segunda-feira, 17 de julho de 2017

....ahhhhhh não há nada como começar a semana com boas notícias!!!
ehehehhehe
...também devia haver destas notícias de estudos que se debruçassem sobre a temática do café, conjugando as duas, a  probabilidade de uma pessoa ficar cá para semente devia aumentar consideravelmente.... 
(talvez eu assim deixasse de fumar, se há coisa que me assusta é viver para além da conta razoável...)

Bom dia!

domingo, 16 de julho de 2017



[foto @tarasovm]


Chocalhos de azul
Trocos do mar
Que guarda nos bolsos
O mar que me dá o troco
Das lágrimas a mais que lhe entreguei

Chega de sal... então
Dá-me o troco em sussurros
guardados baixinho dentro de búzios
Que se ouvem sempre
Para lembrar os segredos
Que entregámos ao mar 
para nos trazer o que foi, o que fomos
... E ele esqueceu, 
Para não nos lembrar.

Trocos de lágrimas que já não choramos.
Chocalhos de ondas
Que nos lembram
O que vai
E o que há-de vir
Molhar-nos os pés de azul


... dos domingos de luz que entra branda pela janela, 
que nos desperta devagar, 
que nos faz aconchegar sorrisos entre sombras e ajeitar a pele entre os lençóis, 
como quem recorda a frescura da água e o marulhar bom do mar que nos espera...

Bom dia 

sábado, 15 de julho de 2017


Aqui à espera do café (sem açúcar, como diz o Xilre, é coisa de que nunca mais se regressa...) pus-me a olhar para o vestido cortinado... não é propriamente coisa que normalmente combine comigo, mas não sei porquê (talvez vontade de mudar, sei lá...) resolvi comprá-lo. Ainda guardado no saco, numa noite de saída com irmão e amigos, vi uma mocinha vestida com um igual. Aproveitei para fazer uma sondagem... olha lá mano que achas tu daquele vestido? É muito tipo cortinado? Vira-se uma amiga e avisa-o " cuidado com o que respondes, isto é pergunta com armadilha... o meu irmão responde acho que nem para cortinado da casa de banho pah... depois mais outras respostas dentro do género, até que pronto, confessei: comprei um igual... a melhor reviravolta de tentativa de resposta foi "ahh para cortinado é horrível mas para vestido até fica bem..." ahahajahah bom, foi risada total. 
Não o troquei e já o vesti duas ou três vezes, talvez continue a não combinar muito comigo, mas combina com um dia de sol quente de fim de semana. Tipo hoje. Talvez combine com aquilo que eu gostava de combinar.

(Outra memorável foi do meu irmão: "...vê lá se alguém se engana na janela e tenta abrir o cortinado errado... vê lá, vê lá...")

... e nunca mais alguém o viu...
Puffff

Bom dia!

sexta-feira, 14 de julho de 2017

[Foto @projetoamoramora]

(coisa mai'linda de se ler... do Eros)

[...dois corações: 
um era teu inteiro e perdeste-o;
o outro era teu mas nunca o tiveste no sítio,
 (como tanta coisa...)]


Era bom que tudo na vida viesse assim: com um roadbook e cerejas frescas para refrescar os lábios e sumos para morder por dentro da boca. Tudo isto em dias de céu azul e cenários dourados a passarem à velocidade de nos fazerem bater o coração um pouco mais além, ao lado de quem nos aconchega a meninice um pouco mais perto.
Gosto de cerejas como de conversas, da velocidade que arrepia a pele e do vagar que embala o olhar, do sol como do frio que pede lareira. Gosto de gostar de coisas e às vezes acho que já não gosto a sério de nada. 
É possível desacreditarmo-nos da beleza? Das coisas, das pessoas, dos sorrisos francos, do que se sente sem querer sentir?

Bom dia!

quarta-feira, 12 de julho de 2017


Há moças que por muito que façam, por muito que frequentem semanalmente cabeleireiros e afins, não têm como disfarçar... pronto... aquela falta de qualquer coisa... Mas não faz mal, compensam noutras. Algumas vê-se claramente poderem ter sido casos de sucesso a fazer carreira na publicidade: há dias em que parecem uma esfregona, noutros têm um ar mais levezinho... parecem um espanador vaporoso e bastante despenteado (é com certeza do pó que têm de espanar, mas dizem que é do vento que apanham com a velocidade dos dias...), noutros parecem sobreviventes dum choque com um aspirador (provável choque frontal a velocidade moderada, vá)... é isso, há pessoal que nitidamente passou ao lado duma carreira de sucesso em publicidade de artigos auxiliares de limpeza, mas de luxo, claro - sempre tudo de luxo e de primeira qualidade - a erudição em matéria de limpeza... O cabeleireiro semanal, as unhas sempre bem encomendadas, as mãos e os pézinhos, sempre com o esfreganço em dia, estão lá para o atestar...

tssss tssss, Olvido aiiii
(há dias em que também me dá para isto, chega a todos ou quase... esta saiu-me agora por ver esta imagem, sempre dá para rir... enfim, podia ser pior... ou não...)



Será que os olhos esgotam a beleza? Como se a sorvessem do prato estendido na paisagem? 
Será que depois de muito saborearem aquela beleza, todos os dias ali à mão do olhar, enjoam? Deixam de se nutrir dela? Deixa de ser bela? 
Será que um dia, se esta beleza me inundar os olhos todos os dias, eu vou deixar de sentir o dourado das searas a pentear-me os sentidos?... e as sombras das árvores já não vão parecer fugir-lhes dos pés, esticando-se lânguidas e vagarosas - como duram os momentos saborosos -, rastejando-se, sempre rasas ao horizonte, no final do dia como quem se abandona devagar para mergulhar na essência da noite, tão absorvente?
Será que o olhar se habitua à beleza como à luz ou à escuridão?... até mal dar por ela, até já não saber que é bela? 
Será que estamos condenados ao cansaço de tudo o que gostamos? Será que um dia olhamos e já não vemos nada que nos acorde a alma, que nos desperte vida, como um dia se sentiu olhando exactamente a mesma paisagem?
Não quero. Quero apaixonar-me por alguma coisa a vida inteira. Alguma coisa que na minha vida possa ser paixão inteira.

sexta-feira, 7 de julho de 2017


Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro
Ergo as pálpebras e tudo volta a renascer
(Acho que te criei no interior da minha mente)

Saem valsando as estrelas, vermelhas e azuis,
Entra a galope a arbitrária escuridão:
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.

Enfeitiçaste-me, em sonhos, para a cama,
Cantaste-me para a loucura; beijaste-me para a insanidade.
(Acho que te criei no interior de minha mente)

Tomba Deus das alturas; abranda-se o fogo do inferno:
Retiram-se os serafins e os homens de Satã:
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.

Imaginei que voltarias como prometeste
Envelheço, porém, e esqueço-me do teu nome.
(Acho que te criei no interior de minha mente)

Deveria, em teu lugar, ter amado um falcão
Pelo menos, com a primavera, retornam com estrondo
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro:
(Acho que te criei no interior de minha mente.)


Sylvia Plath
Tradução de Maria Luíza Nogueira

[cerro os olhos... e queria morto o meu mundo inteiro - o que criei a partir de ti, contigo dentro da minha mente. nenhum existe, mas a mente persiste. mente.]

quinta-feira, 6 de julho de 2017


(...)
Excuse me for a while,
Turn a blind eye
With a stare caught right in the middle


Have you wondered for a while
I have a feeling deep down?
You're caught in the middle

If a lion, a lion roars would you not listen?
If a child, a child cries would you not forgive them?

(...)

[...das heranças boas que algumas pessoas deixam sem deixarem  com a partida mágoa ou dor ou nada de muito fundo, talvez o segredo seja mantermo-nos apenas à tona dos afectos, onde nunca pode faltar o ar, ou então, então poderemos precisar de ser fortes porque há coisas bem fundo em nós que custam a partir muito depois da partida de quem as começou e cultivou e cativou. Depois é preciso aprender a viver nas profundezas de nós, e a profundidade é sempre solitária. Ou quase sempre.]
ahahahhahahaha...
oh pah desatei-me a rir...
... se bem que com a qualidade "que assiste" (como dizia o outro) a muitos dos nossos jornalistas, ainda iam conseguir estragar o título. Há um exemplo caricato cá no jornal do burgo onde se lia "faltou a luz na rua Visconde da mesma"... 
Bom dia!

(há que rir, que eu já não me lembro da última vez que me ri com vontade de dentro mesmo... e temos de começar por algum lado) 

quarta-feira, 5 de julho de 2017


[foto @kat_in_nyc]


A lua está grande e meia amarelada, baixa, quase a bater nas luzes quentes da cidade alta. Ouve-se uma mota ruidosa ao fundo da avenida e pessoas na conversa no Avenida. Aqui, vejo e oiço o que os olhos e ouvidos me dão e, como com tudo o resto, nada faço com isso, sou um corpo condutor de coisas do mundo - passam por mim e não ficam  (ainda que algumas me fiquem... dou por mim a sussurrar-me entre os dedos das palavras que aqui calo). 
Onde está a minha voz e o meu grito no meio do ruíudo surdo do mundo? Onde está o grito se a alma já não fala nem cala, se desaprendeu a respirar na asfixia das noites trémulas de luar? Onde está a luz, se os olhos já não vêem e a lua não grita na pele?... Até o cigarro já se calou.


terça-feira, 4 de julho de 2017

[foto @olheosmuros]

... nope.
 Foi.
 Já não é. 
Há que manter a dieta.

segunda-feira, 3 de julho de 2017


[foto @parkwaydrive9]

Procuro-me nos postais de paisagens óbvias de desertos que já foram oceanos, perco-me na névoa dos dias claros como quem entra num labirinto à procura dum mapa. Sei onde quero ir, não sei por onde chegar. E não chegando não me sei. Sei que o mapa sou eu e o labirinto sou eu, mas não sabem um do outro e eu não sei onde pus a chave dos dias que trazem no horizonte os versos que os sobrepõem e me destrancam para o que sempre fui. O reverso do verso é a poesia dos dias que me escorre por entre os dedos.
Onde é que está aquela camada de instantes que nos contém e estende ao mundo? Que é pele que sente o por fora e fala por dentro? 

domingo, 2 de julho de 2017


Do mood que se quer domingueiro, com cores assim, tranquilas, leves... ainda que nem sempre seja assim, só de olhar para isto sossega-me o olhar.
(Não encontrei autoria)
Bom dia :)

... depois, às vezes, uma pessoa até fica tentada a acreditar que realmente deus existe... ... valhamedeus... e se existir que se manifeste (também) assim. Amén.

sábado, 1 de julho de 2017



"Mas como é que uma pessoa pode abrir os olhos quando os olhos já estão abertos?"
Paul Auster, Homem na escuridão 

[... Sim, como? Disseram-me muitas vezes que depois de ter aberto os olhos era muito difícil voltar a fecha-los para a realidade que se viu, como se nada se tivesse sabido e visto (mas até isso foi, também, mentira), mas e como despertar o espírito quando já vimos o que havia para ver, mas isso não parece fazer-nos acordar para essa realidade como realidade?]


...isto deve ser para me lembrar que devia ter ido trabalhar hoje à tarde, mas deu-me a inevitabilidade da preguiça aliada à susceptibilidade da procrastinação... a modos que peguei na tracção às quatro e viemos tomar café à esplanada das leituras... dois kms para cá, daqui a bocado mais dois para lá. Entretanto, entre a vinda e a ida, o café continua sem açúcar. Não há nada como as decisões não serem decididas, aparecerem-nos por dentro, simplesmente como evidências. Assim são tão naturais que não custam. Às vezes parece incrível... porque não é com tudo assim? Com todos os açúcares?

sexta-feira, 30 de junho de 2017


Lua

Habita o sonho
Desabita a vida

Habituada a ver
Desabituada de tocar

Tão dentro da alma
Tão longe da pele


quinta-feira, 29 de junho de 2017


... acredito pois... às vezes a razão é sermos estúpidos...
Há fases más e outras não... pior é quando já estamos no ponto de não distinguir umas de outras... algo vai mal, já não é uma fase é o quadro todo...
[foto @me_and_orla]

Chegou a casa com o sol a debruçar-se sobre o horizonte, poisa as chaves, a carteira e a pasta carregada de papéis, desce dos saltos - primeiro um, dois passos à frente o outro. Descalça encaminhou-se para a porta de vidro que lhe pareceu mais pesada que em qualquer outro dia. Lentamente correu-a e a brisa logo caminhou pela sala levando parte do peso que lhe curvavam os ombros desde manhã. A madeira do alpendre, debaixo dos pés, ligeiramente aquecida pelo sol que insistiu em embrenhar-se durante todo o dia, criava um conforto mono a cada passo. Sentou-se no cadeirão e poisou o olhar no horizonte, procurando deixar-se lá. Fechou os olhos, tentando abandonar-se, evadir-se de pensamentos, esvaziar-se de quotidiano, e vazia deixou-se ficar na escuridão das pálpebras descidas, ouvindo apenas a sua respiração e o chilrear dos pássaros que não via. Deixou-se estar, tentando saborear uma paz que lhe era sempre fugidia de tão ilusória. Lembrou-se da frase que lhe surgira durante o dia enquanto os saltos calcorreavam a calçada na correria a que ultimamente se dedicava, "pensas logo existes", e ela, num curto circuito de palavras, apanhou um pequeno choque quando o contrário se iluminou: quem pensa não tem tempo para existir: existe menos. As existências não pensadas existem melhor, e mais. E agora, ali descalça, de olhos fechados, queria apenas existir não pensando. Reduzir a existência apenas à essência de ser, se pudesse ser. Um sorriso pareceu assomar-lhe os lábios, como a brisa que levemente remexeu as folhas da árvore que lhe invadia o alpendre todas as primaveras, mas de que mal se dava conta. A respiração pareceu distrair-se, já não dava por ela, e nesta distracção surpreendeu-a o pulsar do coração fora do sítio... sentia o coração nas mãos, aliás, na ponta dos dedos, algo lhe palpitava por dentro e sentia-o nos dedos que terminavam as mãos vazias. Houve um enrugar da testa que alguém se teria apercebido se a observasse. Depois o coração sentiu-o nos joelhos, numa espécie de formigueira ritmado que parecia um coração, algum coração perdido de si, seguiu-se o pescoço e o colo, e foi então que instintivamente levou a mão ao coração, para lhe tomar o pulso, e não, não estava lá, não sentia nada. O coração havia desaparecido, não batia no sítio, espalhou-se pelo corpo, perdeu-se. Sentiu chegar-lhe uma ansiedade sem razão, como um pressentimento de algo que estaria para chegar sem ser anunciado, ou algo essencial que fugiu sem razão conhecida. Só se lembrava de se sentir assim de todas as vezes que àquela mesma hora fazia tempo para esperar pelo amor que não seria nunca da sua vida, mas que foi. Aí ainda tinha o coração no sítio, agora parecia ter desaparecido e sentia-o apenas ao longe, espalhado pelo corpo, a palpitar à ressonância de um coração que ela não trazia no peito. Abriu os olhos, viu à sua frente, muito parado, um pequeno pássaro a olhar para ela. Ficaram assim não sabem quanto tempo, num instante que parou o relógio, a perscrutarem-se pelo olhar, até que ele bateu asas rumo ao anoitecer que já se instalava. Deixou de sentir aquela ansiedade, o coração a palpitar onde lhe faltava colada outra pele que lhe levou o coração do peito havia muito tempo... respira fundo, pesado, e de entre os lábios houve um sussurro que ficou por ouvir "Existe melhor quem não pensa, vive melhor quem não sente. Viver é aprender a bater asas."

segunda-feira, 26 de junho de 2017


Recado ao próximo amor.
Nós fazemos - fabrico próprio, receita caseira.
Cumprimentos,
A Gerência

sábado, 24 de junho de 2017




... vamos lá pescar o São João no sítio das raízes dos ossos... dos meus ossos de ser.

[foto @ryanmuirhead]

As palavras que existem 
não chegam para te amar em palavras.
Se inventasse outras tantas
ficaria ainda outro tanto a faltar.

(...e eu que já não te amo... mas as palavras ainda não sabem, 
amam-te como dantes, soçobram agora, como dantes o meu amor)


[foto @bird.ee]

Talvez não nos faltar ninguém na vida seja só não acreditar em ninguém, não acreditar que há vida que rompe a pele de fora para dentro. 
Como é que se pode viver uma vida que não se sabe se existe? 
Do lado de fora da pele não se sabe nada, só se sabe o que se sente por dentro da nossa pele. Só o que é nosso tem existência real. Só o que é nosso é que podemos saber, do resto só desconfiar. E convém desconfiar bastante. 

sexta-feira, 23 de junho de 2017


... o sol atrás das grades.
É perigoso soltá-lo.
Ou soltarmo-nos.
Melhor tomá-lo as fatias
Ou sermos inteiros.
[a ilustração perfeita... e até me faz rir, sempre se aproveita alguma coisa..]

É engraçado quando num dia já esgotado de todos os tipos de pachorra de que já sou pouco munida de nascença, alguém que é um fornecedor, nos diz "ah pois mas pelo que vejo a empresa da senhora precisa muito mais de nós que nós da sua empresa"... gosto muito, acho até inteligente dizer isto aos clientes... isso e depois de muito andar à roda e de me cansar em conversas redondas, se sair "se a senhora tem tempo para escrever cartas destas..." e então uma pessoa rematar " pois tenho, não tenho e para conversas redondas como esta, já perdi tempo a escrever a carta, não vou perder mais ao telefone com o senhor, por isso se quiser responder responde, se não quiser não responde, nós actuaremos em conformidade. Muito boa tarde." e pronto, isto tudo para dizer que tenho de voltar a tomar o café com açúcar... irra!! Ou eu ando muito amarga ou o mundo anda muito estúpido, ou as duas coisas... é capaz de ser as duas coisas e em vice-versa também... para mal dos meus pecados.

e tu,
sempre tu
num prodígio de luz
a enlouquecer-me
as sombras

gil t. sousa


... e eu que pertenço às sombras,
à escuridão onde sempre me escondeste
e me encontravas.
e nesse encontro nunca dei por falta de luz,
nunca dei pelas sombras.
aninhava-me na luz do teu olhar,
que era a minha luz e o meu calor,
era o meu caminho e a minha casa,
mas era de sombras que tudo era feito,
e de ilusões
à sombra do meu amor que era poeira
duma vida maior que eu,
duma vida que não era minha





terça-feira, 20 de junho de 2017

[foto @keslertran]

"Caí no silêncio há vários dias. Quero falar-te das horas incandescentes que antecedem a noite e não sei como fazê-lo. Às vezes penso que vou encontrar-te na rua mais improvável, que nos sentamos diante do rio e ficamos a trocar pedaços de coisas subitamente importantes: a tua solidão, por exemplo. Mas depois, virando a esquina, todas as esquinas de todos os dias, esperam-me apenas as aves que ninguém sabe de onde partiram."

Vasco Gato

...ou que destino têm.
como eu, aqui... aqui ou em qualquer lado. a todos lugares pertenço e de nenhum sou pertença - ou assim o sinto nestes dias. coisa estranha essa, de querer falar e não saber de quê, não saber por quê, só esta aflição asfixiada na vontade de algo que me tire o peso de dentro - não de cima, de dentro, é o por dentro que me pesa e me encolhe, encarquilha o respirar -  este peso que não sei onde se esconde ou porquê, mas cresce e esmaga a esperança a cada esquina que não valerá a pena dobrar,  a cada palavra que se cala sem saber o que cala, a cada suspiro que não expira cansaços de alma... a minha solidão, por exemplo. essa ave que não sabe para onde voar ou donde é. das penas que a cobrem voaram as raízes, o ninho é onde se quer chegar, e quanto mais se quer chegar mais estranhos são todos os sítios onde paramos pelo caminho. nunca pertencemos na esperança de um dia pertencermos a um sítio que chamaremos nosso, que seremos nós. sítio, não lugar. lugar ocupa-se, vaga-se e reocupa-se, sítio é onde estará sempre parte de nós, onde somos ou fomos, mas permanece numa geografia temporal que não se move em nós, de nós. fica. como este sítio onde este peso me converge e chama a minha solidão de sua.

sábado, 17 de junho de 2017


[@paradoxos, poemografias de Heduardo Kiesse]


"Não ponhas palavras na minha boca, põe beijos"

... a não ser que beijo seja só uma palavra na boca.
A minha boca não é para qualquer beijo, 
nem para todas as palavras.
Há beijos que não me cabem nas palavras 
e beijos que me soçobram 
na alma do que não se diz,
e que disse nos beijos que não dei.


sexta-feira, 16 de junho de 2017

[foto @s_fantine]

Às vezes dou por mim a escrever sobre as coisas como se ainda fossem reais, como se algumas vez tivessem sido, como se não houvesse recantos da memória que se inventam e reinventam sem nunca terem nascido na curva dum dia que se viveu, que foi. É (também) nessas alturas que as palavras desprezam a realidade e correm soltas para onde querem, mesmo onde nunca estiveram. Dou por mim a pairar sobre pensamentos e rastos de memórias, donde avisto algumas histórias como tendo servido ao menos para isso: para encantar as palavras e ser-lhes musa e mote, ponto de partida onde nunca se chega ou chegou, mas sempre algo que me vai acompanhando. Mesmo que eu me pareça cada vez mais distante, estou ainda terrivelmente perto, como um quadro por que passamos todos os dias... nuns paramos e admiramos, noutros quase o veneramos, noutros a pressa e o resto da vida asfixia qualquer encantamento ou contemplação. Qualquer que seja o dia o quadro está perto, mas tão longe que nunca faremos parte, nunca seremos ou fomos o quadro, mesmo que esteja na nossa parede... Tão perto que se alcança todos os pormenores, tão longe que as mãos não podem tocar. Talvez tudo isto seja parecido. Estou longe, mas, ao mesmo tempo, é esse o único encantamento interior que bebo, que me nutre e me afoga, em que me refugio e em que me perco, que me toca sem me aflorar. Reinvento-me a cada dia em palavras filhas de memórias que não inventei (tenho a certeza que não) mas que, aparentemente, não chegaram a ser reais. Um grande amor, forte, à prova de tempo e de todas as provas, é feito e vivido a dois. Eu sempre o vivi sozinha, sei-o agora... então quanto de realidade tem esse sonho? Não sei, mas vou-o escrevendo como sinto que o vivi, indiferente a qualquer outra realidade, ou talvez, à realidade... terá sido só uma realidade sonhada, ou um sonho mal vivido que corrijo escrevendo, o que vivendo, não chegou a realidade... mesmo que o tenha saboreado... e haverá diferença? Qual será a verdadeira diferença entre o realmente sentido e o vivido que nos submerge a pele num sonho que se sente?

quinta-feira, 15 de junho de 2017



... que maravilha de dia e ainda melhor fim de tarde, já com uma brisa a correr-nos nos cabelos, e a luz a deitar-se mansa em cada coisa. Uma caminhada como devia fazer todos os dias... isso sim fazia-me bem a tudo. E num muro do caminho: " Loucos como eu, vivem pouco mas vivem como querem"... Não sou louca ao ponto de viver como quero, mas não sou sã o suficiente para me contentar com o que não gosto...isso é que é viver muito poucochinho, diria eu... mas cada doido com a sua mania, é o que é...


quarta-feira, 14 de junho de 2017

As pessoas que me dizem para deixa de fumar não parecem fazer ideia da companhia que um cigarro faz ao deixar-se fumar. O entreter-nos as mãos faz com que a cabeça se desocupe para vaguear sem parecermos tão perdidos, parece que estamos a fazer alguma coisa, alguma coisa que justifica a inactividade, a deambulação pelos vazios vários: estamos a fumar um cigarro. Um cigarro é também, muitas vezes, um bom aliado nas desculpas que queremos inventar " é só fumar mais um cigarro e vamos embora", ou então a justificação para uma pausa duma coisa que não nos está a prender inteiros "vou só fumar um cigarro e já volto", outras vezes é uma oportunidade ao convite " queres ir fumar um cigarro lá fora?", outras vezes é só o meu ritual de encerramento do dia, o último cigarro do dia. As pessoas que me dizem para deixar de fumar não percebem que tudo isto me faz falta, e que agora até é desculpa para a meio caminho de casa, num sítio que com dias bons me dá uma sensação calma e onde não tenho más recordações, venho sentir o por do sol onde dantes vinha muitas vezes trespassar o dia pelo anoitecer e onde cobrava só mais um cigarro antes de ir. Como agora, vou só fumar um cigarro antes de ir. Só não o cobro a ninguém.

O que eu gosto de ouvir isto... 
Ao fim da tarde dá o mood certo e amolece o cansaço, 
de manhã faz-nos sonhar pela noite e adocica a pele.
Adoro a sensação que me transmite...

Is it alright to breathe now?
Cause you keep taking my breath away 
with all these things you do and say
and I just wanted to ask
Is it alright to breathe now?
Is it alright for me to breathe now? 
Cause I can't hold it back much longer... 
And holding back the thought 
that you might actually be my eternity... 
I feel I'm asking myself really 
after all these things that we've been through
 and all the times you've hurt me 
and all the times I've hated you 
could it really be?
the thought of it as gotten me dizzy

terça-feira, 13 de junho de 2017



[foto de Patrice Forsans]


e a minha mão
desceu o teu rosto
num movimento
de coisa que parte

e tu disseste:
porque é que as mãos
dos que amámos
nos acenam vazias?

mas não
na minha mão
havia uma lágrima enorme
e azul
que tu
já não sabias ver


gil t. sousa


[foram tantas as vezes que a minha mão desceu o teu rosto, tantas quantas as vezes que o teu rosto partiu, indiferente à minha mão que chorava, vazia.]

segunda-feira, 12 de junho de 2017


... e se o meu mal não tiver nome? 
...se me naufragar em terra e de pé seco?
como peço socorro? há socorro?
...e se o meu mal for um náufrago da minha vida de que não me posso socorrer, ainda que tenha nome? 
...ainda que atravesse mares a nado por nada, 
... ainda que por mim tenha passado sem que nunca tenha por mim dado um passo...
...se nunca o chamar tenha sido sempre um instituto da minha vida,
 sobre que assento a ruína dos pilares que nada seguram mas tudo suportam, 
quem chamo?
Quem chamo se as janelas estão fechadas e as portas trancadas com a voz por dentro, 
e eu trago disfarçado nos pés um passeio alegre?





O resumo muito resumido do fim‑de‑semana.
... fartei-me de andar, apanhar sol, rir, dizer disparates, ouvir disparates de vários géneros (cheguei à conclusão que agora deve ser moda os desconhecidos pedirem beijos e acharem que se podem dar bem... e ainda me ri para dentro com isso)
... perdemos o primeiro concerto, tive bom feitio com'ócaraças,  dancei e tive (outra vez) uma boa desculpa para comprar um livro. 
... ainda pus o pé na areia e molhei os dedinhos, esplanei sem pressas, tal como comi sem horas marcadas... tudo ao sabor do momento, o que se viu viu-se o que não se viu ficou para ver doutra vez, mas tudo se fez sem correria, programa ou horário, só na espontaneidade e vontade do momento... e isso é coisa que me descansa o espírito, solta-me a disposição. 
...Tirámos fotografias giras, conversámos tontices e debatemos coisas que surgiam na mistura de tudo, mandaram-me calar porque alguém estava farta de ouvir o debate... 
...Gozaram comigo, recebi um telefonema a dizer que agora dou nós cegos a amigos dos meus amigos... lá me obrigaram a contar a história que não tem história... o que deu nos conselhos do costume: não podes fechar a porta, conhecer melhor alguém não faz mal nenhum, podem-te surpreender, etc etc... nem vale a pena tentar dizer que o moço não é moço para mim ou eu para ele. Cheguei. Acharam-me morena e eu achei-me bem disposta. 
E é isto. Devia fazer isto mais vezes para espairecer a cabeça e soltar o riso ao sol. Faz-me bem, afasta-me a cabeça e a alma do que quero bem distante do meu presente e do meu por dentro. Não tivesse eu de fazer contas tantas vezes, e havendo boa companhia que alinhasse, e eu arrumava o tempo nos lugares certos, arranjava espaço para o futuro e encontrava no tempo um recanto para o coração sarar.

sexta-feira, 9 de junho de 2017






Adoro a primeira destas músicas, mas detesto ouvi-la - daqueles paradoxos que a vida nos tece e ironiza. 
Há um anúncio de televisão que tem a música e eu sempre que a ouvia alternava entre um sorriso ácido nos lábios e o encolher do coração ao tamanho duma ervilha. Nenhuma das duas eu conseguia evitar, era uma reacção, um instinto, alguma coisa me ligava um botão que dava uma ou outra coisa. O que nunca me deixava era indiferente, a música puxava os cordelinhos da memória e eu respondia qual marioneta nas mãos duma qualquer crueldade requintada auto-inflingida e inconsciente... ressoam-me coisas... foi um concerto bom, muito bom, intimista, a que não fui nem fiz falta, como em tudo aliás. Quando pude ir ver e ouvir também não fui, iria estar demasiado presente onde nunca estive ou fui querida, recusei-me a ir e a bilheteira esgotar deu-me a desculpa ideal a quem perguntou se não queria ir... Não fui. Depois esta coincidência de passar a ouvir a música na publicidade, e eu ter esta mania estúpida de achar que o que custa recordar deve ser recordado à exaustão, até vencermos a dor pelo cansaço ou pela teimosia, recordar até não haver mais o que recordar ou a recordação de tanto escarafunchar a ferida ela simplesmente deixar de doer. Comprei há algum tempo o CD na net, e agora todos os dias o vou ouvindo a caminho do trabalho. Estas são as músicas que mais gosto. E aquela - a Nemesis -, talvez o nome tenha tudo a ver, talvez um dia possa haver uma justiça qualquer que equilibra tudo, que vinga tudo, em que todo o mal se transformará em bem e toda a dor e mágoa em felicidades que as apagarão, ou as tornarão apenas indiferentes à recordação. Essa será sempre a melhor vingança: o não precisarmos dela.

quinta-feira, 8 de junho de 2017


O tempo corre-me tão depressa como a este homem aqui sentado, sem saber que o tempo passa enquanto segura uma senha na mão à espera que chegue a sua vez (esperamos todos). Só o esperar já traz tempo dentro, mas ele não sente porque o tempo só conta se trouxer coisas dentro para guardar nos bolsos de dentro da alma. Quando dos dias nada resta para guardar não se sabem contá-los: pode ser uma semana, um ano, uma década (o que aconteceu no último ano?? não faço ideia...). Não há senha que nos dê vez. 
Eu com a senha numa mão, escrevo com a outra, mas espero enquanto entretenho as letras do tempo. Espero a minha vez.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

...stá!! 
ehehehhe
(as coisas de que se lembram bbbalhamedeusss!!)

[foto @pickledgoose]

Ando com a cabeça ocupada, parece que me fujo, que não me quero pensar. Tenho a sensação estranha de estar a viver a minha vida pelo lado de fora, quase uma espectadora, que vai desempenhando, mecanicamente e sem alma, sem por dentro, o papel a que assiste. Como se um qualquer botão, que liga o por dentro ao por fora, tivesse sido desligado. Como se me tivessem despido da minha pele.
Se sempre fui metade razão e números e outra metade alma e palavras - com todo o caos que esse equilíbrio desequilibrado em metades que pouco se tocam, e às vezes se repelem, traz -, agora há metade de mim que parece adormecida. O fiel da balança não hesita, como se tivesse sido esmagado pelo vazio duma metade. Digo adormecida porque espero que não morta, espero sem certezas, como todas as esperas se vestem.
Tenho pouco para dizer, e quero dizer pouco ou nada, mas falta-me essa magia das palavras em que se paira, mergulhando em mim como mãos que me vão buscar ao fundo da inexistência, ou desta existência regular, repetida e mecânica. Às vezes parece que estou longe de tudo - não distante, mas longe - como se a luz do dia me iluminasse, mas a visse apenas percorrendo um longo túnel, como se a visse cravar-se quente na pele, sem que a sinta por dentro. Entedio-me com quase tudo, não me apetece quase nada. Vou fazendo a manutenção dos alicerces que mantém a vida como quem respira sem saber, sem querer. Mergulho a atenção nas coisas como se o oxigénio me asfixiasse, e só submergindo pudesse continuar a respirar sem a dor de saber que não sinto o ar, que já não sinto. Às vezes, sem saber como ou porquê, num momento qualquer que suspende o tempo, emerjo e respiro fundo o peito cheio de ar, saem-me palavras sob pressão como quem se desenrodilha por jacto. É quase um instante, e logo me afundo outra vez. Esqueço-me que sequer precisei de ar, volto à mesmice sem sentido, onde o mundo é líquido e a pele se dissolve - nunca chego a perceber porque precisei de ar. Apago-me outra vez.
Ainda agora, quase me obriguei a abrir isto, a começar uma frase que sei que se a começo algo sempre se desenovela. A primeira frase é só a ponta do fio que puxa o resto. Não sei porque me obrigo, talvez para me lembrar que tenho de querer respirar e sentir, que não me quero deixar morrer adormecida, queria adormecer só quando morta, que não me quero só metade de mim, mesmo que às vezes ache que bastaria, tanto como o nada que me chegam as duas - afinal, por viver fica exactamente o mesmo... Tudo um esforço inglório roubado ao sono, tentando não deixar adormecer em mim a fina réstia de vida que me trazem as palavras que desenterro da alma e espalho como quem desenha a sua pele. Estes bocadinhos de noite são os únicos onde procuro estar comigo, onde as palavras cosem o por fora ao por dentro e me fazem pele, onde sou fronteira de mim mesma e me contenho, extravasando-me.

terça-feira, 6 de junho de 2017

[foto @_georgemayer]


Quando os olhos pousam as mãos virgens 

no seu primeiro arco-íris de vida 

acordam cores que nunca sentimos.



(abraçar com as mãos o rosto de quem se ama é uma viagem assim, 
poder enche-lo de beijos é o tesouro no fim do arco-íris - aquele que dizem que não existe.)

... há dias em que acredito que sim, em que respiro recomeços sem regressos, 
que talvez venha a ter tudo, outra vez, mas doutra forma,
 diferente mas boa e com outro fim... ou melhor ainda sem fim.
...nos outros acredito que sou só parva nos dias em que acredito.
...entre uns e outros vou sendo eu todos os dias, entre mim e eu.


não me fales mais
dessa solidão de papel

eu ainda tenho a sede das oliveiras
a paciente sede
dos rios que nunca chegam
dos rios avistados
que não se podem tocar

eu ainda tenho a dor da terra queimada
a fortíssima dor
das chuvas que não voltam
das raízes que morrem
sem poder gritar

o teu nada
é só mais um perfume!

e eu
eu tenho sangue na voz
tenho no peito o grito do lobo
a imensa tristeza de uma lua
que o céu não quis

gil t. sousa

[a minha solidão não é de papel, como eu não sou de papel, sou de pele aquecida de sangue quente, que esquenta e ferve, esse sangue que me mata e asfixia porque corre e corre por ordem do coração - esse lobo solitário que em noites de luar uíva a tristeza de que não se desprende, do sangue que esquenta, ferve, mas não estanca. quando estancar morreste. morreste-me, e não sei se me morrerei também, não sei o que de mim sobreviverá. o que restará sem ponta de sangue, de calor, de luar? Eu não serei de certeza, será alguém que te acena um cumprimento, mas não te reconhece. Um fantasma apenas. Uma lua de papel.]

(e tornou-se verdade o que escrevi numa outra vida " alguém que te acena um cumprimento, mas não te reconhece". do papel da lua não sei, parece-me apenas um papagaio da lua que me banhava corpo e alma de vida, lembra-me sempre certos fantasmas que se esqueceram de crescer)