... O meu deve estar cravejado de buracos negros, só pode...
Nos últimos anos tem sido um atrás do outro, onde tudo parece desaparecer, ir pelo ralo, sem apelo nem agravo. Sem eu conseguir evitar. Às vezes leio coisas antigas e pergunto-me como tinha sempre coisas para escrever, para dizer, para tentar explicar. O amor apaixonado é uma fonte inesgotável de coisas boas, de poesia por dentro do olhar que se deita sobre o mundo. Tinha sempre vontade de encontrar coisas giras ou que dissessem o que eu sentia, poemas que diziam quase o que eu queria dizer e eu tentava dizer o resto do meu sentir, ou que lendo me despertassem sentires que eu reconhecia. E as brincadeiras, o sentido de humor, a ironia o meu característico sarcasmo... Às vezes pergunto-me para onde foi tudo isso... E parece que descubro mais um buraco negro que engoliu tudo. Isso tudo e a vontade disso tudo. Ainda que eu ache que ainda está tudo cá dentro só que adormeceu. Será que se dormir tempo demais desaparece? Eu gostava tanto dessas coisas, das brincadeiras, dos sentimentos doces, do sentir enorme, da intensidade que pesava mais que tudo fazendo-me ao mesmo tempo sentir a leveza de só ser, só sentir. Ter momentos de quase flutuar. Não quero ficar amarga, sempre o disse, não quero deixar que os últimos largos anos da minha vida me tirem o que gostei de sentir em mim. Mas a verdade é que estou céptica, não acredito nas pessoas e ainda menos em mim, enganei-me demais acreditando nas sensações que tinha, no que sentia sentirem. Já nem acredito que haja a sorte de certas coisas serem recíprocas, de haver dois gostares parecidos que se encontrem, se tropecem na vida, se vejam e não mais se larguem. Acho que isso é coisa que só se sente de um lado, e se tivermos a sorte de o poder sentir e viver. O resto é coisa de filmes e livros escritos por gente que o sentiu e passou para o papel uma realidade a dois, o sonho, que na vida real foi de um só.
Leio coisas minhas antigas e surpreendo-me com o que escrevia, de como as coisas me saíam, de como ainda sei exactamente o que é aquele sentir, mas agora subtraído do acreditar, ou da esperança de poder ser vivido, seja com quem for. Também leio coisas de há um ano, ou dois, e percebo que estou diferente, já não luto comigo e com tantos dos meus porquês, falo do passado como passado, como realidade acabada, como aceitação talvez. Ter aceite e aceitar não entender. Li algures uma coisa sobre a sabedoria e fiquei a pensar naquilo, dizia qualquer coisa como a sabedoria era não querer saber o que não se podia saber, eu andei a pensar naquilo e acho que sim, a verdadeira sabedoria é saber distinguir entre o que é possível saber e entender e o que é apenas perda de tempo e murros em pontas de faca.
Acho que já não consigo ver as coisas como via, e tantas perguntas que eu tinha, tanta coisa que queria perceber, são todas em última análise, e de alguma forma, respondidas agora pela mesma resposta, como uma chave mestra que fecha todas essas portas a respostas abertas, a respostas por explicar: eu não era amada. Isso no fundo dispensa quaisquer outras explicações. Explica tudo. Eu não era amada e ponto final. Já alguém dizia alguma coisa deste género, que também acabava assim - "ou é amor ou não é, e ponto final" -, e eu já não me lembrar exactamente da frase, mas que sei que não era esta, prova que realmente algo em mim está diferente. Resta saber o que mais se perdeu em mim de mim. Que parte esta história toda me arrancou que eu não consiga recuperar. E se essa não era a minha melhor parte - o melhor de mim, o melhor que eu podia ser, e o que afinal era mais eu. E desapareceu da face da vida. E se desapareceu fico-me a perguntar se essa parte era realmente minha, ou só emprestada.