segunda-feira, 13 de maio de 2019

Reza a história que chegados à torre, 
abeiraram-se da janela e disseram:
"que bel'de-ver".
E foi o que ficou, até hoje.
... e ainda é belo de ver.

Será que a beleza se gasta nos nossos olhos?
Se virmos todos os dias a mesma paisagem, 
que achámos bonita - que achamos ainda, que até escolhemos-,
vamos deixar de vê-la?... ainda que a olhemos?



quinta-feira, 9 de maio de 2019


Treze anos, e não são de azar, pelo contrário, ainda que me façam perder a paciência numa base diária... Está quase do meu tamanho, mas maior que eu. Mesmo que lhe veja tudo, ou quase, o que eu tenho de pior, a resposta aguçada, o temperamento algo inquieto, a doçura demasiado reservada e a franqueza demasiado dura. Alguma coisa de bom também terá herdado, espero. Espero principalmente que lhe tenha conseguido transmitir o que para mim é mais importante no carácter dum ser humano: a honestidade, a lealdade e a noção de justiça, cimentados num pensamento crítico. Só me pergunto se isto não será contraproducente para a sua felicidade. E se não é isso o mais importante de tudo. Mãe há treze anos e tenho mais perguntas que respostas. Ela merecia melhor, ainda que de mim tenha tudo o que consigo ser de melhor.
[Jorge Roque, in Nu Contra Nu]

Tudo e nada.
Não esperar nada e saber que tudo pode acontecer.
O bom, o pior mal, e até o que nem se dá conta que já foi.

Talvez continue à espera de esperar alguma coisa
Dizem-me que isso ainda é esperar
Mas esperar o quê?

A esperança?
que veio no comboio das  nove
que não partiu?

Há vezes que parece que a alma volta a ter a forma do corpo.
Não sobra, nem transborda.
Está justamente medida em si, em mim.

Pareço, em pequenas gotas de tempo que escorrem dias, anos, outras vidas inteiras, voltar a sentir a alma cheia, onde o vazio já não é tanto ausência, mas o espaço que guarda o futuro, o porvir,
talvez uma réstia de esperança por ocupar no tempo. Talvez.

Talvez não seja nada
Pode ser tudo

O comboio não partiu
Mas partirá?


terça-feira, 7 de maio de 2019

[imagem @jesuso_ortiz]

... outra vez.
Ao menos que chova a sério e o suficiente, 
Precisamos de chuva, muito, eu sei, mas em vez de se arrastar em dias cinzentos e de chuvinha fofa,  lenta e tola, já que está fora de tempo não pode fazer a coisa duma vez? 
Concentradinha e eficiente? Hum?
Duas ou três semanas a sério e deixávamo-nos de brincadeiras, 
do toca e foge da roupa de verão, e do esconde-esconde das gabardines ... hum? Que tal?
Ainda que hoje o tempo me vista tão bem, quero tirar esta farda de há demasiado tempo. Quero vestir a pele de sol e o coração de primaveras. Já é tempo. 
Que chova tudo agora, já quero sol.

... mas quando deixam de o conseguir, 
quando já não lhes aparam o jogo, 
é como uma ofensa, quase uma traição.
Como se os únicos que pudessem ter e impor limites fossem eles. 
Ainda que nunca os tenham em relação aos outros, 
aqueles a quem acham que podem fazer tudo e desfazer tudo.
Às vezes, deixar de ser bonzinho e aguentar tudo, não é ser mau,
é virar costas a quem nunca nos soube apreciar e dar a mão.


segunda-feira, 6 de maio de 2019

ahahahhah

...realmente, com tanta prática...
mas as mudanças têm esse efeito, mesmo quando são esperadas há meses. Desde o final de 2018 que estou suspensa por decisões que não me cabem, e é pior  assim, quando não está nas nossas mãos. Para mim é, pelo menos. As que me cabiam decidir e fazer, estão feitas e encerradas, falta-me só concretizar uma mudança que já estava decidida, mas ainda não tinha data de ocorrência. 
Agora já a defini. Vai-me custar, vai, mas tem de ser. 
Aproveitar o embalo para mudar tudo. Tudo, menos eu.
Há um reset que me devo. 



sexta-feira, 3 de maio de 2019

[foto @seeavton]

se eu estava bem, se já havia notícias, se estou menos ansiosa, como foi o dia.
que a ser será um desafio, que eu tenho o que é preciso, 
e deixa escapar entre coisas não ditas, que eu faço por não ouvir,  
que se por acaso não conseguir, em nada serei menos, nem a admiração que parece ter sairá beliscada.
algumas brincadeiras à mistura, sentido de humor e aqueles "só tu" que sabem bem.
pequenos e tímidos gestos de quem quer saber(-me), de cuidado, de alguma protecção.
sorrio e penso devagar em tudo, revejo por fora, perscruto por dentro.
Parece perfeito para mim, e será talvez esse o seu único defeito.




quinta-feira, 2 de maio de 2019


Como um paradoxo.
Há um alívio no desígnio cumprido 
que não leva o peso de o ter cumprido. 
Deixa o peso do que nos levou.

terça-feira, 30 de abril de 2019



Abro o peito
cheira-me a terra remexida
à força de arrancar raízes.

Troncos grossos
Que a terra não cedeu,
decepados rente ao chão
Como tambores
Discos riscados
ecoam memórias ocas
Cada anel um sorriso morto
Por enterrar.

Abro a janela
entra um frio
entranhado no tempo
Fecho o peito
Não há tempo
Só frio


segunda-feira, 29 de abril de 2019

O caos não a deixa parar, 
ou ela não pára com medo de perder o equilíbrio e cair. 
de cair em si, sem ter o que a ampare.
exorciza o caos na pele transpirada de movimentos 
que a trazem à tona da luz
 ainda que ninguém regresse do caos 
sem um passado de chumbo com pé no futuro. 
...e nos interstícios do caos o silêncio dá-lhe música.

domingo, 28 de abril de 2019

[foto de Imre Soós]

Nunca conheci ninguém que numa conversa me fizesse dar uma volta ao mundo - já me apeteceu bater-lhe de raiva, já me apeteceu chorar de tristeza por a ter entristecido e magoado, já me apeteceu enchê-la de beijos e comê-la. Tudo.
Em cinco minutos. 
Nunca conheci ninguém assim.  Nunca. Ir desde mandar uma descasca num indivíduo, de tal maneira que ele não sabe onde se enfiar ou o que dizer, a acabar numa declaração de amor, disfarçada mas linda. Em pouco mais que cinco minutos. 
Esta mulher é um carrossel.

(Talvez, mulher para dar tonturas, verdades, ou assim. Não é para todos, está visto, por muito que gostem de dar voltas sem sair do sítio... mas nada como as autênticas roletas russas, que só dão vontade de fugir a sete pés, antes que dêem cabo dos miolos a quem ficar... há quem preze os seus miolos e não faça do jogo suicida uma obrigação.)







O título puxou-me "Estamos focados naquilo que queremos ou no que os outros acham certo?”, é uma pergunta muito pertinente, e de repente fez-me pensar e repensar algumas coisas, talvez as expectativas sejam uma espécie de medos, também nos bloqueiam, nos condicionam, nos prendem em teias que nós mesmo tecemos.
Vale a pena ler a entrevista, apanhei isto por aí no fakebook, e não tenho alergia a livros de "auto ajuda". Haverá de tudo como na farmácia e como sempre, mas podem ser escritos por pessoas que sabem do que falam. É talvez uma espécie de noções/ferramentas de psicologia expresso (neste caso não é psicóloga, mas coach e explica a diferença), mas não têm de ser ocas por estarem generalizadamente simplificadas, depois a inteligência de cada um (aqui às vezes a porca torce o rabo, pois...) servirá para reflectir e retirar disso o que ajudar. Ou simplesmente para pensar sobre os assuntos sobre outras luzes. Não me parece que sejam receitas ou mapas do tesouro, mas também é certo que nunca cheguei a mais do que folhear algum... 
Neste caso fala-se de mudança, de insatisfação, do marasmo que uma vida se pode tornar. E eu que estou no vértice de várias mudanças, umas já decididas e concretizadas, outras para breve, gostei de ler a entrevista. Fiquei a questionar-me se também já andaria insatisfeita há muito tempo. É estranho perguntarmo-nos algo que parece que deveria ser de resposta imediata, intrinsecamente sabida e conhecida. A verdade é que mudei o que tinha de ser mudado, cumpri o que estava a sentir (como sempre fiz) e a pensar - deixei de escavar o mesmo buraco -, resta saber se isso por si só leva consigo a insatisfação e o marasmo. E se nos perdoamos não termos feito mais cedo o que havia para fazer e perceber.
O tempo tem de fazer assentar o tempo do que foi, ainda não houve tempo, mas há que abrir novas janelas e deixar que a vida entre. Outra vida. Outras vidas.

[e a vista da janela da cozinha já mudou, vejo flores novas e laranjas de cor viva. A resposta à mudança pode ser um não, mas ela acontece com ou sem a nossa  resposta ]



...acho que hoje em dia há muita gente que vai para a cama com a mesma sensação...

(mas come a salada. só não sei se a pensar num belo donut, isso não sei...
sei que parece que já ninguém espera o donut,
nem acredita que salada não lhe irá matar a fome.
e se esperar chamam-lhe estúpido.
e talvez seja... quem come o que há não morre de estômago vazio,
ainda que toda a vida passe fome.)

sábado, 27 de abril de 2019


[foto de Fan Ho]

Hoje os quarenta anos chegaram-me ao espelho, aos ossos, aos olhos pelo lado de dentro. Hoje caíram-me os anos que dizem que não tenho, que não pareço - que não são meus, se calhar. Não sei por quê hoje, talvez o dia cansativo e tão cheio de ontem, talvez todos os que me trouxeram aqui, agora, e ao depois também.
O espelho confessou-me que o amor é o único que previne o envelhecimento. Não porque deixemos de acumular anos e decepções e cansaços, mas porque deixamos de o tomar como uma ofensa. Passa a justo contrapeso de amar, de continuarmos a ser, de viver.
...será que realmente se vive sem amar?... E sem ser amado? (pergunto-me sem quase dar por isso quando as palavras me saem pelos dedos...)
Quando nos sentimos amados, há um olhar - aquele olhar, único, ou que tomamos por único - que pousa em nós e nos vê, vê-nos só a nós. Vê acima de tudo, muito abaixo da pele, vê o que somos quando já não nos parecemos connosco. Do tempo em que nos lembrávamos de ser e de ainda ir ser muita coisa, ainda ir fazer tanta coisa, e viver tudo. Vê além do tempo que embaça a pele e dela parece escorrer, e com isso faz-nos desaparecer dentro de nós, faz-nos cair para dentro de nós, onde só está quem amamos. Onde guardamos quem nos ama. É um olhar sem idade, de essências, essencial à vida, antídoto do tempo.

[a culpa deste post, a inspiração da coisa, já percebi (graças ao comentário do Cru), é da JI...não se faz JI, ficaram-me as tuas palavras a brincar por baixo da luz dos dias, muitos dias, até me trazerem os anos que não sentia, à luz... só te perdoo porque, pronto, és moça da mesma (boa) colheita do magnífico ano que nos viu nascer. e bem, vamos esperar :)]


quinta-feira, 25 de abril de 2019


Sentada no carro à espera da hora certa ou errada de sair daqui, de ir buscar o trambolho pequenino (cada vez menos pequenino), a ver a chuva cair e escorrer pelo vidro oblíquo que me enche o olhar e inclina o pensamento a divagar entre disparates. Acciono o limpa pára-brisas, só para ver o trilhar do caminho das escovas, a momentânea secura dum vidro condenado a servir de chão à chuva que cai do céu. Vejo-as fazer sempre o mesmo percurso, nada muda, trespassam-me o olhar e, ao parar, deixam-me discernir e captar, por segundos, as gotas a caírem antes de, outra vez, todo o vidro ser só uma pequena corrente de água a escorrer, como se há um minuto atrás não tivesse sido desfeita. Preciso que me chova assim, é o que penso. Simples.


[foto @hana_photographer11]

"A liberdade é uma livraria"

Joan Margarit

Óptima frase que apanhei algures e guardei. Adorei. Perfeito (talvez) se a livraria fosse minha. Ou uma enorme biblioteca... porque paradoxalmente, numa livraria sinto-me sempre presa, limitada às opções, ao ter obrigatoriamente de escolher por não poder levar tudo o que me apetece, o que queria... mas afinal também é isso a liberdade, estar limitada pelas opções e decisões que temos de tomar (é por isso, também, que liberdade é responsabilidade e a razão por que tanta gente sabe não a querer, ou não a exercer por comodismo ou cobardia, ainda que não o assuma). Se calhar liberdade é só estar nas nossas mãos escolher livremente na limitação condicionada pelas opções que temos. Como, tantas vezes, escolher a nossa prisão também é uma liberdade. Talvez a única coisa verdadeiramente livre seja o pensamento, e mesmo esse só dentro da própria forma como foi educado e ensinado. Mas é o único impossível de proibir, de impedir, de impor fronteiras ou alfândegas, só se declara se se quiser...

[e este ano já me fartei de comprar livros, é um vício e, ao que parece, algo fora de controlo nos últimos tempos. ontem encomendei mais dois... uma desgraça. e o ritmo de leitura não tem acompanhado, o tempo livre não se tem acomodado a tantas leituras... nem a pôr aqui nada do que  tenho andado a ler mesmo que com páginas marcadas de trechos que gosto de deixar registados, a preguiça é um defeito muito mau...]

quarta-feira, 24 de abril de 2019

... bom, a esses que não cresceram, 
que não querem acabar com a brincadeira porque não lhes dói, 
só nos resta uma coisa: desejar boa viagem. 
Apenas e reiteradamente:
Boa viagem.

terça-feira, 23 de abril de 2019

...o tipo de pessoas com quem é melhor não jogar às escondidas...
 :DD ...muito bom!

Bom dia!

domingo, 21 de abril de 2019

[foto @cyrilledruart]

Domingo santo... que maravilha...
A porta da varanda aberta, os bichos por perto 
e o sol a entrar com canto de pássaros... 
e eu, assim, aqui, a pensar que há coisas boas sem muito.

sábado, 20 de abril de 2019

[Manuel Bandeira, 50 poemas escolhidos]

Dei-me agora conta que não dei conta que aqui há dias fez dez anos do dia em que percebi que o meu casamento estava acabado sem eu saber. Até aí ponderava apenas se estaria a ruir, a afundar-se lentamente, a perder-me aos poucos. Mas não, nesse dia percebi que já me tinha perdido, ou esse dia não me teria ficado na memória. Separámo-nos oito meses depois, mas não acho que tenha sido um nascimento prematuro, ou uma morte. Talvez apenas o reconhecimento dessa morte tenha demorado demasiado, como tantas demoram se as negarmos e nos formos deixando morrer também. O que aconteceu naquele dia fez-me perceber: tinha chegado o ponto de dizer basta. Fui honesta e disse-o, tomei a decisão e separei-me. Também me lembro da data em que saiu de casa, há datas que me ficam gravadas, é normal, suponho. E recordá-las também. O que não achei normal foi só uns dias depois me aperceber que já tinha passado aquele dia - dez anos sobre esse dia. O dia em que me caiu a ficha, o dia que me obrigou a olhar para dentro e assumir o que via. Foi também o dia em que me roubaram os dez anos seguintes. E eu deixei. Por muito pouco não chegou aos 10 anos completos, para voltar a cair a ficha, outra. Das duas vezes disse basta, não quero mais isto, cada um à sua vida - frase que ouvi muitas vezes, e desta vez, não a tendo dito exactamente assim, senti-a. Talvez seja importante sermos nós a tomar a decisão, ser uma escolha nossa fechar a porta. Enquanto não foi, a porta esteve sempre aberta se voltassem, e nestes dez anos voltaram sempre, sempre, até que a fechei. Foi preciso ser eu a fechá-la. Nunca fui atrás de ninguém, mas de cada vez que voltaram não encontraram a porta fechada, mas os braços abertos de saudades. Até que não, já não. Chega, chegou. Esta ficha demorou mais a cair, é verdade. 10 anos é muito tempo, não me ter dado logo conta desse marco talvez seja um sinal de que o tempo perdido já se perdeu. Para mim. É bom sinal.

[os nomes talvez nunca cheguem a ser como os outros, talvez tragam sempre agarrados um sorriso, ou  um esgar, não sei, o tempo sobre tudo o decidirá.]

sexta-feira, 19 de abril de 2019

[imagem @virgola_ ]


Que a vida que é vida
nos mate e nos ressuscite.
O crucificar dispensa-se ao comum dos mortais :)

Boa Páscoa.

quinta-feira, 18 de abril de 2019

[foto @in_somnia_ ]

Saber escrever pouco
Poucas linhas
Não mais que três palavras
Arrumadas por linha
Para ser bonito
Ser clara e concisa

Mas não sei

Uma coisa
É tanta coisa
Na minha cabeça
Até o nada
É uma espécie
De quase tudo

E eu não tenho nada para dizer.

Para ficar bonito.




[... hoje almocei sozinha. Nota-se. Deu nisto.]

I’m over, basically... :D

[I remember there was also this over one ;)))...]

Bom Dia!!

quarta-feira, 17 de abril de 2019

Viver num país onde o despacho relativo a serviços mínimos, supostamente para assegurar à população portuguesa um nível  serviços mínimos, refere “abastecimento de postos da grande Lisboa e Porto”... é que nem todos somos igualmente portugueses, e há mínimos para Lisboa e Porto que para o resto do país, são, não sei, talvez desperdício??? será?...  e que tal na loucura sei lá, garantirem abastecimentos as empresas de transporte público, para pelo menos dar uma alternativa para toda a gente ir trabalhar... sei lá se calhar é uma ideia idiota lá para a cabeça desta cambada de imbecis que nos governa... e tão ecológicos e coiso que eles querem parecer... no país todo. Ou talvez não. 

[foto @diego_durden]

Como o eco dum passado perdido
a meio caminho do esquecimento
a noite estremece-me do desejo
que há muito foi prazer
pele, língua e cheiro

Mordo o querer enraivecido,
rasgo o arfar adormecido,
cravo as unhas na escuridão
de tudo sentir esculpido
na sombra da pele
a estocadas cruas, cruéis,
de vontades que não envelhecem
de tanto enterrarem
nos intervalos das noites
as rugas do tempo
que não se vive

mas mata

segunda-feira, 15 de abril de 2019

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Fim de semana de filmes, de passear por casa, de habitar o sofá, de chá e bicharada. E mesmo na despedida do fim‑de‑semana, este filme. Até uma certa parte havia um certo reconhecimento duma antiga perplexidade por perceber certa cobardia, uma incompreensão de certas perspectivas, da mentira até. Depois, a uma qualquer altura, instantes talvez, chegar a reduzir a intrincada (i)lógica de alguns homens (que se tropeçam em justificações injustificáveis e se estatelam em verdades que lhes doerão mais), a uma clareza tal que se resume a uma simplicidade que não se coabita, a simplicidade da solidão (e há-a sob tantas formas...) por medo de ser abandonado, que acaba por ser estupidez apenas, simplificando. Mais à frente, por outro lado - ou do outro lado -, aquilo que muitas vezes não parece óbvio, o medo de afinal nunca se ter sido amada, mas apenas à beleza e à juventude que diziam gostar de ver ( ou de certa forma possuir, como um qualquer antídoto do envelhecimento dele), o medo do desejo perdido com a perfeição do corpo. O medo de nunca ter deixado de ser invisível, da beleza que dizem ver impermeabilizar o ser, de nunca ter sido vista além, de não lhe ter chegado a ser alguém. De parecer tão facilmente poder ser substituída por outra beleza que surgisse, pois nada lhe era mais além de beleza e juventude - exactamente o que, afinal, apavorava o outro de medo. E fica-se a pensar nos medos cruzados de cada um, e no tanto que isso altera decisões e vidas, no tanto que nos marcam as saudades do que não se fez, por medo de depois, se calhar, ter de viver com perdê-lo - ter de sobrevivê-lo. Como se assim a certeza de o perder não fosse mais segura, palpável até, e o idílio de o viver algo eterno nunca vivido, mas a única realidade.
E quando uma pessoa trinta anos mais velha, subitamente, tem provavelmente mais vida pela frente, toda a perspectiva muda, e de repente o tempo que não se queria perder para a frente, ficou perdido para trás, irrecuperável. E assim, curiosamente, não é (aparentemente) tão assustador arriscar o tempo que resta, que sendo menos o torna aceitável... Só se fica, só se tenta, quando já não há nada a perder?
E acabo o filme a pensar como é estranho tudo isto, porque é que se aceita aproveitar, viver, quando se sabe que vai acabar, ou que já nada, ou quase, resta; e não se arrisca quando não há esse perigo no horizonte? 
O tempo... sempre o tempo (lembro-me agora e aqui do post que escrevi ontem, esta coisa do tempo toma-me muito tempo de pensamento...), a nossa perspectiva da vida é a nossa perspectiva do tempo, do tempo que temos, do tempo que já perdemos, do tempo que não poderemos aproveitar, e daquele que pensamos que nos resta... isto e todas as desculpas que usamos com o seu apelido, quando são apenas filhas bastardas da estupidez. Mas uma coisa parece-me verdade, há um tempo certo para agarrar a oportunidade, para ficar, para tentar.. Depois disso já não há tempo, mesmo que tempo não falte, falta o resto tudo que o tempo foi levando da altura certa.
[é por isso, ou melhor, por isto, que digo sempre não concordar com o que se costuma ouvir “mais vale tarde que nunca”. Não, quando, para algo, é tarde, já passou, já não vale a pena, que se refastele no nunca... o que às vezes é difícil é reconhecer quando se tornou tarde. ]

domingo, 14 de abril de 2019

sábado, 13 de abril de 2019



O tempo nada me diz, existo sem tempo, para além dele. Não lhe obedeço, não me contém. 
O tempo só existe quando a sua passagem nos altera. O tempo não me altera. Mas com tempo altero muita coisa. Com muito tempo altero tudo, ou quase. 
Intemporal, olha, sorri e diz: dêem-lhe tempo e será meu.
Tudo será meu, tudo será mar.

sexta-feira, 12 de abril de 2019




E se quiseres escolher, 
escolhe um azul que seja verde que seja teu.

Escolhe a vida que tens, não tens mais nenhuma,
mas pinta-a, em cada dia, com cores que sejas tu.

Bom dia!

quinta-feira, 11 de abril de 2019

...então e se forem palitos?... é amor... que não dá pica nenhuma, mas pica!

E quando duas pessoas ficam juntas sendo a segunda (ou única, ao que parece, de parte a parte, neste momento) opção de cada uma delas - isso será economia de meios, uma certa justiça perversa, ou só uma pragmática pobreza - uma tristeza prática? Uma miséria que passa por elegância?... Impulse não é de certeza, até porque ali não se oferecem flores, só enfeites.... ahhh... espera, já sei... é amor forte e profundo, daquele com cenas que não deixam o outro partir, quase de faca na liga - ou, para quem não usa tal apetrecho, também se pode dizer de faca e alguidar; em alguns casos será bastante mais apropriado - em que alguém se descabela e humilha (muito), a dizer que não é capaz de viver sem o outro... e parece que é verdade, mas por falta de alternativa, não de tentativa.
Eu cá não sei, mas preferia estar sozinha... bom, vai daí, é mesmo por estas e por outras que estou. E antes assim que assim-assim, a fazer número, ou compasso de espera até aparecer alguma coisa mais interessante ou... até não ter medo de enfrentar a vida só com o que sou e tenho, sei lá.

[enquanto escrevia isto lembrei-me desta publicidade... há coisas que ficam sem sabermos porquê...]

quarta-feira, 10 de abril de 2019


[imagem @diego_cusano]


O seu canto cheira a maresia, acorda-nos os dias como espuma 
que refresca o olhar, que nos beija a pele, como quem, traquina, 
nos molha os pés da alma pelos ouvidos. Desperta o sentir
ao compasso de cada maré que anoitece o sonho.

[o mar, o mar, preciso tanto às vezes...
Traz novos dias dentro do dia]
Bom dia

terça-feira, 9 de abril de 2019

O teu riso rir-se na minha boca:
a definição de alegria tangente à felicidade.
A tua vida estremecer no meu corpo:
a indefinição de amor.


segunda-feira, 8 de abril de 2019

[foto @jeanphilippelebee]


A noite nua tem pele de desejo eriçado 
Vestimos a noite para confessar 
o pecado que não cometemos

domingo, 7 de abril de 2019

...há que ser justa.
Isso e arranjar umas galochas para o dia seguinte,
que água, aqui, já tínhamos bastante, 
há que alternar com álcool e ajudar um tico à festa metendo água...
(...e ainda bem, porque precisamos muito de água.
Disso e de dar um habitat condigno a tanto pat@ por aí...)

Bom dia!

sábado, 6 de abril de 2019

Devagar, como uma sombra de fogo,
o horizonte incendeia-se, abre-se à noite,
sequioso, esfaimado,
com dentes cheios de mãos,
numa paixão sempre por saciar.
Como uma nudez 
à míngua de pele.


quarta-feira, 3 de abril de 2019

[imagem @diego_cusano]

... olhamos as nuvens no céu e vemos animais.
Uns mais raros outros menos, depende da imaginação de cada um, provavelmente.

Então pensamos, percebemos, - tal qual epifania emprestada de qualquer coisa que já lemos, ou vimos, em qualquer lado - que há muitas pessoas que devem ser nuvens... só pode.
... E não precisamos de imaginação nenhuma, curiosamente.

terça-feira, 2 de abril de 2019


[imagem @sixnfive]



não me chegam
as migalhas do sonho
que roí sem comer

entretenho
talvez outro sonho,
ou o vazio da esperança

segunda-feira, 1 de abril de 2019

... das mentiras: cada um escolhe a sua ;)

[e algumas são tão boas, têm quase tanto charme entranhado como os artistas que as dizem, como verdades espantadas de tão sentidas, nem acreditam quando deixamos de acreditar, quando já não queremos, obrigada... pensam que é mentira! verdade, a sério!]

domingo, 31 de março de 2019


Um domingo lavadinho para todos!!
... e não se esqueçam de poupar água, tomem banho aos pares ;))))

sexta-feira, 29 de março de 2019

quinta-feira, 28 de março de 2019




Das coisas que me enojam, agora não é só um caso de se roubarem frases para pôr nas páginas do facebook, como tanta gente faz, sem aspas nem autoria nem links (como certas criaturas fazem sem qualquer vergonha na cara),  como se roubar uma frasezinha aqui ou ali passasse despercebido e nada tivesse de mal - será isso que pensam?  Assim ficam a parecer bem a quem lê... ah e tal que bonito, que bem que escreve...

Mas este caso (ver aqui e aqui) é mesmo um caso de corta e cola frases de vários poemas de vários autores e juntar tudo como se fosse alguma coisa, e alguma coisa de autoria da própria... para, imagine-se, publicar!! Realmente a avaliação crítica do que deve, ou merece, ser publicado talvez já tenha tido melhores dias, e o carácter das pessoas também ( então se esta desconfiança se revelar pelo pior, nem se fala)... às vezes parece que a falta de honestidade é requisito necessário para quem quer que se queira dar bem na vida. E não lhes faz mossa, é como se lhes fosse devido, não lhes pesa tudo e mais a consciência? Entristece-me. Entristece-me muito tudo isto. Mas admiro a perseverança da Cristina Fernandes que gastou o seu tempo a desmascarar uma coisa sórdida destas, verso a verso, apenas (pelo que me parece) para repôr a verdade. Talvez ainda possa haver esperança na humanidade.

quarta-feira, 27 de março de 2019

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Isto é, se eu não tiver chegado demasiado tarde, mas avisar da sessão da meia-noite às 23:59 parece a desculpa perfeita para... bom, para ter uma desculpa ;))
Mas, seja como for, é filme que agora terei que ver, pois claro.

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Gostei do título, e esta frase traduz o que lhe associei.

Ainda que o estrago que procura identificar, aparentemente, venha da obsessão, não do risco de amar ( e amar não é coisa avençada :)  ).

terça-feira, 26 de março de 2019


Depois de três semanas avariada, quase uma semana fechada num pavilhão a trabalhar para melhor acomodar o vírus, outra a tossi-lo como se não houvesse amanhã, depois, achar que estava melhor  e resolver ir trabalhar à tarde uns dias da semana passada, ficar muito pior e voltar a enclausurar-me, eis que parece que o vírus desistiu de mim, quatro dias após de clausura total parece que percebeu que não ia mais passear comigo e parece que se foi. A tosse quase que já foi. E é então que faço aqui este balanço, antes de ir à tarde para a labuta. Percebo que nestes dias só liguei a televisão já noite avançada e mesmo antes de resolver acobertar os ossos e dormir, o que é bom, dediquei-me a outras coisas, lembrou-me tempos antigos, onde não precisava de a ligar para não ouvir o cérebro, para não pensar muito, para deixar o tempo passar sem que me moesse. Passou e não me moeu, pelo contrário, acho que ficava bem mais uma semaninha em casa, mesmo enclausurada, bastava-me o sol na varanda, os livros, o computador e música ( que faltou nestes dias).
A doença (se for uma coisa de trazer por casa, assim ligeira, convenhamos, claro) só dá jeito para nos dar tempo se o conseguimos aproveitar, entre ataques de tosse ou afins, e eu consegui aproveitar. Nos dias que me fechei em casa acabei um livro; li poesia que tinha guardada e pesquisei mais, guardei, e adorei; por causa disso andei a passar os olhos por este blog desde os seus primórdios, comecei por procurar só poesia e acabei a ler-me sem etiqueta. Percebi que faltavam muitas etiquetas e etiquetei bastante. Perguntei-me até se faria sentido o trabalho, com as intenções e projectos que me andam a rondar as atitudes. Achei que fazia, fica tudo mais arrumado, mais fácil para eu procurar o que quiser. Surpreendi-me por gostar de me ler algumas coisas, algumas coisas parece que se safam ainda assim, e quando começo a ler, lembro-me de as escrever a todas (algumas sei até onde as escrevi e o que pensava e do que falavam atrás das letras), ainda que às vezes me custe a crer que fui eu que as escrevi, não sei onde as vou buscar, assim palavras acabadas - aparecem-me, é o que é, e é um fenómeno estranho, como se se escrevessem sozinhas e eu fosse só a mão. Comecei outro livro, escolhi-o por causa duma entrevista que li, e que fez saltar da calha dos livros por ler para o agora, um que lá tinha da Agustina. Fiz uma pequena lista de livros que quero, encomendei um por impulso, por ser um livro antigo e com história, que me apareceu no feed dum livreiro amigo, que devo receber hoje. O que eu não fiz foi escrever. Estou mesmo sem vontade, tenho já dois livros lidos (acabei o Fio da Navalha e gostei, bastante até, mas continuo a achar o Servidão Humana melhor), com páginas marcadas à espera que pegue neles e registe aqui ou noutro lado essas passagens, mas não me apetece, apetece-me ler e pensar baixinho, às vezes até conversar, mas ando com os dedos preguiçosos de me pescar fundo as letras para deixar escrito alguma coisa que me saia de dentro. Se calhar não me quero remexer no fundo, onde o depósito dorme e está assente. Se calhar estou numa de aforro, guardo tudo. Ou ando só preguiçosa e invento desculpas. É capaz de ser isso.
Hoje a deambular por aí deparei-me com esta nova versão do Ironic, que sempre gostei muito, e agora teve um upgrade ;)) até a ironia da vida tem novas versões... mas está giro e deu para rir, deixo-vos aqui.

Bom dia! 

sexta-feira, 22 de março de 2019

Alejandra Pizarnik

[o que eu gosto desta moça... e deste serão a rever poemas e coisas que fui e vou guardando. Deu-me para aqui hoje, e escolho este para fechar o dia. A perfeição de dizer tudo, de saber fazer caber um sentir inteiro e profundo, na leveza duma dúzia de palavras, em duas linhas. 
E ao lê-las submergirmo-nos nesse sentir, sentindo na perfeição, o que soçobrou da perfeição das palavras - é poesia sentir assim e fazer sentir assim, fazendo das palavras a travessia.]

quinta-feira, 21 de março de 2019

Rui Costa, Mike Tyson para principiantes

“Com os dedos todos sobre a mesa”, mostram tudo o que têm e o que perderam, dão tudo o que têm e até o que sabem que vão perder. São o que são, e ainda o que foram, não sabem mais que isso, nem querem; não escondem, não mascaram, mas escudam-se; vão embora mas ficam, ao contrário dos que sempre ficaram mas nunca chegaram a estar,  a ser chão. Sim, chão, pisado muitas vezes, mas também o que dá frutos e sustento e caminho, e onde podemos sempre poisar. Sempre.

Antonio Orihuela


Vamos arder-nos em poesia
Consumar-nos sem métrica nem rima
Na pureza natural do fogo
Que é a vida
No silêncio dum verso
Que a pele guarda por abrir
Como um beijo por incendiar


[Porque é o dia dela.
Porque hoje me apetece.
Porque sim.
Por todas as melhores razões
sem razão.]
[foto @annan.jasko]

"(...)
Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever
ó subalimentados do sonho!
a poesia é para comer."

Natália Correia


A poesia é para comer, e os dias têm sempre fome.
Mesmo quando a razão está de barriga cheia.
Apanhei este poema numa série que deu sobre a Natália, a Vera Lagoa e a Snu Abecassis. Sobre a época em que as três se cruzaram, gostei bastante. Comecei a ver principalmente por curiosidade pela Natália, descobri, entre outras coisas engraçadas e que não fazia ideia, que aquela aparente fortaleza tinha medo do escuro, ainda que de pouco mais.
Entre outros poemas que lhe iam saindo no decorrer dos episódios, apanhei este pelo verso que me prendeu, ali mesmo naqueles “subalimentados do sonho!”. Ficou-me, achei magnífico. E, fui logo, a partir dele, pesquisar para melhor o ler inteiro e mastigar devagar, guardei-o e deixo aqui, agora, a parte final, mas que vale a pena ler e comer na íntegra neste dia da poesia. Lambuzem-se.

terça-feira, 19 de março de 2019


Ontem vi um filme (é o que dá estar de molho, estou a ben-u-ron, pastilhas para a garganta, xarope, livro e filmes... tem de haver algum alado bom, né?) sobre um psicólogo que me fez lembrar algumas questões que volta e meia me põem a pensar. Milgram é o nome do psicólogo, e dedicou-se ao estudo do ser humano como ser social, ou seja a influência da sociedade - ou melhor ainda -, do grupo, no indivíduo, e nesta perspectiva o poder da autoridade e da obediência. Através duma experiência chegou à conclusão que 65% dos indivíduos aceitaram inflingir choques (supostamente, ninguém estava a ser sujeito a choques eléctricos, mas os indivíduos da experiência não sabiam) noutra pessoa porque lhes era dito que a experiência era assim, e que a responsabilidade, caso algo corresse mal, não seria deles. E com esta informação as pessoas (65% delas) continuavam a inflingir choques de voltagem crescente até atingir os 450 volts (voltagem que lhes era no início informado de que era perigosa), de forma consciente, ainda que visivelmente a contragosto, mas continuando a obedecer às regras duma experiência voluntária. Ou seja, não eram patrões, nem superiores, nem havia efectivamente nada que os obrigasse, a não ser repetirem-lhes que eram as regras da experiência e que eles não seriam responsabilizados. Só 35% das pessoas recusaram tais regras, levantaram-se e negaram-se a continuar a submeter choques a outro indivíduo, sem qualquer custo, risco ou castigo.
Quando pensamos nisto à luz do Holocausto muito é explicado - aliás Milgram é judeu e a escolha do seu tema fulcral de investigação não é alheio ao que se passou na II Guerra. Também já Hannah Arendt falava na banalidade do mal, mas ali, ali vemos gente como toda a gentes sem qualquer tipo de coerção ou risco, fazer a uma escala menor o que foi perpetrado durante a guerra a milhões. E, como se leva a concluir, basicamente com as mesmas justificações. Afinal cumpriam ordens, obedeciam a uma autoridade, até poderiam ser castigados caso não o fizessem (o que na experiência não acontecia). Na verdade nós deixamos de lado a moral e até o que pensamos e os princípios que seguimos face a algo que se apresente como autoridade, e como normalidade, como regra. E isto é tremendo. Onde fica a nossa cabeça? onde é que pensamos por nós? Onde é que deixamos de seguir os outros porque é suposto, porque é a norma vigente, ou porque representam autoridade, ou simplesmente porque "é a lei"? 
Se algumas vezes dei comigo a pensar algumas destas coisas, verdade seja dita, não tanto relativamente ao holocausto, ainda que não saiba dizer porquê, talvez porque todo o mundo, à excepção dos nazistas, concordava que era uma atrocidade. Ser contra não era ter de ir contra nada, era estar de um dos lados. Ser contra e ir contra tudo só sendo militar alemão e negar-se, opor-se, lutar contra, dizer "eu não faço". Mas recorrentemente penso, se tivesse vivido na época da escravatura, o que pensaria eu? Quando ainda não se falava ou pensava em abolir a escravatura, como veria eu a questão? Como pensaria eu, com tudo o que me rodearia na altura? Teria coragem de pensar por mim? E pensaria bem? 
Como será que eu teria reagido à experiência? tinha ido até ao fim ou tinha-me recusado a continuar a certo ponto? 
Sei que não sou cobarde ao ponto de culpar tudo e mais o que apareça por não conseguir o que quero, ou não fazer pelo que quero, não invento mil razões que me desresponsabilizem, não digo que fiz mal ou que deixei de fazer isto ou aquilo por causa do outro, ou porque a vida foi contra e eu nem tentei, isso acho que não faço, não me desresponsabilizo inventando desculpas, justificações para as minhas fraquezas. Mas quem serei eu na verdade numa questão destas? O que faria eu? O que pensaria eu? O que defenderia?
Só a mim é que inquietam estas questões?
Estaria eu nos 35%?

segunda-feira, 18 de março de 2019

[David Mourão-Ferreira, Obra Poética]

Mesmo de molho, sem sair de casa, chegam-me novidades, notícias, factos surpreendentes do escritório. Fico aqui a pensar entre um ataque de tosse e o próximo, que a quantidade de gente imbecil a coexistir connosco sem sabermos é assustadora, avassaladora... há dias em que estar fechada em casa doente é muito saudável. A sério... Valhamedeus e todos os santinhos...
Estamos perdidos. Completamente.

quinta-feira, 14 de março de 2019



[foto via @urbanreport]

O que eu quero? O que eu quero é o sol como recompensa de quem dá calor. O que eu quero é o sol para quem se encharca até aos ossos em busca dum só fio de cabelo de luz que faça acreditar - acreditar em alguma coisa além. Não o merecem os que ficam debaixo de telha à espera que a chuva passe ou se canse, ou os que descansam enquanto outros escalam as sombras até às nuvens para as reparar, para que deixem passar a luz. Nem os que ficam à espera que o sol rompa a parede por uma janela feita à (sua) medida. Não, eu quero o sol para quem arrisca correr a tempestade, quero prémio por vontade, por ganas, por paixão feita movimento e força, não que seja bónus de quem nada nunca fez, mas aconteceu acontecer-lhe o sol nascer perto. Quero que cada um tenha tal e qual como escolhe querer. Se se fica pelo menos mau, se se quer só se der, então que dê só nessa medida do seu querer, mas se quer com tudo e mesmo debaixo de intempéries, com os ossos a escorrer e a exaustão a marear as pernas, nada lhe lembra demover-se do querer, que o tenha nessa exacta medida. quando tiver, se tiver  -  sabe-se bem que nunca se sabe.
Que o sol não nasça igual para todos, porque não são todos iguais. 
Esperança e optimismo qualquer um arranja de mãos nos bolsos, já a felicidade tem mesmo de ser corajosa.

terça-feira, 12 de março de 2019

-... então, o que me dizes?
- ... vamos devagar... para o tempo não nos apanhar.
-... mas, mais devagar ainda, não será perder tempo?
- o único tempo que se perde é o errado, do tempo certo ninguém dá conta, nem pede contas.

sábado, 9 de março de 2019


Quanto vale um beijo?
(Lembra-me a música do Jorge Palma... que adoro)

... e pensando numa resposta, podia ser a sorte grande, 
ou o teu maior pesadelo. 
Se calhar depende da tua sorte.
É por isso que agora o café é sem açúcar, é mais seguro...