sábado, 2 de julho de 2022


 Hoje foram mãe e filha, a serem passeadas e a passearem. Correram até ficar assim, deitadas mal parássemos. Elas deitadas com a língua de fora e eu à espera que a pequenitates fosse comprar o pão. O dia está solarengo e a temperatura está boa para passeios e para respirar fundo a vida fora das exigências da semana. Parecem sempre tão poucos é tão curtos estes bocadinhos, como se a vida a sério fosse tão curta e suspensa em instantes de eternidade. Agora, já em casa, um brunch é um café depois o sol continua altivo lá fora e eu deixo-me abraçar por uma certa moleza dominguenta (pode dar a qualquer dia da semana..) que se poderia confundir com sono. Se calhar é só vontade de sonhar :)

domingo, 26 de junho de 2022


 As duas ainda em jejum. Ela danada por correr, eu por a soltar e mergulhar os olhos no céu. Não podemos, há um outro cão no jardim. Temos de esperar, dar voltas, até podermos fazer o que queremos. Ter o jardim para nós. 

E o outro meia leca la foi à vida dele e ela corre como se as pernas tivessem vontade própria. E é bom de ver. A vida assim. Tão simples e ela tão contente. Eu mal acabe este registo de mais uma manhã de domingo, e antes de continuarmos a caminhada, deito-me na pedra e conto os tons de azul do céu, e descubro tudo o que está escondido nas nuvens e só eu vejo.

sábado, 25 de junho de 2022

 

Ainda não sei dizer, ainda não tenho dentro da boca as palavras. Ainda não consigo dar as respostas que gostaria, e quero, dar. Nem sei se vou ter, ou conseguir, não sei e não tenho certezas. Quase todas as minhas certezas morreram de desilusão, mas sei que há coisas que não se fabricam, não se forçam e é tolice pensar que podem ser exigidas: o amor, a paixão, a ternura, o afecto. Por muito que se faça e procure, ou tentem provocar, não surgem mais depressa nem por decreto, têm o seu tempo para nos assomar à boca e fazerem de nós uma casa onde sabem que moram, uma certeza que se sente, que nos fazem sentir. Tudo o resto são erros, com ou sem engano, com ou sem agenda própria, com ou sem ou maldade, mas são. Se me faltam ainda as respostas, não respondo, não manipulo, não engano, mas também não sei disfarçar, nem quero. Quando for, é inteiro. É verdadeiro. Não sei, nem quero doutra maneira.

[numa outra vida lembro-me de dizer (ou escrever, já não sei exactamente, provavelmente escrever, porque há coisas que digo melhor a escrever) a alguém, que percebia as represas que lhe guardavam as palavras. Por isso nunca pedi, nunca perguntei, nunca quis algo que não me quisessem dar, dizer com espontaneidade, com vontade. Pensei que se algum dia a necessidade de dize-las fosse maior, por já não caberem dentro, por a força de sentir e dizer ser maior que a necessidade de as prender, de as recolher em segurança, então eu saberia, então eu ouviria. Então só poderia ser verdade. Só assim poderiam significar alguma coisa, tocar-me, chegar a mim. E chegaram, sem pedir, sem perguntar, sem alguma vez exigir, chegaram livremente, espontaneamente, e disseram tudo. Tanto. Demais até, mais do que certamente a verdade permitiria, do que permitiu. Desse pecado não sou pecadora, mas sofri penitências demais. É pena que nem todos saibam o peso das palavras inteiras, o que dizem se não querem dizer. O que acrescentam quando a tal ponto nos dizem que o estão a afirmar, ali naquele momento (lembro-me tão bem ainda, perfeitamente), nunca antes nos disseram, como se essa novidade fosse carimbo de verdade. E não foi. Noutra vida. As vidas estão todas ligadas, somos nós, por muito que deixemos para trás essas outras vidas, que já não são os nossos dias, elas estão em nós, plenas de sombras e de raios de sol de que nos abrigamos. ]

quinta-feira, 16 de junho de 2022

 Sou muito de sofá, e de filmes e de ler. De varanda no verão. De música a cantar a disposição das manhãs de fim de semana, de cães pela casa toda e em cima dos meus pés, às vezes até ao colo, poucas a passear ou a correr. Sou daquele feitio de ser demasiado directa, de dizer o que penso,  sem dar tempo para pensar em como o dizer, e por isso o chamarem de mau. Nunca conheci nenhum manipulador a quem chamassem mau feitio, esses arranjam forma de não desagradar a ninguém, ainda que a poucos agradem verdadeiramente. Sou de intensidades desreguladas, e de voos sem rede e sem pensar. De dar tudo sem pensar no que fica. Sou de amar devagar e às vezes em urgências que queimam. Sou? Ou penso que sou, porque fui? Já não sei como sou ou o que sou, não sei de mim o que restou depois do que me roubaram, e eu entreguei sem pedirem. Sei, ou acredito, que a nossa essência não morre, e o que formos virá à tona dos dias, da vida, tantas vezes com uma força que já não reconhecemos, nem suspeitaríamos... assim aconteçam os amanheceres que a despertem, assim nos descubramos uma e outra vez, na mesma mas diferentes. Será? 

[foto @moniblanco]

Hoje é noite de dormir com as janelas abertas, é dia de beber esta escuridão com as estrelas a tilintar nos olhos fechados, como pedras de gelo num copo de fim de tarde a derreter o calor sem cerimónias enquanto nos despedimos do sol, e sem saber, de toda a vida até aquele momento. Da praça sobe um murmúrio de vozes que me chega como uma especiaria de silêncio, apimenta a imaginação por outras vidas, tantas conversas, risos espontâneos e vivos, que não se contam, e onde nada se desconta. Como se a vida fosse inteira, sem gomos nem dias, só agora. Só agoras. A brisa de seda que me escorre pela pele lembra o despertar do verão e o calor que as noites devem ter, onde as almas se abrem de par em par, como as janelas fechadas da minha varanda. Às vezes o verão tem de entrar devagarinho e tomar conta da casa, ainda com os agasalhos espalhados pelo chão. Ainda com o pó de Outonos pelos cantos. Gosto quando o verão entra pelo lado da noite. Hoje é noite de abrir as janelas, mas a escuridão não dorme. Talvez eu também não, só a vida parece ter adormecido por meros instantes.

domingo, 12 de junho de 2022

 

Nina Simone a passear pelo ar da casa domingueira (“do what you gotta do”)…e a assentar-lhe maravilhosamente. Fazer um mini brunch sem a mini pequenitates - cada vez menos Mini -cá de casa tem alguma estranheza entranhada, agora acabam sempre mais caprichados (e esquisitos) quando ela está, mas apeteceu-me. Não sei se o sol pela janela já trazia a Simone no silêncio quente da luz que nos invade, ou se a Nina é que trouxe a vontade do brunch porque apetece mais com sol que se pode dançar. E olho para este meu velhote mimado  enquanto como, a cobiçar a minha torrada e gosto da vida que tenho. Gosto, nem sempre é assim, ou nem sempre o vejo, ou esqueço-me vezes de mais de o sentir (o trabalho e aquela gente doida mete-se muito no caminho disso) mas estou aqui e estou a pensar noutro brunch a acontecer agora em Lisboa, dum miúdo que adoro, que quero que seja muito feliz. Com tudo a que tem direito, sem meias tintas ou meias felicidades, que meia felicidade é metade duma infelicidade inteira, Como desejo a todos que gosto realmente. Estranhamente, duma forma ou de outra, tenho sentido muito carinho (as vezes de formas estranhas que se calhar só eu vejo, mas sinto-o) das minhas pessoas, das que escolhi para serem também a minha vida. Das que me ouvem, das que me procuram. Mesmo os doidos varridos, e os inconvenientes. E o miúdo, que no meio do seu carrossel de vida ultimamente, a caminho quer saber se estou bem. Estou. Melhor assim.

sábado, 11 de junho de 2022


 Venho passear a bicha e a caminho daqui uma frase que insiste na minha cabeça por atenção: às vezes o tempo anda mais depressa do que nós aprendemos a andar. 
Ou já desaprendemos. Acho que desaprendi quase tudo, e o resto o medo come devagarinho. O único lugar seguro é não querer ninguém, é uma solidão desejada que se aconchega ao destino, uma noite de cada vez. Até que uma noite é diferente. Mas já não sabemos andar como se o tempo nos tivesse guardado conservados em medos e sonhos impossíveis. 

domingo, 5 de junho de 2022


Enquanto ela corre à velocidade da vontade, eu deito o esqueleto numa vontade de vagar num muro feito banco de pedra, e ofereço o peito ao céu. Tudo menos pedra. E os olhos, presos num céu tão longe de um azul tão perto, distraem-se no lilás que enfeita o azul sem estragar… e nem dou pelas nuvens que já trouxeram chuva a estas palavras, e a tantas outras antes destas. Tanta chuvada até aos ossos, que não sei como da alma não restam só ossadas. 

segunda-feira, 23 de maio de 2022


 Bom conselho. Acho que a moça tem razão... se não for antes de sair de casa, acho que no carro enquanto o semáforo não cai em si também é um bom começo de conversa com o dia... :)
Dançar é sempre uma boa solução, ou um bom começo para qualquer coisa, ou o melhor fecho para momentos que ficam. 
Dancemos enquanto a alma ainda ouvir...

Bom dia!

quarta-feira, 18 de maio de 2022


Dos sorrisos 
Da cumplicidade.
Do aconchego.
Do adormecer aninhado.
Da proximidade que não é invasão.
Do amor, mesmo que estranho.
Do não ser estranho amar.
Do amar não ser estranho.

quarta-feira, 11 de maio de 2022

 Aqui o céu ainda não acordou, está sonolento e sem cor, mas o dia promete calor nas previsões do telefone esperto. Paro no semáforo e reparo que estão a vestir com a coleção da nova estação aquele canteiro onde há tempos presenciei a paixão em movimento. Um mocinho apaixonado, sai do carro a correr para ir arrancar uma flor amarela como o sol que agora falta no céu, e correr outra vez para o carro. Não lhe vi a cara, mas sempre que penso nele acho que teria um sorriso sem tamanho que o rosto pudesse comportar. Será que ainda sorri? E sorrio eu a pensar em tudo isto. E o semáforo vira verde. Bom dia! Temos de acordar o céu :)

segunda-feira, 9 de maio de 2022



 O antes e o depois. 

Ohh mãe estas cores no meu quarto já são muito infantis... e então, tal como há alguns anos atrás, com uma cómoda, uma caminha de grades e uns espelhos em madeira em bruto que resolvi pintar com as próprias mãos - manias de querer coisas “com alma” e gostar de as fazer... - resolvi tirar uma semana de férias para lhe tratar do quarto. Regressadas do fim‑de‑semana estrelado no Alentejo, pus mãos à obra. Comprei abat-jours e tapetes, empoleirei-me em cima dum banco em cima da cama para passar de dois candeeiros a um, e não morri: nem de queda, nem de choque (desliguei o quadro geral, pois)... e olhem que não foi fácil voltar a ligar os fios, mas ficou feito, com a minha filha a agarrar-me as pernas para cairmos mais aconchegadinhas caso fosse dar-se essa eventualidade macaca... findo a parte “fácil” do processo foi pegar na nova companheira de guerra comprada para o efeito e ficar lixadinha da vida a lixar a cómoda para acomodar cores “mais adultas”. Uma dor no polegar e pulso depois, temos tudo lixado - o que convenhamos não é novidade, só não costuma deixar-me a mão direita meio inutilizada para a vida... - então começa a parte mais gira de pintar. Ainda por cima ia experimentar uma técnica que nunca tinha experimentado nestas lides - stencil. As primeiras saíram uma cagada, nos espelhos - cobaias - que dantes eram de cores alegres e vivas, mas que foram mais rápidos de lixar... há casos assim... é a vida! No último espelho a técnica maravilha, combinação das várias que tinha pesquisado, estava descoberta :) ! Portanto hoje depois duma caminhada com a tracção às quatro que me soube pela vida - e ainda tive um carro a parar ao meu lado e a afirmar muito convictamente: “que belo animal” e eu agradecer mas não saber bem se tinha sido um elogio para a bela cadela, ou um insulto velado para mim... fica a dúvida - lá consegui terminar a empreitada!! E gostei do resultado. Gostei. Adoro fazer estas coisas. Estou com as mãos numa lástima, é certo, mas gosto. Embrenho-me nisto, ponho música ou as vezes até me esqueço, e ponho-me a fazer coisas que me saem das mãos, mas me nascem muito mais dentro. Gosto e gostei que depois do trabalho de uma semana de férias, e todas as horas livres da semana de trabalho seguinte, tudo estivesse pronto na véspera de aniversário. Que por acaso - ou não tanto, há coisas que a razão apenas desconhece...- é dia de aniversário do meu pai. Sim, a minha vida é uma tourada, muitos touros na arena, eu sei... e então foi todo um outro corrupio, mas tudo se fez. E agora estou aqui, em frente ao último copo deste vinho que adoro, a fazer um resumo do dia, das emoções e da trabalheira das duas últimas semanas, com as mãos a precisar de creme e as unhas de verniz e eu... eu de acabar o copo de vinho, de que bebi toda a garrafa... menos um copo e meio que bebeu o aniversariante. E ele deu conta. Que eu bebi o resto tudo, quer isto dizer... vou dormir bem é o que é, mas eu mereço! :) e amanhã, amanhã tenho uma filha com 16 anos. Não me acordem, por favor.

sábado, 7 de maio de 2022

 Deito-me com a estranha sensação de estar poisada no sorriso branco e cúmplice da lua, e enrolada no manto negro costurado de estrelas que trouxe do Alentejo. Como um sorriso que só nos entendemos, sem conseguir explicar. Como a estranha sensação que me abraça sem braços, que me envolve como quem paira por dentro, sem licença ou aviso. Como uma esperança com medo de ser que já respira. E não é que esta estranheza me seja estranha, mas é estranha a sensação de quase me ser conhecida, e quase esquecida... como quem reconhece ao longe um velho conhecido que já nos foi tão perto, e nos lembrarmos que já não nos lembrávamos dele, mas que reconhecemos. Ainda. 
Ou então foram as duas garrafas de vinho, as gargalhadas, a companhia, não sei. Do outro lado da janela, enquanto fumava o último cigarro às escuras da luz da lua, ela sorria-me, mas não me disse... mas sabia, tinha todo o ar disso, penso agora. Estava com ar de gozo a danada. 

quarta-feira, 4 de maio de 2022

Antonio Barahona

 Agora volta-se para casa sem eternidades no bolso e cheios de tempo para apagar. A paixão tem esse sangue que nos faz pulsar de vida, deixando-nos ao mesmo tempo sem ideia do marchar do tempo, como se tudo fosse agora, como se tudo se reduzisse ao agora, e o agora fosse pleno, de passado e futuro. Tudo agora, já. Mas neste momento, o tempo é indistinto de ontem ou amanhã, e o agora é só uma espera na transição do que não muda, ou chega. Meras folhas de calendário rabiscadas de marasmos quotidianos que não ficam para contar nenhuma história. Então entretemo-nos a ver o sol descer o céu, as árvores a acenar ao vento e a escrever sobre eternidades perdidas nos sítios onde foram agoras, sempre.

quarta-feira, 27 de abril de 2022

 
Chegar foi uma aventura, chovia a potes e já de noite... ela dormia, e a cadela olhava para mim como que a perguntar para onde raio estávamos a ir que nunca mais chegávamos... finalmente, e depois dum caminho que me pareceu demasiado comprido e dificil, já céptica das indicações e do gps, chegámos. Íamos experimentar o chamado glamour duma tenda no meio da natureza... a parte da natureza confere, a do glamour... bom, depende do conceito de cada um. Uma coisa era indiscutivel, ali, no meio de coisa nenhuma, o silêncio e a escuridão eram os donos daqueles primeiros momentos. Dormimos. Nunca tinha dormido num sítio onde a escuridão tinha mesma exacta medida de olhos abertos ou fechados, era incrível, eu abria e fechava os olhos e o negro era o mesmo, sem réstia de luz, claridade ou sombras. Onde não há luz não há sombras, só nós. No dia seguinte o frio e a "casinha" ao lado da tenda era de tal forma arejada que não arriscámos uma pneumonia em troca dum banho, adiámos para quando o sol estivesse mais alto e quentinho. O pequeno almoço animou-nos e a simpatia de quem nos recebeu também. A quatro patas sempre animada com tanto para cheirar e explorar foi quem desde logo se notou que iria curtir mais o fim de semana e a aventura, ainda que apesar de todos os esforços não tenha conseguido afinfar nenhuma lagartixa, por muito que se tenha esforçado no seu estilo de caçadora não praticante. À noite o céu era de cortar a respiração, duma imensidão e nitidez como não me lembro de ver -  vantagem de não se avistar civilização, ou luzes que o denunciassem. Dava vontade de inspirar aquilo tudo, de respirar fundo, de mergulhar naquele silêncio, fazer arte dele e do céu que nos faz tão, mas tão insignificantes. O brilho das estrelas naquele fundo tão negro deixou-me de nariz no ar ao frio bastante tempo.  O suficiente para lembrar outros céus onde perdi a conta às vezes que fechei os olhos para formular desejos, até deixar de ter desejos e continuar a ver estrelas a rasgarem o céu até desaparecerem nalgum sitio onde deixaram os meus desejos, perdidos à sua sorte, ou à minha (e bom... já se sabe, né?). E lembrei-me disto e sorri, pensei que se alguma me caísse ali, naquele momento, no regaço do olhar não teria desejo para lhe entregar... e depois passado instantes voltei a sorrir quando uma estrela rasga o céu para se perder algures escondida do meu olhar, e eu sem desejo que iluminasse a ironia... mas acabei por desejar alguma coisa, agora de olhos abertos. Agora sempre de olhos abertos - postos no céu, é certo, mas abertos. Escrevi qualquer coisa nessa noite, mas perdi tudo, rede era coisa rara e talvez isso seja bom algumas vezes. Mas as palavras raras, e saídas debaixo daquela malha negra e brilhante de estrelas, perderam-se... talvez tenham encontrado outros caminhos, ou não chegaram a ser caminho.

Os dias seguintes foram de passeio e de lamber com os olhos as paisagens que me encantam a cada vez que me perco pelos encontros com o Alentejo. Passeios de carro, alguns a pé, revisitar algumas praias, voltar ao Sacas, aos croissants deliciosos em Milfontes, música sempre pelo caminho e vários dedos de conversa. 

 Depois o regresso, cada vez mais com olhos postos numa volta que se quer breve e prolongada (e em placas "vende-se"). Mas não, acho que não me voltam a apanhar no glamour duma tenda... agora o resto das férias, já em casa, têm sido dedicadas à bricolage e a um sem numero de coisas para fazer que até me apetecem fazer, ou então é esquecer o regresso ao trabalho que me apetece... isso e não me lembrar que tenho de aturar gente doida...

quarta-feira, 20 de abril de 2022

 Paro o carro e procuro no silêncio as palavras que perdi pelos dias. As que não disse, as que me roubaram momentos e me reduziram o silêncio a uma densidade admissível. Tenho agora poucos momentos que dêem tempo para as palavras me aconchegarem, procuro-os pouco e talvez procure não os procurar, não os precisar. Mas depois, depois penso onde fico eu no meio destes dias assim, onde não tenho tempo para me falar, para navegar a densidade dos silêncios onde repousa a nossa essência. Os dias são paradoxalmente demasiado leves por rasparem apenas a superfície, e demasiado carregados de trabalho que não deixa os pensamentos respirarem fundo, como se além do fazer não houvesse mais horizonte. E agora, aqui sentada, acho que tento recuperar os horizontes, e o silêncio que alimenta essências.

sábado, 16 de abril de 2022


 Não acredito em grandes mudanças apenas em grandes embustes, mas há coisas que vão mudando sem darmos conta - essas sim, são as que mudam, lentamente e de dentro- os gostos também se alteram nalgumas coisas, devagarinho... dantes eu não gostava de vestidos compridos... agora adoro, são os meus vestidos de verão, leves, com brisas de movimentos que lhes dão vida, além de corpo. As minhas cores não mudaram, são geralmente escuras, entre pretos, terra e fogo... que não o vermelho óbvio, que nunca constou da minhas preferências: o óbvio e o vermelho, isto é. Nas unhas também nunca fui de modas, preto, castanho, vermelho escuro ou vinho em vários tons, ou então quase branco. Nunca fui dos amarelos, verdes, laranja, azul eléctrico ou cueca, ou outros chamativos do olhar. Mas hoje experimentei este azul cinza... e ainda não sei bem se gosto, mas sei que há uns anos atrás nem teria vontade de experimentar... devagarinho os gostos mudam, olhamos outras coisas e vemo-las diferentes em nós, ou percebemo-nos diferentes aí. Não sei. Entre mãos ainda tenho livros, ainda procuro outras mãos para agarrar caminhos, para me agarrar, ainda quero deixar-me mudar devagarinho para ser cada vez mais quem gostaria mais nada de ser e como. Nessa altura não sei que cores andarei a experimentar, ou se gostarei cada vez mais dos regressos reforçados de mim. 

sábado, 9 de abril de 2022


 Uma coisa ou outra. 
Mas eu apostava na outra, da maneira que isto está...  


 Este ano ainda não tinha tirado a foto da praxe. Vergonha, talvez. O ano passado só aviámos 9 livros, sendo que o do Afonso Cruz nem conta bem, de tão levezinho que é. Acabei o Quarteto da Alexandria, e gostei, gostei do MST, a sério que gostei e aprendi umas coisas... ainda que seja um formato diferente, mas deu-me uma fome imensa de fazer o que fez e descreve ao principio, ir para uma vila de pescadores no fim do mundo deixar que a paisagem que vê lhe ponha as palavras por ordem de escrita. Fiquei com uma vontade imensa duma licença sabática dessas, para mim, para as palavras, para as paisagens. Uma especie de retiro alentejano dos meus, mas prolongado e afastado - ainda mais. O Julio Machado Vaz é já quase um hábito, gosto de o o ouvir e de o ler, aprendo sempre. Há frases daquele livro que muita gente devia ler, muita gente devia reflectir. A louca da casa foi uma surpresa ao reconhecer muito do que se diz ali, por as vezes parecer que há ali coisas e sensações que conheço bem. As frases que acordam connosco e não nos largam, palavras com que sonhamos e a que nos agarramos para não esquecer não sabemos o quê... gostei do livro. O livro seguinte, do sentido da dor, li porque me recomendaram, não me fez pensar, não consegui ver o que acho que deviam querer que eu visse. Não é por a dor ter um sentido que faz mais sentido senti-la, não consigo ver ou sentir isso assim. O Perez-Reverte, autor do livro que mais recomendo e o livro com a personagem feminina que mais me marcou, não me impressionou com os seus cães assassinos de profissão. Lê-se bem, está certo, mas não há muito mais ali que dizer além dumas ilações básicas de como o instinto de sobrevivência é rei e senhor de todas as criaturas. As desoras do Cortazar, como em muitas coisas do Cortazar, umas são geniais outras parecem mas ficam longe... não poderei dizer muito mais deste livr porque já não me lembro... e isso quererá dizer alguma coisa, né?
Este ano acho que ainda não acabei nenhum, e já vamos em Abril. Ando miseravelmente a mastigar o Kundera que li na minha adolescência e agora parece empastelar-se nos dias, e eu, sem vontade de coisa nenhuma, vou-o deixando empastelar e ganhar pó. Não pode ser, eu sei, mas algo me anda a faltar, e sono ando a ter de sobra. Não sei se o vírus afinal não era do sono... hoje dormi mais de doze horas. Fora de brincadeiras, há anos que não dormia tanto. Qualquer dia pareço um bebé :))
Hoje já tenho carta de alforria... e está sol, pasme-se. ;)

domingo, 3 de abril de 2022

 
Ahhh... sermos positivos, porque coisas boas atraem coisas boas, o positivo atrai o positivo (não só desafia todas as leis que conheço da física, como os fundamentos da minha racionalidade, mas desafios, desafios é o que precisamos!!)... Ahhh precisas de pensamento positivo, vais ver, precisas de ser mais positiva...e então começas a ver Luz ao fundo do túnel ... e é a loucura a felicidade, a emoção!! Começam a acontecer coisas boas só de pensares nelas e acreditares (e a sério nem precisas pertencer a um culto e pagar o dízimo, é só dizimar toda e qualquer racionalidade e lucidez e estás pronto!). E então mando uma mensagem: querias tanto que me tornasse mais positiva que te fiz a vontade no teste covid, conta?? 

(pelo menos riu-se, para isso contou...)