Com o luar da noite
Agasalho as palavras
Lanço os olhos às estrelas
E peço aos deuses em que não acredito
Esperanças por estrear
E um tempo por que esperar
O problema de passear na cidade ao fim do dia, quase como forma de recuperar a alma que nos parece fugir, é que o carro parece conhecer os caminhos. Percorre-os quase de memória, quase como dizem da existência da memória da pele, meio inconsciente meio sábia. Acontece que acabo muitas vezes a ouvir os pingos cair, num silêncio forrado de escuridão e embrulhado em cidade. E depois de parar o carro e me entornar no silêncio que bebo, não me apetece mexer, não me apetece sair, apetece-me só existir assim, onde ninguém sabe que existo, onde o mundo não tem fios, onde as figuras são só figuras e os seres apenas existências, sem mais. Sem peso, sem ter de ser, sem se esperar nada e qualquer sítio ser destino. Onde a solidão se equivale ao verbo ser, e isso ser bom, isso ser livre. Existir apenas, sem medidas, sem quereres, sem consciência do sentir. Não há liberdade quando se sente. Sentir é um emaranhado de fios que ora nos faz dançar como não sabíamos poder, ora nos embrulha e paralisa. Sem fios, não precisamos de rede, e as redes são só fios. Aqui, assim, com a chuva a entrar pela fresta da janela debaixo dum candeeiro amarelado, não há fios, ou parece que não. Por um bocadinho.
Love right, nunca à sinistra.
O amor não é uma imposição, é uma benção, um bónus, uma sorte até. Nem todos os meus são da família, e nem toda a família faz parte dos “meus”. Família nem sempre é amor, mas o amor faz a (nossa) família.
Bom Natal a todos, perto de todos os que gostam e querem bem, e preferencialmente longe da cozinha :) para onde vou agora, sem hora prevista de conclusão de tarefa… espero que dê tempo pelo menos de nao ir para a mesa jantar de pijama, como estou :D
A «PERIGOSA» MULHER
«Será que com o passar dos anos as pessoas se vão incapacitando de partilhar intimidades, assumindo uma atitude de auto-protecção?... É que aos 3… anos concluí que nunca amei realmente e que as relações amorosas pouco intensas desgastam, são trabalhosas, cansativas e mornas, é como chover no molhado. Acho que só me vou disponibilizar para viver sentimentos fortes, profundos, arrebatadores, ou seja, quentes! Isto escrito fica com mau aspecto! Quase rasca, mas escrevo-o no bom sentido. Até pareço um perigo, estou surpreendida comigo mesma!» (13.09.95.)

E no primeiro dia de férias do trabalho mas primeiro senoutes trabalhos, na loja do cidadão, enquanto analiso a distância entre o número que tenho na mão e o número atendido sinto uma olhos observadores. Certo que vejo cada vez pior ao longe , e ao perto também mas isso há menos tempo… vejo um personagem que não via há muito. Era dono de um café onde ia muitas tardes estudar. Tomava café, lanchava e as vezes voltava a lanchar, nos entretantos mergulhava nos livros. Ele era simpático, e giro que se farta, e além disso acho que engraçava comigo, com as minhas respostas prontas, o sarcasmo ou o sentido de humor. E era recíproco. Eu engraçava com ele. Com talvez mais 15 anos que eu, ou perto disso, não sei e nunca me interessou, mas que sempre lhe achei piada, achei. E hoje também. Ele teconheu-me logo, eu tive um pequeno delay, mas também lhe reconheci logo o sorriso, os olhos. O ar de galã meio traquina, mas sempre na dele. Era um bónus que não estava à espera, aqui na loja do cidadão, às nove e meia da matina, entre a senha da EDP e as Águas… mas soube-me bem. O sorriso largo, o cumprimento pronto, o olhar onde não vi os anos que passaram, e foram muitos. Vieram-me as tardes de estudo, os sonhos do que ainda podia ser, a música que ia passando durante a tarde, a esplanada quando tinha sol. E aquele homem, as vezes, por trás do balcão. Agora ali. Reconheci-o também pelos olhos, pelo olhar. Mas o que ele viu pareceu-me diferente. Estarei muito diferente, a ele achei-o na mesma, com mais… faço as contas talvez mais de 25 anos… como me viam há mais de 25 anos? O que viam? Como terá sido aquela vida estes 25 anos? Já não tem o café há muitos, isso eu sei, do resto não sei. De mim não saberá nada, talvez apenas que precisei de alguma coisa no balcão das águas… do balcão dele só sei que há 25 anos era onde eu ia pagar a conta… e ele as vezes dizia, com aquele sorriso malandro disfarçado, que tinha de ter quota quando o nosso futuro brilhante chegasse, tantas eram as horas que lhe ocupávamos as mesas. O futuro chegou mas o dia está tão enevoado… devia ter-me sentado ao lado dele e conversado. Para a próxima não hesito.
Continuo a dizer-me que não tenho o que dizer, mas as palavras às vezes parece que querem ouvir-se. Puxam-se umas às outras como crianças na hora do recreio, e tudo vai saindo não sei de onde, para dizer não sei o quê. Tenho palavras, frases que me surgem do nada, agora repetidamente. Durante muito tempo treinei-me para as dizer para dentro, para as aprender e prender ao esqueleto, para que eu não andasse sem elas coladas a mim momento nenhum. Nenhum. Agora, agora sem eu as chamar elas chamam-me, e dizem-me coisas que agora já sei, mas não quero voltar a saber. Não quero ouvir. Não quero voltar a constatar o desamor, o amor que nunca foi, a entrega a um ausente que nunca foi presente, o tempo que correu e não saiu do sítio. Não quero lembrar quando não fui amada, não quero lembrar o que foi mentira duma verdade inexistente. Não quero lembrar que fui tua por anos, e por anos depois não deixei de o ser. Não quero lembrar. Mas as palavras não me deixam. Não sei quem as traz ou o quê, que isco os dias trazem, os calmos e os apressados, para tantas vezes pescarem essas frases que deixam por dentro da minha boca um passado apodrecido, onde tantas vezes, demais, semeaste beijos que não cresceram nunca em ti. E por aí morro devagarinho nos dias claros ou cheios de nuvens. E onde antes me obrigava a dizer as palavras para me lembrar, para te afastar mal a ideia de ti me assomasse, agora afasto-as para não me perseguir um passado que não quero entranhado nos ossos, emaranhado nos passos. Preciso do esqueleto para caminhar para longe do que não cheguei a ser, do que não serei, do impossível de ser. Preciso da distância possível do impossível que esgravatei com a força do crer. Nunca soube usar o que tinha. Sempre achei que chegando, não é preciso usar nada, só ser. O resto, se existir, aparece; se não, o querer não o cria, é impossível forçá-lo, quanto muito imita-o, engana, brinca ao faz de conta. Mas uma vida de faz de conta, conta para quê? para quem? Para mim, não.
Na correria de qualquer dia
Tantas estações depois,
Tu, eu.
Dois e um bolso,
Cheio de nadas entrelaçados
Duma trança que já não é tua,
nem minha.
Que raio faz no meu bolso?
[vi esta fotografia, o semáforo onde a seguir parei deixou cair as palavras. Não sei de onde. Deviam estar num bolso e eu não sabia. Talvez há muito tempo, talvez só desde que o preto e branco da foto me acordou a retina. Não sei. Não importa. As palavras surgem-me, às vezes ainda as tento agarrar a tempo de não fugirem completamente. Outras deixo que fujam, noutras até quero.]
Perguntam-lhe altura e peso. Metro e oitenta, cinquenta e seis quilos. Lembro-me do número na balança hoje de manhã. Deu-me para me pesar hoje, sabe-se lá porquê. 56,4 dizia o visor. Na minha cabeça: mais 10 cms que eu e o mesmo peso. Ajudo-o a despir o casaco, e mandam-me sair. Vem-me à cabeça o sonho de há duas noites. Aparecia como numa fotografia, uma fotografia que há la em casa de quando era miúdo, talvez uns doze anos, o brilho nos olhos era talvez de menos. Nessa altura ainda tinha mãe, ainda que não por muito tempo. No sonho ele tinha a idade do meu pai, a mesma pose de fotografia de caça que não gosto. Mas era o meu pai, que lembro e quero lembrar assim. Direito, inteiro, com a postura que ter espinha dá a certas criaturas. Fiquei a pensar nisso, a sobreposição da mesma pose no mesmo contexto. Duas idades, nenhuma a de agora. Mais dependente do que em criança, nenhum brilho nos olhos. Sai da tac digo-lhe que está magrinho, mesmo que nunca tenha sido gordo. Diz-me que não, que já esteve muito mais magro, e vendia saúde. Quando veio da guerra do ultramar diz-me que pesava menos, mas que a vida nele pesava muito mais. Acrescentar o quê, responder o quê? Há guerras de que não se regressa e que ninguém ganha.
Há dias em que uma pessoa não sabe ao que chamar vida, e só quer que passe, como uma onda. Uns mergulham para a atravessar outros tomam impulso para se manterem à tona. Eu devo ser das que mergulham, das que fecha os olhos e reza que passe e a onda não nos sobreviva. As vezes não há ar nos pulmões para tanta onda. E tão pouca vida. Depois pensa-se no depois, quando passar o que resta? O que fica? Como se fica?