Os únicos que se salvam são os que não esperam por ser salvos.
Os que não pensam numa salvação, mas em passar o dia. Hoje, depois amanhã, talvez depois também. Os que inventam uma vida quando não a têm, os que a esquecem se a tiveram, pondo os olhos no amanhã e as mãos a tapar as feridas abertas até que sequem, porque sabem que nunca fecham. Mas não olham para não saber, tapam com as mãos dos dias e com a escuridão tranquila das noites. Nunca esperam ser salvos, sabem que têm de se salvar sozinhos, que não há nada, dia algum na vida, em que deixemos de estar sozinhos - nascemos sozinhos, morremos sozinhos, às vezes, entre uma e outra, distraímo-nos e pensamos que temos alguém ao lado, esperamos que esteja ao nosso lado... Mas os únicos que se salvam são os que não esperam. Nada. Ninguém. E tudo de si.
Não sei se me salvo, e tu?


