sexta-feira, 8 de junho de 2018

[foto @nicoladavisonreed]

Fui levar a miúda, cheguei, tirei um café e sentei-me a tomar o café na mesa da cozinha. Pego nisto não sei porquê, não tenho nada para escrever nem me apetece, mas talvez seja um misto entre uma companhia e o ter-me lembrado de quando fazia deste primeiro café um ritual e tinha sempre alguma coisa que escrever, porque me surgia, porque me fervilhava por dentro, porque na altura ainda parecia sentir, talvez ainda não estivesse morta. Doía-me, sofria, mas não estava morta, amorfa, dormente. Agora escrevo não sei porquê, por companhia, para falar falar sozinha e ter a sensação de despejar o assunto, pôr para fora e ganhar espaço dentro. Depois dou-me a pensar que também já é um hábito, uma coisa que uso como solenes actas dos meus rafeiros monólogos interiores. É estranho. Piora quando ando numa fase que não consigo encontrar grande sentido na minha vida, no que ando cá fazer e para quê. E é assim que ando de há uns dias para cá, desde que deixei o Alentejo para trás. Se eu não retirar prazer da vida, a vida, a minha, serve-me para quê? Não tenho mais nenhuma e só a minha me pode servir para ser feliz, para me sentir bem, para ter pelo que valer a pena todas as partes menos boas que fazem parte, para ter pelo que acordar de manhã. Se não o tiver não é a minha vida que vivo, é outra qualquer, da minha filha, dos meus pais, das pessoas que a empresa sustenta, mas para mim não vivo. E isto não me serve, nunca serviu. Agora sinto-o mais ainda. Nada disto me faz sentido. Eu não sou assim. Por que é que não podemos ser só uma pequena parte de nós? Perfeitamente recortado num espelho que nos devolve o que podemos ver, o que podemos arranjar, tratar, cuidar? O que podemos ser sem nos sentirmos pequenos, ou demasiado vastos, sem procurarmos em vão um espelho onde caibamos. Um espelho onde todas as dimensões se espalmam à superfície e se reduzem em duas. Era tão bom poder ser só uma parte de mim, com as dimensões exactas do mundo onde acontece eu respirar. Talvez assim achasse que vivia e nem sabia, não o pensava. 

10 comentários:

  1. às vezes, muitas, sinto-me assim...haverão melhores dias Olvido!

    -___-

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    1. :)) e há, há dias melhores, eu sei, mas agora ando assim. São estes dias de chuva que me chovem sem eu sentir a chuva... gosto de sentir a chuva, mas às vezes parece que só molha. Como esta coisa da vida, sabes?
      :))

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    2. Olvido eu adoro Chuva, sou um ser de Outonos na pele, mas compreendo-te, sei bem como é adorar a água da chuva e não a saber sentir ou, pior ainda, esquecer-me o que é senti-la na pele!

      -___-

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    3. Então percebes bem o que digo ;))

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  2. Há dias assim, uma inércia constante. Não te questiones deixa fluir e melhores dias ainda estão para vir, eu acredito, e Tu?!
    Beijo terno

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    1. Gostava tanto disso, de conseguir não me questionar... mas não, não consigo, sou um constante ponto de interrogação. Enquanto não percebo as coisas não as consigo libertar de mim, e há tanta coisa que não percebo na vida, nos outros, em mim.... mas sim sei que ainda estarão para vir dias bons, quanto mais não seja porque a lei das probabilidades assim mo acalenta ;)) já aconteceu tanta coisa má e sem sentido, que deve ter sido só o preparar do terreno do resto... espero.
      Bom dia para ti, Perséfone :)

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    2. Não caminhas sozinha, lembra[te] disso. E por vezes é nas pequenas coisas que estão as respostas. Dizem também que depois da tempestade vem a bonança...

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    3. Eu acho que caminho sozinha, acho que caminhamos sempre sozinhos. Convencermo-nos do contrário é talvez uma ilusão. Mas sim acho que são as pequenas coisas que guardam muitas respostas e muitos sentidos de tudo :)
      As tempestades não podem durar sempre, eu sei :) a minha já acabou, mas ainda falta chegar o sol.

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