sexta-feira, 31 de julho de 2020

Apetece-me frequentemente, começar, arrancar, sem saber logo para onde, 
a que destino vamos parar... a vida também é assim, afinal.
 Gosto de conduzir, e de poder parar onde apeteça. Mas isso na vida já n é assim... e tenho pena.  

quarta-feira, 29 de julho de 2020

[ foto @erichmcvey]

A boca, muda, repete “amo-te”, palavra tão estranha. Palavra imensa que o silêncio maior come. Palavra tão rara. Tão rara na minha boca, avara de palavras vãs. Talvez tenha sido a falta de hábito de metade da garrafa de Douro, talvez seja o percurso de carro sozinha, depois, debaixo dum céu que acolhe palavras assim. Talvez seja só a estupidez que não me larga. E repete-se. Amo-te. Assim, com o soro da verdade já esbatido nas veias e o amanhã fora de qualquer relógio... e a noite, a noite perfeita pendurada no céu. E eu que a queria pendurada num beijo, nesta boca que repete palavras que não diz. Que já leu em loucura, e que escreve, mas é muda porque nada muda. E nada está igual, só esta palavra muda se repete. Às vezes. Quando a verdade me apanha. A fugir, de raspão por meia garrafa e um céu que me parece perfeito, mas apanha. 

terça-feira, 28 de julho de 2020


Há muito que não começava o dia assim.  Aliás há muito que não tomava um café sozinha fora de casa. E agora percebo que me dá ia falta, que me sabe bem. Que tinha saudades.  Gosto deste tempo sozinha, sempre gostei, desde que me lembro. O que alguns estranhavam para mim era natural, e até  necessário às vezes. Mas fico aqui a pensar, a olhar para este pacote de açúcar que não vou abrir, que me vale um doce este bocadinho. E vale. Mas se daqui a uns meses, como estou à espera que aconteça, venha a ter tempo demais para todos os cafés que queira, para demasiado tempo para pensar, para tudo, já não vai ser doce assim. A intensidade com que se vive as coisas de que se gosta deve ser inversamente proporcional ao tempo que podemos ter para as viver. E isto talvez explique muita coisa. Mas não dá grande consolo. Agora vou consolar-me com este café, depois passeata a seis patas, que daqui a poucas horas já não vou ter tempo para pensar os cafés nem para passear as patas...

segunda-feira, 27 de julho de 2020

Por muitas barreiras, por muitos muros que se ergam, 
não há um que chegue ao céu.
 Não há um que tape toda a luz.
Não há.
Olha, olha, é outra semana que desponta, 
sem grande ponta  que se lhe pegue é certo,
 mas chegou e está a começar, não há nada a fazer... 
ou melhor há, muito, demais até - é fazer e reclamar só de cara alegre e orelhas compridas.
 É comer palha mais uma semana e fazermo-nos de burros. Burros exaustos, no meu caso que é o que me sinto. Só que os burros são mais espertos, só fazem o que querem.
 E eu esta semana não me apetecia palha... nem sequer para palitar os dentes e assobiar para o lado...

domingo, 26 de julho de 2020

A minha varanda faz-me tanta falta nesta altura... e não sei quando a terei de volta para banhos de sol e anoiteceres... pior ainda é não andar a  aproveitar a privacidade “comme il faut “ da varanda engaiolada... e pronto, resta-me a janelinha que sobra para apanhar sol no trombil e ar fresco enquanto se satisfazem os vícios maus e se adoçam os dias.

sábado, 25 de julho de 2020

[foto @ erichmcvey]
“Escuta, Amor
(...)
Por isto e por mais do que isto, tu estás aí e eu, aqui, também estou aí. Existimos no mesmo sítio sem esforço. Aquilo que somos mistura-se. Os nossos corpos só podem ser vistos pelos nossos olhos. Os outros olham para os nossos corpos com a mesma falta de verdade com que os espelhos nos reflectem. Tu és aquilo que sei sobre a ternura. Tu és tudo aquilo que sei. Mesmo quando não estavas lá, mesmo quando eu não estava lá, aprendíamos o suficiente para o instante em que nos encontrámos.
(...)
Questiono os gestos mais simples, escrever este texto, tentar dizer aquilo que foge às palavras e que, no entanto, precisa delas para existir com a forma de palavras. Mas eu questiono, pergunto-me, será que são necessárias as palavras? Eu sei que entendes o que não sei dizer. Repito: eu sei que entendes o que não sei dizer. Essa certeza é feita de vento. Eu e tu somos esse vento. Não apenas um pedaço do vento dentro do vento, somos o vento todo.”

José Luís Peixoto

Acontece, como ontem à noite quando me cruzei com este texto, lermos coisas que são ecos de coisas que já soubemos, por estas ou outras palavras, sem palavras. Mas são ecos, coisas que retornam, que estavam esquecidas, ou que adormecemos à força da vontade. Ou simplesmente que estavam a fazer uma qualquer viagem, a dar-nos uma volta maior, até nos chegar, de novo, dentro. Talvez venham com o vento, ou sejam o vento que não sabemos donde vem para nos escancarar as janelas.

sexta-feira, 24 de julho de 2020


Mandem-me, assim, para confinamento.
 Prometo que o limite será a varanda, ou o alpendre. 
Mandem-me pelo menos quinze dias, 
se for com companhia à escolha, nunca menos que um mês... 
e não me deixem sair de casa, a sério que não me queixo. 
Até posso pedir mais confinamento deste, assim...
[mas para já, para já, vou voltar para o escritório, pois... bahhhhh raios para isto]

quinta-feira, 23 de julho de 2020


Quando a minha mãe ainda se lembrava que eu escrevinhava umas coisas, perguntava-me de vez em quando e em jeito de barómetro, se andava a escrever muito ou pouco. É certo que se andamos mais para dentro, mais connosco, procuramos o tempo resguardado do mundo para coser os pensamentos em palavras, para os aquietar, e para os desembrulhar até. Para nos ouvirmos. Os momentos alegres não deixam tempo para os pensar, são vividos na sede de os beber até ao tutano, urgência que não os deixa poisar no silêncio, não traz palavras como âncoras. E os pensamentos não são mais que gestos nascidos na leveza e no riso. No sorriso também, naquele que se prolonga no tempo, engolindo-o. Será que as palavras, aquelas realmente sentidas e que fazem sentir, são a companhia da melancolia, duma certa tristeza calada que se grita escrevendo? Por que é que escrever é quase uma tentativa de tornar os pensamentos mais leves que o tempo, de os largar no vento, de largarmos lastro para seguir viagem? E por que é que são as que me sabem melhor ler? Não me parece justo.

quarta-feira, 22 de julho de 2020



“A poesia é oferecida a cada pessoa só uma vez e o efeito da negação é irreversível. 
O amor é oferecido raramente 
e aquele que o nega algumas vezes depois não o encontra mais.”

Sophia de Mello Breyner Andresen 

Se já o negaste uma vez, acautela-te. Se o repetiste tenta a poesia, não fujas e não falhes.
Ou terás falhado tudo, em tudo.

sábado, 18 de julho de 2020

Aiiii Apetece-me tantooo...
...um crepe... 
com muito gelado para me lambuzar e derreter ;)))
São desejos, pois. Deve ser do calor... :)

quarta-feira, 15 de julho de 2020

O cerco aperta-se, asfixia,
o vórtice suga-nos e, de repente, 
a vertigem é já abismo. Afogam-nos águas 
que não aprendemos a navegar. 
O oxigénio asfixia 
como queima e, ao mesmo tempo, alimenta este cigarro.

[Olhar para o lado não impede a queda. E isto eu já sabia.
Só não quer ver, quem já viu.]

terça-feira, 14 de julho de 2020



Trocaram-me as voltas, ou as horas, 
hoje, para mim fiquei com a manhã. Então fomos vê-la a seis patas por aí, 
por aqui, o nosso passeio costumeiro, de que não me canso.
Ela corre atrás de tudo o que mexe, o que foge. Procura e cheira tudo, volta aqui, corre de novo. 
Vem ver se aqui contínuo e segue, confiante que da próxima aqui me encontrará. E tem razão, também me faz sempre uma festa quando a encontro, ao chegar a casa, todos os dias.
Eu deito-me na pedra, olho para cima e procuro o que não mexe, 
o que fica, o que está. O que estará. 
Mas tudo muda. E não tenho o que esperar.
E talvez isso seja uma coisa boa.


sábado, 11 de julho de 2020

Um fogo molhado... 
que coisa boa
Fica tão bem no horizonte do olhar
que entretém o cigarro que se fuma devagar...
como o sol se aninha no colo da noite,
com a lassidão dum desejo que se come lentamente.
Hoje deixaram-nos as cortinas abertas. O que não me ajuda a fechar a imaginação, ou a ouvir o que a voz ao fundo vai dizendo... e penso que não sei por que ontem o sono demorou tanto a derrubar-me e a partir das seis da matina, voltou a não querer nada comigo... não sei se foi a maratona de filmes que vi ontem, desde o final da tarde até pouco depois da meia noite, ou tudo o resto que se passa na minha vida. A trilogia (before sunrise, before sunset e before midnight) mexeu comigo, e mexeu um bocado. O segundo, tem uma conversa, entre a saída do barco e a chegada a casa dela, em Paris, que acho que podiam ser palavras saídas da minha boca. No terceiro uma personagem diz uma coisa que me fez ir procurar as únicas duas fotografias que me lembraram de pormenores que a memória já tinha enevoado. No fim achei que não as devia ter visto, enevoado é meio esquecido, e então estava já a meio caminho de bom porto... Enfim não sei que foi, ou se foi tudo, sei que se não fosse o frio que sinto aqui já devia estar a dormir em cima da mesa....

sexta-feira, 10 de julho de 2020


"ela fez tudo o que poderia ter feito 

e se calhar fez tudo errado: 

amar não foi o suficiente."


Ando com estas palavras na algibeira desde que, há dias, as li escritas pela mão sublime da menina-musica-de-luz [já não é só do violino :) ]. Porque li-as e pareceu-me claro, mas ainda assim, como uma memória em que se cai sem tropeçar, voltava-me à cabeça o paradoxo: amar só não é suficiente quando se ama demais.
E eu nunca acreditei nisso: não se ama demais, ama-se com tudo o que se tem, não pode ser de outra maneira - ou não devia - e essa desmedida é a medida certa. Só se ouve que se ama demais quando há de menos da outra parte. Mas também não acredito nisto, não há de menos, ou se ama ou não se ama. E ponto final.
Amar pelos dois nunca é suficiente. É um erro, ainda que sem escolha. Primeiro para quem é amado, porque nunca chega, a outra pessoa nunca é suficiente; depois, para quem ama, porque ser amado é uma parte grande de amar e continuar a amar. Porque um amor inteiro é um amor dividido pelos dois.
É tudo um erro. É um erro amar sem retorno, como é exigir retorno, exigir o que seja do outro que ele não dê por vontade, e com vontade. É um erro. Amar tem de ser sem medida, sem troca, sem deve e haver - dos dois lados. Para não ser um engano de que não se retorna.
É sempre um erro amar demais. Amar pelos dois nunca é suficiente.
Amar só não é suficiente quando se ama pelos dois.

quarta-feira, 8 de julho de 2020



Por muitas pontes que faça
Por muitas pontes que atravesse
Por muitas que queime
Todos os rios que passem
Que tenham passado
Que hão-de passar
Estarei sempre nesta margem
a que cheguei,
e na que deixei,
sem ter partido

Por muitas pontes que queime
Por muita água que passe
Serei sempre esta margem
E a outra

terça-feira, 7 de julho de 2020


Ando para cima e para baixo, não paro, ou tento, 
mas os sítios em mim continuam no mesmo lugar.

segunda-feira, 6 de julho de 2020

Fui feliz muitas vezes com a perfeita noção disso, e da fragilidade disso, sabendo que estamos sempre à beira do abismo. Não me fez menos feliz ter essa lucidez, fez-me ter vontade de a agarrar melhor. De a aproveitar até onde não coubesse mais um alfinete de felicidade, aquelas sensações raras de plenitude. Nós sabemos quando as temos, há qualquer coisa cá dentro que se inunda de luz, e se expande e nos torna leves e tão bem no mundo, seja ele qual for. A nostalgia conjuga-nos estes momentos, este tempo, no passado, o que pode ser uma felicidade triste, ou uma tristeza feliz... acho que depende do que se recorda e o que se quer desse passado, repeti-lo ou guardá-lo, e se podemos ou conseguimos fazê-lo. 
Gosto da palavra nostalgia. Há palavras de que se gosta, não sei bem a razão, acho que é a conjugação da sonoridade, do significado e da estética da palavra. Nostalgia é uma palavra elegante, alta e ainda assim suave. Há mais quem tenha palavras da sua eleição? Ou só eu é que tenho estas maluquices de ver as palavras quase como personagens? A saudade, por exemplo, é muito mais rechonchuda e anafadita, mas tem um ar menos sério e solene que a nostalgia? A saudade tem por vezes um riso gaiato no olhar. Gaiato, também gosto, é uma palavra meio despenteada. E ladina, o meu pai usa essa palavra algumas vezes, e eu gosto, acho-a atrevida, viva e ao mesmo tempo com um interior tranquilo, uma paz meio inquieta de vivacidade... é estranha esta coisa de se verem as palavras. Ou melhor é uma maluquice. Mas há maluquices engraçadas e inofensivas, vamos pensar que esta é uma delas ;)

[trecho dum mail enviado e que agora reli, deixo aqui esta parte, por causa duma palavra: ladina, uma palavra que tem o cheiro do meu pai, raízes nele, que associo sempre a ele. uma palavra que gosto,  e guardo, também por isso. e hoje, porque o abismo me cerca e eu sei, fui pescar estas linhas onde falei nisso. onde ele também está sem saber.]

domingo, 5 de julho de 2020

[fotografia @riva_g_ ]

Há dias assim: com o mundo ao contrário, mas sentido de humor :) como ontem, quando me cruzei com alguém que me fez pensar se também correm a dar a mãozinha e afins quando se cruzam  com a criatura... e de quem será agora a iniciativa, se de quem, após umas one night stands, nada que se confunda com uma ligação forte ou apaixonada, rápida e facilmente levou o real chuto no traseiro, mas quer fazer parecer que não, que afinal está tão bem, que o nada foi mesmo só isso: nada; ou se de quem achava natural, depois de certas coisas, querer-se mostrar que apesar de tudo a posse é de quem está, fazendo da derrota vitória não se sabe sobre quê, ou quem. E quem está, está de mãozinha dada, muito bem com tudo... e esta fotografia, agora, fez-me lembrar o cruzar-me com essa pessoa e o que me suscitou, despertou da hibernação. O destino é realmente irónico e com um sentido de humor fantástico.
Sim, muitas vezes parece que anda tudo de pernas para o ar. Mas nada como pôr um chapéu para disfarçar aos olhares de relance. :) Quem olhar mais atentamente acaba com um sorriso, quase inconsciente, nos lábios. E então está tudo bem. 

sábado, 4 de julho de 2020


O rio corre a poucos metros quase o oiço passar. 
Como é que a vida pode passar tão perto e não se alcançar? 
Como é que tanto do que trago dentro não é meu, e não me larga?
Como é que hoje me levantei tão cedo para me trancar aqui dentro o dia todo, a aprender o que já sei, com o rio, quente sob o olhar atento do sol, a passar tão perto... tão perto que quase o oiço passar, melhor que oiço o professor enquanto aqui escrevo o que oiço.

quinta-feira, 2 de julho de 2020

[foto @kknvlz]

Tenho a casa feita em pantanas, estou cansada de obras e mais obras. Agora, para cúmulo, tiraram-me a parte da casa, que nesta altura do ano, eu mais gosto, e que aproveito tanto, mesmo com o frio a gelar-me o nariz à noite... a varanda: a minha companhia de final de dia ultimamente, o meu sol na pele enquanto leio, até quando tenho de trabalhar em casa, planto-me ao ar livre de portátil e banho o olhar das cores de fim tarde, que é o que melhor veste as paredes desta casa, com requintes de melancolia doce. Quase como as sombras nas paredes brancas, quando, na sala, o luar inunda a noite, e se brinca com a aparência das formas, ou as formas do silêncio nos aconchegam sem faltarem palavras... Agora... agora tenho as coisas da varanda na sala, e palas nas vistas da varanda. Andaimes de vestido roto que não sobem ao céu, só ao telhado, e trancam o meu fim de dia caseiro num baú sem chave. Ontem, com os esqueletos ainda nus, e com umas escadas pouco acima do meu nariz, pensei que dava uma foto engraçada. Sem a lua ainda no céu, enquanto fumava um cigarro na varanda - teimosa em deixar os hábitos, claro - olhei e pensei na legenda, mais que na foto: “quando a lua estiver a jeito, chego lá”, e ri-me para dentro. Estivesse a lua ao cimo das escadas, com o parapeito da noite ao alcance do pé, e talvez tivesse tirado a dita foto... mas não estava. E hoje, os andaimes, já não desnudos como vieram ao mundo, não me deixarão ir à lua. Mesmo que hoje ela estivesse a jeito... é a vida. E aquela coisa do esperar as melhores alturas... 

[e esta foto é sublime, talvez seja uma piscina - certamente será - mas quando a vi pela primeira vez, pensei que uma casa inundada pode ter rara beleza se a apanharmos “a jeito”:)) ]

domingo, 28 de junho de 2020

[imagem @diego_cusano]


Há que manter a cabeça fria, talvez seja verdade,
tudo o que deve chegar, chega a seu tempo... 
não que seja muito adepta - porque não sou, não sou nada mesmo, chamam-me pessimista por isso, e estão sempre a repetir-me que energia positiva atrai energia positiva... coisa que não sei em que física aprenderam, mas sou eu que sou esquisita, já sei... - dessas cómodas ideias de que tudo no fim correrá bem, mas... hoje, por exemplo, parece que o verão finalmente chegou...
Só não se sabe se para ficar, mas isso também nunca se sabe, quem chega para ficar. 
Normalmente vai ficando, o tempo vai-se derretendo nos dias, o resto depois vê-se.
Se for doce é de manter, senão é manter a cabeça fria... e o coração quente. 
(alguém me dizia no outro dia que o segredo era manter a cama quente, mas ainda sou uma romântica, parece... ainda que pessimista aos olhos dos outros, o que poderá até estar correlacionado, penso agora...)

Bom dia!

sábado, 27 de junho de 2020

Arrancar da pele a vida, e deixá-la debaixo das unhas
a esgravatar os dias da vida que há-de acontecer... 
... e a escrever, ainda e às vezes, para saber que ainda tenho unhas, 
para sentir que não morri.

quinta-feira, 25 de junho de 2020



Estranha esta sensação do nunca estar cada vez mais perto, mais presente, mais adentro, que me pára os pés já a caminho. Tão pouco ainda para trás, e tanto que falta para chegar ao nunca, para o ser. Ainda que já cá esteja, já seja. Como o infinito num espelho fechado no próprio reflexo infinitamente, até nunca mais, sempre. 
O nunca como sentença perene e consciente sempre me assustou. Como uma amputação, uma mudança irrevogável e irrecuperável, que pesa toda a (nossa) eternidade num vazio que tem tudo... que esperamos venha a ter tudo.

segunda-feira, 22 de junho de 2020

... estou esquisita pelo avesso. Não sei porquê... e não encontro outra forma de tentar explicar a coisa senão dizer, como há pouco escrevi a alguém, que parece que estou com bichos carpinteiros na alma...
... sabem aquela sensação que algo nos ferve por dentro e não sabemos porquê, ou de quê? É como estou, como se estivesse prestes a fazer um grande disparate, trepar esta loucura que me sobe por dentro das mãos, dos olhos, da boca, de cada fio de cabelo. E o pior é que nem sei fazendo o quê, ou como... é só uma inquietação sem nome, sem causa, mas cheia de vontade de qualquer coisa que ainda não descobri, que ainda não se descobriu a si mesma... sim, é verdade, já fui mais certa das ideias. É verdade, mas é o que temos agora... alguém sabe como tratar da saúde aos bichos carpinteiros na alma?

domingo, 21 de junho de 2020

...right!!!
...then left...
E pronto quem tem de acartar a lenha sozinha  sou eu... que foi o que estive a fazer nas últimas 3 horas da minha vida. Coisa feminina e sexy hein??? Acartar lenha duma divisão para a outra em nome das malditas obras que parece que nunca têm fim... e agora tomar um banho e a seguir pôr um vestido de verão, leve e quase esvoaçante ou qualquer coisa assim :)),  e passear as minhas meninas... temos de equilibrar a coisa... right?

sábado, 20 de junho de 2020

[foto @nihan.tezer]

Há qualquer coisa de ternurento na beleza dum campo de papoilas. Sempre tive uma coisa por papoilas, já aqui escrevi (ou então foi noutro sítio, já não sei). Lembra-me a infância em que ainda tinha o meu avô, e que no canteiro do prédio da casa dele, agora minha, havia muitas papoilas. À desgarrada, sem pedido ou licença, como todas as melhores coisas. E eu gostava, e fiquei sempre a gostar. Talvez por isso imagens de campos pintados de papoilas me dêem alguma sensação de tranquilidade, de paz doce. Daquilo que hoje, quando me levantei, me apeteceu vestir a alma, demasiado nua há tempo demais. Demasiado muda há luas demais. Será que a alma, se não a usarmos para o que realmente serve, também caduca? Estraga-se? Desaprende? Esquece? Olvido para a alma também pode ser bom, às vezes o melhor... Ontem à noite dei por mim a pensar - até por tudo que temos passado nos últimos meses - que a privação cura-nos de muitas vontades. E que a privação, desde sempre, de amor, cura toda a vontade de amar, por desconhecimento, por medo, por tão longe estar da zona de (des)conforto em que crescemos e a vida ensinou alguns a viver.  A grande fatalidade é tropeçar nele, e depois fugir-lhe e a toda a vontade, mas tê-la, como uma segunda pele, uma de que temos consciência tempo demais, porque grita no silêncio do ruído dos dias. Ou como uma memória afundada no tempo que às vezes acorda connosco, acorda-nos, com uma sensação tão presente como um desejo de anos que o tempo não levou, não apagou. Não estragou, guardou incólume. Como a sensação que tenho quando vejo imagens de papoilas, tão frágeis, tão selvagens, tão vivas, tão fortes, tão ternurentas... e tão minhas, da minha infância e do meu avô, perdidos que estão os dois e ainda tão dentro. Talvez a privação nos cure da vontade, nos ensine o que não podemos ter, mas não cura a dor de ter tido.

quarta-feira, 17 de junho de 2020

Oh yeah....
A melhor terapia para todos os tempos e disposições 
Melhor se for ao fim da tarde, com a luz dourada a dançar-nos nos olhos,
a aquecer as deambulações da alma.

domingo, 14 de junho de 2020

Ontem saio do trabalho, para que fui sem vontade diga-se, à pressa para comer qualquer coisa e seguir para o dentista, donde a miúda saiu com a boca a parecer uma trincheira de guerra, mas muito feliz com isso - quando eu pus aparelho não fiquei nada feliz, mas os tempos parece que são outros, e ela é muito diferente de mim... o que sendo uma coisa (muito, e eu sei) boa não há dia que não me faça maldizer o facto. Hoje dormi até mais tarde, coisa boa, mas sem ronha; levantei-me e levei a cadela ao veterinário... andava esquisita, e eu estava a ficar preocupada. Ao que parece está grávida, outra vez, mas desta só na cabeça dela - graças a Deus porque eu não seria capaz de passar outra vez por aquilo tudo, e ela é que teve dez filhos, mas eu é que dei biberon a todos, vezes sem conta, muitas de madrugada, lavei a cozinha dez vezes ao dia, e eu (nós, que não o fiz sozinha) é que enterrei seis deles, e não quero voltar a passar por nada parecido, fiquei exausta em todos os aspectos... então, agora, está com uma gravidez psicológica, e anda triste e ansiosa e esquisita, mas felizmente será só isso, e passa. No caminho pede e tem mais mimo, o que é não é mau. Voltei para casa, peguei no livro, tentei ler, larguei o livro, apanhei sol na varanda,  queimei neuronios na televisão ainda à luz do dia, coisa que já não me lembro de fazer... e nisto tudo, muitas vezes durante o dia dei por mim a perguntar-me que raio ando eu aqui a fazer? Às vezes parece que os dias passam como quem queima fósforos, assim, uns atrás dos outros, sem acender o cigarro que se traz nos dedos, ficando só a olhar para os restos mortais, inertes e queimados do anterior enquanto se risca o próximo. Há dias em que lucidamente vejo o abismo a abeirar-se de mim, quase a envolver-me... e olho para o lado - não paro, só olho para o lado. Alguma coisa terei aprendido com certas criaturas...acho que se o ignorar ele não me vê. E todos sabemos que o perigo não é vermos o abismo, é ele olhar de volta para nós, porque vê-nos. E isso é uma chatice. Sempre que alguém, ou alguma coisa, nos vê realmente, é uma chatice. Nada de bom costuma vir daí. Pelo menos que eu saiba, que eu conheça. E várias vezes durante o dia me perguntei: o que raio andas tu aqui a fazer? E eu, que dizem ter resposta pronta para quase tudo, não sei responder. Não sei. Mas agora, aqui sentada no cadeirão da varanda, abraçada a uma manta amarrotada de tempos e memórias, que me aquece e me lembra do frio, rodeada deste silêncio nocturno, acho que não preciso de saber o que raio ando aqui a fazer, desde que ao menos goste de alguma coisa, alguma coisa faça sentido. Como este cigarro entre os dedos que queima o silêncio da noite que me embala em palavras mudas. E isso faz sentido em mim, pelo menos agora, já.  Mesmo que não tenha sentido nenhum, e a pergunta continue sem resposta.

quarta-feira, 10 de junho de 2020

[Murasaki Shikibu, in O Romance do Genji]

Gostei deste.
Falavam em poemas entre si, em recados que mandavam, cifrados e com referências a elementos naturais. Gosto da ideia das mensagens ocultas, das palavras disfarçadas, das coisas que só o destinatário perceberia. A estrutura era rígida (waka, ou tanka, poemas de 31 sílabas, origem dos haiku, parece) e o remetente era avaliado pela qualidade do poema, tanto na elaboração das alusões como na sensibilidade de expressão. E eram frescos, muito frescos, tinham um grande tráfego na correspondência e imensos destinatários. Assim eram os tempos.... eram?
Um romance de referência, muito recomendado ao que parece (a minha ignorância desconhecia-o), vou a meio e ainda não me encantou. Pelo que li acerca, o melhor, o intrincado nível psicológico do romance virá na parte final. A ver vamos.

terça-feira, 9 de junho de 2020

... há dias em que apetece isto 
em vez de dizer, a certas pessoas, “bom dia”...

domingo, 7 de junho de 2020

[Pablo Neruda]

Há noites em que não faz sentido apagar o dia sem lhe sentirmos a luz. Nestas noites percebo, relembro, por que quase todos os meus livros de cabeceira, que se amontoam ao meu lado debaixo do candeeiro, são de poesia. Há noites em que o dia falta mais, e é talvez nessas que me procuro entre as resmas de folhas poisadas, fechadas, cheias por dentro. Folheio ao acaso, ou persigo marcas antigas, que outras noites deixaram. E é tão bom... gostar do que se encontra... encontrar o que não se espera e  gostar, ou recordar o que se gostou, porque se volta a gostar, outra vez. Como um passado que é agora, porque ainda somos nós. Para as noites vindouras de fome insaciável de qualquer coisa inominável, esta ficará marcada. Como as cinzas, que silenciosamente vão caindo, no trilho para novas maçãs. Marcam o caminho, mostram-nos quem somos... e o que tanto de nós dirá, como o que nos falta?


sexta-feira, 5 de junho de 2020


Nosso amor é impuro 
como impura é a luz e a água
e tudo quanto nasce
e vive além do tempo.

Minhas pernas são água,
as tuas são luz
e dão a volta ao universo
quando se enlaçam
até se tornarem deserto e escuro.
E eu sofro de te abraçar
depois de te abraçar para não sofrer.

E toco-te
para deixares de ter corpo
e o meu corpo nasce
quando se extingue no teu.

E respiro em ti
para me sufocar
e espreito em tua claridade
para me cegar,
meu Sol vertido em Lua,
minha noite alvorecida.

Tu me bebes
e eu me converto na tua sede.
Meus lábios mordem,
meus dentes beijam, 

minha pele te veste
e ficas ainda mais despida.

Pudesse eu ser tu
E em tua saudade ser a minha própria espera.

Mas eu deito-me em teu leito
Quando apenas queria dormir em ti.

E sonho-te
Quando ansiava ser um sonho teu.

E levito, voo de semente,
para em mim mesmo te plantar
menos que flor: simples perfume,
lembrança de pétala sem chão onde tombar.

Teus olhos inundando os meus
e a minha vida, já sem leito,
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há depois do mar.

Mia Couto, in "idades cidades divindades"

[leio e releio e está tudo dito, ficando tanto por dizer. Tudo. Há coisas que por mais que se digam nunca ficam ditas. Tal como amar, quando o amor é impuro assim, de tão real. Come todas as margens, não conhece caminhos traçados, solve-se em todos os mares como um só, que é tudo. E nada.]

quarta-feira, 3 de junho de 2020

Ahahahah...
...sim senhor, isto é que é uma resposta cheia de estilo!!...
[e que pode ser usada nestes tempos em que tantas conversas começam por aquelas frases costumeiras “há tanto tempo que não te vejo...” vou experimentar...]
:)))))

Bom dia!!

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Há dias em que tentas. Há dias em que pensas que o tempo já lavou da alma as marcas e a memória da pele, em que pensas que já esbateu aquela sensação tão viva do comodamente íntimo, para depois descobrirés que cortante é a sensação do intimamente incómodo que sentes a rasgar os momentos.  Essa sensação que a superfície disfarça, mas a alma reconhece num contorcer-se que nos muda a posição do corpo, sem mudar a situação. E quanto mais se procura disfarçar, ou contrariar, ou insistir a cada esforço de naturalidade, só nos sublinha a existência de tudo o que falta - e então parece faltar ainda mais... o que pensávamos que o tempo tinha esmaecido. E então percebe-se que as cópias, boas ou más, são sempre uma lembrança, uma veneração até, do original. Há dias em que mais valia não tentares. Se calhar todos. Curiosamente, já o sabias.


terça-feira, 26 de maio de 2020

Mais um passeio, hoje com a russa da casa, a terrível pequenota, 
mas não em tamanho.,.
 Já descemos, já subimos e agora sentamo-nos um tico na frescura da sombra, 
antes da derradeira subida até casa, ela de língua de fora e eu quase...
 Devíamos fazer isto todos os dias, eu só devia trabalhar meio-tempo, sempre, 
para sobrar tempo inteiro, assim.


[imagem @_baccc]

Peregrina do amor sem caminhos
Percorro a tua pele
Sedenta de luz
Subo ao cimo de ti
A cada crepúsculo
Entontecida de devoção
Faço do teu corpo templo
Cada beijo um milagre
Cada gemido uma oração
Cada êxtase o céu
E no latejar de um suspiro
Peço guarida no teu peito
Sinto-te a vida pulsar 
Comigo dentro
Sinto-me dentro de ti
Contigo dentro


segunda-feira, 25 de maio de 2020

Hoje por exemplo, a esta hora, já houve dois candidatos ao título...
... que mereceram, mas não, não disse, bom... só em pensamento. 
Ainda que, com o que efectivamente disse, suponho que eles desenvolveram a excepcional capacidade de ler pensamentos... com alguma clareza, diria eu.... o que, convenhamos, dá sempre jeito. A mim, pelo menos, deu. :))))

domingo, 24 de maio de 2020

Bom dia!!
Vamos cuscar o dia lá fora?? Abrir os olhos e aproveitar o Domingo... amanhã começa o carrossel dos malucos (onde acontece eu trabalhar) ... mais uma moedinha, mais uma voltinha... mas enquanto não, não deixemos o Domingo passar por um canudo ;))
[foto @markeastmenphotography]

“Estou mudo porque todas as palavras te escutam.”
Vasco Gato

... e assim, dizes tudo.

sábado, 23 de maio de 2020

[Emanuel Jorge Botelho]

Longe, dás-me bom dia, lembras-me a pele que acorda... o que tantas vezes não fazes com as mãos, fazes com palavras. Às vezes uma mensagem basta. De bom dia, do que for, desde que nosso, e o dia só poderia ser bom.
Bem sei que é tarde, e que poderiam dizer que já não é hora para bom dia, mas nunca vens tarde à minha pele, porque o que se sente não conhece relógios e tantas vezes não sabe o que é isso do tempo, porque não parece mudar. E o tempo, quando existe, é mudança.

quinta-feira, 21 de maio de 2020

...acautelem-se!!! 
:DDDD
Não há nada como uma paixão para nos injectar de vida, 
bem sei, e sou a primeira a concordar, 
 ... mas... 
cuidado com as máscaras (de todos os tipos, aliás)... 
...ou livrarem-se do vírus não será a vossa maior preocupação  ;)))




Gosto. Muito.
Lembro-me de muitas vezes fazer o caminho de manhã e esta fazer parte da banda sonora. Cantei-a muitas vezes sozinha a olhar a paisagem que ia fugindo pelo caminho. 
Sinto-a como paradoxo, 
como tanta coisa que nos fica, por isso mesmo, mas gosto.
 A sonoridade doce embala, se não atentarmos ao resto.
 Mas não deixa de ser bonito, de dar prazer ouvir.

Damage the dream
The magic is broken

quarta-feira, 20 de maio de 2020




[foto @krejir]

Sonhei-te,
Estavas cada vez mais
Vestido de tempo,
Soterrado debaixo de camadas
E camadas de pó e de lama.
Quase irreconhecível,
Ou talvez completamente.
Cada vez que abrias a boca
Era só vazio que gritavas,
E nem um gemido se ouvia,
Nada.
Cheio de pó que ninguém limpa,
Lama que água nenhuma lava,
Sombras que luz nenhuma vê.
E eu, ali, 
A tactear o caminho da minha própria pele,
Cercada de grades 
que tocam o céu como árvores,
sem saber por que caminho voltar.
Não sei se eras tu, se era eu,
Mas eu acordei.


terça-feira, 19 de maio de 2020

mesmo com frio, 
continua a olhar as estrelas 
para não cair nas malhas do vazio, 
e para o seu olhar não perder lonjuras.
Continua a coser a alma com fios de desejo, 
como um vício que não quer largar.
E conta pelos dedos as estrelas em que não caiu.

domingo, 17 de maio de 2020


Sento-me aqui, queria sentir o fresco da noite. Aqui sentada, de cigarro aceso, parece-me a noite apagada, profundamente adormecida, deitada numa paz silenciosa entre a escuridão do céu e as luzes da cidade. Eu aqui, calada, e tão desperta, com a vida toda adormecida. Como se tudo estivesse ao contrário, o negro da noite debaixo dos pés, e o mundo lá em cima, onde só o olhar chega. Tudo num avesso sem costuras.

[e, aqui sentada, lembrei-me desta música, não sei porquê  
... talvez haja muitas maneiras de estar presa, drink up baby]

sábado, 16 de maio de 2020


Entre outras coisas, estes meus registos nesta plataforma, servem-me para anotar coisas que leio e que por alguma razão me ficaram ou fizeram pensar quando as li. Várias vezes acontece que para as recordar as pesquiso nestes diários, porque a memória é de galinha, e se ficam as ideias a forma invariavelmente dissipa-se no tempo. Tenho andado muito preguiçosa nestas lides, e hoje o tempo, e uma ideia que já não conseguia reproduzir-se na forma original, convidou-me a recuperar as últimas leituras. À conta do bendito curso online, para o qual afinal não tive o tempo esperado - alteraram-me o plano e a minha quarentena não chegou verdadeiramente a acontecer - li algumas coisas que a bendita preguiça impediu que ficassem registadas. 
Uma das coisas que dou por mim a pensar é que há obras que marcaram os tempos de alguma forma, e que a mim não me marcaram muito, pouco havendo para mim a registar, a não ser confrontar-me com a ignorância -  ou da sua existência, nalguns casos, ou com o contexto que as tornaram marcantes na história da literatura. 
Nunca tinha ouvido falar no Épico de Gilgamesh, o curso, fraquinho que possa ser, sempre reduz a minha vasta ignorância :)  Foi escrito em placas  de argila mais de dois milénios a.c. e a sua referência ao dilúvio foi a razão porque inicialmente lhe dedicaram tanta atenção, e terá sido a mais antiga  história escrita que chegou aos tempos de hoje. As histórias contavam-se, espalhavam-se e passavam os tempos sendo contadas, não escritas. Com deuses e mortais, como os tempos assim usavam, com características tão permeáveis entre entre eles, os deuses com defeitos tão humanos e alguns mortais considerados quase deuses e deles próximos.
O texto ficou para a história por muitas razões, para mim ficou principalmente uma passagem que aqui deixo (afinal foi para isso que me decidi a dobrar a preguiça...) para futuros regressos:


"Se teu coração está tomado de medo, joga fora esse medo; se há terror nele, joga fora esse terror. Toma o machado em tua mão e lança-te ao ataque. Aquele que abandona a luta não fica em paz." - quem abandona a luta, ao contrário do que poderia pensar não fica em paz, bem verdade.

Por agora já chega... daqui a bocado logo verei o nível de preguiça :))

quinta-feira, 14 de maio de 2020

E o meu dia começou assim... a rir-me de diatribes de alguém com
aparente sentido de humor :))
E fez-me lembrar...”Oh amor... vai p’ro diabo!! “
Ao que respondem: “... mas... com quem achas que estive todo este tempo??” 
;)))

Apanhei isto algures, mas podia bem ser uma conversa minha ....

segunda-feira, 11 de maio de 2020



Outlander - comecei a ver porque ouvi vários comentários que valia a pena. Não fora isso e a temática não me puxaria, viagens no tempo e séries de época não são a minha predileção. Claro que quando entra em cena este moço o interesse sobe seja qual for o contexto, e não costumo ser muito susceptível a estes moços bonitinhos, com um fisico que não fere os olhos ( e o dele vai muito para além disso... jazuzzz há ali qualquer coisa no conjunto que impressiona) e uma carinha de meio meninos ainda ( e este, da pesquisa que fiz, ao natural parece muito imberbe.. mas vá, acho que talvez  lhe perdoasse isso...). O certo é que realmente desde que comecei a ver, a partir do quinto ou  sexto episódio, tornou-se um tira-sono... era só mais um episódio... e de manhã o despertador não queria cá saber de coisas... mas deixou-me algumas vezes a pensar. O que me cativou (além do moço, pois) foram pequenos pormenores da relação deles. Não vale a pena tentar explicar, nem eu o farei, mas fez-me pensar... coisas simples, pequenos (grandes) pormenores que se reconhecem, que me fizeram pensar que, se por um lado há certas coisas que se vêem, ou lêem, e dizemos ah e tal, estas coisas só em livros ou filmes; por outro, quando as vivemos dizemos que são únicas, parece que nunca ninguém as viveu, ou sentiu, assim. No entanto, depois, quando somos confrontados com certas cenas sorrimos, porque se foram escritas alguém as sentiu assim, ou muito parecido... e afinal aquilo que chamamos único, parecerá único para toda a gente... ou seja, não só não é único, como  não é só de livros, ou filmes. A vantagem é que quando é escrito tem o fim que quem escreve quer, e talvez seja essa a razão de algumas pessoas escreverem, para lhes dar o fim que querem ou para expurgar o seu. 
Nesta série há muitos pormenores de cenas entre eles que me fizeram pensar isto, e sorrir algumas (muitas) vezes mesmo sem querer, outras consciente, pois se nada disto é único, haverá mais e até melhor. O sentido de humor partilhado, o brincarem em momentos estranhos a outros, a "taradice" entendida em conjunto como saudável, boa e nunca como ordinarice, os olhares que falam, as brincadeiras privadas, o vocabulário íntimo, as coisas que se dizem. Tanta coisa comum se calhar a tanta gente - sim, haverá mais quem veja as relações assim,  e a mim (re)lembra-me que existe, que é possível, e que se poderá viver, sem viagens no tempo e sempre a fugir de algo ou alguém.
Há coisas que podem ser, nem todas, mas algumas poderão ser, e podem ser muito boas, ainda que não o sejam sempre e a todo o tempo - mas não são só de livros, afinal, cada vez mais nos apercebemos que a realidade em tudo ultrapassa a ficção a seu tempo... a alguns essa realidade chega tarde demais, para outros nunca chegará. Uma coisa parece certa para quem a conhece, não a consegue desconhecer, mesmo que queira.... e depois há memorandos assim, na tela. E isso é bom. Há coisas que não mudam, e coisas que têm de mudar para que nos mantenhamos fieis ao que acreditamos, ou queremos.


 [Fiquei para sempre fã do sotaque escocês, e gostei da série, sim senhor, acabei agora o último episódio da quarta temporada. Acho que já há outra, mas ainda não está disponível... não fui muito a favor de oferecerem a assinatura da Netflix à minha filha... mas... :))) ]

sábado, 9 de maio de 2020

Já o disse e é verdade, fazer-me ir para a cozinha, espontaneamente, por livre vontade e com vontade, só mesmo um grande amor. Dos que dão vontade de um gesto que chegue ao outro, que o toque, que o entenda.  Fazemos coisas raras pela raridade do que se sente e se quer que sintam. Infelizmente - ou talvez não, aliás, certamente que não - poucos o saberão entender, ver, deixarem-se tocar, talvez. Se calhar é nas alturas em que as coisas não são como gostaríamos, e queríamos, que fossem, que o coração impele as mãos a fazerem gestos que guardam coisas que não dizemos, como verdades encriptadas, mas sem qualquer enigma se nos conhecerem, e se não escolherem olhar para o lado para dizerem que não viram, que não perceberam, que não se aperceberam. 
Quando não temos nada para oferecer, damos o que somos, sem embrulhos. Só o recebe quem quer e aprendeu a amar e a ver, ou verá apenas a mão, o bolo, os biscoitos, o embrulho e não o gesto, a doçura... todo o amor que não traz papel de embrulho, mas às vezes é tímido no saber dizer-se. Ou no fazer-se entender. Hoje perceberam perfeitamente... "tens razão, as melhores prendas não vêm embrulhadas", e não foi preciso dizer mais nada.

[... a noite está maravilhosamente fresca, como se um gesto deste silêncio quente que se sente]

terça-feira, 5 de maio de 2020


Um passeio a duas, há muito que não tínhamos, e tão bem que me estava a saber... resolvemos dar uma volta maior porque o jardim ao fundo da rua estava cheio de gente e o no outro a seguir só conseguimos uns cinco minutos para ela correr um bocado, até aparecerem mais canídeos... a modos que resolvi continuar, apetecia-me andar e a luz de fim de dia tem sempre um efeito qualquer meio mágico no tempo, que apetece estica-lo sempre mais um tico. Descemos à praça, subimos à Sé, descemos ao longo dos Arcos, e o panorama era este, a rua assim, só nossa. Pedi-lhe a sua melhor pose... e foi isto... acho que ainda não quer fotos... deve ser dos quilos a mais que ganhou da ninhada e ainda não recuperou a forma nem perdeu a fome... continuamos e já quase em casa, do lado da rua oposto ao nosso, vejo uma senhora, velhota, cair.  E foi quando enfim a estupidez me assentou, quando não a vi levantar, ou sem o conseguir fazer, já ia a meio de atravessar a rua. Vi que a cadela não ladrou, o que é raro quando as pessoas levam sacos - não sei, não me perguntem, deve ser um qualquer trauma que desconheço ou ouviu alguém contar a história do homem do saco quando era pequenina... vá-se lá saber - mas não ladrou, passei a trela para a outra mão e com a mão direita tento ajudar a senhora a levantar-se... o que me fez de repente lembrar que os badalados dois metros já eram, e só agora me lembrava disso, e que nenhuma de nós levava máscara e que a senhora com aquela idade, era um perigo. Afastei a cara o mais possível da senhora e lá consegui ajudá-la a levantar. Afastei-me, perguntei se estava bem e se conseguia ir bem para casa, se era longe, se precisava de mais alguma ajuda... disse que não, e tinha fome de conversa coitada da senhora, e eu só a pensar se lhe teria pegado alguma coisa, mesmo pensando que não tenho nada, nunca se sabe, ou só se sabe mais tarde... e o passeio que me estava a saber tão deixou esta sensação estranha, de poder ter feito mal a alguém sem querer. Foi uma estupidez, por um lado, mas ia deixar a senhora estatelada no chão, à beira do passeio? 

domingo, 3 de maio de 2020

Noite limpa, rasgada por um trapo de névoa que sublinha a lua. O sossego da rua, um dia que se acaba e se resume enquanto, aqui sentada, meço luzes e sombras. Há coisas que se tornam límpidas na boca dos outros, como o céu de hoje, quando as ouvimos calçados de nós mesmos. Coisas simples, que sempre estariam ao alcance do nosso olhar, se não nos enevoassem maravilhas que por dentro dos olhos nos cegam. Oásis  em desertos que se atravessaram a seco, devagar e em delírio. Muitas vezes ouvi que depois de abertos os olhos, não seria possível voltar a viver de olhos fechados. Não é verdade, podemos voltar a fechá-los, mas nunca deixaremos de ver. Por muito que cerremos os olhos. Como uma maldição, vestida de benção. Resta-nos evitar morrer à sede, por tudo tomarmos por oásis. 

sábado, 2 de maio de 2020

Quando vou passear as tracção as quatro apercebo-me da quantidade de bichos que estão a dar graças a Deus pela quarentena... sim, como se para eles o COVID fosse o salvador... cães supostamente das redondezas a quem eu nunca tinha visto o focinho... nunca devem ter saído de casa, qual refém em confinamento.  Mas recebem os seus adoptantes o mesmo destino de reclusão, e não gostam, lembram-se agora de passear os cães, que coitados precisam, sei lá, de apanhar ar... uns chamam-lhes passeios higiénicos, mas de higiénicos têm pouco porque os passeios estão minados de presentes das criaturas que não estão habituadas a sair de casa, ou quem os traz pela trela, de os passear... 
Eu sei que sou preguiçosa para passear os bichos, muitas vezes acontece não os passear todos os dias, mas não deixo passar dias e dias sem os levar à rua a esticar as pernas e correr um bocado, nem com isto de supostamente estar mais tempo em casa (que acabou por ser verdade muito poucos dias) fiz deles livre passe para ir à rua, eles, coitados, é que agora quase não conseguem correr, os jardins onde vamos para, soltos, poderem correr, estão cheios de gente a conhecer o espaço... este confinamento está a acabar, temos de encontrar um equilíbrio para conseguir viver com isto - confinar e proteger mesmo o grupo de risco, a sério e sem facilitismos, mas os restantes têm de retornar a uma vida (mais) normal, tanto quanto estar longe dos mais velhos que lhe são próximos permitir... mas este negócio aqui sugerido, de cães passearem confinados,  dava uma boa maquia cá em casa... :))))