segunda-feira, 6 de novembro de 2017


A luz da manhã entra pela janela mas não nos desperta o dia, trocamos a dormência pelo direito de chamar-lhe sonolência. Enroscamo-nos nos raios de luz e deixamos o dia do lado de fora das mantas, do quente dos sonhos interrompidos, do engano da noite que se esqueceu de dar lugar ao dia por dentro dos olhos, por fora dos sonhos. Fechamos os olhos para deixar a luz do dia entrar devagarinho e amanhecermos sem o susto de existirmos mais a dormir que acordados.

domingo, 5 de novembro de 2017


... these boots are made for walking.
Bora lá.
(Mas não são botas e o som é B. Clementine, combina-me com o dia de hoje)
Bom dia!

sábado, 4 de novembro de 2017



[foto @kat_in_nyc]

Os dias já estão muito mais curtos e as noites mais frescas. A varanda já pede manta, e daqui a nada, eu, lareira. Estava a precisar deste sossego, destetempo só meu, há qualquer coisa que me pede isso, há qualquer coisa em mim que precisa de ser cuidado com tempo e silêncio, peças que precisam encaixar.
Amanhã à tarde café, alguma coisa em mim tem de mudar, sinto que é tempo de qualquer coisa, talvez eu perceba a necessidade só a minha imobilidade não a ouve, há qualquer coisa que falta, só tenho de a procurar em mim, e para isso preciso de tempo e distância. Ando a mastigar a vida e os dias há tempo demais... hoje estou estranha e não sei porquê, falta-me alguma coisa que me falta descobrir o que é. Lembrei-me agora duma frase que uma vez escrevi a alguém, disse-lhe que naquele momento ele era a minha vontade... e é o que se calhar agora me falta, vontade de alguma coisa, para com essa desenterrar todas as outras. Uma pessoa sem vontade é só inércia. Mesmo andando é como se não saísse do mesmo sítio. E tenho de dar lugar a que um novo lugar se torne sítio. Sítios são coisas imutáveis, sem geografia mas com história - é o lugar certo para algo. É onde ficamos presos sem saber porquê. Os lugares ocupam-se quando vazios, e alguns tornam-se sítios para nós. Eu preciso dum novo sítio e preciso de lugar.



As palavras vestem-me
como uma luva,
quando ao longe
te despes de mim.
Se te aconchego,
Ou se te achegas
as palavras esfriam
antes de chegarem aos dedos,
Quentes de ti

sexta-feira, 3 de novembro de 2017


Sexta-feira-quase-noite... 
...assim, com pés e cabeça.
Mas às vezes do avesso, ou de pernas para o ar, ou com os pés pelas mãos, ou mesmo as mãos pelos pés, desde que estivesses sempre ao pé, não vá eu precisar duma mão... ou mesmo duas. Nos sítios certos, ou só no meu avesso. 

[foto @moniblanco]

Na esquina dum eco
A tua voz dobrou-se.
Aninhou-se no vazio
Duma luz apagada.
Perdeu o rasto
Da estrela que nos caiu
Numa rua deserta,
Donde ninguém regressou.

Eu ouvi.

Há certos silêncios
Onde eu oiço tudo.


quinta-feira, 2 de novembro de 2017


... é um tudo que não chega a ser nada.
Como ter a melhor biblioteca do mundo e não saber ler. Como ter a melhor vista sobre a cidade e ser cego. Como ter a melhor e mais bonita casa e não ter com quem viver.
É como guardar dentro o amor mais bonito e, ao mesmo tempo, sentir-se vazio.
É como ser amado e não sentir.
É um tremendo desperdício monumental.
É um quase que não chega a deixar de o ser. 

quarta-feira, 1 de novembro de 2017


[foto @perazna]

Ao acordar da noite das bruxas, coisa para esquecer e correr à vassourada, surge-lhe um anjo à janela, com asas de desejo e todos os pecados de Eva no corpo sublime. As asas que lhe apetecia fazer voar em dedos pela pele, no agarrar a carne, no trincar a vontade, nas mãos cheias de querer, na boca ávida de prazer e cheia de gritos de paixão.
Não se mexe, não dá um passo, não se sabe se por medo ou convicção. Uma certa calma, de passado morno e instalado, ressente-se na alma e pergunta-se apenas, enquanto admira a criatura a que as asas dariam nome de anjo, como o hábito de monge, por que é que certas criaturas nos assombram a existência para mostrar o que não temos e desejamos? E se não fosse um anjo? Se fossem só asas? Se fosse só uma mulher, nem bruxa nem anjo? Uma mulher carregada de pecados que levam ao céu?... Leva à boca um cigarro, o anjo do lado de lá da janela, imóvel, acende-lho, com um único sorriso, malandro e certeiro no olhar dele, a condizer com toda a sua expressão de desafio e tentação, antes de se desfazer do próprio cigarro e bater asas para outra janela, onde os olhos, do lado de lá do vidro, fossem de homem sem medo de bruxas, homem que soubesse aceitar o céu quando lhe oferecem um pedaço num sorriso com pele. E o agarra "comme il faut"

terça-feira, 31 de outubro de 2017



[imagem: Edouard Boubat]

Beija-me como se os teus sonhos ganhassem asas na minha boca.
Beija-me como se a tua liberdade estivesse presa nos meus lábios.
Beija-me como se a minha pele te guardasse a alma.
Beija-me um beijo que são todos os beijos.
Ou não me beijes.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017


[imagem @virgola_]

Segunda de manhã... o ouriço da semana, de chinelos e a rezar por um café que nos mande para (pelo menos) quarta feira... ;))

Bom dia!

domingo, 29 de outubro de 2017

[foto @projetoamoramora]

Se a minha pele for o horizonte da tua alma,
a fronteira entre o sonho e a realidade,
limite divino do profano,
é lá que nos encontramos, 
que (nos) somos,
à margem de todas as leis,
contrabandistas de amor que não se troca.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

[colourfall by Ian Davenport]
Viver sem paixão é (vi)ver o mundo a preto e branco. Ter sido apaixonada, conseguindo ver tons e cores que não se pintam nem explicam, e deixar de o ser, é como ficar cega - é toda uma luz que nos morre nos olhos pela pele. Será adivinhar, inventar, mentir na escuridão as cores que já não temos. Mendiga-se vida entre escalas de cinza, cinzas de paixões queimadas, cores ardidas. Cegueira fria.
Estar com alguém sem paixão é um clássico, a preto e branco, e talvez até mudo. E eu, tão fã de clássicos, clássica em tanta coisa (apelidada tanta vez de quadrada) dispensaria este, neste caso prefiro ser de modas (apaixonadas, arrebatadas, quentes), mas os clássicos são-no porque duram, resistem ao tempo, não têm cor para perder.
Talvez me renda. Mas nunca deixará de ser isso: uma rendição.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017


..."eu sentia uma atracção por todas as coisas erradas (...). Estava instalado no nada: uma espécie de não-ser, e aceitava-o. O que não configurava uma pessoa interessante. Eu não queria ser uma pessoa interessante, era demasiado difícil" , Bukowski, in Mulheres

É engraçado quando nos identificamos com personagens que sendo tão diametralmente opostas a nós, há coisas que simplesmente são absolutamente coincidentes. Eu também me acho instalada no nada e com atracção por o que não me faz bem, acrescendo a tudo isto a certeza de que sempre achei demasiado difícil ser interessante, e talvez por isso sempre desisti muito antes de o tentar. O difícil é quem nos aceite assim, com as particularidades comuns das pessoas que não são, nem se fazem (das que se fazem há aos pontapés, mas vai-se as ver e...), interessantes, e goste, por alguma razão inexplicável, de nós. Em que a única coisa verdadeiramente interessante é esse gostar sem razão, esse gostar terrivelmente genuíno, sentido quase como uma praga ou um destino inquestionável. Talvez o que é genuíno seja interessante duma forma diferente, um interessante em parâmetros não normalizados pela maioria. Uma coisa meia sem rede, sem segurança prevista e revista pelas normas vigentes. Como o personagem, as observações que faz, o que pensa, tornam-no interessante mas completamente fora do interessante da malha social. O problema é que só alguém interessante e diferente o poderá notar: "it takes one to know one"... como uma vez apanhei numa fala do Hank do Californication (uma serie que adorava ver..), que -  parece-me -  foi baseado, em algumas coisas, neste personagem. Aliás no livro alguns amigos chamam-no Hank...

[do livro que andei a ler há uns meses e ficou-me esta nota, entre outras, nos rascunhos...]

domingo, 22 de outubro de 2017

..."o amor nos faz aproximar as coisas, habitá-las, que pelo amor as reconhecemos e que, depois de lhe recebermos a revelação, nada mais é preciso para nos sentirmos vivos."
Fernando Namora, in Domingo à tarde

... pois não, e nada mais parece faltar-nos para estarmos mortos que perdê-lo.
E não ressuscitamos, antes marinamos pelos dias como mortos vivos, umas vezes mais mortos que vivos, outras mais vivos que mortos, mas sempre numa condição em que a vida se sente como um leve murmúrio ao fundo dum túnel escavado em escuridão, que não sabemos se ouvimos ou se sonhamos

[na verdade a etiqueta está errada, não é o livro que ando a ler, já acabei outro depois deste... dias de sossego dão (também) para isso, pôr leituras e pensamentos em dia...]

sábado, 21 de outubro de 2017


E um dia o sossego vem. Não vem para ficar, só para dar umas tréguas à loucura dos últimos tempos. No ar paira o perfume a alfazema, à minha volta só campos de alfazema, oiço insectos a voar por aí e um badalar contínuo vindo do monte, e ainda, nesse longe, consigo adivinhar um cão dum lado para o outro, preto, ou escuro, pelo menos... de resto não se ouve mais nada. Olho este céu azul e penso que há dias, durante muito tempo, o dia não chegou a acordar no céu e as cores eram todas feitas de cinza. Agora as nuvens são brancas e compõem o azul claro do céu. Dizemos que tudo volta ao normal, que o tempo trata de tudo, mas na verdade só nos dá oportunidade de começar de novo noutro tempo, que nunca é igual - traz dentro todo o tempo que foi e já não é.


quarta-feira, 18 de outubro de 2017


[foto @arvin.bahrami1390]

A única altura do dia que me custa passar é o final do dia, quando a luz baixa e se convida a alma a iluminar a noite; quando resolver isso talvez as amarras se soltem, talvez eu fique livre do que nunca me quis prender - do que nunca me quis. Só aí a alma parece ainda querer existir, resistir, ser. Parece que além desse lusco-fusco de alma, nada mais restou, resignou-se a apenas viver naquela réstia de tempo entre a agonia do dia e o raiar da noite escura.
Resolvo abrir as palavras em que me fecho depois dum dia em que as palavras perdem a alma em usos de ferramenta, de arma de arremesso, de arma em dia de guerra. Há guerras demais a travar e pouca alma com que lutar. Ha demasiado cansaço. Demasiados cansaços. A cabeça ressente-se do dia e tento recupera-la tacteando as palavras para ver se há réstias de alma com que conversar. Mas há um silêncio espesso como uma cortina de fumo. Há coisas na vida tão ardidas como o país. 
Tudo há-de renascer.





sexta-feira, 13 de outubro de 2017


Deambulo pelos rascunhos e nada me fala, nada me apetece, trechos que vou guardando, pedaços de livros que vou lendo, alguns têm meses, mas vou-os deixando quietos no mesmo lugar enquanto não houver algo neles que me desperte da preguiça de os decifrar com pensamentos postos em palavras que me saiam de dentro dos dedos. Mas cada texto ou frase ou imagem guardada tem qualquer coisa que vi e pensei mal lhe bati os olhos, algo de mim está lá, mas deixa-se para depois o esmiuçar, o mergulhar em nós através das coisas.  Nem sempre me apetece, às vezes quero apenas gozar e demorar-me nas mundanas superficialidades pragmáticas, sei que virar os olhos do avesso para me ver o lado de dentro obriga-me a sair de mim para me regressar, sair deste mundo para me navegar. Muitas vezes não me apetece, como uma preguiça de me chegar, uma inércia que não deixa enterrar as maos das palavras na alma -nesses dias corro os rascunhos e nenhum me fala. Ou eu vou muda e eles sabem, deixam-me passar e baixam os olhos.
A tentar recuperar rituais de café com palavras na mesa da cozinha, cedinho, para evitar voltar meio sono para a cama, não ceder à preguiça. Há coisas que devo tentar mudar mesmo que não saiba porquê ou para quê... mas porque me falam como se fossem certas.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017


... estou a pensar seriamente em colar isto na porta do meu gabinete. 
Traduzido, para não haver desculpas, nem queixas por agressão... 

terça-feira, 10 de outubro de 2017

[foto: um mimo vindo de longe :) ]

"Mando-te uma foto com a Olvido junto ao Reno, um rio magnífico cujo significado segundo a Wikipedia  é de origem celta e significa "fluir". Lindo, não achas?"

Acho. Tudo. Haver pessoas como tu, que se me tornam próximas por me ler há anos e daí passarmos a trocar mails porque os blogs acabam e mudam-se e podíamos perdermo-nos neste espaço e eu não queria :), e tu, tu teres sempre uma atenção carinhosa, fotografias que me chegam cheias de carinho e me fazem pensar que a vida deve mesmo ter um sentido qualquer que estará escondido nas pessoas com que nos cruzamos e guardamos e nos guardam com carinho e amizade. E sim penso que não devo andar a fazer tudo mal... 
Adorei a concha baptizada de Olvido junto ao rio que corre ao longo do seu olhar, e que significa "fluir", talvez de tanto fluir o esquecimento que desejo também siga caminho para longe. O tempo, como o rio, flui sempre. E é bom que nesse fluir me cheguem palavras como as que recebi recheadas de fotos de partilha :) 
Obrigada, Nanda, minha querida. Soube-me tão bem o mimo :))
Um dia vamos abraçar-nos, sim?