quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018


[imagem de Chema Madoz,

Se nos teus olhos bordejasse a linha do horizonte quando me vês, 
pegava nela e cosia-te o olhar ao meu coração.
Não precisaria de coser nuvens de algodão aos meus sonhos 
para que não chovam lágrimas que me queimem o amor.



[foto @gregbionde]

O que eu gosto, o que me encanta, o que me incendeia e arrebata, é essa força da onda movida por dezenas de cavalos selvagens galopantes, que quando arrancam já razão nenhuma os pára - não importa a roupa, não importa o sítio nem a hora, tudo passa a cenário, e a cena é o palco principal donde não se tiram os sentidos, onde nenhum sentido se distrai e a razão é a única traída. Chamem-lhe tesão, chamem-lhe desejo, chamem-lhe loucura, que rótulos há muitos e de nada servem, eu só sei que esta onda que me arrasta do mais fundo de mim para o mais fundo deste sentir, desta coisa, deste furacão indomável que nasce na brisa do seu primeiro toque e acaba com o coração galopante, devastado de prazer mas de alma descansada, como quem cumpriu a razão da sua existência. O instinto da alma, a essência da alma, é amar - há uma sensação de chegada, de finalmente ser inteira de alma até aos ossos. E até os ossos serem alma.
E é isto que me fica, que se guarda cá dentro para sair em palavras que me tiram o sufoco do peito. É isto que me vai às raízes dar de beber, que me acorda a seiva da vida nas veias, no respirar, no brilho que estende o olhar, e que agora, aqui, me saiu de rajada. E há um prazer e uma enorme tristeza nisso, nem tudo é igual, por mais sorridentes que alguns olhos me olhem e se mostrem ponte para alguma coisa, nem tudo me serve à exacta medida da alma, do ritmo galopante do coração que deseja, mas isso será sempre a minha tristeza. O estar provavelmente condenada a ficar contigo até ao fim, sem ti. Em ti, mas noutro.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

[foto @eternal_noir]

Não me digas a que vens
Deixa-me adivinhar pelo pó nos teus cabelos
que vento te mandou.

É longe a tua casa?
Dou-te a minha:
leio nos teus olhos o cansaço do dia que te venceu;
e, no teu rosto, as sombras contam-me o resto da viagem.

Anda,

vem repousar os martírios da estrada
nas curvas do meu corpo — é um
destino sem dor e sem memória. Tens

sede? Sobra da tarde apenas uma
fatia de laranja — morde-a na minha
boca sem pedires. Não, não me digas
quem és nem ao que vens.
Decido eu


Maria do Rosário Pedreira




[não me digas ao que vens, que não te creio.
Não me digas quem és, se te sei.
Sei-te e não te creio quando creio que te sei.
Não sei se te sabes se não me crês.
E não nos crês quando nos sabes.
Sabes que nos queremos.
E no entanto não queres crer.]


Esquece-te. Esquece-te da vida que tiveste. Esquece-te do amor que sentiste. Esquece-te de cada sonho desfeito. Esquece-te que te esfarelaram o verbo amar e, em troca, te muniram de descrença para esgrimir os verbos de cada dia. Esquece-te de tudo, para que, um dia sem saberes como, possas aprender tudo de novo como se nunca tivesses esquecido nada. Como se nunca tivesse havido nada que pudesse não ser esquecido para lembrar. 
Esquece. Para que em ti possa nascer essa morte fecunda.

Poiso aqui estas letras e parte de mim já morreu, enterrada com estas palavras neste sítio sem chão, onde hão-de florescer os meus pés.


[de como o olhar gelado dos campos aquecem as palavras que se nos derretem nos dedos]

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018


[imagem @alexandradillonartist]

... acordar de cabelos em pé!!... E depois perceber - ao som de uma boa música e com os campos, vestidos de frio solarengo, percorridos pelo olhar atrás duns óculos escuros - que uma força misteriosa nos planta um sorriso que nos aflora os lábios, porque não, não temos vocação para piaçaba da vida, e a sensação de dia de m&€@# esvai-se por entre os dedos da paisagem que a música dedilha aos nossos olhos.  Aumentamos o volume e o pé direito obedece ao mote. O dia rebela-se e revela-se.

domingo, 4 de fevereiro de 2018



... venci a preguiça. Acendi a lareira. 
Tão bom... 
Não há nada como ler  sob o embalo crepitante do fogo que arde. Às vezes por dentro. 
Muitas.

(bom, na verdade, há - conversar perto, noite fora, sentidos adentro... 
...de preferência partilhando um copo de bom tinto...)



... todos os dias são Domingo.
Mas o Domingo é mais.
O amor seria o mesmo de sempre, só com menos mundo, mais ronha, mais preguiça, mais calor, mais corpo no corpos - mais beijo nos beijos. Mais alma no sorriso, mais sorrisos na alma.
Tempo de estar e ser junto, tão bem, que faz o tempo curvar-se, e para sempre deixar de ser tempo.

sábado, 3 de fevereiro de 2018


[foto @benedettodemaio]

"Navegar é preciso, viver não é preciso"

Principalmente ao fim‑de‑semana, principalmente entre os teus cabelos, e sonhos e vontades e ondas que não sabemos nadar. Mas olhamos, como se soubéssemos. O medo só chegaria se sequer molhássemos os pés, se aos pés aflorasse essa brava intenção.. Até lá sonhar é seguro e ninguém te segura. Inseguro é lutar e tentar e entrar no mar. E, às vezes, não saber voltar.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Um dos meus sete pecados mortais: 
a sede de amor absoluto que me devora. 

Miguel Torga

[Eu, pecadora, me confesso,
que desta água bebi e beberei
e dessa mesma sede morrerei.
Ámen]

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018


[fotografia Nadine Abdel Aziz]

Em modo vampiresco logo pela manhãzinha. À espera que me tirem sangue. E o vampiro é uma vampira, afinal. Nem nisso tenho sorte pah...
Não sei há quantos anos não faço análises, provavelmente desde que tive a minha filha, ou seja, para aí uns dez anos, tal é esta coisa de gostar de médicos e afins... e nos últimos cinco anos fartei-me deles, e de hospitais, daquele cheiro asséptico que perfura as as narinas e se aloja na alma em medos tantos. Fartei-me de desgraças e doenças. E de morte, de mortes. Esgotei-me delas, esgotei-me nelas e nas ausências sem vazio. Se não me dói nada para quê médicos? Para encontrarem alguma coisa que não me dói mas que depois me leva a paz? E eu agora aqui, assim, em modos de tenho medo e não sei de quê. Ou sei. 
[foto @ rafafans]

"A maioria da gente é outra gente.
Os seus pensamentos são as opiniões alheias,
suas vidas uma imitação, suas paixões uma imitação."

Ela tem, desde sempre, um aguçado instinto de sobrevivência, sabe o que quer, como quer. O que ela faz com alma é fingir o que não é, isso brota-lhe das entranhas como a lava fervente dum vulcão em erupção. Só essa força é genuína, é real, é quente, é viva - tudo resto é uma máscara fria, calculada, desalmada. Até o calor, que se quer humano, é mero teatro, até o beijo é encenado, até o amor é só uma história lamechas que não entende, mas imita. Imita, imita até à exaustão, a lamechice. Onde ela põe a alma toda é na representação calculada do que nunca será a quente, do que nunca foi, ou será, sem máscara. Do que não é. Talvez gostasse de ser, talvez inveje quem é, mas ela não o é. Nunca será. Então observa, copia, imita.
Não sabe ser senão o horizonte onde quer chegar, como quer que a vejam, a admirem. O horizonte, aquela linha imaginária que é só distância e à distância, perto não é nada, sequer é linha ou horizonte, é apenas chão rasteiro que se deixa pisar.
Os olhos faíscam-lhe de gáudio enquanto julga pisar aqueles que um dia ousaram olhá-la de frente - ousadia com que nunca olha o espelho -, apenas para vê-la baixar os olhos, temerosos do confronto com o que nunca será. O riso queima apenas de escárnio - de longe, só de longe, que a cobardia ronda sempre perto -, sentindo-se maior, poderosa, insuflada; o fogo está-lhe nos pés quando, espezinhando quem pensa não conseguir igualar, os faz de atalhos dos seus desígnios, sem olhar a meios ou princípios, pois ela é uma mulher de fins numa dança pretensamente graciosa, mas apenas pretensiosa. Há quem, de olhos desavisados, se desfaça em elogios, uns enganados, outros ocos e tantos apenas encenados também, numa imitação de admiração.
Ela só finge com alma e dedicação o que na alma não tem. Finge a alma que não tem, e é a única coisa que genuinamente sabe fazer: fingir, imitar, repetir o alheio, copiar. Ela não é o caminho, é a força de chegar, não importa como. E chega vazia, como nunca deixou de ser. Mas aplaudida, tantas vezes.

[Wilde e as suas frases fabulosas e intemporais...]

terça-feira, 30 de janeiro de 2018




Triptico de regresso a casa... não conhecia os primeiros, gostei, vou pesquisar. A sonoridade dos segundos encaixa bem com os meus finais de dia, mas já era conhecida. E a última, além de me ter encantado pelo nome que se derrete na boca, embala-me as ideias no caminho... deixei o video porque adorei o filme (bom, e porque tem a Monica Belucci, que cá por coisas minhas me faz lembrar coisas que me fazem sorrir..)

[imagem @33thirdmedia]

Ao ver esta imagem lembrei-me da frase:
 "Proibida a entrada a quem não andar espantado de existir"
 ( de José Gomes Ferreira),
 e de repente fiquei com muita pena de eu não ter um muro visível ao meu redor, onde pudesse escrever tal espanto de frase... evitar-se-iam tantos dias poucochinhos e gente rasa, que com o espelho de água oculta a falta de profundidade e de tanta coisa que preciso. 
Todos devíamos trazer uma frase pintada num muro que nos rodeasse... pergunto-me que frases leria por aí, e que muros teria vontade de trepar depois de ler...

Bom Dia!!
[foto @gregbionde]

Deixa que os meus olhos se fechem
E confiem um minuto nos teus
Olha por mim, protege o meu sonho
Vigia o meu descanso e afasta-me de todas as mágoas
Com os teus beijos apaga as lágrimas que correm pelo
meu rosto
Envolve-me nos teus braços e, cuida de mim
Preciso do teu apoio, do teu abraço, do teu sentido
Deixa-me descansar e,
Adormecer no teu peito
Deixa que os meus olhos durmam
nos teus...
Deixa-me sonhar
Deixa que sonhe com a tua boca
Com as tuas mãos, com os teu beijos,
Com teu corpo na minha pele
Com o teu calor a queimar-me por dentro
Com tudo o que quero de ti
Deixa que os meus olhos despertem
com o sol a romper nos teus olhos.

Albano Martins




[deixa que os meus olhos durmam nos teus sonhos, 
e que a tua boca desperta, sonhe com a minha. 
deixa-me sonhar no teu peito que durmo contigo 
com as minhas pernas a abraçarem-te inteiro 
por fora do sonho,
dentro do nosso sono]

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018




Quando passo por ele, calcanhar no chão como dizia, e determinação dobrada pela força da mágoa de algo que tinha ouvido, agarra-me pela cintura, tocando-me num ponto estratégico na medida certa, com a força exacta, senta-me ao colo dele, tinha tomado conta da situação, de mim, e eu rendida, mas calada para que não se notasse, como se não tivesse percebido o que se passou. Foi aquele gesto, aquele gesto preciso, com aquela indubitável intenção e toque afinado, que me desmontou, que me desfez de razões. Não foi nada do que me dizia, a voz e as palavras não me desatam certos nós, talvez só as mãos, talvez só o calor da pele perto, talvez aquele toque preciso, talvez apenas a sensação da vontade dele de querer ficar bem, de saber e fazer por ficar bem comigo. Agarrou-me porque queria, porque me queria, porque nos queria bem. No mimo. Em nós. Sem nada desentendido pelo meio. Entendemo-nos sempre. Sempre.

Dos mantras, e de como começar uma semana que se quer catita ;) 
Mais verdades, só, já resolve muita coisa... o resto, verdadeiro, acabará por vir. 

(...)
sim, cria comigo esse silêncio
que nos faz nus e em nós acende
o lume das árvores de fruto.

diz-me que há ainda versos por escrever,
que sobra no mundo um dizer ainda puro.

Vasco Gato




[sim, diz-me que ainda há no mundo o puro desejo
de ser silêncio a dois, indizível e indivisível, 
de sermos nós despidos de tudo que não seja nudez, 
diz-me que te falta sentir falta de tudo que não nos é, 
e que é ruído o que não nos ouvimos de dentro
 diz-me que o calor que a pele fundiu e reteve
 ainda sonha, a cada migalha de silêncio
semeada nos barulhos do mundo.
fala-me da memória do silêncio
que mal alimenta a pele]

domingo, 28 de janeiro de 2018

Pelos caminhos da vadiagem:
... a correr e a saltar
... com o rio a espreitar-nos entre os vultos que não o vêem.
... com o sol quase a pôr-se e nós a pararmos para beber um café à sua despedida.
...e depois ficar a pensar, enquanto o café amargo se acomoda no palato, que a frase do filme de ontem "chama-me pelo teu nome, que eu chamo-te pelo meu" tem nas suas raízes mais beleza que o melhor por-do-sol que possa ver.




Domingos quase perfeitos:
quando a luz entra sem pressa pela janela
e o dia entra devagar no corpo.
Quando o tempo não tem dono
e podemos vadiar pelas vontades

Bom Dia.
Aqui sentada, luzes apagadas, cigarro a queimar devagar e o silêncio das letras na mão, vejo  a lua quase a fugir da janela em frente. Admiro-lhe o brilho da luz, a solidão entre a escuridão e a altivez das deusas. Sussurro-lhe em atrevimento, entre a inclinação do sorriso e a curva da orelha, se não mas empresta, só um bocadinho, só para que outro alguém no mundo, também entretido nos seus  silêncios, uma noite se alheie de tudo ao ver-me assim. E que olhando-a, enfeitiçado,  para sempre me veja.