domingo, 23 de setembro de 2018


“Assim, apanhados pela mãe, éramos dois e contrários, 
ela encobrindo com a palavra o que eu publicava pelo silêncio”

Machado de Assis, in Dom Casmurro

Há quem use as palavras, as frases, até os factos, para não dizer nada, para esconder debaixo de tudo, e cada coisa, a verdade; e há quem diga tudo, se revele, se confesse, se traia até, calando todas as palavras, na vã esperança de o silêncio nada dizer.

sábado, 22 de setembro de 2018

 
... a beber a noite.
 Copo a copo, lentamente,
como para enganar o tempo, que nunca é enganado...

“- Há letras inúteis e letras dispensáveis - dizia ele. - Que serviço diverso prestam o “d” e o “t” ? Têm quase o mesmo som. (...) Veja os algarismos: não há dois que façam o mesmo ofício; 4 é 4, e 7 é 7. E admite a beleza com que um 4 e um 7 formam esta coisa que se exprime por 11. Agora dobre 11 e terá 22; multiplique por igual número, dá 484, e assim por diante. Mas onde a perfeição é maior é no emprego do zero. O valor do zero é, em si mesmo, nada; mas o ofício deste sinal negativo é justamente aumentar. Um 5 sozinho é um 5; ponha-lhe dois 00, é 500”

Machado de Assis, in Dom Casmurro

Às vezes coisas sem grande nexo ou sentido aparente, entram na minha cabeça de outra maneira, como se atrás do que não diz nada se dissesse alguma coisa, alguma coisa tão clara que se deveria ver. Mas nem sempre vê. Nem sempre vemos o que temos à frente, ou ao lado. Podemos olhar, ou ler, mas ver mesmo, nem sempre vemos. 
Não sei se vi todas as pessoas que por mim passaram, vi algumas, sei que poucas ou nenhuma me viram. 
Mas o que fiquei a pensar, e  me fez fechar o livro, é como é triste viver (ou apenas conviver, ou até só trabalhar) com alguém que nos vê como zero, e não perceber que ao lado de quem (realmente) valha alguma coisa, juntos, se podia valer tanto, ser tanto... é que olharem e verem um zero é nada, mas verem o quanto juntos se pode ser, é também acharem-se no outro. Valerem com o outro num ganho que só fazem juntos.
Há muita gente a achar-se um zero porque são tratadas como valendo nada, um dia percebem que podem servir (ou que têm servido sem perceber) para aumentar os outros, e quando crescem só o aceitam se forem vistos como par. Não como ferramenta ou utilidade.

O zero pode ser nada, mas pode ser aquele pequeno nada que torna um num milhão.

[e agora vou ali ao rio refrescar a alma que o sol ferve no corpo... adorei aquele spot. Não gosto de repetir sítios onde fiquei, mas este sou capaz de um dia abrir uma excepção...]

sexta-feira, 21 de setembro de 2018



Balanço da tarde ;)))




De chávena na mão - que diz "Some fox loves you", prefiro Wolves, mas estas descoincidências são a história da minha vida... - empoleirada, depois do pequeno-almoço a servir de almoço, a beber o café que ontem demorei vinte minutos a ir buscar e duas horas para trazer. O sítio é paradisíaco mas chegar cá é uma espécie de inferno, e o gps e eu discutimos muito, ele pensa que eu ando de burro e não de carro (ainda por cima sou eu que pago os arranjos e coiso não posso dar cabo dele nem ficar atascada, ou enrascada mesmo, no meio do mato...), então discutimos muito. Mas eu sou gaja, ou seja tenho zero de sentido de orientação... o que complicou as coisas. Mas chegámos, de discussão em discussão, duas horas depois de fazer um caminho que, em sendo o certo, demoraria vinte minutos. Há muitas coisas assim na vida. Se calhar encontrar o paraíso na Terra, ao virar duma esquina improvável, por exemplo. 

(mas passada passada fiquei quando o carro no meio de sei lá de onde, só com árvores à volta, e sem vivalma que se avistasse, acendeu a luz do motor... Valhamedeus, quase reaprendi a rezar... e acho que rezei, mas sem protocolos...)

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Às vezes à noite há um grilo que se manifesta, durante o dia os pássaros conversam entre o silêncio do rio, que nunca se cala.
O som é sempre o mesmo, contínuo, o rio corre como se corresse sempre da mesma maneira. Como se tudo fosse o mesmo tempo, ou não houvesse tempo, não houvesse tempos. Não aqui. A manhã como a tarde como a noite. Como se por trás de tudo o que se vê estivesse algo imutável, sempre, que segura e acolhe todas as mudanças, sem mudar. Ainda que nada se repita. Nem o tempo. Nem o rio.

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Eheheh
... de tacha arreganhada...
Quase eu...
...finalmente é sábado, bora lá... ;)))

segunda-feira, 17 de setembro de 2018


[foto @tarasovm]

Fugir para o longe que nos aconchega
Fugir para onde sozinhos estamos menos sós.
Fugir para onde a solidão não tem espelhos que devolvem o que nos falta
Fugir para onde o silêncio nos mima e a escuridão nos dá a mão
Fugir para um sítio onde ninguém nos tira as dores, mas não nos afia as feridas.
Fugir para onde nos chegamos regressados.

[em contagem decrescente... quero pirar-me daqui. tanto. parece que os kms a percorrer já me fazem cócegas na pele]

sábado, 15 de setembro de 2018

Deve ser impossível acordar mal com a vida num cenário destes.
... e o tanto que me apetece isto... 
quanto menos tempo falta mais longe me parece,  
 a vontade aumenta mais e mais rápido do que o tempo passa...
Aguentar mais um bocadinho... 
e depois lá vou eu para dias de paradeiro desconhecido... 
ahhh coisa tão boa, já sinto tanta falta do silêncio em sossego.

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

[via @33thirdmedia]

As cicatrizes fazem-nos a espinha. 
Não tem de ser feio, não temos de ficar pessoas feias ou vazias ou amargas. Não temos, e não devemos deixar, mas podemos mudar de águas e continuar a nadar, corrente acima, corrente abaixo. Deixarmo-nos só boiar, às vezes, também é bom... 

Bom dia!

quarta-feira, 12 de setembro de 2018


Estou tão preguiçosa de escrever. Não me apetece, penso nisso e deixo esse pensamento pousado nalgum sítio a ganhar pó, há coisas em que penso, outras que sinto, e que noutras alturas dariam coisas escritas. Agora não me apetece, as palavras são demasiado líquidas para as tentar agarrar, seria preciso muita paciência, muita vontade de pôr preto no branco, ou branco no preto - de me desfiar e discernir. Mas não sinto essa necessidade, como se sentisse que não tenho em mim já nada para discernir, compreender ou dizer.  Como se eu estivesse concluída. Feita, resolvida. Não sei, qualquer coisa com uma sensação fechada, de escuridão cerrada que já nem se fere com a luz, ou de luz que sabe das sombras e as aconchega. Estou meia apática e quase paralisada, não sinto grande coisa e não me mexo para lado algum. E parece uma benção. Estranhamente abençoada é como me sinto. Tenho a sensação de estar a conseguir viver a vida só em partes de mim, plenas em si mas esquartejadas dum todo, como se algum fecho estanque tivesse descido e produzido um clique. Como um fecho de segurança (realmente, por segurança, talvez, agora que penso nisso). Era isso ou enlouquecer. Mais ainda.
E comecei a escrever, aqui, hoje, porque dei por mim a pensar no último livro que li, e a esplanada onde o li nalgumas manhãs, e faltaram-me as palavras onde soletrar essa tranquilidade dos barquinhos que me navegavam o olhar parado. E o livro, tanto que me fez pensar, na importância dos erros, ou melhor, na total irrelevância dos erros. Porque não há justiça, não há o reparar erros, não há significados implícitos ou truncados nas asneiras que fazemos, mesmo que as façamos de coração. Não, nada disso, tal como não há castigos. Há vida e os erros são meros passos, tal como todos aqueles que não são. Têm consequências relevantes uns, outros não - sendo erros ou não. Justiça não há, a lógica é totalmente inexistente, não nos prendamos a isso, e não entendamos o que nos acontece como castigo ou como significante, porque não há justiça, logo, não há castigos nem um qualquer equilíbrio devido ou por devir. Há vida. Mais nada. Há vivê-la, se tanto conseguirmos. Mesmo que só em partes de nós. Como eu. Agora. Porque isto é tudo uma brincadeira, e tão bem Kundera mo mostrou. 

terça-feira, 11 de setembro de 2018


Duas garrafas de vinho tinto, do bom, depois aterro na cama e resumo a noite como a viragem entre o chegar a casa com a sensação que a vida não tem grande sentido, e achar que uma pessoa que conheci há oito anos numa situação engraçada é hoje um bom amigo com quem partilho valores e princípios, ( e garrafas de bom vinho que traz debaixo do braço, quando passa aqui pelo burgo, e às vezes um jantar como há umas noites atrás) uma pessoa que admiro e acompanho, de quem gosto, e que de repente faz parecer com que acasos muitas vezes sejam casos de muito sentido. Ou de se tornarem com muito sentido, só temos de deixar o tempo fazer a sua magia, e as pessoas serem quem são. Ouvi coisas que gostei, que me tocaram verdadeiramente, coisas em grande, que não sei onde as desenterrou ou  pensa que as foi buscar, mas eu registei, e tocou-me. Não tinha como não. Dizer-me que só não sou namorada dele porque não quero e ele entende porque sou trabalho para tempo inteiro e ele está longe, não me toca ou diz nem metade do que deixou escapar.
Deixa-me uma sensação boa, que não sei explicar, saber que há no mundo meia dúzia de pessoas (não mais e talvez nem tantos) que se eu morresse amanhã tentaria dizer, contar, explicar à minha filha a mulher que eu tentei ser, que eu gostaria de ser. Mesmo que não tenha chegado a ser, a não ser aos olhos de meia dúzia de pessoas (não mais e talvez nem tantos). Não sei o que faço para algumas pessoas me dizerem sobre mim coisas que não só me surpreendem como não sei onde as vão fundamentar. Mas essa era a mulher que eu realmente gostava de conseguir ser. Sempre. Em tudo. Mas sei que não sou. Sei, isso sei, que pelo menos há pessoas que têm a certeza que podem contar comigo e que confiam em mim, em como sou. E isso é tão bom e reconfortante. No meio do caos da minha vida de repente há um desnorte que ganha uma bússola. Um sentido. Um qualquer porquê. E eu sou uma pessoa de porquês... acabo a noite melhor do que a comecei. E isso é bom. E o vinho também era. Muito.

sexta-feira, 7 de setembro de 2018


- o que é que te falta?
- tudo o que está aí dentro...

E ela ficou a pensar naquela resposta. Tão clara. Tão verdadeira.
Realmente deve ser isso, ela percebeu que ele verdadeiramente tinha toda a razão, sem sequer saber... Ele sente a falta dele. Dele inteiro, da alma dele que ela trazia entranhada, emaranhada na sua.
Percebeu ali, naquele instante de meio sorriso, que ela não estaria alguma vez entranhada nele, era apenas a sua droga, o seu vício, o seu porto de abrigo em épocas de tempestade, o calor nos tempos frios, era o seu alimento de ego e auto estima. E o sarcasmo, a ironia daquilo de que se apercebia, deu-lhe o outro meio sorriso quando lhe veio à ideia e à boca pelo lado de dentro, que sabia também haver disso em comprimidos...

quarta-feira, 5 de setembro de 2018


Há títulos que se puxam sozinhos da prateleira, ou assim me pareceu. Isso e “as memórias das pancadas do coração naquele instante”, a emoção de cada primeiro amor (ainda assim espero, não sempre, mas às vezes). Todos são o primeiro amor para sempre, não é? Talvez o verdadeiro seja o último, e por isso, verdadeiramente o primeiro. 
Vamos lá ser casmurros juntos durante uns tempos...

terça-feira, 4 de setembro de 2018

Milan Kundera, A Brincadeira
Parece, às vezes, para algumas pessoas, que apesar de tudo hão-de ser compreendidas e por isso perdoadas. E muitas vezes assim é, mas não sempre, não para sempre. E muitas dessas vezes estas pessoas não tentam compreender quem querem que os compreenda, como se só eles existissem ou importassem ou sentissem. Um dia, que às vezes chega, as pessoas que sempre tentam compreender e perdoar tudo, mudam de morada. Outras vezes fingem não saber ou perdoar porque não sabem mudar, e perdoar ou fingir é só um evitar tomar consciência que existem abaixo da linha de água do viver. Debaixo de uma mão, de que não se libertam,  que os empurra e mantém lá.
A Brincadeira acabou.
Venha o próximo.

domingo, 2 de setembro de 2018

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Os rituais de que vamos tecendo os nossos momentos sustentam-nos na trama dos dias pardos. São como um apoio onde nos descansamos e nos vemos de longe em longe no dia que tende a perder-nos.
Mudamos de sítio e há rituais que se perdem, mesmo que momentaneamente, mas a necessidade de algo que nos agarre ao dia ao mesmo tempo que nos distancia dele, ressente-se. Ou ressinto-me. Os meus fins de tarde aplanaram-se, não tenho aqueles momentos de pausa em que atravesso a ponte entre o dia de trabalho e a noite com o vagar do pôr-do-sol, com a doçura do lusco-fusco que se derrama sobre tudo o que se vê, e, aos meus olhos, mais ainda do que não se vê. Por isso agora arranjei um compasso de espera, de suspensão do relógio antes de ir trabalhar. Talvez agora seja para arranjar forças e coragem para começar a labuta, ou só porque me falta um tempo para parar o tempo. Mesmo que ele não pare, mesmo que estes minutos sejam só um capricho de quem gosta de pequenos rituais onde me tento lembrar de não me esquecer quem sou e de que sou feita.

Bom dia.

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

A minha companhia para o café. Tiro os olhos dos barquinhos adormecidos e vejo este pequeno magrinho e irrequieto. Penso no conceito de liberdade, penso que ele é livre, ando por onde quer quando quer, tem só as fronteiras da fome para lhe moldar os movimentos. Eu, bem vistas as coisas, também poderia ir aonde as minhas pernas me pudessem levar, fazer o que quisesse, mas claro, também tenho de comer e dar de comer, e isso vem embrulhado em regras e normas que se têm de acatar. Então acatamos. Livremente. Bem vistas as coisas, tanto a minha vida como a desta minha companhia para café, são vidas neutras, se fizermos zoom-out, todas as vidas, ou quase, são neutras. É meramente uma sobrevivência, mais ou menos articulada, mais ou menos livre, que nos mantém vivos. Depois há momentos, momentos que parecem mais do que são, que parecem capazes de sair da neutralidade da ordem natural das coisas, que parecem valer mais, que parecem além-sobrevivência, mas o tempo repõe tudo no seu lugar. Talvez bem.

quarta-feira, 29 de agosto de 2018


“(...) concupiscência e ternura, dor e gosto furioso de viver, fome violenta de vulgaridade bem como de carinho, sede de um segundo de prazer, bem como de eterna posse.”

Milan Kundera, in A Brincadeira 

Fecho o livro, ou fecha-se-me aos meus olhos sem dar por isso, por causa daquilo - fica-me a navegar as ideias sem razões, em total ausência de razão, só fica. Não me lembro de ler resumo tão perfeito do que seria amar com toda a pele uma alma. Porque é isto - para mim pelo menos - a ternura que não desfaz o desejo, o amar a alma através do corpo, desejar a pele, mais além do desejo, pelo que guarda no seu por dentro. E a força selvagem - furiosa, como diz Kundera - do querer, do querer a pessoa inteira. Quase como um engolirmo-nos  e fazermo-nos parte do que não tem partes. Assim não tem.