segunda-feira, 12 de março de 2018




“Um grande amor aquele vazio inominável, em que se debatiam tantas atitudes contraditórias de atracção e de repulsa? Na verdade, eu detestava a Mercedes e desejava-a sequiosamente. Não. Amava-a profundamente, e não a desejava senão como uma ocasião de precisamente esquecer, nos braços dela, que a amava. Tanto. Tão dolorosamente. Tão enciumadamente. Tão orgulhosamente. Tão envergonhadamente de continuar a amá-la e desejá-la.”

Jorge de Sena, in Sinais de fogo 

[Será assim o amor? De atitudes contraditórias? De detestar e desejar e amar?
É um pouco assim que sinto amor, entre detestar tanta coisa e ao mesmo tempo amar por algumas dessas mesmas razões, que não me beneficiam ou facilitam a vida, mas que aprecio, e todas as outras sem razão nenhuma... ama-se só porque sim, porque o amor nos tem, e mais nada. Há algo que aqui é dito que me faz muito sentido, é quando estamos nos braços de quem amamos que nos esquecemos que amamos, como se precisássemos desses momentos para descansar do amor que temos vivendo-o. Se calhar só se descansa do amor vivendo-o. Ou talvez nesses momentos não tenhamos consciência de que amamos, porque o amor nos absorve, nos consome, nos engole -  entregamo-nos inteiros e nada resta de tão nosso que chegue para ter consciência lúcida do que for. Talvez por isso esses momentos sejam de liberdade total, libertamo-nos até de nós e da consciência dum amor que nos leva, ainda que momentaneamente, a consciência de ser. E isto é coisa para ser uma sensação viciante.

Falha-me a vida, tão indiscutível e rigorosamente como um relógio que nunca perde o tempo certo do tempo, e eu volto a mergulhar em palavras que não são minhas para escapar à minha vida e encontrá-la nas palavras dos outros.]

[foto @qiurii]

"Confiança, orgulho, ternura, contentamento, um quebranto de cansaço e também um desejo reacendido só de pensar nela e não de pensar no que fizera com ela: tudo isso eu sentia, me dava um andar leve, quase dançado, e era inteiramente novo. Eu já sentira, noutras ocasiões, um pouco disto ou daquilo; não sentira porém, tudo e tão intensamente (...) Era como se, na vida, nós, de vez em quando, após uma experiência nova, descobríssemos que ainda crescíamos, que ainda não tínhamos deixado de ser crianças. E que havia, dentro de nós, possibilidades infinitas de plenitude. (...) Mas não era que deixássemos muitas vezes de ser crianças, não. Nem uma experiência nova. Não tinha sido afinal uma experiência nova. Tinha sido, pelo contrário, a mesma experiência de sempre, como nova. E nisso estava toda a diferença. (...) de cada vez que acontecia uma experiência destas, era como se um novo grau de consciência e de sensação nos relegasse a uma memória distante e imprestável tudo o que antes, igual experiência tivesse sido. Todavia, distante e imprestável, não por inútil, e sim por superada."

Jorge de Sena, in Sinais de Fogo

[Quando de repente tudo o que está para trás parece reduzir-se a nada, a um mero caminho até aqui, agora, onde percebemos a possibilidade da plenitude em cada poro. E o depois, onde voltamos ao nada que encontrámos, depois de tudo, no antes. Voltamos ao antes sem nada ser como dantes. De repente os vazios substituem o que entendíamos por bom, por razoável, por normal. Agora é tudo nada, o normal é nada, é pobre, é anormal.]

Havia alguém que me dizia que eu devia ser das únicas pessoas que conhecia que mal acabava de ler algo, era capaz de me pôr a falar, ou a escrever, do que tinha lido, entendido e sentido. E foi um hábito, ou uma espécie de ritual de encerramento da leitura, que ganhei há anos. Muitas vezes, depois de acabar de ler um livro, vou rever as partes que marquei, que me fizeram parar e mastigar devagar, porque me disseram mais que o resto, porque me falaram mais ao ouvido do coração, porque talvez fossem mais minhas. Por vezes vou registando esses trechos ao longo da leitura, outras espero acabar o livro (como desta vez, na maior parte dos excertos) para então me dedicar aos que quero deixar registado para a minha memória futura. Deixo-os aqui, como tantas das coisas que me tocam ou me passam pela cabeça ...

domingo, 11 de março de 2018

[foto @tarasovm]

"(...) aquele corpo que, como a minúcia me fez entender, não era tanto a Mercedes como o meu próprio corpo realizado noutrem. Não a metade ideal que se procura. Não a mulher pela qual, em nós, somos homens. (...) Mas eu mesmo como amor que se materializa, como realidade que se torna espaço e forma, como sexo que perde a sua solidão de instrumento, para adquirir a independência de uma solidão autónoma e imprevisível, em que o sexo não é uma parte que estrutura e que domina um corpo, um eixo em torno do qual roda a vida, mas um centro onde ela se detém, um todo em que ela se concentra como coisa viva, e não como coisa vivida.
(...) Ela levantou-se, e começou a vestir-se. Quando se penteava, eu pensei que, de facto, eu não podia amá-la. Ela era o meu amor. Nada me ficava com que ter-lhe afecto. Eu fechei tranquilamente os olhos, certo de que, assim, eu a teria sempre, tal como ela queria ser sempre minha."

Jorge de Sena, in Sinais de Fogo

Estas últimas linhas lembram-me uma frase, das que colecciono entre as mais bonitas,  que me disseram em resposta a eu dizer que tínhamos estado muito tempo longe, que tinha estado sem ele, que ele tinha estado sem mim... que não, que nunca tinha estado sem mim, que estava sempre com ele, nele, porque me pensava e me lembrava todos os dias, bastava-lhe parar um pouco ou fechar os olhos, que era impossível ele ficar sem mim, eu estava nele. Será isto amor? a impossibilidade de nos dissociarmos totalmente? porque estamos no outro e o outro em nós? Mesmo quando não estamos perto? Será o amor essa coisa que se forma com duas almas, aquelas duas almas em que um encara o outro como amor, quase sendo impossível de dizer se se gosta ou não, se se ama ou não, porque, se é já amor o que nele os dois juntos são, como dissociar qualquer das partes, para saber se ama ou não ama?
... e é tão bom. Há tanto tempo que andava com vontade dum fim de semana assim, só para mim, para fazer o que me apetece, ou para não fazer tudo o que me apetece... ficar só no sofá enrolada na manta com um livro, música, a lareira se vencer a preguiça, os cães aos pés e a alma livre do tempo, do ter de ser, do deve ser, do a fazer. E devia fazer algumas coisas, mas vou dar-me aquele gostinho enorme de não as fazer, de ter esse pequeno poder de decidir não fazer, de decidir o meu tempo e a minha vida - há um certo prazer acrescido e delicioso em não fazer o que se devia fazer, o que se pensara fazer, mais do que apenas não ter o que fazer e aproveitar... E hoje, porque hoje posso. Lembra também aquele gostinho de quando deixamos o despertador tocar só para o poder calar e continuar a dormir com um sorriso nos lábios, numa satisfação duma vitória que não foi a jogo :) 

Bom domingo 

sábado, 10 de março de 2018

[foto @silverspies]

Duas janelas para o mundo. Um livro e uma janela, um tempo indeciso entre o sol piscar os olhos e a chuva dobrar a esquina, o cinzento pinta as paredes das ruas, e a casa torna-se íntima cúmplice e quente. 
Um livro a dez páginas de acabar e a inquietação de escolher o seguinte, qual o próximo mundo por onde vaguear, por onde parar para ver paisagens e interrogar-me vidas que não pensei. Frases que fazem cócegas à alma, este ambiente perfeito de fechar o livro e pensar no que nos ficou das palavras, enquanto bebemos qualquer coisa quente, um café, um chá, um sonho por adoçar. Tanto por onde escolher quando se quer outra vida na vida que escolhemos. Para fugir dela e assim gostá-la melhor. 

sexta-feira, 9 de março de 2018

[foto via @33thirdmedia]

...talvez seja uma boa ideia!..
...para os dias que correm, ou melhor, que vão caindo do céu...
Bom Dia!!

terça-feira, 6 de março de 2018




"pus a mão na boca para
amordaçar a dor, mas
era tão mais forte que
mesmo a mão gritou."

Bénédicte Houart



A dor, como o amor, não se amordaça.
Não se prende nem se aquieta.
Gritam ecos nocturnos
que o sol mais radiante não emudece. 
Falam diferentes línguas pela mesma boca. 
E mordem-nos com dentes de punhal,
enterram-se fundo até onde somos
essência encolhida e entorpecida,
à espera que a vida passe sem nos atingir.
Para não amarmos, para não doermos.
... isto tudo e gargalhadas, daquelas que de tão persistentes fazem doer a barriga, 
deixam-nos de barriga cheia de bom humor e boca doce sem açúcar.
A felicidade deve ser encontrar na mesma boca boas conversas, gargalhadas e beijos, 
e essa boca sorrir para a nossa com verdade dentro. 
A única verdade é amar.

segunda-feira, 5 de março de 2018


Está uma moça a correr o feed do Instagram em procura de fotografias bonitas para pôr aqui, quando se depara com esta pérola publicada por um (muito bom) amigo (e maluco também...) com a seguinte pergunta: “meio cheio ou meio vazio?”... seguido de alguns comentários com piada. Eu acrescentei o meu, e deu nisto:
-encorpado sff e que não dê dores de cabeça :)))
- sempre bem encorpado, minha querida ;)
-... para compensar o ser meio... pois. :D
Ahahahah
Fartei-me de rir sozinha no sofá por causa de meio copo de vinho... é o que dá ter amigos doidos, mas com sentido de humor :))))

domingo, 4 de março de 2018

... do pecado que já não mora ao lado e já mora na minha boca...
 e tantos ainda para eu ir parar ao inferno de vez!! ;)) 
... mas muito regalada de doce...
E finalmente refastelada outra vez no meu sofá...  ahh coisa boa! 
E (hoje) ainda mais doce...

sábado, 3 de março de 2018

Levar o meu irmão ao aeroporto, ensonada, com o cabelo ainda a dormir, e os sonhos na ponta das pestanas, desejar-lhe boa viagem e dar-lhe um beijo rápido que dura toda a viagem. Os regressos começam com cada partida, cada passo é um caminho de volta. Do que tem volta, do que quer volta. E agora penso nisto, dentro do carro com as janelas pintadas de um azul que se espreguiça e parece um nascer traquina com algo de prenúncio doce. O vento sopra nos ramos e ouve-se pelas frestas, já a barriga ronca, e eu faço silenciosamente tempo para as horas de pequeno almoço e contas ao regresso à cama, quente e de braços abertos para o meu sono limpo de sonhos e preguiça requintada de pequenos nadas.
Levanto o nariz das letras, as luzes da rua apagam-se, o azul amanhece-se, mais leve, e a noite parte a caminho do seu regresso.

sexta-feira, 2 de março de 2018

... mas falta algo nestes Legos, 
não encaixam lá muito bem.
O lado certo da loucura parece estar nos dois lados. 
O errado também. E o coração em todo o lado - o louco...

quinta-feira, 1 de março de 2018

Eheheh
Há sítios que, não tendo este aviso, 
nem um touro corredor desta estirpe, 
deviam ter um sinal parecido...
Há que saber do que fugir e a que velocidade vem...

[andamos assim, em modo de parvoeira activo, sem querer parar para olhar para dentro. há avisos que faltam, mas também há luzes que sabemos que se acendem logo que desligamos o mundo de fora... e não me apetece... há touros à espreita que nos apanham nas curvas dos dias cinzentos... há que estar atenta e não parar de olhar para fora.]
Bom dia!

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

[foto via @33thirdmedia]

Ai... onde me vim meter... eheheh
Bom dia!!

(estou tão precisada dum café, que nem vos digo...)

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

[foto @jcseelenmeyer]

Que te fujo. 
Que há um muro à minha volta,
 que não me chegas
não te alcanças. 
Eu não fujo, só não me movo. 
Esse muro entre tu e eu, 
és tu.

sábado, 24 de fevereiro de 2018

[foto @nihan.tezer]

Vamos fugir? 
É hoje?
Fazer um mundo longe do mundo, 
onde a casa seja lar
 para onde a felicidade mande a  correspondência :))

[foto @nihan.tezer]

É nas horas mais frias
que o meu gelo derrete 
e me quebra os ossos,
filhos do tempo. 

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018



[imagens de Une Femme Mariée, de Jean Luc Godard - adoro cada uma delas, e outras tantas que já tenho guardadas e outras que já fui pondo por aqui, há uma envolvência, uma cumplicidade, um calor e uma intimidade  que passa para as fotos, que reconheço tão bem...]

Amor não deve ser pensar em alguém e achar que só consegue pensar em amor, que só se pensa em dar mimo, carinho e beijos, que se tem saudades da cara e da pele. Amor é não deixar o outro sempre  sozinho... amor é saírem os dois para namorar em sítios giros, ou tornar giro qualquer sítio para namorar, é no regresso a casa deslizar para dentro de quem se quer sem cerimónias e com muita vontade. Amor não é só pensar, amor é fazer. Amor não é pensar que só se pensa em alguém em tons de amor e tesão, mas não ficar o tempo suficiente para o mostrar e fazer sentir, e nem sequer pensar nisso. Isso não é amor. Não sei o que é, mas amor não é. Talvez descubram um dia e me digam depois, ou talvez não, talvez nessa altura eu não queira ouvir nada, nem mesmo o que pudesse explicar tudo. Talvez nessa altura eu não queira nem saber que tudo poderia ter uma explicação. Espero na altura, simplesmente, não querer nada que sequer me lembre que, um dia, amei tanto. Porque o amor acaba quando não se sente amado, quando não tem por onde respirar, quando só expira, lentamente, o próprio ar, sem lhe darem nada para transformar, para trocar, para inspirar. Um dia morre, se calhar pouco depois de querer morrer, porque a própria fome de si mesmo lhe dói e o amarga. E o amor nunca pode ser amargo, ou não será amor. Aqui a dúvida está no "pouco depois"... quanto será o pouco? quando será o depois? já é? já foi?... já não quero saber de nada, mas ainda lembro.

[foto @gregbionde]

Estremeces-me brutalmente - és o único diamante que riscou a minha pele.

Frederico Mira George

[Sulcos invisíveis que só o coração vê,
rastros de amor e desejo
que me percorrem a pele deserta
 Iridescente, sinto, como um diamante à luz do sol.
Só percebo todas as cores contigo.
Só vejo quando estou cega.
Só sei sem razão.
Só sinto.
Estremeço.]


quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018


e o cansaço é tanto que se cansou de cansar-se,
alojou-se imóvel no sopé de cada amanhecer
e descansa à sombra do lado de dentro da pele,
impermeabiliza a noite de desejo
e ouve o silêncio como eco de companhia.
senta-te aqui, dá-me a mão por baixo da pele
e faz chover dia pelo meu corpo.


terça-feira, 20 de fevereiro de 2018




Futuras borras de felicidade que esborratam os gestos bebidos de passados, no agora que passa a cada momento. Alguns derretem o doce no amargo, quando queriam derreter o amargo no doce. Outros pintam o fundo amargo com cheiro a canela, exótico e quente, sempre quente. Não acreditam já em fundos doces, já não vestem o café de açúcar. Nem a vida de mentiras adocicadas. 
A felicidade são momentos que nos ficam em sorrisos teimosos de quentes e aconchegantes, só têm de ser verdadeiros, não podem ser adoçados e não têm sempre de ser doces.

sábado, 17 de fevereiro de 2018

[imagem @jean_jullien]

Pendurar à saída da semana as caras dos dias “feiras” e entrar no fim-de-semana inebriados de luz. Melhor ainda quando começa assim:  “estás acordada? Estou. Então abre a porta, estou aqui em baixo.”
Há muitos tipos de sol, eu gosto destes que me aquecem por dentro sem aviso, mas também, de alguma forma, sem surpresa. Tal como há pessoas que nunca partem, mesmo que a distância nos aparte. É um conforto que se aconchega nos nossos recantos e esse está sempre por dentro.
Bom dia!

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

[foto @bnwmag]
As pessoas que dizem as outras lúcidas e fortes porque se aguentam às broncas ainda que todas torcidas por dentro mas de espinha direita são as mesmas que as fazem sofrer. Que as obrigam a ser fortes. E lúcidas. Porque podem, porque elas aguentam. Porque são fortes. Porque as que dizem doidas e coitadas e que ficam fora de si, as que se desintegram de tanta falta de conteúdo, essas não podem ter contrariedades, coitadas, porque há quem diga que se desfariam, coitadinhas. E eu penso que quem se aguenta às broncas (ou parece que se aguenta) tem sempre mais broncas... E que lá porque se aguentam às broncas não são parvas ao ponto de comer por boas todas as desculpas... mas isto para dizer que o mundo é duma injustiça feita de uma ironia intrínseca. Se te fizeres de frágil e coitadinho vais tendo o que queres, e és poupado. Se te fizeres de forte porque não gostas de favores nem de coitadinhos... coitado de ti. Só a dignidade distingue uns dos outros, se calhar.
O que não me parece nada lúcido é este marulhar de pensamentos ao pequeno almoço...
[foto @mary_dgaf94]

"Do tacto pouco se fala, e quase sempre em sentido figurado. O tacto é, contudo, o mais interessante dos cinco sentidos, o menos embotado por excessos de informação, o menos sujeito a ideias de gosto, pré-concebidas por outros, o que ainda nos pode dar prazeres em estado mais puro, menos sujeitos a racionalizações, na fronteira entre o medo e a entrega." 

Miguel Martins

Talvez por isso o toque, a pele, engane menos, quando é realmente sentido sente-se, como se fizesse a alma emergir à flor da pele que nem se sabia ter, ter assim. Toca além da superfície, ouve no mais puro silêncio, vê além dos olhos, sabe mais que a razão. Podemos duvidar do que vemos, do que ouvimos, desconfiar até do que chegamos a pensar certo, mas a pele, a pele sabe, não duvida e não quer saber porque sabe. Sabe pelo corpo todo. Sabe com todas as razões de que não sabe, mas sente, e tantas vezes grita silêncios, vê na mais escuridão absoluta, ouve os murmúrios inconfessáveis da alma. A pele não sabe por que é que sabe, só sabe que sabe. E não pensa.
Há quem chame química a essa coisa de pele, a esse efeito inexplicável que derrete o medo e funde a entrega que se estende na pele até ao abismo dos (teus) dedos.

(ontem à noite andei a pesquisar coisas deste senhor, poeta contemporâneo português que não conhecia, e gostei, gostei muito - estranha-se e entranha-se com a mesma facilidade)

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018





(esta não deu doutra maneira)

Tríptico de fecho de dia... eu que andei distraída o dia todo e só ao final do dia me apercebi que hoje era dia dos namorados, aqui deixo três canções deste senhor que me fazem acreditar (e quero continuar a acreditar ainda que nem todos os dias seja tarefa fácil...) que há coisas bonitas e intensas que podem acontecer e ser vividas. É certo que se calhar não é para todos, mas quando é...
Três músicas que me lembram três faces lapidadas dum mesmo diamante, todas com o seu lugar no amor e ainda outras que mais lhe cabem.
Que tenham tido um dia bom (agora, a esta hora, já é ontem, mas amanhã também, e depois, já agora), os namorados, os enamorados e os não enamorados :)

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018


Cada vez que estavam juntos era uma despedida - como se fosse uma despedida. Nunca sabiam quando iriam estar juntos outra vez, ou sequer se voltariam a estar, tal eram as voltas que o mundo dava numa vida de malabaristas ironias e desencontros cruéis. Ali juntos, entre beijos, pele a passear devagar pelas mãos, e cheiros quentes que respiravam alma, houve a força violenta de um abraço que agarra, que quer ficar, que quer prender o tempo, quer prender os dois no tempo que não foge, naquele tempo - aquele tempo antes de se despedirem. Ele abraçou-a como se quisesse fazer sua a pele dela, o cheiro dela seu, como se não fosse possível separarem-se. Como se quisesse engoli-la, absorvê-la, para que nunca pudesse ficar sem ela, porque seria ficar sem si mesmo. Essa ideia rasgava-lhe o sossego e instalava-se em medos que ainda não conhecia. Como se, para ele, ela estivesse, de algum modo, sempre ali, para abraçar quando ele fosse abraço. Para ser um momento sempre que tivesse tempo. E tentou dizer-lhe alguma coisa, com ambas as mãos a amparar e emoldurar o rosto dela, mergulhando nela com um olhar onde cabia a angústia dum abismo,  procurava as palavras para lhe entregar. Ela pôs a mão sobre a sua boca, sorriu, agarrou-o com delicadeza pelo olhar, afugentou abismos e disse-lhe que não dissesse nada. Nada. Que deixasse que fossem o silêncio, que o silêncio os preenchesse, que eles fossem silêncio em todos os silêncios. Que fossem o silêncio inteiro em cada pequeno vazio. Que fossem, e estivessem, em todos os silêncios: quando, separados, o mundo os calasse, esse silêncio eram eles, ali e assim, pele na pele; quando se calasse o mundo eles descansariam o olhar no silêncio que era cheio deles; quando falassem sem vontade, esse silêncio disfarçado era vontade de serem eles; e quando tivessem de ouvir sem querer ouvir, esse silêncio era o refúgio onde se escondiam. E juntos, sempre que não encontrassem as palavras para dizer o amor, esse silêncio, era o amor deles.

[Cada dia que não nos beijamos todas as palavras são em vão. Cada dia que não nos vemos o ruído ensandece. Encontramo-nos no silêncio. Tanto. Até já.]

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018


[foto @rebelcircus]

... a peruca fez o carnaval. Escolhemos mal o restaurante, éramos as únicas ali que sabíamos que era carnaval... foi engraçado, e bastante discreto com perucas de cores eléctricas... foi chocante :))... Ainda assim os empregados não pareciam notar-nos a avaliar pela quantidade de vezes que fizemos sinal para nos atenderem. Também podia acontecer estarem envergonhaditos com a nossa escolha capilar... é assim, só preconceitos neste mundo...  o certo é que demos umas gargalhadas, dissemos alguns (muitos) disparates, pusemos a escrita em dia e carnavalámos um tico. 
Não nos disfarçámos, só nos esquecemos de ir ao cabeleireiro... e optámos pelo pret-a-porter ;))... 
(ainda que não tão abrangente como as mocinhas da fotografia... ) 

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018


hihihih.... pois amanhã se calhar é o dia quase todo de pijama!! 
... mas se há coisa de que não me poderia mascarar era de preguiçosa... estou sempre a assumi-lo, não engano ninguém. Tenho em minha defesa - e uso-o sempre que preciso - que quem inventou a roda era (de certeza) criatura que procurava ter o menor trabalho possível a cumprir as tarefas. Se fosse muito zeloso do cumprimento estrito de ordens, de seguir rigorosamente o instituído e fosse todo direitinho fazia as coisas como todos os outros... portanto, a roda só pode ser obra de um preguiçoso ;))) 
Mascarem-se de coisas giras e com sentido de humor e boa disposição, ao menos para isso o carnaval servirá de mote!! Divirtam-se!

domingo, 11 de fevereiro de 2018

[foto @mannatjphoto]

Às vezes ardem-me os poemas
na ponta dos dedos,
como um incêndio.

Alexandra Malheiro


[Para os esfriar sonho que pego no teu coração.
Eu não esfrio, mas ele aquece.
Lembro-me que é um sonho,
que não tenho o teu coração.
Acordo sem deixar o sonho,
mas deixo-te cair aos meus pés, sem partir.
E parto. Deixo-te inteiro no chão, e parto.
Mas há partes de mim que ficam.]

sábado, 10 de fevereiro de 2018


[foto @olhamecoimbra]

...tanta prioridade trocada. 
Primeiro beija-me. Depois, depois pensamos no resto. Mas beija-me como se isso fosse a tua liberdade a cada dia, e uma pequena revolução a cada instante, e luta, luta por podermos continuar a beijarmo-nos assim. 
Há primeiros beijos que são autênticas revoluções. Alguns nem são os primeiros, continuam a ser uma revolução de vida silenciosa. E cada beijo é liberdade, liberdade de amar e mostrar, haverá liberdade melhor? E a única luta é com o tempo que não pode ser nosso.
Agora beija-me outra vez e cala-te.

[foto (a que eu mudei ligeiramente a luz) de Alaska, aqui]


Atrás desta janela esconde-se uma menina que veio do frio
Olha as vidraças de olhos fechados por fora
Mergulha o olhar crente nos tons salmão do céu 
para ver saltar de nuvem em nuvem 
os sonhos que enfrentam a corrente da vida 
tu-cá tu-lá, partida e inteira
conta, na ponta dos dedos, as vidraças 
e embala com a música das árvores que subiu
os feixes luminosos dos dias que partiram 
Imperfeitos como a melancolia 
que perfeitos torna os tons do outono.
Cada vidro partido é uma sombra em ruínas. 
Em cada aresta há um corte ferido de poesia,
que ela cura com sangue de luz
 

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

[arquivo Marina Tavares Dias, roubado daqui]

Eh pahh... devia haver um matutino, ou mesmo vespertino (para mim era mais adequado...) para nos dar conta das boas notícias aqui da bloga... então a Miss Smile voltou e ninguém me avisa??? Mas que raio de solidariedade é esta??... inexistente pois... aqui há dias se não fosse o Patife bater-me à porta aqui do tasco, eu também ficava na ignorância e com umas belas gargalhadas a menos... não me parece bem, caríssimos, não parece mesmo...
Fica aqui a notícia para bem de quem gosta de coisas boas para ler ( e é distraído como eu), que há um sorriso assegurado pelas leituras aqui, e uma gargalhada certeira para gente desempoeirada aqui.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

[foto de Andrew A. Amundsen]

Dantes o sexo não era a melhor parte. Dantes não havia uma parte melhor, esta ou aquela, não havia partes - estar juntos, sem partes, em qualquer parte, era sempre o todo. E era o melhor. E era tudo.
E o melhor que eles tinham, agora, era o sexo. E eles, agora, nem sequer tinham sexo, realmente, verdadeiramente. Era uma coisa sem casa, sem tecto, mas em qualquer canto onde coubessem os dois e o desejo. E o sexo que não era sexo, era uma coisa de pele e de prazer. Sem pele, sem corpos colados em nudez, mas com tanto prazer, cumplicidade, intimidade. Quando as mãos, os beijos e o silêncio dizimavam todos os muros, eles encontravam-se como dantes, davam-se inteiros, abraço feito mundo. Momento nascido eternidade. E era a melhor parte. Agora havia partes. Como se o todo se tivesse partido. Em partes. E o sexo era a melhor parte. Mas nem havia sexo. Só partes. Partes de tudo que faziam outro todo em tudo. 

[imagem de Chema Madoz,

Se nos teus olhos bordejasse a linha do horizonte quando me vês, 
pegava nela e cosia-te o olhar ao meu coração.
Não precisaria de coser nuvens de algodão aos meus sonhos 
para que não chovam lágrimas que me queimem o amor.



[foto @gregbionde]

O que eu gosto, o que me encanta, o que me incendeia e arrebata, é essa força da onda movida por dezenas de cavalos selvagens galopantes, que quando arrancam já razão nenhuma os pára - não importa a roupa, não importa o sítio nem a hora, tudo passa a cenário, e a cena é o palco principal donde não se tiram os sentidos, onde nenhum sentido se distrai e a razão é a única traída. Chamem-lhe tesão, chamem-lhe desejo, chamem-lhe loucura, que rótulos há muitos e de nada servem, eu só sei que esta onda que me arrasta do mais fundo de mim para o mais fundo deste sentir, desta coisa, deste furacão indomável que nasce na brisa do seu primeiro toque e acaba com o coração galopante, devastado de prazer mas de alma descansada, como quem cumpriu a razão da sua existência. O instinto da alma, a essência da alma, é amar - há uma sensação de chegada, de finalmente ser inteira de alma até aos ossos. E até os ossos serem alma.
E é isto que me fica, que se guarda cá dentro para sair em palavras que me tiram o sufoco do peito. É isto que me vai às raízes dar de beber, que me acorda a seiva da vida nas veias, no respirar, no brilho que estende o olhar, e que agora, aqui, me saiu de rajada. E há um prazer e uma enorme tristeza nisso, nem tudo é igual, por mais sorridentes que alguns olhos me olhem e se mostrem ponte para alguma coisa, nem tudo me serve à exacta medida da alma, do ritmo galopante do coração que deseja, mas isso será sempre a minha tristeza. O estar provavelmente condenada a ficar contigo até ao fim, sem ti. Em ti, mas noutro.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

[foto @eternal_noir]

Não me digas a que vens
Deixa-me adivinhar pelo pó nos teus cabelos
que vento te mandou.

É longe a tua casa?
Dou-te a minha:
leio nos teus olhos o cansaço do dia que te venceu;
e, no teu rosto, as sombras contam-me o resto da viagem.

Anda,

vem repousar os martírios da estrada
nas curvas do meu corpo — é um
destino sem dor e sem memória. Tens

sede? Sobra da tarde apenas uma
fatia de laranja — morde-a na minha
boca sem pedires. Não, não me digas
quem és nem ao que vens.
Decido eu


Maria do Rosário Pedreira




[não me digas ao que vens, que não te creio.
Não me digas quem és, se te sei.
Sei-te e não te creio quando creio que te sei.
Não sei se te sabes se não me crês.
E não nos crês quando nos sabes.
Sabes que nos queremos.
E no entanto não queres crer.]


Esquece-te. Esquece-te da vida que tiveste. Esquece-te do amor que sentiste. Esquece-te de cada sonho desfeito. Esquece-te que te esfarelaram o verbo amar e, em troca, te muniram de descrença para esgrimir os verbos de cada dia. Esquece-te de tudo, para que, um dia sem saberes como, possas aprender tudo de novo como se nunca tivesses esquecido nada. Como se nunca tivesse havido nada que pudesse não ser esquecido para lembrar. 
Esquece. Para que em ti possa nascer essa morte fecunda.

Poiso aqui estas letras e parte de mim já morreu, enterrada com estas palavras neste sítio sem chão, onde hão-de florescer os meus pés.


[de como o olhar gelado dos campos aquecem as palavras que se nos derretem nos dedos]

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018


[imagem @alexandradillonartist]

... acordar de cabelos em pé!!... E depois perceber - ao som de uma boa música e com os campos, vestidos de frio solarengo, percorridos pelo olhar atrás duns óculos escuros - que uma força misteriosa nos planta um sorriso que nos aflora os lábios, porque não, não temos vocação para piaçaba da vida, e a sensação de dia de m&€@# esvai-se por entre os dedos da paisagem que a música dedilha aos nossos olhos.  Aumentamos o volume e o pé direito obedece ao mote. O dia rebela-se e revela-se.

domingo, 4 de fevereiro de 2018



... venci a preguiça. Acendi a lareira. 
Tão bom... 
Não há nada como ler  sob o embalo crepitante do fogo que arde. Às vezes por dentro. 
Muitas.

(bom, na verdade, há - conversar perto, noite fora, sentidos adentro... 
...de preferência partilhando um copo de bom tinto...)



... todos os dias são Domingo.
Mas o Domingo é mais.
O amor seria o mesmo de sempre, só com menos mundo, mais ronha, mais preguiça, mais calor, mais corpo no corpos - mais beijo nos beijos. Mais alma no sorriso, mais sorrisos na alma.
Tempo de estar e ser junto, tão bem, que faz o tempo curvar-se, e para sempre deixar de ser tempo.

sábado, 3 de fevereiro de 2018


[foto @benedettodemaio]

"Navegar é preciso, viver não é preciso"

Principalmente ao fim‑de‑semana, principalmente entre os teus cabelos, e sonhos e vontades e ondas que não sabemos nadar. Mas olhamos, como se soubéssemos. O medo só chegaria se sequer molhássemos os pés, se aos pés aflorasse essa brava intenção.. Até lá sonhar é seguro e ninguém te segura. Inseguro é lutar e tentar e entrar no mar. E, às vezes, não saber voltar.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Um dos meus sete pecados mortais: 
a sede de amor absoluto que me devora. 

Miguel Torga

[Eu, pecadora, me confesso,
que desta água bebi e beberei
e dessa mesma sede morrerei.
Ámen]

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018


[fotografia Nadine Abdel Aziz]

Em modo vampiresco logo pela manhãzinha. À espera que me tirem sangue. E o vampiro é uma vampira, afinal. Nem nisso tenho sorte pah...
Não sei há quantos anos não faço análises, provavelmente desde que tive a minha filha, ou seja, para aí uns dez anos, tal é esta coisa de gostar de médicos e afins... e nos últimos cinco anos fartei-me deles, e de hospitais, daquele cheiro asséptico que perfura as as narinas e se aloja na alma em medos tantos. Fartei-me de desgraças e doenças. E de morte, de mortes. Esgotei-me delas, esgotei-me nelas e nas ausências sem vazio. Se não me dói nada para quê médicos? Para encontrarem alguma coisa que não me dói mas que depois me leva a paz? E eu agora aqui, assim, em modos de tenho medo e não sei de quê. Ou sei. 
[foto @ rafafans]

"A maioria da gente é outra gente.
Os seus pensamentos são as opiniões alheias,
suas vidas uma imitação, suas paixões uma imitação."

Ela tem, desde sempre, um aguçado instinto de sobrevivência, sabe o que quer, como quer. O que ela faz com alma é fingir o que não é, isso brota-lhe das entranhas como a lava fervente dum vulcão em erupção. Só essa força é genuína, é real, é quente, é viva - tudo resto é uma máscara fria, calculada, desalmada. Até o calor, que se quer humano, é mero teatro, até o beijo é encenado, até o amor é só uma história lamechas que não entende, mas imita. Imita, imita até à exaustão, a lamechice. Onde ela põe a alma toda é na representação calculada do que nunca será a quente, do que nunca foi, ou será, sem máscara. Do que não é. Talvez gostasse de ser, talvez inveje quem é, mas ela não o é. Nunca será. Então observa, copia, imita.
Não sabe ser senão o horizonte onde quer chegar, como quer que a vejam, a admirem. O horizonte, aquela linha imaginária que é só distância e à distância, perto não é nada, sequer é linha ou horizonte, é apenas chão rasteiro que se deixa pisar.
Os olhos faíscam-lhe de gáudio enquanto julga pisar aqueles que um dia ousaram olhá-la de frente - ousadia com que nunca olha o espelho -, apenas para vê-la baixar os olhos, temerosos do confronto com o que nunca será. O riso queima apenas de escárnio - de longe, só de longe, que a cobardia ronda sempre perto -, sentindo-se maior, poderosa, insuflada; o fogo está-lhe nos pés quando, espezinhando quem pensa não conseguir igualar, os faz de atalhos dos seus desígnios, sem olhar a meios ou princípios, pois ela é uma mulher de fins numa dança pretensamente graciosa, mas apenas pretensiosa. Há quem, de olhos desavisados, se desfaça em elogios, uns enganados, outros ocos e tantos apenas encenados também, numa imitação de admiração.
Ela só finge com alma e dedicação o que na alma não tem. Finge a alma que não tem, e é a única coisa que genuinamente sabe fazer: fingir, imitar, repetir o alheio, copiar. Ela não é o caminho, é a força de chegar, não importa como. E chega vazia, como nunca deixou de ser. Mas aplaudida, tantas vezes.

[Wilde e as suas frases fabulosas e intemporais...]

terça-feira, 30 de janeiro de 2018




Triptico de regresso a casa... não conhecia os primeiros, gostei, vou pesquisar. A sonoridade dos segundos encaixa bem com os meus finais de dia, mas já era conhecida. E a última, além de me ter encantado pelo nome que se derrete na boca, embala-me as ideias no caminho... deixei o video porque adorei o filme (bom, e porque tem a Monica Belucci, que cá por coisas minhas me faz lembrar coisas que me fazem sorrir..)

[imagem @33thirdmedia]

Ao ver esta imagem lembrei-me da frase:
 "Proibida a entrada a quem não andar espantado de existir"
 ( de José Gomes Ferreira),
 e de repente fiquei com muita pena de eu não ter um muro visível ao meu redor, onde pudesse escrever tal espanto de frase... evitar-se-iam tantos dias poucochinhos e gente rasa, que com o espelho de água oculta a falta de profundidade e de tanta coisa que preciso. 
Todos devíamos trazer uma frase pintada num muro que nos rodeasse... pergunto-me que frases leria por aí, e que muros teria vontade de trepar depois de ler...

Bom Dia!!
[foto @gregbionde]

Deixa que os meus olhos se fechem
E confiem um minuto nos teus
Olha por mim, protege o meu sonho
Vigia o meu descanso e afasta-me de todas as mágoas
Com os teus beijos apaga as lágrimas que correm pelo
meu rosto
Envolve-me nos teus braços e, cuida de mim
Preciso do teu apoio, do teu abraço, do teu sentido
Deixa-me descansar e,
Adormecer no teu peito
Deixa que os meus olhos durmam
nos teus...
Deixa-me sonhar
Deixa que sonhe com a tua boca
Com as tuas mãos, com os teu beijos,
Com teu corpo na minha pele
Com o teu calor a queimar-me por dentro
Com tudo o que quero de ti
Deixa que os meus olhos despertem
com o sol a romper nos teus olhos.

Albano Martins




[deixa que os meus olhos durmam nos teus sonhos, 
e que a tua boca desperta, sonhe com a minha. 
deixa-me sonhar no teu peito que durmo contigo 
com as minhas pernas a abraçarem-te inteiro 
por fora do sonho,
dentro do nosso sono]

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018




Quando passo por ele, calcanhar no chão como dizia, e determinação dobrada pela força da mágoa de algo que tinha ouvido, agarra-me pela cintura, tocando-me num ponto estratégico na medida certa, com a força exacta, senta-me ao colo dele, tinha tomado conta da situação, de mim, e eu rendida, mas calada para que não se notasse, como se não tivesse percebido o que se passou. Foi aquele gesto, aquele gesto preciso, com aquela indubitável intenção e toque afinado, que me desmontou, que me desfez de razões. Não foi nada do que me dizia, a voz e as palavras não me desatam certos nós, talvez só as mãos, talvez só o calor da pele perto, talvez aquele toque preciso, talvez apenas a sensação da vontade dele de querer ficar bem, de saber e fazer por ficar bem comigo. Agarrou-me porque queria, porque me queria, porque nos queria bem. No mimo. Em nós. Sem nada desentendido pelo meio. Entendemo-nos sempre. Sempre.

Dos mantras, e de como começar uma semana que se quer catita ;) 
Mais verdades, só, já resolve muita coisa... o resto, verdadeiro, acabará por vir. 

(...)
sim, cria comigo esse silêncio
que nos faz nus e em nós acende
o lume das árvores de fruto.

diz-me que há ainda versos por escrever,
que sobra no mundo um dizer ainda puro.

Vasco Gato




[sim, diz-me que ainda há no mundo o puro desejo
de ser silêncio a dois, indizível e indivisível, 
de sermos nós despidos de tudo que não seja nudez, 
diz-me que te falta sentir falta de tudo que não nos é, 
e que é ruído o que não nos ouvimos de dentro
 diz-me que o calor que a pele fundiu e reteve
 ainda sonha, a cada migalha de silêncio
semeada nos barulhos do mundo.
fala-me da memória do silêncio
que mal alimenta a pele]