domingo, 8 de abril de 2018


[foto @kristinenor]

Há sentimentos que a distância não apaga, 
mandam um beijo e tudo se incendeia. 
Como se nunca tivesse sido 
senão fogo. 
Outras vezes não mandam,
 e o vento leva as cinzas dum tempo 
que teima em ficar.

sexta-feira, 6 de abril de 2018

[foto @annan.jasko]

E por momentos pareceu amor.
Momentos meus, dum tempo que mora debaixo da minha pele. Sem luz, sem ar.
Por que é que a escuridão que navegamos não é sempre vazia?
...reparadora e incubadora do futuro que precisamos, por nos repousar a alma, por poisarmos as dúvidas, as incertezas, os medos... por cegar a luz que fere.

quarta-feira, 4 de abril de 2018


[foto @tarasovm]

(...)
Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
o que sem voz me sai do coração.

David Mourão-Ferreira


Por dentro de ti a noite acende estrelas,
apaga a escuridão e galopa o silêncio,
para me chegarem as palavras
a que cheiram as tuas flores
e que a voz da minha ternura  diz
como se  entendesse
... e então percebi.
E responderam-se perguntas que não me ouviram fazer.

[o novo Misfit anda no carro, a embalar as paisagens que correm pelos olhos - não gosto nada da separação das baladas num Cd aparte, obriga a andar sempre o trocar de Cd conforme a paisagem do estado de espirito -, há três ou quatro músicas que gosto bastante, mas o Femina, para mim, é muito, muito, melhor, e muito mais o meu tipo de música... correu muitas paisagens e tantos mais estados de espírito, por muito tempo. E ainda lá anda. Tenho de o revisitar.]

terça-feira, 3 de abril de 2018

E estes campos - onde o sol se estende no chão e deixa ao céu cores anoitecidas - são os olhares que a manhã me deixa a marinar na retina da memória, e que pego agora para aqui deixar. As estações pintam as paisagens pela mão da cor e da textura, cíclica e perfeitamente, no seu tempo. Alternam a água que espelha o céu a perder de vista com as culturas altas que tapam os horizontes, como se fizéssemos a estrada entre muros, para, depois de cortados, se arrumarem enrolados pelos campos que descansam, dourados e secos, até o verde lhes dar de beber e os mini-sóis se estenderem a olhar o infinito. Já não me imagino sem fazer este caminho, estação a estação, cor a cor, dia a dia.
Bom dia!
[foto @moniblanco]

A fumar o último cigarro...a tentar não pensar em nada, só tentar que o tempo passe sem fazer muito barulho dentro. O dia passou-se bem, só agora me chegou a noite. Amanhã vai-me custar horrores levantar, já sei, mas de nada vale ficar debaixo de cobertores que não me acobertam do dia nem me aquecem do futuro frio. Pergunto-me por quê tanta complicação se tudo é tão simples e claro, ou sim, talvez por isso. Se calhar demasiada clareza turva. Realmente o que é óbvio às vezes custa tanto ver que não se vê, turva-se, curva-se e despista-se no caminho. Estatela-se quem não vê e vai morrendo devagar quem vê. Quem já viu. Eu já morri devagar e já me estatelei também, e no entanto, ando, caminho direita, por vezes liquefeita por trás da pele. Que não se note, que a voz não trema, que o passo seja seguro, que a certeza esteja amarrada num nó cego, que não vejo, mas sei. Não há melhor saber que sentir.
Nada mudou, não há novidades aqui, a sentença é conhecida há muito, há que cumprir o caminho, mais nada. Tenho as mãos vazias de vontades, as unhas já não esgravatam porquês, os braços já nao se estendem para agarrar a brisa que a pele ainda cheira, o olhar adormeceu brilhos antigos, os pés ganharam raízes e já não desesperam, não tenho de andar, o caminho, como que já feito debaixo de mim, come-me inteira devagar, e eu não mudo nada. Deixo-me, nem me mexo. Estou só de pé, à espera do dia que me há-de calar o tempo, mais nada. Até lá respiro, sorrio futuros passados e invento voos que não sabem rastejar - fumo um cigarro antes de dormir.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

[foto @jccabral_photography]

Ora então lá vamos nós para mais uma semana a batalhar. Nem sempre tudo corre sobre carris, mas a algum lado se há-de chegar,  ao nosso destino chegaremos sempre, seja ele qual for, anunciado ou não, por roteiro ou não, sendo levados ou optando numa qualquer altura por fazer o nosso próprio roteiro com o norte dos nossos pés. Pode não se chegar a lado nenhum, mas não há como nos livrarmos do caminho. E para quê?... se é a única coisa que se vive? o destino é a chegada, a chegada é o fim de linha... talvez a vida seja uma sucessão de linhas, de chegadas, de viagens, de encruzilhadas, de atrasos, de avarias, de novas direcções. Mas a chegada é sempre ponto de partida. A viagem é o ar que respiramos sem darmos conta.

sábado, 31 de março de 2018

[imagem @jesuso_ortiz]

Fazendo a primavera. Aos poucos fazendo bem-me-queres, pétala a pétala, sol a sol, num céu azul que mal quer aparecer, parece que brinca às escondidas como quem desfolha pétala a pétala: bem-me-quer-mal-me-quer-bem-me-quer... olha, se me deres um céu azul por dia dou-te margaridas, adoro e nunca te querem mal (mas, por via das dúvidas, não as desfolhes...).
Bom dia.

sexta-feira, 30 de março de 2018

Ahhhhh... isso explica muita coisa... 
assim já faz sentido o pessoal que se vê na noite
 que invariavelmente parece optar pelo álcool por companhia... 
faz sentido, sim senhor. 
Eheheh
... tenho de começar a ponderar essa via, 
talvez assim qualquer companhia pareça boa... quem sabe. 
Isso e parecerem mais lindos, bonitos e interessantes, como dizem,
com o avançar dos copos, quer-se dizer noite.
(as coisas que se aprendem, hein?)

quinta-feira, 29 de março de 2018

Ahahahahaha
Encontrei isto e desatei-me a rir... as coisas de que se lembram. 
Se algum dia me dissessem uma coisa destas, ou parecida, eu ia ter de me desatar a rir, não haveria como não. Depois, conforme de quem o ouvisse, e se o moço não gozasse da intimidade necessária e suficiente, responderia que realmente as capacidades ópticas do mocinho não andariam a permitir ver muito bem, mas que não seria comigo que passaria a ver melhor... agora ouvido da pessoa certa, era coisa para ter outra piada e não se esgotava na gargalhada ;)))

Bom dia

quarta-feira, 28 de março de 2018

... e é isto.
Bom dia!
Hoje a noite está fresca mas não está fria, não há vento e as estrelas hão-de brilhar igualmente límpidas no céu negro, para lá da névoa que agora as esconde. Vim fumar o último cigarro no degrau da varanda e penso como há coisas que nunca saberei, de que nunca terei resposta, e que hoje isso me inquieta menos. Talvez porque se acumulem ou talvez seja do tempo que se vai acumulando. Ou só do hábito, não sei. Tudo perguntas sem resposta, e as perguntas sem resposta devem ficar enterradas no passado, nos dias que já foram, porque nunca terão futuro, não há dia de amanhã para elas. É sempre hoje, é sempre agora para uma pergunta sem resposta. Essas perguntas deviam acabar, não num ponto de interrogação, mas com o ponto de interrogação. Como se este fosse o epitáfio dum pensamento que não pode ser continuado. Morriam com a sua expiação em palavras, davam o último suspiro e deixavam quem perguntou respirar um futuro limpo, quase sem memória. Quase.

terça-feira, 27 de março de 2018


Parem de me fazer cócegas!! 
[Fotografia de Andrea Zampatti ]

... falta aqui um espelho para ensaiar este passo...
[fotografia de Chris Martin]

...Ahahah muito boa!! E ela acreditou??? 
Ahahah pára, já não me consigo rir mais!!
[fotografia de Brian Valente]

Hum??? O quê? A sério? Não acredito... Páscoa já? 
Mas ainda ontem era Natal... 
ainda ando a digerir os doces e vão começar com os chocolates??
[fotografia de George Cathcart]

Bom dia!!
Boa maneira de começar o dia ;)

segunda-feira, 26 de março de 2018

[imagem Carlo Giambarresi]

Espreita o sonho em bicos dos pés, por cima da realidade, 
poisa os cotovelos no horizonte azul e come o sol com as mãos. 
O melhor da vida não tem etiqueta.
Bom dia!

domingo, 25 de março de 2018

[foto @quemejor3]

Primavera em tubos de ensaio - vamos ensaiar as cores no olhar? 
Experimentar nos gestos a leveza das nuvens claras de algodão? 
Pendurarmos os problemas por resolver em molas de cores de rebuçado, 
e sorrir a doçura dos primeiros dias de sol primaveril? 
Vamos esquecer a vida só um bocadinho para conseguir viver um tico? 

(tico - palavra catita que engraçou comigo, coisa dos dizeres alentejanos, onde me queria agora e mais depois. e às vezes tenho um tico de saudades das conversas com quem ma ensinou. tudo no meu alentejo me lembra essa doçura lânguida que me encanta.)

sábado, 24 de março de 2018

[foto @mara.paris]

Sussurras-me rente ao calor da pele - gosto, linda por dentro e por fora,
 lindona, sorriso lindo, beijo bom... e eu, 
eu oiço tudo o que não dizes. E não sei do que falas.

sexta-feira, 23 de março de 2018

[foto Chema Madoz]

[porque me faltam ainda os teus abraços impossíveis de serem mais genuínos, e porque não quero perder o que me fez crescer contigo. três anos. pensei levar-te flores, mas para quê se podemos conversar no silêncio de qualquer lado e as flores são coisas que já não vês, quero só partilhar o silêncio como quem conversa até o que não pode ser ouvido, dizer-te do medo que tenho que a minha filha não cresça contigo e te esqueça. Encontramo-nos na viagem do olhar pelos campos. como tantas vezes, em tantos dias, nos de sol e nos nebulosos. nos de chuva pequenina também,  como hoje. Ainda me ecoam as tuas palavras, sabes? " ela gosta, gosta muito de mim, trata-me com muito carinho" - dizias ao ocupante da cama vizinha... Sabias tu que as devias dizer? Percebi, naquele momento, que a língua universal do carinho chega a todos os mundos - até a esse teu, especial, diferente dos outros, onde eu não sabia entrar -  e que ele a percebeu tão antes de eu ter consciência dela... coisa incrível, de enorme generosidade, o dizê-lo, o senti-lo, o sabê-lo e fazê-lo saber. De repente falta-me o bocado maior que me construiu o carácter, o que me fez quem sou, o que me fez (talvez sem saber) aprender que a língua do carinho é a única que se percebe sem ter de se usar o entendimento. Quem me fez a vida de modo à vida me fazer assim.
Ele gostava de mim e eu não sabia. eu não era uma segunda mãe, quando a nossa mãe faltava - eu era eu. 
Deixei que o silêncio da eternidade guardasse o que nunca disse. Agora a língua do carinho não basta para me calar o silêncio que grita que agora é tarde. tão tarde. falta-me uma parte que me justifica. falta-me aquela pessoa também  para que me entendam inteira enquanto pessoa. falta-me aquela pessoa para eu ser a pessoa que ele me fez, também, ser. Falto-me mais uma vez.]

quinta-feira, 22 de março de 2018



As pessoas voltam sempre ao que verdadeiramente são, para o bem e para o mal. Por muito que tentem disfarçar, e eventualmente até consigam durante uns tempos, o que são volta-lhes sempre ao de cima. E ainda bem, de certa maneira, ainda bem. Quem não tem bom fundo, quem não é bem formado, nunca o será. Poderá adaptar-se, ou até tornar-se melhor, se a vida o obrigar a isso, mas nunca se afasta muito do seu próprio registo, da sua própria natureza, das suas fundações - a essência não muda. Quem não tem dignidade não a aprende, por muito que leia quem a tem, por muito que a tente representar; quem não tem ideias próprias copia as dos outros e chama-as de suas; quem não sabe pensar dedica-se a ler quem sabe (que já não é mau, convenhamos, e até é um elogio :) ) e a repetir o que lê, mas há coisas que por muito lidas que sejam não se aprendem, como há coisas que não se forçam, ainda que se disfarcem - ou tentem disfarçar - de espontâneas... Mas os disfarces cansam-se, e a natureza de cada um deixa-se sempre ver através de todas as máscaras.
Até no melhor teatro cai o pano...

E ainda bem.

E talvez, então, para o bem e para o mal, eu volte a ser o que já fui, ou que ainda serei debaixo de tantos anos, dias e noites que me asfixiam partes de mim que me faltam e que quero, e que quero dar a quem me faça bem e eu goste muito, estupidamente, também por isso, e isso seja deixar-me ser eu e não condescender à vida pelo meio caminho.



quarta-feira, 21 de março de 2018

... então é minha. 
Também é minha.
Preciso muito dela, para que os dias saiam do anonimato nebuloso do tempo.
Para que parem o tempo fazendo-lhe sentido, sentindo.
Preciso, mas nem sempre a encontro.
Às vezes ela encontra-me, pensa-me, respira-me, sorri-me.
Como se nessa distracção da vida, a vida me visse.
[foto @waynefisherphotography]

"Não, não é. O amor não é cego, nós é que somos cegos para ele. A gente olha e não vê. E, quando vê, já passou a ocasião. Tanto faz que seja, porque tivemos alguém que julgávamos que queríamos, como porque não tivemos quem só depois percebemos que afinal a gente queria. E o pior ainda não é isso. O pior é a gente, mais tarde, saber que nos era indiferente alguém que julgámos desejar muito."

Jorge de Sena, in Sinais de Fogo

[A multidão que aqui vejo, tanta gente que identifico e aqui cabe... só o verbo "ter" se desdobra e recurva para abarcar outros, como amar, adorar ou desejar... mas a essência do que é dito permanece imutável... Alguém que quis alguém que, quando teve, afinal já não queria, era tarde, e não, não "vale mais tarde, que nunca"... porque depois não vale nada. Porque depois a indiferença vale tudo, naquela altura em que daríamos tudo para, afinal, ter visto aquela pessoa que não percebemos a tempo que não podíamos perder e já perdemos. Tudo fora de tempo, tudo tarde, ou cedo demais.
O fogo cruzado dos amores com intensa falta de pontaria, que mata quase todos por lhes não acertar, e salva quase nenhuns dos que acerta.  E chegar ao fim e perceber que andámos sempre enganados, trocados, perdidos, num reconhecimento póstumo e impotente.
Andarei, também eu, perdida no que está diante dos meus olhos? ou terá o amor de morrer para que o saiba, nessa certeza fria e inerte,  por dentro das veias? ]