segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Esquecer como quem apaga um cigarro. Fechar a gaveta das memórias, asfixiar as perguntas com outro ar, ar novo, ar limpo - elas hão-de desistir e calar-se. 
Às vezes é preciso coragem para deixar de querer, para acreditar que o que vier, novo e diferente, vai ser um amor melhor, correspondido em atitudes e conteúdo, igualmente intenso, ou mais. Que o medo que paralisa o novo, que foge de todo o risco, que afasta todas as (boas) tentações, é apenas a resignação ao que não nos serve, ao que já não nos serve, por medo de ficarmos pior servidos. Então engolimos o que não gostamos sem mastigar, apagamos o que nos entristece como se nunca tivesse existido, enganamo-nos descaradamente amarfanhando a prova dos nove por fazer, fazemos de conta que o que não nos serve não conta, que o que conta é do que estamos servidos...
No outro dia ouvi em qualquer lado que o amor não tem de ser simples, mas não pode ser tão difícil que se torne impossível de viver com vontade de recordar  - ou em que sejamos obrigados a amputar a memória para sobreviver ao que esse amor exigiu de nós. Todas as amputações trazem dores fantasma, que se sentem tanto ou mais que as outras, as que se podem curar, as que podemos medicar, as fantasmas nada as contraria, apenas nos assombram o presente a cada dia comido ao futuro.

domingo, 1 de outubro de 2017


... bastante. Quando não há alternativas e o que te resta é tentar escolher o menos mau, mas sabendo que é tudo demasiado mau... e o que quer que resulte será supostamente uma escolha democrática, que deveria ser também, de certa forma, um resultado justo julgado por todos. Enfim... é o que temos...

sexta-feira, 29 de setembro de 2017


Say hello and wave goodbye

Esta sexta foi tão rápida, há coisas tão rápidas, que mal se diz olá já estamos a dizer adeus... Mas esta frase, duma música que gosto muito, lembra-me que para ter umas coisas não se podem ter outras. Há coisas que se podem acumular, outras não, as que se podem acumular não têm de se escolher. Se se escolhe uma coisa, abdica-se de outra. Se se diz adeus a algo, fica-se na sua ausência. Não se pode querer tudo, ficar com tudo, não abdicar de nada. Escolher uma coisa e achar que, ao mesmo tempo, escolhe também não perder a outra.  Não se pode ter tudo, por isso se escolhe. Não vale escolher e querer também o que não se escolheu, como se não houvesse escolha - como se não tivesse havido uma escolha.

Say hello and wave goodbye

quinta-feira, 28 de setembro de 2017



O horizonte parece estar hoje feito por camadas, faixas de cores que se sobrepõem como que riscados quase a régua. À medida que o tempo se curva as diferenças vão-se esbatendo, até tudo ser apenas um manto escuro que abraçará as estrelas e em si as prenderá. O rádio despeja música e eu oiço-me em silêncio. Faço desta janela de tempo a ponte para a escuridão da noite. Deixo o dia repousar e o sangue abrandar. Não me surpreende o silêncio, as palavras recolhem-se, guardam-se em pensamentos já mastigados que não alimentam ninguém.
Há um gato branco sentado no muro, virado de costas para o dia a despedir-se... se  um gato preto dá azar, será que este dsará sorte? E a quem?

I did. 
Mea culpa.
(...mas toda a gente se engana de vez em quando...)

quarta-feira, 27 de setembro de 2017


Aqui à minha frente, a pintarolas e os seus fenomenais penteados de orelhas... e a meiguice, a traquinice, o olhar que fala, o procurar os meus pés para abrigo e almofada, tudo isto é ela... Nunca ninguém ficou tão contente de me ver, nunca me fizeram uma festa tão grande só de me avistar. E no entanto estou sempre a dizer-lhe para não me saltar porque me arranha toda, e dou-lhe uma palmada quando resolve ir buscar uma meia nos dentes para me presentear a chegada. Sou uma bruta, isto de ter de a educar às vezes é duro, tenho de ser mais dura do que sou, senão tornar-se-á um desatino viver com ela. Agora, a olhar para ela e a fazer-lhe umas festas antes de irmos dormir, dei por mim a pensar que foi dos melhores conselhos que me deu, para arranjar um cão, e foi a melhor coisa que eu fiz. Mas, ao mesmo tempo, é um nó que aperta a alma, olhava para ela e pensava: se lhe acontece alguma coisa não vou querer mais nenhuma. Nenhuma será assim, nenhuma terá a história que já temos, por nenhuma mais vou dormir duas ou três noites no sofá da sala porque ela não se calava e não sabia ficar sozinha - ainda agora é um martírio... Depois desta não vou querer mais nenhuma. É uma chatice gostar-se de alguém. Roubam-nos partes que não sabíamos que tínhamos, trazem-nos dentro, recantos nossos que nos revelam e descobrem, como há tempos escrevi. Esta já é um recanto meu, doce e difícil, mas já é meu, não quero mais cantos meus desalojados de mim. Se tudo correr normalmente há-de a minha filha sair de casa e esta pintas ainda me ficar a roer as noites aos pés. E depois? Quando esta me abandonar também não quero mais nenhuma. É tão difícil arrumar recantos cheios de coisas nossas, coisas que gostamos, que cresceram em nós, que se fizeram nós. Nós que depois perdem o caminho do desatar. Serei assim em tudo? Quando encontro algo que sinto único trato-o como único? E não sei ainda como substituir únicos, só aprendi a viver sem eles. Não quero coisas únicas que fazem ninho em mim, quero o que não me entre dentro porque não sei deitar fora... A não ser, talvez, a vida. Essa deito fora para manter o que tenho dentro. É uma chatice e não serve para nada. Mas as coisas mais bonitas nunca têm utilidade, senão sentirmo-las bonitas e isso nos fazer sentido em todos os sentidos, menos no ter de ter um sentido.
[foto @brotherside]

De vez em quando
o direito e o avesso confundem-se. 
De quando em vez
o avesso é o direito, 
e o direito o seu avesso.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

[foto @_georgemayer]

Ele dizia-lhe que ela era inteligente, racional e lógica, mas depois, depois tinha uma parte ilógica, irracional e estúpida... mas linda. Ela, de rajada, respondeu-lhe que essa era a parte nela dele, e viu-o desconcertado, sem perceber ao certo o que o tinha atingido.

(essa parte era a parte brilhante, resplandecente, sol de qualquer sombra, a parte que não tinha margens, a que podia mudar o mundo dela e dele se ele quisesse, a que não se submetia, a louca, a sã, a que sabia ser feliz, a única que podia ser infeliz, a parte que era o todo, que estupidamente se sobrepunha a tudo, ou quase)

Ela ficava a pensar em tantas coisas que já lhe tinha ouvido, das que doem e das que moem felicidades passadas em gravilha debaixo dos pés descalços, mas não o odiava, e dizia-o a si mesma, repetindo a frase que a ele lhe ouvira vezes sem conta "eu não a odeio"... mas a ele ela tinha-lhe raiva muitas vezes, algumas muito tempo, tinha-lhe raiva pela única coisa de que não era culpado: não a amava. E agora, olhos na sombra, postos na linha do horizonte, ficava a pensar que nunca descobriu se essa parte, essa raiva, era racional porque tinha (muitas) razões, ou apenas outra forma de o amar (de)mais, fruto dessa insanidade sem tréguas de amar estupidamente e longe de qualquer razão.

Dedicado a todos os optimistas que acham que realismo é pessimismo, e que tentativa de gestão de expectativas " é atrair o mal" e que se só pensarmos coisas boas e positivas só acontecem coisas boas e positivas (no limite)... este (com muita piada) é para vocês... giraç@s ;)))

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

palavras que caem entre os lábios de um beijo
beijando o abismo da felicidade sem nome,
 dos voos sonhados sem pé
que trazem o amor pela mão

[foto @in_somnia_]
De todos os feitios e cores, há para todos os gostos.
Pendurar o Outono no estendal e esperar que seque. Que aconteça. Há coisas que basta esperar, outras, esperando apenas, nunca acontecem.... era bom pendurar a vida na corda e ficar à espera que ela acontecesse, mas não funciona assim ( eu sei disso mas ando a fazê-lo há tempo demais, já não sei o que fazer à vida nem ela o que fazer comigo..)

Bom dia

domingo, 24 de setembro de 2017



Dia de sol, dia de começar livro novo, dia de vestir se calhar pela última vez  vestido de verão, leve e quase esvoaçante. 
Ontem li no  xilre que "toda a uva está cheia de vinho",  fiquei a pensar nisso, tudo o que poderemos vir a ser já faz parte de nós. Não era esta a conclusão ou a ideia do post, mas foi o que me ficou a marinar nos momentos parados, como conclusão minha. Cada uva pode tornar-se vinho. Pode acontecer que aconteça ou que não aconteça, mas nunca seremos algo que não temos já dentro. O que quer que sejamos um dia já estás em nós, adormecido, escondido, por descobrir, por desenvolver, maturar ou fermentar. Mas está cá. Ainda assim, toda a uva está cheia de vinho, mas algumas só chegam à mesa com casca e comem-se com as mãos. E há as uvas para quem isso chega e haverá aquelas que se não forem um dia servidas em fino copo, não percebem o sentido de terem nascido. 
Tudo o que eu vier a ser já sou hoje, tenho-o cá dentro de alguma forma, como aquilo que sou hoje já o guardava de antes. Como se fossemos descobrindo gavetas da alma que vamos abrindo, não sei se depois as conseguiremos fechar sem perder o sentido de a vida as ter aberto e vivido e mostrado, para, no fim disso tudo, ficarem fechadas. Mas a questão é que a nunca conseguimos fazer casa que não em cima das nossas fundações, dos nossos pilares, do que somos e queremos, nada disso tem alterações de fundo (as pessoas não mudam muito, ou não mudam de todo). O que viermos a ser, na verdade, já o somos, nós vimos sempre ao cima de nós próprios, mesmo que o tentemos contrariar, ou abafar. Só temos de nos reconhecer, depois disso, continuar a insistir em contrariá-lo, é asfixiarmo-nos em infelicidades várias. E isto é uma conclusão chata para mim, só vos digo.

sábado, 23 de setembro de 2017


[Um dia de cólera, Arturo Perez-Reverte (diálogo entre participantes da revolta que foram abandonados pelo resto dos militares e compatriotas fiéis aos invasores, para serem fuzilados)]

... o livro é violento e por demais repetitivo, porque não é ficção nem romance, é o que foi a realidade - com nomes intermináveis e factos por romancear - e mostra-nos o que gente determinada e corajosa, quando espezinhada e humilhada, sabe ser digna e forte, com um sentido de honra que poucos diriam ou sonhariam ter... A questão é que quando nos pisam os calos a sério, quando somos injustiçados, ou quem nos é próximo, achamos que já nada há a perder, e as pessoas mais perigosas são as que não têm nada a perder. É assim a história de 2 de Maio em Madrid, Um dia de cólera, como o intitula Perez-Reverte, o meu padrinho de baptismo... que relata a sequência de factos que um punhado de gente com tudo no sítio - militares e civis, homens e mulheres - iniciou batendo-se pelo que acreditava, pela sua dignidade, honra e independência. E pronto, isto raramente corre bem para os bons, morrem todos, ou quase,para depois ficarem heróis, até hoje, e para servirem de exemplo ao resto do país que depois começa a guerra da independência, tanto que até a nós depois nos chegou... e dum lado e doutro lá levaram um chuto no cu os francius emproados. E é assim, morre-se mas serve-se de exemplo, o que deve ser um grande consolo, realmente... mas a questão, a questão é sempre a mesma, há alturas em que não se sente alternativa possível (mesmo que haja, não se sente como possível, exequível), e vai-se com tudo o que se tem, porque chega-se ao ponto de que viver, ou assentir em viver, de determinada maneira é contra natura e, ou se batem para viver como querem, ou nem gente se acham no espelho. E então sentem não ter nada a perder. Não ter nada a perder é o gatilho mais forte e perigoso do ser humano, é a sobrevivência.

[foto @zynp]

Cenários de fim de semana, luz que não fere, cores que não gritam, um tempo que corre ao som da música que relaxa e faz o corpo, de quando em quando, acordar num movimento que o desperta. Ainda nos lençóis, com a cabeça enfiada entre as páginas dum livro a acabar (que não me prendeu e se arrastou, mas gosto de acabar o que começo), porque há uma decisão de amanhã começar outro, porque houve outra, que não a deixou descansar, a dizer que isto de não ter tempo, ou disposição, para ler não pode ser; já há uma calha cheia de livros para me dissolverem a vidinha noutras vidas em que mergulhar e vibrar. Faltam 30 páginas... é um tirinho agora. Acabam-se daqui a pouco na esplanada do costume a aproveitar as tardes que ainda são boas sem ser frias... mas antes um banho e roupa de fim‑de‑semana que é um conceito tão aconchegante, livre, bom.

Bom dia

sexta-feira, 22 de setembro de 2017


Se prendermos o sol atrás dumas grades, ele deixa de brilhar?

Se empurrarmos o sol horizonte abaixo, ele deixa de arder?

Se não o encontrarmos à noite, ele deixa de existir?

O sol brilha, arde, porque é a sua essência, mais do que mera existência.

A essência é o que, apesar de tudo e qualquer coisa,

resta sempre, permanece, define para lá da existência.

É o infinitivo que nos decompõe em pequenos finitos muito pessoais.



[imagem @jesuso_ortiz]

...Outono!!!... ahhh coisa boa vestida de lobo mau... 
Os príncipes encantados, o tempo sempre quente, o sol radioso...
 são sobrevalorizados, só vos digo ;))))

Bom dia!

quinta-feira, 21 de setembro de 2017



Houve uma altura em que simplesmente se rendeu, deixou-se escorregar pela vontade até ao desejo, à tesão que domina o momento e o inflama - cedeu ao que lhe apetecia. Esqueceu tudo o resto que não lhe apetecia, apagou o resto do mundo entre um sorriso e um murmúrio de prazer - esse abismo estreito e sem fundo em que os dois mergulharam -, sucumbiu a si mesma, ao que ainda tinha dentro, no espanto e susto de saber que ainda tinha aquela força, aquela estupidez tremenda... por afinal descobrir, entre ternuras e carinhos que lhe apagavam a memória, que se estava a marimbar se ele gostava ou não, se a amava mesmo ou só a brincar, porque, ali e agora, ela tinha a certeza de que tinha falhado redondamente em convencer-se de que já não o amava, de que "aquilo" nunca voltaria a ser mais forte que ela. E foi talvez nesse momento, nesse preciso momento que teve de coser a boca para não lhe dizer que o amava, porque lhe apeteceu dizê-lo, apeteceu-lhe gritá-lo e calar o silêncio das folhas que cantavam brisas do lado de fora - mas não disse e, sim, achou que não o devia ter dito, mesmo depois de o ter deixado por dizer... Ao menos isso fez bem- confessou-se - ou talvez não, concluiu logo a seguir. Afinal o que melhorou com isso?, perguntou-se já no esfriar do momento que lhe rebentava as veias duma vida que ainda a implodia. Entre uma fumaça e outra do cigarro, sentenciou, falando silêncios seus: "Nada. Foi só uma vontade que colei ao céu da boca. Mais nada. Não há mais consequências disso, como não haveria se o tivesse dito. Como nada do que fizemos tem"... e depois, já falando por fora da boca, para que se ouvisse, para se ouvir  "...porque tudo isto afinal é nada."
... Nada, era só o seu sítio, donde parece que nunca chegou a sair quando já se julgava longe e segura, mas onde não há lugar para ela, e ela sabe-o. O sabor amargo que lhe trinca a boca a cada dia que começa, a cada dia que acaba, que não lhe deixa nenhuma dúvida para sonhar. E ela já trincou todos os sonhos - eram amargos.
O cigarro ainda dura, e olha-o queimar-se lentamente na sua mão, o fumo enrola-se como os pensamentos à volta dele, ele era o seu sítio, o lugar certo para ela ser, mas nele não tinha lugar. Para ele ela era um lugar onde ia e voltava, sempre sem regresso e sem volta, ela era o seu passeio, a sua viagem, até o seu regresso eterno, mas nunca casa. O sítio dele não era ela. As geografias que não têm coordenadas geográficas neles não coincidiam, os mapas não se conseguiam alinhar num só norte. A direcção perdia-se de amor, mas não no amor.
E agora, antes de se levantar e restar naquele cinzeiro apenas cinza, pensa em tanta coisa que lhe queria perguntar e dizer, em tudo o que ficou por dizer, tendo-lhe mostrado tudo o que não disse - o que lhe ficou colado ao céu da boca. "Também eu fiquei", diz entredentes, mordendo silêncios penosos e recordando uma das últimas frases dele "Continua linda, por dentro e por fora, e cada vez mais" - e de repente o céu pareceu-lhe um lugar pequenino ao pé disso. E enquanto se afastava, e dizia quase com raiva a si mesma que aquele não era lugar para ela, alguém jura ter-lhe lido nos lábios  "Se ao menos fosse verdade, o único sítio onde viver seria a nossa vida."


« ‘Li e achei que gostarias’, 
‘visita, se alguma vez lá fores’, 
‘se fosses tu, como farias?’, 
‘contigo, não tenho medo de ser ridículo’, 
que cor é esta que só tu e eu vemos?’ 

Afinidades: linhas paralelas que se cruzam antes do infinito. »

(como sempre, mas este, para mim, particularmente delicioso )



[foto @_georgemayer]

Havia nela uma escuridão
que luz nenhuma tapava, 
como uma réstia de noite
que nunca amanhecia. 
Estava-lhe nos movimentos desabridos
onde se fechava, 
no andar ligeiro que lhe pesava,
até no riso franco que nunca sorria...
como que uma dor muda
em cada encanto. 

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

[imagem do filme Pierrot le Fou, de Jean-Luc Godard]

"As respostas que dava a Diotima eram muitas vezes deste tipo. Quando ela falava de beleza, ele falava do tecido adiposo que suporta a epiderme. Se ela falava de amor, ele falava da curva estatística que indica as subidas e descidas automáticas da taxa de natalidade. Quando ela falava das grandes figuras da arte, ele lembrava a cadeia de empréstimos que ligava essas figuras entre si. Tudo começava sempre com Diotima a falar como se, ao sétimo dia da Criação, Deus tivesse feito o homem como a pérola que colocou na concha do mundo, ao que Ulrich lhe lembrava que a humanidade era um montículo de pontinhos sobre a crosta de um globo anão."

Robert Musil, in O Homem sem Qualidades

Oiço muitas vezes que as pessoas não comunicam, e acho que será verdade, mas muitas não comunicam porque os diálogos são afinal monólogos à vez de dois egoístas, e um egoísta tem muita dificuldade de sair do seu próprio umbigo para seguir as palavras até ao outro. Quando dois egoístas falam, nenhum ouve o outro, nenhum ouve para entender o outro, mas tão somente para responder-lhe, e responde do alto do seu umbigo, claro. Curiosamente, se apenas um for egoísta a comunicação dá-se, num sentido; há alguém que entende e alguém que é entendido, há um que sai da sua pele para tentar entender o que estará sob a pele de quem quer entender (é preciso isto, aliás é fundamental, querer entender, conhecer, decifrar o outro), mas nunca as posições se alteram, até ao ponto, até ao extremo, em que um pensa entender o outro e o outro nada sabe de quem o ouve, de quem segue religiosamente as suas palavras até ao seu eu, onde o procura beber ao mesmo tempo que lhe mata a sede, quem o vai vendo e desvendando. E o paradoxo aqui é irónico, quem nunca dá nada, quem nunca se afasta um milímetro de si mesmo e das suas razões, e da sua vida, dá-se inteiro, entrega-se sem saber, porque lhe amparam o ser, porque o ouvem, porque o vêem. Quando deixarem de falar, só um perde - o que me lembra uma frase antiga duma blogger que lia muito "perde sempre mais quem dá menos"... e é tão verdade.
A comunicação não é dizeres palavras a alguém e esse alguém te responder com palavras. Comunicar, conversar, é tentar fazer alguém entender o que pensas ou queres ou sentes, é fazeres chegar ao outro um pensamento, vontade ou sentimento. Do lado de quem ouve a intenção não é meramente ouvir, mas tentar perceber o que lhe querem transmitir, é muitas vezes seguir as palavras que ouve até à boca que as proferiu e daí para a pessoa que nos tenta dizer algo, com a cabeça ou com o coração (ou da confusão das duas). A comunicação é a ponte onde dois que se querem encontrar se encontram, nem sempre a meio caminho, nem sempre sem algum esforço, é certo, mas é onde ambos têm de entrar para se poderem aproximar do outro, sem isso, são apenas dois loucos, cada um em sua margem a ganhar raízes, a berrar para o vazio e a ouvir o seu próprio eco.

A comunicação quando existe, às vezes nem precisa de palavras, porque a comunicação é entender o que o outro nos quer fazer entender. E tantas vezes as palavras soçobram, outras ainda, apenas estragam.