quinta-feira, 27 de abril de 2017

[foto @kat_in_nyc]

"É que o carinho entre os casais não são jantares fora nem fins de semana na praia – isso são banalidades da classe média, são agradáveis, mas não são carinho.
E a intimidade não é ver séries juntos – isso é amizade, proximidade, cumplicidade até, mas intimidade é outra coisa.
Carinho e intimidade é encostar a cabeça no ombro, é deixar pôr a mão dentro da roupa, é cheirar a pele, é apalpar a mama só porque é bom, tocar com o dedo aqui ou ali porque sabe bem, sentir a tesão do outro, mesmo que seja só para ter tesão.
Depois disso pode ser que haja mais coisas, ou então não. E não importa: já se deu a essencial."

A intimidade pela mão  do Menino como se fosse pela minha, mas muito melhor.

Não, a intimidade não é viagens ou jantares fora, é acima de tudo jantar juntos, rir juntos, sentir o silêncio juntos se sem dar pelo silêncio, é a pele não ser estranha ao diálogo, à brincadeira, é saber que juntos não é medido pelo espaço entre os dois ou pela falta dele, é uma comunicação que não se cala, é uma presença que é e não que está - é um ser juntos em vez de, apenas, estar juntos.
É um "juntos" que não é estar perto, é ser de dentro, é essência.
É ser parte do nosso essencial.
É sublimar-nos.
A essência é sempre sublime, como a intimidade.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres, Clarice Lispector

"Parou com a possibilidade de dor, o que nunca se faz impunemente"
"Eu já poderia ter você com o meu corpo e minha alma. Esperarei nem que sejam anos que você também tenha corpo-alma para amar. Nós ainda somos moços, podemos perder algum tempo sem perder a vida toda." - às vezes perder algum tempo com a pessoa certa é perder o resto da vida toda. Fica hipotecado o futuro com um pedaço de passado...
"Temos construído catedrais, e ficado do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregues à nós mesmos, pois isso seria o começo duma vida larga e nós à tememos." - os sonhos que se acalentam, se os vemos a erguerem-se do chão, onde temos os pés, temos medo, fugimos a sete pés de termos o que sempre quisemos com o medo de não ser o que queríamos, o que vamos querer sempre. Prefere-se não começar uma vida entregue a nós e ao que desejamos porque falhar é catedral maior a desabar-nos nas costas, no peso a suportar. Prefere-se nada se fazer do que falhar sonhos, antes falhar realidades, que é o quotidiano de todos, a morte quotidiana e comezinha, das dores menores, com medo de suportar a dor maior - a do sonho falhar e deixar de ter o que sonhar...
"Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar a nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa. Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que a nossa indiferença é angústia disfarçada." - grande frase esta última, o mundo parece-me demasiado cheio disto. Fingir amar para disfarçar a angústia de não amar. Penso que será ainda mais angustiante fingir depois de se ter amado, mas espero não vir a comprovar. Não gosto de disfarces nem de disfarçar e para angústia basta-me a de não saber se voltarei a amar, dispenso o fingir amar para maquilhar indiferença pura, só para não estar sozinha com a angústia duma incerteza de entre tantas...

... O passeio já não chegou a tempo para as pernas, mas os olhos ainda se passeiam nas cores-promessa do calor futuro que há-de colar-se à pele. 
Talvez amanhã. 


...era um daqueles sorrisos, que se tivesse dentes, mordia.
Sorriso franco.
Sinceramente irónico.
Inocentemente sarcástico.
Bonito, mas perigoso... talvez por isso.
Daqueles sorrisos que nos levam
e, sem sabermos,
nunca mais nos regressamos. Nem queremos.

(Aparecem-me frases, assim, sem mais, algumas não sei o que lhes fazer, não parece que sirvam para nada, vou guardando... Como migalhas no fundo do bolso ou palavras estendidas na corda à espera de serem vestidas por um fim de tarde qualquer, a seguir a uma reunião chata...agora apetece-me casa, despir o vestido, enfiar umas calças de ganga, umas sabrinas e ir aproveitar um passeio com muita pinta aos últimos raios de sol se chegar a tempo de ainda os apanhar... e é o que vou fazer. Já.)

terça-feira, 25 de abril de 2017

...acordar com um telefonema de trabalho, 
do lado de lá o riso solto agarrado a um "ahhhh voz de cama...", 
desligar, 
ler meia dúzia de páginas que falam a minha língua, 
desligar outra vez, 
agora o mundo, e voltar a dormir.
 Ahhh dormir.... coisa tão boa!!...
Acordar com uma dois pares de patas, cheia de pinta,  a lamber-me a cara... E começar o dia assim,
 com a música dos pés a acordarem o corpo pé ante pé, ao ritmo do respirar da pele.
Assim. 
Bom dia!

segunda-feira, 24 de abril de 2017

[foto @diego_durden]

Onde a desconfiança rasga, 
a intimidade quebra
Onde a cumplicidade definha, 
a mentira cresce 
Onde a distância se acomoda
a proximidade incomoda
Onde o frio se instala, 
o amor estalou há muito

Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres, Clarice Lispector

Será real, possível, escolher-se a mediocridade por se ter medo da felicidade?? Será que isto existe mesmo? Será que se consegue escolher a infelicidade? Escolher mesmo, em consciência? Isso não será contra todo o instinto de sobrevivência? Contra toda a essência?
Ou à sobrevivência chamam a intenção de evitar uma dor insuportável, que é a de conjugar a felicidade no passado e ainda lhe sentir o gosto doce a apodrecer na boca? E por isso preferir a mediocridade, desculpando-se com a sobrevivência. E essa mediocridade não será insuportavelmente dolorosa? 

[Não acredito, acredito que por sobrevivência, em tendo escolha, se escolhe sempre o que achamos fazer-nos mais felizes.]

domingo, 23 de abril de 2017

[foto @tinorenato]

De que serve o céu ser imenso 
se só vimos o que os nossos olhos alcançam?
Para que é que o mar une todas as terras 
se os nossos braços não o conseguem atravessar?
Por que é que o sol é tão forte 
e a pele sedenta tão frágil?
Por que é que o amor é infinito se os seres são tão limitados?
..., ou será por isso?

(Perguntas perguntas perguntas, e a vida não responde, acho que quando não sabe, combina com o tempo e muda-nos as perguntas...e nós fingimos que esquecemos, ou esquecemos mesmo?)

sábado, 22 de abril de 2017


[foto @kat_in_nyc]
... Onde me levas? É sábado de manhã todo o dia, lembras-te?
- vou-te levar a almoçar.
- não podemos almoçar na cama?... Humm?
- não, está sol, vou-te levar a almoçar fora!
-bahhh... Não quero, quero ficar aqui contigo, comer qualquer coisa e continuar a manhã...Entao e vais-me levar assim ao colo?
-sim, a varanda é perto... 
Riu-se e meteu o nariz entre o braço dela e o pescoço dele, cheirava a fim de semana, a ronha doce e a um dia só deles, só com coisas deles, ridículas como um dia de sol desperdiçado...

[as coisas parvas que me ocorrem por me pôr a ver fotografias...]

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Há pessoas com uma tal cara de pau, que o creme de barbear deve ser óleo de cedro, só pode (e eu não sou especialista em óleos... Nem em cremes de barbear, já agora). É o que me apraz dizer a caminho de casa a esta hora, com a espinha vergada ao cansaço e os nervos emaranhados de irritação... 
... Às vezes o ódio está a uma faísca de distância, outras incendeia sem darmos pela faísca.



Almoço com escapatória na vista. 
Escapar de quê?
Escapar para onde?
Tenho de voltar a apaziguar-me depois de tantas constatações e clarividências e sonhos reveladores de verdades sabidas e não sentidas até agora. Tenho de voltar ao antes com os olhos do depois, com que agora olho tudo. Tenho de voltar a arredar sentimentos com a força do pensar, e arredar pensamentos na força do sentir, como se arredam móveis para limpezas mais fundas, para apagar as provas do tempo que passou e se esqueceu de ser, de nos ser.
Ocupar a cabeça, limpar anos inteiros e afastar palavras antigas embrulhadas em papel de rebuçado, que afinal são doces baratos para todas as mãos. Mas não é novidade. Nada é novidade. Não há novidades que se aproveitem nos dias. Nao, não posso dizer isto, é injusto, algumas novidades vão sendo boas, por não piorarem nada, por serem bons sinais e nos deixarem poisar e respirar um pouco. Há coisas boas. Que há. Pena haver ainda tantas más agarradas ao sangue que sente e circula vezes sem conta por dia, pelo corpo acima, pela alma abaixo. Precisava de purgar a vida disto tudo. Ou talvez ela mesma o faça. As palavras só já não chegam, precisava de mais, de muito mais, que é tão pouco.

Tenho medo do vento. Não sei voar. Descasquei as feridas das asas que me descalçaram, e não nasceram mais. As asas não eram minhas, nunca soube voar. Tenho medo das mãos de vento e dos corações de corrente de ar. 
...e  a minha companhia patudinha para esta sinfonia do vento tem tanto medo como eu, parece-me. E qualquer dia não cabe no caixote. Eu já não caibo há muito tempo e ainda tenho medo. Preciso dum caixote maior, para ela e para os meus medos. Eles também já não cabem no caixote. Mas disso já não tenho medo, sei que eles se moldam para caber, ajeitamo-nos a disfarcar a falta de espaço, porque livro-me de poucos... Mas tenho cada vez menos medo que me descubram, que me saibam, e cada vez mais medo de me descobrir e de me saber como não me quero, como não gosto. Os outros importam-me cada vez menos, aqueles que não são meus e de quem nada sou. Dos meus tenho cada vez mais medo que descubram que me falta tudo o que gostam em mim. E isso cabia no caixote.

quinta-feira, 20 de abril de 2017


A noite está boa, de quase Verão. Há coisas que não faz mal serem quase, outras que se forem quase, não chegam a ser nada. As vezes o quase é estar tão perto que nunca se chega, outras o quase é já ter chegado a algum lado, mas não exactamente onde se quer. Às vezes é difícil saber se isso é alguma coisa - se nos serve de alguma coisa, e ao que queremos realmente, à nossa felicidade. Se quase servir, não é. Quando não se sabe o que se quer, qualquer coisa serve e não chega a ser quase. Não serve de nada, para nada. É um quase nada. 
Como isto que escrevo, que me surge do nada por quase nada, numa noite de quase Verão, com o último cigarro nos dedos quase fumado. Quase não tenho frio, mas ainda tenho.

quarta-feira, 19 de abril de 2017


Quando passo por fotos como esta que me lembram sessões de cinema, lembro-me daquela vez em que me saiu - sem filtros - a frase "apetecia-me ir ao cinema, mas não ver filme"... houve quem tivesse achado piada à frase, quem se tenha rido e a tenha sentido (penso eu), mais do que entendido, como eu a senti sem pensar, quando me saiu. Pela piada que lhe achou ou pela semelhança de ideias, não sei, guardou-a na algibeira das conversas para a ter sempre à mão para me dar de troco. E deu, várias vezes, acompanhado dum sorriso que me endividou a alma.
Ainda me lembro. Mas já quase não.
Agora lembrei-me, mesmo não sendo dia de cinema, mas apetecia-me. Não o filme.
(é melhor sair destas quatro paredes enquanto há luz e sol e não fazer mais filmes... nem dizer mais disparates, ou tentar)

...pois eu só há um e mais nenhum, autocarros é o que há aqui mais... 
ehehhehe

Bom dia


Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres, Clarice Lispector

"Parou com a possibilidade de dor, o que nunca se faz impunemente"
"Eu já poderia ter você com o meu corpo e minha alma. Esperarei nem que sejam anos que você também tenha corpo-alma para amar. Nós ainda somos moços, podemos perder algum tempo sem perder a vida toda." - às vezes perder algum tempo com a pessoa certa é perder o resto da vida toda. Fica hipotecado o futuro com um pedaço de passado...
"Temos construído catedrais, e ficado do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregues à nós mesmos, pois isso seria o começo duma vida larga e nós à tememos." - os sonhos que se acalentam, se os vemos a erguerem-se do chão, onde temos os pés, temos medo, fugimos a sete pés de termos o que sempre quisemos com medo de descobrir não ser o que queríamos, o que vamos querer sempre. Prefere-se não começar uma vida entregue a nós, e ao que desejamos, porque falhar é catedral maior a desabar-nos nas costas, no peso a suportar no caminho que faltar andar. Prefere-se nada se fazer do que falhar sonhos - antes falhar realidades, que é o quotidiano de todos, a morte quotidiana e comezinha das dores menores - com medo de suportar a dor maior, a do sonho falhar e deixar de ter o que sonhar...
"Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar a nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa. Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que a nossa indiferença é angústia disfarçada." - grande frase esta última, o mundo parece-me demasiado cheio disto. Fingir amar para disfarçar a angústia de não amar. Penso que será ainda mais angustiante depois de se ter amado, mas espero não vir a comprovar. Não gosto de disfarces nem de disfarçar e para angústia basta-me a de não saber se voltarei a amar, dispenso com a força da vida que me resta nas veias, o fingir amar para maquilhar indiferença pura, só para não estar sozinha com a angústia duma incerteza de entre tantas...

segunda-feira, 17 de abril de 2017


Estou eu a fazer o meu jantar com alguém aos meus pés ( o que poderia ser um bom augúrio... não fosse o jantar ser só para mim e o ser aos pés ter quatro patas e pêlo a mais...) como já é hábito e lembro-me de aqui há uns dois anos alguém me dizer "Ah e tal porque é que não arranjas um cãozito?"... E eu responder... "Irra ainda não estou assim tão encalhada!!...acho que esse deve ser o último reduto... Eu ainda só estou encalhadita, vá... "
E, pronto, é isto... tenho a pintarolas enrolada nos pés. Valha-me o rir-me das minhas próprias parvoeiras...


Irrita-me já não escrever como dantes, dói-me como se me tivessem arrancado um bocado de dentro de mim à dentada, e a frio. Irrita-me porque sei que não escrevo assim porque já não é para ele que escrevo, já não é para ninguém que escrevo, escrevo para me falar, só. Não para me dizer a alguém. Só para mergulhar em mim e chegar-me a sítios onde não me chego se não estiver fechada dentro duma folha em branco com palavras. Uma dimensão de mim que agora só existe em palavras, em sons, em sorrisos por dar e palavras guardadas por dizer. Um a dimensão de mim que morreu e respira pelas palavras e suspira entre virgulas, agarra-se às reticências como a uma cura por vir não prometida.
Às vezes vou passear por outras vidas, vidas minhas que já não são, vou ler-me e surpreender-me com o que dantes me saía dos dedos da alma, e há uma revolta daninha no peito que me esmaga por já não saber escrever assim, de já não sentir assim, de já não ter a quem entregar as palavras para me saírem assim. Leio-me no passado e espanta-me terem saído de mim, e entristece-me que tudo tenha sido para ele, dele, e que nunca nada tenha sido suficiente. Se o melhor de mim não chegou, se não chega nunca a ninguém, para que sirvo eu? E agora ainda mais, amputada de sentires e de palavras, que se não as tenho sem ele, eram dele. Se não fossem dele não desapareciam com ele - e a revolta esmaga-me o peito ao ouvir-me por dentro, por sentir, por perceber isto; revolta que não se domestica nem acalma. Se fossem minhas as palavras, ainda as tinha a lavrar os dias como quem lavra o vento, incessantemente, pelas velas enfunadas da alma. 
Fecho-me dentro de palavras antigas e vejo que havia uma parte de mim arrendada, ou talvez tomada de assalto, invadida, que era dele, era ele em mim antes de o saber ou conhecer, habitava-a  e habitava-me, e eu que pagava a renda, religiosamente, todos os dias com amor, com ternura, com desejo, e ainda assim fui despejada. Despejada de mim, despejada por ele, sou devoluta de mim mesma. Quero habitar-me, devolver-me, apropriar-me de mim e das palavras que me espelham, que me são, que sou. Quero ser casa própria em todas as assoalhadas. Não quero ninguém em mim que me seja mais eu do que eu.



Se calhar a simplicidade mais pura, mais feliz, é quando se está sozinho. Estava a pensar nisto quando à tarde num passeio a seis patas pelas redondezas me deparei com esta frase da fotografia. Faltava-me aquele bocado... quando se está sozinho sem inquietação. Sem solidão. A solidão é a falta de alguém, de alguma coisa, e toda a falta que corrói é o espaço duma inquietação. 
Se calhar a simplicidade mais pura, mais feliz, é quando se está sozinho em paz.

[fiquei a pensar que àquela frase só falta o "n" em reinventar, mas que, de resto, está lá tudo. Agora quando a pus aqui fui pesquisar a autoria da frase (quem teve a indecência de a pôr lá, teve mais decência intelectual que muito pseudo-intelectual erudito por aí, que não põe aspas no que não é seu..) e descobri que é de Vergílio Ferreira, no livro "Alegria Breve", que não li. Gosto muito do que escreve, um dos volumes do seu "conta-corrente", é meu livro de cabeceira, para reler às vezes numa página aleatória, há vários anos, porque faz-me pensar. Como esta frase acabou, completou, o que vinha a pensar no silêncio doce dum passeio de domingo vagaroso a seis patas e muito sol.]

domingo, 16 de abril de 2017


A danada a roer-me uns chinelos...
A danada apanhada, já sem o chinelo nos dentes...
A sacaninha com ar quase arrependido...
... Mais um domingo de manhã, daqueles domingos com aquelas manhãs que duram até quisermos, duram quase até à noite. 
Há dias em que só me apetece ver o sol passar da minha varanda. Eu passeio os olhos pelo passeio dele e ele passeia-se-me na pele. E durante estes passeios, às vezes, consigo não pensar em mais nada... E então a alma descansa, domingueira.