quarta-feira, 12 de setembro de 2018


Estou tão preguiçosa de escrever. Não me apetece, penso nisso e deixo esse pensamento pousado nalgum sítio a ganhar pó, há coisas em que penso, outras que sinto, e que noutras alturas dariam coisas escritas. Agora não me apetece, as palavras são demasiado líquidas para as tentar agarrar, seria preciso muita paciência, muita vontade de pôr preto no branco, ou branco no preto - de me desfiar e discernir. Mas não sinto essa necessidade, como se sentisse que não tenho em mim já nada para discernir, compreender ou dizer.  Como se eu estivesse concluída. Feita, resolvida. Não sei, qualquer coisa com uma sensação fechada, de escuridão cerrada que já nem se fere com a luz, ou de luz que sabe das sombras e as aconchega. Estou meia apática e quase paralisada, não sinto grande coisa e não me mexo para lado algum. E parece uma benção. Estranhamente abençoada é como me sinto. Tenho a sensação de estar a conseguir viver a vida só em partes de mim, plenas em si mas esquartejadas dum todo, como se algum fecho estanque tivesse descido e produzido um clique. Como um fecho de segurança (realmente, por segurança, talvez, agora que penso nisso). Era isso ou enlouquecer. Mais ainda.
E comecei a escrever, aqui, hoje, porque dei por mim a pensar no último livro que li, e a esplanada onde o li nalgumas manhãs, e faltaram-me as palavras onde soletrar essa tranquilidade dos barquinhos que me navegavam o olhar parado. E o livro, tanto que me fez pensar, na importância dos erros, ou melhor, na total irrelevância dos erros. Porque não há justiça, não há o reparar erros, não há significados implícitos ou truncados nas asneiras que fazemos, mesmo que as façamos de coração. Não, nada disso, tal como não há castigos. Há vida e os erros são meros passos, tal como todos aqueles que não são. Têm consequências relevantes uns, outros não - sendo erros ou não. Justiça não há, a lógica é totalmente inexistente, não nos prendamos a isso, e não entendamos o que nos acontece como castigo ou como significante, porque não há justiça, logo, não há castigos nem um qualquer equilíbrio devido ou por devir. Há vida. Mais nada. Há vivê-la, se tanto conseguirmos. Mesmo que só em partes de nós. Como eu. Agora. Porque isto é tudo uma brincadeira, e tão bem Kundera mo mostrou. 

terça-feira, 11 de setembro de 2018


Duas garrafas de vinho tinto, do bom, depois aterro na cama e resumo a noite como a viragem entre o chegar a casa com a sensação que a vida não tem grande sentido, e achar que uma pessoa que conheci há oito anos numa situação engraçada é hoje um bom amigo com quem partilho valores e princípios, ( e garrafas de bom vinho que traz debaixo do braço, quando passa aqui pelo burgo, e às vezes um jantar como há umas noites atrás) uma pessoa que admiro e acompanho, de quem gosto, e que de repente faz parecer com que acasos muitas vezes sejam casos de muito sentido. Ou de se tornarem com muito sentido, só temos de deixar o tempo fazer a sua magia, e as pessoas serem quem são. Ouvi coisas que gostei, que me tocaram verdadeiramente, coisas em grande, que não sei onde as desenterrou ou  pensa que as foi buscar, mas eu registei, e tocou-me. Não tinha como não. Dizer-me que só não sou namorada dele porque não quero e ele entende porque sou trabalho para tempo inteiro e ele está longe, não me toca ou diz nem metade do que deixou escapar.
Deixa-me uma sensação boa, que não sei explicar, saber que há no mundo meia dúzia de pessoas (não mais e talvez nem tantos) que se eu morresse amanhã tentaria dizer, contar, explicar à minha filha a mulher que eu tentei ser, que eu gostaria de ser. Mesmo que não tenha chegado a ser, a não ser aos olhos de meia dúzia de pessoas (não mais e talvez nem tantos). Não sei o que faço para algumas pessoas me dizerem sobre mim coisas que não só me surpreendem como não sei onde as vão fundamentar. Mas essa era a mulher que eu realmente gostava de conseguir ser. Sempre. Em tudo. Mas sei que não sou. Sei, isso sei, que pelo menos há pessoas que têm a certeza que podem contar comigo e que confiam em mim, em como sou. E isso é tão bom e reconfortante. No meio do caos da minha vida de repente há um desnorte que ganha uma bússola. Um sentido. Um qualquer porquê. E eu sou uma pessoa de porquês... acabo a noite melhor do que a comecei. E isso é bom. E o vinho também era. Muito.

sexta-feira, 7 de setembro de 2018


- o que é que te falta?
- tudo o que está aí dentro...

E ela ficou a pensar naquela resposta. Tão clara. Tão verdadeira.
Realmente deve ser isso, ela percebeu que ele verdadeiramente tinha toda a razão, sem sequer saber... Ele sente a falta dele. Dele inteiro, da alma dele que ela trazia entranhada, emaranhada na sua.
Percebeu ali, naquele instante de meio sorriso, que ela não estaria alguma vez entranhada nele, era apenas a sua droga, o seu vício, o seu porto de abrigo em épocas de tempestade, o calor nos tempos frios, era o seu alimento de ego e auto estima. E o sarcasmo, a ironia daquilo de que se apercebia, deu-lhe o outro meio sorriso quando lhe veio à ideia e à boca pelo lado de dentro, que sabia também haver disso em comprimidos...

quarta-feira, 5 de setembro de 2018


Há títulos que se puxam sozinhos da prateleira, ou assim me pareceu. Isso e “as memórias das pancadas do coração naquele instante”, a emoção de cada primeiro amor (ainda assim espero, não sempre, mas às vezes). Todos são o primeiro amor para sempre, não é? Talvez o verdadeiro seja o último, e por isso, verdadeiramente o primeiro. 
Vamos lá ser casmurros juntos durante uns tempos...

terça-feira, 4 de setembro de 2018

Milan Kundera, A Brincadeira
Parece, às vezes, para algumas pessoas, que apesar de tudo hão-de ser compreendidas e por isso perdoadas. E muitas vezes assim é, mas não sempre, não para sempre. E muitas dessas vezes estas pessoas não tentam compreender quem querem que os compreenda, como se só eles existissem ou importassem ou sentissem. Um dia, que às vezes chega, as pessoas que sempre tentam compreender e perdoar tudo, mudam de morada. Outras vezes fingem não saber ou perdoar porque não sabem mudar, e perdoar ou fingir é só um evitar tomar consciência que existem abaixo da linha de água do viver. Debaixo de uma mão, de que não se libertam,  que os empurra e mantém lá.
A Brincadeira acabou.
Venha o próximo.

domingo, 2 de setembro de 2018