quinta-feira, 25 de janeiro de 2018


[foto @jeannoirphotography]

"Dentro de cinco minutos, acrescentou de súbito baixando o tom de voz - inclinara-se um pouco na direcção dele, com os cotovelos sobre a mesa e os dedos entrelaçados, olhando-o com desenvoltura -, quero que vamos até ao hotel, que faças amor comigo e que me chames de puta. Capisci?
(...) necessito com a máxima urgência que me abraces com uma violência razoável mas contundente e deixes em branco o conta quilômetros do meu cérebro. Ou que o partas. Tenho prazer em comunicar-te que és muito bonito, Faulques. E estou nesse ponto exacto em que uma francesa passaria a tratar-te por tu, uma suíça tentaria averiguar quantos cartões de crédito trazes na carteira e uma norte americana perguntaria se tens preservativo. De modo que- olhou para o relógio - vamos para o hotel, se não vês inconveniente.
(...) levantou-se para se aproximar da janela e, olhando para a fachada desguarnecida e escura de San Frediano in Cestello pronunciou as únicas dez palavras seguidas que Faulques ouviu naquela noite: já não há mulheres como a que eu queria ser."

Perez Reverte, in O Pintor de Batalhas


Sinto assim também - não há mulheres como a que eu queria ser, a não ser em livros ou filmes, fruto da imaginação de alguém, e também da minha. Um pouco como esta que aqui se lê - foi o que pensei quando li a frase que associa o seu estado de espírito a francesas, suíças e americanas... fez-me sorrir pela inteligência malandra, e pela maneira como francamente se diz indirectamente que se quer alguém com vontade, muita vontade sem vergonha de a ter. Quando o li pensei que gostava de ser um pouco esta mulher (ainda antes de ler a única frase completa que numa noite de amor ela proferiu), com presença de espírito, uma pitada de humor inteligente maravilhosamente encaixada, sem falsos pruridos, vergonhas hipócritas ou acanhamentos toscos, sem filtros e sem medo. Com a dose certa de segurança, independência e alguma doçura ao mesmo tempo. Doçura, ternura e meiguice, sem ter medo de ser, ou parecer, fraqueza - de pedir.
Há alturas em que chego a pensar que, por dentro, não estarei muito longe, mas falta-me um contraponto para descobrir tudo o que posso ser, para fazê-lo respirar e sentir-se. Para ser plenamente, afinal. E então percebo que estou longe. A mulher que queria ser não precisa de contraponto para saber que é - o que é-, sabe e ponto final. Falta-me também isso.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018


Verdade.
É também por isso que há más decisões. Se forem más por assentarem num suposto erro é porque talvez não o seja... o erro está, sim, muitas vezes, em não se assumir o que se quer, rotulando como erros sucessivos a nossa vontade indomável. E a vontade é sempre indomável, 
só as decisões se domesticam, e muitas vezes mal. É um erro.

terça-feira, 23 de janeiro de 2018




[fotografia roubada ao Impontual no seu jogo, aqui , que eu joguei assim (ou quase): ]


- Mas estás com pena? De quê? Penas temos muitas, é por isso que voamos. Aos outros as penas pregam ao chão, pesam-lhes, a nós fazem-nos rasar o céu e cheirar o azul.
- Pena? Não tenho pena, não, mas às vezes dizem-me (sem saber o que dizem..) que tenho pêlo na venta, como costumam dizer os que penas não têm mas também não voam... eu não tenho pena, tenho raiva, às vezes tenho muita raiva. 
- De quê? Nem dentes tens para rilhar a raiva como se quer... Vá não comeces, vais para a outra ponta da casa só para que te persiga, não é?... olha, a água em volta não te acalma? Olha, repara... Eu estou aqui, volto sempre, não volto? Se volto é porque quero, senão por que estaria aqui e não lá? Explicas-me?
- Voltas, voltas sempre aqui como voltas sempre ao sítio que te leva daqui. E usas as mesmas razões sob luzes diferentes. Sabes... mudas a plumagem sem te mudarem as penas... ou sem pena de virares casacas para nunca teres frio. Um dia estas águas calmas engolem-te e não haverá lado da casaca que te que te aqueça, nem luz que te salve o argumento... agora deixa-me que me crescem os dentes.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018


...ora então, bom dia!!!
De regresso à "lókura" do dia-a-dia, já com os olhos postos na sexta-feira e a língua, juntamente com os bofes, de fora, logo segunda-feira pela manhãzinha...
(... e as fotos que a minha filha descobre e me manda :D )

sábado, 20 de janeiro de 2018


Eheheh...
... o que se encontra por aqui :)))
[e se nós tugas achamos piada pela confusão que um "N" a mais ou a menos pode provocar,
 nuestros hermanos não andam muito longe disso
 (ou melhor desse teor, mas com outros contornos...)

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

O dia hoje começou há tanto tempo, que já não sei qual o dia que estou agora a acabar...

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018


Beijos divagando-nos devagar,
 tão vagarosamente leves, 
que o amor deixa de bater asas 
para nos pousar nos lábios 
momentos que nos falam amor 
eternamente.

terça-feira, 16 de janeiro de 2018


[foto @tarasovm]

Havia alguma coisa que queria muito dizer-lhe, ou perguntar-lhe, mas não sei sequer o quê. Havia só, quando vim embora, uma sensação de urgência que queimava. Perguntei-me o que lhe quereria dizer ou perguntar, e não achei resposta, só aquela sensação me corroía o por dentro. Como uma ferida que se quer pressionar ou uma impressão que se quer arranhar violentamente, quase de raiva, sei lá. Como se quisesse tirar qualquer coisa de dentro de mim, arrancá-la, mas não soubesse o quê, e nada me saísse - como um grito que a garganta não me cedeu, nem a voz condescendeu. Vim assim o caminho até casa, nesta loucura incógnita a que se procura o nome, a cara, o corpo para agarrar, mas onde se encontram apenas fantasmas. Talvez eu quisesse uma resposta qualquer, mas a que pergunta? Que resposta importante, verdadeiramente importante, me falta? Nenhuma. Talvez o meu desespero tenha sido esse. Não me falta saber nada. Falta-me dizê-lo. Gritá-lo.

gostar é estar junto
até quando não.

gostar é estar junto
nem que seja no passado,
o passado presente,
escondido debaixo da pele,
onde o sol não desbota
e a chuva não lava,
onde o fora não chega
e tu não sais.

gostar não é precisar,
é não precisar de gostar,
porque se gosta
sem saber precisar como
precisar é subserviente,
é utilidade.
gostar é selvagem,
serve-se a si próprio
e não serve para nada,
não é escravo de nada
senão de si mesmo

estar junto é gostar
sempre que sim.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

...está explicado, então...
... mas as perspectivas, assim sendo, não são nada animadoras para a "je" aqui...
bahhhhh...



O nevoeiro lá fora já tapa a torre. Cá dentro, só a luz de fora. 
Não há barulho, nem dentro nem fora, só um carro passa de quando em vez. E eu aqui, agora, sem saber se fumo mais um cigarro ou se deixo o silêncio arder na penumbra. Gosto desta luz, gosto desta sala, gosto deste cadeirão em frente à lareira apagada, ainda que goste mais quando está acesa, crepitante e ardente, ou depois, quando as chamas adormecem para nos oferecer o doce calor do braseiro, que se alonga noite dentro. A rua acomoda a luz alta dos candeeiros, logo aqui ao lado, do outro, as sombras nas paredes. As pernas esticadas apoiadas na parede como tantas vezes estiveram. O cansaço assoma-me o corpo mas não me adormece o espírito, que não se cala, no silêncio desta sala. Há tanta coisa por dizer, talvez por isso o silêncio seja tão precioso, para o manter por dizer, para o manter falado para dentro. Talvez o mau silêncio seja aquele que temos connosco. Quando nada temos a falar-nos por dentro não temos nada para guardar, nada ficou por dizer. Talvez o por dizer faça parte do nascimento do porvir que podemos gerar.
O nevoeiro lá fora tapa a torre, e a árvore do vizinho mal a vejo, adivinho-a só porque a sei, e ela aqui tão perto. Há coisas que só se vêem se se souberem, e depois de as saber vêem-se sempre, mesmo com nevoeiro - apesar do nevoeiro.

sábado, 13 de janeiro de 2018


A páginas tantas:
-mas eles têm de esforçar-se, dizer, mostrar que querem conhecer a pessoa!! - diz ela... pela décima vez, mas doutra maneira...
- mas o que é que tu queres? Que caia um moçoilo de pára-quedas na varanda e diga: olá, eu sou o Zé Carlos e estou aqui para te conhecer na intenção de bons compromissos futuros? - digo eu, já em desespero de causa...
...
Mais umas páginas folheadas de conversa e:

- quando dois tímidos se encontram (nestes termos em apreço) normalmente acabam os dois a olhar um para o outro de mãos nos bolsos, cheios de vontade de as tirar... - digo eu depois de uma conversa com uma garrafa quase vazia entre nós.
- é nessa altura que tem de entrar em acção a testosterona pahh!!! - diz ela em sua defesa e em defesa da iniciativa masculina.
- ... pois, mas ele é tímido e a testosterona também...

E assim se passa o tempo de tertúlia pós-jantar... valhamedeus para as conversas de gajas, a nós vale-nos (ao menos) umas boas e sonoras gargalhas como banda sonora para tanta parvoeira...

...
...meu doce vampiro.
Agora sim... o fim de dia a começar no sofá...

[desenho @virgola_ ]

Dias que me apetecem assim: de mim para mim, num dentro e fora dum livro, nas entrelinhas do acinzentado do dia, a desfiar calores ausentes. Com a bicha aos pés depois dum passeio pelos silêncios.
Apetece, mas primeiro trincar qualquer coisa que não palavras... mesmo que não apeteça.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018


[foto @nurukimondo1]

Hoje era daqueles dias, ou noites, que ficaria aqui a desenrolar pensamentos e palavras que não tenho tempo de pensar ou escrever. Apetecia-me conversar devagar, divagar com um copo de vinho a quatro mãos, uma conversa sem rumo traçado. Tenho a bicha aos pés a dormir, e a mim o sono ainda não me beliscou mesmo tendo dormido tão pouco, e estou aqui, no sofá, às escuras, só a luz do computador ilumina além da luz que entra pelas janelas, vinda do outro lado do mundo - o lado de fora. Estou cansada, mas hoje não estou derreada e apetecia-me descansar os dias numa conversa lenta, daquelas que se desenrolam bem à lareira e combinam com frio do lado de fora do vidro. 
Tenho tantas perguntas, tantas respostas guardadas no tempo e tanto tempo guardado por dentro. E esse para onde irá?
Vou continuar sempre assim, ou haverá um qualquer acaso na minha vida que me fará encontrar-me noutro olhar? E isso dar-me um novo mundo para olhar com os mesmos olhos? Não faço ideia do que me espera, tenho curiosidade e medo, sei que o tempo me dará as respostas que tiver, e as que não tiver far-me-à mudar as perguntas, ou matar-me antes. Depois penso no agora, no que penso, no que sinto, no que não quero sentir, no que não compreendo e nessas respostas que não tenho. Sei que me ponho a divagar e a rodar sobre mim mesma e o que vivi e o que me faltou viver - ou não faltou, só não vivi. Sei que me apetecia conversar e sentir um conforto qualquer, sei que me apeteciam uns olhos que me ouvissem com atenção e umas mãos que me falassem com carinho da doçura que lembro. Da ternura, do desejo inteiro, do sentir completo. Sei que me falta tudo, mas que tenho tudo o que preciso porque vivo, estou viva, mas não sinto. E penso que o que não se sente não existe, não para nós, não cá dentro. É como a luz que me entra na janela, vem de fora, se não a visse, se não a sentisse entrar-me nos olhos, para mim não existiria. Como não existe para um cego. E eu - agora, neste momento - existo para alguém? Agora, talvez só para esta bicha que tenho aos pés, ela sente-me porque se aninha no meu calor. Eu aninho-me ao ela precisar de mim. Preciso sempre que precisem de mim, senão parece que não me sinto existir. Como hoje. Como ontem, como há tanto tempo, e por quanto tempo? Só o tempo responderá... E o tempo que perguntas terá? E o sono quando me apagará as palavras que não saem do sítio, à volta sobre si mesmas e ao meu redor? Quero dormir, apagar a cabeça e esquecer. Esquecer que penso, esquecer que me apetecia conversar e que o vazio, às vezes, ainda me arranha a alma por dentro. Ela sente, mas já não grita. Só quer conversar, e que o passado corte rente as unhas e fale baixinho dos seus ruídos ensurdecedores. Quero descanso de mim e do tempo que me ignora, mas a que o mundo obedece cego, sem o ver passar. E eu, eu só o queria ver passar ao ritmo intemporal duma conversa sem tempo.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018


No idea...
... with lots of ideas to do in bed...
Dormir, ler, sonhar, fechar os olhos no calor do corpo, ronhar, ouvir a chuva da madrugada de ontem como se fosse agora, recordar palavras e sinfonias, escrever, deixar o tempo passar no sorriso que se enraíza e não se desfaz no matinal até ao fim do dia, e mais umas coisitas a inventar a gosto...
E eu aqui... Bahhhhhh...

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018


[vi este video há tempos e fiquei a pensar em como a tinta se dissolve sem haver volta, como inunda tudo, depois, com os pensamentos a vaguearem soltos por outras paragens, as imagens regressaram a mim e tudo se conjugou nisto que se segue]

Duas ou três gotas de tinta conseguem dar cor a um jarro inteiro de água, dissolvendo-se, alteram toda a água, espalham-se até não se separarem mais, num caminho sem volta. Tudo ganha a mesma tonalidade - dissolvem-se, rarefazem-se, mas tomam conta. Como algumas memórias se dissolvem nalguns dos meus dias, que de repente deixam de ser meus, são tomados de passados presentes.
O mesmo momento são vários momentos, conforme o bater de cada coração, conforme o respirar de cada alma. 
Para uns serão de pouco querer, de nenhuma vontade, resume-se tudo a sonhos de suposição, de brincar de faz-de-conta. Separam o tempo e o espaço e a vida, estanques, nunca chegaram a tingir o resto do tempo. 
Para outros, é aquilo que acontece, duas ou três gotas de amor tingem litros de sangue e tantos momentos, dissolvem-se, invadem-nos, não nos largam mais, não se volta atrás, não se tira essa tinta tonta do sangue, passa a fazer parte de nós. Basta que seja amor para tudo se alterar. Para sempre. Mas é preciso que seja amor, uma reacção que altere os dois elementos, por se integrarem, por se entregarem.
Depois há as purgas, as sangrias, as transfusões rápidas ou a suposta recuperação tão lenta que até o tempo parece esquecer de entregar... 

terça-feira, 9 de janeiro de 2018


... hoje pelo menos não digo asneiras nenhumas.
Estou afónica.
Espero que seja o fim da constipação, o acenar do adeus, silencioso.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018


Deixemos.
Os outros, os imaginativos, os criativos,
 interessantes já agora, se não for pedir demais (é que só mentirosos não vale): 
...aqui, aprocheguem-se faxafavor!!... podem fazer fila!!

Bom Dia!

domingo, 7 de janeiro de 2018



Acordo enrolada nos lençóis do amor que não tens, do amor que é teu, do amor que se te enroscava nas pernas enquanto o sono nos agarrava juntos, entrelaçados, da mão que deixavas poisada na minha pele, numa qualquer curva em que se aninhava o calor ou uma beleza que só tu vias, do amor que ouvias nos golfinhos em que o meu adormecer mergulhava e tu atentavas, dizias-me. acordo com a cabeça encaixada no teu peito, desencaixada do tempo que já não existe, dum amor que é teu e não tens, dum amor que se me alojou cá dentro e te desalojou a ti e aos vindouros. tu já não és o meu amor nem o meu amor és tu, mas o meu amor é teu e tu não o tens, respira mas não existe. como esse pedaço de peito que é meu, que me deste, que amo e não reclamo. esse peito que não guarda o meu amor que guardo no meu, num domingo de ronha que me acorda contigo dentro do nosso cheiro, enroscado na minha pele. e eu rio-me dentro dum sonho que não acorda.  nunca foi teu.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018




"Esse papo já tá qualquer coisa
Você já tá pra lá de Marraquexe 
Mexe qualquer coisa dentro, doida 
Já qualquer coisa doida dentro mexe"


... adoro este começo, acho delicioso, e as últimas linhas acabam como se recomeça... " 'pra lá de Teerã" numa conversa doida

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018


['Icarus had a sister' @cjmunn_artist]

A maior liberdade talvez seja a de não querer ninguém, não gostar ao ponto de o querer para um nós que queremos ser.
A melhor é talvez a que se vive presa a um amor que ama correspondido, que se escolhe amar sentindo não ter escolha. 

Penso e escrevo isto, e percebo que anseio pela primeira mas desejo a segunda....
Parece-me que há muito pouca gente livre neste mundo quotidiano de reflexos e miragens, de enganos e enganados.

Só é livre quem enfrenta o medo, ou por não ter nada a perder, ou por poder perder tudo.
E é aqui que me baralho, onde o fio lógico se embrulha sem lógica, onde o fim e o começo se embrulham no meio: eu tenho medo de perder tudo o que não tenho para perder. 

terça-feira, 2 de janeiro de 2018


... pois... 
Bom, talvez sejam menos de três meses... 
estamos no início do ano,
 ainda temos as esperanças e os optimismos estupidamente intactos... ;)

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

[foto @evapictory]

... já a ver 2017 por um canudo, 
ou a avistar 2018??
Humm?

Bom dia!

domingo, 31 de dezembro de 2017


[imagem @in_somnia_]

Bom Ano de 2018.

O meu desejo talvez seja apenas o de viver um ano que pudesse depois resumir nestas cores. Esta paz, esta doçura leve, esta simplicidade que alimenta o estar bem, o sentir bem.
Duvido, tenho mesmo a certeza, que não será assim, e talvez por isso estas imagens se tenham colado na retina dos desejos. Vai ser um ano duro, difícil, com decisões muito importantes, com consequências de grande mudança, o fantasma da incerteza a rondar todos os gestos, a responsabilidade se falhar, o ter de me confrontar comigo e com as capacidades que não tenho, o imenso trabalho para desbravar além de fazer. O sentir-me perdida e sozinha no meio de tudo. E preferir não ter a lucidez de antever tudo isto psra vivê-lo depois como uma segunda vez do que ainda não aconteceu. Enfim, tudo menos estas cores de harmonia com a vida, que se respiram profundas e descansadas, de bem com os dias... e amanhã, amanhã, bem vistas as coisas, é só mais um novo dia, como todos os outros que vivemos antes dele. Dividir o tempo não o renova, nem sequer verdadeiramente o diferencia, mas talvez dê a esperança que nasce quando algo muda... nem que seja um algarismo que conta o que não pára...

A todos um 2018 cheio de bons momentos, 
dos que fazem valer a pena tudo o resto. :))




É estúpido conseguir ver tanta beleza numa coisa sem beleza nenhuma... Chuva que escorre do lado de lá do vidro, e parecem-me, assim de repente, aos olhos desentendidos que uso para ver o mundo, luzes brilhantes a estalar a escuridão numa noite de fogo de artifício - como quem seduz o céu vestida de brilhantes, a entregar-se em movimentos lânguidos.
...e o meu olhar, de pensamento perdido na magia que se dá quando a luz, a tiritar de frio e bebida por uma mísera gota de chuva, se transforma em festa luzes. É magia, não? 
É mais importante o que reflectimos ou o que somos? 
O que reflectimos não é o que somos? 
E conseguiremos reflectir o que não somos? Assim, à transparência pura duma gota de água? 
A gota é só uma gota, ou uma festa de luzes por acontecer no acaso conjugado no futuro mais-que-perfeito duma noite escura?
Depois penso naquele verso dos campos de flores... que eu imaginava os meus próprios campos de flores. Lembrei-me de quando insinuavam, ou diziam mesmo, que eu era cega, que não via o que havia para ver. Talvez tivessem razão. Alguém mais vê fogo de artifício numa chuva de estrelas a escorrer pelo vidro da janela? Só porque chove, porque há luzes que os postes da rua expiram, porque se ouve a sinfonia da chuva que toca lá fora, sob a batuta agitada do vento tão inspirado? Só porque agora tudo me parece uma festa que se dá por dentro do meu silêncio de fora... Têm razão, vejo o que não há. Sinto belezas que não nasceram senão no meu olhar de silêncio. Olho para dentro do por fora despido, visto-o com o que vejo.

É por isso que o teu sítio é sozinha. Não cabem dois na tua maluqueira esquisita.


sábado, 30 de dezembro de 2017


...isto.
Poupar água.
... não beijos, carinho, tesão e ternura.

(pode acontecer não se poupar água,  
se o banho se prolongar mais que o dobro do tempo normal de um mortal tomar banho... 
convém ressalvar a bem do planeta, vá.)

Também podem fazer o balanço do ano de 2017, 
em que houve muita gente a meter água, garanto, e não a bem do planeta...

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

[foto @kat_in_nyc]

-como que um objectivo.

-objectivo?

-sim, objectivo, algo para não andar só a empurrar a vida com a barriga.

-uma vontade, um querer?

-não, uma razão.

(pena, preferia que fosse um querer, preferia que fosse "a" tua vontade, pensa)
- vontade é motor, é vida, é força, é o que separa a existência duma vida bem espremida. Objectivo é só o ponto último duma qualquer estratégia a planar num papel que nem nos comprometemos a escrever. É a última estação do comboio que queremos apanhar. Objectivo é razão, é um ponto cardeal sem devoção, não é paixão que condimente amor, não é trincar o fruto com casca e sentir o sumo escorrer pelas bordas dos dias, não é - de certeza - faltar-te o dia seguinte pela ausência de quem te faria o dia toda a vida.

-é uma direcção por onde se caminha para chegar onde queremos, é querer, ora! É vontade também. Que teimosia!

-se fosse vontade, a direcção do caminho era aberto com ganas de catana em floresta virgem. Querer como quem quer a escuridão da noite e se senta à espera dela, não é ter vontade de nada, é gostar que a noite venha e esperar que não se atrase muito. Mas se atrasar vivemos com o dia que temos... paciência...

-tu não queres perceber pois não?

-quero pois, mas sabes, falta-me a vontade...


[foto @gregbionde]

Tenho sono, estou cansada, chateada. Demasiada realidade nos meus dias. Tudo parece irritar-me ou entediar-me. Demasiado chão nesta vida, quero asas de sonho e caíram-me as penas todas, tento abrir asas e caem-me como cabelos a mãos cheias. Mas em vez de cabelos, são penas, sonhos mortos. Pena de a vida me dar chão para rastejar quando o coração tem asas que murcharam. O tempo não rega e os dias secam-me a cada noite. E eu tenho pena. Muita pena. De tanta realidade das mãos enterradas na vida pelas raízes que não se movem.
Estou cansada, não o digo queixando-me, só constatando.
Precisava de colo cheio de mimo e amor, daquele que aconchega, daquele silêncio que entrelaça almas no escuro e que reconforta, mas coisas tão doces e ternas nao pertencem à realidade. Tenho pena. Teria ainda mais se tivesse sido real, mas é vontade escrita a duas mãos, sob o bater de um coração. 
Precisava de dormir uma vida inteira para acordar noutra. Não é possível, há demasiada realidade à minha volta, impregnada no meu olhar, entranhada nas minhas mãos vazias, mergulhada no bater inerte do meu coração.

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Há uma qualquer reacção química na felicidade que se esqueceu de passar, que faz abrir portas que a lúcida razão trancou em nós a sete chaves. Nenhuma das sete sabe da química mestra, aquela que as inutiliza, despreza e dissolve, com a mesma certeza que faria esgueirar-se a água que queremos trancada num cubo de gelo numa mão fechada, ou roubar os beijos que o tempo guardou quentes.
Como trancar o que não conhece portas ou fechaduras? O que é livre e não se controla, o que não se contém em paredes, portas ou razões? 
Para quê agarrarmo-nos a chaves que nada fecham?
Ilusão de segurança numa fechadura que nem se espreita.
O que guarda invade-nos, simplesmente. Ocupa o espaço que somos. Tranca-se cá dentro, por dentro.

domingo, 24 de dezembro de 2017

[foto @sirisandra]

O Natal traz as reminiscências da infância, onde a vida ainda tinha um sentido que se fazia olhando para cima. Agora o Natal lembra-me que não sei como esqueci tudo isso, e o sentido se perdeu de mim, como a infância, suponho. Como suponho que seria esperado perder essas coisas para encontrar, descobrir outras, e não descobri nada que me confortasse como dantes o cheiro das rabanadas. Cheiro-as ainda, feitas pela minha mãe, ainda, mas já não cheira ao mesmo, a magia desapareceu. Tento desencantá-la no fundo encantado dos olhos da minha filha e não a vejo lá. Talvez lhe tenha incutido demasiada realidade para que ela tenha um dia cheirado a magia do Natal, será? - e as perguntas, como sempre, surpreendem-me os pensamentos -  e será que a magia se pode aprender? e se pudesse eu queria? não sei. A magia é talvez só um erro de perspectiva... Não sei a resposta a tantas das minhas perguntas... Sei que um jantar onde os pratos na mesa se reduzem, as cadeiras vazias aumentam roubando cada vez mais espaço ao calor, e a alegria é uma música que não se ouve, é um Natal que sendo o nosso, já não o é.  Não era assim. Alguém me dizia no outro dia que uns queixam-se de ter família grande e ser uma confusão, outros têm pena, acham triste, que sendo poucos, o tempo vai aumentando as ausências e sente-se mais serem poucos e cada vez menos. Mas o Natal como tudo na vida é o que somos e o que temos. Cada vez ligo menos ao Natal, este ano nem a casa enfeitei, não tive pachorra, não me apeteceu. Acredito tanto no Pai Natal como na humanidade, e a magia da infância roubaram-ma os anos e a vida. Resta um dia como os outros, mas de que se espera mais. Só isso.
A todos os que me lêem com carinho, desejo uma mesa cheia de risos e cumplicidades, doces bastantes a enfeitá-la, alguns minorcas a correr à volta, e a bondade sabedora e protectora dos olhos dos mais velhos. Desejo-vos um Natal doce de afectos e presenças, de esperança e magia, em que a magia maior é, talvez, não deixarmos que a roubem de nós, como a infância. E isso não ser uma perspectiva, nem um erro.
Uma noite plena a todos vós.

sábado, 23 de dezembro de 2017

[foto @pancrazi]

Um dá sombra,
o outro é sombra do que dá luz.
Parecidos, assim, sem terem como.

Bom dia!

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017


Há um hiato profundo na superficialidade da pele,
 onde se escondem os dias de que não se sabe.
Só a pele sabe.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017


Na hora de todos os cansaços, a alma descansa outra vez o olhar na força incansável do mar, talvez sonhe o dia em que uma maré nos trará um marinheiro que nos torne outra vez mar navegável, 
que fará do nosso olhar velas que enfunam a força da vida e a nossa boca a escolhida para seu porto seguro. Sempre. Nesse dia, com os pés do coração enterrados à beira-mar, deixaremos de esperar o tempo.
O vento que passa silencioso, de olhos risonhos miudinhos, sussurra-me num arrepio salpicado de sal..."mas o coração tem pés?" - pergunta-me endiabrado. E eu sorrio enquanto, em silêncio, lhe mostro que o coração tem o corpo todo. Ele sorri-me nas ondas que me rebentam quase aos pés, no coração.



... há aquelas que também fazem cafuné, 
e há aquelas só para o que é...
Depois há os casos em que se aconchega tudo isso, e mais, em intimidade, esses tornam-se fantasmas que moram na nossa sombra, nos nossos passos, nos nossos dedos, na ondulação do nosso respirar. 

... e eu que nunca fui de adiantar nada, se calhar devia aprender.

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Sentada sozinha em frente ao mar, de gorro e cachecol, a ouvir o marulhar da imensidão. 
Começar o dia com um funeral, que tendo distância bastante não nos mexer, me faz lembrar fins, que há coisas que têm de acabar - na verdade, que todas as coisas acabam. Sento-me aqui e reparo no céu, com uma linha interrompida, que se calhar são duas, mas que a mim me lembrou logo das coisas que, a espaços se continuam, que regressam, e penso que se há sempre regresso, será que terá havido realmente partida? Ou melhor, fim?  Eu não sei responder, e ninguém me responde.

O primeiro post na maquineta nova. Aqui escreve-se com mais largueza que no telefone, mas é menos tu cá-tu lá. Este post costumeiro da noite, o último que despede o dia, e que não tem acontecido tanto ultimamente, acontece sempre com pouca luz, com o silêncio a bordar a escuridão com palavras por dizer. As palavras mais trancadas navegam-nos melhor na escuridão, soltam-nos a alma e encurtam a rédea da razão.  Estava aqui sentada no sofá, com o silêncio ao colo e a pensar que certas palavras, certas memórias, certos incertos desejos, combinam melhor com a distância a acabar no telefone pequeno que a mão segura perto... dizem o silêncio mais dentro, calando-o. 

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017


Porque é o que me apetece cantar e espantar e rir... 

...ontem foi o dia de virar a página de uma década e entrar noutra... e uma vez entrada nos "entas" não mais se sai... e sabem que mais... Mahna Mahna!!

E o dia foi bom,  a começar logo noite dentro, madurada fora. Temos de aproveitar todas as oportunidades para estar com quem gostamos e juntá-los todos à nossa volta o mais que pudermos. Alguns já não podemos trazer, ainda que não nos deixem o por dentro da vida que se sente, por isso, é juntar os que podemos, mimá-los o mais que pudermos, e deixarmo-nos mimar também... Então, com uma certa magia, a vida faz sentido.... Mahna Mahna!!

"-The question is what is Mahna Mahna?
-...the question is... Who cares???"

Tenham um bom dia!!

sábado, 16 de dezembro de 2017

[foto @lunaa80]

"Bom dia, amor"
Lembrava-se bem da manhã que acordou para aquela mensagem, e de como, logo,  o dia deixou de existir, como o mundo desapareceu, sugado por aquelas parcas letras. Há momentos de felicidade de uma tal violência, por coisas de quase nada, que têm o dom de dizimar tudo ao seu redor, de suspender o tempo, de apagar o resto, e na altura tudo é resto, só se respira o essencial, o que se sente de dentro abarcar tudo por fora. Ela sabia que naquele quarto de hotel, sozinha, ninguém a via, mas estava certa que se a tivessem visto, naquele preciso momento, os outros a achariam outra, tal a luz que parecia inconter, o sorriso de plenitude que lhe tomava as feições, a pele, o olhar.  Daqueles raros momentos em que a pele é alma, o de fora é o de dentro, em que não nos conseguimos esconder, somos inteiros por distracção, por surpresa, por sermos tomados, açambarcados pelo momento. Aquele, que depois parece não ter existido, quando as rodas do mundo, de repente, voltam a acordar e a girar o quotidiano. O que fica a memória guarda, e brinca connosco.
Ela mandou a mesma mensagem. Percebeu que há mundos que não param à nossa passagem, às nossas palavras, a nós. Que as coisas se sentem de modo tão diferente, ou não se sentem sequer, talvez. Que há almas que não carregam a plenitude inexistente de sorrisos que ficam por acontecer. A resposta vem de longe, duma distância que, como uma vez lhe havia dito, não se mede em quilómetros mas em saudades. Quando há saudades a distância é sempre demais, quando não há, a proximidade esqueceu-se de ser perto.
Há momentos em que percebemos o inacreditável e extraordinário - e ridículo, tão tremendamente ridículo - que é, para algumas pessoas, um momento de quase nada ser um tudo que se prolonga para quase sempre. Sim, um dia será quase sempre, a substituir o sempre do enquanto.
[imagem @jean_jullien]

A maçã despe-se, 
serpenteadamente, 
numa tentação
 vestida de olhares 
que nos engolem de feitiço.

[e como dizia Wilde, a melhor maneira de nos livrarmos duma tentação é ceder-lhe - que é, para mim, sinto-me tentada a dizer, das melhores frases sobre o tema...]

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017



[foto @harisnukem]

Amar-te dá-me asas cinzeladas de infinito. 
Encaixotas-me o céu num ínfimo finito respirável, 
que abres só quando se esgotam das tuas mãos todos os tons de azul.
Um dia faço da minha boca noite cerrada,
fecho o infinito por dentro.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017


... hummm
... desceu para os pés? 
Ou subiu para as mãos?
 Não sei bem... é uma fase. 
Chama-se Inverno.
(...do nosso descontentamento??...)

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Acabei há tempos (mais) um livro do Rentes de Carvalho, que gosto, este, o seu primeiro romance: "Montedor". A essência do comportamento daquela personagem traz-me à pele cheiros de um passado que se me entranhou. Alguém que deixa a vida ao deus-dará (empurrando com a barriga, como ele dizia), que diz que não-que não-que não!!, mas depois faz sim-sim-sim!.. e desculpa-se com os contextos, intervalados com a lucidez do que não podem desculpar. Infeliz a vida toda, acomodado naquela felicidade pastosa de se obrigar a fazer o que os outros tanto insistem, e aí, assim, se desculpar do que foi feito - porque foi obrigado, foi obrigação. Na verdade sempre achei que houvesse gente assim por não haver uma razão forte, irrecusável e inadiável para agarrar a felicidade que se diz sonhar, e a lutar sem dúvidas por ela. Mas como bem se diz, em página que dobrei no canto:

"o meu desejo era encontrar alguém, mudar de ideias, porque todo este dinheiro me pesa. Sem coragem de decidir. É bonito ficar a gente a moer ilusões, outra coisa é arriscar, dar o passo em frente. Nada mais fácil do que entrar numa loja, comprar o preciso e seguir para Lisboa. Não era lá que me parecera melhor?" 

Extraordinário. Tinha decidido, fez até o que não devia em nome do que dizia querer, e depois quase implora por alguém, que por alguma razão, lhe mude as ideias, lhe impeça o plano. Auto-sabota-se a cada vez. Não quer nada com ganas, empastela-se e desiste-se, sem nunca desistir de continuar a fabular sonhos. Não toma para si a opção de optar, como se soubesse que nunca seriam as suas mãos a mudar nada, mas a própria vida a tecer a sua teia, essa rede onde ele se quer deixar prender e desculpar - como for, ao que for, desde que não haja rupturas, mudanças bruscas, opções assumidas e consequências por que temos de nos responsabilizar. Como as eternas crianças a quem se escolhe a roupa do dia e o caminho a tomar.

"Não caso, não caso" 

... e casou, e foi, e fez, e fez toda a gente infeliz à sua volta. Nunca fez nada por si, sucumbindo (por não se lhes opor com algo mais que palavras e pensamentos que se diluem constantemente) sempre à vontade dos outros, que depois, na verdade, não lhes concede mostrando-se sempre contrariado. 
O que podia ter mudado tudo - aquele momento em que podia finalmente descansar, por tentar encontrar no que não quis o que afinal sempre procurou -, a pergunta à mulher que tinha engravidado, mas com quem não queria casar:

 "tu gostas de mim?" 

Pergunta tão simples e tão imensa. A resposta, que lhe carimba o destino, é resultado de tudo o que fez até ali e dali colhe: 

"não é por gostar, não! Mas ao menos não precisas de me enganar, ir por aí com alguma!"

Não sei se a resposta fosse a oposta, mas não sentida como verdadeira, não seria o mesmo, ele sente-se sozinho, incompreendido, sente-se um ninguém - e principalmente, a esta altura, não amado. Com isto a última réstia desfaz-se, o coração parece secar, aloja-se a sensação de ser um joguete, aceita não dispor de si mesmo como a uma culpa  sem razão.

"mas faltava-me o norte, um interesse, carregado de uma culpa que me não explicava, um remorso, o sentimento de ser joguete, brinquedo, Zé-ninguém." 

Ele será sempre infeliz, cumprindo o destino, afinal, de se tornar igual ao pai. Paira, aliás, no ar a ideia - e penso que o livro é feito propositadamente no sentido de dar essa sensação - de que ele nasceu sob as mesmas circunstâncias que a sua filha. E o seu casamento será igual ao dos seus pais. Os ciclos vencem a vida, e a nossa vida é um único ciclo. 
Sempre achei que se estas pessoas encontrassem "um norte, um interesse", um amor (acrescento aqui), fariam pela vida e quebrariam o ciclo de vidas mal vividas, de fantoches que se obrigam a ser fantoches para não fazerem uma ruptura da fantochada. E depois disso, desse renascer, debaixo desse carnaval despido, serem de facto alguém e saberem-no - saberem-no é a única e fundamental diferença que muda todo o olhar sobre o mundo, sobre quem somos e podemos ser. Na verdade, ainda acredito nisso, mas no livro ele não encontra. Ou quero acreditar que foi isso. A alternativa é que talvez estas pessoas nunca amem, amar é uma coisa que se sente e tem de se assumir. Estes espécimes nunca assumem nada, por isso talvez sejam incapazes de amar.

Amar é uma escolha que assumimos. Ou não.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017



Não sou uma mulher, 
sou muitas mulheres. 
Diferentes, 
iguais em mim. 
Sou cada uma delas 
e não me esgoto em nenhuma, 
faço-me inteira, apenas, em sê-las, 
cada uma no seu tempo de ser. 
Todas são tuas, 
não porque tas deixe tê-las tendo-me, 
mas porque te querem pertencer 
sem eu deixar.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

[foto @pancrazi]

Quantas vezes são as sombras que contam a história, são a história. 
A luz só parece servir para as sombras sobressaírem, serem.  A luz relegada a cenário onde as sombras são a cena que abafa o palco e o tempo, que os reduz a mero contexto, a quotidiano liso. É a sombra que nos come o olhar e serve a imaginação, o sonho, o que somos pelo que queremos ser. Somos sempre sombras do que quereríamos ser, e é nessas sombras que escondemos quem mais somos, e não chegamos a ser.
É nas sombras que até o sol se esconde, com os seus segredos.
É nas sombras que o calor se esconde, mas onde se passa muito frio.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017


... é isto.
(mas mulheres também, e nunca se teima sozinho, há que não esquecer...)

Boa noite

quinta-feira, 30 de novembro de 2017


... e cai já amanhã!!
O meu mês, o mês que adoro por tantas razões e que me entristece na exacta medida do avesso dessas mesmas razões. Os meus anos, o natal, a passagem de ano - o tríptico que é tridente a espetar a alma sem pudores morais ou outros. Quando será que a vida desaguça, faz rombos, os dentes e amolece as garras? 

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

[foto @kat_in_nyc]

Olho a tela em branco e penso em tudo que está por dizer. Bebo o café a pequenos tragos, amargos, como grandes silêncios que tive de engolir. Não sei se agora o que está por dizer é mais ou é menos do que aquela névoa que nos envolve e rouba o norte nos grandes silêncios, onde aprendemos a falar sozinhos, a ter de esquecer o que ficou por dizer para não nos apodrecermos junto com todas as palavras não ditas que, trancadas, nos gritam na solidão esgaçada dos dias. O tempo vai tirando palavras ao vazio, sem que o vazio mude de tamanho ou de tonelada. Vão caindo, devagar e sem estrondo, no passado que não queremos mais. Ganham lugar outras, que se nos enredam na voz que não sabe dizer o que tanto quer dizer, e se emudece, envergonhada da sua vergonha. Com medo do seu medo.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

[imagem @radioshead]

Deu-lhe na mona e enfiou um doce naquele meio sorriso que  diziam não ser carne nem peixe...
Bom dia!

sábado, 25 de novembro de 2017




[foto @bird.ee]

Aqui o mar é sono perpétuo, câmara para o mais terrível segredo.
Entro nele de mãos trémulas, certo das minhas cedências.
Recordo o sabor salino de outras perdas, casas tombadas das quais sou solidária ruína.

Vasco Gato


[Sou solidária ruína de sombra.
É na sombra que se procura o sono que descansa,
é nas ruínas do tempo que se bebe a eternidade, 
que concedemos termos cedido.
Talvez de menos, talvez de mais. ]

sexta-feira, 24 de novembro de 2017


[foto @stevemccurryofficial]

Há olhares alvoroçados de vida guardada por viver, 
e há olhares de alvoroço de vida vivida que transborda.






-museus e museus cheios de obras de arte, e a maior beleza está aqui mesmo, ao meu lado, no que vejo nesses olhos que me olham...
E eu penso que bonito é ouvir uma coisa destas, assim sem aviso, em resposta aquela feminina pergunta, que rompe o silêncio mútuo ainda que não mudo, sobre o que está a pensar a criatura em que encostámos a cabeça, mas calo-me respondendo:
-é isso que as obras de arte tentam reproduzir, essa beleza, que por alguma razão, nos encanta e toca... (No caso dá jeito se for cegueta e tonto, e que deus assim o conserve...amén)

quinta-feira, 23 de novembro de 2017


Quando mais nada resistir que valha
a pena de viver e a dor de amar
e quando nada mais interessar
(nem o torpor do sono que se espalha).
Quando, pelo desuso da navalha
a barba livremente caminhar
e até Deus em silêncio se afastar
deixando-te sozinho na batalha
e arquitectar na sombra a despedida
do mundo que te foi contraditório,
lembra-te que afinal te resta a vida
com tudo que é solvente e provisório
e de que ainda tens uma saída:
entrar no acaso e amar o transitório.

Carlos Pena Filho

[amar o transitório, 
e dar-se o acaso,
 do caso ser eterno,
acusa uma contradição
 sem direito a contraditório]