segunda-feira, 9 de julho de 2018


[foto hier_ist_oben]

Se tens um balão que não combina com o lugar onde estás, muda de casa, muda de sala, pinta as paredes. Nao largues o balão se ele te alonga os braços para lá de onde não chegas, mas queres. Não largues o balão se o que te faz agarrá-lo é guardares lá muitos sorrisos, futuros ou só imaginados. Não largues o balão se não te agarras a ele por medo, por medo de vários medos. Não largues o balão se com ele há uma parte de ti se eleva, voa e brinca de ter asas. Não largues o balão se às vezes ele te lembra o que gostarias de ser... Muda de sala, pinta as paredes, rasga janelas em portas, arranca céus dos telhados, mas não te amputes do que queres, do que gostarias, do que te faz - de ti mesmo. Não te amputes das cores que sentes só porque te pintam em tons de cinza e te servem o mundo inteiro a preto e branco - e sentes que estás fora do lugar, sem lugar. Procura o teu sítio, e de lá faz mundo com lugar para tudo o que o teu balão leva.

[ os sítios onde uma fotografia nos leva... e a coincidência destas cores hoje serem as minhas. Só não trago o balão (que se veja...)]

domingo, 8 de julho de 2018

[foto @cam_myy]
Dos domingos... vamos comê-lo pétala a pétala, deixando o sol no meio para nos cheirar a tempo lento e a cor que a pele pede. Vamos pegar num livro, sentar numa esplanada, filtrar o mundo pelos óculos de sol e encerrá-lo para as nossas obras - brincar de observar e imaginar. Imaginar do que observamos e observar o que imaginamos. Pouco dirá mais de nós. Se ao menos alguém ouvisse.
Dos domingos... dos domingos que temos de florir. 

quinta-feira, 5 de julho de 2018

Das pequenas grandes diferenças que mudam tudo. Precisar e querer - poucos parecem perceber esta nuance, que transforma a criatura à vossa frente, mas, parece-me, que raro aos vossos olhos. Precisam muito que precisem, como se querer fosse um capricho e isso fosse mau, fosse menor. Como se sentirem-se um bem de primeira necessidade fosse uma qualquer cláusula de seguro de vida contraído. Como se tudo o que não é necessário e utilitários não fossem  as únicas coisas a tocarem-nos, a fazerem-nos felizes. A fazerem a vida fazer sentido.
Sempre ficaram magoados comigo por eu dizer que não precisava deles, mas que os queria para ser mais feliz. Preferem quem se descabela a dizer que não consegue viver sem eles, que precisa deles para viver... eu a essas criaturas chamo mulherzinhas e miúdos. 
Falta-me ainda ser realmente feliz sozinha, sem me faltar algo que vou procurando nos cantos dos dias sem encontrar... mas às vezes há um por-do-Sol com cores que se esqueceram de inventar, ou uma gargalhada que não se chega a pensar, ou um gesto tão bonito que nos imobiliza, uma frase num livro como um raio de luz que adoça a pele, ou um sorriso que chama pela alma para lhe lembrar que é possível.

Bom dia

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Não. 
É mesmo porque tem de ser, uma pessoa tem de trabalhar... 
bahhh mas estou com uma neura... o primeiro dia só mesmo arrancado a ferros, irra!

segunda-feira, 2 de julho de 2018



Lugar é um espaço ocupado ou por ocupar, 
é um conjunto de coordenadas de possíveis  geografias.
É definido, pode ser temporário ou definitivo.

Não-lugar é sítio de alguém, é pertença que não se ocupa ou desocupa,
é a nossa geografia inerente, dentro e fora de nós.
É onde nos guardam, onde estamos sem estar.
É onde guardamos quem está sempre.

Lugar comum pode ser tudo e nada, 
é onde estão todos,
e tantas vezes não se encontra ninguém.

[esta estalagem tem alguma coisa que combina comigo,
gosto da vastidão do olhar, do reduzido ruído para os olhos.]

domingo, 1 de julho de 2018



Passo a língua pelos lábios,
o Atlântico aqui é mais salgado
Lambo o sal da pele
e engulo lágrimas antigas,
como uma prece 
a um deus só meu.
Como se os dias de sol 
fossem em sal embalsamados,
guardo o sal de ti
debaixo da língua,
do lado quente do sangue,
como se não soubesse
ao que sabe o destino,
mesmo à minha frente,
e não sendo doce,
falta-lhe o teu sal.
Mas o oceano é grande
e delicioso o sal
onde a pele
o queira lamber.

sábado, 30 de junho de 2018

Começar o dia a medir azuis com metros de olhar...
Respirar fundo e longe, deixar o coração desacelerar, 
sorrir levemente como a brisa que percorre a pele.
Sentir que a alma ainda se eriça, 
que ainda temos alma. 
Talvez azul e líquida.
Talvez ponte e caminho.

Há vidas piores, há...
Bom dia!

sexta-feira, 29 de junho de 2018



Gosto de levantar voo, não de aterrar. Gosto de sentir a aceleração que nos encosta ao banco, a urgência da pressão a que não se foge. Gosto de sentir a turbina acelerar, o som e a força, e gosto da trepidação nas pernas, o chão a tentar fugir-nos, e depois a ponta levantar e sentirmos como que um formigueiro que nos invade, nos sobe pelas pernas, que nos conquista os sentidos, e então deixamos de sentir o chão debaixo dos pés. E depois, depois navegar a espuma dos céus, com uma outra linha de horizonte. Entre o branco e o azul há uma linha que não separa, junta duas espécies de céu, duas matérias de céu. Aqui não há terra, ou não se vê, o que sendo o mesmo não é a mesma coisa para quem sabe mais do que vê. 
Gosto de levantar voo. Gosto que a aceleração me leve, sem apelo nem agravo. Mas só porque eu escolho assim. E as vezes eu escolho assim.
... Hum?
E com um ar peludo, esgazeado, bem disposto e giro destes? 

quinta-feira, 28 de junho de 2018

... não estava não. Não tenho pachorra.
 Filas só se nao puder contornar,
 como a das matrículas dos miúdos para o ano seguinte... 
bahhhh não há pachorra. 
Quase há uma hora nisto... tirem-me deste filme....

quarta-feira, 27 de junho de 2018

[imagem @hey.luisa]

Escrevo coisas estranhas, frases que me aparecem por dentro, imagens que me nascem na cabeça, coisas que nem gosto, mas que me são fortes e se desfiam quando as escrevo, quando as repito silenciosamente depois de me surgirem do nada. Como que para as entender, as dissecar. Vou puxando o fio e outras imagens surgem, outras frases se desenrolam de mim pelo que sinto. Depois é o ritmo ou o som das palavras que brincam entre si e se enredam umas às outras - como cerejas, talvez seja a cabeça que é de cereja, não os lábios, não a boca, como alguém dizia. E agora saem coisas que não gosto, mas que escrevo para quase me livrar delas, não tanto porque me transbordem mas porque quase me incomodam, porque não sou assim, ou não quero ser. Sou sombria talvez, mas não sou negra. Sombria sempre fui, mas havia uma doçura, acho, uma pureza que não me deixava cerrar as sombras ao ponto da escuridão absoluta. Sombra é luz algures, sem luz não há sombras; escuridão é ausência completa de luz. É diferente. Estou diferente, mas sinto que não sou assim. Tenho esta sensação duma tranquilidade que nada espera, dum alívio que me pesa nos ossos e os verga, esta sensação de quase paz podre que me vai, que me pode, apodrecer de dentro para fora, como quem me come o corpo pelo avesso, como quem alastra, conquistando terreno sobre mim. Que se alimenta dos fantasmas que se recusam a morrer e doem como membros amputados, sem razão - que não a memória - de terem existido, num paradoxo temporal que dá um nó num passado que nunca foi presente. E eu disseco tudo isto na minha cabeça, analiso para entender, mas entender não me faz esperançosa de luz, apenas organizada nas gavetas mentais. E tenho muitas desarrumadas. Há coisas que ainda não entendi. Lembrei-me de me dizerem que a cabeça às vezes tem truques, que prega partidas que nem o próprio percebe, e que muitas vezes o auto-sabotam. Não sei se a minha cabeça não me faz também umas partidas, uns truques que não percebo. Não sei. Sei que escrevo coisas porque os meus botões malucos mas sussurram mas não ando a gostar de as ler. Escondo-as da luz, mas saem, e eu escrevo para as poder apagar de algum sítio. Talvez de mim. Talvez da luz.
Gostava de escrever coisas luminosas, coloridas como a imaginação duma criança, com cheiros a nascentes frescas e o som salgado do marulhar do mar. Mas quando sinto alguma dessas coisas guardo-as, não as escrevo, para que não mas possam apagar. 

[foto @gregbionde]

Como se não tivesse mais nada para falar
Como se todas as palavras se emudecessem de mim

Como se eu tivesse desaparecido com o sentido 
E matado com o vácuo, o vazio
Assim, como quem vomita a própria fome

segunda-feira, 25 de junho de 2018


Alegações finais. Às vezes a vida também tem disso. Aqui, no fim dos processos, há um juiz que decide de acordo com as regras e as leis, e supostamente, com justiça. Na vida não é assim, as regras mudam de cabeça para cabeça, as leis tendem a obedecer à moral não (d)escrita de cada um, invoca-se amiúde a justiça divina mas -  ainda que muitos sejam os que julguem - não há um juiz a decidir, só as partes. E acontece muito o único acordo a que se chega seja o de não chegar a acordo nenhum. Na vida não sei quando acaba o processo, quando passa o prazo para requerimentos e junções ao processo, quando é que se sabe ter chegado a altura das alegações finais? Onde é que se sabem os prazos da vida? 
Acabou o cigarro e as divagações, comecem as alegações. Que a justiça dos homens seja servida, que os deuses sempre estiveram mortos e fora de qualquer processo.

domingo, 24 de junho de 2018

sábado, 23 de junho de 2018

[foto @jeanphilippepiterphotography]

Se eu escolhesse ser diferente do que sou,
deixaria de ser eu, posto que a escolha seria minha?
Se eu desejar ser alguém que nunca poderei ser,
não o sou já um pouco por verdadeiramente o desejar?
Nós não somos, e estamos, tanto nos nossos desejos e escolhas?

O que não somos, sendo como que o negativo do nosso ser, não nos revela? E não revela mais ainda do que somos - nessa revelação do negativo - o que desejaríamos ser mas para que nos faltam braços, mãos e olhos para agarrar?
Então, afinal, somos o que somos, ou somos a vastidão do que genuinamente desejaríamos ser? 
Ou somos só o que vamos imaginando?

sexta-feira, 22 de junho de 2018

Tenho muitos dias destes. 
É sempre sopa.
E eu estou com a Mafaldinha...
Não quero sopa.

Bom dia!

quinta-feira, 21 de junho de 2018

[foto via @cuddleupnow]

De cada beijo regressamos diferentes
ou não regressamos.

Maria Gabriela Rosas
(rapinado no sítio do xilre, não deu para resistir...)

Duvido que haja algum momento vívido
De que se tenha caminho de regresso depois de vivido.

quarta-feira, 20 de junho de 2018


Não sei qual a conclusão a tirar, ponho-me a pensar em toda a história do filme e não consigo perceber se o erro fatal é ter alguém por garantido, se o problema é que há um ponto a partir do qual não se consegue perdoar quem se amou por ter tido outra prioridade que nos relega para segundo ou terceiro plano. Depois, nada, nunca mais, apaga o facto de alguém ter preferido arriscar perder o nosso amor por outra qualquer coisa que considerou mais importante (dinheiro, estabilidade, estatuto, carreira, o que for)- , ou se afinal a conclusão é que afinal há homens que não são adeptos da máxima "cada um luta com as armas que tem" (seja elas quais forem), porque vêem nesses comportamentos um carácter que depois não conseguem amar, pela mesquinhez, pela falta de grandeza de espírito (e são poucos estes seres - homens ou mulheres - parece-me). Quando ela percebe que ele se pode apaixonar pela rica e inocente e boa moribunda, já o arriscou, e ele já se sentiu secundário, já sentiu que era mais importante o dinheiro, o estatuto, tudo isso, do que ficarem os dois, era mais importante o dinheiro do que o risco de atirá-lo para os braços de outra mulher. Já percebeu e sentiu que a prioridade daquela mulher não era o que sentia por ele. Depois, quando ela percebe e tenta desfazer tudo, afastá-los, com as armas que tem, faz alguém, já às portas da morte, sofrer muito, e é aí que ele percebe que gosta dessa mulher que sofre e detesta o sofrimento que lhe estão a provocar e para o qual ele contribuiu (engraçado perceber que é pelo sofrimento que causa que percebe que gosta dela, parece uma conversa que tive há tempos...). E ainda que com a morte no corpo não lhe morreu a dignidade, nem a grandeza de espírito, tão diferente da mulher que ele sempre amou, afinal. Ela morre e deixa-lhes parte da sua fortuna, aos dois, fortuna que ele recusa terminantemente, e ela, tentando desfazer tudo o que fez, dispõe-se também a dispensá-la se ele ficar com ela (ainda) por amor. E ele já não consegue, de alguma forma já não a ama, ama aquela que morreu. Aquela que perdeu. Aquela para quem ele era a prioridade, para quem ele era tudo o que importava, que o amou assim, dessa forma, e que tentou que ele a amasse, simplesmente. E parece que no fim aconteceu. Apaixonou-se pela mulher que conheceu e que lutou por ele só com o amor por arma e a dignidade por escudo, que o conquistou com a sua inocência, e que morreu. 
Talvez a conclusão não seja nenhuma destas, talvez seja que há coisas que não se conseguem desfazer depois de feitas, não se conseguem reverter depois de subvertidas. Tomou-o por garantido, arriscou-o achando que não o fazia, ou achando que havia coisas mais importantes, mostrou nas atitudes o fundo do seu carácter, depois percebeu o erro, a inversão de prioridades, o risco, tentou desfazer tudo, mas há coisas que depois de mostradas, sentidas, deixam um travo no olhar que talvez não se dissipe facilmente. Já não a olhava nem via da mesma maneira. 
Ela perdeu tudo. Ele ganhou dois amores mortos.
E isto é coisa que me dá para pensar e pôr a cabeça em remoinho, tanto que tive de o escrever, para assentar o turbilhão, e por causa disso lembrei-me de alguém me dizer que devia ser das poucas pessoas que conhecia que quando lia alguma coisa era capaz de, logo a seguir, escrever sobre o que tinha lido e o que me ficava disso, ou via nisso. Em filmes parece que também, este chamava-se "Nas asas do amor" - o amor não tem gaiolas, não se controla, nem se pode ter preso, suponho que só podemos tentar sempre que queira, a cada dia, voar para nós. De resto não controlamos nada, nem temos ninguém, nunca, garantido. 

[tinha este texto escrito nos rascunhos há uns tempos, mas por causa dum comentário ontem lembrei-me dele - há coisas que depois de subvertidas não se podem reverter. quando sabemos que não fomos a prioridade de alguém, e quando o sabemos repetidamente por várias vezes sem margem para dúvidas das tantas dúvidas que têm, há um ponto em que deixamos de querer. É talvez a diferença entre sentir falta de algo, e ainda assim já não o querer. Porque sabemos que queremos mais. Queremos que não nos arrisquem e que não nos tomem por garantidos. O que tomamos por garantido não valorizamos. Há uma altura em que os desvalorizados percebem. ]
Adoro!
Começar assim o dia é carregar-me sempre duma energia boa... 
era melhor se fosse a caminho de férias, mas é bom de qualquer maneira 

Bom dia!

terça-feira, 19 de junho de 2018

Sobre os encontros impontuais
e a pontualidade dos desencontros.

Acontece, às vezes, 
acontecerem  impontualmente 
encontros pontuais.
Quando os adiamentos e os atrasos 
se embrulham na elasticidade do tempo à hora certa.

[Sem ricochete no elástico sff  ;) ]