quinta-feira, 14 de junho de 2018

Os únicos que se salvam são os que não esperam por ser salvos.
Os que não pensam numa salvação, mas em passar o dia. Hoje, depois amanhã, talvez depois também. Os que inventam uma vida quando não a têm, os que a esquecem se a tiveram, pondo os olhos no amanhã e as mãos a tapar as feridas abertas até que sequem, porque sabem que nunca fecham. Mas não olham para não saber, tapam com as mãos dos dias e com a escuridão tranquila das noites. Nunca esperam ser salvos, sabem que têm de se salvar sozinhos, que não há nada, dia algum na vida, em que deixemos de estar sozinhos - nascemos sozinhos, morremos sozinhos, às vezes, entre uma e outra, distraímo-nos e pensamos que temos alguém ao lado, esperamos que esteja ao nosso lado... Mas os únicos que se salvam são os que não esperam. Nada. Ninguém. E tudo de si.
Não sei se me salvo, e tu?

quarta-feira, 13 de junho de 2018


Esbardalhei-me. 
Perdi a contagem dos degraus que desci com o "monumento" (como alguém, por piada e com piada, além de bastante imaginação, o costumava apelidar) prestes a tornar-se meras ruínas. Foi um tralho vintage, que é como quem diz, à antiga, completamente estatelada e distribuída por vários degraus das escadas exteriores do prédio. Eu que, quando vou ao chão, costumo desatar a rir-me desta vez fiquei à espera que o corpo se esquecesse do valente tralho a que se tinha acabado de submeter, ou que simplesmente eu tivesse coragem de me mexer e me doerem coisas que nem eu sabia que tinha - é frequente, acreditem. A minha filha, em pânico, só perguntava tipo disco riscado " mãe, estás bem? mãe, estás bem?", e eu ainda a tentar processar o que me doeria... enfim, nada como começar o dia a contar peças para ver se perdemos alguma pelo caminho. Além dos parafusos, que já nem contam para a contagem...
Ainda me dói tudo, e vou ficar às cores... mas nada como uma corzinha, né? 
Pronto, era só isto para parvoeira do dia, um bom dia para vocês, e cuidado com as escadas, sim?

sábado, 9 de junho de 2018

Ahahah... muito boa!!
Mas agora podem parar com a brincadeira, sim? Só hoje, vá... 
pronto, não chover já serve, certo? Combinado? 
Inverno, hoje entretém-te no spa ou assim, 
ou fica a jogar cartas em casa, sei lá... nada de sair à rua.
Agradecida. :)

sexta-feira, 8 de junho de 2018

...na antecipação.
:))
[foto @nicoladavisonreed]

Fui levar a miúda, cheguei, tirei um café e sentei-me a tomar o café na mesa da cozinha. Pego nisto não sei porquê, não tenho nada para escrever nem me apetece, mas talvez seja um misto entre uma companhia e o ter-me lembrado de quando fazia deste primeiro café um ritual e tinha sempre alguma coisa que escrever, porque me surgia, porque me fervilhava por dentro, porque na altura ainda parecia sentir, talvez ainda não estivesse morta. Doía-me, sofria, mas não estava morta, amorfa, dormente. Agora escrevo não sei porquê, por companhia, para falar falar sozinha e ter a sensação de despejar o assunto, pôr para fora e ganhar espaço dentro. Depois dou-me a pensar que também já é um hábito, uma coisa que uso como solenes actas dos meus rafeiros monólogos interiores. É estranho. Piora quando ando numa fase que não consigo encontrar grande sentido na minha vida, no que ando cá fazer e para quê. E é assim que ando de há uns dias para cá, desde que deixei o Alentejo para trás. Se eu não retirar prazer da vida, a vida, a minha, serve-me para quê? Não tenho mais nenhuma e só a minha me pode servir para ser feliz, para me sentir bem, para ter pelo que valer a pena todas as partes menos boas que fazem parte, para ter pelo que acordar de manhã. Se não o tiver não é a minha vida que vivo, é outra qualquer, da minha filha, dos meus pais, das pessoas que a empresa sustenta, mas para mim não vivo. E isto não me serve, nunca serviu. Agora sinto-o mais ainda. Nada disto me faz sentido. Eu não sou assim. Por que é que não podemos ser só uma pequena parte de nós? Perfeitamente recortado num espelho que nos devolve o que podemos ver, o que podemos arranjar, tratar, cuidar? O que podemos ser sem nos sentirmos pequenos, ou demasiado vastos, sem procurarmos em vão um espelho onde caibamos. Um espelho onde todas as dimensões se espalmam à superfície e se reduzem em duas. Era tão bom poder ser só uma parte de mim, com as dimensões exactas do mundo onde acontece eu respirar. Talvez assim achasse que vivia e nem sabia, não o pensava. 

quinta-feira, 7 de junho de 2018

[foto via @latenightinparis]

Amo o que és pelo que sou
Como deixar de te amar
Sem deixar de me ser?

Amo o que és por tudo que sou
Por tudo o que te fez e desfez
E nos refaz

Sussurra-me o tempo...
Que ou te desfazes de ti
Ou não me refaço de ti

Se me desfaço, ficas-me
Se me guardas, fico-me em ti
E não me acabo em mim.

Se não me contenho, não me completo
Desinteiro-me inteira
Não me recomeço se me acabas.

Ou deixas de ser tu
Ou não deixo de ser tua
Sem deixar de ser eu.

ahahahaha
pois claro!! 
...nem há dúvidas!!

Ora a'tão quase bonôte... 
com a falta de luz que reina nos céus, quase que já podia ser...

terça-feira, 5 de junho de 2018


eu e tu:
as bocas fazem do beijo
a palavra não dita,
que nos refaz num só proibido
silenciado.

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Today's mood.

Estou a ponderar pôr o seguinte aviso na porta do meu escritório:
"Favor não incomodar, caso apareça sem ser esperado 
poderá ser recebido como não espera.
Aviso à navegação feito."

Será que resultaria?
Ou não entravam, ou se entrassem eu podia, qual panela de pressão, 
justificadamente, e avisadamente diga-se, 
libertar alguma pressão, parece-me uma jogada win-win, não?

... Ainda não me habituei às pessoas outra vez, é o que é... 
eu estava tão bem pah, parece que foi ontem... bom, e foi...

domingo, 3 de junho de 2018

...parecia uma criança numa loja de brinquedos, numa enorme loja de brinquedos... 
... como se me faltassem livros para ler, mas é um vício, ou alguma coisa parecida com vício, não sei. Sei que o único que não consegui mesmo mesmo resistir foi a Campânula de Vidro, o único que custou mais de dez euros. Os outros foram pechinchas de valor seguro, os autores pelo menos, assim o fazem crer. Javier Marias estou curiosa, foi um autor que ouvi falar a primeira vez aqui na blogosfera e depois li umas coisas sobre ele, já ofereci um livro dele ao meu pai e hoje comprei este -  por menos de metade do preço do que aquele que lhe ofereci, é que assim é difícil resistir, só vos digo. Agora falta-me ir buscar um à feira do livro, mas esta aqui do burgo, que encomendei a um amigo - o Papalagui. Depois tenho de me prometer não comprar mais livros para mim até ao fim do ano (gosto de oferecer livros, mas é um perigo, normalmente acabo sempre a comprar dois, o que ofereço e aquele que estive indecisa se devia oferecer ou não... assim leio os dois normalmente ;) ). Pronto, foi uma bela maneira de acabar estes dias que me souberam a ginjas...  até me deu mais ânimo para abandonar o meu Alentejo, parar a meio caminho para me abastecer de vidas enroladas em páginas. Foi uma espécie de batota, uma paragem num apeadeiro desejado, para depois já só faltar meio caminho para a realidade... pronto, eu sei, pareço uma miúda. Isto amanhã já passou, garanto-vos.

[ahhh e os dois livros que me sugeriram o Patife e o Paper em comentários aqui no Blog também já os arranjei, o Moderato Cantabile li-o nestes dias de férias,  o Fisico Prodigioso,  que não foi fácil de arranjar, ficará para depois, entretanto comecei outro...]

Às vezes uma pessoa demora muito tempo a ver e perceber as coisas mais simples. Sem complicar, sem teorizar demais, sem tentar justificar o que não tem outras justificações, senão a óbvia. O mais difícil de ver são as dolorosas verdades óbvias. Não há falta de tempo, ou trabalho a mais, ou obrigações demais, há falta de interesse e vontade de menos, de quase nada; ou não. O tempo dura demais nas mentiras, descansa nelas, às vezes adormece. Quando se acorda com a verdade, todo esse tempo como que nos é roubado, como se tivesse sido tão curto que parece não ter existido, porque não deixou nada...  mas não raras vezes percebemos depois o tanto que levou. Receamos não recuperar a crença, o sonho, a inocência.

sábado, 2 de junho de 2018





Terra cor de fogo
Incendeia-me o coração
pelos olhos,
Enterrado em ti
Como terra tua
Semeada de
Futuros estéreis

Despertador avistado e em fuga!!...
Agarrem-me senão eu tiro-lhe as pilhas!!!...
... ou as penas, sei lá... O que quer que funcione 
para ele deixar de funcionar, tão cedo pelo menos...

Bom dia!!




Caramba... como é que estaria se não estivessem nuvens?? A luz é tal que inunda o chão. E está menos frio que há bocado. Está-se bem aqui, às quatro da manhã, de pijama já , e enrolada numa manta, a ver esta luz almofadada espectacular e a fumar um cigarro. Depois de ver um filme e ter acabado um livro.
Depois de muito tempo na escuridão os olhos habituam-se, vê-se como ao raiar da manhã, torna-se confortável, doce até, íntima. Depois o que pode ferir é a luz.

Às vezes pergunto-me se não estivesse sozinha se gozaria assim estes dias. Qual seria a probabilidade de estar aqui neste preciso momento?

sexta-feira, 1 de junho de 2018

O primeiro café do dia... é tão bom não haver horas, 
ou haver horas mas não haver horários, 
havendo tempo em vez de tudo isso.
Café...
com massagem ou sem massagem, eis a questão...
:))

quinta-feira, 31 de maio de 2018


A estrada muda, serpenteia a terra na frescura próxima do mar, e ali na cortada de Porto Covo o sorriso cola-se aos lábios, ao ritmo da música abanam-se os ombros, o corpo, rimo-nos à ideia dos moinhos de Quixote a rodopiar ventos à nossa esquerda, que não queremos combater, abrem-se as janelas ao azul estendido no céu e há qualquer coisa que me faz sentir abençoada, sortuda afinal de contas. Há dias em que me regresso, reconheço-me nos caminhos, percorro-os como quem volta ao que nunca deixou de ser. 
E porque sim, porque me apetece, porque maior parte dos desejos são fáceis de satisfazer, resolvo ir sacar umas amêijoas na companhia dum copo de vinho branco, em frente ao mar, numa esplanada deserta, só para mim. Aprecio a brisa e o marulhar... a vida como ela pode ser. 
...Chega um esperto e redesenha a paisagem com uma caravana... a sério. Não há forma de acautelar a nossa sorte da estupidez alheia... mas ele ficou com a melhor vista. A estupidez é relativa... se calhar até a sorte. 



[foto via @cuddleupnow]

Um bom correio da manhã  :))
Gosto deste.

Bom dia!

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Pois...


O dia e a noite são dois amantes incansáveis, de turnos trocados. Quando se tocam fazem o tempo mais bonito, as horas mais doces, ao amanhecer, ao anoitecer. De dia o sol ilumina e aquece. À noite, a cada lembrança do sol, a lua brilha e inunda de luz a escuridão que guarda o céu.
Beijam-se só nas despedidas e seguem os seus caminhos sozinhos. Sempre.
É nas horas desse eterno desencontro que me encontro, mas, de quando em quando, nos entretantos, encanto-me. Com a lua ou com o sol, mas sempre com o amor que os faz brilhar, em que se anseiam, se desejam, enquanto não se beijam os beijos de despedida. 
Regressam-se quando se despedem. Despedem-se a cada regresso.

terça-feira, 29 de maio de 2018

Auchhhh!!
E de que maneira...
...mas difícil de encontrar.
Felizmente ou infelizmente, eis a questão...

segunda-feira, 28 de maio de 2018

[foto @illy_ibiza]
Segunda-feira.
Cara de segunda-feira.
Pois.

[agora, por causa disto, lembrei-me duma conversa com uma amiga que, com um casamento de merd@, dizia “os fins de semana são um suplício... só quero que chegue a segunda feira” - pardon my french... mas é a expressão que mais dá ideia do que é, não é só difícil, não é só complicado conciliar feitios, não é só falta de comunicação, acho que é tudo e há anos que a oiço dizer isso... e não percebo, juro que não percebo, o desperdício de vida. Juro. Para mim é desperdício de vida, é escusado dar desculpas e merdinhas (mais uma vez pardon my french...) , mas se calhar sou eu que também não uso e abuso das bengalas em relações mancas - ou mesmo quase paralisadas - para as ir aguentando e levando melhor... ou vale a pena ou não vale a pena, qualquer outra coisa é uma pena...]

[foto de Flavio Franja, via @33thirdmedia]

Pego no último cigarro do dia para fumar, penso em fechar o portátil, não me apetece escrever, mas não fecho, venho para aqui. Não sei porquê, porque não me apetece escrever, mas talvez o ecrã branco me faça companhia numa conversa que não existe, mas de que às vezes preciso. Para dizer o quê? Não sei. Normalmente as letras vão-me guiando e caindo, sem eu dar conta, nos sítios que me faltam, como se soubessem o seu caminho e o meu dizer. Que quererei eu dizer? que tenho a miúda a dormir tranquilamente no sofá ao meu lado porque adormeceu há horas e resolvi esperar até eu mesma ir e fechar tudo? Que tenho aos pés um dos cães porque a outra - com a mania das independências que lhe assiste - já foi dormir para os seus aposentos quando a hora dela lhe chegou ao pêlo? Não sei, não sei o que quero, ou preciso, dizer. Fico por aqui, com as letras a dançarem-me nos dedos à musica dos meus pensamentos, como se, abraçada ao meu próprio corpo inteiro, me aninhasse num canto e me deixasse ficar, sozinha, a ouvir duas respirações que dormem e onde não me apetecem invasões, estranhos. Onde só deixo entrar esta solidão que se sente não sendo sentida, numa estranha mistura do que é e não é. Do que quero e não quero. Como um não que é um sim, e um sim que arrasta um não. Um meio caminho sem caminho, por onde me passeio alegremente numa tristeza ainda por entristecer, sem norte, como se não o precisasse. Estranha sensação esta, de tristeza por entristecer. Mas é essa a sensação, que não chega a ser triste, pelo contrário. 
Não é a frieza da solidão que me invade, porque não é vazio que sinto, nem é a noite, dentro do dia que já foi, que me impele, é só esta vontade não sei de quê, não sei de quem, não sei porquê. Talvez dum sentido que me assente e oriente, que eu navegue ou me navegue a mim, nem sei. É suposto nesta vida seguir-se um caminho ou é o caminho da vida que nos (per)segue? Será que a vida também vai encontrando, sem eu dar disso conta, o sítio onde cair? Como as palavras? Mas não onde me faltam, ou estas palavras não caíram aqui, provavelmente. E uma conversa existiria, mesmo que não fosse precisa.

sábado, 26 de maio de 2018

[imagem @jesuso_ortiz]

E chove outra vez...
E eu perdi o meu guarda chuva destes, 
que torna a chuva quente e doce.
Melhor que a melancolia dum dia de chuvinha lenta vista pela janela, 
é talvez um guarda chuva dos tais, onde se resguarda o essencial e não sobram restos.
E eu, que gosto tanto de sentir a chuva na pele e no cabelo,
às vezes anseio por um guarda chuva destes que me (res)guarde.

sexta-feira, 25 de maio de 2018

[foto @kaewcactus]

- vou começar a comprar cactos para ver se resistem, todas as flores que compro na primavera, nenhuma sobrevive ao inverno... ou a mim, ainda não percebi...
- não, nem penses, os cactos não têm uma energia boa!!
- energia boa? Para ter energia boa tenho nas tomadas pah!!
- ... és sempre a mesma céptica!... não negues à partida uma ciência que desconheces, já dizia a outra...

(Pois sim, ‘tá certo, mas acho que vou mesmo ponderar dedicar-me aos cactos, mesmo sendo seres que afastam qualquer intenção de toque. Aliás deve ser por isso que não definham tão rapidamente, tenho cá para mim. Espertos hein?)

terça-feira, 22 de maio de 2018


[foto @veziphoto]

beijo lembranças
sorrio esperanças
trinco a escuridão
que me tranca
num abraço passado
e a tarde comove-se
em cores lentas
que rasam a pele
do mundo
na minha

segunda-feira, 21 de maio de 2018

[Fabrício Carpinejar]

Mesmo.
É mesmo isto que concluo.

(e lembrou-me uma troca de comentários há dias que tivemos aqui, achamos as pessoas certas conforme as sentimos, conforme nos sentimos tão nós mesmos com elas, sem subterfúgios ou necessidade deles; não as sentimos mais ou melhor por serem as certas...)

Bom Dia!!

Anaïs Nin, Uma Espia na Casa do Amor

Quando não temos nada para dar, fugimos? Dando abandono?
Quando não sabemos como fazer-nos inteiros no outro que se dá inteiro, mordemos? Como quem quer da carne fazer a alma da sua própria carne? Sem conseguir?

domingo, 20 de maio de 2018



Às vezes distraio-me e esta Primavera entra-me no olhar.
Como quem, de relance, se sente ter sido observada demorada e intimamente, minuciosamente quase.
Como se me apanhasse distraída de mim, num tempo sem estação ou apeadeiro, que corre sem se mover, e, sem aviso ou cerimónia, me entrasse dentro ainda em movimento de sonho. Numa inércia de magia, onde a luz da cor é o beijo e começa tudo.

sexta-feira, 18 de maio de 2018

[via @cuddleupnow]

A verdadeira ternura
não se confunde com mais nada.
E é silêncio.

Anna Akhmatova

Silêncio que não incomoda, que não grita,
que nutre, que beija, que conversa,
que diz tudo da ternura 
em ternura.

quinta-feira, 17 de maio de 2018



Hoje, encostada à banca da cozinha enquanto esperava que a máquina de café aquecesse e me brindasse com o café-despertador da manhã, fui deslizando pelo feed de já não sei que plataforma, e passei por uma publicação dum som conhecido que de repente me bateu como perfeito para o dia, não sei porquê, é daquelas coisas que não se explicam, fiquei cheia de vontade de os ouvir, de os fazer banda sonora do caminho para o trabalho, que quando a Primavera começa a despontar menos tímida pela paisagem é sempre um regalo de alma, uma sensação boa. Nesta altura valorizamos mais o céu limpo e a luz mais brilhante, o ar mais quente e leve. Quando entrei no carro mudei o CD para este som que me faltava e que me apetecia, levantei as persianas do mundo, protegi-me, sem me esconder, atrás dos óculos de sol, liguei o carro e aí viemos nós. Assim. Há coisas que nos combinam tão bem e percebemos de repente, e queremos de repente, para aproveitar lentamente, no vagar do gostar muito. É tudo parte do processo.

quarta-feira, 16 de maio de 2018


[foto @kittykisses]

amor,
não te quero mero reflexo,
não te quero simétrico
de gestos e afectos meus
quero assimetrias dialogantes
provocantes, tocantes.
quero o amor
que se espelha côncavo
na convexidade do outro,
amor desigual e equivalente,
equidistante na falta de distância

amor,
quero que nele te reconheças, 
e eu te sinta,
abraçado em nós
que escancara as asas do mundo
nas nossas mãos

quero que espelhes amor,
amor, percebes?


terça-feira, 15 de maio de 2018

Um pedaço de caminho, dos que dá gosto olhar e saborear ao fim dum dia como hoje, de "lócura" quotidiana. Já me chegam os finais de tarde, saboreados lentamente, com as cores do céu à direita do sorriso que me centra, com a música no rádio, e o silêncio de tudo o resto que não me voa por dentro. Um cigarro, ou dois, queimados com este silêncio de fundo e os restos do dia - eu comigo e com as pessoas que trago para a solidão dos momentos meus. Este bocadinho, antes de ir para casa continuar o dia e o quotidiano, para estar comigo e deixar-me estar, deixar o tempo parar-me nas palmas das mãos quietas de afazeres. Estar bem. Sabe-me bem. Mesmo sozinha. Acho que realmente cada vez gosto mais de estar sozinha, é quando nunca me sinto só, ou quase. Onde não me exigem nada, onde só o céu pede para ser olhado e eu quero olhá-lo, onde tudo se conjuga sem arestas, deixando a vida repousar noutros planos. E isso sabe tão bem. Ser só eu. Será que só sozinha se consegue isso? Talvez não, mas ainda estou para descobrir...

[foto @olhamecoimbra]

Enganas a ti mesmo,
para que enganando
achares que não mentes.
Enganas-te.

segunda-feira, 14 de maio de 2018

ehehehhe...
... do pessoal que gosta de fotografia...
 ...e não é que é tudo verdade?!!


domingo, 13 de maio de 2018

[foto @iamhertribe]

 ... céu cinzentão este, onde raio mora a primavera? Quero uns olhos onde veja primavera todos os dias. Uns olhos em flor. Um riso feito de céu limpo, e mãos que refazem a vida a cada dia.
...  onde pára a primavera? 

sexta-feira, 11 de maio de 2018


Olho os meus pés fincados na terra como se lhe pertencessem, de repente vejo-os tão longe como se o tempo fosse muito alto, e a distância ao coração um mar que a vida lavrou sem deixar mais que um rasto de espuma diluído na imensidão - como se o instante nunca tivesse sido um agora que permanecesse. Sinto o coração tão longe da terra, como uma península perdida, desgarrada,  agarrada a mim pelo fino caule duma flor silvestre que resiste sem saber porquê, ou como. Podia ser um bem-me-quer, talvez tenha o sonho de sê-lo, mas é só uma fina e frágil forma de vida selvagem que se recusa a enterrar-se na terra, e lhe foge atravessando o cimento dos dias que a querem soterrar.

terça-feira, 8 de maio de 2018


Às vezes, aos meus comuns porquês, respondem-me  "é uma coisa que se sabe, e pronto",  "sabe-se, é assim", acrescentando "é senso comum". E no meu silêncio digo-me que então, rara, só muito raramente, terei isso de comum, de ser comum (de a resposta me calar). E o não ser comum,  comummente - quase sempre -, serve para toda a gente. Todos somos únicos, raros - é comum.  Então o raro e o comum é talvez uma coisa do momento e do lugar, uma perspectiva, que sendo tudo, não é nada, é o que quisermos. Somos todos e não é ninguém. 
Estamos numa era em que todos querem ser "eles mesmos" e "diferentes" e "especiais", e eu só quero - quase sempre - não ter perguntas que o senso comum não convence. O que em mim é comum é querer ser como toda a gente, não me sentir rara, estranha, incomum, fora de sítio, desencaixada - cheia de perguntas que o senso comum respondendo raramente me convence. 
Se calhar o melhor é ser-se comum sem escolher, sem essa consciência, porque por opção consciente não se consegue ser - ou é raro.

domingo, 6 de maio de 2018

 Continuo a dar-lhe a mão, não sei por quanto tempo ma dará, mesmo relutante muitas vezes, porque já não tem idade, acaba por ma conceder com um sorriso malandro escondido. Por enquanto. Outras vezes recusa, na afirmação duma independência adolescente e arisca. 
Continuo a perguntar-me se sou a mãe que ela precisa, se estou a ampará-la no que deve ser amparada e a exigir no que lhe será exigido. Tento que cresça aprendendo a ser um ser humano digno, com sentido de justiça, a saber, ou tentar, pôr-se no lugar do outro, tentando saber compreender o que pode ser compreendido, mas não deixando que isso a torne terra fértil para abusos que lhe doerão nas entranhas. É um equilíbrio difícil. E é difícil fazer entendê-lo, e ao mesmo tempo deixá-la estabelecer, ao longo do tempo, essa fronteira, que será a dela, que a definirá e à sua vida. Em que será ela em qualquer lado dessa linha, e que espero eu, um bom ser humano em qualquer lado. Melhor que eu, ainda que eu não seja melhor mãe que a minha  foi, que é ainda, de três filhos que já não tem.

quinta-feira, 3 de maio de 2018


[foto via @33thirdmedia]

No vértice de um segundo,
o momento cai, desaparece,
morre inundado de tempo,
o seu reflexo permanece
para cá de si mesmo. 
(...)
Those three words
Are said too much
They're not enough

If I lay here
If I just lay here
Would you lie with me and just forget the world?
(...)
Snow Patrol - Chasing Cars

Esquecer o mundo é fácil, 
partilhar esse alheamento é fácil. 
Difícil é esquecer que nos esquecemos
e deitarmo-nos com isso
para acordar dentro do mundo,
como um parto para que não nascemos,
parido em gritos que ferem o ar
que nos obrigam a respirar.

terça-feira, 1 de maio de 2018

[foto via @macro_drama]

Uma espécie de domingo fora de horas.
Por que será que o fora de horas aparenta sempre assentar melhor que a hora esperada e certa? 
Saber ainda melhor?
Será que o que nos está fora do programa nos faz reprogramar (-nos) melhor? 
Parecemos sempre esperar o que não esperamos, 
para que a surpresa nos arraste?

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Verdade. 
Dependendo do que estiver na caneca 
pode ser que se consiga atalhar, 
pelo menos temporariamente. Ou não. 
Há quem diga que sim.
 E tenha tido bastante prática na conclusão de que não
(excepto na parte do temporário, às vezes...)
Eu não faço ideia.


Dia 313

Poucas coisas conheço tão fascinantemente belas como
esses teus olhos que fazem algarves de inveja às amêndoas.
E não há cântaros nem ânforas fenícias
com a ternura do contorno dos teus ombros.
Quando beijo os teus lábios ou mordo a tua boca,
o meu sangue adquire a consistência da terra
e o perfume maduro da fruta do mês de junho.
Os teus seios, de tão firmes, foram moldando as minhas mãos,
e os teus dedos longos têm a elegância e a doçura da cana do açucar.
As tuas pernas são os dois mastros do veleiro
que me conduz através dos oceanos do desejo.
O teu pescoço exibe a perfeição que estiveram perto de atingir
Polycleitos e, mais tarde, Miguel Ângelo.
Tudo é perfeito, ou quase perfeito, no teu corpo.
Ainda assim, esta simples verdade é tão evidente que não há
como fugir a dizer-te isto: acima de tudo, bem acima de tudo,
meu amor, tens um rabo lindo!

Joaquim Pessoa, in ANO COMUM


Bela maneira de, "acima de tudo, bem acima de tudo", começar o dia, hein? ehehehe




[foto @webb_norriswebb]


'Until I feared I would lose it, I never loved to read. 
One does not love breathing.'

Harper Lee

Da valorização, e de resumirmos a vida ao que agora damos valor.
E da descoincidência dos agoras.

domingo, 29 de abril de 2018



[foto de Chema Madoz]


O presente é um tempo que te derrete nas mãos. 
Escapa-te por entre os dedos se não sabes o que fazer com ele, 
o que queres que se torne. O presente que queres no futuro, 
depende do tempo que agarras agora. E como.
O presente é o único tempo.
O tempo é o verdadeiro presente.

sábado, 28 de abril de 2018

Eheheheh
... e às vezes passa-me pela cabeça. Verdade que sim. 
Mas há coisas que nunca fiz e, apesar de tudo, a idade ainda não mudou isso, 
ainda não mudou quem eu quero ser.
Então guardo para mim, e rio-me sozinha de muita coisa...

quinta-feira, 26 de abril de 2018




A caminho de cá vinha a pensar, tenho de fazer uma lista de tudo o que gosto de fazer, que me dá prazer, e dedicar-me a praticá-la. Ler. Ler em esplanadas ou na minha varanda ao sol. Tomar café depois duma caminhada com a tracção às quatro. Brincar com as palavras e às vezes escrever coisas que me tiram peso de dentro ou só que me aligeiram os dias em sorrisos parvos. Ir à praia sozinha, ver e ouvir a lareira enrolada numa manta. Ronha, dormir até tarde, desdenhar do sol do lado de fora da janela. O céu estrelado do Alentejo num alpendre à noite, as estrelas cadentes a rasgarem o quotidiano do olhar, talvez um copo de vinho e uma vela a tremeluzir no chão em sombras dançantes. As estradas ladeadas de árvores, curvas que desenham os contornos da terra e me fazem deslizar colada às curvas e ao chão, como se o carro lhes pertencesse, e eu também - e ser um com o caminho, sentir ser, também, aquelas curvas que se curvam comigo dentro, mãos no volante que conduz a curva sendo por ela conduzido, recurva-me a boca em sorriso. Sim, conduzir também, de manhã deixando os olhares apanharem boleia da serenidade das garças - rir-me da lembrança de ter  brincado com as palavras e ter publicado um dia "campos engarçados" -, e passear o carro à noite pela cidade,  entre as luzes da vida dos outros em casas que se iluminam, soltar as rédeas aos pensamentos bravos ou tranquilizar os medos selvagens enfrentando-os, conversando em sussurros maliciosos. As gargalhadas que às vezes faço rir a quem gosto, jantar com as minhas pessoas, as que gosto e gostam de mim, que me cosem a alma esfarrapada ou me fazem rir, ou me remendam a alma fazendo-me rir, velar o sono da minha filha, sentir a paz que já não sinto, o encostar-me ao meu irmão, às vezes, tão raro. Tão raro poder ser pequena outra vez e esperar que me protejam. Que me amem.
Tudo sozinha, vejo agora. Deixei-te fora de tudo de propósito, e no entanto, cada coisa que faça, estás lá. Como se eu estar sozinha fosse coisa tua, fosse uma maneira de estar contigo, talvez a única. Porque só sozinha posso estar contigo. Gosto de estar sozinha, mas não quero estar sozinha contigo, por causa de ti. Quero estar sozinha se não houver ninguém que me faça melhores os dias acompanhada. Até lá tenho uma lista grande de coisas que gosto para ir fazendo e não me lembrar que gostava de mais coisas. Algumas, se calhar, não sozinha. Outras sozinha, sempre sozinha, porque assim me sinto menos só, e porque gosto de estar comigo, não tenho medo de me descobrir, de me ver, de me saber. 

quarta-feira, 25 de abril de 2018


[foto de @jeanphilippelebee]

É na recôndita curva mais que perfeita
de um sorriso que se adivinha
que repousa já a alva planura das tristezas
seguras de pretérito perfeito.

Amanhecemos quando deixamos anoitecer.

segunda-feira, 23 de abril de 2018

[foto @jasonlphoto]

Espero-te no abismo das entrelinhas dos dias 
cosido entre as nossas noites.
Espera-me ao dobrar da esquina 
duma rua sem saída 
e leva-me ao fim do mundo.
Tira-me de mim. 

(não era para hoje o fim do mundo??? hum??)


domingo, 22 de abril de 2018



[foto @rosa_luxenburg_]

Há coisas perdidas há muito que no entanto ainda não perdemos. A perda só se dá quando queremos e já não temos. Mesmo que, sem sabermos, já não tivéssemos há muito, só  quando precisamos,  vamos à procura  e encontramos ausência, o vazio torna-se visível, concreto, palpável ao sentir.  Só aí há perda. Só aí apercebemos a perda. Às vezes fica-se perdido, quando perdido já se andava há tanto, sem saber. Saber faz toda a diferença - é a diferença entre o enquanto e o tarde demais. Desconfiar desnorteia e faz sofrer nos entretantos. Não precisar de ninguém é a mentira mais abençoada, sempre.