sexta-feira, 7 de setembro de 2018


- o que é que te falta?
- tudo o que está aí dentro...

E ela ficou a pensar naquela resposta. Tão clara. Tão verdadeira.
Realmente deve ser isso, ela percebeu que ele verdadeiramente tinha toda a razão, sem sequer saber... Ele sente a falta dele. Dele inteiro, da alma dele que ela trazia entranhada, emaranhada na sua.
Percebeu ali, naquele instante de meio sorriso, que ela não estaria alguma vez entranhada nele, era apenas a sua droga, o seu vício, o seu porto de abrigo em épocas de tempestade, o calor nos tempos frios, era o seu alimento de ego e auto estima. E o sarcasmo, a ironia daquilo de que se apercebia, deu-lhe o outro meio sorriso quando lhe veio à ideia e à boca pelo lado de dentro, que sabia também haver disso em comprimidos...

quarta-feira, 5 de setembro de 2018


Há títulos que se puxam sozinhos da prateleira, ou assim me pareceu. Isso e “as memórias das pancadas do coração naquele instante”, a emoção de cada primeiro amor (ainda assim espero, não sempre, mas às vezes). Todos são o primeiro amor para sempre, não é? Talvez o verdadeiro seja o último, e por isso, verdadeiramente o primeiro. 
Vamos lá ser casmurros juntos durante uns tempos...

terça-feira, 4 de setembro de 2018

Milan Kundera, A Brincadeira
Parece, às vezes, para algumas pessoas, que apesar de tudo hão-de ser compreendidas e por isso perdoadas. E muitas vezes assim é, mas não sempre, não para sempre. E muitas dessas vezes estas pessoas não tentam compreender quem querem que os compreenda, como se só eles existissem ou importassem ou sentissem. Um dia, que às vezes chega, as pessoas que sempre tentam compreender e perdoar tudo, mudam de morada. Outras vezes fingem não saber ou perdoar porque não sabem mudar, e perdoar ou fingir é só um evitar tomar consciência que existem abaixo da linha de água do viver. Debaixo de uma mão, de que não se libertam,  que os empurra e mantém lá.
A Brincadeira acabou.
Venha o próximo.

domingo, 2 de setembro de 2018

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Os rituais de que vamos tecendo os nossos momentos sustentam-nos na trama dos dias pardos. São como um apoio onde nos descansamos e nos vemos de longe em longe no dia que tende a perder-nos.
Mudamos de sítio e há rituais que se perdem, mesmo que momentaneamente, mas a necessidade de algo que nos agarre ao dia ao mesmo tempo que nos distancia dele, ressente-se. Ou ressinto-me. Os meus fins de tarde aplanaram-se, não tenho aqueles momentos de pausa em que atravesso a ponte entre o dia de trabalho e a noite com o vagar do pôr-do-sol, com a doçura do lusco-fusco que se derrama sobre tudo o que se vê, e, aos meus olhos, mais ainda do que não se vê. Por isso agora arranjei um compasso de espera, de suspensão do relógio antes de ir trabalhar. Talvez agora seja para arranjar forças e coragem para começar a labuta, ou só porque me falta um tempo para parar o tempo. Mesmo que ele não pare, mesmo que estes minutos sejam só um capricho de quem gosta de pequenos rituais onde me tento lembrar de não me esquecer quem sou e de que sou feita.

Bom dia.

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

A minha companhia para o café. Tiro os olhos dos barquinhos adormecidos e vejo este pequeno magrinho e irrequieto. Penso no conceito de liberdade, penso que ele é livre, ando por onde quer quando quer, tem só as fronteiras da fome para lhe moldar os movimentos. Eu, bem vistas as coisas, também poderia ir aonde as minhas pernas me pudessem levar, fazer o que quisesse, mas claro, também tenho de comer e dar de comer, e isso vem embrulhado em regras e normas que se têm de acatar. Então acatamos. Livremente. Bem vistas as coisas, tanto a minha vida como a desta minha companhia para café, são vidas neutras, se fizermos zoom-out, todas as vidas, ou quase, são neutras. É meramente uma sobrevivência, mais ou menos articulada, mais ou menos livre, que nos mantém vivos. Depois há momentos, momentos que parecem mais do que são, que parecem capazes de sair da neutralidade da ordem natural das coisas, que parecem valer mais, que parecem além-sobrevivência, mas o tempo repõe tudo no seu lugar. Talvez bem.

quarta-feira, 29 de agosto de 2018


“(...) concupiscência e ternura, dor e gosto furioso de viver, fome violenta de vulgaridade bem como de carinho, sede de um segundo de prazer, bem como de eterna posse.”

Milan Kundera, in A Brincadeira 

Fecho o livro, ou fecha-se-me aos meus olhos sem dar por isso, por causa daquilo - fica-me a navegar as ideias sem razões, em total ausência de razão, só fica. Não me lembro de ler resumo tão perfeito do que seria amar com toda a pele uma alma. Porque é isto - para mim pelo menos - a ternura que não desfaz o desejo, o amar a alma através do corpo, desejar a pele, mais além do desejo, pelo que guarda no seu por dentro. E a força selvagem - furiosa, como diz Kundera - do querer, do querer a pessoa inteira. Quase como um engolirmo-nos  e fazermo-nos parte do que não tem partes. Assim não tem.

terça-feira, 28 de agosto de 2018

[foto @zynp - gosto de girassóis, gosto do ar alegre e da eterna vocação. Desde miúda que penso que devia haver também giraluas, e talvez haja, só não vêm num pé, vêm com dois e uns olhos semeados no céu escuro da noite. E também gosto desses.]

Good morning, sunshine :))

... E finalmente, quando tiro um dia para mim, não há vestígios de sol. As nuvens querem o sol todo para elas... não deixam passar nada. Não há direito. Mas, mesmo do avesso, depois de dias de turbilhão sem conseguir parar os ossos nem a cabeça, o dia é meu, e ninguém mo tira... 
e depois, às vezes, uma pessoa põe-se, sem notar, a soletrar expressões, e acaba a interrogar-se como se tira um dia? Donde vem a expressão? Tirar um dia? De onde? Tirá-lo para mim? Para onde? Ponho-o no bolso? Ou escondo-me no bolso dele, aninhara e enroscada, para ninguém me ver? 
Como se tira tempo ao tempo? 
Seja como for, tirado ou não, este dia é para mim... e caramba estou tão precisadinha dele!!

Bom dia!

domingo, 26 de agosto de 2018


Da perspectiva e da realidade. 
A realidade é a verdade, a verdade é a realidade?
Uma perspectiva é uma verdade?
A nossa verdade é como vemos as coisas? como as vemos genuínamente?
...como ensinaram o nosso cérebro a vê-las e entendê-las, mas e depois? quando percepcionamos as coisas diferentes, quando o mundo ou a vida  nos enfia olhos adentro o que não sabíamos, mudamos toda a perspectiva, temos de reeducar o cérebro. 
Se soubermos como. 
Se não soubermos, às vezes fingimos que não vemos e pensamos que resulta. 
Não resulta. 
Depois de se ver nunca mais se pode nunca ter visto.
Depois de realmente se abrir os olhos, continuamos a ver mesmo quando os queremos fechados.

(às vezes acordo cheia de vontade de fechar os olhos, de nunca ter visto)

sexta-feira, 24 de agosto de 2018



Lembro-me de vir para esta varanda desde miúda, quinze, dezasseis anos, e de sempre ver este tecto almofadado. É raro ver o manto negro da noite aqui, há sempre um tecto de algodão doce a cobrir a escuridão, a escondê-la, talvez a protegê-la. Se calhar dos olhares, se calhar da vida faz-de-conta que se entretem aqui em baixo. É uma vista recortada entre paredes de casas que se amontoam, como quem se junta à conversa. E há esta casa pequenina, que, daqui donde se recostam os meus olhos, agora me parece quase de bonecas, e que tem uma janela iluminada aberta para um véu de noite que não é escuridão, nem noite. Quantas coisas vemos que são o que são?
Fico aqui dentro do meu casaco, olho para istoe  não sei que idade tem o meu olhar, mesmo que saiba quantos anos contam que vêem o mundo, mas quantos dos que viram contam? Se calhar todos, todos contam sempre, e contam alguma coisa, mas às vezes, muitas, não sei o quê.

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

ahhhh... era o que estava a precisar. 
Escapar daqui. 
Num cruzeiro.
Para as ilhas gregas, por exemplo.
Eu, o sol e o mar, deixo que vão comigo música e livros.
Só.
 (por que é que a vida não é como podia ser? e  se calhar até podia ter uma vida (mais) assim, com mais férias e passeio, mas escolho ser parva... por que é que há pessoas que nascem parvas? ou tornam-se, sei lá...)


sábado, 18 de agosto de 2018

Verdade.
Fico admirada com este mundo, a cada dia, ainda que este mundo não seja admirável , e muito menos novo. E lógica é coisa que não entra na malha que o tece, nada tem outro propósito senão existir. Só. 

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Às vezes o mundo faz muito mais sentido de pernas para o ar. Outras temos a certeza, sabemos, que é quem temos ao lado que lhe dá sentido, seja a fazer o pino ou virado do avesso, e o único sentido é sentir. Depois a vida ensina-nos que onde quer que esteja o Norte temos de o encontrar nós, sozinhos, por dentro dos nossos caminhos, de mãos dadas com o nosso olhar sobre o mundo, e que o sentido não pode estar em nada que não sejamos nós, que não seja nosso, ou o chão deixa de ser chão. E o sentido pode fugir-nos numa esquina dum qualquer segundo mal dobrado.
Hoje, o meu mundo parece ter acordado a fazer o pino, e ainda assim o céu não parece chão.

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Do sexting, em bom!
Bom dia!

[foto @nurukimondo1]

“-Perguntar o quê?... - diz em voz baixa, com uma ênfase depreciativa, como se fizesse troça de si mesmo. - O que é que se pode perguntar das pessoas com palavras? O que vale a resposta que uma pessoa dá com palavras e não com a realidade da sua vida?... vale pouco - diz com determinação. “

Sándor Márai, in As velas ardem até ao fim

A realidade, a verdade das pessoas está no modo como vivem, como fazem a sua vida e as suas escolhas. A vida que levam é a resposta do que são, do que valorizam, do que realmente acarinham. Da pessoa que são. Não é o que dizem. As palavras são tão maleáveis como ar, que tanto cabe numa garrafa redonda como numa caixa quadrada. As palavras, na maior parte das bocas, nada valem, há uma facilidade de dissociação entre as palavras que se dizem e o que se pensa, sente ou faz. Entre o que se critica ou defende com veemência, e as atitudes que se têm. A única coisa que se pode ler do outro sem erro, é o que ele faz. E se estivermos atentos, e quisermos mesmo ouvir, por vezes grita, mas o nosso medo muitas vezes não nos deixa ouvir. Durante muito tempo ensurdece-nos. Até que percebemos que enquanto não escolhermos ouvir, nunca vamos deixar de ter medo, nem nunca vamos assustar-nos com razão da verdadeira realidade - evitamos tanto o susto como a vida.

terça-feira, 14 de agosto de 2018


"As pessoas modificavam-se porque os acidentes as modificavam, ou apenas os acidentes permitiam que elas procedessem como realmente eram, mas antes não podiam ter sido? (...)
(...) Eu tivera a Mercedes e perdera-a. Mas perdera-a por tê-la tido, ou tivera-a porque, já antes ela estava perdida para mim? Pensara eu, alguma vez, e autenticamente em casar com ela? Desejava possui-la por amor e por sentir o seu amor por mim, ou porque a vira, com todos os preconceitos do mundo em que vivia, como acessível? E ela, entregando-se-me, amara-me de facto, ou quisera destruir em si mesma o próprio amor que me tinha e não sabia que tinha? Ou sabia?"
Jorge de Sena, in Sinais de Fogo

As pessoas revelam-se aos nossos olhos tanto quanto os portugueses descobriram o Brasil. Já lá estava tudo, nós é que não sabíamos e por isso não víamos. O mundo mudou aos nossos olhos, ganhámos terra que não conhecíamos, mas nada (na morfologia do mundo) efectivamente mudou, a não ser a nossa perspectiva, e os mapas para nos orientarmos. A vida surge-nos e descobre-nos, vai-nos revelando, faz vir à tona, o que não sendo usado, pensávamos não existir. Descobrimos quando algo em nós é despertado e reage. Umas vezes é bom, descobrimos termos coisas boas, descobrimos até como podemos e conseguimos ser felizes, como a vida pode ser maravilhosa, outras vezes descobrimos facetas nossas que estavam camufladas e preferíamos continuar a pensar não as ter. 
As pessoas não mudam, não na essência, não nos seus pilares fundamentais, nós é que demoramos para descobrir toda a extensão dessa essência e as suas pequenas grandes nuances. Há pessoas que por muito que quisessem nunca conseguiriam fazer certas coisas, e outras que perante algumas situações nem chegam a pensar fazê-las, simplesmente as fazem, saem-lhes naturalmente. Às vezes é maravilhoso, outras é uma miséria humana. 
Os acidentes, os imprevistos, as contrariedades, só permitem que as pessoas surjam como são, mas antes não tiveram razão para ser.
Dos mal-entendidos...

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

[foto @nicoladavisonreed]

Quero-te. 
Quero - tanto - isto, acompanhado de um bom livro, uma garrafa de vinho branco fresquinho e uma brisa que arrepie a pele levemente, entre um salpico e outro de água salgada. 
Só isso, e a música do mar quase a fazer-me cócegas nos pés, mais nada. 
Não preciso de muito, mas o que quero, quero sempre tanto.
Agora só queria isto, e há um conforto imenso em pensar isso, que isto, agora, chegava-me, que não queria mais nada nem mais ninguém. Mesmo.
As pessoas são tão pouco face a uma solidão que se deseja,
e que as desilusões alimentaram à exaustão.
 Só o mar e a sua paz inquieta, sem fim, parecem aquietar uma alma
à beira do precipício de si mesma.

Bom dia!

[foto @tarasovm]

“Em todos os poderes humanos existe um ligeiro, delicado e quase imperceptível desprezo por aqueles que dominamos. Só podemos dominar inteiramente almas humanas, se conhecemos, compreendemos e desprezamos muito discretamente aqueles que são forçados a render-se.”

Sándor Márai, in As velas ardem até ao fim

Se dominam desprezam como consequência da superioridade, da superioridade que leva os outros a renderem-se a esse domínio. É assim que vêem. Sentem-se superiores ao outro, porque ele se deixa dominar por eles. É verdade, e essa superioridade leva a um certo desprezo mesquinho e fino - ténue, aparentemente; mas feroz e cruel se acontece entre pessoas próximas (e parece-me que é talvez das situações mais frequentes),  que supostamente se gostam. O problema é que não se pode gostar verdadeiramente de quem se despreza, a quem nos achamos superiores, não se pode amar alguém sem que haja admiração por essa pessoa, apesar de todos os defeitos que tem, e lhe conhecemos -porque o balanço final é sempre de admiração, mesmo que às vezes misturada com exasperação. Depois há ainda outro problema, é que parece que nunca chegam a entender que não são eles que são superiores, são os dominados que lhes dão, ou permitem, essa suposta superioridade, é uma concessão, é fruto duma devoção, dum afecto, dum lado do amor, esse subjugarmo-nos. Não por serem superiores mas pelo afecto, o amor, a amizade, ser superior. Nunca percebem isso, fazem disso uma coisa de ego, quando o outro, o dominado, faz o contrário, em reverência à relação, preserva-a.  Ou tenta. Quando se acha tratado como dominado, não pela natureza e necessidade das realidades a cada momento, mas fruto dum consistente e mascarado desprezo, tudo pode desmoronar. O dominado não é inferior (ou não tem necessariamente de ser apenas por se deixar, até certo ponto, dominar), ele só decide conceder superioridade ao outro - decide, escolhe, não é coisa de nascimento ou natureza, não é resultado dum combate de forças, é optar sempre por não lutar, submetendo-se em nome da relação que valoriza... 
... muitas vezes até ao dia em que percebe que está sozinho na relação, que apenas ele valoriza e tenta preservar a relação, submetendo-se, concedendo uma sensação de superioridade ao outro, de que ele abusa, menosprezando-o.