terça-feira, 15 de maio de 2018

Um pedaço de caminho, dos que dá gosto olhar e saborear ao fim dum dia como hoje, de "lócura" quotidiana. Já me chegam os finais de tarde, saboreados lentamente, com as cores do céu à direita do sorriso que me centra, com a música no rádio, e o silêncio de tudo o resto que não me voa por dentro. Um cigarro, ou dois, queimados com este silêncio de fundo e os restos do dia - eu comigo e com as pessoas que trago para a solidão dos momentos meus. Este bocadinho, antes de ir para casa continuar o dia e o quotidiano, para estar comigo e deixar-me estar, deixar o tempo parar-me nas palmas das mãos quietas de afazeres. Estar bem. Sabe-me bem. Mesmo sozinha. Acho que realmente cada vez gosto mais de estar sozinha, é quando nunca me sinto só, ou quase. Onde não me exigem nada, onde só o céu pede para ser olhado e eu quero olhá-lo, onde tudo se conjuga sem arestas, deixando a vida repousar noutros planos. E isso sabe tão bem. Ser só eu. Será que só sozinha se consegue isso? Talvez não, mas ainda estou para descobrir...

[foto @olhamecoimbra]

Enganas a ti mesmo,
para que enganando
achares que não mentes.
Enganas-te.

segunda-feira, 14 de maio de 2018

ehehehhe...
... do pessoal que gosta de fotografia...
 ...e não é que é tudo verdade?!!


domingo, 13 de maio de 2018

[foto @iamhertribe]

 ... céu cinzentão este, onde raio mora a primavera? Quero uns olhos onde veja primavera todos os dias. Uns olhos em flor. Um riso feito de céu limpo, e mãos que refazem a vida a cada dia.
...  onde pára a primavera? 

sexta-feira, 11 de maio de 2018


Olho os meus pés fincados na terra como se lhe pertencessem, de repente vejo-os tão longe como se o tempo fosse muito alto, e a distância ao coração um mar que a vida lavrou sem deixar mais que um rasto de espuma diluído na imensidão - como se o instante nunca tivesse sido um agora que permanecesse. Sinto o coração tão longe da terra, como uma península perdida, desgarrada,  agarrada a mim pelo fino caule duma flor silvestre que resiste sem saber porquê, ou como. Podia ser um bem-me-quer, talvez tenha o sonho de sê-lo, mas é só uma fina e frágil forma de vida selvagem que se recusa a enterrar-se na terra, e lhe foge atravessando o cimento dos dias que a querem soterrar.

terça-feira, 8 de maio de 2018


Às vezes, aos meus comuns porquês, respondem-me  "é uma coisa que se sabe, e pronto",  "sabe-se, é assim", acrescentando "é senso comum". E no meu silêncio digo-me que então, rara, só muito raramente, terei isso de comum, de ser comum (de a resposta me calar). E o não ser comum,  comummente - quase sempre -, serve para toda a gente. Todos somos únicos, raros - é comum.  Então o raro e o comum é talvez uma coisa do momento e do lugar, uma perspectiva, que sendo tudo, não é nada, é o que quisermos. Somos todos e não é ninguém. 
Estamos numa era em que todos querem ser "eles mesmos" e "diferentes" e "especiais", e eu só quero - quase sempre - não ter perguntas que o senso comum não convence. O que em mim é comum é querer ser como toda a gente, não me sentir rara, estranha, incomum, fora de sítio, desencaixada - cheia de perguntas que o senso comum respondendo raramente me convence. 
Se calhar o melhor é ser-se comum sem escolher, sem essa consciência, porque por opção consciente não se consegue ser - ou é raro.

domingo, 6 de maio de 2018

 Continuo a dar-lhe a mão, não sei por quanto tempo ma dará, mesmo relutante muitas vezes, porque já não tem idade, acaba por ma conceder com um sorriso malandro escondido. Por enquanto. Outras vezes recusa, na afirmação duma independência adolescente e arisca. 
Continuo a perguntar-me se sou a mãe que ela precisa, se estou a ampará-la no que deve ser amparada e a exigir no que lhe será exigido. Tento que cresça aprendendo a ser um ser humano digno, com sentido de justiça, a saber, ou tentar, pôr-se no lugar do outro, tentando saber compreender o que pode ser compreendido, mas não deixando que isso a torne terra fértil para abusos que lhe doerão nas entranhas. É um equilíbrio difícil. E é difícil fazer entendê-lo, e ao mesmo tempo deixá-la estabelecer, ao longo do tempo, essa fronteira, que será a dela, que a definirá e à sua vida. Em que será ela em qualquer lado dessa linha, e que espero eu, um bom ser humano em qualquer lado. Melhor que eu, ainda que eu não seja melhor mãe que a minha  foi, que é ainda, de três filhos que já não tem.

quinta-feira, 3 de maio de 2018


[foto via @33thirdmedia]

No vértice de um segundo,
o momento cai, desaparece,
morre inundado de tempo,
o seu reflexo permanece
para cá de si mesmo. 
(...)
Those three words
Are said too much
They're not enough

If I lay here
If I just lay here
Would you lie with me and just forget the world?
(...)
Snow Patrol - Chasing Cars

Esquecer o mundo é fácil, 
partilhar esse alheamento é fácil. 
Difícil é esquecer que nos esquecemos
e deitarmo-nos com isso
para acordar dentro do mundo,
como um parto para que não nascemos,
parido em gritos que ferem o ar
que nos obrigam a respirar.

terça-feira, 1 de maio de 2018

[foto via @macro_drama]

Uma espécie de domingo fora de horas.
Por que será que o fora de horas aparenta sempre assentar melhor que a hora esperada e certa? 
Saber ainda melhor?
Será que o que nos está fora do programa nos faz reprogramar (-nos) melhor? 
Parecemos sempre esperar o que não esperamos, 
para que a surpresa nos arraste?

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Verdade. 
Dependendo do que estiver na caneca 
pode ser que se consiga atalhar, 
pelo menos temporariamente. Ou não. 
Há quem diga que sim.
 E tenha tido bastante prática na conclusão de que não
(excepto na parte do temporário, às vezes...)
Eu não faço ideia.


Dia 313

Poucas coisas conheço tão fascinantemente belas como
esses teus olhos que fazem algarves de inveja às amêndoas.
E não há cântaros nem ânforas fenícias
com a ternura do contorno dos teus ombros.
Quando beijo os teus lábios ou mordo a tua boca,
o meu sangue adquire a consistência da terra
e o perfume maduro da fruta do mês de junho.
Os teus seios, de tão firmes, foram moldando as minhas mãos,
e os teus dedos longos têm a elegância e a doçura da cana do açucar.
As tuas pernas são os dois mastros do veleiro
que me conduz através dos oceanos do desejo.
O teu pescoço exibe a perfeição que estiveram perto de atingir
Polycleitos e, mais tarde, Miguel Ângelo.
Tudo é perfeito, ou quase perfeito, no teu corpo.
Ainda assim, esta simples verdade é tão evidente que não há
como fugir a dizer-te isto: acima de tudo, bem acima de tudo,
meu amor, tens um rabo lindo!

Joaquim Pessoa, in ANO COMUM


Bela maneira de, "acima de tudo, bem acima de tudo", começar o dia, hein? ehehehe




[foto @webb_norriswebb]


'Until I feared I would lose it, I never loved to read. 
One does not love breathing.'

Harper Lee

Da valorização, e de resumirmos a vida ao que agora damos valor.
E da descoincidência dos agoras.

domingo, 29 de abril de 2018



[foto de Chema Madoz]


O presente é um tempo que te derrete nas mãos. 
Escapa-te por entre os dedos se não sabes o que fazer com ele, 
o que queres que se torne. O presente que queres no futuro, 
depende do tempo que agarras agora. E como.
O presente é o único tempo.
O tempo é o verdadeiro presente.

sábado, 28 de abril de 2018

Eheheheh
... e às vezes passa-me pela cabeça. Verdade que sim. 
Mas há coisas que nunca fiz e, apesar de tudo, a idade ainda não mudou isso, 
ainda não mudou quem eu quero ser.
Então guardo para mim, e rio-me sozinha de muita coisa...

quinta-feira, 26 de abril de 2018




A caminho de cá vinha a pensar, tenho de fazer uma lista de tudo o que gosto de fazer, que me dá prazer, e dedicar-me a praticá-la. Ler. Ler em esplanadas ou na minha varanda ao sol. Tomar café depois duma caminhada com a tracção às quatro. Brincar com as palavras e às vezes escrever coisas que me tiram peso de dentro ou só que me aligeiram os dias em sorrisos parvos. Ir à praia sozinha, ver e ouvir a lareira enrolada numa manta. Ronha, dormir até tarde, desdenhar do sol do lado de fora da janela. O céu estrelado do Alentejo num alpendre à noite, as estrelas cadentes a rasgarem o quotidiano do olhar, talvez um copo de vinho e uma vela a tremeluzir no chão em sombras dançantes. As estradas ladeadas de árvores, curvas que desenham os contornos da terra e me fazem deslizar colada às curvas e ao chão, como se o carro lhes pertencesse, e eu também - e ser um com o caminho, sentir ser, também, aquelas curvas que se curvam comigo dentro, mãos no volante que conduz a curva sendo por ela conduzido, recurva-me a boca em sorriso. Sim, conduzir também, de manhã deixando os olhares apanharem boleia da serenidade das garças - rir-me da lembrança de ter  brincado com as palavras e ter publicado um dia "campos engarçados" -, e passear o carro à noite pela cidade,  entre as luzes da vida dos outros em casas que se iluminam, soltar as rédeas aos pensamentos bravos ou tranquilizar os medos selvagens enfrentando-os, conversando em sussurros maliciosos. As gargalhadas que às vezes faço rir a quem gosto, jantar com as minhas pessoas, as que gosto e gostam de mim, que me cosem a alma esfarrapada ou me fazem rir, ou me remendam a alma fazendo-me rir, velar o sono da minha filha, sentir a paz que já não sinto, o encostar-me ao meu irmão, às vezes, tão raro. Tão raro poder ser pequena outra vez e esperar que me protejam. Que me amem.
Tudo sozinha, vejo agora. Deixei-te fora de tudo de propósito, e no entanto, cada coisa que faça, estás lá. Como se eu estar sozinha fosse coisa tua, fosse uma maneira de estar contigo, talvez a única. Porque só sozinha posso estar contigo. Gosto de estar sozinha, mas não quero estar sozinha contigo, por causa de ti. Quero estar sozinha se não houver ninguém que me faça melhores os dias acompanhada. Até lá tenho uma lista grande de coisas que gosto para ir fazendo e não me lembrar que gostava de mais coisas. Algumas, se calhar, não sozinha. Outras sozinha, sempre sozinha, porque assim me sinto menos só, e porque gosto de estar comigo, não tenho medo de me descobrir, de me ver, de me saber. 

quarta-feira, 25 de abril de 2018


[foto de @jeanphilippelebee]

É na recôndita curva mais que perfeita
de um sorriso que se adivinha
que repousa já a alva planura das tristezas
seguras de pretérito perfeito.

Amanhecemos quando deixamos anoitecer.

segunda-feira, 23 de abril de 2018

[foto @jasonlphoto]

Espero-te no abismo das entrelinhas dos dias 
cosido entre as nossas noites.
Espera-me ao dobrar da esquina 
duma rua sem saída 
e leva-me ao fim do mundo.
Tira-me de mim. 

(não era para hoje o fim do mundo??? hum??)


domingo, 22 de abril de 2018



[foto @rosa_luxenburg_]

Há coisas perdidas há muito que no entanto ainda não perdemos. A perda só se dá quando queremos e já não temos. Mesmo que, sem sabermos, já não tivéssemos há muito, só  quando precisamos,  vamos à procura  e encontramos ausência, o vazio torna-se visível, concreto, palpável ao sentir.  Só aí há perda. Só aí apercebemos a perda. Às vezes fica-se perdido, quando perdido já se andava há tanto, sem saber. Saber faz toda a diferença - é a diferença entre o enquanto e o tarde demais. Desconfiar desnorteia e faz sofrer nos entretantos. Não precisar de ninguém é a mentira mais abençoada, sempre.

sábado, 21 de abril de 2018

[imagem original a cores, via @taxcollection]

- mamã, olha... é destas árvores que os sonhos caem?
-... ... não, filhota, os sonhos não caem, tens de voar para os agarrar.
- voar? mas, mamã, como?
- não sei, filha, não sei... acho que cada um tem de descobrir a sua maneira de voar... mas sei que se não os agarrares tornam-se grãos de areia.
E ela olha para o chão, os seus dois pés na areia.

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Perguntas filosóficas logo pela manhã....
(ao menos neste caso não devem comer uma a pensar na outra...)
Depois admiram-se que estejam sempre a anunciar que o mundo vai acabar. Agora parece que é segunda o próximo fim de mundo... e o fim de mundo aqui tão perto sem notarem.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

[imagem @iwitchalice]


Acendo mais um cigarro, escorrego pelo silêncio da casa. Deixo-me ficar por aqui, na lassidão do tempo, sentada no parapeito da noite, a observar uma pestana branca no céu negro. E um sorriso escapa-me a fugir à pergunta: de quem será o desejo?...
... De noite nunca me apetece dormir, fechar o dia. De manhã nunca me apetece começá-lo, sair da cama. Durmo, mas qualquer coisa em mim não sossega e o descanso não poisa na alma. Não que ande inquieta, não ando, há só uma sensação de algo inacabado, turvo, estranho. Algo por fazer, já desfeito. Estes dias passaram-se bem, não me prendi de ansiedades, não me asfixiei de pensamentos, incertezas ou certezas, simplesmente deixei ir - mas não sei sequer o quê, o tempo talvez; os dias, sei lá. Há um amargo desencanto em reconhecer o passado como tempo encantado, aperceber-me das mudanças, não esperar nada. Com tudo o que isso tem de bom e de vazio. Como aceitar uma perda, baixar os braços, e deixar que a terra engula o amor que escorre da pele. Como uma força que nos abandona e nos deixa à deriva, demasiado leves, demasiado ausentes de tudo.

terça-feira, 17 de abril de 2018

[foto @kat_in_nyc]

Hoje, enquanto deixava os pensamentos da minha cabeça maluca galopar-me, percebi que eu raramente tomo decisões, são as decisões que me tomam a mim. É o atingir de um ponto qualquer que, de dentro para fora, me faz sentir que já passei o ponto de não retorno, de dúvida, de incerteza. Quando as coisas se tornam claramente límpidas na minha cabeça e a decisão surge apenas como reconhecimento, nada mais. É a conclusão dum processo que eu não controlo - não é quando eu quero decidir, é quando a decisão me toma. A decisão vai germinando em nós muito antes de a formularmos ou verbalizarmos, ou reconhecermos, como conclusão. E há decisões que demoram tanto tempo a chegar ao seu destino e a desembarcar, inteiras e senhoras de si, como se daí em diante o tempo e a vida estivessem nas suas mãos. E sim, em cada decisão, há uma parcela que está. 
De alguma forma sempre tive a noção que há decisões que não se forçam, se forem forçadas não têm fundações para se susterem e manterem, para vingarem num mundo de incertezas, que ora sopram como brisas ora arrastam como vendavais. Talvez por isso haja tantas decisões que não tomei e tantas que me recusei a forçar ou pressionar. Mas só hoje me surgiu a frase - não somos nós que tomamos as decisões, são elas que nos tomam. 
E para quando tomar-me? Demorará muito? Para quando a certeza de não me restarem dúvidas, ou simplesmente a vontade de respostas? Para quando as incertezas não fazerem sequer baloiçar um suspiro duma folha que cai? Que caiu.

domingo, 15 de abril de 2018

[foto @bird.ee]
Não me apetece escrever porque não me apetece pensar. Não me apetece pensar porque não me apetece sentir... E dito assim parece que uma pessoa sente o que pensa, e infelizmente não é nada assim, e sim o seu contrário, pensa-se o que se sente apenas para tentar entender o que não sofre de entendimento, mas vive em desentendimento. E tantas vezes se vive neste desentendimento, entre o que se pensa e se sente. Um não manda no outro, não se sobrepõe ao outro, o que faz do tempo a eterna guerra entre iguais com pequenos desequilíbrios momentâneos, para um lado ou outro. E as palavras atrapalham porque pedem um fio condutor nesta trapalhada que são os dias que desequilibradamente se sucedem num quotidiano equilíbrio.
Se para mim houvesse - que na verdade, para mim, não há - um dia do beijo, seria hoje. Ainda seria hoje. Não sei por quanto tempo ainda seria hoje. Talvez pouco. Talvez até por isso hoje me lembrei disso. Daquele corredor, daquela parede, de tudo te ter caído das mãos, ou tudo teres atirado ao chão porque as tuas mãos precisaram das minhas costas, da minha cintura, de me agarrar de te agarrares e largar tudo. De depois daquele fim de dia tudo ter mudado e tudo ter ficado na mesma. Até hoje. Até quando?

sexta-feira, 13 de abril de 2018

 
[foto @alexstrohl]


Talvez isso, 
de sonhar ser inteiro,
 seja o placebo de gente que nasceu quebrada.



quinta-feira, 12 de abril de 2018

Oferece-se vírus usado, 
mas assegurando-se o seu perfeito estado de conservação,
na verdade aparentemente totalmente-quase-novo (a avaliar pelo seu desempenho),
de elevado grau de eficiência, conserva a sua força na transmissão (eu que o diga),
 a quem lhe queira dar uso apropriado ( até a quem não queria, eu que o diga...).



Acordo-me. Acordo-te. Sorrio.
E sobre a tua pele que a minha adora,
navega o meu desejo, esse navio
que sempre parte e nunca vai embora.
E como um animal uivando o cio
de um milénio, de um mês ou uma hora,
não sei se morro ou vivo, ou choro ou rio,
só sei que a eternidade é o agora.

Joaquim Pessoa


A eternidade hoje é sempre uma memória, um momento que perdura hoje, como ontem, como amanhã e depois. A eternidade guarda-a a minha pele como um tesouro que o tempo não envelhece, há-de a pele enrugar e a eternidade estar para sempre intocada. Como às vezes me sinto pelo tempo, como as cores que o tempo não come - e me deixam sempre o coração a dar-a-dar que nem um doido, como me disseram uma vez. 
Acordaram, esqueceram-se de me acordar, e agora invento eternidades dentro do sonho - nesse sonho uma cadeira basta, e a paisagem que me apaixona somos nós.

terça-feira, 10 de abril de 2018

[foto @viktorkosticphotograph]

Nunca se consegue fazer o caminho de volta, as curvas mudaram de sítio, há portas que desapareceram, doutras perdemos a chave. Nunca é para trás que se encontra o destino, porque a vida é caminho que só se faz para a frente, mesmo que às vezes não pareça. Mesmo que haja curvas parecidas, sensações idênticas, portas iguais. O que encerram já não é o mesmo, o tempo passou por tudo, e se é possível voltarmos a sentir o mesmo ou parecido, há a certeza que nunca será igual. O que queremos reviver, recuperar, o que queremos replicar, é algo que recordamos com aquela intensidade porque foi espontâneo, aconteceu, apareceu-nos no caminho e vivêmo-lo bem, intensamente, e tornou-se memorável, inesquecível até - o momento viveu-nos e ficou, mas nunca por algo recuperado, imitado, copiado.
Parece-me que ao querer-se reviver se procura o impossível - replicar a espontaneidade. Nunca será igual enquanto quisermos voltar ao sítio onde, pela primeira vez, nos sentimos de uma forma que nos marcou para sempre. Só me parece haver uma maneira de continuar a viver momentos intensos e plenos, que ficam sempre, é senti-los hoje com a espontaneidade do agora, sem o segundo prato da balança que desequilibra comparações e tempos. É guardar o que tivemos e não deixar que isso nos tolha os movimentos para, espontaneamente, agora e pela primeira vez, vivermos coisas boas, sem arrastar passados nem deixar rastro, sem rastejarmos felicidades passadas. 

domingo, 8 de abril de 2018


[foto @kristinenor]

Há sentimentos que a distância não apaga, 
mandam um beijo e tudo se incendeia. 
Como se nunca tivesse sido 
senão fogo. 
Outras vezes não mandam,
 e o vento leva as cinzas dum tempo 
que teima em ficar.

sexta-feira, 6 de abril de 2018

[foto @annan.jasko]

E por momentos pareceu amor.
Momentos meus, dum tempo que mora debaixo da minha pele. Sem luz, sem ar.
Por que é que a escuridão que navegamos não é sempre vazia?
...reparadora e incubadora do futuro que precisamos, por nos repousar a alma, por poisarmos as dúvidas, as incertezas, os medos... por cegar a luz que fere.

quarta-feira, 4 de abril de 2018


[foto @tarasovm]

(...)
Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
o que sem voz me sai do coração.

David Mourão-Ferreira


Por dentro de ti a noite acende estrelas,
apaga a escuridão e galopa o silêncio,
para me chegarem as palavras
a que cheiram as tuas flores
e que a voz da minha ternura  diz
como se  entendesse
... e então percebi.
E responderam-se perguntas que não me ouviram fazer.

[o novo Misfit anda no carro, a embalar as paisagens que correm pelos olhos - não gosto nada da separação das baladas num Cd aparte, obriga a andar sempre o trocar de Cd conforme a paisagem do estado de espirito -, há três ou quatro músicas que gosto bastante, mas o Femina, para mim, é muito, muito, melhor, e muito mais o meu tipo de música... correu muitas paisagens e tantos mais estados de espírito, por muito tempo. E ainda lá anda. Tenho de o revisitar.]

terça-feira, 3 de abril de 2018

E estes campos - onde o sol se estende no chão e deixa ao céu cores anoitecidas - são os olhares que a manhã me deixa a marinar na retina da memória, e que pego agora para aqui deixar. As estações pintam as paisagens pela mão da cor e da textura, cíclica e perfeitamente, no seu tempo. Alternam a água que espelha o céu a perder de vista com as culturas altas que tapam os horizontes, como se fizéssemos a estrada entre muros, para, depois de cortados, se arrumarem enrolados pelos campos que descansam, dourados e secos, até o verde lhes dar de beber e os mini-sóis se estenderem a olhar o infinito. Já não me imagino sem fazer este caminho, estação a estação, cor a cor, dia a dia.
Bom dia!
[foto @moniblanco]

A fumar o último cigarro...a tentar não pensar em nada, só tentar que o tempo passe sem fazer muito barulho dentro. O dia passou-se bem, só agora me chegou a noite. Amanhã vai-me custar horrores levantar, já sei, mas de nada vale ficar debaixo de cobertores que não me acobertam do dia nem me aquecem do futuro frio. Pergunto-me por quê tanta complicação se tudo é tão simples e claro, ou sim, talvez por isso. Se calhar demasiada clareza turva. Realmente o que é óbvio às vezes custa tanto ver que não se vê, turva-se, curva-se e despista-se no caminho. Estatela-se quem não vê e vai morrendo devagar quem vê. Quem já viu. Eu já morri devagar e já me estatelei também, e no entanto, ando, caminho direita, por vezes liquefeita por trás da pele. Que não se note, que a voz não trema, que o passo seja seguro, que a certeza esteja amarrada num nó cego, que não vejo, mas sei. Não há melhor saber que sentir.
Nada mudou, não há novidades aqui, a sentença é conhecida há muito, há que cumprir o caminho, mais nada. Tenho as mãos vazias de vontades, as unhas já não esgravatam porquês, os braços já nao se estendem para agarrar a brisa que a pele ainda cheira, o olhar adormeceu brilhos antigos, os pés ganharam raízes e já não desesperam, não tenho de andar, o caminho, como que já feito debaixo de mim, come-me inteira devagar, e eu não mudo nada. Deixo-me, nem me mexo. Estou só de pé, à espera do dia que me há-de calar o tempo, mais nada. Até lá respiro, sorrio futuros passados e invento voos que não sabem rastejar - fumo um cigarro antes de dormir.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

[foto @jccabral_photography]

Ora então lá vamos nós para mais uma semana a batalhar. Nem sempre tudo corre sobre carris, mas a algum lado se há-de chegar,  ao nosso destino chegaremos sempre, seja ele qual for, anunciado ou não, por roteiro ou não, sendo levados ou optando numa qualquer altura por fazer o nosso próprio roteiro com o norte dos nossos pés. Pode não se chegar a lado nenhum, mas não há como nos livrarmos do caminho. E para quê?... se é a única coisa que se vive? o destino é a chegada, a chegada é o fim de linha... talvez a vida seja uma sucessão de linhas, de chegadas, de viagens, de encruzilhadas, de atrasos, de avarias, de novas direcções. Mas a chegada é sempre ponto de partida. A viagem é o ar que respiramos sem darmos conta.

sábado, 31 de março de 2018

[imagem @jesuso_ortiz]

Fazendo a primavera. Aos poucos fazendo bem-me-queres, pétala a pétala, sol a sol, num céu azul que mal quer aparecer, parece que brinca às escondidas como quem desfolha pétala a pétala: bem-me-quer-mal-me-quer-bem-me-quer... olha, se me deres um céu azul por dia dou-te margaridas, adoro e nunca te querem mal (mas, por via das dúvidas, não as desfolhes...).
Bom dia.

sexta-feira, 30 de março de 2018

Ahhhhh... isso explica muita coisa... 
assim já faz sentido o pessoal que se vê na noite
 que invariavelmente parece optar pelo álcool por companhia... 
faz sentido, sim senhor. 
Eheheh
... tenho de começar a ponderar essa via, 
talvez assim qualquer companhia pareça boa... quem sabe. 
Isso e parecerem mais lindos, bonitos e interessantes, como dizem,
com o avançar dos copos, quer-se dizer noite.
(as coisas que se aprendem, hein?)

quinta-feira, 29 de março de 2018

Ahahahahaha
Encontrei isto e desatei-me a rir... as coisas de que se lembram. 
Se algum dia me dissessem uma coisa destas, ou parecida, eu ia ter de me desatar a rir, não haveria como não. Depois, conforme de quem o ouvisse, e se o moço não gozasse da intimidade necessária e suficiente, responderia que realmente as capacidades ópticas do mocinho não andariam a permitir ver muito bem, mas que não seria comigo que passaria a ver melhor... agora ouvido da pessoa certa, era coisa para ter outra piada e não se esgotava na gargalhada ;)))

Bom dia

quarta-feira, 28 de março de 2018

... e é isto.
Bom dia!
Hoje a noite está fresca mas não está fria, não há vento e as estrelas hão-de brilhar igualmente límpidas no céu negro, para lá da névoa que agora as esconde. Vim fumar o último cigarro no degrau da varanda e penso como há coisas que nunca saberei, de que nunca terei resposta, e que hoje isso me inquieta menos. Talvez porque se acumulem ou talvez seja do tempo que se vai acumulando. Ou só do hábito, não sei. Tudo perguntas sem resposta, e as perguntas sem resposta devem ficar enterradas no passado, nos dias que já foram, porque nunca terão futuro, não há dia de amanhã para elas. É sempre hoje, é sempre agora para uma pergunta sem resposta. Essas perguntas deviam acabar, não num ponto de interrogação, mas com o ponto de interrogação. Como se este fosse o epitáfio dum pensamento que não pode ser continuado. Morriam com a sua expiação em palavras, davam o último suspiro e deixavam quem perguntou respirar um futuro limpo, quase sem memória. Quase.

terça-feira, 27 de março de 2018


Parem de me fazer cócegas!! 
[Fotografia de Andrea Zampatti ]

... falta aqui um espelho para ensaiar este passo...
[fotografia de Chris Martin]

...Ahahah muito boa!! E ela acreditou??? 
Ahahah pára, já não me consigo rir mais!!
[fotografia de Brian Valente]

Hum??? O quê? A sério? Não acredito... Páscoa já? 
Mas ainda ontem era Natal... 
ainda ando a digerir os doces e vão começar com os chocolates??
[fotografia de George Cathcart]

Bom dia!!
Boa maneira de começar o dia ;)

segunda-feira, 26 de março de 2018

[imagem Carlo Giambarresi]

Espreita o sonho em bicos dos pés, por cima da realidade, 
poisa os cotovelos no horizonte azul e come o sol com as mãos. 
O melhor da vida não tem etiqueta.
Bom dia!

domingo, 25 de março de 2018

[foto @quemejor3]

Primavera em tubos de ensaio - vamos ensaiar as cores no olhar? 
Experimentar nos gestos a leveza das nuvens claras de algodão? 
Pendurarmos os problemas por resolver em molas de cores de rebuçado, 
e sorrir a doçura dos primeiros dias de sol primaveril? 
Vamos esquecer a vida só um bocadinho para conseguir viver um tico? 

(tico - palavra catita que engraçou comigo, coisa dos dizeres alentejanos, onde me queria agora e mais depois. e às vezes tenho um tico de saudades das conversas com quem ma ensinou. tudo no meu alentejo me lembra essa doçura lânguida que me encanta.)

sábado, 24 de março de 2018

[foto @mara.paris]

Sussurras-me rente ao calor da pele - gosto, linda por dentro e por fora,
 lindona, sorriso lindo, beijo bom... e eu, 
eu oiço tudo o que não dizes. E não sei do que falas.

sexta-feira, 23 de março de 2018

[foto Chema Madoz]

[porque me faltam ainda os teus abraços impossíveis de serem mais genuínos, e porque não quero perder o que me fez crescer contigo. três anos. pensei levar-te flores, mas para quê se podemos conversar no silêncio de qualquer lado e as flores são coisas que já não vês, quero só partilhar o silêncio como quem conversa até o que não pode ser ouvido, dizer-te do medo que tenho que a minha filha não cresça contigo e te esqueça. Encontramo-nos na viagem do olhar pelos campos. como tantas vezes, em tantos dias, nos de sol e nos nebulosos. nos de chuva pequenina também,  como hoje. Ainda me ecoam as tuas palavras, sabes? " ela gosta, gosta muito de mim, trata-me com muito carinho" - dizias ao ocupante da cama vizinha... Sabias tu que as devias dizer? Percebi, naquele momento, que a língua universal do carinho chega a todos os mundos - até a esse teu, especial, diferente dos outros, onde eu não sabia entrar -  e que ele a percebeu tão antes de eu ter consciência dela... coisa incrível, de enorme generosidade, o dizê-lo, o senti-lo, o sabê-lo e fazê-lo saber. De repente falta-me o bocado maior que me construiu o carácter, o que me fez quem sou, o que me fez (talvez sem saber) aprender que a língua do carinho é a única que se percebe sem ter de se usar o entendimento. Quem me fez a vida de modo à vida me fazer assim.
Ele gostava de mim e eu não sabia. eu não era uma segunda mãe, quando a nossa mãe faltava - eu era eu. 
Deixei que o silêncio da eternidade guardasse o que nunca disse. Agora a língua do carinho não basta para me calar o silêncio que grita que agora é tarde. tão tarde. falta-me uma parte que me justifica. falta-me aquela pessoa também  para que me entendam inteira enquanto pessoa. falta-me aquela pessoa para eu ser a pessoa que ele me fez, também, ser. Falto-me mais uma vez.]

quinta-feira, 22 de março de 2018



As pessoas voltam sempre ao que verdadeiramente são, para o bem e para o mal. Por muito que tentem disfarçar, e eventualmente até consigam durante uns tempos, o que são volta-lhes sempre ao de cima. E ainda bem, de certa maneira, ainda bem. Quem não tem bom fundo, quem não é bem formado, nunca o será. Poderá adaptar-se, ou até tornar-se melhor, se a vida o obrigar a isso, mas nunca se afasta muito do seu próprio registo, da sua própria natureza, das suas fundações - a essência não muda. Quem não tem dignidade não a aprende, por muito que leia quem a tem, por muito que a tente representar; quem não tem ideias próprias copia as dos outros e chama-as de suas; quem não sabe pensar dedica-se a ler quem sabe (que já não é mau, convenhamos, e até é um elogio :) ) e a repetir o que lê, mas há coisas que por muito lidas que sejam não se aprendem, como há coisas que não se forçam, ainda que se disfarcem - ou tentem disfarçar - de espontâneas... Mas os disfarces cansam-se, e a natureza de cada um deixa-se sempre ver através de todas as máscaras.
Até no melhor teatro cai o pano...

E ainda bem.

E talvez, então, para o bem e para o mal, eu volte a ser o que já fui, ou que ainda serei debaixo de tantos anos, dias e noites que me asfixiam partes de mim que me faltam e que quero, e que quero dar a quem me faça bem e eu goste muito, estupidamente, também por isso, e isso seja deixar-me ser eu e não condescender à vida pelo meio caminho.



quarta-feira, 21 de março de 2018

... então é minha. 
Também é minha.
Preciso muito dela, para que os dias saiam do anonimato nebuloso do tempo.
Para que parem o tempo fazendo-lhe sentido, sentindo.
Preciso, mas nem sempre a encontro.
Às vezes ela encontra-me, pensa-me, respira-me, sorri-me.
Como se nessa distracção da vida, a vida me visse.
[foto @waynefisherphotography]

"Não, não é. O amor não é cego, nós é que somos cegos para ele. A gente olha e não vê. E, quando vê, já passou a ocasião. Tanto faz que seja, porque tivemos alguém que julgávamos que queríamos, como porque não tivemos quem só depois percebemos que afinal a gente queria. E o pior ainda não é isso. O pior é a gente, mais tarde, saber que nos era indiferente alguém que julgámos desejar muito."

Jorge de Sena, in Sinais de Fogo

[A multidão que aqui vejo, tanta gente que identifico e aqui cabe... só o verbo "ter" se desdobra e recurva para abarcar outros, como amar, adorar ou desejar... mas a essência do que é dito permanece imutável... Alguém que quis alguém que, quando teve, afinal já não queria, era tarde, e não, não "vale mais tarde, que nunca"... porque depois não vale nada. Porque depois a indiferença vale tudo, naquela altura em que daríamos tudo para, afinal, ter visto aquela pessoa que não percebemos a tempo que não podíamos perder e já perdemos. Tudo fora de tempo, tudo tarde, ou cedo demais.
O fogo cruzado dos amores com intensa falta de pontaria, que mata quase todos por lhes não acertar, e salva quase nenhuns dos que acerta.  E chegar ao fim e perceber que andámos sempre enganados, trocados, perdidos, num reconhecimento póstumo e impotente.
Andarei, também eu, perdida no que está diante dos meus olhos? ou terá o amor de morrer para que o saiba, nessa certeza fria e inerte,  por dentro das veias? ]