sexta-feira, 15 de setembro de 2017



Encontrava-se quando a procurava para fugir de si mesmo. 
Desse vazio fez o seu sítio. 
Estimou-o como a um lar, decorou-o como as flores embelezam o cabelo. 
Do vazio fez felicidade que não se procura e de que não se foge. 
Nunca mais o viu.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Quando a pintarolas está noutra zona da casa
 e não vem quando a chamo, fazendo-se de surda,
 e eu estou preguiçosa, abro a porta do frigorífico e ela aparece logo. 
... O som do frigorífico fala mais alto que eu, só pode. 
Ou a surdez é selectiva... ou ela tem a mania que tem vontades, sei lá...


Há alguém no mundo, não sei onde,
ou antes sei,
mas prefiro esquecê-lo,
que me despe só com um olhar
e me sonha vestida de princesa.
Alguém com quem não posso resistir
a arder debaixo do duche.
Alguém com quem se torna inevitável
suar dentro de um iglo.

Amalia Bautista

...alguém com quem se partilhar uma rede de emoções sem rede, 
alguém com quem o tempo não se define nem se conta, parece que nem passa, 
alguém que me veste de desejo com o olhar e me despe de pudor com a boca, 
alguém que me chama baixinho, em sussurros de pescoço arrepiado, 
alguém que me chama em sonhos quando não estou, estando sempre, sendo-me.
alguém que me chama princesa mas me trata como mulher. 
Inteira. Sua.
...alguém que sei, que sabe, mas que prefiro esquecer.

(gosto tanto destas redes, e dos sonhos que embalam em palavras guardadas)

terça-feira, 12 de setembro de 2017


E depois de, como fotógrafa oficiosa do fim de semana, descarregar as fotos e me rir um bocado, escolho esta para o resumir - uma das últimas que tirámos (que se tirou sozinha, na verdade) onde estamos todas na palhaçada -, e volto à minha varanda, ao céu mais pequeno e recortado de telhados, à manta que me enrola e ao mesmo ritual do último cigarro. A época de férias, de verão, de praia, está a acabar ou poderá já ter acabado.... No domingo ainda deu para pôr o pé na areia e experimentar o Atlântico só um bocadinho, o regresso à terra da normalidade (pouco normal) fez-se aos bocadinhos, saltitando praias, mas já com menos conversa, o cansaço já nos amassava o corpo e a perspectiva de mais uma semana "normal" afundava-nos quase todas as palavras leves e risonhas...
Cheguei a casa e a bicha, tão doida de contente, lá me deu mais uma unhada na perna... nunca ninguém ficou tão genuinamente feliz de me ver, a cada dia é como se chegasse da guerra e a minha sobrevivência fosse uma benção, mas por causa das coisas resolveu comer a sandes que trazia no saco de praia (desembrulhou o papel e tudo... uma limpeza), mal me apanhou desprevenida e distraída... o raio da bicha é matreira como tudo, ralhei-lhe e ela aninhou-se de olhos baixos, com a perfeita noção que tinha feito asneira, mas que a sandocha ganhava largamente ao meu discurso e lhe aconchegava agradavelmente a barriga ...  mas fez aqueles olhinhos meigos e indefesos, e lá me levou na cantiga e em mais umas festinhas... danada da criatura, qualquer dia é outra que faz de mim o quer (desde que eu também queira...)
Agora estou assim, no meio de instantes passados, sem vontade de um amanhã de trabalho que (ainda) não me apetece... ficava aqui esparramada nas paletes, debaixo do calor da manta que é apenas meu, e deixava-me anoitecer assim. Só deveria acordar quando me amanhecesse. Com a vida em rotina chegam-me outras coisas que quero afastar. Os sítios estão impregnados de coisas a que dificilmente se consegue fugir, memórias pousadas que o compasso do coração não deixa assentar. Mas enquanto há forças renovadas vai-se tentando e, às vezes até, conseguindo, o pior é depois. Mas o depois pensa-se depois. Agora tenho de pensar em sacudir a preguiça e levantar-me daqui... e apetece-me deixar isso para depois... falta o sol nascer-me na vontade.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017


...será? Será que pode? 
Outra vez mas de outra maneira?...
Era bom. Mas de volta não se tem nada, cada segundo é irrepetivel - já dizia kundera na sua insustentável leveza, que cada segundo tem o peso da eternidade... e é verdade. A boa notícia é que enquanto respirarmos estão sempre a nascer novos segundos... pela primeira vez.

Bom dia

domingo, 10 de setembro de 2017




... receitas caseiras... ou só para embrulho... 
porque há doces sem receita possível, 
o irrepetível não tem receita.
Já a última parece-me bem, principalmente se o caminho for acompanhado de Portishead (que apelidaram de meu ritmo e eu tendo a concordar, a sonoridade tem muito a ver comigo). É viver a vida, sem receita e dispensando papel de embrulho, mas parece-me que isto de se ser feliz não deve ser só fazer bolos (senão estou tramada, diga-se...), digo eu.
Bom dia!




sábado, 9 de setembro de 2017


...acordar já com olho na preguiça do alpendre. 
... tomar o pequeno almoço e comer com os olhos. Pensar em um dia mudar de vida e lambuzar-me assim todos os dias, sem cerimónias, sem tempo regateado, sem ânsia por horizontes largos. Talvez um dia, talvez qualquer dia, talvez num onde qualquer, um lugar que se torne o meu sítio. E esta palavra continua a balancear-me por trás do olhar, a dançar-me entre pensamentos, fintando instantes vazios, à procura da medida certa da sua definição. Sítio, o lugar certo para alguma coisa ou alguém, não tem coordenadas, porque não é das geografias mas dos afectos, pode ser gente, pode ser parentesco de coração ou de sangue, pode ser a história que vestimos de um lugar que se torna parte de nós, pode ser qualquer coisa onde nos sintamos pertencer, onde nos sintamos em casa, em que percebemos sentir a nossa inteireza. Só nos apercebemos da importância da inteireza quando nos vimos partidos sem saber o que (re)fazer dos cacos. Talvez o nosso sítio seja onde formos capazes de curar e renascer. Esquecer quem nos despedaçou e lembrar só que podemos quebrar. Preservarmo-nos, conservando o olhar, de dentro e de fora, em sítios onde sentimos beleza, agora e nos agoras que já foram.


... except in the morning.... then it will happen naturally...
(... a parte do enfurecer, claro, e a outra também, mas para tomar banho...então se for sábado a estas horas ui ui)
Bom dia!


A lua estava esplendorosa no caminho, 
sentia-se o seu olhar sem nunca levantar os olhos. 
Como que uma presença constante e brilhante em todas as coisas, 
forte e sedutora, que em tudo se insinua sem se mostrar. 
Duma sensualidade suave sem ser branda.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Não precisas de ver o caminho, o teu caminho sou eu... 'tás a olhar p'ra onde pahhh??
[...se nos estamparmos a culpa é tua, claro :))))) ]

... é mesmo isto...
(... e só me encontra quem vai comigo - espero eu...  ;))

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

[foto @davidbenolielphotography]

O amor comeu a minha paz e a minha guerra,
o meu dia e a minha noite, o meu inverno e o meu verão.
Comeu o meu silêncio,
a minha dor de cabeça,o meu medo da morte.


João Cabral de Melo Neto


[Depois de se sobreviver a um amor que morreu, percebemos que morreu também a diferença do dia para a noite, que se resolve num interruptor, que a paz e a guerra é uma diferença de ruídos, o inverno difere do verão só em camadas para despir, o silêncio esvazia-se e a cabeça, como o resto, não se sente. Percebemos que o amor levou tudo, até a morte.
Depois de nos comerem a vida e o depois roer os ossos, já não se sente a morte.]

quarta-feira, 6 de setembro de 2017


"Lembro-me bem do filme, mas não me lembro daquele limão ali..."

 - é do carteiro não é????

 - não. esse só tocava duas vezes... Ou estava a falar do limão ser do carteiro? Isso já não sei, não conheço nenhum carteiro com limões... eheheh

- é para a limonada depois, sede sabe?

- pois deve ser... não tinha pensado nisso...

[há sentidos de humor que encaixam tão perfeitamente em nós, que às vezes tocam-nos - não como o carteiro, sempre duas vezes, seria uma sorte serem tão poucas -, à porta da existência sobrevivente, vezes sem conta. 
Volta-se sempre aos sítios onde fomos felizes, mesmo que não queiramos, mesmo que não saiamos do lugar, amarrados que estamos ao que nos falta (sem perceber que a falta é uma coisa nossa, que só temos se a aceitarmos assim).]

... as noites de varanda e janela aberta não durarão muito mais. Noites amenas em que a brisa lava o cansaço dos corpos, e as estrelas desfazem os nós dos dias. Venham as lareiras crepitantes e o fogo que arde em sombras lânguidas que dançam nas paredes nuas. 
As noites boas só têm de despir o frio da alma que chega a casa.

terça-feira, 5 de setembro de 2017


[ foto @_georgemayer]

despimo-nos inteiros 
quando entregamos as nossas sombras 
à luz de alguém

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Reconheci aquele gesto... Numa fila interminável de trânsito a caminho do mar, o retrovisor trouxe-me à flor da pele o passado que não sei se existiu. 
Reconheci aquele gesto que vi acontecer dentro do carro atrás do meu, repetiram-mo tantas vezes, repeti-o tantas e tão menos do que gostaria. Repeti-o na memória, ali, sem tempo conjugado, entre um nada e outro, como quem cai no abismo do tudo. Reconheci naquele gesto um carinho, uma festa na cara do outro, que encontra aconchego entre o ombro e a face, moldando-se como quem quer guardar o carinho e devolvê-lo no beijo que deixa naquela mão. Enterneceu-me... a doçura, o saber dar e receber, a naturalidade de tudo - sempre estes pequenos nadas me deixaram o por dentro em turbilhão, no meio de tudo que me faz o todo. Repeti aquele gesto tantas vezes e ainda tão poucas, num lado ou outro da mão, num lado ou outro do beijo... Dei por mim a perguntar se também estes gestos, estes nadas, pedaços inteiros de tudo, se também estes não resistirão à hipocrisia... se ele mais logo vai dizer que não a suporta, que já não a pode ouvir, que até os barulhos que faz a dormir o irritam, ou se já se empurraram alguma vez no calor da raiva, se a acha ridícula quando ela se acha sensual, se se odeiam a maior parte do tempo longe dos olhos do mundo, fechando entre quatro paredes, aquilo de que as paredes os deveriam proteger. Será? Será que não há gestos resistentes à hipocrisia? À prova de hipocrisia, que só surgem genuinamente doces, ternos, naturais, sentidos, aconchegados nos momentos em que sentimos perfeitamente o avesso da pele quando paramos para recordá-los. Na altura não os pensamos, desenrolam-se ao sabor do que se sente, só - pensá-los é já o começo duma hipocrisia, duma intenção de razão calculada. 
Reconheci o gesto, seria o mesmo?
... e não há óculos para isto!!
... há quem, por isso, prefira ir apalpando o terreno... 
e vai daí, há desculpas piores  ;)
(para quem precisa de desculpas, isto é...)

Bom dia!

domingo, 3 de setembro de 2017


... de vez em quando o meu sol põe-se a norte. E a luz, a luz não é tão mansa na despedida, mas parece saber-me igualmente doce. Talvez esta doçura menos mansa, duma graça menos delicada, tenha um encanto doutra força. E eu gosto. E gosto de ouvir as conversas com pronúncia, de muitas expressões, do assobio de alguém para chamar o homem dos chapéus porque ouviu a conversa de quem não sabia assobiar alto e bom som, das pessoas sempre cheias de coração na boca, e normalmente com o coração a bater no sítio certo. 
Às vezes o sol põe-se a norte. E às vezes é o sítio certo.

sábado, 2 de setembro de 2017



'Tá bem. Combinado!
 É só questão de te arranjar uma fotografia e pores na mesinha de cabeceira...
ihihih ;))


Bom dia!!

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

[foto @stevemccurryofficial]

A casa inteira deu conta, minha filha chegou, e de repente a casa deixou de ter cantos. O silêncio subiu paredes ou rastejou pelas frestas, sumiu. Suponho só o voltar a avistar lá para a noite, se o o meu sono resistir ao dela e a tanto... já tinha saudades... (mesmo que goste e precise do meu tempo sozinha, dos meus cantos e do silêncio)