Estou perfeitamente entranhada de confinamento. Saio de casa mais ou menos duas vezes por semana nos últimos dois meses, uma para ir ao supermercado e outra para comprar cigarros, como ontem. Hoje ou amanhã será o dia de supermercado. Fora isso só para ir ao hospital quando é preciso e levar a tracção às quatro ao jardim aqui perto, que para mal dos pecados dela não tem sido muito frequente. A verdade é que sinto cada vez menos falta, e o que me falta mais é tomar café numa esplanada - que substitui pela minha varanda - e os meus retiros para ler e não fazer nada, longe daqui, onde os olhos se lavam noutras paisagens e a alma se aninha num silêncio que aconchega. É o que me faz mais falta, curiosamente. E para a semana estarei de férias e ainda que tenha que trabalhar alguma coisa durante a semana (porque sou parva, mas é defeito de fabrico, já não muda) apetecia-me ir para um daqueles sítios que descubro no meio de nada que têm tudo o que me apetece. Mas não, não vou, vou ficar pela varanda e apostar em caminhadas e leituras na varanda, e adiantar trabalho que deixei atrasar. Mas apetecia-me tanto, mas tanto. Até a viagem até lá, até isso me apetecia. É estranho não é? Quero estar sozinha quando sozinha é o que estou grande parte do tempo, só quero uma solidão que possa verdadeiramente aproveitar. Não são todas iguais, suponho que como as companhias. Nem todas oferecem o mesmo e algumas roubam-nos tanto. Tempo algumas, outras muito mais que tempo.
sábado, 13 de março de 2021
sexta-feira, 12 de março de 2021
quinta-feira, 11 de março de 2021
quarta-feira, 10 de março de 2021
Ando outra vez a esticar as noites, ou os dias, ou deixando-me ficar, faço as duas... mas fechar o computador já depois das oito dá nisto, precisar dumas horas para esquecer a cabeça. O dia também. Venho fumar o último cigarro à varanda, está frio e silencioso, poucas estrelas a assistir ao espectáculo da cidade adormecida. E eu já devia fazer parte dessa peça, disfarçada de noite, de olhos fechados e a sonhar o que já não consigo acordada, de olhos abertos. E dizem que depois de se abrir os olhos já ninguém os consegue fechar, mas para os sonhos ficam fechados. É preciso muita coragem (ou estupidez) para se sonhar depois de nos abrirem os olhos.
terça-feira, 9 de março de 2021
[foto @marianovivanco]
Deparei-me com isto. Frase que a minha mente disparou antes que tivesse tempo de dizer ai Jesus: então mas a tua mãezinha não te ensinou que não se limpa aos cortinados??”... e pronto tive de me rir da minha própria parvoeira... uma pessoa tem de ensinar tudo a estas crianças?? Ou estará ele a coçar as costas, ou assim?... se for isso sempre é melhor dar uma ajudinha que lavar cortinados... a minha filha relativamente à apresentação física do moço diria... txiii olha aquela tablete de chocolate mãe!!! (Sim, a miúda tem umas saídas que tenho de me controlar e dizer para ter mazé juizinho... uma vez acerca dum mocinho, em conversa ao telefone durante as férias de verão, até tive de escrever para me continuar a rir depois... doida como a mãe, é o que é...)
Nope, I don’t...
Acho que cada um tem de lutar pela sua alma, pela sua felicidade, pelo que quer, e às vezes isso é lutar de todas as maneiras que consegue por estar perto da alma que nos sossega a alma, que a nutre, que a faz mais feliz. Outras não, outras é não desistir, contentando-se com menos que isso... porque o universo não faz acontecer. Vida há só uma, universos não sei, e não creio que sejam curvados, como os que dizem que devolvem o que se dá. São as pessoas que devolvem, se quiserem, e com isso fazem acontecer o que de outra forma não deixariam de ser apenas acasos... fruto do caos, da sorte, do azar, dos desígnios inconsequentes do universo.
sábado, 6 de março de 2021
[foto @hana_photographer11]
Fim de semana!!!.... hoje dia de limpezas... que fixe né?? Espectaculo de prograna, limpar o sítio dos cães lá atrás todos os fim‑de‑semana, varrer a casa, depois aspirador, depois esfregona... uma animação, portanto! Depois o meu ioga, depois banho... destes, às meias horas de banheira. Ficar de molho a dissolver a preguiça no tempo, pensar no futuro, no de agora e no que há-de vir, nas saudades do meu Alentejo, do monte que hei-de fazer meu, ou ele fazer-me sua... sim, gosto dessa ideia de pertencer... Agora sete dias sem miúda... a casa mais vazia, enche-se trabalhando um tico mais... hoje à tarde, entre o desejado passeio da pintarolas e acabar o livro, é ao que me vou dedicar, abençoada pelo sol, se assim se mantiver a disposição de S. Pedro... mas para já, para já, limpezas... porra!
quinta-feira, 4 de março de 2021
nahhh.... não invejo, nem eu o quero fazer de parvo. Muito menos com uma maçã....se fosse com umas bolachas, ou chocolates ou assim, ainda vá, que até o convencia a fazer-se de parvo... agora passar uma maçã por almoço nahhh... só se fosse para trincar os apetites à tentação e servir de pré-sobremesa pouco parva.
quarta-feira, 3 de março de 2021
segunda-feira, 1 de março de 2021
Bem precisava aqui dum alento, duma motivação acrescida, de qualquer coisa que me faça combater a preguiça, e a vontade de sofá... ainda na semana passada, numa reunião, estive quase duas horas a ouvir as teorias positivas e de coaching, e nós a vermos que nos estão a lixar mas com um sorriso muito positivo no semblante... e eu sim senhor, pois claro, é tudo muito positivo e podemos, e vamos, melhorar muita coisa, mas vamos ser lúcidos e ver também o que está à nossa frente? Porque eu tento fazer isso, de outra maneira, com tanta coisa positiva e tangas e tal ... há a melhorar o quê? Hum? Pois... bom, mas estava eu aqui a pensar que em vez de coaching eu dedicava-me era ao couching com este especialista aqui... hum hum isso é que seriam sessões de couching com resultados muito melhores que horas de coaching.... ai tantas tretas e eu a assobiar para o lado... e a notar-se. Ahhh com um couching com um coucher destes eu seria muito aplicada e nada de assobiar para o lado, aliás nada ao lado, nada. Aiiii mas o que eu estava mesmo a pensar, é que olhar para estas coisas lembra-me as bolachas da semana passada, e aqueles canudinhos de chocolate que são vício e a preguiça de me dedicar aos meus vinte minutos de exercício... baldei-me tanto - aliás, completamente - raios... tenho mesmo de fazer posters de gente assim, com tudo no sítio e que dão vontade de despentear o sítio às coisas, sei lá... olha, vou ali dedicar-me vinte minutos às próximas bolachas e pensar no pessoal que me quer impingir teorias de coaching a que eu só ligarei se me arranjarem um coacher como este coucher aqui esparramado num belo couch :)) aiii que vontade... não me lembrem do sofá...
domingo, 28 de fevereiro de 2021
Hoje o dia, depois de dar uma nega a um convite para caminhada comprida que não me apetecia tão cedo, mas ficando a pensar nos convites reiterados a Barcelona... e depois de dormir mais um tico, porque afinal é domingo!... começou assim, com música e com o cruzar-me com uma entrevista antiga do Lobo Antunes, homem que me desconcerta sempre, pela ternura infinita a par com a brutalidade crua de reacções e palavras. Assim, nesta conjugação improvável (será improvável? mesmo?) que me deixa sempre um sorriso e a vontade de pela vigésima vez tentar começar um livro dele onde eu consiga entrar. Adoro as crónicas, como toda a gente, mas os livros, os livros são outra loiça, e nem todos acho que chegamos lá. Eu ainda não, ou talvez eu não seja das que têm essa chave diferente para aqueles livros. Fiquei com vontade de comprar as crónicas para ter dele o que mais gosto, essa ternura que tão bem se absorve nas suas crónicas. Adorei as cartas de guerra "Neste viver aqui neste papel descripto" onde se vê o ser humano, a intimidade, a alma de alguém. Era capaz de me apaixonar por aquele homem, não tenho dúvidas, e o entanto esse seu mundo fechado nos seus livros, não se abriu para mim, e talvez nunca venha a acontecer. Entretanto rebaptiza-se a música "Sometimes never" e dança-se sem saber de nomes, ou de idas ou de voltas, de nuncas ou de sempres, dança-se e pensa-se nos mundos que todos encerramos, nos que nos estão vedados e nos que queremos escancarar, e abanamos a alma mais um pouco, ao som duma música que ouvimos que ninguém garante que seja exactamente a mesma, a minha filha ouviu mas terá ouvido o mesmo? :)
sábado, 27 de fevereiro de 2021
Uma tarde inteira de varanda, desde o sol muito quente até agora onde o calor suave, e já distante, vem da cor derramada no céu pelos olhos dentro. Uma tarde de ler, de música, de pintar unhas, estragar e desfazer tudo. De ver cruzarem-se dois casais de gente que já foi nova há muito tempo, de se cumprimentarem e trocarem duas frases, cada casal de mão dada, os únicos que vi assim, a passear unidos pelo compasso do andar que não desfaz o abraço das mãos. Talvez já não se use (ou agora se use só para inglês ver, quem sabe). Talvez eu também esteja fora de moda, talvez também não se deva parar a leitura para ver quem passa de mãos dadas. Talvez. Ou talvez certas coisas façam parte da leitura que gosto, da música e das cores... talvez, não sei, mas também não quero saber.
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021
Acordei a correr, e cedo. E quase me esqueci. Lembrei-me agora, de chávena na mão a olhar lá para fora. Não sei porquê. Talvez porque tenha sido na rua, e eu não sabendo onde, todas as ruas se parecem. Ou porque na minha cabeça não me terá parecido longe de casa - e isto poderá ter um qualquer significado oculto, será? Mas, olhando para a rua em frente, que desce, lembrei-me, essa rua onde nos encontrámos não descia. Eu ia sozinha, o passo um pouco acelerado, quase com ar decidido como me dizem ter. Sentia a brisa fria na cara, ou isto já serei eu a romantizar, porque algo me faz lembrar, ou dá a sensação, que não era verão, não era um dia animado de pouca roupa. Não dei por mais ninguém na rua, não sei de onde aparece ele, ou por que artes, não sei, caiu de pára-quedas duma nuvem, sabe Deus. Só sei que de repente aparece à minha frente e me espeta um beijo. Eu sei, é esquisito, eu também achei, mas só depois de acordar, no sonho foi só inesperado e como que surgido do vazio (curiosas as palavras que me surgem enquanto escrevo isto...). Infelizmente também não foi reconhecível, não sei quem era, nao faço ideia, não o conheceria, não sei se completo desconhecido ou nao - era um personagem sem rosto definido. Uma coisa que ele tinha bem definido era o beijo, de alta definição e bom, tanto, que se calhar demorei mais a reagir por isso mesmo... aquela fracção de segundo que o cérebro pensa... mas que é que eu estou a fazer? E afasto-o a tempo do beijo roubado não me roubar de mim, e bruta “então? mas que é isto???” Ou qualquer coisa do género. E tenho pena, tanta pena, não consigo lembrar-me o que respondeu, não sei a frase que usou... não sei se não me lembro ou se nos sonhos às vezes o que é dito é irrelevante, ou melhor, as palavras são, mas não a mensagem. E nos sonhos, independentemente das palavras a mensagem é entendida, e é aí que os sonhos falam- na maneira como nos fazem sentir no que se passa naquela pequena curta-metragem, por inacreditável ou inverosímil que nos pareça o argumento depois de despertos, porque durante os sonhos nada nos parece impossível. Por isso, talvez a frase que terá sido dita seja irrelevante ou talvez não seja possível a minha própria cabeça fabricá-la ou impediria a minha reacção... o que ele disse surpreendeu-me, e de tal forma, que me desatei numa gargalhada. Achei-lhe genuinamente piada. Tinha tido uma saída fantástica, com piada, inteligente, e eu rendi-me, gostei. E foi com esta sensação que saí a correr da cama, já atrasada. Ele não era giro, ou pelo menos isso não ficou registado, não tinha um rosto definido, não há registo que tivesse olhado para ele e tido qualquer reacção, não. A única reacção foi pelo que disse, pela maneira como o disse, pela audácia de me roubar, assim, um beijo, e aquele ar gaiato e sem idade que certos sorrisos têm, mas carregados com a força intensa de certos gestos, na certeza de alguma coisa. E este conjunto, esta coisa embrulhada num beijo ficou-me até agora, depois da reunião fechada, do pequeno almoço atrasado, e do resto da vida a correr paralela num rio qualquer que chegará ao destino. Eu, agora, estou ali, no sonho de que acordei.
E se, de repente, um desconhecido te roubar um beijo, isso é... um sonho :))
( e se realmente se parecesse com este moço aqui de cima, realmente, teria parecido (ainda) mais um sonho)
terça-feira, 23 de fevereiro de 2021
És a carne dos deuses,
O sorriso das pedras,
E a candura do instinto.
És aquele alimento
De quem, farto de pão, anda faminto.
(...)
Miguel Torga
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021
Gostei daquela ideia de se ir mudando o penso à ferida até ela sarar. Talvez haja coisas realmente assim, e têm o seu tempo. Não se encurta, nem se prolonga além da cicatriz. Já a ideia que o futuro arranja maneira de modelar-se, nascer do vazio, acredito nisso, ou talvez não seja tanto crença, mas instinto de sobrevivência. E experiência empírica, até. E a pergunta... será que se pode gostar mais do pensamento de alguém, do que a sua presença física? Será? Que as palavras são mísera consolação, já sabemos, e acrescento outra frase, tão boa, doutra página assinalada, também deste último livro:
contém em embrião todos os desgostos do mundo.”
E eu, que gosto tanto de palavras, da sua dança, das suas imagens, das tantas mensagens que podem descoser as suas linhas, e da beleza disso tudo - de como pode ser sublime essa comunicação, esse código -, serei talvez um alvo privilegiado, facilitado. E, no entanto, curiosamente, hoje dei por mim a olhar para os bichos cá de casa, e a pensar exactamente isso. Sem palavras temos de aprender a conhecer o outro pelos gestos, pelas atitudes, pelas teacções, e através dos silêncios. A observar o outro, a comunicar com menos enganos e ruídos, duma forma mais genuína, mais verdadeira - mais reduzida ao essencial, e o essencial é o mais difícil de verbalizar, mas não de comunicar, não? Mas então à distância... não se pratica, né? O resto são ruídos... ou podem não passar disso.
Gostei mais dos últimos dois quartos do quarteto, sem dúvida nenhuma. Foi em crescendo esta leitura. Venha o próximo! Já me apetece e já sei qual ;)
domingo, 21 de fevereiro de 2021
E hoje o shuffle trouxe-me isto, precisamente quando o meu olhar se despedia das cores do sol no horizonte, à hora que mais gosto da minha varanda, da minha sala - quando as cores aquecem a alma, tanto quanto o olhar. E gosto da música, da sonoridade, e da envolvência de sensualidade e meio-pecado que a embrulha, nessa confusão que (só) pode ser deliciosa e fatal... tudo tem o seu preço.
Será que hoje o sol não se desmente?
Será que hoje vamos conseguir fazer uma passeata até ao jardim? Será?
A pintarolas já está farta de estar em casa, mesmo ao meu colo, quentinha e com mimo, já anda tristonha. Não gosta de filmes e as frases de livros que às vezes paro para pensar mesmo que lhas leia, é com aquela displicência no focinho que acolhe as palavras. Não consigo perceber se ela já percebeu tudo há muito tempo, ou se não há nada para entender, porque as coisas não são feitas para entender, mas para viver. E isso é só sentir... e ela sente que precisa é de esticar as pernas e respirar o lá fora, o imenso, o sem portas. Com ou sem sol, mas com sol é mais quentinho e luminoso :) mas antes tomar um banho rápido (mais ou menos, vá) e trincar qualquer coisa. Sol, não desampares já o nosso pedaço, sim?
sábado, 20 de fevereiro de 2021
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021
... e pronto agora vou ao meu ioga, acalmar a respiração e trabalhar para um corpinho zen. Ou sonhar, pronto, que às vezes é preciso uma ginástica do caraças para isso oh oh...
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021
De repente senti muito a falta de música. Percebi que andava a ouvir pouca música, sem as viagens já nem rádio oiço. Então nos últimos dias tenho-me desforrado no Spotify para pobres. A minha filha, na sua ironia sarcástica adolescente, até me perguntou se eu tinha descoberto a coisa com este confinamento... é tão engraçadinha a miúda... mas enfim, tenho ouvido música, e incrivelmente tenho feito todos os dias - com custo e combatendo a preguicite aguda que me assiste - uma meia hora de exercício, ou como diz a minha filha uns “Workouts” na aplicação que ela usa, e que sendo para pobres ( há quem alegue forretice), eu também passei a usar. Ora basicamente acho que estes dias de férias, ou pseudo-ditas, deram para isto. Se me distraio e continuar assim, ainda chego ao fim do confinamento, não digo que a tempo da praia, mas a tempo de empurrar muito melhor o andarilho quando isto acabar... na altura não sei se ainda terei ouvido para conseguir ouvir música (ou o que quer que seja)...
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021
As noites são tão calmas agora, sento-me aqui, enrolada na manta sem frio e sem céu, depois duma tarde acelerada e corrida. Nem tudo correu bem e há uma angústia ansiosa que se instala e teima em não me largar. Olho para a televisão mas é quase ruído de fundo e desisto. Venho fumar um cigarro e dissecar a angústia, o dia, a responsabilidade. Mas não sei tratar isto, nunca soube, talvez por isso procure tanto uma tranquilidade que me é tão cara, que me refunda no mundo. Às vezes parece tudo tão complicado, e normalmente importa tão pouco. Tenho consciência disso. E respiro fundo mas no fundo está tudo igual, ainda não domestiquei a insegurança, a ansiedade, a angústia por coisas pequenas. Ao menos isso a idade, os anos, deviam devolver-nos... uma espécie de que se lixe, fiz o melhor que pude, e uma certa inconsciência apaziguadora que anule os graus assassinos de exigência a que nos submetemos, ou melhor, que nos impomos.
terça-feira, 16 de fevereiro de 2021
[Lawrence Durrell, in Clea, O Quarteto de Alexandria ]
Começar o dia a ler a vida como devia ser pensada. E pensar que vou ter pena de acabar este quarteto, e diria que a segunda metade é a melhor. Espero que com a vida também seja assim. Por já termos mais de tudo o que se passou, por percebermos melhor que todas as verdades são perspectivas sobre factos. E que primeiro é preciso saber e “compreender inteligentemente” o que se quer da vida, e depois tentar encontrá-lo sem o procurar de facto...como os acasos que nos acontecem e que talvez estivéssemos, sem saber, à espera e desejosos que acontecessem. Mas aqui, a magia é o esperar “sem saber”, não consciente ou inteligentemebte, ao contrário do saber o que se quer. Já a sabedoria é a consciência que o maior obstáculo somos nós, como nos boicotamos tantas vezes, curiosamente, da perda de algo de que abdicamos à partida para o evitar. Irónico, não?
Segundo dia de férias em confinamento. Semi-ferias, porque mandam-nos de férias mas pedem-nos para trabalhar, curioso não é? Inteligentemente não sabem o que querem ou sabem?
... Respira fundo no silêncio.
E o que vês?
O que vês na tua escuridão?
Vês que te ilumina? O que queres, desejas, procuras? Ou o que te ensombra, que temes, de que queres fugir, esquecer, evitar? ou as duas coisas, que pode ser só uma?
O que quer que seja que vês, é o que mais tens por dentro, e te persegue.
domingo, 14 de fevereiro de 2021
Uma pessoa não sai de casa e nem se apercebe... Depois senta-se aqui sonda as redes sociais e lá compensa o esquecimento... é dia dos namorados. Pois é, portanto aqui deixo esta imagem, que de todas as que vi por aí, foi a que chamou o meu nome por dentro... Realmente esta coisa dos cabelos brancos, dos anos que passam pelo corpo, do navegar calmo da alma que o corpo guarda num mundo diferente, onde o tempo não se mede em dias, ou em anos, mas em dores, em angústias, desilusões, e também saudades, felicidades, alegrias e risos, talvez me esteja a mudar a graduação dos óculos com que vejo o mundo. Mas curiosamente continuo a querer as mesmas coisas, e a acreditar que são as certas, que para mim são as certas.
Também é curioso ver como as pessoas vão chegando às mesmas conclusões - é tudo tão fácil quando nunca se sentiu a alma penhorada por um sentimento que não controlamos, não é? o pior é depois... - , quando passam por coisas, que se entranham e se plantam na alma de tal forma, que depois se tornam raízes de todo o alimento dos sonhos. É curioso também ver que alguns estão a começar a percorrer um caminho que eu já pisei, descalça e sozinha, e que o reconheço, agora de fora. E sorrio uma tristeza madura, agradecida por já ter os pés cicatrizados, e angustiada por imaginar as dores que os outros de o percorrer, quanto a isso nada haverá a fazer (se for mesmo esse o caso, talvez não, talvez corra bem, às vezes corre não é? e quando corre mal nem todos sofrem no mesmo grau), mas ao menos penso que não terão de o fazer sozinhos.
...Mas nada disto é para os namorados de hoje, para esses só o desejo de que pratiquem muito :)) namorem - e com vontade - hoje e todos os dias, mas hoje têm (mais) uma desculpa para fazer uma coisa qualquer gira, uma surpresa, uma brincadeira, uma cumplicidade a dois, que só vocês sabem e guardam no meio das casas agora cheias de gente... vá pode ser giro, a sério. :)) brinquem muito uns com os outros, riam-se, namorem, dêem muitos beijos, aproveitem o colo e o sol, passeiem de mão dada abraçados no silêncio confortável do amor. :)
Sejam namorados felizes, em vez de querer um dia dos namorados feliz à custa de fretes.
sábado, 13 de fevereiro de 2021
contento-me com coisas
pequenas que de repente se tornam
muito grandes onde nem sei
de mim nem quero
Bénédict Houart
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021
Hoje sonhei que estava a ficar com o cabelo branco. Estava ao espelho e constatava que aquela meia dúzia que me acompanha há uns anos se tinha multiplicado, que começava realmente a notar-se, isso de estar a ficar com o cabelo branco. E olhava e olhava e não sabia bem o que pensar ou sentir, mas na verdade quando acordei o que achei curioso foi que não punha a questão de o pintar. No sonho, isto é. E depois, acordada. Devo ter pintado o cabelo, até hoje, umas três vezes e sempre por curiosidade de como ficaria, e sempre temporário, com produtos que vão saindo com a lavagem. E fiquei a pensar, será que daqui a, sei lá, um ano vou ter de começar a pintar o cabelo? Então e se não pintar? Tenho pouco e fino e se ele desiste de mim com essa ofensa? Humm...? E depois? E agora, enquanto o almoço faz plantei-me à frente do espelho, e a verdade é que já tenho uns quantos, e vários compridos, do tamanho dos outros, dos que não são ovelhas brancas... acho que ainda não se nota, mas eu já noto qualquer coisa... uma relutância em negar o tempo, mas o tempo o dirá. Negar o óbvio torna-se muitas vezes apenas ridículo, outras revela-se uma necessidade. Às vezes acumulam-se as duas... Por enquanto acho que olho para o facto - e ele para mim - com um olho aberto e outro fechado, entre o espanto e a naturalidade, a incredulidade e a aceitação.
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021
COMÉDIA
Vazio. Queixa-se
de vazio.
E nisto esvazia o outro
tão cheio
disto tudo.
Daniel Jonas
domingo, 7 de fevereiro de 2021
Domingo. A amálgama de ternura que a paixão deixa nos corpos, esparramados e estarrecidos. Embrulhados e envolvidos em silêncios como hinos ao amor, diálogos inconfessáveis e inexplicáveis, orações de pele a um deus só nosso.
Há dias - ou momentos até, que são como dias inteiros -, que não se explicam, onde cabe o tempo de gostar e desejar, pleno, inesgotável, que correm a vida toda, imóveis, completos. Como se amanhã fosse outra vez domingo, por momentos, e sem ninguém saber. Ou daqui a pouco, entre ir deitar o lixo e ir buscar lenha. Ou entre uma linha que se lê e outra que nos perdeu.
sábado, 6 de fevereiro de 2021

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021
[foto @wieselblitz]
Aiiiiii que sono...
Esta coisa de estar metade em layoff mas trabalhar o mesmo não é bonito, é só parvo. Acordo com a sensação que não, nunca aprendo. Bem ou mal, as pessoas mudam muito pouco. E o meu sono não muda nada.... porque é que só gosto mesmo de dormir de manhã? ... que raio! Ontem à noite podia ter ido para a cama cedo, não era?...mas não, não apetece. Apetece é ir agora...
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021
... porque temos de ter qualquer coisa que anime, e dizem que uma imagem vale mais que 1000 palavras (mas eu acho que é mentira, é o gesto que vale isso tudo e mais)
... porque há coisas em que vale a pena arregalar as vistas, e fechar os olhos.
... porque adoro mãos, mas gosto de pescoços assim, e dum peito para descansar dos dias e percorrer com a ponta dos dedos todas as noites.
... porque o moço tem partes fotogénicas, e nota-se.
... e porque ficaram-me os olhos aqui e a alma bateu asas, perdida em imagens e em sítios que vejo daqui.
terça-feira, 2 de fevereiro de 2021
domingo, 31 de janeiro de 2021
E então? Era isso?
Normalmente, quando desejo a alguém que seja feliz, quando acho que realmente o merecem, não lhes desejo o que querem ou pedem, mas o que precisam. Outras vezes há, em que desejo que as pessoas tenham exactamente aquilo que escolheram... que é como quem diz que tenham o que mereçam, seja lá isso o que for, como quem lava disso as suas mãos, até no que se lhes deseja diz respeito. Mas é raro fazê-lo, normalmente nestes casos não digo nada, penso e calo. Mas já aconteceu dizê-lo.
Já eu, não tenho esse problema, raramente tenho o que quero, o que desejo, logo é difícil saber se o que quero me faria mais feliz, ou não. Ainda assim, tudo são escolhas, mesmo que escolhas limitadas ao que está ao alcance das nossas opções, as alternativas que podemos escolher. Nem tudo está nas nossas mãos, às vezes nem o que desejamos.
sábado, 30 de janeiro de 2021
"Sou jovem e tenho a vida toda pela frente. Eu sei disso.
Não vou dar graxa à felicidade.
Se aparecer, óptimo. Se não, quero lá saber.
Nós os dois não somos compatíveis."
a música fecha o filme, mas não o encerra. parte-lhe a casca, escancara-o. estamos sempre aqui para as pessoas que gostamos, é talvez isso gostar delas - talvez só isso, e sempre - mesmo quando aqui não é um sítio, mesmo quando não estamos... como aquele silêncio debaixo de todos os sons, de tudo. daquela felicidade a que se dá graxa.]
quinta-feira, 28 de janeiro de 2021
Fumo um cigarro à varanda e do outro lado da rua, um moço, dum lado para o outro, fala ao telefone, muito interessado e compenetrado. Não triste, não alegre, só com muito assunto, que isto já dura há um bocado... só me ocorre que o assunto seja de coração, que haverá do outro lado, alguém que pelo telefone, lhe agarra o coração. Já ele não aparenta o descanso ou a felicidade de saber que toca o coração de quem lhe fala, mas não posso deixar de pensar que disso tem vontade. Ainda assim, a conversa deve ser quente porque o moço, com este frio, tem só uma t-shirt em cima do pelo... ou tem o termóstato avariado ou é moço de muita quentura...
terça-feira, 26 de janeiro de 2021
segunda-feira, 25 de janeiro de 2021
Ahahahah
...as coisas de que se lembram, valhamedeus...
Quando recebo isto desato a rir - ainda que este confinamento seja muito diferente do primeiro em muita coisa, e principalmente no estado em que isto está - parece que ando sempre enganada, sempre ao contrário, afinal estes tempos são difíceis para muitos casais, gente que não está realmente com quem gosta, e nota-se mais quando se fecham do mundo. Faz sentido. Há menos distracções, dá menos para esquecer que realmente o que querem não é estar ali com aquela pessoa. Mas acredito que também haja muitos, que tendo normalmente pouco tempo para estar juntos, agora aproveitem bem... devo ser uma romântica, né?
(e temos de nos rir, vá...)
domingo, 24 de janeiro de 2021
[foto @victoria_klimenkova]
Os dias perfeitos para gostar de estar em casa. Ontem foi dia de séries, hoje de acabar o livro que nos últimos fins de semana andou esquecido. Falta outro para acabar o quarteto. Acender a lareira, uma chávena de chá por perto, o livro nas mãos e a janela ao meu lado, eis o projecto para hoje. E o termómetro. Não, não vou votar, mas acho bem que todos que podem o façam. Eu não posso. E este ano iria, houve eleições em que não fui, recusei-me, por não me identificar com nenhuma possibilidade de voto, por achar que algumas decisões desrespeitaram o voto, por o voto em branco não ter outra consequência prevista que não análise estatística, por muitas razões. Hoje não vou porque não posso, e assim como quem pode deverá ir votar, quem não pode não deverá ir. Logo este ano, que quer exercer o seu direito, não pode ser a qualquer custo. Sejamos conscientes, sim? Já que quem nos governa não parece que sofra gravemente desse mal... com a quantidade de gente infectada, ou com a probabilidade de estar, outras - muitas - remetidas a isolamento, não terem atempadamente recalendarizado, parece-me pouco consciente. Ou acharam que aumentava a abstenção e isso não era mau (para quem decidiu, pois). Esqueceram-se que na hipótese de haver maior mobilização, o risco de contágio subiria e era previsível que nesta altura não devesse ser um risco a assumir... digo eu que estou febril e não percebo nada de nada... o que me faz, talvez, sã...
quarta-feira, 20 de janeiro de 2021
Já não me lembrava desta sensação. Levar a miuda e voltar a casa. Fiquei até à última na cama, estava-se tão bem... já não tive tempo de tomar pequeno almoço, que é o que estou a fazer agora na mesa da cozinha. Olhando para trás - e não sei por que me deu para isso - percebo que sempre tomei por tarefa minha levar a miúda. O pai levava-a uma vez por semana, agora duas porque não estou cá duas noites, mas até aqui sempre fui eu a levar a miúda. Não foram os avós, nem o pai, que a caminho podia passar e levá-la. Não, sempre fui eu para mal dos pecados dela, porque ando sempre atrasada... o meu pai levantava-se cedo e ofereceu-se para levá-la de manhã e assim eu podia dormir mais um tico, mas nunca o aceitei. Sempre achei que era coisa de mãe (ou pai, dos pais se o puderem fazer, claro) levar os miúdos à escola. Depois com esta coisa do io-io, começou a ir, nos dias que saio muito cedo, a pé... porque “Oh mãe já tenho idade! Achasempre que sou um bebé”... e é, mas grande com’ócaraças... e lá tem ido, quando não eu não posso. Hoje em dia, nestes tempos esquisitos, já a posso levar, e acho que foi isso que me trouxe isto tudo... apesar de gostar de dormir de manhã com’ócaraças gosto que seja a mãe a levá-la... e aparentemente essa sou eu! E ultimamente tenho sido menos... porque tenho podido menos e porque ela precisa menos...
segunda-feira, 18 de janeiro de 2021
Acabar o último cigarro do dia e do maço, sentada no degrau da minha varanda, a sentir o frio na ponta do nariz e do lado de fora da manta. E estava a apetecer-me o ar frio da noite, em que se sente mais, se gosta mais do calor da manta que nos abriga, nos protege. Não vejo a lua, não lhe sinto o olhar poisado nas sombras, que se transformam em prata, em que deixam de ser sombra e ainda assim não deixam de ser penumbra. Há muitas coisas assim, suponho. Amanhã começa outra semana, ainda que diferente das outras, o dia não começará tão cedo e não acabará com uma caminhada fria junto ao rio. Acabará aqui provavelmente, onde estou, a pensar no amanhã que não me apetece particularmente... apetecia-me estar confinada, debaixo do vasto céu alentejano, sem ter de pensar em trabalho e em tudo que nos espera depois destes tempos. Não é pessimismo é só fruto daquele defeito que não raras vezez me apontam da fria lucidez. E para isso falta-me uma manta.
domingo, 17 de janeiro de 2021
Então mas não sabiam ter-me mandado isto ontem???... esta informação de primeira água? Ainda indagava qual faria melhor corte, recolhia referências e fazia marcação, ali entre um Yorkshire e um schnauzer... Ontem ainda ia a tempo, hoje já não!!... timing é tudo na vida, assim se vê!!!
(a tempo só mesmo a gargalhada :D que me acordou logo pela manhã ... quer dizer há bocado, pronto, para rir o timing é sempre certo)
sábado, 16 de janeiro de 2021
A minha primeira baixa deste confinamento: o corte de cabelo. Deixou de existir. Está mais curto, é certo, as pontas que me andavam a chatear de estarem a ficar secas e estragadas, também estarão reduzidas. O que não sobreviveu foi o corte de cabelo. Agora é só uma coisa assim... esquisita, é um escadeado ligeiramente esquizofrênico, mas pronto. Foi o melhor que consegui (também não me esforcei muito foi meio por instinto em frente ao espelho de cabelo seco) depois de tentar desde há duas semanas cortar o cabelo ao fim de semana, e nunca ter vaga, vai de cortar eu. Isto de andar entre cá e lá e nos dias que chego cá chegar sempre depois das oito, e nos que fico por cá só querer aproveitar o pouco tempo que tenho para mim ao fim do dia, a minha hora de paixão, dá nisto. Não dar tempo para cortar cabelo entre confinamentos. Vai daí cortei eu, prontosssss.
Cuidem-se e não cortem o cabelo em casa se lhe tiverem algum amor ;))) ....
No fim, fechamos todas as luzes e reunimos o braseiro que ficou, restos de fogo que aqueceu o olhar e a pele - a casa que somos e a que habitamos. Há uma intimidade repleta de ternura nos restos do fogo, no calor que ainda dão, na luz quente e deliciosa que emanam. Combinam com o fim do dia, com o silêncio da penumbra, com a suspensão do mundo, com o desligar de qualquer movimento. Com a companhia do último cigarro nos dedos. E ajeitam-se as brasas de novo, para manter o calor, para libertar a luz delicada que ainda guardam. E o calor sobrevive, e às vezes incendeia-se de novo. Como agora.
quarta-feira, 13 de janeiro de 2021
segunda-feira, 11 de janeiro de 2021
Caminhada ao frio, que quem passa por mim não parece sentir, em corrida ou em passo de canídeo com fome de distâncias. As luzes a entrarem pela água até aos pés, até onde os meus olhos caminham sem sair do lugar. Outra maneira de fazer a ponte entre o dia que acaba e a minha noite começa, já instalada no céu há muito. O mesmo ritual, outros cenários. Quase um vício de alma que o frio aquece.
domingo, 10 de janeiro de 2021
sexta-feira, 8 de janeiro de 2021
A minha mesa junto ao vidro, o meu chorão do outro lado da rua com os primeiros raios de luz a dourarem as folhas, os meus croissants, este meu tempo só meu, de coisas minhas como as palavras que meço comigo. O autocarro na paragem à hora certa em que eu penso na vida - esta hora nestes dias. Este tempo tão cheio de coisas minhas, tão minhas e que são de toda a gente. Toda a gente as vê? Ou cada um vê à sua maneira e às vezes isso é não ver nada? Como tantas outras vezes, noutros lados, noutras horas, eu não vejo nada, pior, às vezes não me vejo na correnteza louca dos dias e muitas vezes não acho isso pior... já é janeiro, já mudei de ano, (sem me dar conta que o fazia) já balanceei em meia dúzia de parágrafos dez anos de vida - ou de morte, às vezes parece de morte - o meu mês também já acabou, já não espero mais dele. Agora a loucura começa e eu vejo-me menos, e talvez não seja pior a loucura estar nos dias e não em mim. O autocarro parte, é a hora dele, e a minha.
quarta-feira, 6 de janeiro de 2021
Tudo branquinho gelado, e eu quentinho (ou a caminho disso, que o carro estava gelado) dentro do carro a olhar para isto, e a sentir o aconchego de não estar lá fora. E faz-me sorrir este calorzinho por dentro. Depois penso que há certas pessoas que nos fazem sentir assim, aconchegadas no calor de um mundo próprio, defendidos do frio, protegidos de gelar o corpo do corpo frágil, sujeito à enormidade do mundo.
terça-feira, 5 de janeiro de 2021
Impressionante como a roupa dentro da mala, dentro da bagageira, dentro do carro, todo o dia lá fora ao frio, ficou gelada. A pele arrepiou-se quando a sentiu vesti-la. E eu com a pele arrepiada só penso como será possível certas partes de mim ainda não terem ainda congelado ou morrido, dentro de mim, dentro da pele dos dias, debaixo dum rigoroso inverno infernal lá fora, cá dentro. Em todo o lado. Frio, ventania, chuva; calor há séculos que não conhecem, luz nunca dura o suficiente para lhes chegar, e não morreram, não sei de quê, não sei porquê . É um enigma - ou teimosia -, diriam alguns, que não sabem explicar não saber explicá-lo.
domingo, 3 de janeiro de 2021
Vir para a varanda com este frio embrulhado num nevoeiro que desenha a contraluz os braços despidos das árvores, de corpo ainda quente da lareira, é estranho. Talvez estivesse a precisar do choque, dum choque, de acordar de algum sonho mau, de tão bom. Ou só de fugir de alguma coisa que o frio possa expulsar, a neblina ofuscar. Qualquer coisa, não sei. O silêncio duma respiração que se vê é mais vazio, talvez fosse isso que eu procurasse, ou o frio para adormecer os sentidos da pele, ou a cegueira desta luz esbatida, vertida no ar e quase palpável, como borrões de cor, parceira da nitidez que nunca tivemos no olhar. o silêncio corta-se com o acender do cigarro, enquanto os dedos se sentem ao centímetro... e eu que agora só queria não sentir.












































