
As pessoas voltam sempre ao que verdadeiramente são, para o bem e para o mal. Por muito que tentem disfarçar, e eventualmente até consigam durante uns tempos, o que são volta-lhes sempre ao de cima. E ainda bem, de certa maneira, ainda bem. Quem não tem bom fundo, quem não é bem formado, nunca o será. Poderá adaptar-se, ou até tornar-se melhor, se a vida o obrigar a isso, mas nunca se afasta muito do seu próprio registo, da sua própria natureza, das suas fundações - a essência não muda. Quem não tem dignidade não a aprende, por muito que leia quem a tem, por muito que a tente representar; quem não tem ideias próprias copia as dos outros e chama-as de suas; quem não sabe pensar dedica-se a ler quem sabe (que já não é mau, convenhamos, e até é um elogio :) ) e a repetir o que lê, mas há coisas que por muito lidas que sejam não se aprendem, como há coisas que não se forçam, ainda que se disfarcem - ou tentem disfarçar - de espontâneas... Mas os disfarces cansam-se, e a natureza de cada um deixa-se sempre ver através de todas as máscaras.
Até no melhor teatro cai o pano...
E ainda bem.
E talvez, então, para o bem e para o mal, eu volte a ser o que já fui, ou que ainda serei debaixo de tantos anos, dias e noites que me asfixiam partes de mim que me faltam e que quero, e que quero dar a quem me faça bem e eu goste muito, estupidamente, também por isso, e isso seja deixar-me ser eu e não condescender à vida pelo meio caminho.