sexta-feira, 22 de dezembro de 2017


Há um hiato profundo na superficialidade da pele,
 onde se escondem os dias de que não se sabe.
Só a pele sabe.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017


Na hora de todos os cansaços, a alma descansa outra vez o olhar na força incansável do mar, talvez sonhe o dia em que uma maré nos trará um marinheiro que nos torne outra vez mar navegável, 
que fará do nosso olhar velas que enfunam a força da vida e a nossa boca a escolhida para seu porto seguro. Sempre. Nesse dia, com os pés do coração enterrados à beira-mar, deixaremos de esperar o tempo.
O vento que passa silencioso, de olhos risonhos miudinhos, sussurra-me num arrepio salpicado de sal..."mas o coração tem pés?" - pergunta-me endiabrado. E eu sorrio enquanto, em silêncio, lhe mostro que o coração tem o corpo todo. Ele sorri-me nas ondas que me rebentam quase aos pés, no coração.



... há aquelas que também fazem cafuné, 
e há aquelas só para o que é...
Depois há os casos em que se aconchega tudo isso, e mais, em intimidade, esses tornam-se fantasmas que moram na nossa sombra, nos nossos passos, nos nossos dedos, na ondulação do nosso respirar. 

... e eu que nunca fui de adiantar nada, se calhar devia aprender.

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Sentada sozinha em frente ao mar, de gorro e cachecol, a ouvir o marulhar da imensidão. 
Começar o dia com um funeral, que tendo distância bastante não nos mexer, me faz lembrar fins, que há coisas que têm de acabar - na verdade, que todas as coisas acabam. Sento-me aqui e reparo no céu, com uma linha interrompida, que se calhar são duas, mas que a mim me lembrou logo das coisas que, a espaços se continuam, que regressam, e penso que se há sempre regresso, será que terá havido realmente partida? Ou melhor, fim?  Eu não sei responder, e ninguém me responde.

O primeiro post na maquineta nova. Aqui escreve-se com mais largueza que no telefone, mas é menos tu cá-tu lá. Este post costumeiro da noite, o último que despede o dia, e que não tem acontecido tanto ultimamente, acontece sempre com pouca luz, com o silêncio a bordar a escuridão com palavras por dizer. As palavras mais trancadas navegam-nos melhor na escuridão, soltam-nos a alma e encurtam a rédea da razão.  Estava aqui sentada no sofá, com o silêncio ao colo e a pensar que certas palavras, certas memórias, certos incertos desejos, combinam melhor com a distância a acabar no telefone pequeno que a mão segura perto... dizem o silêncio mais dentro, calando-o. 

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017


Porque é o que me apetece cantar e espantar e rir... 

...ontem foi o dia de virar a página de uma década e entrar noutra... e uma vez entrada nos "entas" não mais se sai... e sabem que mais... Mahna Mahna!!

E o dia foi bom,  a começar logo noite dentro, madurada fora. Temos de aproveitar todas as oportunidades para estar com quem gostamos e juntá-los todos à nossa volta o mais que pudermos. Alguns já não podemos trazer, ainda que não nos deixem o por dentro da vida que se sente, por isso, é juntar os que podemos, mimá-los o mais que pudermos, e deixarmo-nos mimar também... Então, com uma certa magia, a vida faz sentido.... Mahna Mahna!!

"-The question is what is Mahna Mahna?
-...the question is... Who cares???"

Tenham um bom dia!!

sábado, 16 de dezembro de 2017

[foto @lunaa80]

"Bom dia, amor"
Lembrava-se bem da manhã que acordou para aquela mensagem, e de como, logo,  o dia deixou de existir, como o mundo desapareceu, sugado por aquelas parcas letras. Há momentos de felicidade de uma tal violência, por coisas de quase nada, que têm o dom de dizimar tudo ao seu redor, de suspender o tempo, de apagar o resto, e na altura tudo é resto, só se respira o essencial, o que se sente de dentro abarcar tudo por fora. Ela sabia que naquele quarto de hotel, sozinha, ninguém a via, mas estava certa que se a tivessem visto, naquele preciso momento, os outros a achariam outra, tal a luz que parecia inconter, o sorriso de plenitude que lhe tomava as feições, a pele, o olhar.  Daqueles raros momentos em que a pele é alma, o de fora é o de dentro, em que não nos conseguimos esconder, somos inteiros por distracção, por surpresa, por sermos tomados, açambarcados pelo momento. Aquele, que depois parece não ter existido, quando as rodas do mundo, de repente, voltam a acordar e a girar o quotidiano. O que fica a memória guarda, e brinca connosco.
Ela mandou a mesma mensagem. Percebeu que há mundos que não param à nossa passagem, às nossas palavras, a nós. Que as coisas se sentem de modo tão diferente, ou não se sentem sequer, talvez. Que há almas que não carregam a plenitude inexistente de sorrisos que ficam por acontecer. A resposta vem de longe, duma distância que, como uma vez lhe havia dito, não se mede em quilómetros mas em saudades. Quando há saudades a distância é sempre demais, quando não há, a proximidade esqueceu-se de ser perto.
Há momentos em que percebemos o inacreditável e extraordinário - e ridículo, tão tremendamente ridículo - que é, para algumas pessoas, um momento de quase nada ser um tudo que se prolonga para quase sempre. Sim, um dia será quase sempre, a substituir o sempre do enquanto.
[imagem @jean_jullien]

A maçã despe-se, 
serpenteadamente, 
numa tentação
 vestida de olhares 
que nos engolem de feitiço.

[e como dizia Wilde, a melhor maneira de nos livrarmos duma tentação é ceder-lhe - que é, para mim, sinto-me tentada a dizer, das melhores frases sobre o tema...]

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017



[foto @harisnukem]

Amar-te dá-me asas cinzeladas de infinito. 
Encaixotas-me o céu num ínfimo finito respirável, 
que abres só quando se esgotam das tuas mãos todos os tons de azul.
Um dia faço da minha boca noite cerrada,
fecho o infinito por dentro.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017


... hummm
... desceu para os pés? 
Ou subiu para as mãos?
 Não sei bem... é uma fase. 
Chama-se Inverno.
(...do nosso descontentamento??...)

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Acabei há tempos (mais) um livro do Rentes de Carvalho, que gosto, este, o seu primeiro romance: "Montedor". A essência do comportamento daquela personagem traz-me à pele cheiros de um passado que se me entranhou. Alguém que deixa a vida ao deus-dará (empurrando com a barriga, como ele dizia), que diz que não-que não-que não!!, mas depois faz sim-sim-sim!.. e desculpa-se com os contextos, intervalados com a lucidez do que não podem desculpar. Infeliz a vida toda, acomodado naquela felicidade pastosa de se obrigar a fazer o que os outros tanto insistem, e aí, assim, se desculpar do que foi feito - porque foi obrigado, foi obrigação. Na verdade sempre achei que houvesse gente assim por não haver uma razão forte, irrecusável e inadiável para agarrar a felicidade que se diz sonhar, e a lutar sem dúvidas por ela. Mas como bem se diz, em página que dobrei no canto:

"o meu desejo era encontrar alguém, mudar de ideias, porque todo este dinheiro me pesa. Sem coragem de decidir. É bonito ficar a gente a moer ilusões, outra coisa é arriscar, dar o passo em frente. Nada mais fácil do que entrar numa loja, comprar o preciso e seguir para Lisboa. Não era lá que me parecera melhor?" 

Extraordinário. Tinha decidido, fez até o que não devia em nome do que dizia querer, e depois quase implora por alguém, que por alguma razão, lhe mude as ideias, lhe impeça o plano. Auto-sabota-se a cada vez. Não quer nada com ganas, empastela-se e desiste-se, sem nunca desistir de continuar a fabular sonhos. Não toma para si a opção de optar, como se soubesse que nunca seriam as suas mãos a mudar nada, mas a própria vida a tecer a sua teia, essa rede onde ele se quer deixar prender e desculpar - como for, ao que for, desde que não haja rupturas, mudanças bruscas, opções assumidas e consequências por que temos de nos responsabilizar. Como as eternas crianças a quem se escolhe a roupa do dia e o caminho a tomar.

"Não caso, não caso" 

... e casou, e foi, e fez, e fez toda a gente infeliz à sua volta. Nunca fez nada por si, sucumbindo (por não se lhes opor com algo mais que palavras e pensamentos que se diluem constantemente) sempre à vontade dos outros, que depois, na verdade, não lhes concede mostrando-se sempre contrariado. 
O que podia ter mudado tudo - aquele momento em que podia finalmente descansar, por tentar encontrar no que não quis o que afinal sempre procurou -, a pergunta à mulher que tinha engravidado, mas com quem não queria casar:

 "tu gostas de mim?" 

Pergunta tão simples e tão imensa. A resposta, que lhe carimba o destino, é resultado de tudo o que fez até ali e dali colhe: 

"não é por gostar, não! Mas ao menos não precisas de me enganar, ir por aí com alguma!"

Não sei se a resposta fosse a oposta, mas não sentida como verdadeira, não seria o mesmo, ele sente-se sozinho, incompreendido, sente-se um ninguém - e principalmente, a esta altura, não amado. Com isto a última réstia desfaz-se, o coração parece secar, aloja-se a sensação de ser um joguete, aceita não dispor de si mesmo como a uma culpa  sem razão.

"mas faltava-me o norte, um interesse, carregado de uma culpa que me não explicava, um remorso, o sentimento de ser joguete, brinquedo, Zé-ninguém." 

Ele será sempre infeliz, cumprindo o destino, afinal, de se tornar igual ao pai. Paira, aliás, no ar a ideia - e penso que o livro é feito propositadamente no sentido de dar essa sensação - de que ele nasceu sob as mesmas circunstâncias que a sua filha. E o seu casamento será igual ao dos seus pais. Os ciclos vencem a vida, e a nossa vida é um único ciclo. 
Sempre achei que se estas pessoas encontrassem "um norte, um interesse", um amor (acrescento aqui), fariam pela vida e quebrariam o ciclo de vidas mal vividas, de fantoches que se obrigam a ser fantoches para não fazerem uma ruptura da fantochada. E depois disso, desse renascer, debaixo desse carnaval despido, serem de facto alguém e saberem-no - saberem-no é a única e fundamental diferença que muda todo o olhar sobre o mundo, sobre quem somos e podemos ser. Na verdade, ainda acredito nisso, mas no livro ele não encontra. Ou quero acreditar que foi isso. A alternativa é que talvez estas pessoas nunca amem, amar é uma coisa que se sente e tem de se assumir. Estes espécimes nunca assumem nada, por isso talvez sejam incapazes de amar.

Amar é uma escolha que assumimos. Ou não.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017



Não sou uma mulher, 
sou muitas mulheres. 
Diferentes, 
iguais em mim. 
Sou cada uma delas 
e não me esgoto em nenhuma, 
faço-me inteira, apenas, em sê-las, 
cada uma no seu tempo de ser. 
Todas são tuas, 
não porque tas deixe tê-las tendo-me, 
mas porque te querem pertencer 
sem eu deixar.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

[foto @pancrazi]

Quantas vezes são as sombras que contam a história, são a história. 
A luz só parece servir para as sombras sobressaírem, serem.  A luz relegada a cenário onde as sombras são a cena que abafa o palco e o tempo, que os reduz a mero contexto, a quotidiano liso. É a sombra que nos come o olhar e serve a imaginação, o sonho, o que somos pelo que queremos ser. Somos sempre sombras do que quereríamos ser, e é nessas sombras que escondemos quem mais somos, e não chegamos a ser.
É nas sombras que até o sol se esconde, com os seus segredos.
É nas sombras que o calor se esconde, mas onde se passa muito frio.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017


... é isto.
(mas mulheres também, e nunca se teima sozinho, há que não esquecer...)

Boa noite

quinta-feira, 30 de novembro de 2017


... e cai já amanhã!!
O meu mês, o mês que adoro por tantas razões e que me entristece na exacta medida do avesso dessas mesmas razões. Os meus anos, o natal, a passagem de ano - o tríptico que é tridente a espetar a alma sem pudores morais ou outros. Quando será que a vida desaguça, faz rombos, os dentes e amolece as garras? 

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

[foto @kat_in_nyc]

Olho a tela em branco e penso em tudo que está por dizer. Bebo o café a pequenos tragos, amargos, como grandes silêncios que tive de engolir. Não sei se agora o que está por dizer é mais ou é menos do que aquela névoa que nos envolve e rouba o norte nos grandes silêncios, onde aprendemos a falar sozinhos, a ter de esquecer o que ficou por dizer para não nos apodrecermos junto com todas as palavras não ditas que, trancadas, nos gritam na solidão esgaçada dos dias. O tempo vai tirando palavras ao vazio, sem que o vazio mude de tamanho ou de tonelada. Vão caindo, devagar e sem estrondo, no passado que não queremos mais. Ganham lugar outras, que se nos enredam na voz que não sabe dizer o que tanto quer dizer, e se emudece, envergonhada da sua vergonha. Com medo do seu medo.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

[imagem @radioshead]

Deu-lhe na mona e enfiou um doce naquele meio sorriso que  diziam não ser carne nem peixe...
Bom dia!

sábado, 25 de novembro de 2017




[foto @bird.ee]

Aqui o mar é sono perpétuo, câmara para o mais terrível segredo.
Entro nele de mãos trémulas, certo das minhas cedências.
Recordo o sabor salino de outras perdas, casas tombadas das quais sou solidária ruína.

Vasco Gato


[Sou solidária ruína de sombra.
É na sombra que se procura o sono que descansa,
é nas ruínas do tempo que se bebe a eternidade, 
que concedemos termos cedido.
Talvez de menos, talvez de mais. ]

sexta-feira, 24 de novembro de 2017


[foto @stevemccurryofficial]

Há olhares alvoroçados de vida guardada por viver, 
e há olhares de alvoroço de vida vivida que transborda.






-museus e museus cheios de obras de arte, e a maior beleza está aqui mesmo, ao meu lado, no que vejo nesses olhos que me olham...
E eu penso que bonito é ouvir uma coisa destas, assim sem aviso, em resposta aquela feminina pergunta, que rompe o silêncio mútuo ainda que não mudo, sobre o que está a pensar a criatura em que encostámos a cabeça, mas calo-me respondendo:
-é isso que as obras de arte tentam reproduzir, essa beleza, que por alguma razão, nos encanta e toca... (No caso dá jeito se for cegueta e tonto, e que deus assim o conserve...amén)

quinta-feira, 23 de novembro de 2017


Quando mais nada resistir que valha
a pena de viver e a dor de amar
e quando nada mais interessar
(nem o torpor do sono que se espalha).
Quando, pelo desuso da navalha
a barba livremente caminhar
e até Deus em silêncio se afastar
deixando-te sozinho na batalha
e arquitectar na sombra a despedida
do mundo que te foi contraditório,
lembra-te que afinal te resta a vida
com tudo que é solvente e provisório
e de que ainda tens uma saída:
entrar no acaso e amar o transitório.

Carlos Pena Filho

[amar o transitório, 
e dar-se o acaso,
 do caso ser eterno,
acusa uma contradição
 sem direito a contraditório]

quarta-feira, 22 de novembro de 2017


Nós somos a distância inacabada,
A proximidade que tende para o infinito




Quem sempre viveu agrilhoado 
não aprendeu a correr atrás, nem a fugir.

Quem nunca aprendeu a escolher 
pensa que as escolhas estão todas feitas.

terça-feira, 21 de novembro de 2017


[foto @olheosmuros]

Tu que sempre foste mudo de caminhos
Perdes-te não saindo do sítio
Segurando no coração o mapa
Desbotado de dedos e de beijos
De corpos alagados de alma
De memórias que não se amachucam 
De presente que não desbota o passado
Pinta esse mapa nos muros dos caminhos que nos cruzam 
Para que não me perca em ti, de ti.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017


Não és o único, há mais surdos de um ouvido... às vezes dá um jeitão, ao que parece.
Bom dia!

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Há dias que aqui não vinha ao encontro da solidão, não me apetecia endireitar as ideias nas palavras, deixei-as marinar nos dias e se calhar deixá-las assentar, ou tentar que a vontade de as formular me invadisse. Agora, aqui sozinha, já noite fechada, no alongar da ponte do fim de dia para a noite, naquele indeciso teimar de deixar anoitecer-me, entretenho-me a desfiar o tempo em palavras. Queria que me tentassem entender como quem ouve por dentro dos meus ouvidos, não queria que se preocupassem em responder, menos ainda que se defendessem, porque o que digo não é para atacar. Não é sequer conselhos que procuro, é ouvidos que queiram compreender, sentindo o lado de cá. Queria, talvez, que percebessem o que se sente quando se ouvem certas coisas e dentro temos um gostar por quem as diz a acolher palavras que parecem bater como portas na ventania. E oiço portas bater por dentro da armadura dos ossos, aqui sozinha, entre o final do dia e o entranhar da noite, numa solidão que não me amarga. Há dias num jantar, em conversa, disse isso, acho que, apesar de tudo o que tem sido a minha vida nos últimos anos, não amarguei... tenho talvez feito o esforço de me relembrar que não o quero, que isso é deixar ganhar a morte, a tristeza, e, sim, a maldade de quem não vale ( e nunca ninguém vale) o desperdício de vida... mas não sei se endureci. Deixei cair os sonhos e deixei a realidade da terra, do chão que nos colhe na queda, plantar-se nos pés, entre os dedos, debaixo das unhas, emaranhada nos cabelos, nos intervalos dos quereres, das vontades e dos ideais cujo fogo a terra abafa, onde a inércia se planta e cresce fulgurante no embaçamento dos dias. Dizem-me fechada e exigente, acho-me tão fechada como dantes, apenas mais descrente, e talvez por isso, muito menos exigente. O que dantes era tábua rasa, agora é quase bónus, ou, pelo menos, não é encarado como corriqueiro, como inerente à partida. Aprendi que nem todos os que parecem gostar gostam, e que nem todos nos consideram e respeitam nos níveis mínimos da reciprocidade. Aprendi, ensinaram-me à força, a sentir-me pequena mais vezes, mas em contrapartida a aceitar isso docemente como meu tamanho real no mundo - e que o mundo pequeno em que vivemos despidos na quimera do aconchego não é sempre tão diferente do grande e frio onde nos movemos sob defesas. Às vezes é a mentira que aconchega, até chamarmos de mentira a mentira. Depois o mundo deixa de ter tamanhos.
Bom, fumar mais um cigarro... agora descartado de palavras.
[foto @joshjack]

Embrenhava-se naquilo e esquecia-se do mundo. Entrava num mundo que fazia seu, onde se falava sem palavras, onde se comunicava em sentires, onde as imagens tocavam e onde era impensável perseguir uma verdade, a certeza do que é certo e definitivo, porque se sabe que as respostas são tantas e as verdades multiplicam-se em conclusões opostas. Ali não sabia a verdade, sentia-a, como se sente calor ou frio, conforto ou desconforto - e isso não era uma conclusão, mas a única verdade. Entrava na história que o absorvia, nas piadas de que ria, no desejo que lhe inundava a existência, no estar-se bem, chegando a esquecer-se dele, e de todas as verdades que lhe exigiam e esperavam dele, e que ele se exigia esperar o mesmo. E era quando se perdia dele que se encontrava. E naquele pedaço idílico perdia o tempo de que ganhava vida. Depois ela chegava, entrava na sala, (im)punha-se à sua frente, e ele emergia do paraíso que se esconde do mundo, fechava a porta, pegava no comando e desligava a televisão. Assim. Desligava e deixava de existir...desligava para a ouvir. Desligava para ela ser. Sempre. Era assim que o mundo tinha sido desenhado - ela aparecia e tudo o resto tinha de se desligar, até ele... E ele que nunca lhe apetecia ouvi-la, nunca a desligava. Mas também nunca a ouvia.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

[ Nick Cave sobre o quadro de Magritte, imagem @radioshead]

Quando o tempo passa muda-nos o por dentro, 
senão é como se não fosse - não fosse tempo.
 Só há tempo quando há mudança, movimento,
 o resto são cristalizações intemporais que habitamos. 
Só há tempo quando foi. Quando é, não há tempo. 
Há já algum tempo que o tempo não é. 
O por dentro cristalizado em ti, tu cristalizado por dentro. 
O tempo é-nos estranho, ainda não foi.

domingo, 12 de novembro de 2017


[@zackmagiezi]

... tão bom. 
Deixar o tempo correr entre os lençóis ... 
de olhos meio abertos meio sonhadores, 
de sentidos meio desejados meio adormecidos. 
Entre o sono sonhado e a vida que sonhamos acordados. 
Entre o sol lá fora e a luz que queremos dentro.

sábado, 11 de novembro de 2017


... ontem numa conversa de amigas surgiu esta frase. Procurei-a e deixo-a aqui porque me parece tão certa e de certa forma tão óbvia. Assim como a conclusão tirada do seu avesso: como mudar com o medo de deixar de se sentir viver com (essa)a mudança? 

[foto @me_and_orla]

Fim de semana a cores, com resquícios de Verão.
Bom dia.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017


[foto @adrianscutariu]

Naquele dia acordaram sem os fios que vinham do céu. Como se lhes tivessem cortado deus. Não havia guião, faltava-lhes o próximo acto e o seguinte e todos os outros, não sabiam que cena seria aquela, as falas emudeciam e a surpresa encarniçava-se no olhar, na paralisia dos movimentos que dantes eram tão expressivos. Sem fios faltava-lhes o sangue e a vida. Vida que nunca foi, que nunca soube ser ou não ser. 
Só agora olhavam o cenário e percebiam verdadeiramente que, naquele momento, aquelas sombras eram deles, e estavam inertes como mortas. Sem saber o que fazer ou para onde ir, o que dizer ou sequer pedir.  Tal como eles, até hoje, tinham sido apenas sombras de simples marionetas que alguém conduz como se deus fosse. E sombra não é gente. Tela não é vida.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017


"Apaixone-se por alguém que você possa mandar à merda"

(...)
"Não se trata de uma agressão — desde que ambos saibam lidar com essa deselegância. Quando não há mais nada de construtivo para dizer, mas ainda há uma certa raiva, é melhor mandar à merda e pronto. O outro costuma dizer “vai você”. A briga acaba ali. A raiva é canalizada. Cada um vai para um canto. Liga-se a TV, abre-se um livro, toma-se um banho. Depois de 15 minutos já dá pra dizer “quer uma batatinha?”. E não há forma melhor de fazer as pazes do que com batatinha. Melhor assim.

Não acredito em amores perfeitos. Nem acredito nos amores que se afundam no pântano das discussões intermináveis ou das palavras não ditas. Acredito nos amores honestos. E, com honestidade, frequentemente queremos mandar quem amamos à merda. Depois passa. A raiva vai embora e só sobra a batatinha. Ainda bem. Vida que segue."

Artigo aqui

Concordo. Não acho, na maior parte das vezes, agressivo, é um desabafo umas vezes, uma brincadeira outras, muitas as duas coisas. Agressivo é dizer coisas do outro que magoam com o objectivo de magoar, apontar defeitos para rebaixar e não para tentar melhorar algo, falar com ressentimento que pretende magoar mais do que o expor para se poder conversar e resolver, ou simplesmente estar-se indiferente ao outro, desinteressado do que possa dizer ou sentir. Quando se manda à merd@ só porque se está farto de ouvir o outro e não se tem já sequer pachorra para o ouvir ou resolver o que quer que seja... aí sim, é mau. Quando é só para acabar a conversa que já os dois concluíram que é parva e sem jeito e não vai a lado nenhum... manda-se e pronto (outras vezes é mesmo só um desabafo e vira-se costas até assentar poeira, há muitas versões), há muitas maneiras, eu gosto desta, quando a coisa é ligeira e as pessoas sabem brincar  "olha, vai à merda, cala-te e dá-me um beijo".

E diga-se também que "Nunca fui muito com a cara dos amores impecáveis.", os que não discutem, não querem saber, não têm ponta de ciumes, são tão tolerantes com tudo que é plena indiferença mútua, desinteresse entranhado... não, para isso não dou, nem sirvo.

Bom dia!

terça-feira, 7 de novembro de 2017

[foto @evapictory]

Tenho a alma a viver há muito no silêncio 
 - vários silêncios, como tons de azul sem céu -,
sem nunca se silenciar.
Há alturas em que peço 
 - que grito dentro sem esgaçar o silêncio de fora que me rasga -, 
que se cale, que não a oiça,
que me deixe ser sem saber, sem querer.
Ser só como o azul do céu.

Será o silêncio da alma,
paz ou morte?

segunda-feira, 6 de novembro de 2017


A luz da manhã entra pela janela mas não nos desperta o dia, trocamos a dormência pelo direito de chamar-lhe sonolência. Enroscamo-nos nos raios de luz e deixamos o dia do lado de fora das mantas, do quente dos sonhos interrompidos, do engano da noite que se esqueceu de dar lugar ao dia por dentro dos olhos, por fora dos sonhos. Fechamos os olhos para deixar a luz do dia entrar devagarinho e amanhecermos sem o susto de existirmos mais a dormir que acordados.

domingo, 5 de novembro de 2017


... these boots are made for walking.
Bora lá.
(Mas não são botas e o som é B. Clementine, combina-me com o dia de hoje)
Bom dia!

sábado, 4 de novembro de 2017



[foto @kat_in_nyc]

Os dias já estão muito mais curtos e as noites mais frescas. A varanda já pede manta, e daqui a nada, eu, lareira. Estava a precisar deste sossego, destetempo só meu, há qualquer coisa que me pede isso, há qualquer coisa em mim que precisa de ser cuidado com tempo e silêncio, peças que precisam encaixar.
Amanhã à tarde café, alguma coisa em mim tem de mudar, sinto que é tempo de qualquer coisa, talvez eu perceba a necessidade só a minha imobilidade não a ouve, há qualquer coisa que falta, só tenho de a procurar em mim, e para isso preciso de tempo e distância. Ando a mastigar a vida e os dias há tempo demais... hoje estou estranha e não sei porquê, falta-me alguma coisa que me falta descobrir o que é. Lembrei-me agora duma frase que uma vez escrevi a alguém, disse-lhe que naquele momento ele era a minha vontade... e é o que se calhar agora me falta, vontade de alguma coisa, para com essa desenterrar todas as outras. Uma pessoa sem vontade é só inércia. Mesmo andando é como se não saísse do mesmo sítio. E tenho de dar lugar a que um novo lugar se torne sítio. Sítios são coisas imutáveis, sem geografia mas com história - é o lugar certo para algo. É onde ficamos presos sem saber porquê. Os lugares ocupam-se quando vazios, e alguns tornam-se sítios para nós. Eu preciso dum novo sítio e preciso de lugar.



As palavras vestem-me
como uma luva,
quando ao longe
te despes de mim.
Se te aconchego,
Ou se te achegas
as palavras esfriam
antes de chegarem aos dedos,
Quentes de ti

sexta-feira, 3 de novembro de 2017


Sexta-feira-quase-noite... 
...assim, com pés e cabeça.
Mas às vezes do avesso, ou de pernas para o ar, ou com os pés pelas mãos, ou mesmo as mãos pelos pés, desde que estivesses sempre ao pé, não vá eu precisar duma mão... ou mesmo duas. Nos sítios certos, ou só no meu avesso. 

[foto @moniblanco]

Na esquina dum eco
A tua voz dobrou-se.
Aninhou-se no vazio
Duma luz apagada.
Perdeu o rasto
Da estrela que nos caiu
Numa rua deserta,
Donde ninguém regressou.

Eu ouvi.

Há certos silêncios
Onde eu oiço tudo.


quinta-feira, 2 de novembro de 2017


... é um tudo que não chega a ser nada.
Como ter a melhor biblioteca do mundo e não saber ler. Como ter a melhor vista sobre a cidade e ser cego. Como ter a melhor e mais bonita casa e não ter com quem viver.
É como guardar dentro o amor mais bonito e, ao mesmo tempo, sentir-se vazio.
É como ser amado e não sentir.
É um tremendo desperdício monumental.
É um quase que não chega a deixar de o ser. 

quarta-feira, 1 de novembro de 2017


[foto @perazna]

Ao acordar da noite das bruxas, coisa para esquecer e correr à vassourada, surge-lhe um anjo à janela, com asas de desejo e todos os pecados de Eva no corpo sublime. As asas que lhe apetecia fazer voar em dedos pela pele, no agarrar a carne, no trincar a vontade, nas mãos cheias de querer, na boca ávida de prazer e cheia de gritos de paixão.
Não se mexe, não dá um passo, não se sabe se por medo ou convicção. Uma certa calma, de passado morno e instalado, ressente-se na alma e pergunta-se apenas, enquanto admira a criatura a que as asas dariam nome de anjo, como o hábito de monge, por que é que certas criaturas nos assombram a existência para mostrar o que não temos e desejamos? E se não fosse um anjo? Se fossem só asas? Se fosse só uma mulher, nem bruxa nem anjo? Uma mulher carregada de pecados que levam ao céu?... Leva à boca um cigarro, o anjo do lado de lá da janela, imóvel, acende-lho, com um único sorriso, malandro e certeiro no olhar dele, a condizer com toda a sua expressão de desafio e tentação, antes de se desfazer do próprio cigarro e bater asas para outra janela, onde os olhos, do lado de lá do vidro, fossem de homem sem medo de bruxas, homem que soubesse aceitar o céu quando lhe oferecem um pedaço num sorriso com pele. E o agarra "comme il faut"

terça-feira, 31 de outubro de 2017



[imagem: Edouard Boubat]

Beija-me como se os teus sonhos ganhassem asas na minha boca.
Beija-me como se a tua liberdade estivesse presa nos meus lábios.
Beija-me como se a minha pele te guardasse a alma.
Beija-me um beijo que são todos os beijos.
Ou não me beijes.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017


[imagem @virgola_]

Segunda de manhã... o ouriço da semana, de chinelos e a rezar por um café que nos mande para (pelo menos) quarta feira... ;))

Bom dia!

domingo, 29 de outubro de 2017

[foto @projetoamoramora]

Se a minha pele for o horizonte da tua alma,
a fronteira entre o sonho e a realidade,
limite divino do profano,
é lá que nos encontramos, 
que (nos) somos,
à margem de todas as leis,
contrabandistas de amor que não se troca.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

[colourfall by Ian Davenport]
Viver sem paixão é (vi)ver o mundo a preto e branco. Ter sido apaixonada, conseguindo ver tons e cores que não se pintam nem explicam, e deixar de o ser, é como ficar cega - é toda uma luz que nos morre nos olhos pela pele. Será adivinhar, inventar, mentir na escuridão as cores que já não temos. Mendiga-se vida entre escalas de cinza, cinzas de paixões queimadas, cores ardidas. Cegueira fria.
Estar com alguém sem paixão é um clássico, a preto e branco, e talvez até mudo. E eu, tão fã de clássicos, clássica em tanta coisa (apelidada tanta vez de quadrada) dispensaria este, neste caso prefiro ser de modas (apaixonadas, arrebatadas, quentes), mas os clássicos são-no porque duram, resistem ao tempo, não têm cor para perder.
Talvez me renda. Mas nunca deixará de ser isso: uma rendição.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017


..."eu sentia uma atracção por todas as coisas erradas (...). Estava instalado no nada: uma espécie de não-ser, e aceitava-o. O que não configurava uma pessoa interessante. Eu não queria ser uma pessoa interessante, era demasiado difícil" , Bukowski, in Mulheres

É engraçado quando nos identificamos com personagens que sendo tão diametralmente opostas a nós, há coisas que simplesmente são absolutamente coincidentes. Eu também me acho instalada no nada e com atracção por o que não me faz bem, acrescendo a tudo isto a certeza de que sempre achei demasiado difícil ser interessante, e talvez por isso sempre desisti muito antes de o tentar. O difícil é quem nos aceite assim, com as particularidades comuns das pessoas que não são, nem se fazem (das que se fazem há aos pontapés, mas vai-se as ver e...), interessantes, e goste, por alguma razão inexplicável, de nós. Em que a única coisa verdadeiramente interessante é esse gostar sem razão, esse gostar terrivelmente genuíno, sentido quase como uma praga ou um destino inquestionável. Talvez o que é genuíno seja interessante duma forma diferente, um interessante em parâmetros não normalizados pela maioria. Uma coisa meia sem rede, sem segurança prevista e revista pelas normas vigentes. Como o personagem, as observações que faz, o que pensa, tornam-no interessante mas completamente fora do interessante da malha social. O problema é que só alguém interessante e diferente o poderá notar: "it takes one to know one"... como uma vez apanhei numa fala do Hank do Californication (uma serie que adorava ver..), que -  parece-me -  foi baseado, em algumas coisas, neste personagem. Aliás no livro alguns amigos chamam-no Hank...

[do livro que andei a ler há uns meses e ficou-me esta nota, entre outras, nos rascunhos...]

domingo, 22 de outubro de 2017

..."o amor nos faz aproximar as coisas, habitá-las, que pelo amor as reconhecemos e que, depois de lhe recebermos a revelação, nada mais é preciso para nos sentirmos vivos."
Fernando Namora, in Domingo à tarde

... pois não, e nada mais parece faltar-nos para estarmos mortos que perdê-lo.
E não ressuscitamos, antes marinamos pelos dias como mortos vivos, umas vezes mais mortos que vivos, outras mais vivos que mortos, mas sempre numa condição em que a vida se sente como um leve murmúrio ao fundo dum túnel escavado em escuridão, que não sabemos se ouvimos ou se sonhamos

[na verdade a etiqueta está errada, não é o livro que ando a ler, já acabei outro depois deste... dias de sossego dão (também) para isso, pôr leituras e pensamentos em dia...]

sábado, 21 de outubro de 2017


E um dia o sossego vem. Não vem para ficar, só para dar umas tréguas à loucura dos últimos tempos. No ar paira o perfume a alfazema, à minha volta só campos de alfazema, oiço insectos a voar por aí e um badalar contínuo vindo do monte, e ainda, nesse longe, consigo adivinhar um cão dum lado para o outro, preto, ou escuro, pelo menos... de resto não se ouve mais nada. Olho este céu azul e penso que há dias, durante muito tempo, o dia não chegou a acordar no céu e as cores eram todas feitas de cinza. Agora as nuvens são brancas e compõem o azul claro do céu. Dizemos que tudo volta ao normal, que o tempo trata de tudo, mas na verdade só nos dá oportunidade de começar de novo noutro tempo, que nunca é igual - traz dentro todo o tempo que foi e já não é.


quarta-feira, 18 de outubro de 2017


[foto @arvin.bahrami1390]

A única altura do dia que me custa passar é o final do dia, quando a luz baixa e se convida a alma a iluminar a noite; quando resolver isso talvez as amarras se soltem, talvez eu fique livre do que nunca me quis prender - do que nunca me quis. Só aí a alma parece ainda querer existir, resistir, ser. Parece que além desse lusco-fusco de alma, nada mais restou, resignou-se a apenas viver naquela réstia de tempo entre a agonia do dia e o raiar da noite escura.
Resolvo abrir as palavras em que me fecho depois dum dia em que as palavras perdem a alma em usos de ferramenta, de arma de arremesso, de arma em dia de guerra. Há guerras demais a travar e pouca alma com que lutar. Ha demasiado cansaço. Demasiados cansaços. A cabeça ressente-se do dia e tento recupera-la tacteando as palavras para ver se há réstias de alma com que conversar. Mas há um silêncio espesso como uma cortina de fumo. Há coisas na vida tão ardidas como o país. 
Tudo há-de renascer.





sexta-feira, 13 de outubro de 2017


Deambulo pelos rascunhos e nada me fala, nada me apetece, trechos que vou guardando, pedaços de livros que vou lendo, alguns têm meses, mas vou-os deixando quietos no mesmo lugar enquanto não houver algo neles que me desperte da preguiça de os decifrar com pensamentos postos em palavras que me saiam de dentro dos dedos. Mas cada texto ou frase ou imagem guardada tem qualquer coisa que vi e pensei mal lhe bati os olhos, algo de mim está lá, mas deixa-se para depois o esmiuçar, o mergulhar em nós através das coisas.  Nem sempre me apetece, às vezes quero apenas gozar e demorar-me nas mundanas superficialidades pragmáticas, sei que virar os olhos do avesso para me ver o lado de dentro obriga-me a sair de mim para me regressar, sair deste mundo para me navegar. Muitas vezes não me apetece, como uma preguiça de me chegar, uma inércia que não deixa enterrar as maos das palavras na alma -nesses dias corro os rascunhos e nenhum me fala. Ou eu vou muda e eles sabem, deixam-me passar e baixam os olhos.
A tentar recuperar rituais de café com palavras na mesa da cozinha, cedinho, para evitar voltar meio sono para a cama, não ceder à preguiça. Há coisas que devo tentar mudar mesmo que não saiba porquê ou para quê... mas porque me falam como se fossem certas.