domingo, 1 de março de 2020


Sento-me aqui, à beira da noite molhada e parece que nada mudou. A mesma varanda, o mesmo cadeirão, os mesmos desenhos de sombras nas paredes, até a chuva parece dizer o mesmo que dantes dizia. Como se a noite não tivesse mudado, e no entanto tudo mudou. Já não digo à noite o que dizia, ela não me esmaga como já esmagou, já não me fala espantando o sono e chamando o mesmo exército de medos armados de angústias várias, e a luz já não me fere tão fundo. Fico aqui atenta à rua, aos sons, às sombras, e tudo por fora parece não conhecer o tempo, mas de dentro para fora tudo parece diferente. E não percebo, porque eu não mudei nada. Houve só coisas que desapareceram de onde nunca estiveram, nunca foram. Como se o mundo nunca as tivesse conhecido, sequer ouvido falar delas. O mundo está igual, lá fora, eu estou na mesma, cá dentro, mas nesse mundo imutável sinto que vejo tudo diferente. Só não sei se sinto diferente. Ou se já não sinto. Sento-me aqui, à beira da noite, como de um abismo onde sempre me deixo cair, e donde nunca caio.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Sexta feira.... finalmente!!!!....
Estou muito precisada de fim de semana ... e de fazer um daqueles meus retiros, exilar-me de tudo,aninhar-me em silêncios e desfiar o tempo em monólogos mudos, em descansos bem temperados... já não posso aguentar muito mais tempo desta vida estupida e duma rapidez que flagela o tempo de vida... tenho de me pirar daqui, tenho tenho, 
não sei é como ou quando será...o feriado fez-me mal, só pode :))

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Eheh
Coitado do moço, se fosse Carnaval não piorava muito ;))
Antídoto de dias pardos: posts parvos, claro  :DDD
[uma manta, um filme e um livro, com os cães aninhados aos pés, e ainda uma soneca bem estirada nos entretantos, também são muito indicados como 
terapia complementar à previamente indicada ;)).  ]
Com os anos, ou com a idade - que nem sempre coincidem -, vai-se apreciando cada vez mais a noite por dentro, em vez de por fora. E não é que passem mais lentamente, não, mas ficam mais tempo. Também  por dentro, onde se fazem, no fundo.
Acabo a noite s fumar um cigarro de janela aberta no escritório que era duma pessoa que há muito não mora cá, há anos que só o escritório ainda aqui habita. Não sei porquê. Penso há algum tempo fazê-lo uma espécie de pequena biblioteca com uma chaise-longue em frente à janela, um candeeiro de pé catita, umas colunas de som discretas e uma pequenina mesinha, sem mais. O resto que seja chão. Mas ainda não o fiz, e por isso o escritório, desabitado, e que já não é escritório, ainda não é outra coisa. Às vezes é preciso que algo tome o lugar daquilo que deixou de existir, para que algo volte a existir. E não seja um lugar mas um sítio com alma, outra vez.
Hoje, e pela primeira vez desde que vim viver para aqui, fumo um cigarro, o último do dia, a esta janela... talvez a alma comece a seduzir o espaço, ou a ser seduzida. Algo mudou. Até a noite. Ou eu. E no entanto nunca fui diferente.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Boémios.... dão muita música... 
com um dedo, ou dois, de malandrice :DD
Bom dia!

domingo, 23 de fevereiro de 2020

[Harper Lee, in Não matem a cotovia]

Li o livro em dois fins de semana. Fiquei curiosa acerca do filme, fui procurar na net, encontrei, vi-o e desiludiu, há tantas coisas no livro eliminadas no filme... empobreceu tanto tudo. Gostei muito do livro, daí te-lo lido em tão pouco tempo. Prende-nos a história, e o ter muito sobre que pensar, principalmente sobre o decurso do tempo, sobre aquela época, sobre o carácter e as alturas da história em que o carácter é um fardo que apenas alguns assumem sem escamotear. Coisas para se aprender e reflectir... e se fosse eu? Como pensaria (n)aqueles tempos? Penso tanto nisso sobre tantas coisas e épocas... e gostava de ter mais certezas sobre o não abdicar de ir contra a corrente, pensar pela própria cabeça e confiar nela. E como pensaria a minha cabeça nestas alturas sobre tanta coisa? Gostava de ter mais certezas, de me tranquilizar mais, acerca de mim. Mas tenho sempre perguntas, até sobre mim, sobre o que sou e quanto o sou. O que não duvidei foi que esta (que aqui deixei em cima) era uma grande frase. Coragem; para mim coragem é não haver certezas, haver medo e ainda assim enfrentar, seguir em frente apesar de tudo isso por sentirmos que é o certo. Esta definição é mais contundente, ainda mais pesada e definidora de carácter: é estar vencido antes de começar, ainda assim começar e ir até ao fim. Aliás como faz Atticus em relação ao julgamento do negro inocente. Percebemos depois que ele sempre soube que perderia, como outros no processo de decisão envolto na história. É uma história sobre as pessoas que têm convicções e carregam, aos poucos e na sua medida (im)possível, as mudanças do mundo às costas.
[Manuel Halpern, via @opoemaensinaacair]

Bem apropriado para a manhã seguinte ao sábado de carnaval... há quem só queira carnaval, e nada contra, mas há quem queira um ano inteiro e muitas manhãs de domingo com o sol do lado de fora da janela e da cama, mas o calor todo dentro dos lençóis, ainda lavado em preguiça boa
e doçura que não descola da pele.

[... já começaram a ouvir o podcast do poema ensina a cair? a conversa com a Eunice Munoz é uma delícia... ou eu achei... ]

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

[Rui Caeiro, via @opoemaensinaacair]

... pensa, mas conseguirás pensar sem palavras?
... um corpo despido de palavras não falará também, e talvez mais?
...não haverá paz sem palavras apenas depois das necessárias terem sido compreendidas?
Mesmo que não ditas, num corpo despido.
Agora dorme.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

[foto @kate.simple.life]

O que eu precisava, ou melhor dizendo, o que eu queria (que raramente coincidirão...) esta simplicidade, este minimalismo elevado ao essencial: a serena nitidez dos objectos, a clareza distinta dos contornos, a pureza das linhas em cores tranquilas: beleza à nossa volta e algo que nos aconchegue a alma servido em chávena. Hoje mais chá que café, com mel, e muita vontadinha de ir para casa dormir... tenho isso, uma bela constipação de nariz vermelho, uma grande dor de garganta, muita preguiça e pouca paciência... alguém quer alguma das coisas? Eu sou boa moça, eu dou. Não vendo nem troco, dou, oferto, despacho já sem regatear preço, é levarem. Aproveitem que estou muito generosa hoje... alguém?? Hum??? :)))
Bom dia!!

sábado, 15 de fevereiro de 2020

[imagem @diego_cusano]

Se for para fazer como a avestruz, que seja com café :))
Porque a vida é o que acontece quando saboreamos um café, o que observamos nos nossos silêncios e nas palavras dos outros, é a singeleza dum café  e os entretantos até ao próximo. Como uma conversa que não o é. É o que vamos saboreando, o que nos faz parar, o que nos faz sorrir sem  aparências, é o que queremos e o que queremos dispensar, esquecer, afogar no fundo de qualquer chávena, copo, ou horas de trabalho. 

Bom café, ou o que for que cada um tenha por ritual ;)

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020


"Toco a tua boca.
Com um dedo, toco a borda da tua boca, desenhando-a como se saísse da minha mão, como se a tua boca se entreabrisse pela primeira vez, e basta-me fechar os olhos para tudo desfazer e começar de novo, faço nascer outra vez a boca que desejo, a boca que a minha mão define e desenha na tua cara, uma boca escolhida entre todas as bocas, escolhida por mim com soberana liberdade para desenhá-la com a minha mão na tua cara e que, por um acaso que não procuro compreender, coincide exactamente com a tua boca, que sorri por baixo da que a minha mão te desenha.(...) Então as minhas mãos tentam fundir-se no teu cabelo, acariciar lentamente as profundezas do teu cabelo enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de uma fragrância obscura. E se nos mordemos a dor é doce, e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo do fôlego, essa morte instantânea é bela. E há apenas uma saliva e apenas um sabor a fruta madura, e eu sinto-te tremer em mim como a lua na água."

Julio Cortazar, in Rayuela


[sim, há coisas que se pudéssemos imaginar antes de as sabermos as imaginaríamos exactamente como viriam a ser. Ou assim achamos. Como tentar imaginar a perfeição. Tentar agora imaginar a perfeição é reproduzir com retoques o melhor de tudo o que se conhece. Quando a vida nos surpreende a imaginação explode, conquista territórios desconhecidos que não sabíamos existir, e todo um novo mundo se abre. Novas imaginações, perfeições mais perfeitas. Novos limites e novas dimensões de felicidade. E novas dimensões de infelicidade, por perdê-las, por desperdiçá-las, o que for. Aquilo que não se conhece é aquilo que não se é, mas aquilo que passamos a conhecer passa a ser parte do que somos, e de como descodificamos a loucura do mundo. Renegar isso não é não andar para a frente é andar para trás. Nada volta ao que era. Passamos a ser pessoas diferentes quando os nossos limites de imaginação, felicidade e infelicidade se movem. O mundo altera-se, nunca mais o vemos da mesma forma mesmo que nada tenha mudado, a essência alterou-se, a essência do nosso olhar sobre as coisas. E as coisas não são coisas são a maneira como as vemos. Um parafuso pode ser um deus (esta é de outra passagem do livro, mas estou preguiçosa), tudo depende do que vemos. E eu pergunto-me vezes sem conta o que verão quando me olham? ]

(porque me cruzei com este texto e o reconheci, fui ler o que tinha escrito sobre ele há alguns anos atrás. Não acabei o livro - Rayuela-, já não sei porquê, talvez porque seja dos que se mastiga devagar  e precisa de tempo, mas de que nos fica muita coisa.  lembro-me de onde estava quando li esta parte: num dos meus exílios passados num alpendre com vistas, em que choveu grande parte do tempo, em que fiz um amigo de quatro patas enquanto, debaixo de mantas, lia e escrevia, em que o tempo não me parecia parecia passar-me nas entrelinhas. Lembro-me que cheguei num dia de incrível temporal e cheias. A primeira noite foi passada à luz das velas, por falta de luz mesmo :)...  hoje, este texto, esta descrição parece-me um bom hino, um bom presságio, um farol no caminho por navegar. UM cominho navegável. Um sorriso por sorrir que já desponta. Hoje que me lembrei que, há muitos anos neste dia, comecei a namorar com aquele que foi a minha primeira grande paixão. Roubou-me um beijo neste dia, a meio dumas escadas, sem aviso. a carteira que eu trazia ao ombro caiu (hoje apercebi-me de coincidências giras ao lembrar esta cena, beijos roubados e coisas a cair ao chão, ri-me sozinha) e a seguir caiu uma chuvada de que nos abrigámos na entrada dum prédio qualquer a caminho dum café. Nunca mais teve de me roubar nenhum beijo. Levei anos a curar as feridas dessa paixão, que anos depois se tornou uma amizade diferente, boa, gira, conversas em que falámos e ríamos, que eu mantinha com as distâncias seguras de quem não possui antídotos para certas pessoas... perdi-o numa curva que ele não fez, duma estrada qualquer. Lembrei-me hoje. E tenho saudades dele, e da paixão. E de se me destrancar tudo quando sou roubada do que descubro querer dar.)

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

[imagem @_baccc]

Vês-me por trás das linhas?
Ouves-me as entrelinhas?
Sentes a textura da minha respiração?
Sabes-me os contornos?
Desenham-me as tuas mãos
nos teus sonhos?
Consegues desenhar?
E sonhar?

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

[foto @kyoung_u3u]

Do “sempre ligado” em que se sente alguma ligação. 
Assim. 
O pequeno-almoço com paisagem, mesmo que riscada... 
...trincar a fome e dar de comer ao olhar.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

[foto @peterwyss]

Ele pode comparar-te
com o amanhecer, mas eu
fiquei a pé toda a noite para o ver.

Billy Collins


Um pormenor que é a diferença.
Escapa aos primeiros olhares, muitos nunca o chegarão a ver, mas resistirá muitas noites, muitos amanheceres. Daqueles que se vivem sem comparação. Só pelos que vivem certas coisas em intensidades cegas e insones.

[o problema é que durante o dia têm muito sono... e ainda assim não se arrependem]

domingo, 9 de fevereiro de 2020


[Mia Couto, in Venenos de deus, remédios do diabo]

Os registos guardados do último fim de semana. Registos que mais me disseram, que mais gostei. Um dos excertos já tinha sido publicado num outro blog que tive, mas na altura tinha-o apanhado pela net, não tinha lido o livro nem tinha ideia de que livro era o excerto de ter medo de não haver regresso de algumas pessoas. Encontrá-lo fez-me sorrir, e a frase que depois disso me ficou vem depois: “amar é estar sempre chegando”. Talvez seja, desde que nunca se tenha, de facto, partido. Quem parte e chega será cheio de suficiências: razões suficientes para partir e para chegar, afecto bastante para suportar o suficiente. Mas não se ama o suficiente ou é insuficiente o descaso, o suficiente não é medida para o amor. Ou é ou não é, e quando é, é desmedido: infinito. Para o bem e para o mal, o amor é feito e desfeito de infinitos.
Ainda tenho outro livro do Mia Couto na calha, por ler, vou deixá-lo serenar, é um autor que tem um tempo próprio para ler, ou melhor, um espírito para se ler inteiro. Agora vou ler dois ou três constantes do plano não planeado de leitora para este ano... o ano passado foi pobre em leituras. Andei mais a tentar ler-me por dentro, é por certo uma leitura que devíamos fazer mais vezes... 

sábado, 8 de fevereiro de 2020

[via @whiskeywrites]

Leio isto e paradoxos acendem em mim, nas interpretações que me surgem... Ela é maléfica com arzinho de anjo? daquelas falsas e manipuladoras, que fazem e aparentam o que for preciso para conseguir o que querem, que uma pessoa pensa serem duma maneira, mas descobrimos depois a verdade da sua amargura... 
... ou será que ela é uma surpresa danada de boa, embrulhada de certinha? daquelas que ninguém dá nada por ela, mas são a prova que afinal tanto o carácter, como a malandrice boa, não precisa de publicidade nem holofotes... eu gosto mais de pensar a segunda. Nas surpresas boas que surgem donde não se espera. De estar à espera de apenas amornar as entranhas, e ficarmos, afinal, com o sangue quente e o coração a rédea solta. 
Haverá coisa mais boa? Surpresa melhor? Só é preciso é cuidado com as doses :))


sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

[foto @tarasovm]

Hoje sonhei, mas nem no sonho eu acreditava no que sonhava. Como se tivesse acordado do sonho e já estivesse nele desperta. Há coisas, ou pessoas, em que deixamos de acreditar, depois, nem em sonhos. Ouvimos e sorrimos apenas um esboço complacente, talvez até em tons de felicidade, como quando uma criança nos conta todos os grandes feitos que atingirá quando for grande. O sonho não acabou com um ternurento beijo na testa, mas a sensação era a mesma. Acordei com saudades de acreditar. Há dias em que custa acordar adulta, com os feitos todos por fazer, sem acreditar no que acreditámos que nos faria felizes... ou talvez não.
[imagem @paradoxos_oficial]

Se parto inteira não te devolvo nada.
Assim parti.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

[Adonis, O arco-íris do instante, via @opoemaensinaacair]

(Re)capitular 
sem fim, 
em ti,
que sou eu 
enfim
(re)começada 

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

[Un regard oblique, Robert Doisneau, 1948]

Hoje o fakebook lembrou-me isto. Uma publicação de há cinco anos neste dia. Versava assim:
“Versões:
1) ... já apanhavas um calduço, já... homens!! Pffff ;))
2) ... como é lisonjeador, agradável, e demonstrativo de classe e sensibilidade, um homem verdadeiramente apreciador de arte... :D
(eu sou claramente moça da primeira versão...)”

Vi isto de manhã e ri-me... fiquei a pensar que há cinco anos eu tinha muito mais piada... ainda que ache que agora volto a ter mais este espírito parvo... e isso é bom, pronto. Eu achei, mesmo, porque hoje, acho que já me sairia qualquer coisa parecida, quase igualmente parva :DD E a parvoíce é uma coisa sempre boa de manter num certo nível, não enlouqueçamos por excesso de siso e razões...

Bom dia, apreciadores (mui selectivos) de arte e restantes mortais ;))))

domingo, 2 de fevereiro de 2020

Domingo com sol também é dia de cãominhada. Explorar o miolo da cidade, quase  a dois passos de casa, ruelas que não conhecia, confusões em Palácios, uma nata para reabastecer os níveis de açúcar e de breve multidão, o espelho da nudez das árvores. Chegar a casa quando o sol se recolhe também, a sua casa talvez, e o bendito sofá, um chá e o livro. 
Vítor Nogueira [via @opoemaensinaacair]

Não sei se alguma vez acordei com o céu encostado no ouvido :)... acho (espero) que será uma coisa que ainda está para me acontecer, há coisas boas, muito boas, que já acredito ainda estarem por acontecer. Como ter muito sítio para ir, mas preferir, de todos, o lugar ao lado de alguém. Para isso o sofá pode ser pátria aconchegante, ou a varanda, uma qualquer esplanada perto ou longe, ou qualquer sítio onde esse lugar possa estar. Como dois miúdos.

 Bom domingo,
de sofá, ou do que escolherem, no lugar certo ;)

sábado, 1 de fevereiro de 2020

“Que aquela terra era, segundo ela, um barco incendiado: 
ou morriam na água ou acabariam devorados pelas chamas.”

Mia Couto, in Venenos de deus, remédios do diabo

Algumas pessoas são assim: barcos incendiados à deriva. E alguns nunca chegam a arder, mas quem embarca queima-se, perde-se, aprende a morrer. Ou a nadar, e a nunca olhar para trás. Ensinam muito o que ninguém quer aprender.
“Parecia uma coisa passageira. Que o amor acontece para a gente desacontecer. Mas depois se viu que era mais que uma lembrança teimosa. E fizeram durar correspondência, deixaram crescer juras e promessas. Até que, subitamente, Deolinda deixou de responder às cartas. Desde então, o médico avaliou desejos, pesou saudades. E percebeu que sofria pela medida incerta. Meteu a existência numa mala, tratou dos papéis e dinheiros e rumou para a terra da sua amada.”

Mia Couto, in Venenos de deus, remédios do diabo

... parece que a medida incerta é em certa medida a medida exacta, contrapeso das saudades, motor desejoso de (con)ceder ao desejo de matar saudades. A vida acontece a quem se arrisca desacontecer, assim é o amor - acontece ser muito mais que uma teimosia que teima em não desacontecer, tantas vezes sem acontecer... ahhh mas quando acontece...não tem medida.
Depois de acabar o Siddhartha, começo o fim de semana com Mia Couto, que me dá sempre uma sensação doce de ser, de estar, de ler-me. Livro curtinho, que apetece devorar desde as primeiras páginas.  Pensamentos escritos em sotaques quentes e sonoridades em tons de terra, coisas que se misturam e me soam familiares, ainda que não sejam. Só os pensamentos os reconheço, alguns como se os soubesse já, outros como já os tenha sentido por baixo da pele dos dias, entranhados na minha. Venenos de deus, remédios do diabo - a prescrição de fim de semana para esquecer o resto do mundo, pensando-o. É só uma espécie  de olvido  :)))

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

... há dias em que o Alentejo me faz mais falta. Enquanto arrefeço o café e olho pela janela lembro-me que sonhei hoje com o meu monte alentejano. Tem um alpendre de pores-de-sol gloriosos, e cadeirões com mantas, e uma mesa com livros que se vão debicando. E uma série de cães à volta dos pés. Todos os quatro, guardava todos ao pé de mim, mesmo que me tenham posto os nervos em franja e façam maldizer a vida várias vezes, talvez naquela paz a guerra fosse diferente.
O café já está bom para beber, e o escritório já não está vazio. Vamos ao dia, que o fim-de-semana está à porta, não o deixemos à espera :))

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

O mundo do politicamente correcto, levado ao ponto da estupidez, 
um mundo sem dentes onde ninguém pode ser desdentado, 
e quem tem dentes não deve rir para não ofender... 
assim vai o mundo...

Vamos rirmo-nos a gargalhadas triunfais? Com ou sem dentes??

Bom dia :D


segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

[Emanuel Jorge Botelho, via @opoemaensinaacair]

... como hoje. 
Mais uma segunda feira, 
uma semana por estrear, 
e as portas todas iguais, ou parecem...
por trás destas só reuniões...disto  e daquilo, 
e eu com tanta coisinha para fazer....
Valhamedeus ou a poesia ...

Bom dia!

domingo, 26 de janeiro de 2020


A dar um mimo extra para minorar os ciúmes da mais pequenita. Os bichos são como nos em tanta coisa... nunca a deixo subir para os sofás ou para a cama, mas ela devagarinho e com jeito, vai pondo uma pata, depois outra, sorrateiramente em pouco tempo está toda empoleirada no fofinho. Hoje deixei, precisa de mimo e eu também :) 
Quase com o livro seguinte a acabar e sem marcas nas páginas, estive a passar pelo que deixei marcado neste do “em tudo havia beleza” que acabei há umas duas semanas, mas ainda pára aqui na minha mesinha de cabeceira... fiquei a pensar numa passagem que marquei, e reli agora, que me faz pensar na culpa e no que eu já tinha pensado sobre a culpa, as suas várias facetas e ferramentas. De como é usada como instrumento tantas vezes - de manipulação, fazendo sentir culpa para levar ao fim que alguém procura; outras vezes como desculpa, para se fazer ou não fazer algo, porque depois a culpa nos consome, ou antes, não sei, é coisa a que normalmente não me dedico... Mas para mim uma novidade, que me apercebi há algum tempo... é usar a culpa como escudo, como prova de boa formação do espírito, naquela lógica de: se eu sinto culpa é porque não sou má pessoa, senão ser-me-ia indiferente, mas como não é, e sinto culpa por isto ou aquilo que magoou ou fez mal a alguém, portanto não posso ser má pessoa. É cómodo, é até lógico se usado só uma vez, já repetidamente não serve; nem mesmo alegar que não foi vontade própria, que se foi arrastado para esta ou aquela situação, que não queria e não faria, mas não conseguiu evitar, impor, contrariar.... mas até por isso se sente culpa, esgrimindo-a mais uma vez. A culpa é pau para toda a obra, e uma moeda de troca - sinto culpa recebo imunidade contra acusação de maldade pura, ou indiferença, ou o que for que na altura der jeito... Mas a culpa que é verdadeira, e não um instrumento, muda os comportamentos, não se cai no mesmo, talvez porque a culpa leve ao arrependimento e esse - mais uma vez - só existe genuinamente se levar a mudança de comportamentos, ou a, pelo menos, não se repetirem esses. 
Este livro trouxe-me uma nova perspectiva da culpa, que eu nunca tinha pensado: quando nos defendem, quando alguém nos defende e protege livra-nos da culpa, está a dizer-nos que a culpa não é nossa, que o problema não somos nós, que não devemos sentir culpa, que não temos por que sentir essa culpa, que estamos sim, do lado da razão. E é verdade, e eu nunca tinha pensado nisto. Nos últimos anos habituei-me por um lado, a encarar a culpa, irónica e paradoxalmente, como desculpa, e por outro a percebê-la como instrumento de manipulação. Muitas vezes defendi que nem em tudo haveria culpa, mas como a culpa não era real, não surtiu qualquer efeito, e de todas as vezes que a culpa era justificada por conscientemente se magoar alguém, nunca isso também mudou... também aí não era culpa. Acho que a culpa mais pesada e mais vincada é aquela de que não se fala, não se pronuncia quase por respeito, a que se carrega, mas não lhe sabemos o nome ou o rosto. A verdadeira culpa, penso muitas vezes que é a que só se torna nítida e consciente postumamente aos assuntos que a geraram.






sábado, 25 de janeiro de 2020

[foto @seeavton]

“A verdade é que 
quando se ama de verdade
 a pessoa que se ama não é muito importante”

[frase de um amigo, no meio de uma conversa, das conversas boas onde o tempo não se sente, mas se fala do que se sente e pensa. guardei esta, que me fez muito sentido. tem tudo a ver connosco, com o que sentimos, como nos sentimos, mesmo que inexplicavelmente, mais do que com o objecto desse amor. Lição para muitas vidas...]
[foto @sarvesh_chaudhari]

Pasó el ciclo
del adiós,
el de la ira,
ahora
te andas instalando
en el recuerdo,
despacito,
sin hacer ruido.
como el azúcar en el café.


Guisela López


Apresentaram-me Guisela, que não conhecia, enviando-me este poema que gostei, que gostei muito. Pela simplicidade, pela verdade, pelo reconhecimento do que leio no que vivo. E cada vez que o leio faço-o mais “despacito “ e docemente, ainda que o meu café ja há muito não conheça a adulteração do açúcar... e esse pequeno pormenor me fazer sorrir. O certo é que que hoje, com o espírito com que acordei e prolonguei a ronha entre lençóis e leituras, este poema, a sonoridade, a singeleza, uma certa tranquilidade, caem na perfeição nesta manhã.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

[Marta Magalhães, in Limpa Metais Coração (via @opoemaensinaacair) ]

Baseado nas palavras de Beckett, muito Bom!!
Dedicado aqueles que, inexplicavelmente, falham sempre, ou quase...
de facto exige muita pontaria, ou dedicação,
 mas suponho que a prática adquirida ao longo da vida ajude bastante...
 só aqueles a quem falham,
vez após vez e cada vez falhando melhor, 
não têm grande sorte ou pontaria,
mas muitas vezes têm culpa...

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020




Ahhhhhhh... então estou no lugar certo.
Melhor sítio seria difícil  de encontrar.
Como difícil de encontrar é o autocarro certo, isso sim...
Andar, todos andam (bom, nem sempre, há muitas avarias),
mas... e levarem-nos onde queremos?
Hum? Pois......

Bom dia!

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

[foto @sarvesh_chaudhari]

Talvez o tempo nos mostre que amar alguém à distância é só uma forma da vida não ter frio, até chegar aquele dia em que damos conta que outro amor nos arde perto. O amor é perto, sempre. A única distância é o vazio entre dois sentires que não se correspondem. O vazio é frio, então acalentam-se sonhos e recordações impossíveis. Mas é o possível que o toma de assalto, que faz do vazio florir tudo o que ele asfixiava.
Bahhhhh... ninguém merece. 
Levantar a estas horas com o temporal que está, não se pede a ninguém... não dormi nada... detesto vento, dá-me medo, não sossego, não prego olho. 
Acordar para levantar ainda de noite... bahhh a noite é para se continuar acordada a aproveitar ou para adormecer, agora acordar e levantar-me de noite? Bahhhhh... quero dormir e que o vento se cale, não diz nada de jeito, mesmo. Como eu, agora, à espera de boleia....lá são horas de se esperar boleia?  Só se fosse do próximo sonho... Bahhh quero dormir.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

Espectáculo de dança da miúda, três horas dele. Desta vez a primeira parte dedicada ao ballet quase toda. Dei por mim a pensar que nunca vi um bailado à séria, duma boa companhia. 
E que tenho saudades do ballet e da música. E que me ponho a olhar para os pés das bailarinas e a atentar numa série de coisas, em vez de olhar para o todo e apreciar a coisa doutra maneira.
Gosto de dança, sempre gostei, e sinto falta de dançar... dei por mim, mais uma vez, a abanar-me durante o espectáculo da miúda, que não enveredou pelo ballet e em que a música tem tudo de diferente. É engraçado como num espectáculo cheio de miúdas, algumas mais graúdas, a sensualidade transparece tão evidentemente em algumas, e no entanto a sensualidade não tem de ser tão evidente, e haverá muita escondida na timidez de não querer sobressair, de insegurança de se parecer ridícula (e às vezes ser ou tornar-se), de não sabermos como nos vêem. Tantas vezes as evidências se disfarçam, se encobrem, já o ser ridículo é difícil disfarçar, evidentemente. Embora os próprios, poucos se dêem conta. Ainda que não tenha sido o caso, não houve ali ridículos, só um espectáculo comprido que me levou a outras paragens de mim e do tempo, monólogos mudos que aproveitaram a música para dançarem :)

sábado, 18 de janeiro de 2020

Os miúdos foram para as suas novas casas. Ficou uma, à espera que eu decida se consigo dá-la ou se desgraço a minha vida. E eu só quero a minha vida de volta, a minha cozinha antes do canil, o ir trabalhar sem ter primeiro de limpar a cozinha (às vezes mais de uma vez). O entrar em casa sem saber o que vou encontrar do lado de lá da porta. E penso nisto tudo, e estou mais perto de o ter, e no entanto, este nó que me engoliu e tenho dentro não se desfaz. É uma raiva e um alívio, um paradoxo de quereres e não quereres, de saberes que tem de ser e doer-te esse saber. E depois este não saber, esta angústia. Se decidir dar a última, a protectora, a mais torcida e teimosa deles, a exploradora da matilha, que põe o nariz em tudo, aquela a que me liguei mais e me parece diferente em pelagem e interiores, só vos digo, vou chorar baba e ranho.
... Por enquanto vou só sair de casa para me esquecer desta sensação de abandono que é minha e há-de ser, ainda mais, do Alentejano, esse texugo de dez quilos e três meses que acabou de se ir embora, conhecer a nova casa, fazer outra família. Foi o último a nascer, terá sido o último a sair de casa?... detesto não saber o que fazer, o que quero, ou o que quero mais. 

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020



As coisas da pele, da química ardente, vão-me sempre além da epiderme, 
não é lá que nascem, e não é lá que morrem. 
Há toda uma química física que é causa e consequência, 
e nenhuma das duas.
Não se sabe onde uma começa e a outra acaba, 
como os corpos juntos quando se esquecem da pele.
Como uma sina que nos (des)acerta a vida toda
à flor duma pele que se lê pelo avesso.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020


“o amor é um cego com uma arma na mão”

Benjamin Prado

[Leio isto e para mim o amor é um velho cego  - às vezes sábio, outras só cansado. 
Haverá aqueles casos em que parece que tem Parkinson e outros Alzheimer... dependendo da vítima, ou dispara em todas as direcções, ou esquece-se de que já atirou, ou onde... 
Não sei o que prefiro, mas o olvido encanta-me, por ter o poder de encantar vezes sem conta, como a primeiríssima vez. O Parkinson tem aquela pontaria (in)certa, de hoje dizer-se a alguém que não se pode, ou consegue, viver sem, mas uns meses, ou até semanas, depois já estão apaixonadíssimos por outros, e a fazer planos para uma vida futura ( e não é o caso de se esquecerem, ou sequer desorientarem, pelo contrário, é a orientação perfeita da fila que anda).
...não sei mesmo o que preferiria, ou onde mora a felicidade... 
...mas uma coisa é certa, o raio do velho tem um sentido de humor filho-da-mãe.]


terça-feira, 14 de janeiro de 2020

[foto @oeysteinkarlsen]

Há lugares na cidade onde perdi partes de mim. 
Às vezes ainda as encontro nesses sítios que abandonei, 
onde ainda estou, já não estando.
Sítios onde as flores nascem sem raízes,
e morrem sem perfume.
... se houver ou conheçam algum mocinho nestas condições... que ainda acredite neste tipo de magia, reencaminhem-no para aqui se faz favor,
pode ser que se arranje uma cartola e se faça um espectáculo... sem
 redes ou ilusões  :))))
[... e desde que não queira que eu desapareça... ]

Bom dia!
(...tinha, tenho, tanta coisa para escrever, coisas que me andam a deambular pelos silêncios, e não me apetece, estou preguiçosa... depois cruzo-me com isto e pronto, é para o que me dá...)

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

... segunda feira, de patas para o ar, com um frio do caraças e pouca vontade de sair do quentinho da cama... há dias que nos acontecem sem vontade, não deles, mas nossa. Não é por nada e é por tudo. É um cansaço sem nome, mas cheio de caras, e de atrasos, de coisas por fazer que se acumulam mais depressa que o tempo... 
Reparo que escrevo a estas horas enquanto o escritório vazio, cheio de silêncio, acolhe o aroma do meu primeiro café, à minha frente, a arrefecer ao mesmo tempo que tento aquecer a alma, aconchegando-a de rituais que me chamam  pelo nome. Penso que longe de mim estaria pensar em publicar alguma coisa a estas horas, menos ainda fazê-lo várias vezes, vários dias como tem acontecido, quando o silêncio puxa as palavras que nos querem acordar para nós. A verdade é que a vida troca-nos as voltas, muda-nos os cenários, os contextos, os horários, e nós adaptamo-nos, se quisermos, claro, e tivermos razões para querer, pois. Mas uma coisa é certa, não nos devemos nunca adaptar ao que não queremos, não gostamos e não nos faz bem, isso são acomodações que nos apodrecem de dentro para fora, fazem de vícios hábitos que nos murcham. O certo é que gosto do escritório assim, ainda silencioso e todo meu e do meu primeiro café... o pior é que também gosto da cama quente. E não sou como o outro que tenho dois amores e não sei de qual gosto mais, eu cá sei. E bem :))

Bom dia!

sábado, 11 de janeiro de 2020

... é... a ironia é calhar-me este mum dia de sol :)))
Os tempos trocados, sempre.
Como hoje, tivessem-me mandado ir dar banho ao cão hoje de manhã e eu tinha oportunidade de ser muito obediente... quatro vezes obediente! O pessoal não acerta é no tempo certo :D

Bom dia!

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

... o que eu queria ser. Desde miúda. 
E não sabia porquê, ao ler isto, agora, percebi que é isto, sempre foi. Ter cabelos de fogo será assim, e era por isto, que eu nunca tinha pensado, ou dito, desta maneira, que desde miúda gostava de ter nos cabelos a cor que só o verão e a praia dá a alguns fios dos meus, mas só nuances, só partes que fazem lembrar o fogo, e eu queria a coisa por inteiro.
É que agora, tudo o que quero é por inteiro.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020



La caricia es un lenguaje
si tus caricias me hablan 
no quisiera que se callen.

La caricia no es la copia de otra caricia lejana 
es una nueva versión casi siempre mejorada.

Es la fiesta de la piel 
la caricia mientras dura 
y cuando se aleja 
deja sin amparo a la lujuria.

Las caricias de los sueños 
que son prodigio y encanto 
adolecen de un defecto 
no tiene tacto.

Como aventura y enigma 
la caricia empieza antes de convertirse en caricia.

Es claro que lo mejor no es la caricia en sí misma sino su continuación.


Mario Benedetti

[as carícias que começam antes do toque, que iniciam na intenção. o observar as mãos e imaginar carícias, toques, todas as intenções em tensão. ou não. as carícias que falam uma língua de silêncios onde se conversa até onde as palavras não sabem ir. pensar o que dirão aquelas mãos. e depois não querer saber. as caricias começam antes de começar mas se acabam, acabam depois de acabar, tarde demais. ponho as mãos nos bolsos e olho-te só as palavras. as tuas palavras, não as temo, erram pelos tempos sem me acertar. antes assim, porque há palavras que também têm mãos.]

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020


Como um cego de nascença a quem mostram o mar num entardecer quente. O cenário é banhado de um dourado rico, sem nome que lhe faça justiça, os azuis misturam-se, o céu, o mar, e quem nunca viu percebe que há um sem fim de azuis, que até as nuvens, entre si, são de um branco diferente. Vê o quanto tinha perdido por não ver e o quanto ainda lhe faltará ver... O fogo, o verde, as cores com cheiro das frutas maduras, uma seara dourada a ser penteada pelo vento, os amores perfeitos - aquelas cores indizíveis. Sentiu a vastidão do que lhe faltou ver, do que lhe faltava ver. O que chegou a ver, o cego guardou, como uma memória que, até quando não se recorda, se sabe, de tão entranhado ser o seu emaranhado na alma, e com o cair da noite cerrada voltou a amanhecer cego. Não se esquece do que viu - não consegue - as cores que chegou a tocar, a sentir, a viver. Não sabe esquecer o que agora lhe falta. Nunca lhe tinha faltado. 
Tens razão. Concordo agora contigo, com o que me repetias. Eu fui a melhor coisa que te aconteceu na vida. E eu acrescento: e a pior. Uma foi um acaso, a outra foi sempre escolha tua, até se tornar minha.

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Pois.
E quando as coisas começam a correr mal, duram uns tempos mal. Começou sexta, o fim de semana ajudou noutro departamento - sim, os departamentos têm de ser afectados na sua diversidade, é lei - e hoje é a continuação. Sexta não respondi como queria, ontem respondi mais do que queria e hoje vamos acertar contas. O problema de certas contas é que nunca ficam certas e estou farta que me tentem fazer de parva. Às vezes até me sai a meio duma reunião que não convém tentarem fazer-me de parva todos os dias, ao menos escolham só um ou dois, que podia ser que eu deixasse passar... bom não devia ter dito, mas as caras foram memoráveis... esta gente ainda não percebeu que eu digo o que penso e quero (as vezes até o que não quero), que não ando a trabalhar para indicadores, mas para que o serviço melhore. Que por muitos objectivos que me queiram impingir e dourar, esse é o meu, não trabalho para indicadores. Os indicadores que precisavam de ser medidos dificilmente são quantificáveis. Quando se preocupam muito com os indicadores que (supostamente) dão dinheiro, convém que esse dinheiro dure muito tempo, pelo menos tanto quanto levar a esquecer o mau serviço que eles prestam ao cliente. E eu sei e defendo que obviamente as empresas sao para ganhar dinheiro, mas como em tudo, é o como, são os meios para atingir os fins que (me) interessam e definem tudo. E onde eu acredito que depois nos servirá a recompensa. Nunca fui apologista de que cada um luta com todas as armas que tem. Luta com o que deve usar para lutar, nem tudo deve ser permitido. E não, não vivo no país das maravilhas, e o meu nome não é Alice, mas não sei fazer diferente, lamento. E hoje, vamos ver o que sai daqui... que vontadinha senhores... de ir dormir para casa e mandá-los todos... ir falar com o coelho ou enfiar a cartola onde não protege do sol ou da chuva.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

[foto via @pejac_art]

Ontem fui almoçar a casa duma amiga que ao meio dia me diz “vem almoçar connosco” e há uma familiaridade e cumplicidade nisto que me encanta. Tanto, que me arranca da cama onde a ronha imperava e se alternava com leituras em papel, podcasts de coisas que as vezes me apetecem e músicas que vadiavam pela net. Perguntei “ o que é que levo?” Responde “tu. Vem.” E hoje de manhã lembrei-me dela, não sei porquê, acho que porque dei por mim a pensar que tem o sorriso feminino mais bonito que conheço. Lembro-me de pensar isto, de o constatar algumas noites atrás numa noite em que fomos dançar e um amigo meu, que avalia despudoradamente todas as moças que conhece, e não se coíbe de o comentar, dizia que ela tinha “qualquer coisa” qualquer coisa que encantava, que cativava. Há uma inocência e uma doçura que coabitam com uma maturidade que não estraga, não se estraga. Há sorrisos que são o desenho de almas bonitas, e grandes, que moram dentro deles. Quando for (outra vez, e ainda) pequena quero ser abençoada com aquele sorriso de menina que é mulher que nunca amargou. Acho que foi o meu desejo hoje de manhã, que pelos vistos começou com sorrisos, e nem tinha dado conta. :)

domingo, 5 de janeiro de 2020

Das (boas) declarações de amor, e de intenções :))
Das que nos fazem querer chegar o fim do dia para ir ao encontro de alguém que nos faz bem e sentir bem... e rir. Das que nos fazem almejar o fim de semana para ter mais tempo para nos sentirmos bem com alguém, ou sentir que temos com quem sentir o que sentimos, essa coisa da partilha. A rir ou em silêncio.

[os domingos trazem-me muitas vezes ondas de nostalgia do que nunca tive, curiosamente... ou serão as declarações de amor? Não sei. Gosto da palavra nostalgia, isso sei, e já hoje o disse. Mas não sei se será nostalgia a falta do que nunca chegou realmente a acontecer, a não ser, comprovadamente na nossa certeza do que seria a realidade que nunca o chegou a ser... mas um dia ainda poderá ser, quiçá. As mesmas coisas, ou parecidas, a mesma cumplicidade e intensidade, ou parecida, outros personagens, um deles, isto é. Pode ser. Talvez seja]