domingo, 21 de outubro de 2018

Era bom uma noite de sono a escuridão, como esta que vejo no céu, aqui sentada nas minhas palettes a ouvir e a ver a chuva cair, uma escuridão fechada, um sono sem pesadelos de que se quer acordar,  e sem sonhos que fazem do acordar para a realidade um pesadelo. Há dias, tal como me acontece de vez em quando, acordei a chorar  - tenho essa coisa de o subconsciente me fazer chorar a sonhar, castigando-me por recusar-me a chorar acordada - , e quando comentei que não tinha dormido bem, que tinha tido sonhos esquisitos, disseram-me que devia tentar programar os sonhos, antes de adormecer pensar só nas coisas com que queria sonhar, coisas boas, e que se pensasse com  muita força (como é que se pensaria com muita força?) talvez sonhasse com essas coisas. 
Fiquei a pensar que se quiser muito que o coração pare, se pensar nisso com muita força e vontade, se ele parará... ou se ele só faz o que lhe apetece. Como os sonhos, ou os sonhos como ele. Fazem o que querem, como querem, o resto não interessa, os outros não interessam, eu não interesso. Mesmo que o sonho seja meu, ou o coração. Talvez nalguns casos a propriedade não dê direito à disposição e pleno usufruto. Não sei. 

sábado, 20 de outubro de 2018

[foto @ryanmuirhead]

Tenho coisas a bailarem-me na cabeça, coisas para escrever que não me apetece escrever. Tenho preguiça de seguir as palavras para um sentido. Com um sentido, um fim. Sinto-as e basta, baralho-as para que não me baralhem, sei o que dizem, sinto-o, mas não o digo. Nem o quero guardar, quero que se desfaçam, que se gastem, que me desapareçam, que se percam, não as escrevo, não quero. Não me apetece, tenho pensamentos a esvoaçar-me por todo o canto de cada hora, mas não quero ouvi-los, nem sabê-los. Quero esquecer-me que sei. Tanta coisa. Quero esquecer tudo sem saber ter esquecido o que quer que fosse. Como se nunca nada, nunca nada de coisa nenhuma. Apetecem-me distâncias de dentro para para fora, mas não sei caminhar sem mim. Ainda que me sinta despida pelo avesso, nua por dentro dos olhos, descalça de alma. Mas ainda assim, estar vazia de mim, não é não ser eu. Antes fosse.
[via @cuddleupnow]

Às vezes uma imagem diz(nos) tanto que só o silêncio compreende.

sábado, 13 de outubro de 2018

[foto @moniblanco]

Há uma vontade avassaladora de sair de mim mesma. De me deixar para trás, com a certeza de que não quero nada do que fica sem mim e que mais inteira me sou se me desfizer dos pedaços que lembram o que fui. Sem alguma vez ter sido alguma coisa, alguém. Ninguém quer em si a certeza de nunca ter sido. Mas há sempre alguém que no-la dá.
...but I like the way you think...
Bom dia!!

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Houve um amigo que há uns anos me dizia que eu devia ter sido muito maltratada, e isto foi coisa que nunca esqueci - o notar-se, o ver-se através de mim as mágoas que acumulei, por deixar alguém maltratar-me enquanto dava tudo de mim. Não gostei e não queria ser vista assim.
Hoje em dia não sou maltratada, nem bem, não sou tratada... só sei que acordei com a sensação que preciso é dum bom trato e o resto que se trate (para não dizer outra coisa...)

Há soluções tão fáceis, fôssemos todos fáceis. Fôssemos todos pessoas de fáceis soluções, de optimismos inconscientes, superficialidades saborosas, imunes à dor de magoar os outros e que se lixe,  e haveria tantos dias melhores.... porque cada um trata de si, essa é que é essa, e o resto que se fod@... quando puder. Se não for com um, é com outro, pouco importa.

Bom dia.
[foto de Chema Madoz]

Tentei medir o tempo
passando-o pelo buraco duma agulha.
 Não coseu nada. 
Passou sem deixar fio. 
Ninguém sabe quanto andou, 
mas a agulha era fina e afiada, 
isso sabe-se.

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Acabei Os Enamoramentos (Javier Marias) - que não me fez fechar o livro para pensar o que li vez nenhuma, lê-se bem, mas nada demais - e comecei este. Gosto do tom deste livro, os outros que li dele (Mario Benedetti) não tinham este tom tão cândido e ao mesmo tempo com humor, talvez porque neste o personagem é a criança, pelo menos por enquanto, mas já me ri com ele. Com ele, aqui sozinha. 
Gosto sempre muito dos livros dele, a poesia, então, nem se fala. Tão doce e tão humano, por paradoxal que pareça, nos dias de hoje um humano ser doce e parecer ser gente...
De regresso ao trabalho, custa tanto mas tem de ser... mas vontade nem um tico. 

sábado, 6 de outubro de 2018

...quem diz vodka 
(e eu até sou uma moça adepta de vodka), 
diz vinho, branco no caso. 
Não é a resposta, talvez não, 
mas tem dias que mudam as respostas... 
já eu tenho mais perguntas que respostas, 
não sei se muda alguma coisa...
o céu parece-me o mesmo, 
não deu por falta da estrela que ontem lhe caiu...
Ontem fiquei a olhar este céu imenso à espera de ver uma estrela cadente, uma que fosse. Como um sinal ou uma prova de Alentejo (sempre que aqui estou deixo os olhos vaguear pelo céu já noite mais que cerrada ) e nada. Nada mesmo, não vi nem uma. Hoje sentei-me aqui outra vez, debaixo deste céu cheio de pontinhos tremeluzentes, que não sei unir nem deslindar, e de nariz no ar e mão no copo de vinho agarrei uma a escapar-se, a cair céu adentro. Hoje, hoje que não pedi nenhum desejo. Talvez também isso seja um sinal... mas de quê?
Sei que estou aqui oiço cães ao longe e cigarras e o silêncio das estrelas. Mais nada. E de repente, apetecia-me conversar, acho até que me apeteciam coisas que nunca tive... mas com quem? 
Só tenho perguntas assim, sem resposta, talvez seja da garrafa de vinho mais de metade vazia, ou da escuridão inteira que não me adormece, ou da vida que sempre me fica por acontecer... mas porquê?

sexta-feira, 5 de outubro de 2018



Este lusco-fusco, estas cores quentes que me aceleram o passo do coração, estas estradas serpenteadas que me fazem curvar com prazer, num misto de vontade da vagareza do deleite e a tendência de carregar no pedal... se houvesse razões para uma pessoa se apaixonar por lugares, talvez estas fossem as minhas pelo Alentejo. Fujo para aqui e descanso-me do mundo. Quase não falo, e ouvir só a música no carro e pouco mais. Desde ontem o mundo desacelerou, começa na viagem  como se se fosse acomodando à pele, a colá-la, quase a absorvê-la, hoje ganhou outras cores, ontem sossego hoje passeio. Não me canso disto. Pode ser perigoso.

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

[foto @jordanioo]

...vontade de um sítio assim. 
A vista a baloiçar nas ondas e o corpo no baloiço. Apetecia.
À vista, só a alma do lugar.

[foto @nicoladavisonreed]

“Pousei as minhas mãos num rosto e retirei-as feridas pelo amor.
Agora,
o esquecimento acaricia as minhas mãos.”

António Gamoneda

[sem olvido restam as mãos vazias a prender ausências]

quarta-feira, 3 de outubro de 2018


[foto @cela65]

“Quero fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão.
Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado.
Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido... Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.
Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem.
A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.
Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje.
Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá tudo bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?
O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto.
O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. 
dá para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem.
Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir.
A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira.
E valê-la também.”

Elogio ao Amor, por Miguel Esteves Cardoso

Este é um texto que deve ser lido e relido, para nos lembrar do fundamental, para nos apontar o óbvio, que fica soterrado no lixo dos dias, nas acomodações, nos afectos pequeninos e convenientes, na falta de gestos carregados de emoção e intenção, vontade. Para nos lembrar que é possível, ainda que raro. E que há quem valorize, quem não aceite menos que um sentir sentido, mesmo que difícil, e quem ache que qualquer coisa serve desde que pareça ser uma relação onde há afecto, mesmo que só pareça para quem vir de fora.
Convém elogiar o amor puro, aquele que não é alinhadinho e penteadinho, todo organizado, planeado e mais-que-justificado, que quase podia ter a imagem cotada em bolsa. O amor puro é despenteado, é louco às vezes, destravado, não se sabe justificar nem por que leva a fazer coisas autenticamente e perigosamente estúpidas, é aquele que enche o peito de coragem sem sabermos como ou porquê, que nos faz ir sem perguntar como, ou por onde. Que nos faz fazer e pensar depois. É aquele que consegue arrancar cabelos a um careca. Porque é capaz disso. Não perguntem como. E se sabem do que o MEC fala, não perguntam, lêem e sorriem, o sorriso dos que sabem. Alguns nunca saberão. O amor assim não é para todos. Talvez bem. 

[às vezes temos de (re)ler coisas assim para remetermos os números e a vida ao seu lugar, para nos recentrarmos, para saber quem não somos e o que não queremos, para distinguirmos a vida dos dias e para percebermos também porque, ainda assim, nos sabe tão bem estar sozinhos - “viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra.” .]

terça-feira, 2 de outubro de 2018

[foto @ryanandray]

Ansiedade pelo desconhecido, medo de mim mesma, do que não sou, de não ser capaz, de não saber o que e como fazer. Vergonha por dever saber, dever ser melhor. Muito melhor. 
As pernas prendem-se e entravam-me na cama todo o dia, mesmo depois de me levantar e andar, não me mexo, não me quero mexer, não quero que dêem conta da minha existência. Nem eu. Conto as horas para comer kms para longe daqui, como se isso me livrasse dos dias por vir, dos problemas para resolver tão maiores que eu.
Há dias em que o desespero me cai das mãos, vertido em cada um dos minutos do dia - não o agarro e não me foge.
[foto @raywychin]

O meu olhar só vê a superfície do que não conhece, 
se conhecer, atravessa a superfície como se não existisse, 
só olha o que vê por dentro. 
Só vê o que olha de dentro. 
Só vê como conhece. 
Há outra maneira de ver? 
Haverá outra maneira de não ver?

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

...hummm então é isso... 
eu não assusto ninguém, está explicado... bahhh

sábado, 29 de setembro de 2018


Uma espécie de ronha.
Sábado de manhã, tarde, até quando for... era bom, fora dos sonhos. 

(não me apetece sair da cama, vou saltitando entre dormitar em sonhos bons e ler um livro, não me apetece sair daqui, mas o estômago está a dar uma de ditador... o sacana)
[foto @langlent]

A única solidão mal resolvida é a solidão acompanhada, de alguém ou de uma ausência. Não sei qual é a pior, mas sei qual seria a minha escolha. 
Tudo o resto, eu diria que é estar sozinho sem estar só, ou estar com alguém como se está sozinho, perfeitamente. Talvez se possa chamar a isso solidão bem resolvida, ainda que não lhe chamasse solidão. 
Estarmos sozinhos ou sentirmo-nos sozinhos, sós, não é, para mim, o mesmo. Como se a solidão precisasse dum sentimento de falta, até de nós mesmos, uma qualquer parte de nós que alguém traz na algibeira da alma sem saber e sem cuidado.

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Milan Kundera, in A brincadeira

... uma imagem de nós mais real que nós próprios, uma imagem que não é a nossa sombra, mas sim nós a sua sombra. 
O que será então mais real? Ou o que será real? A imagem que passamos ou o que não deixamos transparecer nessa imagem? 
Tenho sempre, e sempre tive, a ideia de que o que somos é muitas vezes - a maior parte, provavelmente - o que não mostramos, não para enganar ou para parecer ter o que não temos ou somos - porque isso seria um projectar duma imagem demasiado arquitectada -, mas para nos protegermos. 
Acho que se nos habituarmos a viver só a imagem que damos quase esquecemos o que somos, tornamo-nos uma sombra do que se quer parecer e às vezes convencemo-nos de que somos assim. Porque achamos que o devíamos ser. 
Eu achei durante muito tempo que para gostarem de mim, para não desiludir ninguém, eu tinha de tentar ser uma mulher modelo, aquela que tem uma casa impecável, que dá, ou tenta, dar tudo de si para que a pessoa que tem ao lado seja feliz e viva como gostaria, tentar ser uma boa mãe, e parecer que tudo isso me fazia, também a mim, feliz. Não fazia. Não fez. Nunca fui uma mulher modelo ou o modelo de boa mãe, mais do que ter a casa aprovisionada e arrumada, eu gostava de ler, de pensar, de conversar, de passear-me quieta. E de escrever, o que deixei de fazer uns tempos antes de casar. Porque havia coisas mais importantes, achei. Mas somos o que somos, e tudo o que sou veio ao cimo de tudo isso. Preciso de escrever, tenho fome de conversar o que me faz pensar, sou desarrumada, e terrível dona de casa. Adoro mimo e sofá e silêncio com quem me sinto una e nua - sem medos nem vergonhas. Sou desorganizada mas preciso de lógica e de entender, de percorrer o fio entre a causa e o efeito. Mas sou também o que me fez viver como se fosse a imagem do que queria ser, sou a sua causa - e sou muito, muito disso. Talvez ainda, ainda que muito menos. E agora, ao menos, sei que há coisas que não me conseguem fazer feliz. Mesmo que tente.... e agora acho que felicidade não é tentarmos, a todo o custo, moldar-nos a ela, fazê-la, é ela moldar-se a nós, colar-se a nós sem que  sequer notemos a tempo,  é uma coisa que simplesmente acontece. Talvez depois do acaso de conhecê-la, só nos caiba o caso de mantê-la.
Hoje não sei que imagem passo de mim, não faço ideia. A imagem que se passa talvez mude, eu estou igual, na essência, no fundamental. No que sou e serei. Até no que fui.

[resgatado dos rascunhos, ainda do Kundera na sua Brincadeira...apeteceu-me depois do Impontual o "Nobelizar", aliás, Impontualizar, e bem, parece-me :) ]