quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Yet.
Socorroooooo!!
Enfiem-me numa casa de doidos que hoje nem dou pela diferença
 e sempre me chateava menos.
E dormia mais.



Primeiro foram as mãos que me disseram
que ali havia gente de verdade
depois fugi-te pelo corpo acima
medi-te na boca a intensidade
senti que ali dentro havia um tigre
naquele repouso havia movimento
olhei-te e no sol havia pedras
parámos ambos como se parasse o tempo
parámos ambos como se parasse o tempo

é tão dificil encontrar pessoas assim bonitas
é tão dificil encontrar pessoas assim bonitas

atrevi-me a mergulhar nos teus cabelos
respirando o espanto que me deras
ali havia força havia fogo
havia a memória que aprenderas
senti no corpo todo um arrepio
senti nas veias um fogo esquecido

percebemos num minuto a vida toda
sem nada te dizer ficaste ali comigo
sem nada te dizer ficaste ali comigo

é tão dificil encontrar pessoas assim bonitas
é tão dificil encontrar pessoas assim bonitas
(...)

Pedro Barroso

Há coisas que leio que me deixam tão pouco por dizer, que roubam as palavras por devolverem o sentido dos sentidos, do sentido querer. Do querer tão sentido. Do desejo que se bebe na pele, duma sede que nasce por baixo da pele. Nasce e morde-te, acorda-te, emaranha-te numa revolução sem mote. As mãos agitam-se de vida errante, mas de verdade, quando, das verdades certas perderam o sentido do Norte que se esquece de sentir. Mãos que se querem boca e pele e sol. E beijo, um só, que se faz sede e dá de beber. Sobram palavras quando os olhares gritam, soçobram os sentidos quando a pele sente por dentro o que toca por fora, desperdiça-se silêncio quando nele não cabe um beijo dado de corpo inteiro, entregue numa palavra que não precisa ser dita. 
"É tão dificil encontrar pessoas assim bonitas", mas se encontramos é inevitável que o tempo perca o seu papel, que um minuto possa ser uma eternidade inteira, que um beijo tenha corpo e asas e sonhos. Que se poise esse beijo nuns lábios como se a vida fosse um breve instante à espera de voar.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Cura tudo que se pode curar e adoece-nos de vontade de beber a vida num trago 
quando se ri a pessoa certa, com a piada certa.
Ou a piada acerta-se porque a pessoa é certa. Nunca acerto com isto...
Bom Dia

sexta-feira, 21 de outubro de 2016


A luz brinca, entra por todos os recantos, ri-se em sombras. Abraça, agarra o tronco como quem puxa uma cintura, passa as mãos por ramos e galhos como quem passeia levemente por braços e pernas, passa e abana as folhas como se passasse os dedos sedosos pelos cabelos de luz. Faz tudo como se não fizesse nada. Brinca como se não fosse o sol a emaranhar-se nas árvores, brinca como se brinca à vida que não fica por viver. E às vezes fica. Tantas vezes fica.

[escrito no caminho de regresso do Alentejo, descoberto agora nas notas do telefone porque faltava a foto. E hoje apetecia-me Alentejo, estradas sem norte, curvas sem esquinas, dourados que afagam. apetecia-me esquecer-me, deixar de ser-me, ter-me como uma sombra se fecha numa mão. Em vez disso fecho-me num escritório e sonho num dia em que me abra numa seara.]

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Sim, como quando se sabe que é aquela pessoa que queremos. 
Não é porque nos conseguimos imaginar o resto da vida com ela... 
é porque não nos conseguimos imaginar sem ela dia nenhum da nossa vida. Nem queremos.
Era bom poder sentir uma coisa dessas, acreditar, e depois poder ficar com essa pessoa, não só imaginá-la, não apenas sonhá-la, vivê-la -  sabê-la certa. 
Confiar.

terça-feira, 18 de outubro de 2016



Talvez se eu aumentar a minha latitude não dê pela tua longitude. Talvez o medo não seja instinto seja pele que veste a pele para não sentir a alma que guarda nos limites vertiginosos do equador do ser. Talvez não acreditar seja acreditar que é melhor não crer, que querer não basta e que nunca sabemos do querer do outro lado da fronteira. Somos sempre estrangeiros quando saímos de nós, somos sempre refugiados quando o sentir nos expulsa as fronteiras do mapa que nos segura, e nos vemos espalhados por mundos que não governamos, que não são para ser entendidos, mapeados ou pacíficos. Talvez não sabermos a Terra que pisamos nos faça sonhar céus onde as nuvens não são nossas, mas onde a chuva nos refresca a vida e nos lava os dias como nossos. Céus onde o azul nos aquece o olhar e o sol nos tinge a pele sem licença, queimando o medo que o sol despreza. Talvez o medo se amedronte quando o sol abre os braços mas é tudo o que resta quando o abraço anoitece. Talvez se eu diminuir a minha latitude acredite que a tua longitude não se mova do impossível e todas as coordenadas estejam condenadas.

terça-feira, 11 de outubro de 2016


... E ela apanhou o cabelo enfeitou-o com uma flor de sonho, 
sorriu como quem veste a pele de sol e a alma dum dia por nascer.  
Sabendo que o ocaso é um acaso que se pode esquecer, por querer ou só por acaso.
[recebi esta foto e diziam-me para a pôr no cabelo, que ficava giro... Saiu-me isto.]

sexta-feira, 7 de outubro de 2016



A aproveitar os últimos cartuchos. Daqui a nada banho e estrada até à vida de todos os dias. Ainda não pensei no caminho, mas não o quero direito nem directo, quero saborear o tempo, lamber com os olhos as vistas que dão de comer. Quero parar e guardar momentos, quero música o tempo todo, quero vidro aberto e o vento a passar. Quero o sorriso a vestir a alma e quero gargalhadas que dispam tudo. Mesmo sozinha quero tudo inteiro e completo. Quero o azul no longe da linha do horizonte e até lá o dourado que será fogo ao entardecer. Quero arder nesses tons. Quero não pensar e ter tudo pensado. Quero mais que tudo, não querer nada. E tê-lo.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016


(...)
mas já me doem as veias quando te chamo
o coração oxidado enjaulou a vontade de te amar
os dedos largaram profundas ausências sobre o rosto
e os dias são pequenas manchas de cor sem ninguém
(...)

Al Berto

Quando será que a poesia volta à minha vida?
Quando será que a poesia me volta a dar vida?
Quando será que volto a dar vida à poesia?
Quando será que a minha vida volta em poesia?
Ler não é viver, e a poesia vive-se, respira-se, sente-se por dentro do verso, como sinto estes, assim tão rasgados nos dias que apodrecem e me devolvem uma dor que quero espantar, que não quero viver, mas vivo, dentro e fora dos versos. O inverso da poesia ainda é verso e ainda é poesia. Quero outra poesia, outra vida. Passo a vida a ler de tanta coisa que queria viver, ou que ainda não esqueci que vivi, ou que já não espero viver e prefiro esperar esquecer, mas a poesia acorda o que nunca adormece, o verso que a língua prende num beijo que ficou por dar, mas entregue em todos os gestos e em todos os olhares que falaram o que nunca se pronunciou, e que nunca será ouvido. Jamais.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016



...há dias em que é muito difícil. Tudo...
Chatear-me com a miúda, ficar neura, tentar afastar a neura com um café com o N. e uma troca de brincadeiras com um primo maluco, a neura não abandonar o barco, a meio da tarde saber que tiveram de ir para o hospital de urgência porque são teimosos e não ouvem o que se lhes diz, apetecer-me dar palmadas como às crianças, lidar com o pânico e o medo de quem fica do lado de fora do hospital, aguentar as pontas quando não há ponta por onde se pegue, tentar trancar a neura para animar outros, fazer o jantar para todos e desejar só chegar ao sofá, sozinha, ligar a televisão para estupidificar o cérebro e esquecer-me que a minha vida existe e que amanhã começa mais uma semana... E para quê? Sim, para quê? Irra que estou farta disto, de tudo. Desta vida estúpida, da estúpida da minha vida, de mim, de estar amarga e não sei porquê, de me deixar estragar por quem me estragou sem já sequer se lembrar que eu existo, estragada ou não, por não conseguir dar-me a volta quando não há volta a dar, a não ser continuar e fazer de conta que nada foi. Quando já foi tudo o que havia para ser e não sei o que me resta para ser, para eu ser. Evaporei-me e já nem a intensidade me condensa. Preciso de me chover de novo, de começar um ciclo, de renascer, e amanhã começa outra semana e eu continuo sem saber porquê ou para quê. 

[escrito ontem à noite mas não sei porquê não foi publicado]

quinta-feira, 22 de setembro de 2016


... O meu deve estar cravejado de buracos negros, só pode...
Nos últimos anos tem sido um atrás do outro, onde tudo parece desaparecer, ir pelo ralo, sem apelo nem agravo. Sem eu conseguir evitar. Às vezes leio coisas antigas e pergunto-me como tinha sempre coisas para escrever, para dizer, para tentar explicar. O amor apaixonado é uma fonte inesgotável de coisas boas, de poesia por dentro do olhar que se deita sobre o mundo. Tinha sempre vontade de encontrar coisas giras ou que dissessem o que eu sentia, poemas que diziam quase o que eu queria dizer e eu tentava dizer o resto do meu sentir, ou que lendo me despertassem sentires que eu reconhecia. E as brincadeiras, o sentido de humor, a ironia o meu característico sarcasmo... Às vezes pergunto-me para onde foi tudo isso... E parece que descubro mais um buraco negro que engoliu tudo. Isso tudo e a vontade disso tudo. Ainda que eu ache que ainda está tudo cá dentro só que adormeceu. Será que se dormir tempo demais desaparece? Eu gostava tanto dessas coisas, das brincadeiras, dos sentimentos doces, do sentir enorme, da intensidade que pesava mais que tudo fazendo-me ao mesmo tempo sentir a leveza de só ser, só sentir. Ter momentos de quase flutuar. Não quero ficar amarga, sempre o disse, não quero deixar que os últimos largos anos da minha vida me tirem o que gostei de sentir em mim. Mas a verdade é que estou céptica, não acredito nas pessoas e ainda menos em mim, enganei-me demais acreditando nas sensações que tinha, no que sentia sentirem. Já nem acredito que haja a sorte de certas coisas serem recíprocas, de haver dois gostares parecidos que se encontrem, se tropecem na vida, se vejam e não mais se larguem. Acho que isso é coisa que só se sente de um lado, e se tivermos a sorte de o poder sentir e viver. O resto é coisa de filmes e livros escritos por gente que o sentiu e passou para o papel uma realidade a dois, o sonho,  que na vida real foi de um só. 
Leio coisas minhas antigas e surpreendo-me com o que escrevia, de como as coisas me saíam, de como ainda sei exactamente o que é aquele sentir, mas agora subtraído do acreditar, ou da esperança de poder ser vivido, seja com quem for. Também leio coisas de há um ano, ou dois, e percebo que estou diferente, já não luto comigo e com tantos dos meus porquês, falo do passado como passado, como realidade acabada, como aceitação talvez. Ter aceite e aceitar não entender. Li algures uma coisa sobre a sabedoria e fiquei a pensar naquilo, dizia qualquer coisa como a sabedoria era não querer saber o que não se podia saber, eu andei a pensar naquilo e acho que sim, a verdadeira sabedoria é saber distinguir entre o que é possível saber e entender e o que é apenas perda de tempo e murros em pontas de faca. 
Acho que já não consigo ver as coisas como via, e tantas perguntas que eu tinha, tanta coisa que queria perceber, são todas em última análise, e de alguma forma, respondidas agora pela mesma resposta, como uma chave mestra que fecha todas essas portas a respostas abertas, a respostas por explicar: eu não era amada. Isso no fundo dispensa quaisquer outras explicações. Explica tudo. Eu não era amada e ponto final. Já alguém dizia alguma coisa deste género, que também acabava assim - "ou é amor ou não é, e ponto final" -, e eu já não me lembrar exactamente da frase, mas que sei que não era esta, prova que realmente algo em mim está diferente.  Resta saber o que mais se perdeu em mim de mim. Que parte esta história toda me arrancou que eu não consiga recuperar. E se essa não era a minha melhor parte - o melhor de mim, o melhor que eu podia ser, e o que afinal era mais eu. E desapareceu da face da vida. E se desapareceu fico-me a perguntar se essa parte era realmente minha, ou só emprestada.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

[livro: Um rio chamado tempo uma casa chamada terra, Mia Couto]

... Acho que eu também. As ideias gastaram-se por excesso de uso, se calhar. As lembranças, quanto mais se usam, menos se gastam, mais duram.

"Não, ela fala é o nada" - porque ela fala o silêncio, o silêncio também comunica, tem significado, diz coisas: fala. Só nunca se sabe o que entenderam, o que foi entendido ou não entendido. No silêncio cabe tudo, é uma prova por provar, um amor por viver, uma palavra que se nega, ou um facto que nada prova, um amor que nunca existiu, uma palavra que nunca chegou a ser pensada. Pode ser tudo, mas é sempre alguma coisa.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016



"O amor a castigara, a vida não lhe oferecera presentes. 
O amor nos pune de modo tão brando que acreditamos estar a ser acariciados."
"Doença tem começo? Ou sendo como o amor: 
essas coisas que só existem depois de serem lembradas?"
Mia Couto, in um rio chamado tempo, uma casa chamada terra

O amor é tanto pior para nós quanto melhor foi. Quanto mais nos sentimos bem e acariciados pela sorte de amar de certa maneira que sentimos certa, mais sofremos depois o castigo desse amor já não poder ser amado. Ou nunca o ter sido como pensávamos. E sim, só se sabe que já nos habita quando algum sintoma nos surpreende com a certeza de que já fomos infectados. O nascimento é anterior à consciência da sua existência - quando já é tarde demais, quando já nada se pode fazer, ou travar, ou tratar. Desconfio que alguns tipos nem têm cura, nem do tempo, que dizem ser curandeiro de mão cheia, infalível. Mas ainda estou para comprovar...
Doenças incuráveis lembra-me o espanto que disfarcei hoje, por as cores na pele se terem desvanecido, diluído, perdido. É a doença a comer a saúde, o sangue novo. Amanhã faz uma semana que levou sangue novo, duas doses, e está a perde-las a uma velocidade acelerada. O medo instala-se por trás do que se mostra, mas cresce. Não estou preparada para perdê-lo. Não estou. Tenho medo e não tenho nada com que lutar, as minhas mãos estão vazias e a guerra não a posso fazer minha para enfrentá-la eu. Nada está nas minhas mãos. Há coisas demais, importantes demais, que não estão nas minhas mãos, ao alcance das minhas acções ou decisões. Nem agora nem dantes... Pareço uma espectadora, a ver na tela passar a minha própria vida, escrita por alguém com requintes de malvadez e um sentido de ironia bem aprumado.

sábado, 10 de setembro de 2016


Os fins de dia sentem falta de alguma coisa e algumas noites são vazias até de pensamentos. Não de todos, dos que acalentam a alma, e tudo parece deserto. Os minutos como grãos de areia. E o horizonte é ao fundo de um lençol imenso de areia - um mar com ondas petrificadas. E foge, a cada passo que damos ele recua um passo, e a vontade de caminhar a areia vai morrendo lentamente. A vontade, cada vez mais magra, deixa de ter fome e o sol aumenta a sede que morre no sangue que não parece correr. Havia alturas em que o deserto era caminhado com gosto de sal na pele e de mar na boca, o sangue tinha sede de sol e não se cansava de correr para o coração. As noites floriam das recordações que se viam por trás dos olhos fechados e nos acalentavam a solidão pela doce ilusão de verdade bebida no calor dos momentos.
Hoje o coração é este deserto de que vos falo, não sei se é ele que me habita ou eu o habito a ele, tão desabitado, tão árido. Um dia destes acordo toda feita de areia, petrificada por uma qualquer onda que se esqueceu de chegar à costa.
Há noites tão vazias que o vazio vai a meças com o horizonte. E o desiludido cansaço é tanto que o corpo não sente, a alma não sonha e a vida se esquece de acontecer.

terça-feira, 6 de setembro de 2016



"Acordar não é de dentro.
Acordar é ter saída." - João Cabral de Melo Neto
[livro: um rio chamado tempo, uma casa chamada terra, de Mia Couto]

Cheguei ao terceiro capítulo, de que me agrada o título, e fico parada em frente a estas duas linhas - que em vez de me acordarem me fazem sonhar significados que nunca pensei - "Acordar é ter saída", "não é de dentro". Talvez seja verdade, talvez acordar não seja uma coisa de dentro, talvez seja uma coisa provocada, filha dum gatilho qualquer.. Talvez uma saída. Talvez. Mas há o acordar por ser acordado e há o acordar sem chamamento de fora, o abrir os olhos porque o sono se esvaiu.
Mas numa coisa parece haver razão. Quando vemos saída, de repente vemos tudo de forma diferente... Como se acordássemos dum sono dormente, indolente, e quase doente às vezes.
Mas, antes de chegar ao fim do segundo capítulo, tropecei nestas:

 " em África os mortos não morrem nunca. Excepto os que morrem mal. A esses chamamos de 'abortos'. Sim, o mesmo nome que se dá aos desnascidos. Afinal, a morte é outro nascimento."

A morte é outro nascimento - talvez, mas nem sempre -, como a cada não corresponde um sim - mas sempre e em todas as vezes neste caso. É como o seu reverso, já a morte nem sempre tem reverso correspondente. A uma morte não corresponde sempre uma vida ou um (re)nascimento. Infelizmente.
...Depois uma palavra inteira, completa, que não existe e ainda assim me faz sorrir. Há palavras que nos fazem sentir o que dizem, mesmo que não existam. Sensação tão familiar para mim... Palavras que fazem sentir e sorrir, mesmo que em verdade não existam, nunca tenham existido, no que descrevem ou falam...

"Vamos rompendo entre a enchente, espremidos um contra o outro como duas pahamas, essas árvores que se estrangulam, num abraço de raízes e troncos. De encontro ao peito, sinto os seus seios provocantes. Provoquentes, diria meu avô Mariano."

Há certo tipo de provocações, conscientes ou não, que são sempre quentes. E eu gosto dessas. Não gosto das provocações para sentimentos frios, para esfriar o outro, rebaixar o outro, humilhar o outro. E estou farta dessas. Gosto das provocações quentes, mesmo longe, que aquecem, que acendem, que provocam o que de bom se pode ter só de pensar em alguém. Físico ou não, de pele ou de alma. 'Provoquente' é uma palavra inteira, completa de significado, para mim. Só que não existe. Como a palavra "amorar", tão bem inventada, tão nada sentida. Como tanta coisa, como abortos que nunca nasceram, nem sabem morrer. Que não encontram reverso.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

"- Eu volto, Avô. Esta é a nossa casa.
- Quando voltares, a casa já não te reconhecerá - respondeu o Avô.
O velho Mariano sabia: quem parte dum lugar tão pequeno, mesmo que volte, nunca retorna."

Mia Couto, in 'um rio chamado tempo, uma casa chamada terra'


Será que é assim com toda e qualquer pequenez? Quando se volta já não se cabe lá? Nunca mais se retorna, deixamos de reconhecer o lugar que era nosso?
E se for, não duma pequenez que se sai, mas duma grandeza? Será que todos os outros lugares nos vão parecer apertados? Curtos? Pobres? Pequenos para um regresso que não volta?
Onde será que vou caber agora?


"Em silêncio, olho em volta. Cercado pelo sossego da pequena igreja me apetecia, naquele momento, deixar de ser filho, neto, sobrinho. Deixar de ser gente. Suspender o coração como quem pendura um casaco velho."

Mia Couto, in um rio chamado tempo, uma casa chamada terra

Era o que me apetecia também, entrar numa igreja, que ha tantos anos não entro sozinha, só para me ouvir pensar e tentar acreditar no que acredita quem lá vai rezar. Para ficar assim, só filha de Deus, sem me sentir neta, sobrinha, irmã, filha e mãe. Sem sentir raízes que prendem ainda que sejam o que nos alimenta e nos forma o corpo para enfrentar o tempo. Deixar-me só ficar, sem ser o abraço das lágrimas daquela que me pôs no mundo, sem ser os minutos ligeiros de quem traz o cansaço no sangue, sem ser a sombra que acompanha quem comanda o barco contra a tempestade para esconder lágrimas que não controla, sem ser ninguém. Pendurar o coração num prego que alguém pregou à força dum martelo cruel na nossa vida. Talvez deus.

terça-feira, 30 de agosto de 2016


Deixei o Flaubert, ao fim de trinta páginas não me prendeu a alma nem o tempo, abri o Mia Couto e achei que combinava com este sossego que chama a preguiça, com este silêncio que me adoça a solidão. 
Olho o céu para ver se há vestígios de fumo, e vejo que ainda há, mas fumo de fogo que já ardeu, baixo os olhos e reparo na chávena que reza baixinho, quase não a ouvia: 

"curação por curação/ Amor num troques o meu/ Olha que o meu curação sempre foi lial ó teu". 

E ponho-me a pensar na quantidade de erros... Não, não os ortográficos, os de vida, os de coração. Não se pede, nem diz, a ninguém que não nos troque, não por orgulho - embora se deva sempre ter uma medida onde caiba a dignidade - mas apenas porque não vale a pena, o amor não se pede, tal como não se exige. Depois porque ninguém fica com ninguém por lealdade - ou por agradecimento, ou por pena, ou por qualquer sentimento que queiram impingir como altruísta - até porque, geralmente, ou não é reconhecida, ou não é valorizada. E ainda bem neste caso. Ao lado do nosso coração devemos querer outro coração que nos queira, um que queira bater por nós e por estar ao nosso lado.
Do Mia já me pararam duas frases (pelo menos):

"A cicatriz tão longe duma ferida tão dentro: a ausente permanência de quem morreu." - não importa quanto tempo, não importa a distância do dia, do último dia, importa como nos está entranhada, bem dentro, essa ferida permanente duma ausência. De tantas ausências. De tantas e variadas mortes.

"Seu olhar parece mais um modo de escutar." - eu acho que sou assim escuto com os olhos também, como também falo com os olhos. Há conversas inteiras dentro dos meus olhos, dentro de cada olhar diferente que se tem com quem se olha, com quem vemos e ouvimos pelo olhar. O nosso e aquele que escutamos, e que talvez nos escute.
Tenho conversas inteiras no olhar que teimam em desabitar-me, em desabituar-me o olhar daquele vocabulário.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016


... Encontrado por acaso e que me fez muito sentido. Se calhar só se consegue recomeçar mesmo quando não há qualquer esperança de continuar, quando está tudo quebrado, tudo fodido... quando nada resta senão recomeçar - não do zero mas do vazio.

terça-feira, 16 de agosto de 2016


Última noite, última meia garrafa. Quatro noites, duas garrafas, bebidas aos poucos entre pensamentos, cigarras e a lua. Sem horas mas com o meu tempo. Como agora, acabada de jantar quase à meia noite. Não sei o que me reserva o futuro mas estou cada vez melhor sozinha. Se algum dia encontrar alguém terá que ser alguém com quem eu possa estar sozinha ainda que a dois, assim, sem horários sem stresses. Estar como se estivesse sozinha sem estar, alguém que saiba estar sozinho comigo, sem me alterar os ritmos, sem me impor um compasso que me faça ansiar, que me faça exigir de mim comportamentos para eu evitar sentir que ele não está bem. Porque senão não fico bem, não estou solta, à vontade, eu. Que entenda, que goste do tempo sem horas, que saiba estar aqui sentado nos degraus do alpendre a ouvir a brisa a mexer as folhas, as cigarras a cantar o luar brilhante e uma vela a arder que dança à superfície dos corpos. Só isto. E um copo de vinho, ou os que forem, e beijos bebidos à sede do momento, a cada momento, no silêncio que não perturba, antes embala uma paz tranquila. Quase sábia. É tão bom estar à vontade das vontades.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016


Está-se tão maravilhosamente bem aqui... A esta hora, por baixo dos pés descalços a tijoleira ainda está quente. Torna o caminhar confortável e aconchegante depois dum sol abrasador. A rua está sossegada, o cão já está aninhado, as estrelas hoje enrolaram-se no edredon de nuvens, não as vejo ainda que as saiba, como, afinal, em tantas coisas na vida, e eu estou aqui, assim, de vestido fino de verão, já sem cinto, sem nada, descalça, cheia de sonhos no corpo e vontades no coração. O verão tem destas coisas, convida a noite a entrar-nos no corpo, os olhos a beberem estrelas e o sossego da escuridão a embalar-nos o virar dos dias. Hoje, o corpo e a cabeça estão exaustos mas já só pensam na liberdade de tempo e de afazeres daqui a uns dias. Aqui estou sozinha, aqui, hoje, quero e gosto - apetece-me estar sozinha. Daqui a dias vou fazer caminhos para outras paragens onde o ar é diferente, as estrelas se juntam ao redor dum céu imenso, onde se vêem estrelas cadentes e manda a tradição - ou só um amor descosido - se faz um desejo... E eu, agora, cada vez que vejo uma estrela cair sem ninguém a tentar agarrá-la e levá-la no bolso do olhar,  penso que é só um amor que deixaram cair e morrer, enquanto outros apaixonados desejam que nasça o amor eterno naqueles que amam... Uns caem para outros os desejarem. Talvez seja isso a vida, ou então são só as minhas estrelas cadentes particulares. Quem sabe?... A noite se souber não diz, guarda. Como se guarda um amor que se sente sem se ter.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Sopra um vento quente, oiço as folhas secas no passeio a rolarem com a brisa e penso que há coisas em mim que não quero ouvir mais que não quero falar, raivas que me mordem minutos demais, revoltas que me cerram os dentes e ferram o silêncio que lhes quero dar. Não quero pensar em quem não me pensa, não quero sentir por quem nada sente. Quero dar silêncio ao silêncio que me doam e tanto me dói. Quero doar insignificância para quem sou insignificante. E quero fazê-lo como se não o fizesse, como se não me doesse. Levanto a cabeça e tento cheirar o aroma do calor, da brisa que me afaga os minutos aqui sentada. Aqui alapada neste silêncio que é prazer ao contrário do outro. Quero pensar que a noite foi boa, que o passeio foi simpático, que a conversa foi corrida, que quero sentir-me bem. Que quero gostar da vida assim, aqui, neste silêncio que as folhas que dançam lá em baixo me sussurram cá em cima. A vida tem de ser vivida com quem a quer viver connosco.
E daqui, donde parece que vejo a minha vida, há uma sensação de apaziguamento que vem de saber que dei tudo, que ninguém gostou ou gostará mais dele do que eu, e que qualquer um, com quem esbarre na rua, poderá gostar mais de mim do que ele. Que poderá vir a gostar.  Eu não perco amor nenhum por não o ter, apenas deixo de ter onde desperdiçar o meu.

sábado, 6 de agosto de 2016

Despedi-me dele como se não me soubesse despedir, entre um sorriso doce e a sensação que nunca saberei cuidar dele, ou parecer que sei, por muito que o ame e lhe queira o melhor. Por muito que fizesse tudo o que fosse possível fazer por isso. Ele à minha frente, com um calor que nos escorria pelas costas, mais vulnerável que os dias corridos o fazem conhecer, mas que eu reconheço no olhar solitário, tão apegado ao amor por quem gosta e de quem sempre cuida. Não se sente confortável na vulnerabilidade que esconde num olhar meigo. E eu apetecia-me abraçá-lo, mas não aprendi a abraçar o abraço que precisei  naquela altura, alguém tão grande, tão acima, tão pai sendo irmão. Tenho medo por ele, mas sei, sinto, que os meus braços são de bebé para o ajudar, para o proteger, para que a sua força os possa salvar de alguma coisa. Mas estendo neles, em qualquer abraço que lhe dou, todo o amor puro que conheço. E tenho.
Fiquei à espera que o comboio partisse, tinha-me dito que fosse embora, estava muito calor, mas queria-me lá, queria saber-me lá. E eu soube disso quando tentava descobri-lo dentro duma das carruagens com o comboio já em movimento e de repente vejo alguém a acenar-me um adeus alegre, eu não tinha ido embora, estava à espera de lhe entregar o meu. Entreguei, levou-o, há-de trazê-lo de volta.

terça-feira, 19 de julho de 2016


Não te chamo para te conhecer
Eu quero abrir os braços e sentir-te
Como a vela de um barco sente o vento

Não te chamo para te conhecer
Conheço tudo à força de não ser

Peço-te que venhas e me dês
Um pouco de ti mesmo onde eu habite

Sophia de Mello Breyner Andresen


[tens algum sítio em ti onde eu habite?
Onde tenha lugar?
Onde seja o meu sítio de ti?
Tens?
Sabes se tens?
E visita-lo? Vê-lo?
Asfixia-lo na sombra dos dias
ou guardá-lo na gaveta da vida por respirar?
Ou das memórias por sentir?
Tu não me habitas
Como as paredes, o tecto
o chão e o telhado, não habitam casas
Não tenho um sítio que habites em mim,
o meu lugar és tu,
onde estiver, tu és.
Onde eu for, tu estás.
Há um olhar teu
Em cada pensamento meu.
O mundo são só janelas.]

(Saiu-me agora, quando me cruzei com este poema...há que tempos não escrevia assim...)

terça-feira, 5 de julho de 2016

Último cigarro do dia. Duas luzes na mesa outras tantas na rua. Não está feio e apetece-me deixar-me ficar, nunca me apetece acabar o dia, não porque tenha sido bom, mas porque começar outro não é ideia que me anime... E aqui estou bem, enrolada no cadeirão redondo a ouvir vozes ao fundo. Falam espanhol e riem. Rir não tem língua, é linguagem universal. Como outras que não se servem de palavras mas que dizem mais que muitas palavras eloquentes juntas. Dantes acreditava muito nessa linguagem que não se falando se exprime, que se sente mesmo que não se entenda. Escrevo isto e penso que volto sempre à essência, à ideia de essência. O que é essencial percebe-se mesmo que não se entenda, sente-se mesmo que não se fale. É um perceber que se sente sem razão. As palavras só são precisas para as razões com que procuramos entender. E desentendemo-nos muitas vezes com o que procuramos entender, muitas vezes num entendido desentendimento a que procuramos fugir. A essência apenas é, é-nos independente de tudo, selvagem não domesticável à razão.
E eu já não sei da essência dos dias, da vida, mas ainda sinto a minha. Sinto-a desbotada, apagada, mas não mudou, não entendo como, mas sinto-o. 
A essência não muda e não tem rótulos, os rótulos precisam de palavras. Não são universais, são língua, mas nem sempre linguagem. Quase nunca a minha.
E no entanto aqui estou eu, a escrever na minha língua a minha linguagem. Não é universal, nem todos entenderiam, alguns apenas se ririam. Talvez com razão. 

segunda-feira, 4 de julho de 2016



Encontrei esta conta com frases lindas. Fiquei a ver não sei quanto tempo, guardei umas tantas... Mas esta, esta eu gostava que fosse possível, que fosse possível alguém ler e poder achar que eu podia ter alguma coisa destas, e sentir principalmente a última. Acho que é o amor que faz isso, não especialmente a última, há muitas coisas por que as pessoas podem nunca ser esquecidas, mas todas as outras é o amor que faz, que desenha, que brinca com a realidade às vezes... ver isto em alguém depende de ver com amor, fechar os olhos e ver assim a pessoa que gostamos. Só a vemos assim porque gostamos, porque é o amor a ver, não os olhos, não a cabeça, mas o amor que lhe temos e o que nos faz sentir. Cada uma destas frases eu senti tantas vezes a pensar naquela criatura, a maneira como falava com as pessoas, aquele sorriso malandro com que toda a gente simpatiza, que muda o ambiente, o contexto, muda tudo, a mim derretia-me, e o riso... o que eu adorava ouvi-lo rir, curava-me de qualquer coisa, qualquer mal virava sorriso, e eu virava-me do avesso se preciso fosse para o fazer rir, principalmente se não estivesse para aí virado, com o sorriso trancado nalgum recanto escuro de si mesmo, nalgum recanto frio da vida. O sítio onde tinha de chegar para o arrancar. E sim, quando entrou na minha vida, quando me apertou o pescoço e me roubou um beijo que eu entreguei colado à alma, mudou tudo. Tudo. E é disso que tenho medo, que aquela última frase seja eterna. Muito medo. Porque não há nada a fazer. Não há nada que eu possa fazer, senão deixar os dias ganhar pó, amarelecerem, ir tentando matá-los aos poucos na medida que eu conseguir... Mas acredito que há pessoas que nos ficam dentro, coladas aos ossos. Mesmo que com a vontade de as fazer desaparecer as reduzamos a pedaços, como memórias partidas, essas agarram-se aos ossos e não largam, passam a fazer parte, deixamos de conseguir separar o osso da vida que viveu e que o partiu para sempre. Há fracturas que ficarão sempre, mesmo que o esqueleto continue a mexer, a viver, a ser. Já não é o que era antes e já não será o que poderia ter sido, coberto com uma camada protectora de vida, de sorrisos, de amor. Foi-se tudo ficou o esqueleto de ossos partidos.

quarta-feira, 29 de junho de 2016


Eu não era feia. Há quatro anos eu não era assim tão feia. Estive a rever as fotos de Paris. Acho que não estava tão infeliz, acho que ainda tinha esperança em qualquer coisa, acho que ainda acreditava no amor, mesmo que me lembre que estive tão triste enquanto lá estive, lembro-me das mensagens que ainda troquei em Lisboa antes de ir, lembro-me do esforço de afastar a tristeza lá, de em cada sítio pensar se um dia poderia estar ali com ele, ou em qualquer lugar, assim, a passear. Agora olho-me ao espelho e sinto-me mesmo feia, vejo-me feia, e não são só os quatro anos mais velha, é o estar infeliz, sem luz, sem qualquer esperança na vida ou no que me irá trazer. Lembro-me que o meu tio me deu dinheiro para levar, para gastar lá, que não o gastei, paguei a viagem e guardei o resto, comi sandes e gostei. Hoje não tenho o meu tio, não o oiço, não o pico, não me põe as vezes os nervos em franja. Não tenho o meu irmão que me dava abraços de aniversário como nunca mais ninguém me vai dar e ainda hoje me lembrei disso por um amigo dele fazer anos. A vida em quatro anos levou-me muita coisa, não trouxe nada que eu queira realmente. Já não tenho luz, nem os olhos brilham, nem a alma resplandece o que tinha dentro. Porque tinha coisas boas lá dentro, inocentes e doces. Estou terrivelmente feia, sinto-me vazia, sem graça, sem nada. Sinto-me pior que sozinha sinto-me sem sentido e sem sentidos, parece que não sinto nada que me faça sentir viva. Que me faça sentir valer a pena. Se calhar fui eu que morri. E há quatro anos não era tão feia assim, ainda tinha vida. Tinha vida no olhar, nas veias, na alma, no andar. Agora sinto que não tenho nada. Que olham para mim e vêem só que sou feia, apagada, sem alma. Como é que eu era antes disto tudo? Quem é que eu era antes de me nascer o amor e de mo ferirem de agonia de todas as maneiras? Para onde foi esse ser? Morreu em agonia? Como, se nada no seu lugar nasceu, foram só mortes, grandes e pequenas mortes numa agonia constante, numa angústia contínua... Mas se cada fim é um começo, onde estão os meus começos depois de tantos fins? Onde? Onde estou eu que me vejo mais em fotografias com quatro anos do que ao espelho? Onde morreu o tempo que me secou as veias, a alma, o coração? Se me morreu o tempo, num fim sem recomeço, porque estou aqui? Para quê?

segunda-feira, 27 de junho de 2016


Ando meia nua pela casa, já não me lembro de andar nua, desta sensação de estar nua na cama. Hoje calhou, voltei para casa, despi-me e voltei a enfiar-me na cama, meia nua. Gosto da sensação mas faz-me lembrar que me falta um corpo aqui ao lado... Fiz gazeta, agora estou aqui na sala de corpo arejado, no sofá a pensar que não me apetece coisa nenhuma, que o corpo a ser meu não me lembro dele e que a pele desaprende muita coisa, mas o coração não esquece de nada que já albergou. Apenas se cansa, desiste, desilude-se mas continua a bater a vontade de encontrar algum outro que queira bater consigo com vontade, em vez de só lhe bater... Ainda que não acredite nisso - nem em nada -, continua todos os dias a acordar a levar o sangue de um lado para o outro, basicamente a fazer piscinas, a dar voltas no mesmo lugar, sem nunca chegar a lado nenhum. Como eu, tal e qual.

segunda-feira, 20 de junho de 2016



Em memória dos fins de semana que hei-de ter, de ronha despida de tempo, na doçura dos beijos que se fazem a cada instante, a cada olhar, a cada toque, em vez de se darem com pontos finais.

"we can disconnect the telephone, just sit around and mess around and tell your mom we went to Rome..."

Era mesmo isto, dizer ao mundo que não estou, que não estamos. Eu e quem ainda não conheço ou conheço e não sei... Preciso dum fim de semana destes... continuo a adorar Lloyd Cole... é uma sonoridade muito eu...

 "yes, I love you more undressed..."

Gosto muito mais de tudo despido, nu, sem subterfúgios, e este despido não é necessariamente de roupa, mas às vezes também é.

Bom dia!!!!

quinta-feira, 2 de junho de 2016

[foto @picame]

Bom Dia!!!
(isto lembra-me que ainda não tomei café... 
...os dias de sol pedem menos café que o cinzento frio dos dias... 
já a bolachinha cai sempre bem ;))  )

terça-feira, 31 de maio de 2016

           Mario Benedetti

(acontece a muita gente, parece-me...)


Há dias em que me passa tanta coisa pela cabeça que os dedos não conseguiriam acompanhar mesmo que a preguiça não me tolhesse os movimentos. Hoje foi um desses dias. Que me lembre não falei com ninguém excepto o senhor J. do café e a senhora da loja. Nem com a minha filha consegui falar, ninguém me atendeu... Falei comigo demais e tenho o problema das respostas, não me sei responder, ou então, tenho respostas a mais para conseguir saber onde se esconde a verdade. Acabei de ver um filme que deu à tarde e houve cenas que me levaram a outras cenas de outras vidas, que fazem parte da minha vida interior, essa que não se cala, ainda que morta. 
Agora estou aqui na varanda a fazer companhia a uma vela que acendi, começa a chover neste preciso momento, mudo-me para o degrau da varanda e levo a vela, protejo-a da chuva que a apagaria. Não se acende uma vela para deixar a chuva apagá-la. E isto, isto de repente faz-me nascer um sorriso pela ironia de algumas metáforas. Há quem acenda velas mas não queira a companhia da luz dançante, a razão que levou a que fossem acesas. 
Tapemos a luz. Tapá-la não a apaga, so vemos um pouco pior, tudo se torna mais escuro, mas aquece-nos a mão. 
Qual é a tua luz? A luz da tua vida?... Haverá uma luz acesa para ti? Por ti? É o problema das respostas, sempre o problema das respostas... Não se vê luz ao fundo desse túnel.

Estas linhas, mal descosidas de pensamentos dispersos, nem a preguiça deixou escapar, só porque aparecersm quando estava com as letras à mão. O sorriso deixei-o no bolso coladinho à ironia da vida que me lixa todos os dias, mas com classe. Já que me lixam, que o façam com classe. Faz toda a diferença.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

... tipo um metro e oitenta estava de bom tamanho, 
também não peço mais...
... mas a coisa não está fácil, não...
ihihihihi

Bom Dia!!

sábado, 28 de maio de 2016

quinta-feira, 26 de maio de 2016


O último cigarro do maço diz-me que tenho de tomar banho e sair de casa. Que o dia está cinzento lá fora, mas não está mais colorido aqui dentro depois de me pôr a arrumar passados, enrolá-los e deixá-los à espera da transferência para o arrumo. Fosse tudo tão fácil na vida, mesmo que trabalhoso. Realmente a G tinha razão, não fazia sentido aquela foto como a sombra de um farol extinto sobre o meu sono. Enquanto tirava agrafo a agrafo para guardar para o futuro o que ficou do passado, pensava que passados temos muitos, temos tantos quantos olhares lançamos sobre o que já foi, o que já fomos, o que já tivemos e vivemos. Às vezes o mesmo passado são muitos passados. Há dias que nos deixam cheios de dores, outros de sorrisos ternos, outros de raivas surdas ou das que fazem gritar. Tantos passados, às vezes, para um mesmo momento vivido. Vivido uma vez - só se vive cada coisa uma vez, mas revive-se, de cada uma dessas coisas, passados inúmeros, diversos, é até contrários. Como o futuro, há tantos futuros como cada disposição com que acordamos para cada minuto, cada hora, cada dia, cada estação do ano ou da alma. Só o presente é único, mas cada passado que recordo, cada futuro que anseio ou temo, são tão reais como estar agora, aqui, a preguiçar no sofá, ainda de pijama, a adiar um banho e o pôr o pé fora de casa. Tudo é real, mesmo quando nos mentimos, mesmo quando nos mentem, mas só o momento é único.
Talvez por o presente ser único, ainda que seja apenas uma sucessão de momentos, se sinta como indecifrável. É a tentativa de o decifrar, de lhe conhecer as razões e os porquês, que nos dá tantos passados quanto futuros. 

quarta-feira, 25 de maio de 2016

E é o que se me oferece dizer nesta véspera de feriado 
mesmo antes de sair do escritório rumo a casa, 
onde jantarei com um prato na mesa ... e talvez vários a voar.... who knows...

segunda-feira, 16 de maio de 2016


As vezes penso que há pessoas que não podem ficar juntas porque seria injusto para o resto do mundo. Juntas talvez vivessem uma felicidade que, de tão rara e plena, seria um atentado à normalidade do mundo - um desequilíbrio. Tem alturas que penso que é um privilégio experimentar essa estirpe de felicidade, que poucos a terão experimentado, poucos terão atingido tais graus de loucura e entrega de alma aberta. Acho até que seria injusto para ele, eu seria com toda a certeza mais feliz, aliás, sei-o. Duvido que ele alguma vez tenha experimentado esta felicidade que falo, que senti. Ou melhor, não, não duvido, sei que pelo menos comigo nunca o experimentou, nunca o sentiu como eu, nunca abriu a alma para que o pudesse sentir, nunca se atirou do precipício sem asas de voo testadas. Nunca sentiu comigo a felicidade que experimentei, nem a infelicidade que me deu tantas vezes de beber. Não tenho, nunca tive, sobre ele o poder dessa felicidade nem dessa infelicidade, dois pratos do mesmo amor, duas intensidades finamente calibradas entre si - justamente equilibradas. Tivesse ele sentido o que eu sinto e estaríamos juntos, não haveria como não estarmos. Escolher não estarmos seria uma sanidade impossível no meio de tanta loucura. E o mundo não seria justo para todos os que não fazem ideia do que é entregar-se ao voo livre sem asas, sem rede, sem nada, senão a felicidade de sentir uma mão na sua, senti-la a mão certa e bastante, o equilíbrio no vento que a vida sopra. Acreditar no voo e não na queda.  Não, não seria justo.
Justo é vê-lo de braço dado com outra mulher e saber que não é, nem nunca será, meu; é pensar nisto tudo enquanto arranjo uma varanda que nunca será jardim. Talvez seja justo pensar assim, talvez me seja mais fácil aceitar esta justiça do que a injustiça que me sentencia à infelicidade, quando a minha felicidade anda de mão dada a outra mão. Talvez o equilíbrio das injustiças resulte mais justo do que o desequilíbrio da justiça. Aceito as coisas justas, contrario as injustiças. Mas a minha varanda nunca será jardim. Ainda que a sinta o meu jardim.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

[foto @lalovenenoso]

Tenho a pele trancada ao toque mas permeável ao negro do mundo.
Talvez as paredes da minha pele sejam demasiado finas para que o mundo de fora não me invada. Talvez a separação entre o de fora é o de dentro seja esbatida, ou tenha sido já demasiado batida. Talvez todos os contextos que me rodeiam me estejam a enegrecer por dentro, a corromper a alma. Demasiados lutos para fazer, demasiadas dores para apaziguar.
Há dias melhores, em que a cabeça obedece ao ritmo do dia, em que procuro forças onde não sei que as tenho, mas ainda que fingidas vão aparecendo e fazendo o seu trabalho - fazer-me escapar dos pensamentos que fazem sentir.  Raros dias a luz entra-me fugidia pelas janelas da alma e esses são dias bons, onde uma paisagem me enternece, onde uma música me entra directa no sorriso, onde uma brincadeira, uma palavra, me aquece a alma pelo caminho da ternura que esconde, onde um sorriso simpático me faz ter fé nas pessoas. Raros, são raros, mas no meio de tudo isto aparecem para me lembrar que a vida já fez sentido, que eu já tive esperança nas pessoas e na vida, que já acreditei que era capaz de muita coisa, que podia viver duma forma que não me definhasse a alma. Agora vou tentando remendar a alma, fechá-la, trancá-la, endurecer as paredes da pele para me defender do mundo tão feio como o vejo, como o sinto. Tento que não me adoeça o corpo em sintonia com a alma, mas as paredes da minha pele são demasiado finas.Vejo pessoas feias, pessoas más, pessoas manipuladoras e indiferentes, ainda que felizes, com as vidas que procuram e querem. Recompensadas por tudo o que não deviam ter feito.
Onde está o mundo bonito, as pessoas com alma, as mãos com gestos atrapalhados de amor? Onde estão para os beber, para os deixar entrar e ficar, afastando as dores que estão a fazer ninho em mim? E o pior, o pior é saber que o pior está para vir e saber que não sou capaz de nada, que tudo me vai sendo tirado aos poucos, dando mais vazio ao vazio que sinto, que não sei combater. Talvez não saiba lutar por nada, só aceitar e fechar-me no abraço dos meus próprios braços, na minha própria pele. Uma pele demasiado fina. Escrevo para purgar os pensamentos, e um pouco de dor, mágoa, incompreensões que já não procuro entender, que aceito apenas como a face negra da humanidade. Aceito tudo com a resignação da falta de forças, de não ter nada por que lutar que possa vencer. Escrevo para a seguir tentar dormir e não voltar a sonhar tudo de que fujo durante o dia: as frustrações, os medos, as impotências face à vida que me acorda todos os dias sem dela conseguir despertar. 
Morreu-me dentro quem me despertava a alma, quem a fazia sentir acompanhada, grande, viva, agora a caminhada é enterrá-lo, continuar a enterrá-lo, juntamente com todas as outras mortes que me doem, que vivem em mim.

terça-feira, 10 de maio de 2016


[foto @gabrielerigon]

  Às vezes acordo com vontade de achar alguma piada à vida, algum sentido, alguma coisa. Normalmente não encontro, é cada vez mais raro o dia em que algo em mim brilha, reluz duma vida qualquer que um dia eu me convenci, e senti, que tinha. Devia estar louca. Não tenho nada, não é meu, senão não me faltava quando mais preciso, acho que roubei essa vida no fundo do brilho do olhar de alguém. Falta-me isso, falta-me tudo, como se me apagassem a luz, como se já não houvesse caminho, como se o ar fosse apenas um remédio para me manter viva sem cura.

segunda-feira, 9 de maio de 2016


Entra no meu carro depois de me pedir boleia. Pediou-me boleia ainda estava eu de costas para ela a entrar para o carro, virei-me e conheceu-me... diz oh ainda por cima és tu, agora tens mesmo de me dar boleia! Não a via há anos a não ser ao longe assinalando os encontros pr acenos e pouico mais, vou sabendo de algumas coisas e pela manutenção do sentido de humor pelo facebook. Senta-se e fecha a porta, sempre leve e animada como a conheci, com uns olhos verdes vivos e um sorriso alegre quase permanente na expressão. Tem agora, à volta dos olhos, desenhadas as teias do tempo que se vai embrulhando na vida, mas que não lhe embargam a voz sempre enovelada de animação, de vida - a animação que admiro e gosto por em mim a ter em falta. Acomoda-se, puxa o cinto, e diz-me:

- Pahhh estou deprimida sabes o piropo que me atiraram hoje?
- Nope... diz lá.
- A "senhora" está óptima.... "a senhora"??... "a senhora" pahh?? a sério??? "está óptima"?? mas kéistooo???... senti-me atingida na minha auto-estima por um insulto!!.... estou velha, é o que é!!
- Olha para a próxima o melhor é sair no Porto... lá somos todas meninas... mas, olha, sabes a mim o que me disseram?? ... estava um gajo meio a melgar-me, mas sem chatear na verdade, e vem um amigo dele e pergunta "ele está a insistir um bocado, mas realmente é porque és um escândalo..." ahahahha
- Um escândalo?? Olha, estás a ver? Ficaste melhor servida do que "a senhora" aqui...
- Escândalo?.. a sério? mas desde quando a escandaleira é uma coisa boa, é que eu não fui avisada!?... eu que adoro que não dêem por mim, que levo a discrição quase ao ponto da transparência.. escandâlo??... não é piropo que se apresente, acho que o pessoal anda com medo de exagerar nos piropos, não vá a gente mandá-los prender ou assim... ehehhehe

E rimo-nos pronto, já o sol tinha descolado do horizonte e a viagem até porta de casa dela fez-se entre galhofa, perguntar da vida uma da outra, descobrir que estamos as duas separadas, que fomos as duas quem quis a separação, as duas com prole e todos os problemas associados, e conversa sem dizer nada de jeito... o que bem vistas coisas, é uma coisa muito boa. Fui bem disposta para casa e com vontade de mais encontros destes às seis da manhã...

quarta-feira, 27 de abril de 2016

... há certos dias em que realmente só com muita paciência... 
o problema é que é coisa em que sou parca (mesmo muito, digamos), 
e ao fim de repetir pela quinta vez a mesma coisa, transforma-se a pouca paciência em muita raiva acompanhada de vontades assassinas... 
se continuam a esticar a corda ainda mato alguém à dentada ou fulmino-os com um olhar... como alguém dizia se o "olhar matasse só tinha olhos para ti"...eu aqui até conseguia dividir o olhar por várias criaturas...
Irra, que raio de gente mais estúpida e dia mais enervante!!

terça-feira, 26 de abril de 2016


De luas, desatino e aguaceiro
Todas as noites que não foram tuas.
Amigos e meninos de ternura

Intocado meu rosto-pensamento
Intocado meu corpo e tão mais triste
Sempre à procura do teu corpo exacto.

Livra-me de ti. Que eu reconstrua
Meus pequenos amores. A ciência
De me deixar amar
Sem amargura. E que me dêem

Enorme incoerência
De desamar, amando. E te lembrando
- Fazedor de desgosto -
Que eu te esqueça.

Hilda Hilst

"E te lembrando (...) que eu te esqueça", que te esgote de mim, da memória, da alma, de cada poro onde te reténs. Onde me tens e me respiras. Que um qualquer amor, que não se compare ao desamor que quero por ti - que de tanto o desejar é amor ainda e tanto: só sente desamor quem ama ainda...-, me desfoque os sentidos de ti, que me desafogue a alma do teu mar, do teu ondular que me embala os dias quando distraio os olhos no horizonte da uma qualquer parede que nunca chego a ver, do som das ondas que me fazess sentir ressoar  no âmago do ser que um corpo pode ser, desaguando sempre nos teus olhos cheios de alma que me parece minha, que não me banhes como o luar conquista o oceano inteiro só para lhe lembrar que só o reflecte, sem lua é só escuridão líquida. Que eu te esqueça não me lembrando que te esqueci - essa incoerência de desamar ser só uma forma de amar enraivecida pela solidão. O desamor é  amor só. Que provavelmente só não pode ser chamado de amor. 
Que eu seja amada sem a amargura de não ser amada por ti.
Que eu seja amada sem o desatino de não te querer amar.

terça-feira, 19 de abril de 2016


- o que é q gostas mais em mim?
- dessa tua cabeça doida...e tu em mim?
- gosto de como somos juntos. Não consigo ser assim sem ti. E assim, contigo, não me custa ser. Sem ti custa-me muito ser. Não sei explicar, como se a existência me pesasse. A minha e a dos outros...
...gosto do teu sentido de humor, das tuas parvoeiras, da tua malandrice, da tua ternura, de como me tocas, de como me olhas as vezes, de como te ris. Gosto de ti, pronto. Da maneira como te mexes, como me mexes. Das tuas inseguranças dos teus medos do que te faz frágil e da vontade de dar colo e força... Não sei explicar...
- eu só sou assim porque é tudo o tenho de ti, só consigo ser assim contigo. Só contigo me sinto assim.
- então por que é não gostas de mim pah?? 
Eheheh
(Conversas parvas e tontas)

segunda-feira, 18 de abril de 2016


Pai Nosso, Clara Ferreira Alves

Voltei a ler. Voltei a ler sem querer. Em casa do meu irmão, há dias, enquanto se entretiam com jogos no computador, eu abri um livro que lhe tinham dado e ele não tinha começado a ler... Abri, folheei e comecei a ler as primeiras linhas da primeira página. Tinha curiosidade de como escreveria ela, é o primeiro romance que escreve, e eu já tinha lido que lançara o seu primeiro livro. Fiquei curiosa porque não simpatizo particularmente com a pessoa quando a oiço. Surpreendi-me, continuei a ler enquanto a miúda se perdia no jogo na companhia do tio que adora, li umas trinta páginas seguidas, prendeu-me a escrita e a história. Tive de o pedir emprestado e ando a devorá-lo nos intervalos do tempo, que ou teima em não passar ou passa sem aviso. Finalmente tenho cabeça para mergulhar num livro que me roube a cabeça dos ombros. Uma das partes que me fez parar foi esta, sobre o ciúme, sobre a fidelidade. Como se não se pudesse aferir a fidelidade sem se amar, como se não se amando não pode ser infidelidade. Como se o único compromisso fosse o amor. A essência, nada mais. Tudo o resto é como se "não contasse", mesmo que conte nao se define por infiel quem não cumpre um compromisso que não sente, não na essência... E o ciúme só se sente quando se ama. Em essência.  Só quando se ama se teme perder o que nos torna melhores, o que pinta o mundo de cores que se respiram alegrando-nos a alma, um mundo que de repente nos alberga, nos integra porque temos um mundo próprio com alguém de quem fazemos parte e faz parte de nós, deixamos de nos sentir despernados do mundo, sentimos pertença. O medo de perder isso tudo, farejar, ainda que de longe, esse risco arranha-nos a existência de ciúme.
Há outra passagem sobre o ciúme - o sentir pela primeira vez ciúme -, a insegurança, o medo de não chegarmos para quem admiramos e queremos perto e a querer-nos também, não menos que colados sempre que podemos. 
Voltei a ler e isso faz-me suportar os dias melhor. E mais eu. Como se me regressasse no perder-me em pensamentos nas entrelinhas de linhas que não são minhas. Como agora.

segunda-feira, 11 de abril de 2016


Está um frio do caraças, choveu e trovejou há pouco. Fumo um cigarro e falo às gotas de chuva que passeiem no vidro sem que me respondam, e sem que lhes diga nada, na verdade. É uma conversa surda sem conteúdo decifrável, como afinal a minha vida. Talvez por isso também aí não haja resposta. Olho o céu e oiço carros ao longe, penso que na verdade estou aqui bem, ainda que fugida. Dou por mim a pensar se agora quereria aqui alguém além de mim e parece-me que não. Hoje dei por mim a pensar que acabarei assim: sozinha, que tudo na minha vida é complicado e difícil mas bom. Como a relação com a minha filha, e foi por aí que comecei a concluir isto. Acabarei só com ela mas de uma forma que provavelmente não seria possível sem estar sozinha. E olhando para a frente não me imagino com ninguém, só numa vida com ela, numa relação complicada de certeza, difícil muitas vezes, mas que sentirei boa. Onde espero conseguir passar os princípios, os valores, as pedras fundamentais do eu e da vida. E a vida nao tem de ser difícil, mas ninguém nos garante que será fácil, e não devemos trocar uma pela outra se tivermos de abdicar de nós, por isso devemos estar preparados para a dificuldade, para a escolha, para reconhecer o certo e o errado. E talvez seja isso que me faz sentir as coisas como boas, fazem-me sentir eu e bem com isso, apesar de todos as falhas e defeitos que me aponto. Como todas as coisas de que realmente gosto ou gostei, não me lembro de nenhuma fácil na minha vida, mas todas acho boas, valorizo-as, acarinho-as, sou-lhes fiel à imagem tal como as vejo e sinto. Talvez tenha crescido assim, no meio de coisas meio caóticas, difíceis, mas em que vejo uma essência boa, que me sinto eu. Pensei toda a minha vida que ter um irmão como tive não foi fácil, nada me foi leve ou facilitado, mas no meio de tudo estava uma essência boa, de princípios, de amor, de lealdade, de a todo o momento saber distinguir o certo do errado. Essa era a ordem do caos. E não o certo ou errado para os outros, mas do que nos aproxima dos outros, do afecto, do carinho, do cuidado. Do amor afinal. E não imagino a minha vida doutra forma, com outra ordem, menos caótica, mais fácil, mais simples, mas menos certa para mim, menos sentida.

terça-feira, 5 de abril de 2016

...pois não.
Quero uma vida diferente.
Queria ser diferente, ainda que não queira deixar de ser eu...
...por muito impossível que isso pareça, ou mesmo seja.
...mas finalmente quero levantar-me, estou cansada de me arrastar, de sofrer, de me magoar, de deixar que me magoem, de duvidar-me mais que aos outros e valorizar-me menos.
Hoje estou assim, se é tempo de muita ou pouca dura não sei, mas sei que desde ontem à noite que estou cansada de estar cansada. De me repetir, de não sair do sítio onde só se dão voltas sem se rumar a uma qualquer direcção, a uma qualquer espécie de vida.
[foto @moniblanco]

Há muito tempo que não vinha apanhar este frio nocturno da varanda. Hoje apeteceu-me, às vezes não sei porque regresso a alguns antigos hábitos, revisito-os propositadamente, talvez para ver se encontro algo de mim no sítio onde me deixei. Sei que agora nem olho os carros que passam, ou se olho não é para procurar ninguém, é apenas para ver movimento doutras vidas. Aqui só restei eu e memórias desarquivadas.
Depois, estou aqui sentada e lembro-me de me dizer que me adorava e não precisava de mais nada para ser feliz senão os gestos simples de amor que gostaria de poder entregar-lhe. Como se o amor se falasse por gestos e nos entendêssemos assim perfeitamente. Em amor. Num amor que não existe, os seus gestos calaram-se, emudeceram e cegam-me todos os dias de vazio. E eu aqui, neste vazio sentada, com eles a gritaram-me por dentro, a berrarem-me à alma. Como se eu os pudesse ouvir.

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Eu sou realmente uma desgraça... Levanto-me, tarde claro, vou à cozinha arranjar um pequeno almoço grande, que serve de almoço, tomo um café na cozinha e resolvo passar pela sala só para fumar um cigarro... Até as oito da noite... Realmente se a preguiça pagasse imposto eu tinha de trabalhar todos os dias, até nos feriados, para conseguir pagar tanta preguiça... Vi dois filmes. O segundo, português, gostei muito. Dei por mim a meio do filme a pensar que falo sempre na poesia da vida, e esqueço-me que devemos é tentar uma vida em poesia, com todos os pequenos gestos não a serem poemas, que paramos para ler e apreciar, mas apenas os sinais, as provas, de se viver em poesia, em sorriso de alma em paz doce. O filme nem uma vez fala de poesia, eu é que tenho uma noção estranha de poesia, como que um modo de olhar o mundo à sentir, como que uma maneira de chorar sorrindo as vezes, outras, sorrindo uma dor que nos rasga. Do filme apenas tiro que há pessoas que esperam sempre o melhor dos outros, talvez seja isso o que chamo vida em poesia, olham para as pessoas e vêem, e acreditam no melhor que elas têm. A poesia transforma tudo, já dizia Amélia Prado, numa das poucas frases que me ficam e nao esqueço, e que aqui pus nao há muito tempo, por falarem tanto o que penso, que se lhe tirassem a poesia, uma pedra era apenas uma pedra. Com poesia uma pedra pode ser um coração quente por despertar, pode ser um arrependimento que arrastamos, uma culpa que nos aparece em cada cruzamento da vida, podemos até ser nós à espera que alguém veja em nós um coração, poesia talvez. Gostei até do título "os gatos não têm vertigens", gostei e fiquei no fim com aquela sensação que a minha vida não vale nada mas podia valer, que não valho nada, mas poderia valer para alguém com poesia no olhar. Alguém que tivesse tempo de me olhar e de me ver até o que não tenho, mas principalmente alguma coisa boa que possa ter, que possa fazer alguém sorrir com a alma e abraçar-me com a vida inteira.