terça-feira, 30 de maio de 2017



[foto @leokrumbacher]

Nem sempre o sossego vem com o cansaço, há dias em que vem desta brisa da noite, deste enrolar as palavras e as pernas em mantas debaixo dum céu almofadado de nuvens, como este. Quando já sucumbimos ao cansaço e os ossos parecem feitos de espuma enquanto os ombros parecem amarrados ao pescoço por ferros, os sons da rua parecem um marejar distante num mar despido de lua. O espírito vagueia com a brisa e, distraído, nem tirita de frio, ou então é a manta que o distrai. Ao frio. Finalmente há uma certa paz que acomoda o silêncio, e as palavras saem da tímida escuridão em conversa de fazer conversa e tempo, porque tudo isto faz parte do ritual de chamar o sono, de embrulhar as mãos para esquecer o tempo que sopra o hoje e o amanhã. Encher as mãos de pequenos nadas para não nos lembrarmos que não há nada a esquecer e não nos esquecermos que a memória é uma promíscua que se vende fácil ao primeiro sonho.
Recosto-me neste cadeirão, já usado em lides mais despertas, e fecho os olhos como quem ouve música, e oiço a brisa passar como as vidas que não são minhas. Algumas arrefecem-me, outras nem me tocam. Às vezes parece que nem a minha toco ou me toca, e se esquece que me tocou, naquele tempo que mar e rio tinham prata de luar na pele. Depois lembro-me que não há nada para esquecer. Não há nada. E o melhor para olhar o nada é fumar um cigarro, o último do dia, no pensamento vazio do amanhã, o farol do sono que me naufragará.

2 comentários:

  1. gosto de fumar o meu último cigarro do dia sentada no sofá :)

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  2. O meu - a não ser que seja Inverno fechado, ou tempo disfarçado dele - é na varanda, normalmente no degrau da varanda às vezes num dos cadeirões que por lá moram, ou só encostada à parede a ver o tecto de estrelas ou de algodão... :)

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