sábado, 4 de novembro de 2017




As palavras vestem-me
como uma luva,
quando ao longe
te despes de mim.
Se te aconchego,
Ou se te achegas
as palavras esfriam
antes de chegarem aos dedos,
Quentes de ti

sexta-feira, 3 de novembro de 2017


Sexta-feira-quase-noite... 
...assim, com pés e cabeça.
Mas às vezes do avesso, ou de pernas para o ar, ou com os pés pelas mãos, ou mesmo as mãos pelos pés, desde que estivesses sempre ao pé, não vá eu precisar duma mão... ou mesmo duas. Nos sítios certos, ou só no meu avesso. 

[foto @moniblanco]

Na esquina dum eco
A tua voz dobrou-se.
Aninhou-se no vazio
Duma luz apagada.
Perdeu o rasto
Da estrela que nos caiu
Numa rua deserta,
Donde ninguém regressou.

Eu ouvi.

Há certos silêncios
Onde eu oiço tudo.


quinta-feira, 2 de novembro de 2017


... é um tudo que não chega a ser nada.
Como ter a melhor biblioteca do mundo e não saber ler. Como ter a melhor vista sobre a cidade e ser cego. Como ter a melhor e mais bonita casa e não ter com quem viver.
É como guardar dentro o amor mais bonito e, ao mesmo tempo, sentir-se vazio.
É como ser amado e não sentir.
É um tremendo desperdício monumental.
É um quase que não chega a deixar de o ser. 

quarta-feira, 1 de novembro de 2017


[foto @perazna]

Ao acordar da noite das bruxas, coisa para esquecer e correr à vassourada, surge-lhe um anjo à janela, com asas de desejo e todos os pecados de Eva no corpo sublime. As asas que lhe apetecia fazer voar em dedos pela pele, no agarrar a carne, no trincar a vontade, nas mãos cheias de querer, na boca ávida de prazer e cheia de gritos de paixão.
Não se mexe, não dá um passo, não se sabe se por medo ou convicção. Uma certa calma, de passado morno e instalado, ressente-se na alma e pergunta-se apenas, enquanto admira a criatura a que as asas dariam nome de anjo, como o hábito de monge, por que é que certas criaturas nos assombram a existência para mostrar o que não temos e desejamos? E se não fosse um anjo? Se fossem só asas? Se fosse só uma mulher, nem bruxa nem anjo? Uma mulher carregada de pecados que levam ao céu?... Leva à boca um cigarro, o anjo do lado de lá da janela, imóvel, acende-lho, com um único sorriso, malandro e certeiro no olhar dele, a condizer com toda a sua expressão de desafio e tentação, antes de se desfazer do próprio cigarro e bater asas para outra janela, onde os olhos, do lado de lá do vidro, fossem de homem sem medo de bruxas, homem que soubesse aceitar o céu quando lhe oferecem um pedaço num sorriso com pele. E o agarra "comme il faut"

terça-feira, 31 de outubro de 2017



[imagem: Edouard Boubat]

Beija-me como se os teus sonhos ganhassem asas na minha boca.
Beija-me como se a tua liberdade estivesse presa nos meus lábios.
Beija-me como se a minha pele te guardasse a alma.
Beija-me um beijo que são todos os beijos.
Ou não me beijes.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017


[imagem @virgola_]

Segunda de manhã... o ouriço da semana, de chinelos e a rezar por um café que nos mande para (pelo menos) quarta feira... ;))

Bom dia!

domingo, 29 de outubro de 2017

[foto @projetoamoramora]

Se a minha pele for o horizonte da tua alma,
a fronteira entre o sonho e a realidade,
limite divino do profano,
é lá que nos encontramos, 
que (nos) somos,
à margem de todas as leis,
contrabandistas de amor que não se troca.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

[colourfall by Ian Davenport]
Viver sem paixão é (vi)ver o mundo a preto e branco. Ter sido apaixonada, conseguindo ver tons e cores que não se pintam nem explicam, e deixar de o ser, é como ficar cega - é toda uma luz que nos morre nos olhos pela pele. Será adivinhar, inventar, mentir na escuridão as cores que já não temos. Mendiga-se vida entre escalas de cinza, cinzas de paixões queimadas, cores ardidas. Cegueira fria.
Estar com alguém sem paixão é um clássico, a preto e branco, e talvez até mudo. E eu, tão fã de clássicos, clássica em tanta coisa (apelidada tanta vez de quadrada) dispensaria este, neste caso prefiro ser de modas (apaixonadas, arrebatadas, quentes), mas os clássicos são-no porque duram, resistem ao tempo, não têm cor para perder.
Talvez me renda. Mas nunca deixará de ser isso: uma rendição.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017


..."eu sentia uma atracção por todas as coisas erradas (...). Estava instalado no nada: uma espécie de não-ser, e aceitava-o. O que não configurava uma pessoa interessante. Eu não queria ser uma pessoa interessante, era demasiado difícil" , Bukowski, in Mulheres

É engraçado quando nos identificamos com personagens que sendo tão diametralmente opostas a nós, há coisas que simplesmente são absolutamente coincidentes. Eu também me acho instalada no nada e com atracção por o que não me faz bem, acrescendo a tudo isto a certeza de que sempre achei demasiado difícil ser interessante, e talvez por isso sempre desisti muito antes de o tentar. O difícil é quem nos aceite assim, com as particularidades comuns das pessoas que não são, nem se fazem (das que se fazem há aos pontapés, mas vai-se as ver e...), interessantes, e goste, por alguma razão inexplicável, de nós. Em que a única coisa verdadeiramente interessante é esse gostar sem razão, esse gostar terrivelmente genuíno, sentido quase como uma praga ou um destino inquestionável. Talvez o que é genuíno seja interessante duma forma diferente, um interessante em parâmetros não normalizados pela maioria. Uma coisa meia sem rede, sem segurança prevista e revista pelas normas vigentes. Como o personagem, as observações que faz, o que pensa, tornam-no interessante mas completamente fora do interessante da malha social. O problema é que só alguém interessante e diferente o poderá notar: "it takes one to know one"... como uma vez apanhei numa fala do Hank do Californication (uma serie que adorava ver..), que -  parece-me -  foi baseado, em algumas coisas, neste personagem. Aliás no livro alguns amigos chamam-no Hank...

[do livro que andei a ler há uns meses e ficou-me esta nota, entre outras, nos rascunhos...]

domingo, 22 de outubro de 2017

..."o amor nos faz aproximar as coisas, habitá-las, que pelo amor as reconhecemos e que, depois de lhe recebermos a revelação, nada mais é preciso para nos sentirmos vivos."
Fernando Namora, in Domingo à tarde

... pois não, e nada mais parece faltar-nos para estarmos mortos que perdê-lo.
E não ressuscitamos, antes marinamos pelos dias como mortos vivos, umas vezes mais mortos que vivos, outras mais vivos que mortos, mas sempre numa condição em que a vida se sente como um leve murmúrio ao fundo dum túnel escavado em escuridão, que não sabemos se ouvimos ou se sonhamos

[na verdade a etiqueta está errada, não é o livro que ando a ler, já acabei outro depois deste... dias de sossego dão (também) para isso, pôr leituras e pensamentos em dia...]

sábado, 21 de outubro de 2017


E um dia o sossego vem. Não vem para ficar, só para dar umas tréguas à loucura dos últimos tempos. No ar paira o perfume a alfazema, à minha volta só campos de alfazema, oiço insectos a voar por aí e um badalar contínuo vindo do monte, e ainda, nesse longe, consigo adivinhar um cão dum lado para o outro, preto, ou escuro, pelo menos... de resto não se ouve mais nada. Olho este céu azul e penso que há dias, durante muito tempo, o dia não chegou a acordar no céu e as cores eram todas feitas de cinza. Agora as nuvens são brancas e compõem o azul claro do céu. Dizemos que tudo volta ao normal, que o tempo trata de tudo, mas na verdade só nos dá oportunidade de começar de novo noutro tempo, que nunca é igual - traz dentro todo o tempo que foi e já não é.


quarta-feira, 18 de outubro de 2017


[foto @arvin.bahrami1390]

A única altura do dia que me custa passar é o final do dia, quando a luz baixa e se convida a alma a iluminar a noite; quando resolver isso talvez as amarras se soltem, talvez eu fique livre do que nunca me quis prender - do que nunca me quis. Só aí a alma parece ainda querer existir, resistir, ser. Parece que além desse lusco-fusco de alma, nada mais restou, resignou-se a apenas viver naquela réstia de tempo entre a agonia do dia e o raiar da noite escura.
Resolvo abrir as palavras em que me fecho depois dum dia em que as palavras perdem a alma em usos de ferramenta, de arma de arremesso, de arma em dia de guerra. Há guerras demais a travar e pouca alma com que lutar. Ha demasiado cansaço. Demasiados cansaços. A cabeça ressente-se do dia e tento recupera-la tacteando as palavras para ver se há réstias de alma com que conversar. Mas há um silêncio espesso como uma cortina de fumo. Há coisas na vida tão ardidas como o país. 
Tudo há-de renascer.





sexta-feira, 13 de outubro de 2017


Deambulo pelos rascunhos e nada me fala, nada me apetece, trechos que vou guardando, pedaços de livros que vou lendo, alguns têm meses, mas vou-os deixando quietos no mesmo lugar enquanto não houver algo neles que me desperte da preguiça de os decifrar com pensamentos postos em palavras que me saiam de dentro dos dedos. Mas cada texto ou frase ou imagem guardada tem qualquer coisa que vi e pensei mal lhe bati os olhos, algo de mim está lá, mas deixa-se para depois o esmiuçar, o mergulhar em nós através das coisas.  Nem sempre me apetece, às vezes quero apenas gozar e demorar-me nas mundanas superficialidades pragmáticas, sei que virar os olhos do avesso para me ver o lado de dentro obriga-me a sair de mim para me regressar, sair deste mundo para me navegar. Muitas vezes não me apetece, como uma preguiça de me chegar, uma inércia que não deixa enterrar as maos das palavras na alma -nesses dias corro os rascunhos e nenhum me fala. Ou eu vou muda e eles sabem, deixam-me passar e baixam os olhos.
A tentar recuperar rituais de café com palavras na mesa da cozinha, cedinho, para evitar voltar meio sono para a cama, não ceder à preguiça. Há coisas que devo tentar mudar mesmo que não saiba porquê ou para quê... mas porque me falam como se fossem certas.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017


... estou a pensar seriamente em colar isto na porta do meu gabinete. 
Traduzido, para não haver desculpas, nem queixas por agressão... 

terça-feira, 10 de outubro de 2017

[foto: um mimo vindo de longe :) ]

"Mando-te uma foto com a Olvido junto ao Reno, um rio magnífico cujo significado segundo a Wikipedia  é de origem celta e significa "fluir". Lindo, não achas?"

Acho. Tudo. Haver pessoas como tu, que se me tornam próximas por me ler há anos e daí passarmos a trocar mails porque os blogs acabam e mudam-se e podíamos perdermo-nos neste espaço e eu não queria :), e tu, tu teres sempre uma atenção carinhosa, fotografias que me chegam cheias de carinho e me fazem pensar que a vida deve mesmo ter um sentido qualquer que estará escondido nas pessoas com que nos cruzamos e guardamos e nos guardam com carinho e amizade. E sim penso que não devo andar a fazer tudo mal... 
Adorei a concha baptizada de Olvido junto ao rio que corre ao longo do seu olhar, e que significa "fluir", talvez de tanto fluir o esquecimento que desejo também siga caminho para longe. O tempo, como o rio, flui sempre. E é bom que nesse fluir me cheguem palavras como as que recebi recheadas de fotos de partilha :) 
Obrigada, Nanda, minha querida. Soube-me tão bem o mimo :))
Um dia vamos abraçar-nos, sim?
[foto @hana_photographer11]

E ele dizia-lhe naquele tom entre meio rouco e aveludado, banhado em cores de por do sol melancólico e dum calor aconchegante "não houve dia nenhum em todos estes anos que não me lembrasse algumas vezes de ti, se me distraía, qualquer coisa tua me invadia." E ela a pensar nos negativos - o preto que é branco, o branco que é preto -, enquanto ele lhe perguntava o mesmo. Abriu bem a boca para lhe desenhar um belo não com que se vingar, e cerrar em si a verdade que era só dela. Não, não pensou às vezes nele em cada dia de todo este tempo. O resto da frase, a razão dos negativos a assaltaram-lhe o momento de ironias, essa ela calou-a. Ela, que só deixava de pensar nele quando se distraía - quando ele por momentos não lhe era pele nem desejo nem memória nem sorriso anónimo de razão -, nessas alturas que ele se ausentava dela, até a saudade recolhia. Ela distraía-se e o mundo fugia-lhe do bolso de dentro da existência, onde vivia o negativo da sua vida, e então caía aos rebolões no mundo que todos habitam e onde se trabalha, e se finge que até se vive. E eu distraí-me menos do que deveria todos estes anos- conclui ela no silêncio que guarda as verdades cruas.
E ele a olhar para ela e para aquele redondo "não" sem saber se o "não" seria o negativo de si mesmo, mas ela não lho revelou nunca, ainda que houvesse tanta química reveladora. Mas onde ela se prendeu, o prego que lhe pendurou a alma, foi perceber que onde ele era sim ela era não, onde ela era só ausência ele era sempre presença - só quando se distraía não pensava nele, ele apenas se lembrava que ela existia quando se distraía... não era justo, eram o negativo um do outro, e positivamente isso não era uma boa fotografia.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017


Apanho agora, às vezes, o meu olhar fixo em alguma coisa que não se prende a ver - olho o infinito no fundo da chávena bebida ou por beber, no cigarro que me arde nos dedos ou desfeito no cinzeiro, nas sombras que me imitam os gestos ou nas cores que pintam o por-do-sol nas paredes da sala vazia... voo os pensamentos como quem poisa o olhar em palavras não ditas, em instantes por perder, em passados que a pele já não vê, mas sente como a cegueira do tempo. Coisas - quaisquer coisas servem, até coisa nenhuma - que o olhar fixa e transforma em pontos de fuga de realidades por acontecer. Portas escancaradas trancadas dentro da boca. Vidas paralelas que ninguém vive, mas onde se habita - ahhh... essa liberdade louca, trancada por dentro da pele, impermeável à realidade vivida, onde se vive o que se devia ter vivido. Aí, sim, vive-se (na loucura do que seria são).

domingo, 8 de outubro de 2017



A ronha de domingo... O dia abre um olho de cada vez, espreguiça-se um tico, vira-se para o outro lado, sente os lençóis quentes e a cheirar a sonhos ainda, há um sorriso que se abre no rosto sem que nenhuma ideia o justifique, só isto, o conforto, a meiguice dos começos lentos e doces, a ronha de domingo enquanto a fome não nos apanha...
...das coisas mais doces com que um dia nos pode começar.
(até sem companhia é bom, com boa companhia seria o ideal... mas não percebo, é incrível como há tão poucos adeptos da ronha... entristece-me. É coisa boa de ser partilhada, um cafuné, um namoro com a lentidão dos domingos perfeitos, conversas em tons de sussurro e gargalhadas que acordam a vida... não percebo como não há um adepto ferrenho disto em cada um, pronto)

sábado, 7 de outubro de 2017

Um café no caminho porque o calor aperta a sede e a sombra apetece um tico. Vi uma esplanada algo manhosa, que vejo quando passo de carro, mas onde nunca tinha vindo. Abanco-me peço um café e uma água, e aqui fico a descansar as molezas, a cheirar o café enquanto esfria um pouco, a bebericá-lo, a pensar na vida... levanto a cabeça e um rapaz de cara traquina mas bem disposta pergunta-me de chofre "está à minha espera para tomar um café?" E ri-se, sempre sem parar de andar, e eu não posso deixar de me rir também, e respondo: "não...até já está meio bebido!..." e ele sem se desfazer nem deixar cair a traquinice das expressões sai-se com um "Oh que pena!..." e continua o seu caminho ao ritmo do seu sorriso. E estas pequenas coisas, estas pequenas vidas no dia, fazem-me sorrir outras vidas que me faltam, mais leves, mais simples, mais sorridentes. Até justificou ter começado a escrever sem saber porque o fazia, só para companhia, suponho. E agora de repente fez sentido o que se começou sem destino anunciado, um pouco como a vida que nos vai acontecendo. 

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

[Vasco Gato]

Nascemos todos os dias, nascemos melhor nos dias que alguém nos ampara o nascimento, nos protege, nos embala os medos e nos diz baixinho, o meu mundo é o teu mundo: pertencemo-nos. Bem vinda ao mundo que vamos fazer nosso, protegidos do mundo.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

[ imagem retirada de @cuddleup.now (autoria desconhecida)]

Beijos que falam palavras não ditas
Palavras que beijam silêncios por emudecer 



"Só há duas coisas importantes na vida: aquelas que fizemos e achamos que não devíamos ter feito e as que não fizemos e concluímos que devíamos ter feito. As coisas realmente importantes, as coisas que ficam até ao fim e não nos largam, são as que nos causam arrependimento." - o filme (Reviver o passado em Montauk) começa assim, com esta frase ou uma equivalente a esta. Oiço isto e há uma torrente de pensamentos que dispara na minha cabeça... não consigo evitar, como se o ouvisse por vários ouvidos de várias cabeças, e pondo-me dentro de cada uma delas. Penso que então eu não tenho coisas importantes na vida, nada do que já vivi me vai ficar até ao fim, não tenho, até agora, arrependimentos. Não há nada que me tenha ficado como não dever ter sido feito, ou por fazer. O filme é bom (ou eu gostei muito), um melodrama à volta de três pessoas. A certa altura no filme ele conta à mulher, que se arrependeu ter deixado sem uma palavra há anos, que quando foi embora conheceu alguém sem importância, mas que engravidou e de quem teve uma filha, ela pergunta por que é que nunca lhe contou, e ele responde simplesmente " porque não te queria magoar". Ela ri-se, e tem uma frase ambivalente a que conheço todos os meandros, "uma das coisas que sempre mais gostei em ti é que nunca tens intenção de magoar ninguém", o que, não deixando de ser verdade, expõe também, veladamente, uma displicência egoista de tudo o que faz e fez, de toda a merd@ que sempre fez e estava também, naquele preciso momento, a fazer. É essa displicência e egoísmo que os torna e mantém umas eternas crianças, irresponsáveis, inconscientes e inconsequentes. Ela não quer já, naquela altura, ficar com ele, ele é uma pessoa que a marcou, que lhe definiu e moldou certamente a vida, que ela queria para pai dos filhos, antes de ele a deixar sem uma justificação como que esfumando-se no tempo - ou isso é subentendido no filme -, mas não quer mais que fiquem juntos, e conta-lhe então que teve um amor que se sobrepôs ao deles. Depois dele conseguiu amar outra vez, mas esse homem morreu e ela não quer nenhum mais - ela não é das que ultrapassam tudo, diz a certa altura no filme, ainda sem se saber sobre o que fala. Ele diz-lhe que deixa já a pessoa com quem está, que nem pensa duas vezes, que quer mudar a vida dele, ficar com ela. Fazer o que devia ter feito há anos. Mas não ficam juntos, ela já não o ama, e o amor que tem só a permite ficar sozinha. O filme ainda magica na minha cabeça, mas a surpresa dela ter amado outra vez, e mais e melhor, ficou-me. A ideia de que, possivelmente, ter sido tratada assim lhe tenha permitido depois amar ainda mais quando não o foi, quando foi amor recíproco, respeito, admiração. Talvez haja coisas que nos acontecem para que possamos futura, e irremediavelmente, ver tudo doutra forma, para o bem ou para o mal. Talvez, no caso, para apreciar coisas que dantes não víamos como tão grandes qualidades, que não valorizávamos condignamente, talvez por as considerarmos de certa forma pressupostos básicos: pessoas maduras, que sabem o que querem, que o assumem e fazem por isso, e que não têm essa displicência egoista que serve para desculpar tudo, mas que magoa toda a gente. Por muito charme que algumas dessas personalidades tenham, por muito que nos viciem e prendam, por muita felicidade plena, a pequenos tragos que nos dêem, há um ponto em que percebemos que esse charme não nos faz sentir amadas e seguras, mas negligenciadas e magoadas. E eu fiquei com esperança de também eu chegar a esse ponto, e não ser tarde demais.

terça-feira, 3 de outubro de 2017


... mas sem garantias - o meu irmão costuma dizer que já passei os dois prazos de garantia nas mulheres (parece, segundo ele, que os homens não têm)... o dos 25 e o dos 35 (como se vê a simpatia "runs in the family"). Portanto garante-se que é um fantástico não garantido, mais provável nuns dias que noutros... ;))

Bom dia!

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Esquecer como quem apaga um cigarro. Fechar a gaveta das memórias, asfixiar as perguntas com outro ar, ar novo, ar limpo - elas hão-de desistir e calar-se. 
Às vezes é preciso coragem para deixar de querer, para acreditar que o que vier, novo e diferente, vai ser um amor melhor, correspondido em atitudes e conteúdo, igualmente intenso, ou mais. Que o medo que paralisa o novo, que foge de todo o risco, que afasta todas as (boas) tentações, é apenas a resignação ao que não nos serve, ao que já não nos serve, por medo de ficarmos pior servidos. Então engolimos o que não gostamos sem mastigar, apagamos o que nos entristece como se nunca tivesse existido, enganamo-nos descaradamente amarfanhando a prova dos nove por fazer, fazemos de conta que o que não nos serve não conta, que o que conta é do que estamos servidos...
No outro dia ouvi em qualquer lado que o amor não tem de ser simples, mas não pode ser tão difícil que se torne impossível de viver com vontade de recordar  - ou em que sejamos obrigados a amputar a memória para sobreviver ao que esse amor exigiu de nós. Todas as amputações trazem dores fantasma, que se sentem tanto ou mais que as outras, as que se podem curar, as que podemos medicar, as fantasmas nada as contraria, apenas nos assombram o presente a cada dia comido ao futuro.

domingo, 1 de outubro de 2017


... bastante. Quando não há alternativas e o que te resta é tentar escolher o menos mau, mas sabendo que é tudo demasiado mau... e o que quer que resulte será supostamente uma escolha democrática, que deveria ser também, de certa forma, um resultado justo julgado por todos. Enfim... é o que temos...

sexta-feira, 29 de setembro de 2017


Say hello and wave goodbye

Esta sexta foi tão rápida, há coisas tão rápidas, que mal se diz olá já estamos a dizer adeus... Mas esta frase, duma música que gosto muito, lembra-me que para ter umas coisas não se podem ter outras. Há coisas que se podem acumular, outras não, as que se podem acumular não têm de se escolher. Se se escolhe uma coisa, abdica-se de outra. Se se diz adeus a algo, fica-se na sua ausência. Não se pode querer tudo, ficar com tudo, não abdicar de nada. Escolher uma coisa e achar que, ao mesmo tempo, escolhe também não perder a outra.  Não se pode ter tudo, por isso se escolhe. Não vale escolher e querer também o que não se escolheu, como se não houvesse escolha - como se não tivesse havido uma escolha.

Say hello and wave goodbye

quinta-feira, 28 de setembro de 2017



O horizonte parece estar hoje feito por camadas, faixas de cores que se sobrepõem como que riscados quase a régua. À medida que o tempo se curva as diferenças vão-se esbatendo, até tudo ser apenas um manto escuro que abraçará as estrelas e em si as prenderá. O rádio despeja música e eu oiço-me em silêncio. Faço desta janela de tempo a ponte para a escuridão da noite. Deixo o dia repousar e o sangue abrandar. Não me surpreende o silêncio, as palavras recolhem-se, guardam-se em pensamentos já mastigados que não alimentam ninguém.
Há um gato branco sentado no muro, virado de costas para o dia a despedir-se... se  um gato preto dá azar, será que este dsará sorte? E a quem?

I did. 
Mea culpa.
(...mas toda a gente se engana de vez em quando...)

quarta-feira, 27 de setembro de 2017


Aqui à minha frente, a pintarolas e os seus fenomenais penteados de orelhas... e a meiguice, a traquinice, o olhar que fala, o procurar os meus pés para abrigo e almofada, tudo isto é ela... Nunca ninguém ficou tão contente de me ver, nunca me fizeram uma festa tão grande só de me avistar. E no entanto estou sempre a dizer-lhe para não me saltar porque me arranha toda, e dou-lhe uma palmada quando resolve ir buscar uma meia nos dentes para me presentear a chegada. Sou uma bruta, isto de ter de a educar às vezes é duro, tenho de ser mais dura do que sou, senão tornar-se-á um desatino viver com ela. Agora, a olhar para ela e a fazer-lhe umas festas antes de irmos dormir, dei por mim a pensar que foi dos melhores conselhos que me deu, para arranjar um cão, e foi a melhor coisa que eu fiz. Mas, ao mesmo tempo, é um nó que aperta a alma, olhava para ela e pensava: se lhe acontece alguma coisa não vou querer mais nenhuma. Nenhuma será assim, nenhuma terá a história que já temos, por nenhuma mais vou dormir duas ou três noites no sofá da sala porque ela não se calava e não sabia ficar sozinha - ainda agora é um martírio... Depois desta não vou querer mais nenhuma. É uma chatice gostar-se de alguém. Roubam-nos partes que não sabíamos que tínhamos, trazem-nos dentro, recantos nossos que nos revelam e descobrem, como há tempos escrevi. Esta já é um recanto meu, doce e difícil, mas já é meu, não quero mais cantos meus desalojados de mim. Se tudo correr normalmente há-de a minha filha sair de casa e esta pintas ainda me ficar a roer as noites aos pés. E depois? Quando esta me abandonar também não quero mais nenhuma. É tão difícil arrumar recantos cheios de coisas nossas, coisas que gostamos, que cresceram em nós, que se fizeram nós. Nós que depois perdem o caminho do desatar. Serei assim em tudo? Quando encontro algo que sinto único trato-o como único? E não sei ainda como substituir únicos, só aprendi a viver sem eles. Não quero coisas únicas que fazem ninho em mim, quero o que não me entre dentro porque não sei deitar fora... A não ser, talvez, a vida. Essa deito fora para manter o que tenho dentro. É uma chatice e não serve para nada. Mas as coisas mais bonitas nunca têm utilidade, senão sentirmo-las bonitas e isso nos fazer sentido em todos os sentidos, menos no ter de ter um sentido.
[foto @brotherside]

De vez em quando
o direito e o avesso confundem-se. 
De quando em vez
o avesso é o direito, 
e o direito o seu avesso.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

[foto @_georgemayer]

Ele dizia-lhe que ela era inteligente, racional e lógica, mas depois, depois tinha uma parte ilógica, irracional e estúpida... mas linda. Ela, de rajada, respondeu-lhe que essa era a parte nela dele, e viu-o desconcertado, sem perceber ao certo o que o tinha atingido.

(essa parte era a parte brilhante, resplandecente, sol de qualquer sombra, a parte que não tinha margens, a que podia mudar o mundo dela e dele se ele quisesse, a que não se submetia, a louca, a sã, a que sabia ser feliz, a única que podia ser infeliz, a parte que era o todo, que estupidamente se sobrepunha a tudo, ou quase)

Ela ficava a pensar em tantas coisas que já lhe tinha ouvido, das que doem e das que moem felicidades passadas em gravilha debaixo dos pés descalços, mas não o odiava, e dizia-o a si mesma, repetindo a frase que a ele lhe ouvira vezes sem conta "eu não a odeio"... mas a ele ela tinha-lhe raiva muitas vezes, algumas muito tempo, tinha-lhe raiva pela única coisa de que não era culpado: não a amava. E agora, olhos na sombra, postos na linha do horizonte, ficava a pensar que nunca descobriu se essa parte, essa raiva, era racional porque tinha (muitas) razões, ou apenas outra forma de o amar (de)mais, fruto dessa insanidade sem tréguas de amar estupidamente e longe de qualquer razão.

Dedicado a todos os optimistas que acham que realismo é pessimismo, e que tentativa de gestão de expectativas " é atrair o mal" e que se só pensarmos coisas boas e positivas só acontecem coisas boas e positivas (no limite)... este (com muita piada) é para vocês... giraç@s ;)))

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

palavras que caem entre os lábios de um beijo
beijando o abismo da felicidade sem nome,
 dos voos sonhados sem pé
que trazem o amor pela mão

[foto @in_somnia_]
De todos os feitios e cores, há para todos os gostos.
Pendurar o Outono no estendal e esperar que seque. Que aconteça. Há coisas que basta esperar, outras, esperando apenas, nunca acontecem.... era bom pendurar a vida na corda e ficar à espera que ela acontecesse, mas não funciona assim ( eu sei disso mas ando a fazê-lo há tempo demais, já não sei o que fazer à vida nem ela o que fazer comigo..)

Bom dia

domingo, 24 de setembro de 2017



Dia de sol, dia de começar livro novo, dia de vestir se calhar pela última vez  vestido de verão, leve e quase esvoaçante. 
Ontem li no  xilre que "toda a uva está cheia de vinho",  fiquei a pensar nisso, tudo o que poderemos vir a ser já faz parte de nós. Não era esta a conclusão ou a ideia do post, mas foi o que me ficou a marinar nos momentos parados, como conclusão minha. Cada uva pode tornar-se vinho. Pode acontecer que aconteça ou que não aconteça, mas nunca seremos algo que não temos já dentro. O que quer que sejamos um dia já estás em nós, adormecido, escondido, por descobrir, por desenvolver, maturar ou fermentar. Mas está cá. Ainda assim, toda a uva está cheia de vinho, mas algumas só chegam à mesa com casca e comem-se com as mãos. E há as uvas para quem isso chega e haverá aquelas que se não forem um dia servidas em fino copo, não percebem o sentido de terem nascido. 
Tudo o que eu vier a ser já sou hoje, tenho-o cá dentro de alguma forma, como aquilo que sou hoje já o guardava de antes. Como se fossemos descobrindo gavetas da alma que vamos abrindo, não sei se depois as conseguiremos fechar sem perder o sentido de a vida as ter aberto e vivido e mostrado, para, no fim disso tudo, ficarem fechadas. Mas a questão é que a nunca conseguimos fazer casa que não em cima das nossas fundações, dos nossos pilares, do que somos e queremos, nada disso tem alterações de fundo (as pessoas não mudam muito, ou não mudam de todo). O que viermos a ser, na verdade, já o somos, nós vimos sempre ao cima de nós próprios, mesmo que o tentemos contrariar, ou abafar. Só temos de nos reconhecer, depois disso, continuar a insistir em contrariá-lo, é asfixiarmo-nos em infelicidades várias. E isto é uma conclusão chata para mim, só vos digo.

sábado, 23 de setembro de 2017


[Um dia de cólera, Arturo Perez-Reverte (diálogo entre participantes da revolta que foram abandonados pelo resto dos militares e compatriotas fiéis aos invasores, para serem fuzilados)]

... o livro é violento e por demais repetitivo, porque não é ficção nem romance, é o que foi a realidade - com nomes intermináveis e factos por romancear - e mostra-nos o que gente determinada e corajosa, quando espezinhada e humilhada, sabe ser digna e forte, com um sentido de honra que poucos diriam ou sonhariam ter... A questão é que quando nos pisam os calos a sério, quando somos injustiçados, ou quem nos é próximo, achamos que já nada há a perder, e as pessoas mais perigosas são as que não têm nada a perder. É assim a história de 2 de Maio em Madrid, Um dia de cólera, como o intitula Perez-Reverte, o meu padrinho de baptismo... que relata a sequência de factos que um punhado de gente com tudo no sítio - militares e civis, homens e mulheres - iniciou batendo-se pelo que acreditava, pela sua dignidade, honra e independência. E pronto, isto raramente corre bem para os bons, morrem todos, ou quase,para depois ficarem heróis, até hoje, e para servirem de exemplo ao resto do país que depois começa a guerra da independência, tanto que até a nós depois nos chegou... e dum lado e doutro lá levaram um chuto no cu os francius emproados. E é assim, morre-se mas serve-se de exemplo, o que deve ser um grande consolo, realmente... mas a questão, a questão é sempre a mesma, há alturas em que não se sente alternativa possível (mesmo que haja, não se sente como possível, exequível), e vai-se com tudo o que se tem, porque chega-se ao ponto de que viver, ou assentir em viver, de determinada maneira é contra natura e, ou se batem para viver como querem, ou nem gente se acham no espelho. E então sentem não ter nada a perder. Não ter nada a perder é o gatilho mais forte e perigoso do ser humano, é a sobrevivência.

[foto @zynp]

Cenários de fim de semana, luz que não fere, cores que não gritam, um tempo que corre ao som da música que relaxa e faz o corpo, de quando em quando, acordar num movimento que o desperta. Ainda nos lençóis, com a cabeça enfiada entre as páginas dum livro a acabar (que não me prendeu e se arrastou, mas gosto de acabar o que começo), porque há uma decisão de amanhã começar outro, porque houve outra, que não a deixou descansar, a dizer que isto de não ter tempo, ou disposição, para ler não pode ser; já há uma calha cheia de livros para me dissolverem a vidinha noutras vidas em que mergulhar e vibrar. Faltam 30 páginas... é um tirinho agora. Acabam-se daqui a pouco na esplanada do costume a aproveitar as tardes que ainda são boas sem ser frias... mas antes um banho e roupa de fim‑de‑semana que é um conceito tão aconchegante, livre, bom.

Bom dia

sexta-feira, 22 de setembro de 2017


Se prendermos o sol atrás dumas grades, ele deixa de brilhar?

Se empurrarmos o sol horizonte abaixo, ele deixa de arder?

Se não o encontrarmos à noite, ele deixa de existir?

O sol brilha, arde, porque é a sua essência, mais do que mera existência.

A essência é o que, apesar de tudo e qualquer coisa,

resta sempre, permanece, define para lá da existência.

É o infinitivo que nos decompõe em pequenos finitos muito pessoais.



[imagem @jesuso_ortiz]

...Outono!!!... ahhh coisa boa vestida de lobo mau... 
Os príncipes encantados, o tempo sempre quente, o sol radioso...
 são sobrevalorizados, só vos digo ;))))

Bom dia!

quinta-feira, 21 de setembro de 2017



Houve uma altura em que simplesmente se rendeu, deixou-se escorregar pela vontade até ao desejo, à tesão que domina o momento e o inflama - cedeu ao que lhe apetecia. Esqueceu tudo o resto que não lhe apetecia, apagou o resto do mundo entre um sorriso e um murmúrio de prazer - esse abismo estreito e sem fundo em que os dois mergulharam -, sucumbiu a si mesma, ao que ainda tinha dentro, no espanto e susto de saber que ainda tinha aquela força, aquela estupidez tremenda... por afinal descobrir, entre ternuras e carinhos que lhe apagavam a memória, que se estava a marimbar se ele gostava ou não, se a amava mesmo ou só a brincar, porque, ali e agora, ela tinha a certeza de que tinha falhado redondamente em convencer-se de que já não o amava, de que "aquilo" nunca voltaria a ser mais forte que ela. E foi talvez nesse momento, nesse preciso momento que teve de coser a boca para não lhe dizer que o amava, porque lhe apeteceu dizê-lo, apeteceu-lhe gritá-lo e calar o silêncio das folhas que cantavam brisas do lado de fora - mas não disse e, sim, achou que não o devia ter dito, mesmo depois de o ter deixado por dizer... Ao menos isso fez bem- confessou-se - ou talvez não, concluiu logo a seguir. Afinal o que melhorou com isso?, perguntou-se já no esfriar do momento que lhe rebentava as veias duma vida que ainda a implodia. Entre uma fumaça e outra do cigarro, sentenciou, falando silêncios seus: "Nada. Foi só uma vontade que colei ao céu da boca. Mais nada. Não há mais consequências disso, como não haveria se o tivesse dito. Como nada do que fizemos tem"... e depois, já falando por fora da boca, para que se ouvisse, para se ouvir  "...porque tudo isto afinal é nada."
... Nada, era só o seu sítio, donde parece que nunca chegou a sair quando já se julgava longe e segura, mas onde não há lugar para ela, e ela sabe-o. O sabor amargo que lhe trinca a boca a cada dia que começa, a cada dia que acaba, que não lhe deixa nenhuma dúvida para sonhar. E ela já trincou todos os sonhos - eram amargos.
O cigarro ainda dura, e olha-o queimar-se lentamente na sua mão, o fumo enrola-se como os pensamentos à volta dele, ele era o seu sítio, o lugar certo para ela ser, mas nele não tinha lugar. Para ele ela era um lugar onde ia e voltava, sempre sem regresso e sem volta, ela era o seu passeio, a sua viagem, até o seu regresso eterno, mas nunca casa. O sítio dele não era ela. As geografias que não têm coordenadas geográficas neles não coincidiam, os mapas não se conseguiam alinhar num só norte. A direcção perdia-se de amor, mas não no amor.
E agora, antes de se levantar e restar naquele cinzeiro apenas cinza, pensa em tanta coisa que lhe queria perguntar e dizer, em tudo o que ficou por dizer, tendo-lhe mostrado tudo o que não disse - o que lhe ficou colado ao céu da boca. "Também eu fiquei", diz entredentes, mordendo silêncios penosos e recordando uma das últimas frases dele "Continua linda, por dentro e por fora, e cada vez mais" - e de repente o céu pareceu-lhe um lugar pequenino ao pé disso. E enquanto se afastava, e dizia quase com raiva a si mesma que aquele não era lugar para ela, alguém jura ter-lhe lido nos lábios  "Se ao menos fosse verdade, o único sítio onde viver seria a nossa vida."


« ‘Li e achei que gostarias’, 
‘visita, se alguma vez lá fores’, 
‘se fosses tu, como farias?’, 
‘contigo, não tenho medo de ser ridículo’, 
que cor é esta que só tu e eu vemos?’ 

Afinidades: linhas paralelas que se cruzam antes do infinito. »

(como sempre, mas este, para mim, particularmente delicioso )



[foto @_georgemayer]

Havia nela uma escuridão
que luz nenhuma tapava, 
como uma réstia de noite
que nunca amanhecia. 
Estava-lhe nos movimentos desabridos
onde se fechava, 
no andar ligeiro que lhe pesava,
até no riso franco que nunca sorria...
como que uma dor muda
em cada encanto. 

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

[imagem do filme Pierrot le Fou, de Jean-Luc Godard]

"As respostas que dava a Diotima eram muitas vezes deste tipo. Quando ela falava de beleza, ele falava do tecido adiposo que suporta a epiderme. Se ela falava de amor, ele falava da curva estatística que indica as subidas e descidas automáticas da taxa de natalidade. Quando ela falava das grandes figuras da arte, ele lembrava a cadeia de empréstimos que ligava essas figuras entre si. Tudo começava sempre com Diotima a falar como se, ao sétimo dia da Criação, Deus tivesse feito o homem como a pérola que colocou na concha do mundo, ao que Ulrich lhe lembrava que a humanidade era um montículo de pontinhos sobre a crosta de um globo anão."

Robert Musil, in O Homem sem Qualidades

Oiço muitas vezes que as pessoas não comunicam, e acho que será verdade, mas muitas não comunicam porque os diálogos são afinal monólogos à vez de dois egoístas, e um egoísta tem muita dificuldade de sair do seu próprio umbigo para seguir as palavras até ao outro. Quando dois egoístas falam, nenhum ouve o outro, nenhum ouve para entender o outro, mas tão somente para responder-lhe, e responde do alto do seu umbigo, claro. Curiosamente, se apenas um for egoísta a comunicação dá-se, num sentido; há alguém que entende e alguém que é entendido, há um que sai da sua pele para tentar entender o que estará sob a pele de quem quer entender (é preciso isto, aliás é fundamental, querer entender, conhecer, decifrar o outro), mas nunca as posições se alteram, até ao ponto, até ao extremo, em que um pensa entender o outro e o outro nada sabe de quem o ouve, de quem segue religiosamente as suas palavras até ao seu eu, onde o procura beber ao mesmo tempo que lhe mata a sede, quem o vai vendo e desvendando. E o paradoxo aqui é irónico, quem nunca dá nada, quem nunca se afasta um milímetro de si mesmo e das suas razões, e da sua vida, dá-se inteiro, entrega-se sem saber, porque lhe amparam o ser, porque o ouvem, porque o vêem. Quando deixarem de falar, só um perde - o que me lembra uma frase antiga duma blogger que lia muito "perde sempre mais quem dá menos"... e é tão verdade.
A comunicação não é dizeres palavras a alguém e esse alguém te responder com palavras. Comunicar, conversar, é tentar fazer alguém entender o que pensas ou queres ou sentes, é fazeres chegar ao outro um pensamento, vontade ou sentimento. Do lado de quem ouve a intenção não é meramente ouvir, mas tentar perceber o que lhe querem transmitir, é muitas vezes seguir as palavras que ouve até à boca que as proferiu e daí para a pessoa que nos tenta dizer algo, com a cabeça ou com o coração (ou da confusão das duas). A comunicação é a ponte onde dois que se querem encontrar se encontram, nem sempre a meio caminho, nem sempre sem algum esforço, é certo, mas é onde ambos têm de entrar para se poderem aproximar do outro, sem isso, são apenas dois loucos, cada um em sua margem a ganhar raízes, a berrar para o vazio e a ouvir o seu próprio eco.

A comunicação quando existe, às vezes nem precisa de palavras, porque a comunicação é entender o que o outro nos quer fazer entender. E tantas vezes as palavras soçobram, outras ainda, apenas estragam.

[foto @projetoamoramora]

"O sexo de bom tom, 
aquele em que amor e foda são tão sincronizados que mal se nota a diferença,
aceita o impropério e bebe dele."

... a lembrar-me conversas bem dadas.


terça-feira, 19 de setembro de 2017

[ foto @scrapval]

Talvez não haja receita, talvez a receita se vá fazendo. Juntando isto e aquilo que se gosta, que apetece experimentar, e que no fim se quisermos repetir não saberemos tudo o que fizemos, como o fizemos, qual foi o detalhe que resultou na delícia que não sabemos como aconteceu, ou no tremendo desastre em que se tornou a mistura de tanta coisa que se gosta, mas que não resultou bem.
Há coisas que não se repetem, ficam guardadas, imaculadas, intactas em recantos de nós que nem sempre queremos revisitar, mas queremos repovoar de coisas boas que se vivam a cada dia: as que não têm receita, as que se improvisam ao som do coração, as que vão saindo das mãos, e da alma, sem estratégia, as que nascem sem previsão. Talvez um resultado de nos lambuzarmos e lamber os dedos tenha sempre o condimento da imprevisibilidade, da surpresa, da espontaneidade que nos arranca duma rotina que parece roubar na memória do passado os desejos futuros - aqueles que um dia quisemos e acreditámos, e se foram diluindo em banho-maria num dia a seguir ao outro, sem surpresas.  É a surpresa, aquele brilho do voo que esquece o chão dos pés, o atravessar o que estava riscado, é arriscar tudo de novo de mão solta e atrevida, essa que nos dá de presente o agora - a consciência de estar presente no agora, e sermos sempre agora - que faz do tempo momentos, porque os arrancamos à linha dum dia que se afunda no marasmo de todos os outros. 
O momento que fica cria um sítio onde sabemos que estivemos, que estamos, que a partir daí somos e seremos. 
Que se cozinhe a vida sem receita, sem medida e sem tempo e que o tempo se faça assim, desfazendo-se a cada esquina da rotina, a desafiar a surpresa a rédea solta. Não, não é difícil, é só de vez em quando esquecer os planos, mandar a receita às urtigas, fechar os olhos e deixar os cheiros abrir, abrirem-nos, guiarem-nos os sentidos rumo à vontade de novos paladares que costuramos às escuras, à medida da vida que gostaríamos de ter, sem saber como resultará, mas acreditando que quando se faz algo com amor tudo acabará num sorriso, mesmo que, às vezes, de barriga vazia... mas bolas... de alma inteira, temperada com vontade de trincar e ser trincada.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017


Verdade, tão verdade.
Nem "recíporco", como se dizia na brincadeira, nem sentido, nem vale a pena. 
Só vale a pena o que nos entregam espontaneamente, de vontade. Não se pode forçar amor, consideração ou respeito - cobrar é só mais uma forma de forçar o que não há.

Bom dia.

domingo, 17 de setembro de 2017


[foto @me_and_orla]

A luz de domingo que entra em ternuras pela janela, que nos dá uma sombra branda, como uma penugem que nos protege sem esconder. E o café sabe à languidez dum dia que começa muito antes de despertar, no morno dos lençóis, depois do fervilhar do sonho que nos despedaçou, e agora apenas nos vagueia, sem pressas, no olhar. Como esta luz, como estas sombras. 

sábado, 16 de setembro de 2017


Caminhos cheios de sol, dum lado e doutro, até entre dentes, em oferenda quase tímida, num tango sem faca e alguidar e com patas a mais  :))

sexta-feira, 15 de setembro de 2017


Às vezes na vida cruzo-me com criaturas que me fazem lembrar uma frase que ouvi a um conhecido, que, de tão verdadeira, não mais esqueci: "há pessoas na presença das quais basta estar calado para brilhar". E é verdade.
[mas a verdade é que também não quero brilhar tanto, já chega... ;) ]


Encontrava-se quando a procurava para fugir de si mesmo. 
Desse vazio fez o seu sítio. 
Estimou-o como a um lar, decorou-o como as flores embelezam o cabelo. 
Do vazio fez felicidade que não se procura e de que não se foge. 
Nunca mais o viu.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Quando a pintarolas está noutra zona da casa
 e não vem quando a chamo, fazendo-se de surda,
 e eu estou preguiçosa, abro a porta do frigorífico e ela aparece logo. 
... O som do frigorífico fala mais alto que eu, só pode. 
Ou a surdez é selectiva... ou ela tem a mania que tem vontades, sei lá...