não me duvidar, não me olhar ou procurar. E isso soa-me a paz, a tranquilidade, a sossego de alma. Uma calma estúpida, sim, por vir de não ver, não me confrontar,  e não de ver que gosta do que se vê - é uma diferença abissal, em tudo, perspectiva de vida, exigência própria, cobardia, carácter.
Mas esta sensação que nos toma de pequenas coisas que nos conquistam inteiros por momentos, nos abarcam e fecham num momento, em que tudo o resto se resume a nada é um oásis no deserto dos dias. E aí, nesses ínfimos momentos de infinitude, não sabemos de nós, mas sentimo-nos inteiros (talvez por isso), e então não pensamos em querer mais nada. Para quê? 
Há coisas em que mais, estraga :) 

... quem nos dera pequenos infinitos todos os dias.

(e ao escrever isto lembrei-me dos pequenos absurdos de O'Neill. é que precisamos todos, e às vezes chega para salvar).

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

 Hoje sonhei que estava a ficar com o cabelo branco. Estava ao espelho e constatava que aquela meia dúzia que me acompanha há uns anos se tinha multiplicado, que começava realmente a notar-se, isso de estar a ficar com o cabelo branco. E olhava e olhava e não sabia bem o que pensar ou sentir, mas na verdade quando acordei o que achei curioso foi que não punha a questão de o pintar. No sonho, isto é. E depois, acordada. Devo ter pintado o cabelo, até hoje, umas três vezes e sempre por curiosidade de como ficaria, e sempre temporário, com produtos que vão saindo com a lavagem. E fiquei a pensar, será que daqui a, sei lá, um ano vou ter de começar a pintar o cabelo? Então e se não pintar? Tenho pouco e fino e se ele desiste de mim com essa ofensa? Humm...? E depois? E agora, enquanto o almoço faz plantei-me à frente do espelho, e a verdade é que já tenho uns quantos, e vários compridos, do tamanho dos outros, dos que não são ovelhas brancas... acho que ainda não se nota, mas eu já noto qualquer coisa... uma relutância em negar o tempo, mas o tempo o dirá. Negar o óbvio torna-se muitas vezes apenas ridículo, outras revela-se uma necessidade. Às vezes acumulam-se as duas... Por enquanto acho que olho para o facto - e ele para mim - com um olho aberto e outro fechado, entre o espanto e a naturalidade, a incredulidade e a aceitação.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021



COMÉDIA

Vazio. Queixa-se
de vazio.
E nisto esvazia o outro
tão cheio
disto tudo.

Daniel Jonas


Vazio é um sítio onde deviam estar coisas, ou que já estiveram. O mais difícil é esvaziá-lo, reduzi-lo a nada, à ausência das ausências, das faltas, das falhas. Ao pré-vazio. 
O verdadeiro vazio está cheio de coisas a lembrarem de o lembrar.  E não sem o sentir todo - tudo o que nos desgasta, nos esmaga, nos enche e falta -, atravessa-nos a alma até aos ossos, despojada de tudo menos do que a queríamos esvaziada. 
Uma gota de água no vazio pode transbordar. E é a ironia que faz o riso.

domingo, 7 de fevereiro de 2021

[não sei de quem é a foto, mas apaixonei-me por ela, e sei dum sítio onde ficava bem, assim a preto e branco e em dimensões generosas, pendurada na parede ]


Domingo. A amálgama de ternura que a paixão deixa nos corpos, esparramados e estarrecidos. Embrulhados e envolvidos em silêncios como hinos ao amor, diálogos inconfessáveis e inexplicáveis, orações de pele a um deus só nosso. 

Há dias - ou momentos até, que são como dias inteiros -, que não se explicam, onde cabe o tempo de gostar e desejar, pleno, inesgotável, que correm a vida toda, imóveis, completos. Como se amanhã fosse outra vez domingo, por momentos, e sem ninguém saber. Ou daqui a pouco, entre ir deitar o lixo e ir buscar lenha. Ou entre uma linha que se lê e outra que nos perdeu. 

sábado, 6 de fevereiro de 2021

Uma esperança disfarçada de lobo.
Não será a vida toda isso?
Querermos ser o que sendo, nunca somos,
a não ser quando alguém nos mostra, nos sente, nos prova, nos é.
E é tão difícil e assusta, o sermos melhores, o sermos o melhor que poderemos ser, mas sê-lo apenas na entrega. Mas parece a única esperança, se dobrarmos o lobo. 
[foto @ezgipolat]

Quando lês a palavra amor em quem é que pensas, sem saber que pensas?  Quando te falam de colo, onde vais parar sem dar conta?  Quando ouves a palavra riso, quem é que aparece, na tua cabeça, a rir ?  Quando vês um beijo, que boca sentes na tua?  Quando, à noite, fechas os olhos com quem dormes?

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

[foto @wieselblitz]

 Aiiiiii que sono...

Esta coisa de estar metade em layoff mas trabalhar o mesmo não é bonito, é só parvo. Acordo com a sensação que não, nunca aprendo. Bem ou mal, as pessoas mudam muito pouco. E o meu sono não muda nada.... porque é que só gosto mesmo de dormir de manhã? ... que raio! Ontem à noite podia ter ido para a cama cedo, não era?...mas não, não apetece. Apetece é ir agora...

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

 ... porque temos de ter qualquer coisa que anime, e dizem que uma imagem vale mais que 1000 palavras (mas eu acho que é mentira, é o gesto que vale isso tudo e mais)

... porque há coisas em que vale a pena arregalar as vistas, e fechar os olhos.

... porque adoro mãos, mas gosto de pescoços assim, e dum peito para descansar dos dias e percorrer com a ponta dos dedos todas as noites.

... porque o moço tem partes fotogénicas, e nota-se. 

... e porque ficaram-me os olhos aqui e a alma bateu asas, perdida em imagens e em sítios que vejo daqui.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021



 Hummmm...

Há dias em que realmente não sei responder a isto ...

... e apetece não desperdiçar gentileza, e deixar o martelo fazer a gentileza de expressar o nosso apreço...

domingo, 31 de janeiro de 2021

 

E então? Era isso?

Só quando se tem o que se queria ter é que sabemos se realmente o queremos, ou melhor, se é o que precisamos para sermos felizes. 
Normalmente, quando desejo a alguém que seja feliz, quando acho que realmente o merecem, não lhes desejo o que querem ou pedem, mas o que precisam. Outras vezes há, em que desejo que as pessoas tenham exactamente aquilo que escolheram... que é como quem diz que tenham o que mereçam, seja lá isso o que for, como quem lava disso as suas mãos, até no que se lhes deseja diz respeito. Mas é raro fazê-lo, normalmente nestes casos não digo nada, penso e calo. Mas já aconteceu dizê-lo. 
Já eu, não tenho esse problema, raramente tenho o que quero, o que desejo, logo é difícil saber se o que quero me faria mais feliz, ou não. Ainda assim, tudo são escolhas, mesmo que escolhas limitadas ao que  está ao alcance das nossas opções, as alternativas que podemos escolher. Nem tudo está nas nossas mãos, às vezes nem o que desejamos.

(não sei se era suposto ser uma pergunta, mas quando li, foi assim que li, como questão. mas pode bem ser uma afirmação: lembra-te quando querias o que agora tens, dá-lhe valor. Também pode ser assim, mas eu talvez continue afinal uma moça de perguntas, apenas diferentes. E habituada durante tanto tempo a não ter respostas, em vez de as esperar, procuro-as na própria origem da pergunta, em mim. Quantos de nós saberão realmente do que precisam para ser feliz? Conseguimos ir além da educação que nos deram, das normas que a sociedade impõe, e que nos restringe? Do que pensamos poder escolher ou estar ao nosso alcance? Quanto do que precisamos queremos, e quanto do que queremos, realmente precisamos? Quanto do que tens, quiseste? E quanto do que queres, realmente precisas? Quem és realmente? Quantos sabem responder?)

sábado, 30 de janeiro de 2021

 "Sou jovem e tenho a vida toda pela frente. Eu sei disso. 

Não vou dar graxa à felicidade. 

Se aparecer, óptimo. Se não, quero lá saber. 

Nós os dois não somos compatíveis."

[no fim do filme (Uma vida à sua frente) em delicioso italiano, tive de voltar atrás por este bocadinho, esta meia dúzia de frases que me acompanharam num recanto do silêncio que se guarda enquanto se ouvem, e vêem, outras coisas. "Não vou dar graxa à felicidade": foi aqui que me agarrou, que se instalou pelo avesso. Parece-me uma grande verdade, quanto mais (e apenas) se quer, menos se consegue, menos nos encontra, menos interesse tem em nos encontrar. Surge quando não se procura, quando até se acha que já a trazemos. Se depois esbarramos nela, é como esta meia dúzia de frases: fica-nos por dentro, como um silêncio que se ouve sempre, até quando não há silêncio. 
a música fecha o filme, mas não o encerra. parte-lhe a casca, escancara-o. estamos sempre aqui para as pessoas que gostamos,  é talvez isso gostar delas - talvez só isso, e sempre - mesmo quando aqui não é um sítio, mesmo quando não estamos... como aquele silêncio debaixo de todos os sons, de tudo. daquela felicidade a que se dá graxa.]


quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

 Fumo um cigarro à varanda e do outro lado da rua, um moço, dum lado para o outro, fala ao telefone, muito interessado e compenetrado. Não triste, não alegre, só com muito assunto, que isto já dura há um bocado... só me ocorre que o assunto seja de coração, que haverá do outro lado, alguém que pelo telefone, lhe agarra o coração. Já ele não aparenta o descanso ou a felicidade de saber que toca o coração de quem lhe fala, mas não posso deixar de pensar que disso tem vontade. Ainda assim, a conversa deve ser quente porque o moço, com este frio, tem só uma t-shirt em cima do pelo... ou tem o termóstato avariado ou é moço de muita quentura...

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

 

[@ondejazzmeucoracao]

Este tempo fechado há tantos dias abre a melancolia, uma certa doçura triste, uma certa disposição para cair para dentro de tudo. De nós, do tempo que passa, do cinzento que os olhos comem quando olham pela janela. Se posso estar à lareira com um livro e tempo meu, espreguiça-me a alma, e entre páginas sorrio em memórias que não tenho, imagino passados diferentes como os futuros que não viverei. O tempo que não existe, não corre, não é vivo, torna irrelevante olhar para trás ou para a frente. Há sítios em nós que nunca terão bússola, ou sentido, ou tempo. Aí, há rios que sobem montanhas e chuva que cai do chão. É o que quisermos, é o que virmos, até um céu azul na manhã de hoje, enquanto bebo o café à janela da varanda com vista para o computador. E tudo é uma certa calma e sossego.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

 


Ahahahah 

...as coisas de que se lembram, valhamedeus...

No primeiro confinamento lembrei-me do contrário, como um confinamento poderia ser um paraíso na terra para os recém-juntos, recém-(e)namorados, daquele início de paixão, ou na maturidade daquela paixão que não se gasta, mas se queixa de falta de tempo a dois, longe do mundo. Foi o que me lembrei. Tive pena de não ser essa a minha realidade... tive mais tempo para a minha pequenitates, mas pouco, porque nunca parei de trabalhar, e não mo deixavam fazer em casa...
Quando recebo isto desato a rir - ainda que este confinamento seja muito diferente do primeiro em muita coisa, e principalmente no estado em que isto está - parece que ando sempre enganada, sempre ao contrário, afinal estes tempos são difíceis para muitos casais, gente que não está realmente com quem gosta, e nota-se mais quando se fecham do mundo. Faz sentido. Há menos distracções, dá menos para esquecer que realmente o que querem não é estar ali com aquela pessoa. Mas acredito que também haja muitos, que tendo normalmente pouco tempo para estar juntos, agora aproveitem bem... devo ser uma romântica, né? 

(e temos de nos rir, vá...)

domingo, 24 de janeiro de 2021

[foto @victoria_klimenkova]

 Os dias perfeitos para gostar de estar em casa. Ontem foi dia de séries, hoje de acabar o livro que nos últimos fins de semana andou esquecido. Falta outro para acabar o quarteto. Acender a lareira, uma chávena de chá por perto, o livro nas mãos e a janela ao meu lado, eis o projecto para hoje. E o termómetro. Não, não vou votar, mas acho bem que todos que podem o façam. Eu não posso. E este ano iria, houve eleições em que não fui, recusei-me, por não me identificar com nenhuma possibilidade de voto, por achar que algumas decisões desrespeitaram o voto, por o voto em branco não ter outra consequência prevista que não análise estatística, por muitas razões. Hoje não vou porque não posso, e assim como quem pode deverá ir votar, quem não pode não deverá ir. Logo este ano, que quer exercer o seu direito, não pode ser a qualquer custo. Sejamos conscientes, sim? Já que quem nos governa não parece que sofra gravemente desse mal... com a quantidade de gente infectada, ou com a probabilidade de estar, outras - muitas - remetidas a isolamento, não terem atempadamente recalendarizado, parece-me pouco consciente. Ou acharam que aumentava a abstenção e isso não era mau (para quem decidiu, pois). Esqueceram-se que na hipótese de haver maior mobilização, o risco de contágio subiria e era previsível que nesta altura não devesse ser um risco a assumir... digo eu que estou febril e não percebo nada de nada... o que me faz, talvez, sã...

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

 Já não me lembrava desta sensação. Levar a miuda e voltar a casa. Fiquei até à última na cama, estava-se tão bem... já não tive tempo de tomar pequeno almoço, que é o que estou a fazer agora na mesa da cozinha. Olhando para trás - e não sei por que me deu para isso - percebo que sempre tomei por tarefa minha levar a miúda. O pai levava-a uma vez por semana, agora duas porque não estou cá duas noites, mas até aqui sempre fui eu a levar a miúda. Não foram os avós, nem o pai, que a caminho podia passar e levá-la. Não, sempre fui eu para mal dos pecados dela, porque ando sempre atrasada... o meu pai levantava-se cedo e ofereceu-se para levá-la de manhã e assim eu podia dormir mais um tico, mas nunca o aceitei. Sempre achei que era coisa de mãe (ou pai, dos pais se o puderem fazer, claro) levar os miúdos à escola. Depois com esta coisa do io-io, começou a ir, nos dias que saio muito cedo, a pé... porque “Oh mãe já tenho idade! Achasempre que sou um bebé”... e é, mas grande com’ócaraças... e lá tem ido, quando não eu não posso. Hoje em dia, nestes tempos esquisitos, já a posso levar, e acho que foi isso que me trouxe isto tudo... apesar de gostar de dormir de manhã com’ócaraças gosto que seja a mãe a levá-la... e aparentemente essa sou eu! E ultimamente tenho sido menos... porque tenho podido menos e porque ela precisa menos...

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

 Acabar o último cigarro do dia e do maço, sentada no degrau da minha varanda, a sentir o frio na ponta do nariz e do lado de fora da manta.  E estava a apetecer-me o ar frio da noite, em que se sente mais, se gosta mais do calor da manta que nos abriga, nos protege. Não vejo a lua, não lhe sinto o olhar poisado nas sombras, que se transformam em prata, em que deixam de ser sombra e ainda assim não deixam de ser penumbra. Há muitas coisas assim, suponho. Amanhã começa outra semana, ainda que diferente das outras, o dia não começará tão cedo e não acabará com uma caminhada fria junto ao rio. Acabará aqui provavelmente, onde estou, a pensar no amanhã que não me apetece particularmente... apetecia-me estar confinada, debaixo do vasto céu alentejano, sem ter de pensar em trabalho e em tudo que nos espera depois destes tempos. Não é pessimismo é só fruto daquele defeito que não raras vezez me apontam da fria lucidez. E para isso falta-me uma manta.  

domingo, 17 de janeiro de 2021



Então mas não sabiam ter-me mandado isto ontem???... esta informação de primeira água? Ainda indagava qual faria melhor corte, recolhia referências e fazia marcação, ali entre um Yorkshire e  um schnauzer... Ontem ainda ia a tempo, hoje já não!!... timing é tudo na vida, assim se vê!!!

(a tempo só mesmo a gargalhada :D que me acordou logo pela manhã ... quer dizer há bocado, pronto, para rir o timing é sempre certo)

sábado, 16 de janeiro de 2021

 


A minha primeira baixa deste confinamento: o corte de cabelo. Deixou de existir. Está mais curto, é certo, as pontas que me andavam a chatear de estarem a ficar secas e estragadas, também estarão reduzidas. O que não sobreviveu foi o corte de cabelo. Agora é só uma coisa assim... esquisita, é um escadeado ligeiramente esquizofrênico, mas pronto. Foi o melhor que consegui (também não me esforcei muito foi meio por instinto em frente ao espelho de cabelo seco) depois de tentar desde há duas semanas cortar o cabelo ao fim de semana, e nunca ter vaga, vai de cortar eu. Isto de andar entre cá e lá e nos dias que chego cá chegar sempre depois das oito, e nos que fico por cá só querer aproveitar o pouco tempo que tenho para mim ao fim do dia, a minha hora de paixão, dá nisto. Não dar tempo para cortar cabelo entre confinamentos. Vai daí cortei eu, prontosssss. 

Cuidem-se e não cortem o cabelo em casa se lhe tiverem algum amor ;))) ....

 


No fim, fechamos todas as luzes e reunimos o braseiro que ficou, restos de fogo que aqueceu o olhar e a pele - a casa que somos e a que habitamos. Há uma intimidade repleta de ternura nos restos do fogo, no calor que ainda dão, na luz quente e deliciosa que emanam. Combinam com o fim do dia, com o silêncio da penumbra, com a suspensão do mundo, com o desligar de qualquer movimento. Com a companhia do último cigarro nos dedos. E ajeitam-se as brasas de novo, para manter o calor, para libertar a luz delicada que ainda guardam. E o calor sobrevive, e às vezes incendeia-se de novo. Como agora.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2021


[foto @joshjack]



Como é o teu (amor), pergunta o xilre? Não é, 
mas queria que o meu fosse aditivo: 
mais força , mais intensidade, mais vida 

E subtrativo da distância,
porque mesmo que as mãos não alcancem, nunca se está longe. 

Multiplicativo do tempo, 
agora é ao mesmo tempo passado, presente e futuro. 

E divisivo, 
divide-nos num antes deste amor e um depois.

[...bem sei que é uma grande operação ter todas as operações - é A operação -, mas de outra maneira não me serve, que fazer? amor, para mim, é assim... senão é outra coisa qualquer, e haverá muito por onde escolher, que eu sei. Só não quero (já vos disse que sou um tico teimosa?).]

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021



 Caminhada ao frio, que quem passa por mim não parece sentir, em corrida ou em passo de canídeo com fome de distâncias. As luzes a entrarem pela água até aos pés, até onde os meus olhos caminham sem sair do lugar. Outra maneira de fazer a ponte entre o dia que acaba e a minha noite começa, já instalada no céu há muito. O mesmo ritual, outros cenários. Quase um vício de alma que o frio aquece.

domingo, 10 de janeiro de 2021

 


Café ao sol, bebericar umas crónicas para espairecer 
e para nos lembrarmos destas coisas - “como é linda a puta da vida”.  
Gosto tanto das crónicas do MEC.
Há coisas que fazemos sem saber porquê, outras sabemos exactamente por que as fazemos, outras só descobrimos realmente por que as fizemos depois, quando olhamos para trás. Temos de tudo. Eu sei de todas as razões que a razão tinha para fazer algumas coisas, e sei que fiz outras sem razões nenhumas da razão. Todas me fizeram sentido, mas doem mais as razões da razão que as outras. Não doi menos saber da razão, pelo contrário. Às vezes o que não queremos sobrepõe-se ao que queremos, ou gostaríamos, e por isso somos obrigados a fazer de tudo para afastar o que queremos, o que queríamos e nos apetecia sem quaisquer razões da razão, e fazemo-lo com todas as forças que encontrámos - a força da razão, que nos protege, ou deveria. E ainda que se saiba, de plena consciência, que é o que tinha de ser feito, a razão não consola a distância que assegurámos do que realmente queríamos. Só a distância nos protege do medo de ela não existir, mesmo que por momentos. Então fazemos, dizemos e magoamos, como e o que for preciso, para termos garantia que não chegamos sequer perto da tentação de esquecer a razão, mesmo que por momentos. Mantemos a distância que não queremos para afastar o medo dum querer sem razão. E quanto mais medo de querer, mais a alimentamos, num paradoxo que não dá paz nem sustento. Nem ausência, vezes demais.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

 A minha mesa junto ao vidro, o meu chorão do outro lado da rua com os primeiros raios de luz a dourarem as folhas, os meus croissants, este meu tempo só meu, de coisas minhas como as palavras que meço comigo. O autocarro na paragem à hora certa em que eu penso na vida - esta hora nestes dias. Este tempo tão cheio de coisas minhas, tão minhas e que são de toda a gente. Toda a gente as vê? Ou cada um vê à sua maneira e às vezes isso é não ver nada? Como tantas outras vezes, noutros lados, noutras horas, eu não vejo nada, pior, às vezes não me vejo na correnteza louca dos dias e muitas vezes não acho isso pior... já é janeiro, já mudei de ano, (sem me dar conta que o fazia) já balanceei em meia dúzia de parágrafos dez anos de vida - ou de morte, às vezes parece de morte - o meu mês também já acabou, já não espero mais dele. Agora a loucura começa e eu vejo-me menos, e talvez não seja pior a loucura estar nos dias e não em mim. O autocarro parte, é a hora dele, e a minha. 

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021



 Tudo branquinho gelado, e eu quentinho (ou a caminho disso, que o carro estava gelado) dentro do carro a olhar para isto, e a sentir o aconchego de não estar lá fora. E faz-me sorrir este calorzinho por dentro. Depois penso que há certas pessoas que nos fazem sentir assim, aconchegadas no calor de um mundo próprio, defendidos do frio, protegidos de gelar o corpo do corpo frágil, sujeito à enormidade do mundo.

terça-feira, 5 de janeiro de 2021



 -1... todo o pára-brisas é uma pele de gelo de efeitos abstractamente interessantes, mas frios com’ócaraças!!

Bom dia!



Impressionante como a roupa dentro da mala, dentro da bagageira, dentro do carro, todo o dia lá fora ao frio, ficou gelada.  A pele arrepiou-se quando a sentiu vesti-la. E eu com a pele arrepiada só penso como será possível certas partes de mim ainda não terem ainda congelado ou morrido, dentro de mim, dentro da pele dos dias, debaixo dum rigoroso inverno infernal lá fora, cá dentro. Em todo o lado. Frio, ventania, chuva; calor há séculos que não conhecem, luz nunca dura o suficiente para lhes chegar, e não morreram, não sei de quê, não sei porquê . É um enigma - ou teimosia -, diriam alguns, que não sabem explicar não saber explicá-lo. 

domingo, 3 de janeiro de 2021

 


Vir para a varanda com este frio embrulhado num nevoeiro que desenha a contraluz os braços despidos das árvores, de corpo ainda quente da lareira, é estranho. Talvez estivesse a precisar do choque, dum choque, de acordar de algum sonho mau, de tão bom. Ou só de fugir de alguma coisa que o frio possa expulsar, a neblina ofuscar. Qualquer coisa, não sei. O silêncio duma respiração que se vê é mais vazio, talvez fosse isso que eu procurasse, ou o frio para adormecer os sentidos da pele, ou a cegueira desta luz esbatida, vertida no ar e quase palpável, como borrões de cor, parceira da nitidez que nunca tivemos no olhar. o silêncio corta-se com o acender do cigarro, enquanto os dedos se sentem ao centímetro... e eu que agora só queria não sentir.

sábado, 2 de janeiro de 2021


Gosto deste resumo de ano - em livros. Ando muito preguiçosa para passar algumas das passagens que leio, e onde me fico uns tempos, para aqui. Isso e também, ou estou mais exigente, ou este ano não foi dos mais rentáveis, digamos.
Este foi o 2020 em livros, sugestões para 2021? Para compor com aqueles que já estão na calha?

Já não tenho a certeza da ordem de alguns, mas não terá sido muito diferente da que vai formando a pilha da fotografia. Do primeiro, do Houellebecq (de que adorei a "Submissão") pouco ou nada tenho a dizer, não gostei, não me ficou, nem me prendeu. Pego-lhe, abro-o para ver as páginas dobradas no canto: três em todo o livro. É um indicador. Releio essas páginas, esta definitivamente é muito boa:

[Michel Houellebecq, in Extensão do domínio da luta]

"o amor como inocência e como capacidade de ilusão" - realmente nem todos temos a mesma capacidade de amar, de nos entregarmos sem pensar nem calcular, com a inocência e a pureza que se precisa, para se descobrir uma grande ilusão, que se calhar se adivinhava que se acreditava poder não ser assim...
O livro seguinte, que me lembro li num instante, gostei, a escrita é leve e corrida, a história mistura a doçura dum velho que se deliciava com romances de amor (de cordel, vá) a contrastar a brutalidade da humanidade com que vivia na selva.

Dos outros fui aqui publicando algumas coisas, não do Siddhartha, que sendo curto me custou mais ler, embora no fim tenha gostado, não seria livro que relesse (também é certo que não costumo reler, mas de alguns livros fico com essa vontade, doutros nem me passa pela cabeça tal). As mil e uma noites foi uma desilusão, ou eu talvez esperasse algo diferente. Percebe-se a importância que pode ter tido na história da literatura, mas disse-me quase nada. Matou-me a curiosidade e pronto. Da Odisseia gostei, e muito. Aquele curso online que deveria ter sido para me ocupar numa quarentena e num confinamento que nunca existiu para mim, teve essa vantagem de me dar um roteiro de obras que marcaram a humanidade e a literatura. Esse roteiro ainda não o terminei, está guardado. Não sobrevivi ao segundo volume do romance de Genji (ainda está por acabar, coisa que é raro fazer...gosto de acabar o que começo), e assim como quem não quer a coisa, fiz um desvio ao roteiro e perdi-me - propositadamente no mapa. 
Passei por Florença (cidade que adorei e a que sim, vou voltar, Itália é uma paixão só por si) na companhia dum autor que gosto muito, e gostei do que li, também uma escrita fácil e corrida, que se lê duma penada. Tem uma única página com o canto dobrado, e refere-se a toda essa página e a seguinte, mas se tiver de escolher uma parte:

"- Tenho de lhe dizer, Rowley.
-Porquê? - gritou ele, estupefacto.
- Não conseguiria casar com ele com esta coisa a pairar sobre mim. Estaria na minha consciência. Nunca teria um minuto de paz.
-A sua paz? E então a paz dele? Acha que ele lhe vai agradecer por lhe contar? Estou a dizer-lhe que está tudo bem. Agora nada a relacionará alguma vez com a morte daquele desgraçado.
- Tenho de ser honesta.
Ele franziu o sobrolho.
-Está a cometer um erro terrível. Conheço estes construtores do Império. A alma da integridade e tudo isso. O que é que eles percebem de indulgência? Eles próprios nunca tiveram necessidade disso. É loucura destruir a confiança que ele tem em si. Ele ama-a deveras. Pensa que você é perfeita.
- E o que é que isso vale se eu não sou?
(...)
- Se ele me ama o suficiente, compreenderá." 
[Somerset Maugham, in  Paixão em Florença]

E este trecho diz tudo, tudo o que tanta gente não entende. Há coisas com que algumas pessoas não conseguem conviver, fazer, enganar, manipular, o diabo a sete, não conseguem por muito que todos digam que é o melhor. Mas não, têm a ilusão de que se fizerem a coisa correcta, essa será a coisa certa para fazer. Não querer enganar os outros, por entender até que isso é magoá-los mesmo que não saibam, querer mostrar como e o que são, para que o outro não se arrependa depois. Para ter a certeza que são amados pelo que são, e não pelo que parecem ao outro. Pessoas que não manipulam, que se afastam e põem na mão dos outros voltar ou não, compreender ou não, "se amarem o suficiente"... mas nunca se ama o suficiente. Ou se ama ou não se ama, não há graus de suficiência. Isso também aprendi, mas não foi no livro. :) O diálogo com o dito cujo também é bom, o modo como se desenrola, e como ele apenas mantém a intenção de casamento para não sair beliscada a própria ideia que tem dele mesmo, não por amor a ela. Que não tem, obviamente (ainda que pensasse que sim). Gostei do livro e claro, do fim. Gostei do doido do Rowley desde que apareceu, tendências, pois.... ;)

Do Afonso Cruz - Flores -  também gostei, mas estava à espera de mais, para ser franca. O que me fez comprar o livro há já uns tempos largos foi o trecho da contracapa, "o beijo terá sempre de manter a densidade da primeiro, a história de uma vida, todos os pores-do-sol, todas as palavras murmuradas no escuro, toda a certeza do amor.". Terei de ler outro dele, este não me encantou por aí além.
Já o meu Lunário, lido no meu Alentejo. Lembro-me da noite em que o acabei de ler, no alpendre, com a lua por cima de mim e o silêncio à minha volta. Lembro-me de ficar a mastigar aquela sensação que as coisas do Al Berto me dão, de entrar noutro mundo, doutras realidades, doutras maneiras de sentir, de maneiras mais certas, mais intensas, mais onde me sinto realmente. Lembro-me bem dessa noite :)
Agora estou no terceiro do Quarteto. O primeiro foi uma sensação estranha, não me apaixonou e foi quase como uma pequena dor inflingida com retroactivos. Realmente chega a ser curioso como há pessoas que nos conseguem magoar até através do tempo e do espaço, ao percebermos como nunca nos conheceram, perceberam. Mas ao menos conseguimos, nem que levemente, perceber que nunca nos viram, realmente. Ou o que mais viram, ou procuraram... Não que não goste de ouvir que a intensidade da sensualidade, do ambiente em que o desejo quase se cheira, faz recordar-me, pensar-me, identificar-me, querer-me - gosto, gostei, mas não gostei da personagem, nem mesmo nessa parte. Não me identifico com aquela perspectiva de pele e sexualidade - como troca por algo, como meio dum fim qualquer, como fuga de alguma coisa, e de si mesmo. Não sou assim, nunca fui, até agora pelo menos. Estranho que não tenham percebido, menos estranho (agora) é perceber que era a isso que estavam habituados. Já do feitiço que me falavam, só encontrei o mistério que se associa a omissões e manipulações, e tantas vezes real falta de conteúdo, quase como aquelas criaturas que parece que não vão além dos títulos das notícias, que repetem. Da profundidade de alma só vi alguns traumas que se tornaram ferramentas. Sem sombra de dúvida, gostei mais do segundo - Balthazar - e estou a gostar do Mountolive. Pode ser que no fim de tudo desgoste menos da personagem, pode ser. A seguir já tenho uma série deles na calha, e estou com vontade acabar o Quarteto e mudar de agulha. 

E agora que parece que o sol quer aparecer e pôr-se na minha varanda, quentinho e luminoso, vou ver se o apanho enquanto bebo um café e me entretenho com o Mountolive.


 

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

Ihihihihih

 Conselho valioso para um ano que começa!!

Escusam de agradecer... ;)