sexta-feira, 8 de março de 2019

... e no meio de dias loucos sem tempo e de desastres à espera de me tropeçar e de tanta coisa a passar-me pela cabeça, de querer acabar com tudo e mais alguma coisa, recebo isto... e sei que cada vez me faz menos sentido escrever aqui, e que cada vez menos a Olvido me veste (ou me despe) mas depois recebo isto, e percebo que, pelo que às vezes aqui escrevo, chego a algumas pessoas que me recebem duma maneira tão bonita. Que há pessoas bonitas, afinal. Espanto-me ainda com as pessoas, mas raramente pela positiva, e surpreende-me sempre saber que o que vou escrevendo toca algumas pessoas, neste caso ao ponto de escreverem pelo próprio punho um poema que uma noite me trouxe nos dedos e que serve de marcador de livro - e atentem no trecho do texto que deliciosamente juntam... é coisa para me ter feito ganhar o dia, aliás vários dias. Talvez este espaço ainda faça sentido. Ou melhor, eu continuar a escrever para que outros leiam, faça sentido. Talvez só precise de mudar de ares. Talvez as mudanças aconteçam todas ao mesmo tempo, ou talvez devamos aproveitar umas para, com o embalo, mudar muitas que já deviam ter mudado há muito. Talvez como um novo caderno, sem olvido, uma folha branca no topo de muitas, com cheiro a novo resplandecente e uma lisura de futuro, e sedenta de letras que me emudeçam o por dentro, secando-me do que quero calar. Talvez, afinal, outra de mim, que já não é Olvido por já não querer esquecer tudo que foi esquecido. Sou já outra, noutro porto ancorada, com outro olhar para dentro de mim, cada vez mais dentro, cada vez mais meu - mais eu.


sexta-feira, 1 de março de 2019

Boa pergunta... de muitas e variadas respostas.
Algumas muito giras de dar, e boas, de boa disposição e a convidar a risos e cumplicidades,
outras de fazerem implorar que não se tivesse perguntado...
sim, às vezes é melhor não perguntar, a surpresa pode não ser boa - se a moça for má...
(há dias em que gostava mesmo de ser má, muito má, há muito quem o mereça, e quem o tenha merecido bastante, mas fico-me pela raiva que passa de braços cruzados)
[foto @minimalha]

Sob este céu escuro, quando o dia já não queima e o tempo não fervilha cada segundo no sangue, agradeço os muros que me erguem e me impõem, que me prendem na segurança inerte duma imobilidade inofensiva que impede a dor. Mas faz pensar que arrasados os muros não aprendemos a querer ou a não querer, a escolher ficar ou ir, porque os muros escolhem por nós. Talvez bem, de certeza bem algumas das vezes, mas enquanto não for escolha não aprendemos a não nos magoar, a escolher o que não nos magoará.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Nunca foi o meu forte, com o tempo, a idade e a vida, não tem melhorado, é uma falta cada vez mais apurada. Quanto mais valorizamos o tempo, quanto mais percebemos que é limitado, menos paciência se tem para o que afinal se revela pouco importante ou pouco verdadeiro. Talvez a paciência seja só o nosso nível de tolerância ao não essencial, ao não verdadeiro, ao que não fica.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Sonhei com um primeiro beijo. 
Acordei com uma pergunta.
Agora pus-me a pensar se os sonhos sabem mais do que nós queremos saber (ou ver),
se nos tentam acordar para sonhos que nos acompanham como sombras silenciosas. 
Às vezes as sombras dizem mais de nós, de tudo, que toda a realidade à luz da ilusão.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

[foto @bird.ee]

E quando a vida nos despoja de nós mesmos? Quando toda a dor e todo o sofrimento nos fazem abrir mão de tudo, quando deixamos de ter força para fechar as mãos connosco dentro - aguentando-nos enquanto podemos e temos de aguentar, e depois deixamos ir tudo porque achamos que já ninguém precisa de nós? Que somos um estorvo que não queremos ser, quando já não queremos ser nada? Quando nos falam de coisas que foram conversadas, ontem, a semana passada ou há vinte minutos, que foram ditas, que percebemos que quem nos fala sabe do que fala, e em nós apenas se abre um  imenso buraco negro... de vazio e confusão e vergonha? Não fazemos ideia do que falam, estamos perdidos, sem caminhos. Quando de repente acordamos longe de tudo ou de nada, fora de nós, e não sabemos onde estamos. Todas as ruas levam a um qualquer desconhecido e não sabemos qual a direcção para vir à tona, para nos regressarmos, para nos voltarmos a ser e a sentir, para encontrarmos o caminho para casa? Donde cada vez menos queremos sair? Lá ainda não nos perdemos.
Como fazemos quando a vida despoja a vida em vida das pessoas que amamos? Como fazemos? Como dizemos que percebemos tudo, que percebemos o medo, o pânico, a vergonha até, no buraco negro que se desenha no rosto quando se cai no desconhecido que devia ser conhecido, mas que queremos só que tenha vontade de melhorar, de viver? Que sabemos que esta vida se agarra a quem nos agarra a ela? Que a vida não é obrigação de cumprir tempo, nem o tempo nos liberta dela - a vida é o tempo. 

domingo, 24 de fevereiro de 2019

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

[foto @niravphotography]

E no precipício de luz, 
o problema nunca é o abismo, 
mas a vertigem.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

...pussy cat...

...só agora é que me dei conta que ontem era o dia do bichano - vulgo gato...
Há mesmo dias mundiais de tudo e para tudo, valhamedeus... 
...qualquer dia até há o dia de... de... de... 
...de sei-lá-o-quê!!

Não sou nada de gatos, diga-se, com aquela mania que têm sete vidas e que caem sempre de pé, que têm de ser conquistados e tratados como realeza. São elegantes, bonitos até alguns, altivos às vezes, mas de certa forma parecem-me pouco reais, de pouca verdade, de demasiadas pelagens.
Gosto de cães, da inevitabilidade daqueles afectos sem razão nem fronteiras, dos pulos quando se chega a casa de que reclamamos, da alegria espontânea que não se esconde. Gosta-se e mostra-se, não se anda aqui com joguinhos de poder e afins. E não não caem de pé, sofrem, choram, pedem mimo e vivem a vida como se só tivessem uma. e isso conquista-me sem me querer conquistar, gosta-se porque se é assim, se respira a vida assim, e só.
Bom dia!

domingo, 17 de fevereiro de 2019

[foto @dmitrygrechin]

Dos domingos.
... cada um com o seu.
O meu tem dormir até não apetecer fechar os olhos
e ronha até à luz quente nos fazer cócegas nos pés.
Vontade de andar, de passear o sol pela trela da esperança.

Bom dia!

sábado, 16 de fevereiro de 2019

"Um sol branco e desapaixonado brilhou lá no alto, no céu. Na altura, desejei afiar-me nele até me tornar santa e esguia como a lâmina duma faca."

Sylvia Plath, in A Campânula de Vidro

Comprei este livro na Feira do livro em Lisboa, quando lá passei durante o ano passado, vi-o e não hesitei, tinha há muito curiosidade pelo livro, e curiosamente, algum receio. Sabia pelo que havia lido que era autobiográfico e pelo que sei da vida dela, seria por isso um livro, não só pesado e denso, mas com muitas probabilidades de me tocarem de formas e em sítios que prefiro deixar quietos não desbravar. Quando comecei a lê-lo surpreendeu-me, era leve, fácil, corrido. A única página que foi dobrada foi aquela onde esta frase estava, porque li-a e vi, transparente, o suicídio onde ele, na história, ainda não se apresentava. Mas li, claro como água, expresso duma forma extraordinária, que descreve tão bem, tão nitidamente, uma dor que não deixa respirar, como um punhal de lâmina fina na alma da carne, o mesmo que matará o inferno de não conseguir, nem querer viver, assim.
O livro parece, de repente, mais à frente, descambar por completo, sem que consigamos identificar exactamente o porquê (ou eu não consegui, isto é)  o que aconteceu, para de repente, duma vida assente numa relativa normalidade, se cai num carrossel onde é o suicídio - ou a ideia dele - a única força motora. Fiquei a pensar se a vida será assim, tudo normal até um ponto, a partir do qual tudo se precipita num abismo que não sabemos navegar, nem queremos. A falta de vontade de tudo, a falta de um objectivo ou sentido para o que quer que seja, a necessidade de não se querer sentir mais o que se sente - ou de não se querer sentir mais, ponto. O que me impressionou foi esta clivagem, como se aparentemente não tivesse sido um processo, como se tivesse havido ali uma disrupção que alterou e impossibilitou o status quo, o ir levando. E esta frase, no entanto, mostrava já que algo latente se cozinhava no dia-a-dia que se pretendia normal e suportável, que se fazia normal, que se disfarçava sem se saber que se estava a disfarçar, que doía sem ainda se saber como ou porquê, onde de repente e sem aviso, parece que se vive o mundo dentro duma campânula de vidro que não vimos crescer à nossa volta, e que nos isola de tudo, que não deixa respirar o mundo, ser como as outras pessoas.

[foto @gabrielerigon]

Modo fim‑de‑semana. 
Versão interior, para a versão exterior juntam-se umas calças de ganga à receita 
e vai-se passear a pintarolas ao sol, que já apetece...
Apetece muito, até, e uma esplanada para um café e umas leituras... 
bem sei que isto é uma primavera de faz-de-conta que ainda andam a brincar connosco, mas o sol que apanharmos, já ninguém nos tira ;)) e eu está-me a apetecer sol, a melancolia já teve a sua estação, o seu tempo, as suas lareiras. Apetece pele agora, senti-la através do calor do sol e da brisa que corre fresca a caminho do futuro.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Realmente!!... onde é que este mundo vai parar!!... 
está tudo doido!!... francamente, não se percebe!...
...já a tradição não é o que era... Pffff
(ihihihihiih)

Boa sexta-feira, e assim sendo frequentem menos os bares  ;))

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019


A escuridão fechada na noite
Abre um incêndio ao fundo
Abismo de cada horizonte
Onde o ser se separa da pele
Onde a noite dá o salto
Onde o amor se rebela e revela
Onde tudo é uma incerteza
Tão certa que queima
Se debaixo da pele
não estivermos sós
Ahahahah
Almôndegas, portanto... também podia ser carne picadinha...
Mas é quinta, é dia de almôndegas, ‘tá certo.

Não importa o que que comem - tudo menos menos restos, isso nao (nem comer nem ser...) - desde que gostem da companhia, da conversa, do silêncio também ... e da sobremesa... ou entrada!! (também há essa modalidade, é muito apreciada e previne tampas épicas do género... ah e tal acabámos de comer vamos esperar um tico... ahahahah)...

Bom dia, e boas almôndegas ;))

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

[inagem @jesuso_ortiz]

E que bem que anda a saber-me este cheiro a primavera, esta amostra de sol e prelúdio de cor... a viagem para o trabalho torna-se mais quente,  com o olhar atrás dos óculos de sol e a luz a puxar o sorriso para fora da toca de inverno... como um dia doce à sombra duma amora :)
(ou framboesa, mas gosto mais da palavra amora, crucifiquem-me )

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

[foto de Chema Madoz]

"A tua extinção é ainda um fogo."
Vasco Gato

[Queima, mas não mata.
Arde, mas não cura.]


segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Um bom exemplo do porquê de eu gostar tanto do que este senhor escreve...
é bem verdade. Depois, se calhar, procura-se, sem sequer nos apercebermos,
sempre o mesmo em todos os lugares diferentes. Talvez no meio disso se encontre algo que surpreenda, e esse seja um novo paradigma, um novo ciclo,
tudo comece de novo - até o procurar o mesmo depois de o ter encontrado.
 O mesmo - o que nos faz sentir querer sempre esse mesmo, mesmo que diferente do anterior.

sábado, 9 de fevereiro de 2019

E enquanto faço tempo, o tempo faz-se sal e luz filtrada de cores suaves e pensamentos que não agarro debaixo das conversas voadoras das gaivotas. Há um frio que se abeira mas as ondas levam-no para mar alto, onde não me encontra. Quero que a esperança se me entranhe como as  areias finas que ainda se encontram, coladas em algum recôndito canto esquecido, passados vários invernos de se terem cruzado connosco.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019






" (...) Mas para mim, à altura da tua morte nada releva mais quando olhas para trás do que saber da qualidade da tua intimidade com quem amaste. Conseguiste criar, desenvolver, manter, cultivar, acarinhar e aproveitar o máximo de momentos da tua intimidade com quem amaste, ou não? Deitaste-te e acordaste com quem gostavas? Tentaste chegar a uma pessoa improvável (para os outros) mas que dentro de ti sabias que tinhas que tentar?"

Roubado ao (romântico do) Bom Sacana

"Foder é essencial mas dormir com quem se gosta é decisivo, sem isso não há felicidade. Claro que para lá chegar é preciso introduzir um conjunto de variáveis na nossa vida - como sorte, experiências anteriores, estarmos nós próprios preparados para fazer alguém feliz (e vice-versa), paciência, persistência, todas essas cartadas incertas - mas dá para ser feliz nesta vida com mais alguém, não acreditem no contrário. Apenas não esperem Walt Disney. Um amor sacana é muito melhor aposta, docemente viciado por conspirações, desencontros, sentido de humor negro e corrosivo, bitch para aqui e para ali, mas em todas as circunstâncias um amor muito pegajoso, solidário, trancadas contra as paredes, broches de fazer esquecer o ano em que se está, ou pelo menos boa companhia, com arte e gosto, e sinceridade. Mais vale ser verdadeiro do que perfeito."


Talvez, realmente o que levamos sejam as memórias de intimidade, os amores sacanas, todos os momentos onde fomos verdadeiros - e isso se tornou perfeito, porque assumir que se gosta do que é imperfeito, sabendo-o imperfeito mas onde nos sentimos bem, é talvez a melhor versão do que pode ser perfeito para nós - onde fomos mais transparentes, onde nos entregámos  mais indefesos mas confiantes que não nos magoaríamos ( e nem sempre assim é), quem e como amámos, quem e com que vontade os encostámos à parede,  com quem rimos cheios de cumplicidade e como nos sentimos amados. Sim , isso deve ser o que fica, o que permanece tudo o resto o peso do tempo esmaga. E ainda bem.
[foto de Ed Feingersh]

Está frio. 
Aquece-me por dentro de ti.
Está frio dentro de ti?

Se está, dá-me só um casaco,
 que umas boas botas eu já tenho... 

[these boots are made for walking...]

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019


[foto @karelchladek]

Dá-me canções monossilábicas
e músicas de silêncio inteiro
Vou cobrir os meus lábios de noite
e descobrir, na tua, a boca da lua
Quero morder a vida na tua pele
e lamber o gemido da seiva
a escorrer pela minha
Deixa-me comer a tua fome
que a poesia não me sacia a pele.



terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

[Charles Bukowski]

Cautelosos o suficiente 
para não arriscarem a vida
Seguro o bastante 
para que vivê-la não os mate.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

[foto @heinipaavola]

A natureza também “píxeliza”... 
olho para esta maravilha e é o que me ocorre, 
em vez do seu inverso, que seria o mais natural.
Gosto da imagem, fico-me a olhar o frio a tomar forma aos olhos.
O frio toma-nos em pequenas partículas, devagar, invade-nos e conquista-nos o corpo. Às vezes arrepia-nos, outras encolhe-nos de dentro para fora.
Às vezes instala-se nas almas, tornam-se frias, 
reduzem-se a operações aritméticas de sobrevivência - o frio entranha-se de tal modo que talvez nunca mais voltem a aquecer, e provavelmente nunca foram capazes de aquecer ninguém pelo lado grande.
O frio precisa de sítio propício para se acomodar e reinar. 

Está um frio do caraças!!... 
e enquanto eu sentir frio, sei que estou quente, 
e enquanto acreditar que há olhares que nos aquecem por dentro, 
 e sorrisos que nos chegam dentro,
nunca me abandonarei ao frio que gela abaixo da epiderme.
Talvez seja uma questão de fé. Ou só de estupidez. 
O frio nem sempre conserva a razão em bom estado...
... só a memória de nos sentirmos quentes.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Ahahahah... óptima resposta.
Da próxima vez que me começarem com estas  tangas,
e a perguntar se os homens por estas bandas são estupidos e cegos, 
 acho que vou adoptar esta réplica e ver as reacções :D
Muito bom!

Bom dia!

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

MADRUGADA
podes querer e podes não querer
podes fugir. ficar ou não ficar
assim, quieto. esse travo na boca
por dizer.  esse gozo secreto
das coisas a gemer lá para o fim.

Rui Costa

A campainha toca, duas facadas profundas no silêncio da casa, detesto. Uma encomenda para mim, como uma surpresa que (nos) pedimos, numa manhã atrasada como tantas outras. Os minutos ao acaso trazem à manhã já alta, e (des)composta, uma madrugada assim. Que dura o dia todo.
Há tanto na senda de esquecer madrugadas, que quero uma nova, inteira, que não seja para esquecer, que dure sempre até à próxima. Só quero noites a acabar em madrugadas que não ficam por dizer, mesmo que em manhãs atrasadas e corridas, gemam até ao fim.
E fico-me para aqui a pensar, com a boca a saber a café, que estas manhãs estão para mudar, tudo está para mudar, e dói-me como a claridade fria da manhã na pele quente da memória dos lençóis. Olho a chávena vazia e confessa-me que a vida deve ser uma dança provocante que dançamos com as oportunidades, obstáculos e vontades... talvez as madrugadas certas aconteçam quando ouvimos em cada um a mesma música. O meu tipo de música. 

Bom dia.

sábado, 26 de janeiro de 2019



...These are a few of my favorite things...

(ao jeito Von Trapp...)
Bom dia!

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Claro... não há cá taradices...
...é tudo muito decente de todas as maneiras que a imaginação servir
e apeteça ao momento e a quem o aproveita.
A única indecência é a falta de vontade recíproca,
 a obrigação ou a violência, 
as conversas porcas do favorzinho e condescendência, 
essas porcarias aqui não são admitidas. 
Isto é uma casa muito decente. Claro.


[foto @paeulini, modificada para p&b]

Estou estranhamente triste, uma tristeza seca, uma solidão de antípodas. Só tenho vontade de fugir de tudo, de ir para longe de tudo. E no entanto, é quando a solidão nos afoga de dias, que já estamos nesse sítio onde tudo nos é distante, em que todos os fios que nos fazem mundo já se desfizeram. Pairamos sozinhos no vazio, pesados como cada dia que nos afunda. Queremos fugir, mas já estamos tão longe donde alguma vez nos sentimos perto. De algo, de alguém. E no fundo talvez só se queira fugir disto, desta distância, desta segunda pele que nos fecha a alma. esta solidão que não deixa a alma respirar. Cada respiração é uma troca. E a alma tenho-a vedada, asfixiada. Quero fugir de tudo para onde me sinta. Se ainda for um dia possível voltar a sentir, a sentir-me. Trocar impressões de alma, respirar proximidade, sentir intimidade de pele - até pelo seu avesso.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

[imagem @picame]

Gente fala-barato com palavras caras. Gente que não diz nada, mas ocupa o silêncio. Não há uma ideia, já nem digo original que é pedir muito e imitar, copiar ou adaptar ligeiramente é muito mais simples, rápido e a única modalidade para quem não tem inteligência ou criatividade para mais... só sabem trocar, em vez de ser por miúdos, por palavras graúdas para parecerem melhores, mais inteligentes, eruditos, quase-(pseudo)intelectuais... essas pessoas cansam-me e de certa forma repugnam-me neste seu modo de se quererem fazer parecer qualquer coisa que gostariam de ser mas só se esforçam por parecer, e mal. Se calhar devia só sentir pena delas, mas não. É pena.

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

É mesmo isto. Esta.
A esta não falto, nem tenho de me mentalizar que tenho de ir, que me faz bem e tal... nesta pelo go a estadia, há dias que só me apetece correr para lá (devagarinho, que isto correr também não é comigo...) e depois ficar por muito tempo a dedicar-me a este exercício... isto sim é um exercício que não me cansa, que me dá prazer e sim, deste saio revigorado e não de rastos... ao outro tenho andado a esquivar-me... mas num mundo eficiente não devia cada um dedicar-se aquilo que faz melhor? Eu sou muito eficaz a dormir, mais que no ioga, só vos digo...

domingo, 20 de janeiro de 2019

“(...)’Que importância tem o cérebro’, disse Lady Rosseter, levantando-se, ‘comparado com o coração?’
‘Também vou’, disse Peter, mas deixou-se ficar sentado mais um pouco. Que terror é este? que exaltação é esta? pensou ele para consigo mesmo. O que é isto, que me enche de uma incrível emoção?
É Clarissa, disse ele.
Pois ela estava ali. “

Virgínia Wolf, in Mrs Dalloway

E fecha-se o livro com uma sensação de vazio, em que tudo está dito mas nada se desenrolou. Ou talvez sim. Porque há coisas que vão além da explicação, da razão, da acção. Como este simples facto: não somos donos de nós mesmos, podemos, quanto muito, comandar o cérebro - e nem sempre, e nem sempre é fácil - discernir a razão, ou até perdê-la, endoidecermos. Talvez haja loucuras por deixar o coração ao volante da vida, ou porque a razão deixou de servir para explicar o inconcebível.
Mas a verdade é que o que nos controla nós não controlamos, não somos sequer fomos de nós mesmos. Como se habitássemos algo ferido de vontade própria, que somos nós, o mais profundo de nós, mas que não somos ou não sabemos ser.
Nuno Júdice, in A Pura Inscrição do Amor

Comprei este livro algures durante o ano passado e passou a fazer parte da minha mesinha de cabeceira, como outros que lá ganharam raízes ou fazem parte da mobília - ainda que a mobília mude, como os sonetos da Florbela, que passaram da mesa de cabeceira de casa dos meus pais para todas as que se seguiram. Também este está sempre ali à mão de semear a noite, e as vezes abro-o, numa qualquer página, quando chego à cama. Há coisas que não têm ordem designada ou hora marcada, para mim a poesia é assim. Ou tropeço nela em qualquer sítio pelos caminhos por onde os dias me levam, ou a procuro no acaso duma página que o destino sorteia numa noite menos escura.
Hoje, aqui ainda meia na ronha, vestida de domingo, assim lhe peguei, e encontrei-me, ou a poesia encontrou-me, sorriu-me à alma em afinidades secretas. Talvez amanhã já não fosse assim. Ninguém sabe o amanhã e a poesia não é coisa com que se conte, acontece acontecer simplesmente - ainda que as promessas não se cumpram. 

Bom dia!

sábado, 19 de janeiro de 2019

[foto @nicoladavisonreed]

Hoje era dia de passeio a várias patas, 
mas com esta água a cair por todo lado só se fossemos num passeio a vários patos... 
a alternativa é a bicha a aquecer-me os pés, 
um livro e alguma coisa que aqueça a pele por dentro.
Lareira também seria bom, 
não fosse a preguiça de ir buscar a lenha cá para dentro... 
tenho definitivamente de arranjar alguém que me carregue algumas coisas, 
que me carregue (aguente seria mais o termo)  a mim também, já agora...

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019


[foto @niravphotography]

Tenho um raio de luz atravessado na espinha
Tenho uma réstia de vida presa na pele

Há luzes que não se extinguem
E só a liberdade escolhe a pele da sua prisão.

Há sonhos que iluminam
Mesmo quando se apagam.

Ficam-nos na espinha, debaixo da pele,
onde só se chega por dentro das mãos.


quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

eheheh...
...espero que não, porque senão habilitamo-nos a que a casa venha a baixo...
quando os pilares começam a ruir segurar com fita cola é só estupidez...
como alguns tipos de suposto optimismo.
Eu nunca fui muito optimista, talvez por isso nunca tentei 
remendar superficialmente coisas fundamentais em ruínas...

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

[imagem @jesuso_ortiz]

Para largar ou comer.
Para rebentar ou engolir saboreando.
Balões ou bolinhas...
Amoras ou framboesas,
Framoresas, quem sabe?
Não interessa o nome que damos, 
interessa que sejam colhidos nossos e doces.
Que nos façam doces.

(há uma sensação reconfortante em perceber que não amarguei,que apesar de tudo e de toda a tristeza, do muito que passei, e me fizeram passar, não amarguei. Entristeci talvez, mas não amarguei. Perdi o brilho mas não ganhei indignidade, nem maldade - e não me faltou vontade, várias vezes, de ser má, porque não é falta de saber como fazer as coisas, é simplesmente escolher não as fazer. Não ser assim, nem querer ser. 
Entristecer, talvez, desacreditar, muito em tanto, mas não amargar. A minha única vitória perante a vida, provavelmente.
Mas boa.)
A estranheza de um silêncio inteiro
dividido em duas palavras:
uma tua, outra minha.

Silêncio que grita
entre sílabas de nada.
Página riscada sem escritos.
Entrelinhas duma folha em branco.
A vida toda por dizer.
Todas as mortes por gritar.

Calemos o silêncio
sem palavras.

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Ahahahah
Muito boa!!
E é verdade, por isso eu devo ser muuuuuito linda
 (eu e toda a gente que vai ao centro comercial e não encrava as portas...)
Bela maneira de começar o dia... constatando como somos lindos!!
:)))))
Bom dia, lind@s!

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

[foto @spellelephant]

Vai um mergulho fresquinho??
:)))
Não sei porquê, mas este calorzinho siberiano
 não convida a sair da cama...

(também é verdade que eu sou suspeita, 
nunca me apetece sair da cama... de manhã, 
porque à noite também nunca me apetece ir para lá. 
Esquisitices, pois.)
Bom dia!

domingo, 13 de janeiro de 2019

[imagem @virgola_ ]

Domingo vestido de ronha, 
com tempo sem horas e o calor dum roupão vagaroso... 
a música espalha-se pelo quarto e canta-se pelo corpo,
enquanto se plantam planos de passeios nos pés.

Bom dia!

sábado, 12 de janeiro de 2019

Costumo ir pondo numa prateleira, por ordem os livros que vou lendo durante o ano. Esta é a prateleira de 2018. Ou foi. Depois arrumo-os por outra ordem, ainda que deixá-los assim por cronologia de leitura, ocorre-me agora, seria também uma organização gira, com outro significado, onde poderia identificar a altura da vida em que os tinha lido. Talvez não fosse tão fácil para procurar depois um qualquer livro... mas era uma ideia gira que do agora me lembrei, ao escrever isto, mas de qualquer forma este foi o meu ano em livros, falta aqui o que pernoitou para 2019 em fase de leitura: Mrs Dalloway.
Tenho por hábito copiar as passagens dos livros que vou lendo e me fazer parar para pensar para os blogues que vou tendo. Gosto de, de vez em quando, procurá-los, relê-los, outras vezes lembro-me dum qualquer trecho sem quê nem para quê, e sei que escrevi alguma coisa sobre isso e vou ler. É a forma de registo do que me marcou, ou do que gostei, ou do que me fez questionar. Afinal, como tudo o que vou deixando por aqui. E percebo que este ano foram poucos os excertos que copiei para aqui, e que de todos aqueles livros, olho e vejo uns quatro... o Jorge de Sena, o Kundera, o Sándor Marai e o Casmurro. Só depois me ocorrem o Benedetti, de que tanto gosto da escrita e poesia, o diferente Cortazar em oito contos e a Clarice que fez estranhar tanto este livro, e talvez por isso me tenha também marcado mas não me ocorra entre os que mais gostei. Olho e vejo um livro que gostei de ler, escrito por médicos ( uma iniciativa privada e que um amigo do meio me ofereceu por saber que gosto de ler), cada um uma história de um transplante, uma vida que permitiu outra vida de continuar, gostei da humanidade dos relatos e de ficar a perceber mais alguma coisa do que será o processo de um transplante e o modo como as equipas e médicos vivem também estes dramas. 
 Percebo pelos bocadinhos de livros que aqui fui deixando os que gostei mais e acho que este ano gostei (realmente) se calhar de poucos. Pode ser que este ano mude... na prateleira de livros na calha para ler estão uns tantos de boas expectativas e curiosidade de ler. Por enquanto ainda não acabei o da Virgínia Wolf e sendo o primeiro dela que leio não me está a arrebatar, mas há coisas (algumas, só algumas) que vêm com a convivência, que crescem em nós, que elas mesmo crescem e nos conquistam, por isso, quem sabe pode ser o caso. Ou outros casos. Às vezes gostava que isso acontecesse mais vezes e com muito mais coisas.
Bom dia!

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Das velhas decisões com ano novo.
Da negação que nos apanhará todos os anos, até deixarmos de negar o óbvio.
Da falsa sensação de estarmos melhor, de tudo estar melhor só porque não piorou e não queremos enfrentar incertezas, nem medos, nem verdades que nos fazem frio por dentro.
As mudanças acontecem, mesmo debaixo do manto da aparente normalidade, ou status quo, encenação não é vida e um dia o pano cai - não é por fecharmos os olhos que elas deixam de acontecer ou ter acontecido. Quanto mais depressa abrirmos os olhos, maior e melhor será o tempo para a verdade.

Eu tenho este ano uma mão cheia de mudanças para as quais não sei se tenho mãos. Tenho tentado esquecer-me que tudo vai mudar porque o vislumbre de pânico surge-me como um formigueiro cada vez que enfrento a ideia e a tento concretizar na minha cabeça. Mas aos poucos vou conseguindo. Tento que a negação seja apenas um placebo de uso conhecido e controlado. Há quem faça disso uma droga diária e talvez um dia acordem e tenham de perceber que à custa de algumas negações negaram-se o direito a viver. Realmente.

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

... só pode.
Está na altura deles, dizem.
Tenho a vida engripada, deve ser isso...

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Mesmo não querendo,
 às vezes enfiam-nos o cházinho pela goela abaixo
 que é um mimo...

sábado, 5 de janeiro de 2019

“A vantagem de envelhecermos, pensava Peter Walsh, saindo de Regent’s Park, com o chapéu na mão, era simplesmente esta: que as paixões permaneciam tão fortes como sempre, mas nós adquiríamos - por fim! - esse poder que transmite à vida o seu supremo sabor - a capacidade de nos apoderarmos da experiência e rodá-la, devagar, diante da luz.
Era terrível confessa-lo (tinha voltado a pôr o chapéu), mas agora, aos cinquenta e três anos, já quase dispensamos as pessoas. A própria vida, cada momento seu, cada gota, aqui, neste instante, agora, ao sol de Regent’s Park, era o suficiente. Demasiado, até. Uma vida inteira era demasiado curta, agora que alcançamos esse poder, para dela retirarmos o pleno sabor, para dela extrairmos cada grama de prazer, cada cambiante de sentido; agora, que prazer e sentido se tornavam muito mais sólidos, e mais impessoais, do que haviam sido até então. Era impossível que ele voltasse a sofrer como Clarissa o tinha feito sofrer.”

Virgínia Wolf, in Mrs. Dalloway

Rodarmos a experiência nas nossas mãos - como algo nosso, mas que cabe fora de nós o suficiente para a rodar à luz, para lhe ver as rugas, os defeitos e as intemporalidades perfeitas. Para, apesar disso, o relativizar no tempo, e do tempo. Para com isso todo o tempo saber melhor, saborear-se melhor, ser tempo melhor. Quase não precisar de pessoas - para isso, para ir ao tutano de cada instante. Para isso ser suficiente, para parecer até demasiado, às vezes; para sabermos como não voltar a sofrer como já sofremos, para sabermos segurar cada experiência nas mãos com um olhar honesto mas acutilante, justo mas egoista, que temos sem o esforço de o procurar... para uma alma bastar e ser a nossa, inteira. Queria isto tudo, mas antes dos cinquenta três se faz favor... se bem que se essa for a idade para os homens, pode ser que haja esperança... dizem que as mulheres costumam entender a vida mais rápido que os homens. Se calhar. Nao sei. Sei que esta clarividência me dava um jeitão na prática da vida. Só vos digo. E se lhe reconheço os contornos, falta-me segurá-la nas mãos. Ou a luz.

(mas na verdade, agora que penso nisto, depois de escrever o que escrevi, o que eu gostaria era da oportunidade de poder vir a ser tão magoada como já fui. só da possibilidade disso, obviamente. porque então estaria intacta a minha capacidade de entrega e de amar. de sofrer também. só se aprende a não sofrer demais depois de ter sofrido demasiado)

[foto @ifitwags]

Pela primeira vez acordo com um gajo ao meu lado. Moço que, lá pelas contas dele, deve ser um recente cinquentão, grisalho e carregado de charme (às vezes, garanto-vos, até faz parar o trânsito)... O único que me entra em casa sem pedir licença, a casa é dele, ou ele assim a toma, como a mim me toma por ser dele, mas só quando lhe dá jeito, pois. Gajos. Acordo quase nariz com nariz. Não abro logo os olhos, finjo-me de mula, ele não quer saber de mulas, espeta-me o nariz na cara,sem apelo, agravo ou réstia de misericórdia... Estava frio, muito frio, rai'sparta o gajo e o nariz gelado, mas abri os olhos e desatei-me a rir... não há como não. Agarrei-me a ele, numa espécie de abraço muito desiquilibrado e desengonçado, pois. Ele fica todo contente, não pára quieto, mal me deixa sair da cama, entorpecilha-me as pernas nas dele, e percebo que tem mesmo de cortar as unhas... mas a felicidade dele só por me ter acordado é coisa para me fazer levantar a sorrir - começar bem o dia às vezes parece que não custa nada. Está constipado, farta-se de espirrar no caminho para a cozinha... espero que não me tenha pegado nada, o danado do peludo com nome de rio. E como eu dizia, hoje pela primeira vez este ano, fui acordada por um moço com nome de rio, peludo grisalho, constipado, muito mimento e ciumento, a precisar de cortar as unhas e que há não muito tempo queria afinfar a teenager (lá pelas contas deles) pintarolas patuda residente neste domicílio.... e tem um nariz verdadeiramente gelado. Mas fez-me rir...

Bom dia!... hoje é dia de deixar o tempo correr devagar entre o que se quer e o que se tem... e é dia de passeio a várias patas, mas sou só eu ou está um frio do caraças?.... acho que vou ter de arranjar um casaquinho assim para a bicha ... senão constipa-se como o outro...

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

... dos espertinhos engraçadinhos

(que eu gosto, gosto quando nos batem com inteligência e perspicácia... há que lhes tirar o chapéu - e às vezes até mais que isso, conforme seja... - e admirar ;) eu pelo menos, gosto, acho piada, não resisto)

Comecemos o ano com sorrisos, mesmo que parvos :)