[foto @nurukimondo1]
Hoje era daqueles dias, ou noites, que ficaria aqui a desenrolar pensamentos e palavras que não tenho tempo de pensar ou escrever. Apetecia-me conversar devagar, divagar com um copo de vinho a quatro mãos, uma conversa sem rumo traçado. Tenho a bicha aos pés a dormir, e a mim o sono ainda não me beliscou mesmo tendo dormido tão pouco, e estou aqui, no sofá, às escuras, só a luz do computador ilumina além da luz que entra pelas janelas, vinda do outro lado do mundo - o lado de fora. Estou cansada, mas hoje não estou derreada e apetecia-me descansar os dias numa conversa lenta, daquelas que se desenrolam bem à lareira e combinam com frio do lado de fora do vidro.
Tenho tantas perguntas, tantas respostas guardadas no tempo e tanto tempo guardado por dentro. E esse para onde irá?
Vou continuar sempre assim, ou haverá um qualquer acaso na minha vida que me fará encontrar-me noutro olhar? E isso dar-me um novo mundo para olhar com os mesmos olhos? Não faço ideia do que me espera, tenho curiosidade e medo, sei que o tempo me dará as respostas que tiver, e as que não tiver far-me-à mudar as perguntas, ou matar-me antes. Depois penso no agora, no que penso, no que sinto, no que não quero sentir, no que não compreendo e nessas respostas que não tenho. Sei que me ponho a divagar e a rodar sobre mim mesma e o que vivi e o que me faltou viver - ou não faltou, só não vivi. Sei que me apetecia conversar e sentir um conforto qualquer, sei que me apeteciam uns olhos que me ouvissem com atenção e umas mãos que me falassem com carinho da doçura que lembro. Da ternura, do desejo inteiro, do sentir completo. Sei que me falta tudo, mas que tenho tudo o que preciso porque vivo, estou viva, mas não sinto. E penso que o que não se sente não existe, não para nós, não cá dentro. É como a luz que me entra na janela, vem de fora, se não a visse, se não a sentisse entrar-me nos olhos, para mim não existiria. Como não existe para um cego. E eu - agora, neste momento - existo para alguém? Agora, talvez só para esta bicha que tenho aos pés, ela sente-me porque se aninha no meu calor. Eu aninho-me ao ela precisar de mim. Preciso sempre que precisem de mim, senão parece que não me sinto existir. Como hoje. Como ontem, como há tanto tempo, e por quanto tempo? Só o tempo responderá... E o tempo que perguntas terá? E o sono quando me apagará as palavras que não saem do sítio, à volta sobre si mesmas e ao meu redor? Quero dormir, apagar a cabeça e esquecer. Esquecer que penso, esquecer que me apetecia conversar e que o vazio, às vezes, ainda me arranha a alma por dentro. Ela sente, mas já não grita. Só quer conversar, e que o passado corte rente as unhas e fale baixinho dos seus ruídos ensurdecedores. Quero descanso de mim e do tempo que me ignora, mas a que o mundo obedece cego, sem o ver passar. E eu, eu só o queria ver passar ao ritmo intemporal duma conversa sem tempo.