sexta-feira, 11 de maio de 2018


Olho os meus pés fincados na terra como se lhe pertencessem, de repente vejo-os tão longe como se o tempo fosse muito alto, e a distância ao coração um mar que a vida lavrou sem deixar mais que um rasto de espuma diluído na imensidão - como se o instante nunca tivesse sido um agora que permanecesse. Sinto o coração tão longe da terra, como uma península perdida, desgarrada,  agarrada a mim pelo fino caule duma flor silvestre que resiste sem saber porquê, ou como. Podia ser um bem-me-quer, talvez tenha o sonho de sê-lo, mas é só uma fina e frágil forma de vida selvagem que se recusa a enterrar-se na terra, e lhe foge atravessando o cimento dos dias que a querem soterrar.

terça-feira, 8 de maio de 2018


Às vezes, aos meus comuns porquês, respondem-me  "é uma coisa que se sabe, e pronto",  "sabe-se, é assim", acrescentando "é senso comum". E no meu silêncio digo-me que então, rara, só muito raramente, terei isso de comum, de ser comum (de a resposta me calar). E o não ser comum,  comummente - quase sempre -, serve para toda a gente. Todos somos únicos, raros - é comum.  Então o raro e o comum é talvez uma coisa do momento e do lugar, uma perspectiva, que sendo tudo, não é nada, é o que quisermos. Somos todos e não é ninguém. 
Estamos numa era em que todos querem ser "eles mesmos" e "diferentes" e "especiais", e eu só quero - quase sempre - não ter perguntas que o senso comum não convence. O que em mim é comum é querer ser como toda a gente, não me sentir rara, estranha, incomum, fora de sítio, desencaixada - cheia de perguntas que o senso comum respondendo raramente me convence. 
Se calhar o melhor é ser-se comum sem escolher, sem essa consciência, porque por opção consciente não se consegue ser - ou é raro.

domingo, 6 de maio de 2018

 Continuo a dar-lhe a mão, não sei por quanto tempo ma dará, mesmo relutante muitas vezes, porque já não tem idade, acaba por ma conceder com um sorriso malandro escondido. Por enquanto. Outras vezes recusa, na afirmação duma independência adolescente e arisca. 
Continuo a perguntar-me se sou a mãe que ela precisa, se estou a ampará-la no que deve ser amparada e a exigir no que lhe será exigido. Tento que cresça aprendendo a ser um ser humano digno, com sentido de justiça, a saber, ou tentar, pôr-se no lugar do outro, tentando saber compreender o que pode ser compreendido, mas não deixando que isso a torne terra fértil para abusos que lhe doerão nas entranhas. É um equilíbrio difícil. E é difícil fazer entendê-lo, e ao mesmo tempo deixá-la estabelecer, ao longo do tempo, essa fronteira, que será a dela, que a definirá e à sua vida. Em que será ela em qualquer lado dessa linha, e que espero eu, um bom ser humano em qualquer lado. Melhor que eu, ainda que eu não seja melhor mãe que a minha  foi, que é ainda, de três filhos que já não tem.

quinta-feira, 3 de maio de 2018


[foto via @33thirdmedia]

No vértice de um segundo,
o momento cai, desaparece,
morre inundado de tempo,
o seu reflexo permanece
para cá de si mesmo. 
(...)
Those three words
Are said too much
They're not enough

If I lay here
If I just lay here
Would you lie with me and just forget the world?
(...)
Snow Patrol - Chasing Cars

Esquecer o mundo é fácil, 
partilhar esse alheamento é fácil. 
Difícil é esquecer que nos esquecemos
e deitarmo-nos com isso
para acordar dentro do mundo,
como um parto para que não nascemos,
parido em gritos que ferem o ar
que nos obrigam a respirar.

terça-feira, 1 de maio de 2018

[foto via @macro_drama]

Uma espécie de domingo fora de horas.
Por que será que o fora de horas aparenta sempre assentar melhor que a hora esperada e certa? 
Saber ainda melhor?
Será que o que nos está fora do programa nos faz reprogramar (-nos) melhor? 
Parecemos sempre esperar o que não esperamos, 
para que a surpresa nos arraste?

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Verdade. 
Dependendo do que estiver na caneca 
pode ser que se consiga atalhar, 
pelo menos temporariamente. Ou não. 
Há quem diga que sim.
 E tenha tido bastante prática na conclusão de que não
(excepto na parte do temporário, às vezes...)
Eu não faço ideia.


Dia 313

Poucas coisas conheço tão fascinantemente belas como
esses teus olhos que fazem algarves de inveja às amêndoas.
E não há cântaros nem ânforas fenícias
com a ternura do contorno dos teus ombros.
Quando beijo os teus lábios ou mordo a tua boca,
o meu sangue adquire a consistência da terra
e o perfume maduro da fruta do mês de junho.
Os teus seios, de tão firmes, foram moldando as minhas mãos,
e os teus dedos longos têm a elegância e a doçura da cana do açucar.
As tuas pernas são os dois mastros do veleiro
que me conduz através dos oceanos do desejo.
O teu pescoço exibe a perfeição que estiveram perto de atingir
Polycleitos e, mais tarde, Miguel Ângelo.
Tudo é perfeito, ou quase perfeito, no teu corpo.
Ainda assim, esta simples verdade é tão evidente que não há
como fugir a dizer-te isto: acima de tudo, bem acima de tudo,
meu amor, tens um rabo lindo!

Joaquim Pessoa, in ANO COMUM


Bela maneira de, "acima de tudo, bem acima de tudo", começar o dia, hein? ehehehe




[foto @webb_norriswebb]


'Until I feared I would lose it, I never loved to read. 
One does not love breathing.'

Harper Lee

Da valorização, e de resumirmos a vida ao que agora damos valor.
E da descoincidência dos agoras.

domingo, 29 de abril de 2018



[foto de Chema Madoz]


O presente é um tempo que te derrete nas mãos. 
Escapa-te por entre os dedos se não sabes o que fazer com ele, 
o que queres que se torne. O presente que queres no futuro, 
depende do tempo que agarras agora. E como.
O presente é o único tempo.
O tempo é o verdadeiro presente.

sábado, 28 de abril de 2018

Eheheheh
... e às vezes passa-me pela cabeça. Verdade que sim. 
Mas há coisas que nunca fiz e, apesar de tudo, a idade ainda não mudou isso, 
ainda não mudou quem eu quero ser.
Então guardo para mim, e rio-me sozinha de muita coisa...

quinta-feira, 26 de abril de 2018




A caminho de cá vinha a pensar, tenho de fazer uma lista de tudo o que gosto de fazer, que me dá prazer, e dedicar-me a praticá-la. Ler. Ler em esplanadas ou na minha varanda ao sol. Tomar café depois duma caminhada com a tracção às quatro. Brincar com as palavras e às vezes escrever coisas que me tiram peso de dentro ou só que me aligeiram os dias em sorrisos parvos. Ir à praia sozinha, ver e ouvir a lareira enrolada numa manta. Ronha, dormir até tarde, desdenhar do sol do lado de fora da janela. O céu estrelado do Alentejo num alpendre à noite, as estrelas cadentes a rasgarem o quotidiano do olhar, talvez um copo de vinho e uma vela a tremeluzir no chão em sombras dançantes. As estradas ladeadas de árvores, curvas que desenham os contornos da terra e me fazem deslizar colada às curvas e ao chão, como se o carro lhes pertencesse, e eu também - e ser um com o caminho, sentir ser, também, aquelas curvas que se curvam comigo dentro, mãos no volante que conduz a curva sendo por ela conduzido, recurva-me a boca em sorriso. Sim, conduzir também, de manhã deixando os olhares apanharem boleia da serenidade das garças - rir-me da lembrança de ter  brincado com as palavras e ter publicado um dia "campos engarçados" -, e passear o carro à noite pela cidade,  entre as luzes da vida dos outros em casas que se iluminam, soltar as rédeas aos pensamentos bravos ou tranquilizar os medos selvagens enfrentando-os, conversando em sussurros maliciosos. As gargalhadas que às vezes faço rir a quem gosto, jantar com as minhas pessoas, as que gosto e gostam de mim, que me cosem a alma esfarrapada ou me fazem rir, ou me remendam a alma fazendo-me rir, velar o sono da minha filha, sentir a paz que já não sinto, o encostar-me ao meu irmão, às vezes, tão raro. Tão raro poder ser pequena outra vez e esperar que me protejam. Que me amem.
Tudo sozinha, vejo agora. Deixei-te fora de tudo de propósito, e no entanto, cada coisa que faça, estás lá. Como se eu estar sozinha fosse coisa tua, fosse uma maneira de estar contigo, talvez a única. Porque só sozinha posso estar contigo. Gosto de estar sozinha, mas não quero estar sozinha contigo, por causa de ti. Quero estar sozinha se não houver ninguém que me faça melhores os dias acompanhada. Até lá tenho uma lista grande de coisas que gosto para ir fazendo e não me lembrar que gostava de mais coisas. Algumas, se calhar, não sozinha. Outras sozinha, sempre sozinha, porque assim me sinto menos só, e porque gosto de estar comigo, não tenho medo de me descobrir, de me ver, de me saber. 

quarta-feira, 25 de abril de 2018


[foto de @jeanphilippelebee]

É na recôndita curva mais que perfeita
de um sorriso que se adivinha
que repousa já a alva planura das tristezas
seguras de pretérito perfeito.

Amanhecemos quando deixamos anoitecer.

segunda-feira, 23 de abril de 2018

[foto @jasonlphoto]

Espero-te no abismo das entrelinhas dos dias 
cosido entre as nossas noites.
Espera-me ao dobrar da esquina 
duma rua sem saída 
e leva-me ao fim do mundo.
Tira-me de mim. 

(não era para hoje o fim do mundo??? hum??)


domingo, 22 de abril de 2018



[foto @rosa_luxenburg_]

Há coisas perdidas há muito que no entanto ainda não perdemos. A perda só se dá quando queremos e já não temos. Mesmo que, sem sabermos, já não tivéssemos há muito, só  quando precisamos,  vamos à procura  e encontramos ausência, o vazio torna-se visível, concreto, palpável ao sentir.  Só aí há perda. Só aí apercebemos a perda. Às vezes fica-se perdido, quando perdido já se andava há tanto, sem saber. Saber faz toda a diferença - é a diferença entre o enquanto e o tarde demais. Desconfiar desnorteia e faz sofrer nos entretantos. Não precisar de ninguém é a mentira mais abençoada, sempre.

sábado, 21 de abril de 2018

[imagem original a cores, via @taxcollection]

- mamã, olha... é destas árvores que os sonhos caem?
-... ... não, filhota, os sonhos não caem, tens de voar para os agarrar.
- voar? mas, mamã, como?
- não sei, filha, não sei... acho que cada um tem de descobrir a sua maneira de voar... mas sei que se não os agarrares tornam-se grãos de areia.
E ela olha para o chão, os seus dois pés na areia.

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Perguntas filosóficas logo pela manhã....
(ao menos neste caso não devem comer uma a pensar na outra...)
Depois admiram-se que estejam sempre a anunciar que o mundo vai acabar. Agora parece que é segunda o próximo fim de mundo... e o fim de mundo aqui tão perto sem notarem.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

[imagem @iwitchalice]


Acendo mais um cigarro, escorrego pelo silêncio da casa. Deixo-me ficar por aqui, na lassidão do tempo, sentada no parapeito da noite, a observar uma pestana branca no céu negro. E um sorriso escapa-me a fugir à pergunta: de quem será o desejo?...
... De noite nunca me apetece dormir, fechar o dia. De manhã nunca me apetece começá-lo, sair da cama. Durmo, mas qualquer coisa em mim não sossega e o descanso não poisa na alma. Não que ande inquieta, não ando, há só uma sensação de algo inacabado, turvo, estranho. Algo por fazer, já desfeito. Estes dias passaram-se bem, não me prendi de ansiedades, não me asfixiei de pensamentos, incertezas ou certezas, simplesmente deixei ir - mas não sei sequer o quê, o tempo talvez; os dias, sei lá. Há um amargo desencanto em reconhecer o passado como tempo encantado, aperceber-me das mudanças, não esperar nada. Com tudo o que isso tem de bom e de vazio. Como aceitar uma perda, baixar os braços, e deixar que a terra engula o amor que escorre da pele. Como uma força que nos abandona e nos deixa à deriva, demasiado leves, demasiado ausentes de tudo.

terça-feira, 17 de abril de 2018

[foto @kat_in_nyc]

Hoje, enquanto deixava os pensamentos da minha cabeça maluca galopar-me, percebi que eu raramente tomo decisões, são as decisões que me tomam a mim. É o atingir de um ponto qualquer que, de dentro para fora, me faz sentir que já passei o ponto de não retorno, de dúvida, de incerteza. Quando as coisas se tornam claramente límpidas na minha cabeça e a decisão surge apenas como reconhecimento, nada mais. É a conclusão dum processo que eu não controlo - não é quando eu quero decidir, é quando a decisão me toma. A decisão vai germinando em nós muito antes de a formularmos ou verbalizarmos, ou reconhecermos, como conclusão. E há decisões que demoram tanto tempo a chegar ao seu destino e a desembarcar, inteiras e senhoras de si, como se daí em diante o tempo e a vida estivessem nas suas mãos. E sim, em cada decisão, há uma parcela que está. 
De alguma forma sempre tive a noção que há decisões que não se forçam, se forem forçadas não têm fundações para se susterem e manterem, para vingarem num mundo de incertezas, que ora sopram como brisas ora arrastam como vendavais. Talvez por isso haja tantas decisões que não tomei e tantas que me recusei a forçar ou pressionar. Mas só hoje me surgiu a frase - não somos nós que tomamos as decisões, são elas que nos tomam. 
E para quando tomar-me? Demorará muito? Para quando a certeza de não me restarem dúvidas, ou simplesmente a vontade de respostas? Para quando as incertezas não fazerem sequer baloiçar um suspiro duma folha que cai? Que caiu.